História Apenas um sonho - Capítulo 141


Escrita por: ~

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Categorias Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland), Johnny Depp, Mia Wasikowska
Personagens Alice Kingsley, Chapeleiro Maluco, Coelho Branco, Dormidonga (Mallymkun), Gato de Cheshire (Gato Risonho), Lebre de Março, Personagens Originais, Rainha Branca, Tweedle-Dee, Tweedle-Dum, Valete de Copas
Tags Alice, Amor, Drama, Época, Mistério, Morte, País Das Maravilhas, Reis, Romance, Wonderland
Visualizações 61
Palavras 7.911
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Fantasia, Magia, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


PRECISEI DIVIDIR DE NOVO POR QUE DEU MAIS DE NOVE MIL PALAVRAS
O que está em itálico são trechos retirados de outros capítulos!

Capítulo 141 - Há um amor mais forte? - Parte I


Fanfic / Fanfiction Apenas um sonho - Capítulo 141 - Há um amor mais forte? - Parte I

 Tarrant sorriu, era seu doce sorriso.  

Seu último sorriso que permaneceu até acariciar o meu rosto. - Eu te amo, querida. E eu s-sempre vou amá-la. - Sorri, sentindo o toque de suas mãos. Me apoiei em seu pescoço e me preparei para beijar seus lábios. 

Tarrant se inclinava devagar, concentrado no beijo que estaria prestes a acontecer.  

Fechava meus olhos lentamente...  

Quando entre as árvores do bosque, surgiu um cavaleiro com o seu cavalo.  

Não houve tempo para que eu gritasse.  

Apenas assisti, como estivesse na primeira fileira num espetáculo de ópera.  

A flecha havia sido disparada habilidosamente de suas mãos. Ela se curvou um pouco, sem perder sua força e mira.  

Acertou em Tarrant, atravessando o lugar de seu coração. O sangue espirrou por meu vestido azul, e escorreu pela madeira fina da arma que fincou no gramado.  

Ele morreu e nem tivemos tempo para nosso último beijo.  

Engoli. - Tarrant? - Minhas mãos tremiam, eu sei que não conseguiria tocá-lo. Olhei disfarçadamente para trás, Valentina se entretinha com uma borboleta que insistia em voar ao seu redor. - Por favor... - Me aproximei. - Me diga que ainda está vivo, q-que... Está agonizando, mas que ainda pode me ouvir. 

''Papai? '' - Valentina vinha correndo. - Papai!  

- Não... Não... - Isso não estava acontecendo! - Fique onde está! - Me virei. - Ouviu?! Não se aproxime ou ficará de castigo por vinte anos! - A menina parou diante de minha ameaça e do choque que presenciava: Seu pai com uma flecha atravessada em seu corpo.  

Enquanto eu olhava para trás, pude ver alguém saindo do Castelo.  

''Senhorita Valentina! '' - Chamava McTwisp, também horrorizado com aquela cena. O Coelho saltitava em direção a criança, que se recusava a sair do lugar, ou deixar seu querido pai naquela situação. - ''Vamos, vamos entrar... Posso pedir que lhe faça um chocolate quente...''  

Me virei para frente, Valentina era meu último problema.  

Olhei em volta para encontrar Stayne, mas é claro que ele já não estava por perto.  

-Certo... - Respirei e expirei. Eu me lembrava da minha agonia no velório de meu pai, e o como era terrível ver um corpo sem vida, mesmo que descansando num caixão.  

Mas no caso de  Tarrant... nem mesmo havia caído no chão. O seu corpo se arrastava pelo cabo da flecha, que tinha sua ponta fincada no gramado. 

Havia tanto sangue... E eu sei que ele não desejaria que o seu sangue sujasse sua roupa. 

Hesitei, mas era preciso segurá-lo.  

Toquei o seu rosto pálido.  

Seus olhos estavam abertos e suas íris eram pretas, ele havia morrido com os lábios meio separados.   

Fiz uma careta enquanto o tocava, devagar... Alisei os seus cabelos. - Você... Está morto mesmo. Será q-que isso... Será que isso doeu? E-eu não queria que sentisse dor. - O sangue sujava tudo. - O que vou fazer? Como vou tirar você? - Perguntava ainda esperando que ele me respondesse.  

Ele estava inclinado.  

Afastei minhas mãos de seu corpo. 

E estudei a melhor forma de livrá-lo da arma que lhe tirou a vida. - Está bem... - Fechei os olhos. - Eu consigo fazer isso. - Me preparei. - M-mas... Dói em mim, dói em toda a parte...  

Empurrei-o para o chão, seu corpo deslizou pelo cabo. Segurei um dos seus braços para que não caísse com muita força. Apenas o deitei em meus braços quando o virei para mim.  Toquei seus cabelos sem cor e observei o seu rosto tranquilo. - É a primeira vez que vejo seus olhos castanhos. - Consegui fôlego para falar. - Oh... - Fitei o céu escurecido. - Agora... Onde você estiver, poderia entregar sua lágrima? Eu sei que é sua, só pode ser sua. - Balancei a cabeça. - Eu sempre tive esse palpite, e apesar de... - Engoli. - Estar morto, você disse que sempre vai me amar. - Alisei sua testa. Analisando seus olhos redondos, focados em mim. Eles perdiam o brilho, se tornavam mais secos a cada segundo. - Não me faça esperar muito. - Olhei o céu. - É como está descrito no Oráculo. É sim...  

E dei a volta em seu corpo.  

Olhei para o Castelo.  

Agora eu estava de frente para Marmoreal e percebi alguns súditos assistindo aquela desgraça pelo portão principal.  

O dia em que, finalmente, o amante da Rainha foi morto.  

Ou o dia em que aquele louco foi morto... 

Ou, quem sabe, o dia em que o inimigo do Rei finalmente teve o que merecia. 

Muitos comemoravam, eu sei que todo o seu exército e talvez parte dos súditos que um dia me serviram.  

- Me desculpe... - Sussurrei, deitando-o de costas. - Me desculpe, mas isso precisa sair de você. - Eu o olhava bem. Apoiei um dos meus pés, quase apertando o salto fino de minha bota de couro em suas costas, ele não sentiria qualquer incômodo.  

Afinal, Tarrant Hightopp não estava mais ali.  

Puxei cuidadosamente a flecha, subindo-a enquanto esticava meus braços.  

Sua ponta com certeza prendeu a algo. - Acalme-se, Alice. - Autoconfiança era tudo. - Você consegue. - Fechei os olhos e apertei a flecha, forçando meu punho. Tudo se tornava mais deslizante quando se tinha sangue por toda a extensão. Segurei com as duas mãos e exerci todo o meu esforço para arrancá-la.  

Acabei caindo sentada no chão.  

E em minhas mãos não haviam mais nada além de seu sangue espeço e escurecido.  

-Eu estou viva e ele está morto! - Me revoltei ao gritar. O céu não me responderia, mas eu não olharia para lugar algum a não ser o céu... Aquelas nuvens escuras que pareciam zombar de minha incapacidade. - O que mais querem de mim?! 

''Por acaso não está ficando louca?'' - Alguém falou. 

Me virei com o susto. 

Stayne estendia sua mão. - Levante-se.  

-Eu consigo sozinha. - Me apoiei no chão, encarando o seu largo sorriso.  

-Que belo presente Hightopp me deu. - Fitou-me. - Estou muito feliz com sua visita.  

Observei o Ruivo. - Eu quero que tirem essa flecha. 

-Apenas os meus desejos são atendidos aqui, Kingsley. - Respondeu. - Eu sou o Rei e você abdicou de seu trono. 

Levantei o meu rosto para encará-lo, sem conseguir suportar sua expressão triunfante. - O Castelo é meu.  

-Hum. - Ele assentiu. - Está certa. Pode escolher um quarto se quiser, alguns antigos vestidos que Hightopp lhe fez estão no sótão, mas bem conservados. 

-Acha mesmo que estou me importando com os meus vestidos? 

Ele sorriu. - Me traz um enorme prazer vê-la de luto. - Respirou fundo, aliviado. - Destruí toda uma geração do clã Hightopp.  

-E fez tudo isso só por que tinha inveja do Tarrant ser muito mais íntimo de Mirana. - Eu o olhei, dos pés à cabeça. - Isso não faz de você um homem. 

Ilosovic Stayne apertou o meu braço. - Eu gosto de sua aspereza, Kingsley. - Sorriu, deslizando o polegar por meu queixo. - Gosto muito. 

-Solte-me... 

-Eu vou soltá-la sim. - Apontou seu dedo. - Mas é bom que se comporte. Você me entendeu bem, Senhorita Kingsley? Sem ofensas... Ou autoridade... E se não souber se dirigir a mim como uma súdita... Eu terei que fatiar o que restou de Hightopp para que se lembre que eu sou o Rei.  

-Como você é cruel. - Ele libertou o meu braço.  

-Veja, veja isso! - Analisou o corpo. - Ele está sujando o meu gramado. - Stayne o chutou.  

Seu sangue saía sem parar e seus olhos continuavam bem abertos.  

Eu não conseguia mais ficar ali. Minhas forças se esgotaram e a realidade vinha à tona. 

Tarrant está morto!  

Algo revirou em meu estômago e tudo o que pude fazer foi correr.  

Os soldados abriram o portão principal, e os súditos que estavam ali me seguiram para encontrar o desfecho daquela história. Ouvi a voz de Meredith chamando por meu nome, mas não pude parar. Subi as escadarias do hall principal e cheguei no banheiro, onde, imediatamente, vomitei na banheira de porcelana. Todo o meu estômago doía, eu recuperava o fôlego do refluxo quando senti uma mão macia tocar minha testa com um pano úmido. Fechei os olhos. ''Creio que não foi uma cena agradável de assistir. Você precisa tomar um banho quente e se livrar de todo esse sangue. '' 

-Meredith... O sangue não importa. - Choraminguei.  

-Eu sei... - Ela segurou o meu braço e me levantou, limpando meus lábios sujos. - Mas precisa se acalmar, pensará melhor. - Alisou meus cabelos com carinho, sorrindo afavelmente. - Vou preparar uma banheira limpa para você. 

Meredith me deixou, e eu não pude impedi-la.  

Estava em meus devaneios.  

A Vida tocou em meu rosto, limpando minhas bochechas molhadas. - Escute o conselho de quem se tornou cética. - Assenti, concentrada. - Você sempre poderá voltar a ser o que era.   

Engoli em seco, eu sabia que no fundo a minha incredulidade ainda existia.  

Eu só precisava resgatá-la. - É. - Sorri um pouco e só pude fazer isso por que deixei de pensar no Tarrant. - Estávamos enganadas sobre o amor.   

Estiquei meu braço para pegar de volta o tubinho de vidro que meu pai me deu. -Fique. - Me entregou. - Mas se um dia encontrarem uma lágrima de amor verdadeiro, terão que ser lágrimas frescas.  

Toquei a aliança fina de ouro ao acordar daquele transe, que certamente não me ajudou a me sentir melhor. Daquele quarto, no segundo andar do Castelo, pude ouvir um chorinho fraco e sofrido, ao que parece, vindo do corredor. Segui aquele som e ele me fez chegar até uma porta entre aberta. Estranhei por ser o antigo quarto da Lebre de Março.  

A porta fez um rangido fraco e Mallynkum pôde limpar suas lágrimas com seu vestido rosa, acreditando que eu não perceberia. Engoli. - Dormidonga? - Parei em frente aquela cama de madeira, na qual Thackery costumava se deitar.  

-Vá embora!  

-Eu sei que está triste. - Arfei. - E eu sinto muito. Não precisa ter vergonha de chorar.  

-Diga isso para si mesma! - Levantou, erguendo sua agulha. - Vamos! Saia antes que eu te machuque!  

Me sentei, afundando o colchão, ela prosseguiu com suas ameaças: - Não teme por sua vida?! Não mexa comigo! - Peguei sua agulha. - Ei! Devolva!  

-Tarrant era seu amigo. - Murmurei. 

-Ele era muito mais do que um amigo! Era como meu irmão. - Suas orelhas de pelos cinzas se arrearam. - Eu sabia que isso ia acontecer... Isso é tudo culpa sua! 

-Alice? - Meredith parou na entrada, carregava algumas toalhas dobradas em seus braços.  

Me levantei, vencida, afinal, sair por aí com um vestido sujo de sangue com toda a certeza não me faria sentir melhor.  

-Sabe onde está a Valentina? - Perguntei assim que entramos, a criada deixou as toalhas sobre a pia e desfez a amarração do meu vestido. 

-As outras criadas estão tentando distraí-la, mas ela não para de perguntar sobre seu pai. - Pausou, abaixei a cabeça. - Quer que eu a chame?  

-Não. Eu não quero ter que explicar a ela que Tarrant morreu. - Pus meus pés na banheira, um por um. - É difícil até mesmo para mim. - Meredith banhava o meu pescoço. Eu a olhei. - É como se eu ainda não acreditasse... 

A criada sentia a minha tristeza. Mas acreditou que o melhor a fazer era ficar em silêncio e executar o seu trabalho.  

Ela me entregou um vestido assim que me sequei. Eu o observei de frente ao espelho, enquanto ela me apertava com o espartilho de couro. - É um dos meus favoritos. - Sussurrei, tocando seu tecido. Era um azul turquesa, a saia era cheia e havia uma abertura na frente, de um ''v'' invertido, onde se revelava babados delicados cor de creme, as mangas bufantes também se abriam, dando um toque delicado enquanto na altura da barriga e da cintura, havia desenhos feitos por rendas de pérola.  - Ele fez para mim quando me tornei Rainha. - Me virei para a janela num simples impulso e uma aflição forte dominou o meu peito.  

Tarrant ainda estava no gramado, estirado no chão. - Com licença. - Saí de imediato, correndo pelos corredores, sem me importar com os gritos de Meredith.  

O vestido ainda estava meio aberto quando cheguei até a sala do trono, onde fui barrada por dois soldados que travaram suas espadas em forma de ''x''.  

Respirei. - Quero falar com o Rei. - Eu conseguia vê-lo em seu trono.  

E eu sei que ele me via também quando gesticulou para que eu entrasse.  

Os soldados abriram alas, então. 

Passei apressada pelo tapete vermelho.  

Hesitei em me curvar. - Majestade. - Stayne sorriu com meu modo cordial. - Ele ainda está no jardim... Acabo de vê-lo.  

O Rei se levantou, passeando com sua túnica e sua coroa que lhe dava todo o poder. - O que isso tem de mal?  

-Como ainda pode me perguntar?! Ele não deveria estar ali! Esquecido!  

Ilosovic sorria. - São ordens minhas.  

Sua frieza me assustava. - Você... - Eu simplesmente não tinha palavras. - Vossa Majestade já conseguiu o que queria! Ele está morto! A-ao menos... - Eu mal conseguia pensar. - Leve-o para um quarto e o deitem em uma cama!  

-Se ainda fosse a Rainha, esse assunto poderia até ser discutível. Mas eu lamento dizer, Kingsley, que você não tem autoridade por aqui desde que nosso casamento terminou e você abdicou a coroa.  

-Então tire aquela flecha! - Gritei. - Por favor, t-tire!  

-A flecha é o que está impedindo que ele sangue até secar. - Pausou. - Você tem certeza disso? 

Estava confusa. - N-não... E-eu... Não t-tenho certeza.  

-Foi o que eu pensei.  

Eu sei que encarar o Rei, naquela situação, só faria o meu sangue ferventar como um caldeirão de sopa.  

Dei as costas, marchando enfurecida pelo tapete.  

-Você ainda não tem a resposta.  

Parei, relaxando meus ombros. - O quê? 

Stayne entrelaçou seus dedos das mãos, sorrindo provocativo. - Há sempre uma resposta... - Cerrou seu olho. - Para todos os problemas de Wonderland.  

-Eu não preciso da sua ajuda.  

-Tenho certeza que não. Você não precisa de ninguém.  

Suspirei, pensando em Tarrant. Eu não queria retrucar e fazer com que pense que não tinha razão. 

Saí assim que os soldados abriram alas outra vez. 

Cheguei aos corredores para pegar a escadaria. - Alice. - McTwisp parecia feliz em me ver. 

-Não quero falar com você. - Passei direto.  

-Espere!  

-Esteve ao lado do Rei esse tempo todo! Está óbvio que está feliz com essa desgraça! 

-Nunca ficarei feliz pela morte de alguém, Alice. O Chapeleiro era—Ele saltitava enquanto me seguia. - Um bom homem e admito que ele se foi jovem demais.  

Me sentia farta de tudo. - Acabou... - Suspirei. - Ele está morto e talvez a lágrima nem venha ser dele. - Parei para encarar o Coelho Branco. - Ou mesmo se for... - Murmurei, balançando meus ombros. - Não faz diferença pois ele está morto.  

O meu lamento parecia comover Nivens. - Alice. - Ele deu um passo a diante. - Se precisar de minha ajuda, eu estarei a sua disposição. - Esticou seu braço e alcançou minha mão. - Para o que precisar.  

-Oh... - Arfei. - Eu não quero ajuda de ninguém. E-eu tenho uma criança para cuidar e tudo o que quero é não demonstrar para ela que estou triste mas isso me parece impossível. 

-Descanse um pouco. - Pediu McTwisp. - Se sentirá melhor.  

Fiquei em silêncio, assimilando suas palavras e o Coelho foi andando.  

Costumava ser muito ocupado.  

Caminhei em derrota até o quarto em que estava hospedada. Relembrei o devaneio que tive um pouco antes de me banhar, quando tentei entregar uma resposta. Quem sabe, o meu ceticismo quanto o amor fora o culpado pela lágrima não funcionar daquela vez. - Eu não deveria ter duvidado do seu sentimento por mim. - Fechei a porta e me deitei, encolhendo-me no colchão e observando a escrivaninha que carregava um pequeno castiçal de velas acessas, uma xícara de chá e torradas... E um tubinho de líquido arroxeado.  

Eu o agarrei como se fosse a poção mais valiosa do Mundo e a bebi rápida e desesperadamente, como se não me restasse mais nada.  

Meu corpo amoleceu e minhas pálpebras se fecharam sem que eu pudesse impedir seu peso... 

~*~ 

Mal conseguia me mover, contudo, abri os olhos e observei por alguns instantes aquele céu limpo e azul. Eu não via o céu de Wonderland tão bonito fazia muitos e muitos meses. Nem mesmo me lembrava da última vez que esse azul celeste enchia meus olhos. - Hum... - O gramado estava macio. Me sentei, a brisa calma mal bagunçava meus cabelos soltos.  

Não tive muito tempo para pensar no que fazer por ali. 

Uma falação parecia vir de alguma parte daquele vasto jardim de cogumelos.  

Me sentia desorientada assim que me sentei, procurava por aquele barulho: Um monte de vozes falando ao mesmo tempo, algumas riam, e uma cantiga era cantada enquanto a música acompanhava batidas e o som arranhado das cordas de violinos. - Ahn...! - Frustrada, afundei minha cabeça no gramado, tendo a certeza que um pequeno cogumelo apoiava a minha nuca.  

Fechei os olhos por um bom tempo. - Eu não estou louca... - Lamentei levando a mão a testa. - Não estou. - Aquelas vozes... Aquela música. Sei que conhecia de algum lugar.  

Mentalizava concentradamente que aquilo era só um sonho.  

Abri os olhos, encarando o gramado e percebendo dois pares de sapatos de couro, junto a meias coloridas.  Levantei meu olhar por sua perna, chegando a sua saia de escocês e o seu terno azul.  

Um misto de sentimentos me invadiu. - A-a-ah...  

-Oi. - Disse, meigamente.  

Respirei. - Oi. - Sorri. - Oi Tarrant. Nossa... - Balancei a cabeça assim que levantei.  

-E-eu estava por aqui... - Gesticulava. - quando vi... que... você surgiu de algum lugar!  

-Isso é tão confuso. - Murmurei. Eu o olhava intensamente, reparando seus olhos radiantes. - Você está ótimo mas estou cada vez mais convencida que esses sonhos não são reais.  

Sorriu, mostrando o pequeno espaço entre seus dentes. - V-venha comigo? 

-Para... onde? - As perguntas eram inevitáveis.  

Hightopp apenas andou, desviando dos cogumelos e afundando seus pés no gramado. Ele subia o morro e eu o seguia, a canção se tornava mais alta e intensa e o meu coração apertava, aflito. - Dá para vê-los de lá! - Apontou para o topo, não era muito alto.  

Mas Tarrant correu e me esperou, sentado em uma pedra acima do morro.  

Era dali que vinha aquele som. 

Seu clã festejava, dançando alegremente. - São seus pais. - Cerrei meus olhos quando os vi, dançavam juntos. Mas nenhum deles dançavam como o Tarrant. Eu o olhei, no entanto, o ruivo mantinha sua atenção a festa. Reparei que haviam pequenas casinhas, todas sem ter nenhum rastro de destruição. - Por que não se junta a eles?  

Ele desfez seu sorriso. - E-eu não posso.  

-Como não? - Sorri. - É claro que pode. 

-N-não... Eu não consigo. - Tarrant me olhou.  

-Acha que seu pai não vai gostar de vê-lo? 

Estava cabisbaixo quando negou, em silêncio. - Tarrant, então me diga.  

-D-descobri q-que não posso ser v-visto por n-ninguém. - Sua voz falhou, ele estava arrasado, sei que estava, mas não conseguia chorar. - Eu fui até eles m-mas eles simplesmente não me v-viam. P-pensei que eu pudesse ter a companhia d-do meu clã mas eu não tenho e... N-não terei. E-eu não terei. - Suspirou, dizendo em um fraco tom de voz: - Estou sozinho.  

-Eu não sei o que dizer. - Balancei a cabeça.  

Ele se levantou, olhando-me com pesar. - Alice. - Pausou. - E-e-estou frio por d-dentro. O m-meu coração não bate mais.  

-Mas está aqui. - Sorri.  

Tarrant não parecia feliz. - Eu estou m-morto. E talvez possa e-estar certa em achar que esses s-sonhos não s-são reais. - Ele me olhou, como se o que dissesse a seguir fosse mais forte do que suas próprias palavras. - Não me procure mais.  

-Isso é impossível! 

-Você... Precisa tentar. - Sua voz saiu num fio.  

-Por que está me pedindo isso? 

Ele se virou para o clã. - Eu fui até eles... E apesar de não me verem, e-eu ouvi o que diziam, e... e-eles esperam o dia em que poderão voltar, e-esperam ansiosos...  

-Quando poderei encontrar uma lágrima de amor tão forte ou mais forte do que a sua? - Eu não conseguia imaginar que existisse um sentimento tão profundo quanto o seu. - Até que eu encontre... Isso pode demorar muito.  

Tudo foi sumindo devagar, e o meu corpo tornava-se mais leve. 

~*~ 

''Senhorita Valentina!'' - Alguém gritou quando acordei de repente.  

Seus pequenos braços estavam envolto em meu pescoço, eu a puxei para a cama.  

A criada que corria atrás da garota parou no batente da porta, praticamente sem fôlego. - Não devia acordar sua mãe. - Repreendeu, ofegando. - Me desculpe, Rainha... Digo... - Ela balançou a cabeça e os cachos preto azulados soltaram-se do elástico fino que os prendiam. - Senhorita Kingsley. 

-Está tudo bem. - Eu não poderia ter certeza, não com Valentina chorando de soluçar em meus braços. - Pode nos deixar sozinhas. 

A jovem criada se curvou.  

Alisei suas costas. - Por q-que ninguém me diz onde está o papai? 

Torci o canto dos lábios. - Eu quero ver o papai! - Insistia. 

Observei a facilidade que tinham seus olhos de derramar lágrimas, elas desciam como uma correnteza constante. Seu rosto estava vermelho e ao redor dos olhos pareciam inchados. - Não chore mais ou ficará desidratada. - Se aquiesceu em meu peito.  

-O-onde está o papai?  

Suspirei. - O seu pai... - Pensei. Não havia um jeito delicado de dizer. - Se machucou muito e... Ele está separado das pessoas vivas, como eu e você.  

Ela me olhava, finalmente em silêncio, nenhum sinal de soluço ou choro.  

Mas ainda existia aquela correnteza de lágrimas que não pararia tão em breve. 

-E-eu não tenho mais um papai?  

-Você tem. - Joguei seus cabelos. - Pode pensar nele ou sonhar com ele. - Me ouvia em silêncio. - Ele sempre estará vivo em seu coração.  

 -Não vamos mais vê-lo? - Levantou o rosto. - Nunca mais?  

-É possível que sim. Mas eu não posso dar certeza. 

-Mamãe. - Chamou após suspirar. 

Eu encarei seus olhinhos brilhantes. - Sim? 

-A senhora nunca mais vai ver o meu papai. - Juntou as sobrancelhas, aquelas sobrancelhas finas e acobreadas. - Por que não está triste? 

Recostei minha cabeça no travesseiro, trazendo-a mais para o meu corpo. Não demorou muito para que adormecesse.  

[...] 

Aquele terrível dia demorou para passar. Eu estava sem sono quando decidi deixar minha filha e buscar uma xícara de chá. Admito que não estava habituada a morar nesse Castelo e não ser vista como uma importante Majestade. Era estranho perceber que os Soldados não me cumprimentavam toda a vez que me viam no corredor, ou que as criadas não me perguntavam se eu desejo alguma coisa.  

Me apoiei na bancada de mármore. As luzes das velas eram as únicas a me fazerem companhia quando esquentei a água no bule, e preparei o chá.  

Tamborilei meus dedos sobre o balcão. A porta de vidro que ligava a sacada estava meio aberta, me chamando para fora.  

Lentamente... Fui até ela e empurrei-a para passar.  

Contemplei o céu, em silêncio.  

As estrelas brilhavam, algumas maiores do que as outras, mas todas tentavam conseguir alguns segundos da cor castanha dos meus olhos.  

Eu procurava pela mais nova estrela no céu quando percebi que um pouco mais acima do jardim, acima dos muros de Marmoreal havia o corpo do homem que mais me amou. Estava largado no lado de fora do Castelo, no mesmo lugar... Exatamente no mesmo lugar em que perdeu sua vida.  

''Alice? Precisa conversar?'' - Eu conhecia aquela voz cordial.  

Virei. - Minha filha me fez uma pergunta e eu não soube responder. - McTwisp parou ao meu lado, vigiando o céu. - Ela perguntou por que eu não parecia triste. Mas não pude respondê-la. E então... Ela dormiu por que seus olhos estavam inchados, e pesados demais para suportar. E agora, eu não consigo dormir. 

-Muitos súditos não conseguem dormir. - Respondeu. - Mallynkum está trancada em seu quarto, Enid não quer cruzar o corredor com você e Chessur está sumido... O que não é algo incomum, afinal. 

-Eu não o matei, Nivens. Todos sabem disso. Sabem quem o matou. 

-Stayne é o Rei.  

-Isso não lhe dá o direito sobre a vida de alguém. – Retruquei. – O que tem em mãos?  

-É claro. – O Coelho se deu conta. – São as páginas de seu livro. – Bufei. – Eu decidi que vou ajudá-la, Alice.  

Voltei para a cozinha e preparei o chá. – A última coisa que quero é passar minha noite procurando algo que faça sentido nesse livro. – Bebi, sentindo o hortelã fresco. Um de seus chás favoritos.  

-Mas é melhor do que passar a noite pensando no Chapeleiro. – Ele saltitou, parando na minha frente. – Aproveite essa oportunidade, sou muito bom com textos.  

[...] 

Chegamos até a biblioteca do castelo. Procurei por uma mesa escondida entre as demais, talvez oculta por um ou duas prateleiras com livros. Não seria bom para mim pensar em Tarrant, e naquele sonho estranho que não parecia ser real. – Vamos logo com isso. – Me sentei. McTwisp arrumava seu monóculos de vidro, que tornou seu olho esquerdo duplamente maior.  

-Precisa me contar tudo o que sabe.  

Suspirei. – Foi em uma das minhas primeiras noites por aqui. – Pausei. – Tive um sonho com o meu pai, e fazia muito tempo desde que ele se foi que eu não pensava nele. -Era difícil imaginar que eu o esqueci por um tempo. - Quando... Eu acordei, um raio de sol batia na prateleira do quarto de Mirana, mais exatamente neste livro. Era como um sinal... Eu o peguei e tive uma sensação de que esse livro me ajudaria a ter o meu pai de volta, nada aqui é impossível. – Balancei os ombros. – Tarrant e eu nos envolvemos na história. Contava sobre o amor. – Eu o olhei. – O amor de dois seres que não estavam destinados a ficarem juntos. – Toquei as páginas soltas. – Desde que o achei tive um grande fascínio por imaginar um final.  

-Não existe um fim. 

-Eu sempre quis entender o porquê. Até descobrir que eu estava destinada a encontrar uma resposta e livrar meu pai da morte. Logo eu... Que havia acabado de me casar com o Lorde Hamish Ascot, sem nunca sentir esse amor intenso que a história descrevia. – Pausei. – Tarrant e eu éramos muito amigos e ele sempre me alertava sobre o Stayne. Stayne dizia ter todas as respostas para minhas dúvidas. – McTwisp assentiu. – Enquanto ele me levava em sua conversa, eu me intrigava com o livro e com o fato de ter entrado na história, eu pude me sentir como a Vida e sua desilusão. Tudo se tornou mais confuso quando Tarrant disse que me amava. – Torci meus lábios. – Foi então que passei a deduzir que a resposta era ele... Mas eu me enganei por que sua lágrima era contaminada pela loucura. Eu fiquei... Furiosa. -McTwisp me ouvia, enquanto lia as páginas apressadamente.  

-Vocês brigaram nesse dia.  

-Pensei que ele não me amasse.  

-Você gritou com Tarrant. – Ele me olhou com seu julgamento. – Veja... – Arrastou a página para mim, cutucando o parágrafo com seu dedo peludo. – Você gritou dizendo que ele não a amava, lembro disso por que Tarrant ficou arrasado naquele dia.  

Juntei as sobrancelhas. – O que quer dizer?  

-Leia esse trecho. – Apontou, fiquei em silêncio enquanto estudava cada palavra, cada frase encaixada meticulosamente naquele parágrafo e quando olhei para Nivens, pude perceber que tivemos a mesma conclusão. – Vocês brigaram como no livro.  

-E o que significa? - Soprei, mas McTwisp não tinha uma resposta.  

Voltamos para as páginas, eu tentava organizá-las pela ordem certa, McTwisp lia atentamente um outro parágrafo, tentando compreender se havia algo que fizesse sentido. - Eu não vou conseguir.  

Ele me olhou com sua seriedade. - Claro que vai. 

Balancei a cabeça. - Sabe quantas vezes estudei esse livro? E... Nada mudou. Absolutamente nada.  

-Talvez por que não estivesse motivada para isso. - Ele ajeitou seu monóculo. 

Ouviu meu suspiro. - Eu sonhei com ele. - Meus olhos vagaram até os seus. - Tarrant parecia ótimo no início, mas depois ele disse que estava morto, e quem sabe, talvez nem fosse real. - Pausei. - Que era para eu não o procurar mais, para esquecê-lo. O-oh... E eu acho que não era ele pois... Ele nem pensou em cogitar um beijo de despedida. Eu acho que... Foi uma forma do meu inconsciente dizer que eu não o verei, nunca mais. 

-Eu sinto muito, Alice. - Respondeu Nivens, ainda concentrado em sua leitura.  

-Eu sei que está cansado. - Comentei. - E acho inútil continuarmos... Eu estou convencida que a lágrima era do Tarrant, só deveriam ser frescas. E agora, não há como conseguir suas lágrimas.   

-Essa jovem que denominam como Vida é parecida com você.  - Me olhou. - Ela é cética. Ela não parece acreditar no impossível, ela diz que o amor deles é impossível. - Lia, concentrado. - Há muito tempo li essa história. Mas nunca parei para compreendê-la, é de fato, interessante.  

Fiquei em silêncio.  

Até perguntar: - O que está procurando? 

-Algo familiar... - Ele virou a página. - Você me disse que era uma história sobre dois seres que não estavam destinados a ficarem juntos.  

Engoli. - Sim. Eu disse. - Puxei a folha manchada. - Achou alguma coisa?  

-Só mais uma coincidência. Você e o Chapeleiro também não estavam destinados.  

-Nivens... Eu não acho que isso possa ter alguma ligação.  

-Quanto ceticismo...  

-McTwisp, são histórias diferentes. Nós não somos seres sobrenaturais, somos só pessoas. Ele nem mesmo era uma pessoa sã!  

O Coelho me olhou, parando por algum segundo para analisar os meus olhos e o quanto eles estavam secos. - Por que não me parece triste por Tarrant?  

Aquela pergunta apertou o meu peito. - Eu estou. - O olhei. - Eu estou muito triste. - Seu olhar me condenava quando me levantei. - E se você não é o sábio Absolem você não pode me julgar!  

-Alice, o Chapeleiro morreu. E você só consegue pensar que ele te amava?! 

-Já chega! - Juntei as páginas. - Você não sabe como estou me sentindo!  

-Não precisa se irritar. - Balançou as mãos como sinal de redenção. - Algumas pessoas não costumam chorar de tristeza... Eu entendo. 

-Obrigada por sua ajuda, mas não preciso mais. - Dei as costas.  

Deixei a sala de livros, partindo para os corredores. Aquela conversa com Nivens só me fez relembrar do exato dia em que encontrei esse livro.  

- Precisa parar de bisbilhotar as coisas da Majestade. - Avisou pegando o livro em seguida.  

Me levantei. - Solta! - Gritei puxando o livro de volta, sem sucesso. Tarrant era mais forte.   

-Acredite, não vai querer ler essa história! 

-Suas advertências só me causam mais curiosidade. - Puxei de vez, e o livro bateu com força no meu peito. Gemi com a dor, reparando que os olhos de Tarrant se encontravam em meu busto. - Com licença. - Peguei as broas e me retirei.  

Passava pelo corredor quando sua mão puxou minha cintura com certa violência. Cada vez mais eu acreditava nas palavras de Stayne ao ver que o Chapeleiro fazia de tudo para que eu não descobrisse sobre nada. - Alice. - Ele me chamou com uma voz triste e fraca, em seguida, me soltou, mantendo uma certa distância entre nós. - Isso são contos mágicos. - Explicou. - Contam sobre a origem de Wonderland.   

-Então tudo são histórias da minha imaginação. - Respondi encarando o livro.   

Escapei dos devaneios quando quase caí dos degraus. Me sentia desorientada outra vez. Quando se estava sozinha, esse Castelo se igualava a um labirinto. Olhei para os lados no hall de entrada e decidi me afugentar na sala de visitas.  

Joguei o livro no chão e suas páginas se espalharam. - Eu nunca deveria ter encontrado. - Sussurrei. - Essa história é uma maldição! 

Caminhei em direção a lareira, ajeitei as lenhas que costumavam se apagar pela manhã. Havia um pouco de brasa.  

Juntei algumas páginas. '' Pense bem no que vai fazer. '' - Uma voz ecoava em meu inconsciente.  

-Darei um fim nessa história.  

''A Alice não mata. Tem certeza que vai conseguir matar minha história? ''  

Encarei as páginas envelhecidas. E então, pensei bem.  

Guardei as folhas soltas.  

Estava derrotada. - Você fala comigo como se fôssemos amigas.  

''De certa forma, nós somos. ''  

-Isso é impossível. - Murmurei. - Você é só um personagem de um livro. Eu nem mesmo sei se tudo o que vivi aqui é real. - Olhei em volta. - Posso estar apenas dormindo. Pode ser um sonho longo e frustrante.  

''Eu não sou um personagem. '' - Respondeu calma e suavemente. - ''Sou a pessoa mais importante de Wonderland. '' 

Estranhei aquela frase ser tão familiar.  

[...] 

O amanhecer chegou diante dos meus olhos quando fui acordada por um dos súditos.  

-O café da manhã está pronto, senhorita Kingsley. - Notificou a criada, que manteve certa distância para não pisar nas folhas espalhadas no chão, abri os olhos devagar, percebendo que adormeci no chão da sala de visitas, perto da lareira. - Todos estão reunidos e o Rei aguarda sua chegada.  

Cocei os meus olhos e arrumei aquela bagunça. Estava com fome, mas não tinha apetite. 

Quando cruzei a sala de jantar tive o ímpeto de olhar diretamente para a terceira cadeira a esquerda, onde Tarrant costumava sentar. 

Era a única vazia.  

Me aproximei de Meredith, que estava em pé, observando os outros súditos desfrutarem das broas e torradas. - Onde está Valentina? - Sussurrei, próximo a seu ombro.  

-Ainda está dormindo, Alice. - Pausou, vendo que eu observava a janela que ligava ao jardim. - Algum problema?  

-Todos os problemas. - Murmurei. 

-Quer que eu a chame? - Ela sussurrava com discrição. 

O arrastar da cadeira do Rei me despertou. Ele vinha não muito contente em nossa direção quando eu o enfrentei. - Majestade. - Meredith se curvou.  

-Senhorita Kingsley. 

Engoli. - Majestade. Eu gostaria que me encontrasse na sala de visitas.  

-Pois bem. Quando gostaria de me encontrar? 

-Se possível... Agora. 

[...] 

Ilosovic Stayne fechou e trancou a porta de madeira. Eu respirei fundo enquanto ouvia o som da chave dourada girar. - Mirana sabia a resposta, mas ela foi morta por você antes de me ajudar. - Eu o encarei. - Eu sei que foi por você, pois não é a primeira vez que alguém é morto por uma flecha, bem na minha frente. E o meu pai também parece saber a resposta, mas não quer ou não pode me ajudar. - Pausei. - Você disse que sempre há uma resposta, e uma única resposta, você sabia o tempo todo e nunca quis me contar. Você só me usou para conseguir a coroa e fazer o Tarrant sofrer e agora ele está morto. Portanto... - Ele me olhava em silêncio. - Me dê a resposta. 

Ele riu. - Kingsley, você me diverte.  

Fechei meus punhos. - Me dê a resposta! Qual é o problema de me dar a maldita resposta?! - Meu rosto queimou com a raiva e a força que usei para gritar. - Você conseguiu tudo o que desejava... - Me aproximei.  

-Alice... 

-Conseguiu matar o clã do Tarrant... C-conseguiu se tornar rei, matar minha irmã e e-enganar minha filha. - Solucei. - T-ter todo um império aos s-seus pés e agora você o m-matou... V-você venceu... Você n-nos ganhou.  

Stayne pensava. 

-Eu só não q-quero ter que passar o resto da minha v-vida p-preocupada com uma solução. - Ele me ouvia, apoiando um dos braços na parede. - Se a lágrima é d-dele, diga-me... D-diga-me por f-favor e a-acabe com o m-meu sofrimento... - Funguei. - S-se for d-dele... Eu não vou procurar, e-eu prometo a você, e-eu te dou m-minha palavra que eu não vou procurar... Estou pensando até mesmo em d-dar um fim naquele livro! Só... Me diga de uma vez por todas, Stayne!  

-Se eu te contar, Alice. Terei que tornar Valentina Hightopp órfã por definitivo.  

Eu o empurrei depressa, e destranquei a porta. 

Precisava fugir daquele ambiente para pensar, e foi o que eu fiz quando me apressei para passar pelo hall de entrada. 

Um raio de sol fraco brilhava quando cheguei no jardim. 

Os soldados que vigiavam o portão da frente pareciam mais competentes do que os outros dois que permitiram que Valentina fugisse, certa vez. 

Parei no murinho de mármore que ligava a varanda e ali apoiei minhas mãos. Sei que não conseguiria caminhar para o jardim, era o lugar em que dava para ver, nitidamente, Tarrant estirado no chão.  

O meu coração sangrava por olhar para os lados e ter lembranças de cada canto de Marmoreal. Cada conversa que tivemos juntos, cada risada, cada briga e cada beijo. Era difícil perceber que, de repente, tudo acabou. 

O Rei passou por mim, olhando-me de canto com um sorriso vitorioso que não sairia de seus lábios por muito tempo. Ele foi até o jardim e percebi que encontrava Enid em uma das mesas, perto dos arbustos.  

Eu a olhei.  

E tive mais devaneios...  

Enid tocava a capa do meu livro. – Eu sei, Majestade. – Sua esmeralda presa a testa brilhou. – Eu sei de quem deve ser a lágrima.   

Eu a olhei, pensando em uma forma de abordá-la sem que soasse tão desesperador. – Conte-me.   

-Eu não posso, ou colocarei tudo a perder. Qual seria o sentido de uma charada se soubesse a resposta antes de compreendê-la?   

-Eu a compreendo! – Meu desespero veio à tona. – Eu estudei esse livro, por dias e dias e ainda o estudo! Eu compreendo sua história mais do que todos!   

-O amor veio da Morte. Um ser que era incapaz de amar. – Frisou em seguida. – “O amor vem de quem menos se espera. “  

Abracei o livro, em constantes questionamentos.   

-Stayne? – Juntei as sobrancelhas.   

A meretriz só me encarou. Não me daria a resposta.   

– Seria ele... Acho que ele é incapaz de amar-me. Mas como farei que sinta amor por mim?   

Essa pergunta, com certeza me responderia. – O amor da resposta já existe.   

Estava tão certa...   

Que não me trouxe mais dúvidas.   

-Tarrant? – Fazia mais sentido. – É por isso que não quer contar-me! – estourei. – Não admitiria jamais que ele me ama! Ele matou seu tempo para me esperar. – Demorei a sorrir, novamente estava na mesma ilusão de antes.   

Meus pés ganharam vida e então, eu corri. Stayne e Enid me olhavam quando agarrei as grades do portão principal e ordenei aos soldados: - Deixem-me passar!  

Eles nem se moveram.  

Sacudi as grades de ferro, meus cabelos sacolejaram, eu estava enlouquecendo.  

O Rei vinha em nossa direção. - Eu quero vê-lo. - Ruí os dentes. - E não me impedirão! Não importa se é o Rei! Pode até mesmo me enforcar por desobediência, ou seja o que for, mas eu quero vê-lo e não vou desistir!  

Ele olhou para seus soldados e meneou com a cabeça, dando permissão. Os soldados empurraram o portão e por um momento hesitei. 

Tarrant estava no mesmo lugar. Na mesma posição que o deixei. 

-Vamos Kingsley. - Provocou o Rei. - Ou por acaso mudou de ideia? 

Avancei, pouco a pouco, como se os meus pés não soubessem andar. Um pequeno tumulto de súditos foi se formando no portão da frente, é claro que todos queriam ver o sofrimento da Rainha que traiu o Rei. Olhei para trás após alguns minutos em que fiquei pensando se deveria mesmo ir e vi que Valentina estava no colo de uma das criadas, ela me olhava com seus olhos avermelhados que não deixariam de demonstrar sua tristeza pelo pai. 

Meu peito queimava enquanto eu me perguntava até que ponto conseguiria suportar.  

Fui me aproximando mais. Stayne não tinha empatia por deixá-lo dessa forma: Lá estava o seu corpo frio e sem vida, estirado no chão. Os cabelos escondiam parte do seu rosto, e eu agradecia por isso.  

Meus lábios tremeram quando simplesmente parei, há uns poucos passos de distância. Eu não lidava muito bem com a morte, apesar de senti-la sempre ao redor.  

- A-ahn. - Respirei, levando a mão aos lábios.  

Até que ponto eu voltaria para a realidade?  

Não era como um pesadelo.  

Aquilo, de fato, acontecia.  

McTwisp tinha razão: Tarrant estava morto e a única coisa que eu conseguia pensar era em como ele me amou em vida.  

Afundei os joelhos no gramado e hesitei em tocar seus cabelos. Suspirei, o meu coração bombeava e certa loucura de minha parte esperava que ele me respondesse.  

Mas é claro que não se movia.  

Juntei forças para tocar em seus cachos. Eles ainda eram macios como tufos de algodão, eram longos e apesar de opacos, mantinham oculta a beleza exótica que Valentina herdou.  

Afastei as madeixas e observei seu rosto, seria a última vez antes de pedir que Stayne guardasse seu corpo.  

Os olhos eram fundos e escurecidos, contudo, seguiam como sempre grandes e belos. Esses olhos que choraram tanto por mim, agora estavam secos, sem brilho além de toda aquela escuridão. 

Num ímpeto, peguei o seu rosto e o trouxe para minhas coxas, usando a maciez do meu vestido. Com o movimento, pude sentir seu sangue frio escorrer por mim. Passei meus braços ao redor de sua barriga, ignorando a flecha afiada que atravessou o seu corpo e custou sua vida. Eu queria ignorar que estava sendo vista por quinhentos soldados e mais de duzentos súditos e queria esquecer que Ilosovic Stayne estava entre eles.  

-Você foi embora. - Murmurei, trêmula. Seus olhos paravam nos meus. - Disseram que era até que a morte os separe, mas... Não é. - Soprei. - Eu não estou separada de você, ainda o sinto, e consigo enxergar o seu rosto quando fecho os meus olhos. Penso em você, Tarrant, quase o tempo todo imagino quando estará comigo novamente. - Fiz uma pausa, unindo minhas pálpebras. - Eu sei agora o que é esperar por alguém. C-contar os minutos... P-para que eu possa estar com você, e-eu estou contando e sei que vai demorar... E... Até que eu o encontre. - Funguei. - Vou morrer por dentro - O olhei. - Por que eu não posso salvá-lo. E-eu n-n-não posso... N-não vou achar uma única lágrima que carregue o sentimento mais forte e intenso que alguém possa sentir, mesmo que eu tente acreditar. - Alisei seu rosto. - Então... Sem você... E-eu estou apenas destinada à Morte.  

Seu semblante era sereno, como se me escutasse e compreendesse a minha escolha de desistir, desistir de uma resposta.  

Tarrant me amava, e ele não deixaria de me apoiar.  

Meus ombros balançaram quando desabei. - M-me d-d-desc-culpe! M-me d-de-esculpe... E-e-eu s-sinto muito... E-eu sei que eu o f-fiz sofrer! T-talvez esse venha ser o m-meu justo castigo... Você... E-está melhor sem mim e eu e-estou pior sem você. 

''Eu nunca fui boa com respostas. '' - Pensei, cessando meu pranto que chegara com força. ''Apenas com perguntas.'' 

Meus pensamentos fugiam e eu não pude pegá-los de volta. 

Relembrava algumas frases, frases que escutei, frases que li, frases que falei... Frases que faziam sentido. 

'' Encarei os olhos azuis do príncipe, marejados por lágrimas que lhe caíram dos olhos após dizer ''Aceito''. '' 

''A-Alice... Você é a minha filha, minha filha mais que especial.'' 

''Alice, não é uma lenda. É uma história real.'' 

''P-pai, a mamãe me obrigou a casar. E-eu não amo o Hamish.'' 

''O amor vem de quem menos se espera.'' 

''Você é a moça que parou o Tempo do meu filho!''    

''Se não tem Tempo, não se tem o que esperar.'' 

''Mas se um dia encontrarem uma lágrima de amor verdadeiro, terão que ser lágrimas frescas. '' 

''O amor da resposta já existe.''  

''Por algum motivo, todos olham para mim... Perguntam se eu sou a Alice'' 

''Você é a Alice da lenda?'' 

''E por que está chateada, Alice? Por acaso o amor que ele sentia por você era recíproco? '' 

''Você sempre nega suas lágrimas. Ou o motivo delas... Quase sempre é ele. '' 

''O céu sempre reflete em minhas emoções.'' 

Tudo se encaixava meticulosamente, como o final de um livro. 

E então, enquanto meus pensamentos se iluminavam... 

''Ora... Se não é a Alice errada! A Alice certa mataria o Jaguadarte!'' 

''Sou a Alice errada, então. '' 

''Há sempre uma resposta... Para todos os problemas de Wonderland.'' 

...Finalmente percebi.  

-A resposta para os problemas. - Olhei para o céu, compreendendo quanto tempo demorei. - Sempre fui eu.

Tarrant estava em meus braços, sem vida. Meus olhos marejaram. O meu coração se apertava, meus olhos queimavam com a quantidade de lágrimas que nunca pensei que produziria.  

Aquela lágrima grande e salgada desceu lentamente por meu rosto, enquanto eu acariciava o seu, dessa vez eu sei que estava certa. Eram lágrimas sinceras, e com certeza eram frescas, vindo da pessoa que nunca...  

Jamais...  

Esperei que as possuíssem. - Tarrant Hightopp, eu te amo.  

A gota brilhava quando caiu e tomou o solo fértil. Pude assistir de perto, vendo que assim que foi derramada, ela espalhou um vento forte que rasgava o gramado. Eu esperava ansiosa que Tarrant acordasse, mas ainda estava morto. Eu o sacudi, olhando para os lados, o vento ganhou mais intensidade junto ao céu, que não se decidia entre nuvens ou estrelas... 

As estrelas chegavam naquela manhã, e eu as admirava, tentando pensar que aquilo não acontecia, embora não houvesse como duvidar, estava tudo bem diante dos meus olhos.  

Elas despencavam com força, relembrei a vez que, em certo sonho, pude tocar em uma estrela e sentir suas pontas afiadas e sua luz que contaminava minha retina. Abracei Tarrant, me encolhendo e esperando que aquela chuva de estrelas fatiasse todo o meu corpo, fechei os olhos, estremecendo. 

Quem sabe assim estaria com Tarrant outra vez.  

Eu conseguia sentir o rastro de cada uma, elas voavam, e pareciam perseguir alguma coisa, todas muito alvoroçadas. Abri os olhos, vendo que não me fariam mal, mesmo que eu merecesse por fazê-los esperar.  

Boquiaberta, presenciei o surreal.  

Elas se transformavam em pessoas... Pessoas que eu conhecia, pessoas que eu não conhecia, pessoas que já estiveram em meus melhores sonhos e piores pesadelos.  

Os súditos de Marmoreal não perderiam aquele evento ilógico e maravilhoso, o portão fora aberto e até mesmo Ilosovic Stayne vinha presenciar o impossível. 

Soltei Tarrant, com cuidado, e eu o olhei, esperando acordar... 

Apenas esperando.  

- A-ac-corde... - Eu o balancei. - A-ac-corde... P-por f-favor... E-e-eu sei q-que n-não era s-sua hora... V-você também morreu i-injustamente e eu ac-cabo de salvá-lo. - Sussurrei. - A-a-acorde...  

''Alice?'' - Entre a multidão de sonhos, ouvi sua voz.  

Corri. - Papai. - Eu o abracei, voltando a ser aquela criança que acreditava nas histórias de livros. Era o abraço mais reconfortante que poderiam me oferecer. - C-como é bom finalmente sentir o seu calor.  

-Eu nunca duvidei de você. - Nos olhamos. - Sempre soube que conseguiria.  

-Pai... - Choraminguei, meus pensamentos estavam longe... Tão longe do que eu havia presenciado. - E-ele não acordou.  


Notas Finais


Bom, como eu disse ai em cima, precisei dividir por que o capítulo ficou muito maior do que imaginei.
Vamos ao que interessa, sei que não consegui enganar todos vocês, muitos sabiam de quem era a lágrima!
Venho fazer um pedido aqui. Esse capítulo é o ÚLTIMO, MAS... É a primeira parte do último pq precisei dividir.
EU PRECISO MUITO MESMO DOS COMENTÁRIOS. Pensem o quanto o próximo capítulo pode ser emocionante! (e será, já escrevi uma parte) eu quero de verdade meus leitores aqui, todos! Ou quem sabe a maioria, quero meus fantasmas, e meus leitores fieis! PRECISO DE VOCÊS NOS COMENTÁRIOS!
<3


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