História Apenas um sonho - Capítulo 57


Escrita por: ~

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Categorias Alice no País das Maravilhas (Alice in Wonderland)
Personagens Alice Kingsley, Chapeleiro Maluco, Coelho Branco, Dormidonga (Mallymkun), Gato de Cheshire (Gato Risonho), Lebre de Março, Rainha Branca, Tweedle-Dee, Tweedle-Dum, Valete de Copas
Tags Alice, Amor, Drama, Época, Mistério, Morte, País Das Maravilhas, Romance, Wonderland
Exibições 99
Palavras 5.270
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Fantasia, Magia, Mistério, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Uma aparição especial *

Espero que gostem, sei que demorei... :c

Capítulo 57 - Às vezes, nem tudo são sonhos


De repente, voltei a realidade e esqueci quem pensava em mim. Evitava olhar para o Tarrant, mesmo sabendo que os seus olhos não focavam em ninguém além de sua Rainha. Minhas mãos suavam ao segurar as de Stayne, exatamente como no meu casamento com o Hamish. 

O olhar de meu noivo era de completa ambição, eu conseguia sentir que o brilho que ele carregava era algo malicioso, no entanto, não era possível entender o que se passava em seus pensamentos. Só tinha certeza que Stayne bolava alguma coisa. Talvez algum plano que pudesse atingir Wonderland, quem sabe o modo como ele me tratou durante esses meses era tudo parte de seu plano. 

Eu evitava ter esse tipo de pensamento. 

Virei o meu rosto lentamente para o Coelho, ele ainda se esforçava para dizer palavras bonitas, algumas delas eu não compreendia, para mim tudo isso não passava de um discurso sem sentido algum.  

''Sorria, minha futura esposa'' - Li os lábios de Stayne, que cochichava afavelmente para mim. 

Suspirei profundo e assim o fiz, dentro de mim, retornava aos meus pensamentos. 

 

~*~ 

Joguei o seu braço esquerdo por cima do meu ombro enquanto eu o assistia se levantar, ele fazia certo esforço, os seus olhos piscavam freneticamente como se quisesse mantê-los bem abertos. - Não sei se deveria ter bebido tanto vinho. - Murmurei ao ajudá-lo a caminhar, eram passos lentos, ele tombava para o lado, jogando o seu peso sobre mim. 

Fiz uma careta, me esforçava para aguentá-lo e Tarrant via graça nisso, apesar de sonolento não deixava de me mostrar o pequeno espaço entre seus dentes ao rir.  

Empurrei a porta do meu quarto e assim saímos. - Majestade, você sempre me foi uma ótima companhia. - Admitiu ele, bem rente ao meu ouvido. Desde que começou a beber, fazia horas que eu não escutava uma frase perfeita sua, sem gaguejar ou puxar seu escocês.  

Virei o meu rosto lentamente, tomava cuidado para não ficarmos tão próximos e o notei: Os olhos semi-cerrados e seu sorriso insano esperavam uma reação minha. Qualquer reação talvez, pois ele não se lembraria pela manhã. 

Estudei bem as suas palavras antes de respondê-lo.  

''Sempre lhe fui uma ótima companhia. '' - Isso soava como uma despedida e ao imaginar por este lado quase chorei.  

Como Rainha do Pais das Maravilhas eu não me permitiria chorar.  

Por nada. 

-Você também sempre me foi uma ótima companhia. - Me esforcei mais para segurá-lo. 

Pelo seu suspiro, ele parecia satisfeito. 

Sorte que não demoramos para chegar em seu quarto, eu o abri e entramos juntos. Notei toda aquela bagunça de tecidos em volta do seu chão e o joguei sobre a cama macia. Tarrant se acomodou nas cobertas mas não tirava os olhos de mim. Me via ajeitar seus materiais. - M-maj-esta-de. - Chamou-me, encolhendo-se no edredom.  

-Sim?  

Sua mão alisou o colchão, como se pedisse para que eu me sentasse. 

-Eu... - Olhei em volta. - Vou me sentar. - Apontei para o banquinho de madeira que prontamente arrastei para próximo do insano.  

Ele ainda sorria, mesmo apenas com a luz das estrelas, era possível ver que sorria.  

-Majestade... - Ainda teimava em me ter mais perto. Dessa vez não me movi e o Chapeleiro se inclinou devagar, segurei suas mãos que se apoiavam em meu joelho, se eu não me aproximasse mais certamente ele se desequilibraria. - Eu te amo. - Disse tão suavemente que quase acreditei ser verdade. 

E antes que eu lhe perguntasse que tipo de conversa queria partilhar comigo, Tarrant continuou. - Um dia nos encontraremos. - Arfei com suas palavras. - No Palácio dos Sonhos nos encontraremos. - Sussurrou, ainda bem perto de mim.  

-Palácio dos Sonhos? - Indaguei, desconfiando que possa ser conversa de louco.  

Ele não me deu mais nenhum detalhe sobre isso. 

Era como se não me permitisse descobrir mais.  

Não era uma conversa de louco, Tarrant sempre gostava de dividir suas loucuras, sempre me perguntava sobre corvos e escrivaninhas, e ainda insiste em acreditar que o Tempo é um homem que controla as horas, e que eles haviam brigado. 

No entanto, sobre o Palácio dos Sonhos... Não disse mais nada. 

Soltei as suas mãos e usei a coberta para cobri-lo, ele fechou os seus olhos devagar. O doce vinho lhe causava uma forte sonolência e ele parou de lutar contra.  

Eu o deixei, pensativa. 

Pensava no meu pai. Há tempos não o via... 

E quando lembrei dos meus sonhos, imaginei algo no mínimo curioso. 

O meu pai era real em meus sonhos, disso eu tinha certeza. 

E os outros seres que ali estavam?  

Eram reais também? 

A última vez que encontrei o Tarrant dos sonhos, eu pedi para que ele sumisse...  

E foi o que fez. 

De repente, um arrependimento se aglomerou em meu peito. Uma sensação estranha vinha com força, me causando agonia. Passava pelos corredores quando encontrei Nivens McTwisp vagando por ai com o seu lampião. - Rainha! - Exclamou ao se curvar, só pude revirar os olhos, não estava com paciência para a formalidade da realeza. 

Torci os meus lábios, o Coelho Branco era minha única opção. - Precisamos conversar. - Abaixei-me para alcançar suas patas peludas e o levei até a biblioteca do Castelo. 

Na verdade, não chegava a ser uma biblioteca, era apenas uma grande sala amontoada de livros. Quase ninguém ia para lá.  

Nos sentamos. Apoiei meus cotovelos na mesa e deitei meu rosto na palma da mão, eu não estudei McTwisp por muito tempo. O mesmo logo estranhou ao ver que retirei a minha coroa, suspirei de alivio pelo peso que tirei de minha cabeça, literalmente. 

-Eu sou a antiga Alice agora. - Sorri. - McTwisp, quero que esqueça que sou sua Rainha por enquanto. Nós precisamos conversar muito seriamente. 

Ele não respondeu, só me olhava espantado e assentiu. - E como a antiga Alice, anseio por respostas. Respostas que não consigo encontrar... - Dizia, sem ser interrompida. - Talvez eu não tenha feito as perguntas certas esse tempo todo. - Pausei, flutuando no mundo de meus pensamentos. - McTwisp... - Olhei para o Coelho Branco, ele me encarava com seriedade, esperando com calma os meus questionamentos. - Quero que me conte o que sabe sobre o Palácio dos Sonhos.  

Nivens hesitou um pouco, embora tivesse certeza que não deixaria a minha pergunta para trás. Ele suspirou, parece que seria uma longa conversa. - É um lugar em que todos se reúnem. - Por fim me respondeu, mas suas palavras não me trouxeram nada concreto. - É apenas um sonho, rain... Alice. - Corrigiu-se, envergonhado.  

-Um sonho? - Me perguntei dessa vez. Tudo estava confuso. - Como posso ir para o Palácio dos Sonhos? Isso mais me parece um lugar... 

-É um grande castelo no mundo dos sonhos de Wonderland. - Entregava mais explicações. - Ele não é feito por mármores, só por... Memórias. - Eu me calei diante das suas palavras. - Memórias que se foram, ou memórias que ainda não existem...  

-Todos os sonhos são feitos de memórias. - Sussurrei para mim, sentindo que chegaria em alguma conclusão. As minhas sobrancelhas, outrora tão pressionadas, se ergueram quando exclamei. - Memórias podem significar saudades! É por isso que nos encontraremos no Palácio dos Sonhos...- O meu tom elétrico se transformou numa energia negativa de tristeza. Era impossível controlar as lágrimas que transformaram os meus olhos em duas cachoeiras. - Pois sentirei saudades dele.  

McTwisp apenas me ouvia, era claro que não entendia o meu raciocínio e não sabia o que dizer para me ajudar.  

O Coelho de Paletó só me pediu licença após um longo silêncio naquele lugar.  

Ele não discordou do meu pensamento. 

Estava sozinha naquele lugar que só se podia ouvir o som da minha respiração ofegante. Passei a perambular pelo vazio, minha mente não estava ligada a biblioteca, apenas martelava qualquer ideia insana que me trouxesse respostas.  

-Os sonhos nos dão esperanças. - Murmurei pensativa ao relembrar das vezes que eu acordava feliz por sonhar com o meu pai. 

Isso acontecia repetidas noites, e não eram só sonhos feitos de memórias... Lembranças... 

Era como a realidade, como tudo seria se ele não partisse...  

Lembro da vez em que eu era pequena, tinha nove anos e foi a primeira vez que sonhei com o meu pai. Ele estava junto a mim no Navio da família, e eu estava crescida, era uma moça determinada e feliz ao seu lado. 

''Pena que era apenas um sonho.'' - Suspirei cansada ao concluir. 

Puxei a cadeira em que estive sentada antes e arfei, parece que não havia saída a não ser aceitar que Tarrant estaria só na minha imaginação daqui há poucos dias. Eu tentava de verdade não desabar em lágrimas por isso. Era uma escolha trágica e cruel, mas era sua escolha e eu não poderia ir contra a sua vontade.  

De acordo com Hightopp, era a única escolha que tiraria essa dor do seu peito.  

Passei minha mão pelo rosto, quase arrancando a pele de minhas bochechas.  

Por um momento, só desejei encostar a minha cabeça no travesseiro macio e fechar os olhos.  

Aquele desejo de repousar tomou conta de toda a minha mente até o ponto de não pensar em mais nada. Não havia solução afinal.  

Deixei a biblioteca, vagava por meus corredores arrastando a meia de seda pelo chão frio, os meus braços deixaram de se cruzar quando por fim cheguei ao meu quarto quente e aconchegante, havia uma bagunça de comidas espalhadas pela mesa e pensei em Tarrant mais uma vez. Ignorei todos os pratos e talheres e caminhei direto para a minha cama, tendo apenas o cuidado de afrouxar o meu vestido.  

Fechei os olhos lentamente.  

~*~ 

Estava em mais um dos lugares mágicos dentro da minha mente. A grama era pastosa e macia e eu poderia permanecer sentada ali por horas.  

Um vento fraco remexia os galhos e folhas coloridas das árvores do mundo dos sonhos. Sentia certa saudade daquela sensação que os sonhos me proporcionavam. Fechei os meus olhos e pude sorrir.  

Aqui eu poderia esvaziar minha mente de todos os problemas. 

-Olá, menina. - A voz lenta e suave foi jogada pelo ar. 

Só havia um ser em toda a Wonderland que se referia a Rainha de todos os seres Subterrâneos como... ''menina''. 

A falta de formalidade de Cheshire não me irritou. Abri os olhos e tive a visão embaçada do bichano, sempre rodopiando pelo ar. - O que faz aqui? - Perguntei um tanto ríspida. - Este sonho é meu.  

-Ainda com a mesma ideia de... Sonhos... Menina? - Indagou sorrindo. 

-Me responda! Como está em meus sonhos?! Sei que não é uma personificação como os outros!  

-Quis dizer... Como... Tarrant? - Sussurrou, num tom de mistério que me trouxe dúvidas. 

Engoli em seco. - Você o conhece. - Apoiei minhas mãos na grama, a ponta da mesma causava cócegas em meus dedos. - Peça para que ele volte aos  meus sonhos, sinto falta dele... -Abaixei a cabeça ao admitir, constrangida. 

Seus olhos verdes azulados saltaram com o meu pedido, reparei um brilho sobrenatural em sua íris. Talvez nascia alguma ideia em sua cabecinha peluda. - Na verdade... - Voava livremente, mas não se permitiu ir muito longe. - Pode vê-lo agora mesmo. - E sorriu.  

-Eu o expulsei daqui. - Revidei, séria. - Como posso vê-lo?! 

-Vendo. - Disse simplesmente. - Mas não usará os olhos para isso.  

-Do que está falando?! - Perdia a paciência quando questionei. - Quer saber?! - Levantei antes mesmo de ouvir uma resposta, sei que seria uma resposta absurda. Passei a caminhar, no entanto, sentia que estava sendo escoltada por Chessur. Ele não desistiria facilmente.  

-O palácio dos sonhos, menina tola.  

Parei com as poucas palavras do felino, virei-me lentamente, ainda incrédula. - Continua com a mania de ouvir minhas conversas escondido.  - Ele sorriu. - B-bom... - Admito que o meu interesse pela conversa chegou a um nível maior. - O que quer dizer com isso? 

-Pode lhe servir de consolo saber que sonhará com ele sempre que quiser.  

-Sempre? Então posso controlar os meus sonhos? 

-Você quer que eu a leve lá ou não, menina? 

Estranhei.  

-Aonde?  

-Venha comigo, Alice... - Traçou o caminho oposto, uma trilha de pedras a frente. 

Hesitei, até que a minha curiosidade forçou-me a seguir o transmorfo debochado.  

Levantei o meu vestido para caminhar pelas pedras, torcia para não furar o meu pé com as mesmas enquanto Cheshire sorria estranhamente para mim. - Não respondeu minha pergunta sobre o Palácio dos Sonhos, o que é isso afinal? 

-É como um castelo que guarda nossos sentimentos mais profundos.  

Parei de caminhar. - S-sentimentos? - Me sentia insegura. - Não sei se devo ir lá.  

-Você vai gostar, menina.  

Respirei fundo.  

[...] 

Chegamos a um lugar que nunca imaginei que existiria, o chão era feito por nuvens e em volta... Simplesmente não havia nada. Eu podia sentir um medo acomodando-se dentro de mim, Cheshire percebia isso com os seus instintos. Andamos um pouco mais, até cerrar os meus olhos quando encontrei algo sem sentido que me faria indagar logo depois. - O que um poço faz aqui?  

Paramos juntos ao poço, debrucei-me com cuidado, era tão fundo. - Agora basta se jogar, menina. 

-M-me jogar?! - Logo me espantei. - Eu não farei nada disso, e não vejo castelo algum! 

-O Palácio dos Sonhos precisa ser bem escondido, não queremos que céticos o encontrem. 

-Então certamente não posso ir. - Retruquei. - Sou a pessoa mais cética que conheço.  

Cheshire se sentou na beira do poço. - Vamos, menina. Não vai se arrepender. E lhe garanto que terá respostas.  

Tomei uma dose de muiteza ao suspirar. Pensar que poderia ganhar respostas mudava todas as minhas expectativas. Levantei meu joelho e o apoiei no poço, por um momento hesitei e agarrei com força os dois apoios de madeira que sustentavam o balde enrolado na corda. - Cheshire, devo mesmo? - Olhei para o lado e já não se via o bichano.  

Estranhei tamanho a profundidade, era impossível um simples poço ser tão fundo. Mas quando saltei em nome de minha curiosidade, notei que o poço era mais um buraco que me levava a outra parte dos meus sonhos. 

Aterrissei agressivamente no chão, minha cabeça quase quicou com o impacto e quando me recuperei da queda encontrei o que eles chamavam de palácio dos sonhos. 

Era um castelo no meio do nada e feito de... Nuvens. 

Seu formato me lembrava muito Marmoreal. - Curioso... - Sussurrei quando decidi me levantar.  

A cada passo se ouvia vozes. Cheguei até a entrada e abri a porta que se tornou concreta com o meu toque. Soltei a maçaneta imediatamente com esse novo detalhe.  

A porta era de madeira e produziu um ruído quando o vento a fechou, por sorte ou não, eu já me encontrava do lado de dentro e o piso não era mais feito de vapor. Ele se tornou real assim que os meus pés o tocaram.  

-Majestade! - Os Tweedles me assustaram quando deixaram de correr pelo palácio e me cumprimentaram. 

-Então continuo sendo Rainha... - Sussurrei. - Eles sabem que sou soberana. Há um pouco de realidade aqui. 

Os irmãos se entreolharam.  

-Valentina pode brincar conosco? - Perguntou Tweedle-Dee e recebeu uma cotovelada do seu irmão que rebateu com certeza. ''É claro que não! Ela é da realeza, como o Rei costuma repetir!'' 

Eu me sentia mais confusa do que nunca, no entanto, decidi seguir as fantasias daquele sonho. - Eu sou a Rainha, e digo que a... - Esbocei uma careta, me esforçando para relembrar seu nome. - Valentina pode brincar! 

Eles sorriram animados um para o outro. - E onde está a coleguinha de vocês? - Perguntei, afim de encontrar qualquer coisa que fizesse sentido. 

-Está no quarto dela! - Responderam em coro.  

Sorri. - Pois vou ordenar que a chamem. - Pausei, apoiando minhas mãos no joelho. - E que quarto seria? 

-O melhor quarto do Castelo. - Respondeu Dum, um tanto emburrado. 

-Mas é claro que é o melhor, ela é a princesa!  

De repente, tudo parou.  

Um estalo em minha mente me fez entender o que acontecia. -P-pri-nc-es-a? - Nunca imaginei que gaguejaria tanto, pior que isso era sentir o meu coração subindo pela garganta, agora os irmãos Tweedles estranhavam ainda mais a saborena confusa a sua frente.  

Eu os deixei de imediato, subia as escadas que se transformaram em degraus de vidros reluzentes. Os corredores agora vazios, eram alvos dos meus pés ansiosos. Parei de correr em desespero quando cheguei até o quarto com o seu nome gravado a ouro na porta.  

Não sabia o que fazer direito. - M-minha filha... Filha do Stayne. - Era estranho imaginar. Mas os sonhos as vezes nos pegavam de surpresa. 

Lembro da vez que ele mencionou que teríamos uma criança. 

Então era verdade. 

Minha mão trêmula pousou na maçaneta, eu a girei devagar quase desistindo mas eu não poderia, simplesmente não poderia.  

Senti uma pequena dose de ansiedade quando vi um corpinho escondido no edredom macio e volumoso. Se prestasse muito a atenção, podia reparar na sua respiração tão lenta. Não ousei em me aproximar. Só deixei que os meus sentimentos falassem por mim. - F-filha? - A minha voz falhou. 

Esperava um retorno e quase sorri quando ela se mexeu no colchão. - Valentina. - A chamei um pouco mais alto. 

O edredom revelou a criança que acabara de acordar. 

Os meus olhos se arregalaram com a surpresa que tive.  

Valentina pulou do seu colchão e correu em direção da Rainha, ela abraçou as minhas pernas, aproveitando a maciez da minha saia. Eu estava em choque, perplexa, tanto que não poderia segurá-la. - Mamãe! - Aquela voz fina e animada me fez encará-la novamente.  

Tive muiteza para pegá-la, era o que queria. Eu a olhei bem: Seus olhos enormes, a pele branca como a neve, os lábios pequenos mas carnudos, revelando um sorriso largo de gratidão por me ver. Era carinhosa, brincava com os meus cabelos enquanto eu tinha curiosidade em ver os seus, que, estranhamente estavam escondidos por uma manta grande. Eu tirei a manta que cobria quase todo o seu rosto e me apavorei ainda mais quando reparei naqueles cabelos volumosos e... Avermelhados. - Buh! - Exclamou, risonhamente.  

Ora, ela jamais poderia ser a filha de Stayne. 

Consegui sorrir com essa conclusão. - Você é tão linda.  - Sussurrei, quase sem acreditar. 

-Vai passar o dia comigo como prometeu? 

Alisei seus cabelos.  -Oh, é claro. - Eu a levei até o colchão, ainda sem tirar os olhos dela e Valentina fazia o mesmo comigo.  

Ela continuava a sorrir.  

Eu estava completamente encantada. - T-t-udo bem. - Voltei a realidade depois de um devaneio de pensamentos. Me afastei, já desejando estar junto. Fui até o seu armário e procurei um vestido. ''Quero esse! '' - Pude ouvi-la pedir em seguida, seu dedinho apontava para um vestido colorido, no canto. Eu o peguei.  

Sentei no colchão e passei a despi-la, seu corpo ostentava manchinhas de intoxicação mas tais pontos esverdeados jamais tirariam a beleza da sua pele. - Mamãe... - Ela me chamou, enquanto passava o vestido por suas pernas. - Por que as cores existem? 

Sorri. - Eu não sei dizer.  

Alisava a sua bochecha. - Seu sorriso é como o do seu pai. - Os olhos da minha menina brilharam com tais palavras.  

-Eu gosto do sorriso do papai.  

Apalpei os seus cabelos, distraída com a ideia de ter uma filha.  

Passei a penteá-los, lentamente. Queria aproveitar aquele momento, mesmo não tendo a certeza se era real. - Mamãe. - Ela me chamava novamente, virando o seu rosto por cima do ombro para me olhar. 

-Sim?  

-Voltando as cores... - Murmurava, sorri. - Por que o céu é azul? E a água também? A água podia ser verde... - Cochichou. - Gosto muito de verde. 

-Meu amor, a água é transparente.  

-Eu vejo azul. - Cruzou os seus bracinhos, mas os esticou logo em seguida.  

-Por que o mar reflete a cor do céu. 

-No mar tem espelhos? - Retrucou.  

-... Oh, n-não mas...-- 

- E por que os meus dedos tem essas manchas?! Ninguém nunca me explicou, sempre fogem do assunto, aliás, o meu corpo tem muitas manchinhas, eu tenho muitas cores...  

-Como é tagarela... - Ri em seguida. - Isso eu não sei a quem puxou.  

-Está falando dos dedos? - Se virou. 

-Não. - Sorri, tocando sua barriga. - Digo sobre você ser uma tagarela! - Brinquei, permitindo-me lhe fazer cócegas em suas costelas frágeis.  

Valentina ria enquanto rolava pelo colchão.  

-O que está acontecendo aqui?! - Até que fomos surpreendidas.  

-Papai! - Exclamou minha filha, pulando do colchão e correndo em direção ao Rei. 

Stayne se esquivou. - Alice.  

Me levantei.  - Sim?  

-Não tem nada mais importante para fazer?! - Cruzou os seus braços. 

Sentia a indignação no tom de sua voz. ''Papai, veja o meu vestido! '' - Valentina pediu animada, no entanto, não recebia nem mesmo meio segundo de atenção.  

-Não há nada mais importante do que ficar com a minha filha. - Retruquei. 

''Papai, o vestido...'' 

-Então é assim que a grande Rainha de Wonderland pensa?! 

-Eu não pensaria de outra maneira! 

-Não foi assim que combinamos! - Apontou-me o seu dedo enquanto gritava.  

-Não permito que grite comigo! 

''Papai...'' - A pequena puxou a sua calça, Stayne se desviou.  

-Está quebrando nosso acordo. - Me acusou ao apertar o meu pulso, implorei para que me soltasse e minhas palavras saíram num gemido sufocante.  

-Não brigaremos na frente dela. - Sussurrei.  

O Rei de Wonderland por fim percebeu que havia uma criança ali. Uma criança que só esperava a atenção do seu pai. - É um belo vestido. - Disse secamente, mas as palavras pouco sinceras foram o bastante para que ela sorrisse.  

Ela passou a saltitar em seu quarto, esbanjando alegria. - Nós podíamos brincar juntos! - Propos. - A mamãe disse que vai passar o dia comigo, só falta o papai! - Tornou a mexer em sua calça, Stayne fechou os seus punhos.  

-Eu tenho mais o que fazer, Valentina. - Respondeu, sem tirar os olhos de mim.  

Minha pequena abaixou os seus ombros. - O senhor sempre diz isso. - Seu tom choroso partiu o meu coração. 

Ela era toda como o Tarrant.  

Era sensível e apegada. - Vamos brincar com ela, Stayne. Só um pouco... 

-Não farei as vontades dela! E prenda esse cabelo vermelho, está parecendo uma maluca! Use algo para escondê-lo, Alice! - Respirou fundo e finalmente se mostrou um pouco calmo. - Estarei em meu trono. Com licença. 

Eu não poderia deixar as coisas como estavam. 

Precisava consertar.  

Me preparei para segui-lo, mas Valentina me parou. - Mamãe, vai embora? 

A olhei. Aquela criança triste e solitária. - N-não meu amor, eu já volto. Fique ai.  

Eu o procurava pelos corredores quando percebi uma silhueta ostentando uma grande coroa na cabeça, atravessei o corredor seguinte e o parei ao chamá-lo. - É assim? - Ri. Stayne me encarava. E aproximei. - Acha que esconder o cabelo dela com uma manta esconderá quem ela é?! 

-Alice, não me venha com os seus sermões! - Berrou. - Você a trouxe para esse mundo, você errou! 

-Como pode dizer que ela foi um erro?! 

Prensou seus dentes, quase os quebrando e apertou o meu punho com força, os seus olhos chamuscavam raiva enquanto o seu rosto se tornava vermelho. - POR QUE NÃO FOI COMIGO! 

Estava prestes a cuspir em seu rosto, mas fomos impedidos. - Papai... - Valentina parava no corredor, sorrindo. Stayne e eu tratamos de disfarçar, limpei minhas lágrimas rapidamente. - Eu quero te mostrar uma coisa que fiz, tento mostrar tem dois dias!  

Ele arfou impaciente.  

Passou a mão no rosto com pesar. Notei quando ele a inspecionou de cima até embaixo, Valentina estava descalça e seus cabelos vermelhos mantinham-se bagunçados e para o alto.  - Mostre logo! 

Ela revelou um papel atrás de suas costas. - Fui eu que fiz! - Havia um desenho criado com giz de cera e pó de vagalume para dar brilho. Sorri. - Somos nós três, o senhor, a mamãe... E eu no meio!  

Me agachei para ver melhor. - Minha filha, é um lindo desenho. - Olhamos juntos para o Valete. - Não é mesmo?  

Revirou os seus olhos. - Você não tem dom para isso, Valentina. É melhor ocupar o seu tempo com outras coisas. 

-N-não g-gostou? 

Arfou. - Alice, conversaremos depois. 

O olhei. - Ela te fez uma pergunta. É um lindo desenho. - Cruzei os braços. -  Nós três, uma família.  

- Família... - Murmurou, no entanto, não conseguiria jamais imaginar uma bastarda como filha. - ESTOU FARTO!  

Ele a pegou pelo pulso e só pude assisti-la sendo arrastada por seu pai ausente. Ela chorava e berrava ao mesmo tempo até ser posta em seu colo a força. Eu o segui com desespero, clamando para que ele a deixasse em paz. Ambos chegaram ao quarto, onde ele a deixou sobre a penteadeira. - Quantas vezes devo repetir que eu não quero esse cabelo solto?! - Ele puxava suas madeixas com força, tentei impedi-lo pressionando o seu braço mas a minha força não lhe fazia nem cócegas.  

Escondeu os cabelos com uma manta, Valentina se acalmava a medida em que acreditava ser ''cuidados'' do seu pai.  

Na minha visão, aquilo era puro orgulho. - Ficou muito melhor agora... Minha filha. - Murmurou o homem, sorrindo pela primeira vez.  

Ela estava séria. - Papai... Por que não gosta de mim? 

Como todos os loucos, Valentina também possuía seus momentos de sanidade.  Momentos esses que sempre causavam um silêncio avassalador. Eu o olhei, imaginando a resposta que se criava em sua mente. Stayne tornou a forçar o seu sorriso e apalpou os cabelos bem escondidos da menina. - Eu gosto sim, é claro que gosto. Minha... - Engoliu em seco e me olhou, cerrando os seus olhos. - Filha.

Eu podia sentir uma culpa subindo por minhas costas. 

Se aquilo era apenas um sonho, eu não gostaria que virasse realidade. Não assim. - Bom... - respirei fundo e retornei, pegando em seu bracinho pálido. - Vamos passear, minha filha? - Sorri.

E acho que a convenci, afinal, ela retribuiu o sorriso de volta e notei duas covinhas profundas embelezando suas bochechas.

A peguei, colocando-a em meus braços, esse era o melhor sonho que eu poderia ter mas admito que no fundo me perguntava onde estava Tarrant, eu não o vi em lugar algum e esse pequeno detalhe era capaz de me assustar. - Foi um belo desenho. - Comentei enquanto a levava pelo corredor.

-É verdade? - Suas iris brilharam, assenti.

-Claro que sim, eu nunca mentiria para você. - Alisei o seu rosto mais uma vez, tinha certeza que nunca me cansaria disso. 

Deixamos o castelo depois que descemos as escadas, e quando deixei o Palácio dos Sonhos, tive o desprazer de acordar.

Acordei ofegantemente, o meu coração disparava como se eu acabasse de vencer uma corrida de obstáculos. Os ponteiros do relógio de parede me diziam que ainda era madrugada. - O que foi tudo isso, afinal?! - Limpei o suor que se acumulava em minha testa. Eu precisava encontrar o Cheshire, ou qualquer pessoa que pudesse me dar alguma explicação.

Levantei-me com ansiedade e mais uma vez me pegava caminhando sem rumo pelos corredores vazios e escuros do meu Marmoreal. Eu chamava pela bola de pelos, sem ter a certeza de que seria correspondida. 

''Eu preciso falar com você. '' - Pensava para mim mesma quando decidi que o visitaria. 

Bati na porta do seu quarto após suspirar, não esperei resposta alguma do outro lado e girei a maçaneta. Acabei com a escuridão do seu comodo ao ligar a luz, Tarrant reproduziu um ruído enquanto se ajeitava por baixo das cobertas. Tive o cuidado de não me aproximar o bastante e chamá-lo com a ternura que havia perdido nesses últimos meses. - Chapeleiro. - Sorri depois de chamá-lo daquela forma. 

-Chapeleiro, por favor, acorde. - Me mantive no mesmo lugar. 

Acho que consegui despertá-lo. Ele se ajeitou, sentando-se em seguida. Os cabelos estavam para o alto e a sua expressão confusa me dizia que ele queria entender o que se passava. - Vim vê-lo. - Avisei, sorrindo. Ele coçou um dos olhos.

-E-e-esta-va d-descansando um po-uco.. - Levantou. - Maj-jes... - Eu o impedi de concluir sua fala ao tocar os seus lábios com os dedos.

-Escute. É importante. S-sonhei... - Sorri. - Com a nossa filha. - Ele sorriu, mesmo que pouco. - Ela é maravilhosa. - Toquei em seu rosto, descendo até a sua nuca. De repente, o que parecia ser um sonho perfeito transformou-se num completo pesadelo. - Mas você não estava conosco. 

-S-sim, sim... Eu sinto muito, Alice. - Tarrant se afastava. - Agora mais do que nunca tenho certeza que se casará com o Valete. - Me olhou. - Ele havia me avisado a muito tempo, e-estava no Oráculo. Mas eu não quis acreditar. - Nos aproximamos

-Jamais me conformarei com a sua escolha. - Queria evitar tocar naquele assunto. - Vim falar do meu sonho... - Voltei a sorrir. - Acho que... Se eu sonhei com ela, é por que eu e você... - Ele me ouvia com atenção. - Ou m-melhor... Q-que você vai esquecer essa escolha e desistir da Morte, por mim. 

Ele negava teimosamente com a cabeça.

-Entenda, Tarrant. Eu sonhei com a nossa filha. Isso é bom, é ótimo! - Eu queria convencê-lo de todas as formas, mas sentia que não estava nem perto disso. 

Hightopp me olhou, triste e intensamente. - Se é uma filha que quer de mim, Alice. - Pausou. - Eu tenho uma solução muito simples.

Passei a entender aonde o insano queria chegar quando o mesmo puxou o meu pulso e me trouxe carinhosamente para mais perto.

~*~

Stayne forçou uma tosse rouca e voltei a realidade da cerimônia, toda a atenção era inteiramente para mim. E o Coelho havia terminado de pronunciar suas últimas palavras. - Stayne, você aceita Alice Kingsley, a Rainha de Wonderland, como sua legitima esposa? Para amá-la e respeitá-la, até os últimos dias de sua vida? - O futuro Rei já sacudia a cabeça em afirmativa antes que o Coelho completasse.

-Claro que aceito. - E sorriu torto. 

Respirei fundo, a mesma pergunta era direcionada para mim. 

Olhei para o homem inconsolado na última fileira de bancos, não havia como voltar atrás. Era tarde, muito tarde. - Majestade, aceita ou não?

Fechei os olhos, a minha resposta era o contrário do meu desejo. - Sim, eu aceito.

-Pois bem. - Sorriu o Coelho de Paletó antes de ordenar. - Pode beijar a noiva.

O meu coração disparava a medida que sentia os seus lábios quase juntos aos meus, Stayne se aproximava para provar o seu amor diante de todos embora o som do arrastar da madeira me trouxesse uma grande distração. Por poucos segundos ousei em me distrair e percebi algo que me preocupou: Tarrant deixava o seu lugar, abandonando o jardim.

Eu sabia tamanho a loucura que ele cometeria a seguir, simplesmente não poderia permitir. - Tarrant! - Gritei por seu nome e antes de ser puxada por meu marido, abandonei o altar.  - TARRANT!  - Alguns soldados tentaram segurá-lo, afinal, era a Rainha que o chamava insana e desesperadamente.

Mas ele se apartou dos soldados com violência. Não ousava olhar para trás, não queria encarar os meus olhos embaçados. De acordo com o Chapeleiro, tudo o que desejava era tirar aquela dor de seu peito. 

 


Notas Finais


Curtiram???

SERÁ QUE SÃO OS CAPÍTULOS FINAIS???
O QUE ALICE VAI FAZER?? COMO O STAYNE VAI REAGIR???


~~~ah, deixei subentendido o que aconteceu entre o casal Chalice no quarto.


*Valentina tinha 3 anos nesse sonho.


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