História Armário dos Rótulos - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags Bts, Kookv, Taekook, Vkook
Exibições 77
Palavras 2.450
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


DIS¹ - Daegu Internacional School.


Boa leitura~

Capítulo 1 - O garoto gay e a nova escola


Se dependesse do meu pai, minha vida inteira seria gravada. Eu faço qualquer coisa e ele pega o celular.

— Sojin! — grita para minha mãe. — Tae está comendo cereal. Temos que filmar isso.

Ele fala “filmar”, como se, em vez de um iPhone, tivesse toda uma equipe de cinegrafistas ali, me filmando. Então, quando ele estacionou seu híbrido diante de uma enorme construção com fachada de pedra e eu saí do carro para examinar minha nova casa pela primeira vez, não fiquei surpreso de ele ter pegado o telefone imediatamente.

— Aja como se você estivesse chegando em casa depois de três anos servindo ao Exército — disse ele, com o olho esquerdo escondido atrás do aparelho. – Faça umas piruetas, vire estrela.

— Não acho que soldados façam piruetas — retruquei. — E... não.

— Pelo menos eu tentei.

O problema é que ninguém jamais assiste a esses vídeos. Já vi meu pai gravar o equivalente a semanas, mas nunca, nunca o vi assistir a nenhum deles, nem cumprir as ameaças de publicá-los no “Face”, como ele diz.

— Se você não guardar esse celular, vou jogá-lo longe — falei. — Sério. Chega.

Ele tirou o aparelho da frente do rosto e me lançou um olhar magoado enquanto permanecia, parado ali de pé, os joelhos ossudos reluzindo ao sol.

— Você não vai jogar meu filho longe.

— Pai. Eu sou seu filho.

— É, mas você não grava vídeos.

Ele guardou o outro filho no bolso e ficamos ali em pé, um do lado do outro, espantados com a fortaleza de pedra que seria o meu dormitório, na ala leste. À nossa volta, outras famílias descarregavam caixas e malas na calçada.

Garotos trocavam apertos de mãos e davam “soquinhos”, como velhos amigos. O dia estava abafado, e o grande carvalho perto da entrada era o único abrigo contra o sol escaldante. Alguns pais se sentaram na grama, observando a caravana de carros passando. Cigarras cantavam, aquela sinfonia invisível invadindo meus tímpanos.

— Bem, não é assim que fazem isso lá em Daegu — disse meu pai. Ele apontava para a antiga construção, provavelmente erguida até mesmo antes de Daegu se tornar uma cidade.

— Com certeza não — respondi, as palavras quase entalando na minha garganta.

Senti como se eu tivesse feito todos os deveres de casa e gabaritado todos aqueles testes por uma razão. Finalmente, ali estava. Minha chance de mudar. Na escola Yonsei School eu poderia ser apenas Tae. Não o filho colorido de Sojin e do louco do Jinwoo. Não o menino “diferente” do time de futebol. Não o garoto declaradamente gay que calculava todos os passos que dava.

Talvez, olhando de fora, eu fosse mesmo isso. Sim, eu saí do armário. Primeiro para os meus pais, quando eu cursava o oitavo ano, depois na DIS¹, no nono ano. Porque é uma escola aberta e compreensiva. Um lugar seguro. E então meu time de futebol se reuniu e todos ficaram sabendo. O resto da família, amigos de amigos. Tae. Gay.

E ninguém surtou. Ninguém ficou arrasado, assustado ou se sentiu insultado. Não muito, pelo menos. Tudo correu super bem. O que é bom, claro.

Mas um dia acordei e me olhei no espelho, foi isto que eu vi:

Tae. Gay. Gay. Gay. Gay.

Gay. Gay. Gay. Gay. Tae.

Para onde Tae tinha ido? Onde eu estava?

A imagem diante de mim era tão bidimensional que não conseguia me reconhecer nela. Eu parecia tão invisível no espelho quanto na manchete que o Jornal Local de Daegu tinha publicado um mês antes: “Estudante gay do ensino médio fala abertamente.”

Na verdade, havia muitos motivos para eu me mudar para a Capital do país e fazer o penúltimo ano na Yonsei. O problema é que é difícil explicar alguns deles para determinadas pessoas — a presidente da associação de Pais, Parentes e Amigos de Gays e Lésbicas de Daegu, por exemplo. Ela não entenderia que, embora tenham tornado mais fácil a vida de um garoto gay, o garoto gay ainda queria ir embora.

Ainda mais se a presidente da PPAGL de Daegu é a sua mãe.

Talvez eu tenha omitido algumas verdades. Quero dizer, não estava mentindo ao falar que queria ir para uma escola mais parecida com Seul Nacional University; eu queria mesmo. Minha mãe ficou preocupada que um colégio interno exclusivo para rapazes pudesse ser um ambiente homofóbico, mas expliquei que não só havia uma Aliança Gay-Hétero em Yonsei como, no ano anterior, um ex-aluno que é jogador de futebol americano e gay assumido foi lá dar uma palestra. Saiu até um artigo no Chosum Ilbo, um dos maiores jornais de Seul, sobre isso, sobre como até uma escola como Yonsei estava se ajustando à “nova ordem mundial” em que ser gay é ok. Então minha mãe ficou satisfeita. E, sem que ela soubesse, isso me daria a chance de viver livre de rótulos.

Na noite anterior, meu pai e eu jantamos no restaurante vietnamita no caminho para cá. O que ele não percebeu, enquanto comíamos macarrão de arroz e frango em cestinhas de alface, foi que eu silenciosamente me despedia de uma parte de mim: meu rótulo. Aquela palavra que me definia como uma coisa só.

Muitas vezes isso me limitava.

— Dez wons pelos seus pensamentos — disse o meu pai. Era a inflação, explicou.

— Estou só viajando — respondi.

Eu estava pensando em como as cobras trocavam de pele todo ano e como seria maravilhoso se as pessoas fizessem isso também. De muitas maneiras, era o que eu queria que acontecesse.

Como se no dia seguinte eu fosse ganhar uma nova pele que pudesse ter qualquer aparência, ser diferente de tudo o que já conhecera. E isso me fez sentir um pouco como se eu estivesse prestes a nascer. De novo.

Meu pai abriu o porta-malas e começou a descarregá-lo, colocando minhas malas e caixas no concreto quente. O suor brotava na minha testa e pingava no lábio superior enquanto eu fazia um esforço enorme para levantar uma caixa que tinha se enfiado debaixo das malas. Era um calor úmido, algo que experimentei pela primeira vez quando chegamos ao Meio-Oeste, talvez em Daejeon. Nunca estivera tão longe do meu lugar antes dessa viagem e agora ali estava eu, prestes a morar em uma capital gigante.

Depois de quatro longas e suarentas viagens de escada até o quarto andar, deixei todas as minhas coisas no dormitório. Meu colega de quarto, um garoto chamado Park Jimin — pelo menos de acordo com o e-mail que eu tinha recebido — não se encontrava ali, mas vimos as tralhas dele assim que abrimos a porta.

Seu lado do quarto estava uma bagunça. Como se tivesse acontecido um terremoto. Sobre o piso de linóleo, havia móveis comuns: duas mesas de madeira falsa uma do lado da outra, duas cômodas brancas aos pés de duas camas de solteiro de metal, em lados opostos. Mas havia uma caixa de cereais aberta, com flocos espalhados pelo chão. Um travesseiro, sem fronha, tinha cruzado o cômodo e aterrissado embaixo da minha cama, junto com uma camiseta preta, um livro de ciências e o que parecia ser uma máscara com um par de óculos preso a um nariz e um bigode falsos.

Jimin devia ter chegado um dia antes de mim, já que os dormitórios haviam sido abertos na véspera. Ainda assim, pelo menos cinco latas de refrigerante amassadas jaziam embaixo e em volta da cama desarrumada.

No centro do quarto havia duas malas abertas, ainda cheias, com as roupas saindo pelas laterais. Na escrivaninha dele, vi dois MP3, ou MP4, e um rádio com um monte de botões. Na parede sobre a cama, ele colara um intimidante pôster de um carro explodindo. Na parte inferior, em grandes letras vermelhas, lia-se: Planeta Sobrevivência.

Olhei para meu pai e arregalei os olhos. Ele abriu aquele meio sorriso irônico de quem saboreia algo que pode lhe ser útil depois. Eu sou do tipo que guarda panos de limpeza no armário, e ele me conhecia bem o bastante para saber que eu estava horrorizado com aquela calamidade.

Desabei na cama que meu colega deixara intocada. Papai parou na entrada e pegou o iPhone, e eu gemi.

— Uma combinação perfeita — disse ele, tirando uma foto panorâmica do quarto.

Nada era mais irritante do que ver que uma opinião do meu pai se provava correta. Durante três dias, e ao longo dos vários quilômetros que tínhamos percorrido, ele ficou dizendo que eu estava cometendo um erro. Essa seria a hora de negar, insistir na minha ideia, mas parecia inútil discutir. Se meus pais tivessem pagado meu colega para fazer meu novo quarto parecer a pior moradia possível para mim, seria exatamente assim.

Então me rendi. Apoiei a cabeça nas mãos e a balancei de um jeito exagerado, como se estivesse realmente chateado.

— Isso não é um bom sinal — falei.

Meu pai riu, aproximou-se e sentou ao meu lado, passando o braço pelo meu ombro.

— Olha. Isso é o que é – disse ele, sempre o grande filósofo.

— Eu sei, eu sei. Tenho que fazer minhas escolhas e aceitar as consequências. Sou livre para cometer meus próprios erros.

— Ei – continuou ele, dando de ombros. — O universo é infinito.

Na língua do meu pai, isso significava: Sou só um cara. O que eu sei da vida? Ele se levantou.

— Quer que eu o ajude a desfazer as malas? — perguntou, com a voz de um homem que ia encarar uma viagem de volta de muitos quilômetros e não estava nem um pouco a fim de guardar camisas em gavetas naquele momento.

— Eu cuido disso — respondi.

— Tem certeza?

— Tenho.

Papai foi até a janela, e me juntei a ele. Meu dormitório ficava nos fundos do alojamento, com vista para um enorme gramado. Lá fora, garotos haviam se dividido em grupos e jogavam frisbee. Garotos, todos garotos. Muito conservadores, estilo Coréia do Sul. Não pareciam muito diferentes das fotos na internet, aquelas que despertaram meu interesse. Mas bem distantes do que aquilo que eu via do meu colega de quarto.

— Tem certeza de que este é o lugar certo para você?

— Eu vou ficar bem, pai. Não se preocupe.

Meu pai olhou pela janela, como se todo aquele lugar o deixasse triste.

— Kim Taehyung. Na Yonsei School. De algum modo isso não parece certo — insistiu ele.

Sim, meu nome é Taehyung, mas escolhi o apelido Tae no quinto ano, e tenho insistido nele desde então.

Meu pai atravessou o quarto, me deixando sozinho na janela, e vi um garoto arremessar um frisbee por uns 45 metros. Ele virou a câmera para mim e fiz uma careta.

— Vamos. Um vídeo para a mamãe — disse ele, e dei de ombros.

Fui até o meio do cômodo, perto dos cereais espalhados no chão, e apontei para baixo, como se fosse um guia turístico em frente a Torre Eiffel ou Coliseu. Meu pai riu. Então corri até a cama do meu colega de quarto, juntei minhas mãos e inclinei a cabeça sobre elas, como se dissesse: Estou apaixonado!

Com a gravação ainda rolando, voltei para a janela, tentando pensar numa pose divertida. Mas então algo estranho aconteceu. Senti um frio na barriga e mordi o lábio. Não sou muito bom em demonstrar emoção, o que tornou tudo mais esquisito. Achei que eu ia sucumbir e começar a chorar, duramente ciente de que, assim que meu pai fosse embora, só haveria pessoas desconhecidas ao meu redor. Ele deve ter notado algo, porque baixou o telefone, se aproximou e me deu um abraço suado.

— Você vai ser um astro de qualquer área quando sair daqui, Tae – sussurrou em meu ouvido.

Essa era uma das coisas que ele sempre dizia, desde que eu tinha 5 anos e fui para o jardim de infância. Eu ia ser um astro na caixa de areia do parquinho, ia ser um astro na orquestra do sexto ano e agora ia ser um astro na escola nova.

— Eu amo você, pai – falei, um pouco engasgado.

— Eu sei. Também amamos você, cara. Vá se divertir, conhecer pessoas novas... — aconselhou ele, quase tropeçando na caixa de cereal ao me soltar e caminhar até a porta — ... arrumar um namorado.

Fiquei tenso. Não era exatamente aquilo que eu queria anunciar na minha primeira hora na Yonsei. Havia garotos passando, mas ninguém parou para olhar.

— Dê um abraço na mamãe por mim – falei, e o abracei mais uma vez

— Um último videozinho? – perguntou ele, apontando o iPhone para mim outra vez.

Coloquei a mão na frente do rosto, como se fosse uma celebridade cansada de tirar fotos. E era mesmo.

Não uma celebridade, mas um garoto cansado da câmera. Quando você é o filho gay de Kim Jinwoo e Sojin, sempre tem a sensação de que está sendo observado. Mas isso não necessariamente acontece de um jeito ruim. As pessoas apenas observam. Porque você é interessante e diferente. O problema é que você não sabe o que elas estão vendo. E esse é o tipo de coisa que pode deixar um cara louco.

Papai entendeu o recado e guardou o telefone no bolso pela última vez.

— Tchau, filho — despediu-se, enquanto um sorriso doce e único surgia em seu rosto.

— Tchau, pai.

Então ele me deixou sozinho no meu novo mundo, olhando para a página quase em branco que era o meu lado do quarto.

 

 

Uma coisa que eu não percebi quando idealizei minha vida idílica em Yonsei foi que a realidade não incluía ar condicionado. O prédio do alojamento era antigo, acho.

Escancarei a porta e as janelas para que o ar circulasse um pouco, mas isso não ajudou muito a refrescar o quarto opressivo ou diminuir meu calor. Então, enquanto enfiava minha segunda mala vazia no armário, decidi tomar um banho. Pelo cheiro que eu estava sentindo, minha data de validade parecia ter passado havia semanas.

Um garoto zuniu pela porta, até que ouvi os passos diminuírem e pararem. Ele voltou. Parado na entrada do meu quarto, com uma camiseta azul royal, estava um garoto alto, com um corpo legal, cabelos pretos, olhos também escuros.

— E aí, cara? — cumprimentou ele. — Está rolando um jogo lá embaixo, você quer... Meu Deus!

— O quê? — perguntei, olhando para trás.

— Você é igualzinho ao Byun Baekhyun.

— Quem?

— Um garoto daqui. Ele se formou ano passado. Mega popular. Você poderia ser irmão dele.

— Ah – murmurei, o coração disparado.

— Fui o primeiro a falar isso para você? — perguntou ele, revelando dentes brancos perolados perfeitos.

Sorri de volta, fascinado por ele. Torci para não estar corado.

— Você é o primeiro a falar comigo. É a primeira pessoa que conheço aqui.

— Está brincando? Bem, vamos descer. Estamos jogando futebol e seria bom ter mais um ou dois participantes. — Ele estendeu a mão. — Meu nome é Jung Hoseok.

— Eu sou Tae.

— Você vem?

— Hum, claro — respondi.

O banho definitivamente podia esperar.



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