História As Cartas do Professor Davie - Uma Vida em Berlim - Capítulo 4


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Categorias David Bowie
Personagens David Bowie, Personagens Originais
Tags Berlim, David Bowie, David Jones, Drama, Drogas, Londres, Opressão, Violencia
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Palavras 3.607
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Colegial, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Ficção, Hentai, Mistério, Musical (Songfic), Romance e Novela, Saga, Suspense, Violência, Visual Novel
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Spoilers, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 4 - As Cartas do Professor Davie


Fanfic / Fanfiction As Cartas do Professor Davie - Uma Vida em Berlim - Capítulo 4 - As Cartas do Professor Davie

1.

Querida Diana;

 

      Eu não sei como isso aconteceu. Já faz alguns dias e meu coração está apertado como nunca. Talvez seja culpa minha, sei que é. eu não acredito nisso ainda, parece que é uma mentira. Você estava certa, eu sei. Sempre esteve certa.

      Eu sou um idiota. Sei disso. De nada me adianta viver sem você, Diana. Nem sei como seguir em frente. A minha vida virou uma coisa cinza e sem vida depois que te perdi.

      Nem sei como começar. É minha primeira carta, talvez a primeira de muitas. Nem sei como te pedir perdão. Meu perdão não serve de nada, agora. É tarde demais. Eu sou a causa de tudo de ruim que aconteceu na nossa vida. Talvez o pior dos seus problemas. Me tornei isso, com o tempo.

      Eu perdi o sorriso que tinha. Só sorrio quando vejo a sua foto, a sua imagem. Seus filhos mereciam um tio melhor. Sei que errei, não durmo a quase uma semana, e talvez você não leia isso, o que é bem provável. Mas eu preciso de paz. Você agora tem paz, eu não. Eu sou culpado por tudo, sua família me odeia e não é para menos. Eu mereço esse ódio.

      Se eu pudesse voltar no tempo, e dizer algo para mim, diria que estava errado. Que minha vida viraria isso. Que perderia o único motivo que eu tinha para acordar de manhã. Eu perdi você por conta de uma briga idiota. Perdi minha irmã, minha amiga, meus sobrinhos...

      Tudo isso por conta de um livro. Aquele maldito livro que está sobre minha estante. Eu não vou te culpar, não tenho esse direito, mas queria que você soubesse que minha vida nunca mais vai ser feliz. Aquele livro vai ficar lá. Eu não consigo tirá-lo. Espero que esteja feliz, Diana, você conseguiu: eu estou preso à você, querendo ou não.

 

3.

Essa é minha segunda carta, Diana.

      Sei que me odeia. Você deve estar no céu, se isso existir. Sei que não deveria, mas estou bravo com você. Brigamos por causa de um livro! Um livro que eu nunca li na vida e nunca vou ler!

      Aquela bíblia sobre a minha estante está me assombrando. Ou você, não sei. Eu sinto a sua falta. Sinto falta da Julinha e do Pedro correndo pela casa. Eu tenho a foto deles, aquela que a gente tirou no aniversário do Pedrinho, na casa da nossa mãe. Ela, aliás, me odeia e não é para menos. Nosso pai, então, nem olha na minha cara, e disse que se eu puser meus pés lá ele me expulsa. Não sabe a vergonha que passei vendo meus livros todos encaixotados na varanda, com uma carta dizendo que ninguém mais queria me ver nem pintado de ouro.

      Eu me sinto mal, Diana, e você sabia disso. Sabia que eu não tinha mais nada além de você, e mesmo assim me odiou. Eu sei que não sou a melhor das pessoas, mas você também não era a mais agradável delas.

      Minha namorada, Sarah, terminou comigo por sua causa. Ela disse que nunca mais queria me ver, e vem fazendo isso. Seu marido, seu amado marido Willian, nem pôs os pés aqui no dia do seu velório. Meus parabéns, você casou com um idiota que te traiu por metade da sua vida.

      Aliás, eu te contei isso, várias vezes. E você me dizia que não, que eu estava louco. Acho que agora, se visse isso, me pediria desculpas. Mas quem deve desculpas agora sou eu, sei disso e não precisa me lembrar. Eu venho te ver todos os dias.

      Mamãe é outra que nunca veio aqui. Ela só veio no dia em que te colocaram nesse lugar, e depois sumiu. Nosso pai nem vem, disse que vai deixar você descansar em paz. O que ele quer na verdade é esquecer de você, assim como esqueceu de mim.

      Maninha, se eu pudesse, trocaria de lugar com você. Queria queimar no inferno só para te ver de novo com a Julinha e o Pedrinho, tentando colocar eles para dormir enquanto eles fugiam do banho.

      Desculpe pelas marcas na carta, comecei a lembrar de tanta coisa que acabei não me segurando. Você sabe que eu sou um completo molenga, e que meu coração é uma gelatina. Mesmo assim, eu briguei por uma bíblia. Me perdoe.

      E, se puder, avise para o seu deus (se você estiver com ele) que eu estou disposto a trocar de lugar com você.

 

5.

Hoje eu fiquei olhando as fotos da gente quando era criança no sitio da vovó. Lembra? Ela fazia bolo de chocolate para a gente e deixava subir nas arvores, enquanto a nossa mãe nos mandava descer.

      O tumulo dela está abandonado. Eu visitei, um dia desses, e coloquei uma foto nova. Mandei arrumar o mármore, semana que vem já vai estar pronto. Se ver ela por aí, manda um beijo para ela, diz que eu estou com saudades.

      Hoje eu encontrei aquele seu diário antigo, de quando a gente recém tinha saído da faculdade. Não adianta ficar irritadinha, eu vou ler, e finalmente vou descobrir porque você e a mamãe brigaram. E não adianta vir puxar meu pé à noite, eu só quero saber o que aconteceu.

      Eu não estou conseguindo dormir, ainda. Estou parecendo uma múmia, mas tudo bem, eu sei que mereço. Espero que esteja bem, e, se puder, diz para a Julinha que eu vou ler o livro que ela queria, e diz pro Pedrinho cuidar bem de vocês porque o tio dele é um idiota que não conseguiu fazer isso.

      Espero que um dia você me perdoe, e que um dia eu possa voltar a dormir.

 

7.

Diana, entrei para o seu time. Descobri que a Sarah estava com um tal de Thiago, eu levei um belo de um chifre. Se você estivesse aqui, provavelmente a gente estaria comendo brigadeiro no sofá e vendo alguma série na Netflix, enquanto as crianças dormiam.

      Eu realmente precisava de um conselho seu agora. Precisava de um abraço da Julia. Precisava até do Pedro para jogar um pouco de futebol e levar uns gols atrás de casa. Precisava de tudo isso.

      Você deve estar feliz, isso me conforta um pouco. Mas não tira minha culpa. Eu sei que é culpa minha, e que nunca vou ter calma. Minha vida é um fardo. Eu sou um fardo. Queria poder pedir desculpas para você, dizer que a sua bíblia não era uma ficção e que as crianças deveriam crer em algo, mesmo que eu não achasse que isso fosse verdade. Aliás, nem sei porque eu não creio em Deus. Mas eu rezei ontem. Rezei por você e pelas crianças. Acho que estou criando um pouco de fé por esse ser. Mas não vou virar um cristão, acredite. Eu apenas estou lendo por você e pelos meus sobrinhos. Porque eu amo vocês.

      Sinto falta da Julinha, que me acordava de manhã dizendo que eu estava atrasado para as aulas. Eu cheguei atrasado todos os dias, mas isso parece que não faz diferença para os meus alunos. Eles me odeiam, assim como voc

 

9.

Hoje não estou bem. Saí do hospital hoje, e meu corpo está mais fraco. Desmaiei na aula, não comia faziam alguns dias. Nossa mãe foi me ver, mas depois que viu que eu não morri, foi embora. Aposto que ela e nosso pai iriam adorar me ver enterrado no seu lugar. Iriam dançar no meu túmulo.

      Uma aluna minha se preocupou. Pietra, coincidência, não? ela gosta da minha aula, ou pelo menos finge bem. Ela foi me ver no hospital e levou um livro para mim, aquele do camões que fala que amor é fogo que arde sem se ver, coisa e tal. Ela ainda colocou uma dedicatória: de sua aluna e amiga, Pietra Henson.

      Aliás, sinto-me mal por Pietrinha, minha sobrinha que nem teve a chance de nascer. Tudo por culpa minha. Faltavam só alguns meses, e eu estraguei tudo... você estava tão feliz...

      A Julia estava doida para ter uma irmãzinha, mas eu tirei isso dela também. O Pedro tinha ciúmes, mas também estava feliz. Só eu que fui o culpado do fim da felicidade deles. A bíblia continua lá, cheguei em casa hoje e nada me parecia diferente. Exceto a minha figueira, ela está morrendo. Tudo parece que está morrendo. Até a florzinha de plástico que estava sobre a geladeira está meio murcha.

      Tudo naquela casa lembra do que eu fiz. A boneca da Julia ainda está no sofá, e a bola do Pedro está debaixo da cadeira. Não tem louça suja, só do nosso último jantar antes da briga, pois eu não estou comendo nada.

      A sua fotografia de formatura está na sala, perto da televisão. Está meio empoeirada, mas está lá. Eu chego da escola e vejo ela. Lembro daquele dia, quando você estava vermelha de medo de subir para pegar o diploma da faculdade. Eu estava formado, e você queria muito pegar o diploma de medicina. Você era o orgulho da família. A mamãe sempre teve orgulho de você, o pai também. Eu também.

 

11.

Diana;

 

Meu mundo está desabando. Parece que, depois que você se foi, minha vida acabou. Todo mundo me olha torto. Todos os meus conhecidos me tratam como um assassino. Talvez eu seja. Eu causei a morte de quatro pessoas por uma bíblia. Eu vou um monstro.

      Aquela briga não sai da minha cabeça. Foi tudo tão rápido, tão difícil... tudo o que foi causado por uma maldita bíblia! Eu realmente não entendo o significado daquele livro horroroso e de capa velha. É um simples livro!

      Um simples livro que levou minha irmã. Você sempre quis me fazer lê-lo, mas depois disse, o máximo que eu vou fazer com ele é atear fogo. E ainda como as cinzas, se duvidar.

      Se for pecado, azar, não ligo, aquela bíblia levou você de mim e me deixou sozinho. Levou meus sobrinhos, minha irmã, minha felicidade, meu namoro, meus pais e minha vida. Eu perdi tudo, tudo por causa de um maldito livro. O livro.

      Ela ainda está na estante. Nem toquei, talvez eu toque fogo, mas não agora. Por enquanto, não consigo nem chegar perto. Talvez ela fique lá, mas não porque eu quero.

 

13.

Diana, Diana;

 

Acabei de descobrir que o seu “querido” William está namorando a sua amiga, Sophie. Bela amiga, hein?

      Bem, ela está com ele, e está grávida. Meus parabéns, maninha, você é uma corna oficialmente. Mas não posso falar nada, a Sarah me traiu com metade do bairro e eu nem desconfiei. É bem provável que ela volte, mas pedindo pensão por um filho de um outro.

 

15.

Querida Julinha;

 

Essa carta é para você. Eu acho que esqueci de dizer muita coisa para você, Julinha, muita coisa mesmo.

      Você foi a minha primeira sobrinha. Eu fiquei que nem um louco correndo para comprar as coisas que a sua mãe queria quando tinha desejos durante a gravidez. O seu pai nem ligava, mas eu, por mais tio relapso que fosse, estava lá.

      Aí você nasceu, e eu comecei a me tornar mais presente na vida da família. Você podia não lembrar, mas eu cuidava de você, te colocava para dormir... sinto falta daquela época, sinto falta de você.

      As suas bonecas ainda estão no seu quarto. Vão ficar lá, todas elas. A Betty disse que está com saudades, e a Lulu disse que vai parar de chorar à toa. Eu vou cuidar delas para você, Julia, eu prometo.

      Aliás, a Marcia não está mais no sofá, eu coloquei ela na sua cama, como você fazia. Os seus livros estão do mesmo jeito, não vou mexer neles (por mais empoeirados que fiquem), eles estarão lá, se precisar.

      Ah, e, antes que eu me esqueça, queria pedir perdão por todos os meus erros. Sei que fui um tio ruim. Mas eu sempre estive perto de você quando precisou. Eu vi você se apresentando na escola, eu fui às reuniões quando a sua mãe não pode, e eu te busquei na escola. Eu posso não ter feito mais do que o meu dever, mas espero que um dia você me perdoe por ter te causado isso.

 

16.

Pedro;

 

Você sempre foi mais turrão, mas nem por isso eu deixei de gostar de você. A sua bola de futebol e as suas chuteiras estão guardadas, não precisa se preocupar, e eu disse para aquela menina que você gosta que você é um cara legal. Ela gosta de você.

      Eu prometo que vou parar de mostrar as suas fotografias para as visitas, pois sei que você não gosta, e vou parar de te chamar de tampinha, meu tampinha.

      O seu aniversário estava perto, eu não tinha esquecido. O seu presente já estava pronto, eu comprei aquele carrinho que você queria. Eu ia te dar amanhã. Está lá, em cima da sua cama, não se preocupe.

      Eu fiquei lembrando das vezes em que a gente ia jogar futebol e chegava em casa todo sujo de barro, e a sua mãe ficava me xingando e dizendo que roupa não é fácil de lavar, coisa e tal. Essas coisas nunca vão sair da minha memória.

      Bem, agora eu não posso cuidar da sua mãe, nem da Julinha, e nem da Pietra, a sua maninha. Me perdoe por isso, é tudo culpa minha. Mas, agora você precisa cuidar delas, pois eu não vou estar aí para cuidar da Julia quando ela ralar o joelho de bicicleta, e nem vou poder ouvir os desabafos da Diana quando o namorado dela começar a dizer que ela está gorda.

 

18.

Diana;

 

Esse é talvez uma das cartas que mais me fez chorar. Eu comecei a lembrar das vezes em que você cuidou de mim, e eu nunca reconheci nem agradeci. Acho que não é tarde para fazer isso.

      Lembra quando eu cheguei bêbado em casa porque tinha ido no show dos Beatles em 1962 e a nossa mãe não sabia onde você estava? Obrigada, você me ajudou a chegar em casa e não contou para a nossa mãe sobre as carreiras que eu tinha cheirado.

      Lembra também quando eu esqueci meu trabalho de conclusão de faculdade e você levou ele para mim, mesmo estando doente? Eu lembro, e depois você ficou me chamando de desmiolado por uma semana (e com razão).

      E, claro, lembra quando a Sarah brigou comigo e disse que nunca mais ia querer me ver? Eu fiquei chorando que nem um idiota e você me aturou, me deu dois tapas na cara e disse para eu parar de chorar. Eu começo a rir quando lembro desse dia. Essas lembranças não tem preço.

      E por isso eu quero te agradecer, mana. Por ter me ajudado, me tirado de muitas enrascadas que não essas, e queria dizer que, onde quer que você esteja, eu vou lembrar de você me puxando pela camisa e me dizendo que nossa mãe ia me arrebentar a cara se soubesse que eu estava num show de rock de um cara “louco e retardado”.

 

20.

Hoje chegou o laudo da perícia. Eu fui ver o carro. Eles conseguiram encontrar a boneca da Julia, a Priscila, debaixo do pedal do freio. Disseram que a culpa foi disso, mas é mentira. A culpa é minha. Eu briguei com você, eu te fiz infeliz, e eu te revoltei. Acho que a polícia deveria me prender por perigo à humanidade.

 

22.

A escola está cada dia pior. Não sei como eu consigo ir para aquele lugar. E nem como a gente ficou lá por tanto tempo.

      Na nossa época, tudo era mais difícil, mas era muito melhor. A gente tinha respeito pelos professores, pelo menos. Hoje em dia os merda dos alunos ficam dormindo na minha aula. Se bem que a minha aula não é muito legal, mas eles podiam pelo menos ter respeito...

      Mas tem uma aluna que presta atenção. Pietra. Ela é bastante prestativa, e só ouço elogios. Eu olho para ela e lembro de você quando estava na escola. Toda certinha, santinha, enquanto o irmão vivia matando aula e fumando pelos cantos. Eu sou um Iggy Pop delinquente versão br.

      Eu queria te contar sobre as aulas, queria falar com você, pedir desculpas. Mas não posso. E é culpa minha. Talvez eu deva acabar com isso. Ou talvez eu seja o problema.

 

24.

Eu sou o problema.

Eu não sou um bom professor.

Não sou um bom amigo.

Não sou um bom namorado.

Não sou um bom tio.

Não sou um bom filho.

Não sou um bom irmão.

 O que eu sou?

 

26.

Talvez essa vida não sirva para mim. Talvez eu seja como aqueles caras que se entregam para a polícia e que todo mundo acha normal, mas na verdade é um perturbado e retardado.

      Tem uma corda no banheiro, ela está pendurada naquela barra de ferro que ficou pendendo no teto. Estou pensando seriamente em me juntar à você, Diana.

 

28.

Julia;

 

Hoje a sua professora veio falar comigo. Ela disse que você estava escrevendo um livro, e entregou para mim. Eu comecei a ler, e fiquei triste por não ter um final. Eu infelizmente fui a causa de você não poder colocar um final nessa história. Eu impedi que você, seu irmão e sua mãe tivessem um final feliz.

 

30.

Estou completamente chapado, nem fui à escola hoje. Os alunos estão nem aí se eu dou ou deixo de dar aula. Talvez seja uma fatalidade.

      Sabe o bar que eu tenho na cozinha? Esvaziei todas as garrafas de Natasha e de cerveja. A letra está torta por conta disso, me perdoe.

      A minha cabeça está explodindo, tomei um remédio dos seus e fiquei pior. Nem sei o que era, só tomei.

 

      Me desculpe, terminei de escrever a carta só agora, estou melhor. Chapei demais, me sinto horrível, agora lembrei porque parei de beber. Está chovendo, mas eu vim aqui, mesmo assim.

 

32.

Os professores estão meio distantes de mim. Acho que é medo, afinal, eu sou um monstro. As amigas da Julia não parar de me perguntar porque ela não vem à escola, eu não sei mais o que responder. Meus alunos não ligam.

      A vice-diretora um dia desses me chamou, começou a falar que se eu quisesse férias, poderia pedi-las, coisa e tal... se eu fizer isso, me mato. Acho que a única coisa que não me fez fazer isso foi a Pietra, minha aluna, e o restinho de boa vontade que tenho.

 

34.

Eu não aguento mais isso, Diana.

 

Eu não consigo conviver com a culpa.

 

É muita coisa para a minha cabeça.

 

O disco dos Beatles está tocando desde que você saiu de casa pela última vez.

 

A corda no banheiro está me convidando.

 

Estou tentando mais do que tudo evitar isso.

 

Me perdoe por isso, Diana, eu juro que não tive culpa!

 

Aquela bíblia para mim não é nada!

 

Se é para você, não precisa ser para mim.

 

36.

Comecei a ler o seu diário. Não adianta me assombrar, eu vou ler de qualquer jeito.

      A Pietra anda percebendo que eu estou mal. Não sei como, ela me viu saindo do banheiro da escola chorando um dia desses. Acho que ela me viu vindo aqui, mas não ligo. O mundo precisa saber o monstro que sou.

 

39.

Hoje mamãe veio me ver. Ela disse que estou parecendo um zumbi e, de fato, estou. Estou parecendo um morto-vivo, se antes eu já era branco agora pareço um vampiro.

      Sinto sua falta, maninha. Tudo o que eu queria agora era o seu abraço. Estou mal por causa da Sarah, ela está dizendo que sou um assassino. Eu sabia que a verdade dói, mas eu não sabia que tanto.

 

41.

Parabéns, a minha vida está uma merda.

 

43.

A Pietra tomou uma carona comigo, hoje. Tá vendo essa flor bonita aqui no seu túmulo? Ela quem trouxe. Quebraram o túmulo da tia dela, e ela trouxe porque sujou o seu. Eu não acho que isso seja motivo, mas ela me parece triste com isso. Ela perdeu os pais.

      E eu que sempre achei minha vida uma merda. Mas ela anda por aí com um sorriso no rosto, sei lá porquê.

      Ah, mana, se você estivesse aqui comigo.

47.

Não aguento mais. Já chega de sofrer, Diana, a minha vida nunca vai voltar à ser a mesma.

      Eu nunca vou superar o que eu fiz.

      Eu nunca vou superar a sua morte e a dos meus sobrinhos.

      Porque eu vou ficar aqui?

      Eu não vou ficar aqui simplesmente olhando para as suas fotografias e me entupindo de drogas tentando esquecer. Não dá. Essa casa só me deixa triste. Minha vida é horrível. Eu não tenho mais família, não tenho mais amigos, não tenho mais motivos... e eu sei que sou a vergonha da família. A nossa mãe me rejeitou até hoje, porque pararia de fazer isso?

      Isso é um adeus. Ou um olá, não sei. Nem sei como eu vou fazer isso, já que a corda que estava no banheiro arrebentou, mas eu vou arrumar um meio. Acho que aquela faca que o nosso pai me deu de aniversário à uns anos vai servir.

      Talvez a gente não se veja mais. Acho que, se você estiver certa, eu vou queimar pela eternidade no inferno. Acho que é bem provável. Eu li um pedaço daquela bíblia, o que estava marcado. Bem, se aqueles eram pecados, eu pequei. Eu causei a morte da minha irmã por conta de uma bíblia, que não deixa de ser um simples livro. Mande um abraço para as crianças, diga que o tio delas pede perdão. Adeus.


Notas Finais


Um pedacinho das cartas de Davie, o suficiente para começarmos a entender seus sentimentos.


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