História As Crônicas dos Peregrinos - O Algoz de Sangue - Capítulo 13


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Palavras 5.404
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Comédia, Crossover, Fantasia, Lemon, Luta, Magia, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Shoujo-Ai, Sobrenatural, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Spoilers, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá pessoal, peço perdão pelo atraso do capítulo, eu estava ocupado com coisas da faculdade e não tinha acesso a um computador para fazer a postagem do cap há muito tempo já pronto. Por fim, espero que desfrutem das aventuras de nosso curandeiro enquanto ele tenta salvar a pele de seus amigos enquanto cumpre um trabalho sujo para poderem seguir com sua missão - Achar a deusa da memória e restaurar a identidade de Gale Lockheed.
Trilha sonora nas notas finais!

Capítulo 13 - O pior serviço de dedetização do universo


Fanfic / Fanfiction As Crônicas dos Peregrinos - O Algoz de Sangue - Capítulo 13 - O pior serviço de dedetização do universo

XIII

  A parte de trás da casa era igualmente elegante. Bonnie (Ou Bona Dea, como quisessem), o Apicultor e Caleb tinham passado pela cozinha e agora estavam sentados em uma varanda decorada com colunatas romanas, havia cadeiras de metal ao redor de uma mesa com utensílios de chá feitos de porcelana.

 Caleb se apoiou na mesa e encarou a deusa da fertilidade colocar torrões de açúcar em seu chá preto. Ela pegou a xícara, deixando o mindinho levantado e deu goles breves. Tudo sem perder a pose.

 O garoto então voltou sua face para a plantação além do quintal. Ele sentiu um aperto no coração, percebendo que as folhas das árvores estavam cinzentas, uma parte da terra parecia cinzas de cigarro. De longe, o garoto pensou ver a terra cinzenta se movendo, mas ele piscou e voltou a encarar sua anfitriã.

- Ok, podemos começar com uma pergunta?

- Comece com duas. – recomendou Bonnie, tomando outro gole de seu chá. O garoto suspirou.

- Quem é o Apicultor? – ele apontou para o homem com roupa de proteção contra abelhas. Ele se voltou para a deusa, que assentiu, como se desse permissão para ele.

O homem, então, tirou o capacete, revelando um rosto cheio de sardas e uma cabeleira longa cor de caramelo, a pele era bronzeada, como a de Gale Lockheed. Só que em vez de olhos brilhantes como o céu estrelado, os olhos do Apicultor eram da cor âmbar como o mais puro mel.

- Perdão pelo mistério, - disse o homem, suspirando e fitando sua chefa de soslaio. – Sou Aristeu, deus grego da apicultura, do queijo e das ervas medicinais.

 Estranhamente, o romano conhecia aquele deus menor. Afinal, ele era filho de Apolo, um dos deuses dos quais Caleb descendia. Ele sempre se interessara pelo lado grego da mitologia e gostava de pesquisar tudo o que tinha a ver com magia medicinal, Aristeu era um deus antigo conhecido por também ser um curandeiro que fez um monte de bons feitos, seu nome até significava “o Melhor”.

- Lorde Aristeu, como um curandeiro e praticante de feitiçaria de cura, é uma verdadeira honra conhece-lo e tudo o mais, mas, qual é o problema real?  O que ocorreu com a plantação?

 Bonnie tomou a palavra, erguendo a palma e, por um instante, encarando suas unhas pintadas de rosa-bebê.

 Aristeu abaixou os ombros, intimidado.

- É tudo culpa daquele desonroso desgraçado, o Rei-Anual de Seattle. – disse Bona Dea. – Outro que escapou das Portas da Morte, como os Três Mercenários Antigos, seu nome é Cércion. Ele era um rei antigo de Elêusis que desafiava os que passavam por seu reino em uma luta desarmada. Quem morresse, governava o país prosperamente por um ano.

- E deixe-me adivinhar, ele voltou dos mortos e o país em questão é a cidade de Seattle?

- Na mosca. – murmurou Aristeu, sombrio. – Ele buscou neutralizar todos os deuses que se situam perto da cidade, até as Amazonas ficam longe desse cara.

- Ele nos “presenteou” com uma caixa cheia de basiliscos venenosos, e agora, eles estão matando toda a plantação, o pomar, até os animais! Pior de tudo, eles estão fazendo as abelhas dessezinho aí de refém desde que mandei que ele se livrasse dos bichos!

Aristeu suspirou e disse: - E desde então, a plantação começou a morrer. Tentei de tudo! Até invoquei doninhas! Mas eram basiliscos demais e parecem ser imunes aos poderes de um deus como eu!

 Caleb normalmente argumentaria que ele era um deus superpoderoso e que só tinha que se livrar de serpentes. Mas, como um curandeiro e romano experiente, o garoto sabia muito bem o quanto um ninho de basiliscos era mortal até para Aristeu, que era apenas um deus menor da produção de queijo, mel e cultivo de plantas.

- Então...Minha tarefa é se livrar deles? Como é a situação?

Bona Dea fez um gesto para Aristeu, que se levantou, fez uma mesura breve e fez um gesto de “venha aqui” com a mão, enquanto seu rosto parecia mudar de cor de tanta apreensão.

 Então eles andaram pela fazenda, e pelos deuses da agricultura, tudo estava dando pena.

As vacas no curral estavam assustadas e caladas, as ovelhas, magras. O chão estava coberto de cinzas e pedaços mortos de mato que intercalavam os poucos arbustos ainda vivos no meio da plantação. Bona Dea e Aristeu escoltaram o legado até um cemitério de árvores cinzentas e retorcidas, parando em uma cancela do cercadinho e apontando para a única e frondosa figueira sobrevivente.

 Ao redor dela havia um mar de coisas vivas que se moviam, Caleb quis vomitar, havia dezenas daquelas coisinhas nojentas: Os basiliscos. Répteis de trinta centímetros com coroas brancas de espinhos nas cabeças asquerosas e com dentes a mostra. O bicho era tão mortal e peçonhento que o mero toque matava tudo no caminho, a grama, as árvores e animais tinham sido claramente vítimas deles.

 A figueira zunia anormalmente, brilhando. Havia uma nuvem de insetos ao redor dela, um enxame de abelhas desesperadas por sua casa estar sendo vítima dos terríveis  répteis venenosos.

- São meus animais sagrados, as abelhas. Pobrezinhas, estão se abrigando na última colmeia viva! – choramingou o apicultor. – Esses monstros tem drenado a vida da fazenda toda e logo mais essa figueira vai sucumbir ao veneno deles. Você precisa nos ajudar!

 Caleb piscou, intrigado. Os basiliscos, por algum motivo, não serpenteavam por debaixo do cercado, um, ao tentar, foi jogado para trás por um vento forte e chiou expelindo chamas laranjas e verdes.

- Vocês os prenderam aí, mas não tem o poder de transformá-los em poeira ou algo do tipo?

- Quem dera tivéssemos, sr. Saint-Dominique. – a voz de Bonnie saiu desgostosa. – Tudo o que temos agora é incerteza quanto ao futuro e o nosso trato com você. Nos ajude, vença as serpentes, do contrário, dê adeus a Lockheed e Greyback.

 No momento, Caleb quis gritar com a deusa, chama-la de nomes bem pouco honrosos e que deixariam Felicia para lá de orgulhosa. Mas o garoto apenas conteve seu desgosto, virou-se para os deuses e perguntou, soturno: - Quando começo?

O olhar de Bonnie ficou divertido, a deusa se virou e disse: - Aristeu, dê a ele o que for preciso, estarei em casa assistindo. Boa sorte, Caleb. – Bona Dea se foi sem olhar para trás, dando passos tão altivos e pomposos que ela parecia flutuar. O legado a olhou ir embora pela paisagem morta e encarou o rosto temeroso do apicultor.

- Então? Já têm uma solução? – perguntou Aristeu, ansioso.

- Hã...Não sei, eles estão confinados totalmente?

- Sim. Mas juntos formam uma massa mortal de veneno ao mero toque. Ah não ser, é claro, que sejam mortos por metal divino, daí viram carcaças inofensivas e até ótimas para adubar a terra! Mas chegar perto deles com uma lâmina não é a ideia mais inteligente.

- E vocês, deuses, não podem empunhar nada de Ouro Imperial ou simplesmente explodir eles?

- Você sinceramente não entende como o poder do Rei-Anual está afetando Seattle e seus arredores. Cércion é quase uma divindade com toda aquela devoção que tem e vem usado tudo em seu poder para neutralizar os deuses na região, até Mnemósine deve estar se escondendo dele. – o olhar de Aristeu ficou grave, de um jeito esquisito Caleb conseguiu sentir o desespero do deus da apicultura. A ideia de mortais ganharem poderes sobrenaturais era aterradora até para o legado de Esculápio, ainda mais depois de conhecer Cassandra e seus esotéricos. – Ele bloqueia parte de nossas capacidades simplesmente por ter o título de rei de Seattle.

 As mãos de Caleb suaram, o vento frio fez seus dedos gelarem tanto  quanto o seu interior gelava ao ver as serpentes sibilando pelo terreno e destruindo toda a vida dentro da área que um dia havia sido um pomar. O legado estreitou os olhos, sabia que entrar lá com uma espada era suicídio ou mesmo com sua besta – tão bem ele sabia, a maioria dos venenos que tinha não funcionava com basiliscos.

 O garoto piscou, sentindo um gosto metálico na boca e com a estranha imagem de Felicia e Gale transformados em cobras, o que o fez se recordar de seu próprio ancestral e sua capacidade com medicina. Caleb virou-se para a esquerda e fitou Aristeu, perguntando em seguida: - Têm ervas mágicas aqui?

 O deus assentiu e se virou: - Sim, na estufa, porque?

- Acho que tenho uma ideia. Me mostre onde é.

 Depois de alguns minutos andando pela campina massacrada pelo veneno, eles chegaram à casinha branca que de vidro que era a estufa. Assim que percorreram o caminho de terra que já sujava os tênis de Caleb, eles entraram.

 O legado da medicina parou, atordoado pela visão de diversas prateleiras e mesas de madeira cobertas por vasos cheios de plantas tão coloridas que faziam seus olhos doerem.

Os dedos do garoto passearam por algumas plantas na prateleira a frente. Ele encarou uma flor roxa de caule fino e disse: - Acônito, aqui?

- Temos um pouco de tudo. Engraçado você chamando pelo nome antigo, aqui na América chamam de Mata-Lobos, é letal para mortais e monstros, especialmente para... – Aristeu foi interrompido.

- Licantropos. – falou Caleb, estalando a língua enquanto lembrava-se de Caesar, o amigo lobisomem que fizeram há pouco. – Isso pode nos servir, é um veneno muito forte quando bem ministrado. Se eu tivesse um pouco de cicuta, então...

- Exato. – o apicultor cruzou os braços sobre o peito e encarou o romano, juntando as sobrancelhas. – Você sabe sobre venenos também, curandeiro?

- Bastante. Meus ancestrais são descendentes de Apolo e eu, hã, tenho um talento e tanto para alquimia. Estava pensando em produzir alguma poção venenosa para os basiliscos. Mas acho que não tenho todo o necessário e isso pode levar algum tempo para preparar.

Aristeu deu pulos de animação e apontou para ele, sorridente. Seu cabelo castanho descia sobre seu rosto como teias de aranha. Caleb piscou, reparando que a aparência do deus parecia mudar levemente conforme o tempo passava.

- Eu posso arranjar o que precisa. Sou um deus das ervas e também sou curandeiro! Só me lista que eu busco! Você precisa me ajudar! A Bona Dea é terrível quando vê os próprios negócios arruinados!

 Caleb conteve uma risada, jamais pensara que um deus poderia parecer tão engraçado. Na verdade, a ideia de deuses fazendeiros, proprietários de terra e apicultores ainda era um tanto esquisita, eles não pareciam nem um pouco veneráveis.

 Ele disse tudo o que precisava para Aristeu, que desapareceu em um cintilar dourado logo em seguida. O garoto se agachou e tirou a mochila das costas, puxando materiais que precisaria se quisesse ter alguma chance de exterminar os basiliscos.

 Ele pegou um pote pequeno com sangue de centauro, um líquido viscoso cor de mostarda, corrosivo e aumentava o potencial de quaisquer venenos ao mero contato, aquilo seria importante. O garoto foi tirando saquinhos de purgante de unicórnio, ervas mágicas amassadas e alguns outros materiais.

Quando ele se levantou e colocou na mesa, quase caiu para trás: A mesa agora estava cheia de acessórios que ele só lembrava de ver em Nova Roma durante seu exame para entrar na UNR através do APIS -  a Avaliação dos Poderes Incríveis dos Semideuses.

 Caleb, é claro, demonstrara seu talento com produção de poções. E ali, pelo visto, não seria diferente: Havia caldeirões, um mini-forno, e alguns outros materiais para armazenar poções minúsculas, dos tamanhos apropriados para suas setas-injetoras.

Aristeu estava parado ao lado dele, agora usando um avental e luvas de laboratório. Caleb piscou, de súbito percebendo que vestia os mesmos materiais.

- Segurança no trabalho. Ao menos temos isso aqui. – murmurou Aristeu. Caleb quis retrucar e dizer que ter uma patroa que te colocava de cabeça para baixo e ameaçava visitantes sobre transformá-los em répteis não deveria mesmo fazer parte de um ambiente sadio de trabalho, mas ele ficou calado. – Vamos, sr. Saint-Dominique, qualquer que seja sua solução, faça-a rápido.

- Hey, não me apresse. Poções são complicadas.

 O garoto estalou os dedos e mordeu seu lábio inferior.

Ele tentou não pensar em Gale e o jeito que ele tinha ficado depois da aparição de Cassandra, ou mesmo no esforço que Felicia fizera ao ter que lutar contra todos os esotéricos que os atacaram. O legado da medicina fechou os olhos momentaneamente, limpando sua mente de distrações e disse: - Ok, mãos à obra.

 Os pensamentos de Caleb voltaram-se completamente a seus conhecimentos envolvendo poções, magia e venenos. Ele era o melhor alquimista de sua classe na Universidade de Nova Roma e tinha habilidades bem claras passadas de pai para filho. Os Saint-Dominique eram conhecidos por seu soro curativo de ervas de Circe, purgante de unicórnio e água do Rio Tibre, que tinha um efeito quase instantâneo e tinha ficado bastante popular dentre os médicos da Legião desde os tempos antigos.

 O garoto repassava então os ensinamentos familiares enquanto amassava as folhas das flores de Acônito e fervia água ácida feita de ódio do Rio Estige que, convenientemente, Aristeu tinha guardada. Caleb desejou que tivessem mais que uma jarra daquela água, um galão seria o suficiente para trucidar aqueles bichos nojentos. Mas com a quantidade que tinham o melhor seria produzir o veneno.

Ele despejou as folhas pulverizadas no caldeirão com água estígia e misturou com sangue de centauro – que servia como um potente catalizador e amplificador de toxinas. Caleb esperou a mistura assentar por quase meia-hora, para então, pegar as flores brancas de erva-moura e amassá-las com água límpida, criando um sumo tóxico.

 O garoto suspirou e levou o veneno ao fogo de novo, pondo agora o sumo de erva-moura e despejando um tubo de ensaio cheio de água gelada. Ele estava suado, mesmo no frio do inverno de dezembro. O garoto mexeu o conteúdo do caldeirão com uma concha de prata e encarou Aristeu, sentado e batendo os pés de ansiedade. O deus, vez ou outra, puxava pedaços de queijo do bolso e os molhava em salsa quente que tinha invocado.

- Vocês cultivam cicuta?

Aristeu apontou para um jarro pequeno em outras prateleiras mais suspensas na estufa. Caleb correu dentre os espaçamentos e arrancou flores pequenas e esbranquiçadas de cicuta.

- Como você garante que isso matará os basiliscos?

- Eu não garanto. – retrucou Caleb. Suas mãos nervosas jogavam a cicuta dentro da mistura ao fogo, vendo o veneno ganhar um tom leitoso e branco, com um cheiro adocicado enjoativo emanando dele. A aparência da mistura era quase serena. – Mas sei que combinei venenos fortes com um catalizador comum e água mágica corrosiva. Isso tudo mataria um mortal ao mero toque, um semideus não teria muito mais que um minuto.

Caleb se sentou e encarou a mistura, respirando fundo e tirando as luvas. O garoto passou a mão pelo topete crespo e disse: - Agora esperamos tudo assentar. Duas horas, água estígia não se mistura fácil com nada.

 As horas se arrastaram como uma cobra que havia acabado de engolir um boi: Lenta, pesada e tão tensa que poderia explodir com um mais um pouco de estresse em si, tal qual Caleb. Aristeu ficou calado o tempo todo, nervoso. O legado de Esculápio passara a reparar nele vez ou outra, o jeito como ele parecia aterrorizado e ansioso era torturante.

Caleb sentiu raiva de Bonnie novamente, ela não era só uma má patroa, mas era uma chantagista cruel.

Quando o tempo finalmente decidiu passar, o garoto se aproximou do caldeirão e desligou o fogo, voltando-se ao deus e dizendo, apreensivo: - Está pronta, agora, a parte difícil.

Aristeu engoliu em seco e o fitou nos olhos, nervoso.

 

 

- Você está morrendo de medo. – apontou Aristeu, vendo Caleb parado diante da cerca com a besta armada com suas setas especiais contendo o veneno que ele produzira. O garoto tremia as pernas, incerto se deveria prosseguir sem ajuda de fato.

- Hã...Bem, certeza que não pode vir comigo? Eu não sou exatamente o melhor lutador.

Seus dedos seguraram a arma com pouca firmeza, Aristeu negou novamente com a cabeça, o que fez uma gota de suor frio cruzar a testa franzida do legado de Esculápio. Ele empunhou a arma e mirou os basiliscos mais próximos da cerca, que chiavam entre si e soltavam chamas por suas bocas cheias de dentes.

 Os tênis do romano tocavam o chão de plantas mortas, Aristeu se colocou ombro a ombro com ele e disse, tocando na mão do legado.

- Lembre, assim que cruzar a cerca, as criaturas se voltarão a você. Não deixe que elas o toquem, não seja pego nas chamas e, principalmente, se for mordido, já era. – o deus repetiu as instruções. – Nem seus poderes de Esculápio te salvariam de uma mordida de basilisco.

- Eu nunca desejei tanto saber como fazer fogo-grego. – murmurou o legado, decidindo internamente que queria ir para o Acampamento Meio-Sangue por um tempo, isso é claro, se estivesse vivo depois daquilo tudo.

Caleb deu passos a frente e abriu a cancela, sentindo seu coração dar piruetas enquanto era fitado pelo deus. O legado então adentrou a barreira, de imediato, as serpentes se ergueram em seus trinta centímetros e abriram as bocas cheias de dentes, vendo que havia carne nova a sua disposição.

Caleb gelou dos pés à cabeça, mas não podia vacilar naquele instante. O garoto puxou a besta, vendo sete das serpentes irem em sua direção, sibilando e fitando-o com seus olhos amarelos diminutos.

Os dedos trêmulos dele acionaram o gatilho com um gritinho escapando da garganta do garoto.

 A maioria das serpentes não recuou, mas ele acertou uma bem na cabeça, logo ela estremeceu e estrebuchou no chão, até virar uma casca morta e vazia de escamas. Os basiliscos avançaram, Caleb correu perto da cerca, vendo Aristeu – agora usando roupas esquisitas de torcedor de beisebol, com uma camisa escrita TEAM CALEB! <3 e um dedão verde de espuma que dizia CURANDEIRO N#1.

- Você consegue! Vai Caleb!

Os olhos de Caleb se arregalaram, distraído por um momento. Mas então, as labaredas alaranjadas disparadas pelas serpentes malignas o despertaram. O garoto rolou para longe e se pôs de pé, quase acrobaticamente, cada vez mais cercado pelos basiliscos.

Ele atirou mais setas venenosas e viu mais três deles morrerem, ele tornou a atirar e correr, pulando um basilisco menor e atirando contra ele no processo. Serpentes caíam mortas enquanto outras disparavam rajadas de fogo curtas contra o curandeiro, que corria de um lado o outro, esquivando de botes mortais e cada vez mais próximo da árvore no meio.

Caleb normalmente se sentiria orgulhoso, estava conseguindo evitar morrer e destruir dezenas de monstros horrendos, mais do que qualquer um de sua família já havia feito.

 Mas no momento, estava apenas desesperado e ofegante mesmo.

 Ele girou em cento e sessenta graus, alguns dos basiliscos se jogavam contra ele, o fazendo recuar cada vez mais. O garoto apertou o gatilho mais vezes do que conseguiu contar, até ver dezenas de carcaças caídas ao seu redor e nenhum outro sinal de vida.

Ele ofegou de olhos arregalados e encarou as munições – elas já tinham acabado e bem a tempo. O menino parou e olhou por cima dos ombros, escorando-se na árvore e deixando um suspiro lerdo escapar de si.

- Meus deuses! Isso foi incrível! – gritou Aristeu, comemorando aos pulos e sorrindo. As abelhas da árvore rodopiaram o legado, agradecidas, zunindo ao redor dele em uma nuvem viva que foi até o seu senhor.

 A nuca do garotou encostou na árvore, ela estava tão envenenada que já morria, com um galho esquisito de tão reto tendo caído ao chão com uma cor cinza-esbranquiçada, tingido e salpicado de algo preto como o rastro de morte deixado pelos basiliscos. Ele largou a besta no chão e ofegou, seus dedos passaram pelo rosto suado e uma risada nervosa escapou de si.

 Seu amigo desmemoriado e sua melhor amiga estavam salvos, e tudo isso, graças a ele.

 Aristeu então correu para ele, atravessando a cancela e sorrindo, arrodeado por abelhas. Mas então, ele parou de súbito, Caleb o encarava de lado, vendo o deus e suas abelhas paralisados. Aristeu engoliu em seco e sinalizou com as mãos: - Olhe para frente...Não se mova.

A voz dele soou terrivelmente calma, como se tentasse conter uma tempestade. Um som sibilante chamou a atenção do garoto, que percebeu tarde demais o que estava acontecendo.

 Ele virou o rosto para frente, vendo o último dos basiliscos vivo, uma serpente de escamas esbranquiçadas com uma coroa em meia-lua ao redor do pescoço feita de espinhos pálidos. O corpo de mais de trinta centímetros dependurava-se dos galhos da árvore, os olhos amarelados vivos tentavam captar algum movimento vindo do curandeiro, que segurava sua respiração como podia.

Caleb tateou o chão, vendo o bicho se aproximar, sibilar e abrir a boca, exibindo dezenas de fileiras afiadas com dentes feitos para partir quase qualquer coisa. Veneno molhava as presas agulhadas do basilisco e fazia um fedor sulfúrico deixar seu interior.

Os dedos de Caleb envolveram o galho com toda a firmeza que tinham, ele lançou um olhar para Aristeu, que falou apenas movendo a boca, sem som algum: - Péssima ideia!

Mas não havia muito o que fazer, era ele ou o basilisco.

O garoto gritou e acertou o monstro na cabeça usando seu galho como bastão. O basilisco desenroscou-se da árvore e sibilou ao ser jogado para o lado, Caleb fez menção de se levantar, mas a serpente chiou e se enrolou no galho, transformando ele em preto e sem vida ao mero toque.

 O sangue de Caleb ferveu de nervosismo e terror, vendo o basilisco branco enrolar-se também no seu pulso e apertá-lo com força. O toque ardia como fogo, pontos começavam a dançar na vista do legado de Esculápio, cujos sentidos entravam em colapso.

 Ele podia sentir o veneno do basilisco matando-o pelo aperto no braço esquerdo e fragilizando seu corpo com seu toque mortal. O garoto se ajoelhou de dor e viu a serpente sibilando perto do seu rosto, deixando o veneno entrar em suas narinas.

O garoto tinha menos de dez segundos para agir e todos os seus sentidos gritavam para que ele fizesse algo imediatamente, seu corpo estava em modo de alerta e colapsando devido ao veneno. Então, em um último ofego em meio a uma cacofonia desesperadora de urros do romano e gritos de horror de Aristeu, que assistia tudo estático, o garoto agarrou o basilisco pelo rosto e berrou, colocando toda a sua força divina em um último encanto de cura.

- A-Asclépio! –  Caleb gritou, tão alto que a fazenda toda ouviria.

Então, um clarão brotou de seu pulso, a tremedeira, o ofego e a sensação de morte se esvaíram lentamente enquanto a respiração do garoto normalizava. Sua tatuagem de cobra brilhava como um farol, fazendo os contornos de sua mão cintilarem como linhas verde-douradas. O basilisco então parou de atacar, enroscando-se calmamente no galho, que ficou amarronzado e se encheu de ramos com folhas e flores diferenciadas, cada uma mais bela, colorida e cheirosa que a outra.

A serpente fechou os olhos e permaneceu enrolada, adornando o comprido galho decorado como na tatuagem do garoto: Uma cobra enrolada em um bastão, o símbolo do ancestral de Caleb.

 O garoto ofegou e pegou o cajado com ambas mãos, o basilisco roncava, sua coroa de espinhos estava retraída inofensivamente. Ervas brotavam do ramo de um metro, algumas já conhecidas de Caleb: Havia ervas de Circe, enlaces de luar, frutos vermelhos de tramazeira e outras ervas medicinais que o legado da medicina ficou encantado em ver.

- M-meu...O que...- ele ofegou confuso, Aristeu caminhou até ele, ainda vestido como um fã esquisito, as abelhas o rodeavam, rodopiando ao seu redor como se ele fosse um furacão. – O que houve?!

- Seu pai divino ouviu seu chamado, você tem sido um bom filho, pelo visto. Ele gosta de você, Caleb. – murmurou Aristeu, ajoelhando-se ao lado do garoto e tocando a extensão do cajado. – Isso é poderoso, é um cajado asclepíade. Igual aos que os primeiros médicos que cultuavam o deus usavam, mas é mágico, pelo visto.

- Ele curou o veneno...Como? Eu deveria estar morto. – falou o médico, estupefato.

- Eu não diria isso alto demais, se fosse você. – Aristeu zombou. O deus tocou a tatuagem com a ponta fria de seus dedos, o brilho todo tinha esquentado o pulso de Caleb. – Ele só conseguiu se manifestar por seu próprio poder, garoto. Você tem um talento muito grande para as artes da cura, e mesmo sem saber, inverteu o veneno do basilisco. Fez do veneno um remédio com magia, impressionante.

- M-mas como?!

- Com uma ajudinha lá de cima. Asclépio realmente deve gostar de você, garoto. Mas você mereceu...Mesmo não sendo um lutador, usou seus conhecimentos e toda a sua bravura só para salvar seus amigos. Você é um herói, Caleb Saint-Dominique, isso faz toda a diferença! Roma deve estar para lá de orgulhosa de tê-lo.

 O garoto engoliu em seco e apertou o cajado, o basilisco abriu os olhos e inclinou a cabeça de um jeito pacífico, labaredas verdes e alaranjadas deixaram sua boca enquanto ele bocejava. O monstro sibilou e ergueu o pescoço.

- O nome dela é Linda. – disse uma voz imponente, assomando sobre Caleb e Aristeu. Os dois caíram sentados de medo, vendo a sra. Bonnie de pé diante deles e ainda vestida como uma dama colonial. A luz do fim da tarde fazia seus cabelos pareceram fios feitos de chocolate, seu batom rosado se retorceu junto com os lábios. – Ela gosta de você, herói, e eu também. Sua parte do trato foi bem executada, mas a fazenda ainda precisa ser curada e o poder de Cércion ainda nos impede de curar o estrago feito pelos basiliscos.

 O garoto se levantou de cara feia e se apoiando no cajado, Linda sibilou para ele cuspiu chamas em seu rosto. Aquilo teria assustado o menino, mas ele simplesmente se sentiu melhor, o calor aconchegante se espalhou por seu corpo em uma linha de fogo verde e laranja que pareceu diminuir o seu cansaço.

Ele piscou, percebendo que de alguma maneira esquisita, o basilisco havia se tornado mágico junto com a cajado e em vez de veneno, agora soltava chamas que curavam. Ele se perguntou como aquilo seria possível, fitando a serpente, que retesou sua coroa de espinhos.

Aristeu sorriu, percebendo o mesmo e disse: - Caleb pode dar um jeito...Não é, Caleb?

O garoto assentiu, estreitando o olhar e apontando o cajado para Bona Dea, que recuou. Linda mostrou os dentes para ela.

- Eu posso...Mas não de graça. Vou restaurar as coisas aqui se você passar a tratar melhor seus deuses-servos, respeitá-los, fornecer-lhes segurança, plano de saúde e um salário apropriado, além de férias completas e licença, sua tirana. Eles não são seus brinquedos!

- Como ousa...- ela estreitou os olhos, a basilisco chiou para a deusa e Aristeu conteve uma risada, ainda no chão. O deus encarou o legado de Esculápio, agradecido e corado, seu rosto jovem salpicado de sardas era gracioso de um jeito divino que Caleb só percebera naquele instante, os cabelos encaracolados pareciam mel congelado à luz do pôr-do-Sol. – Eu sou a protetora de Roma, a senhora da fertilidade, você não vai me ameaçar assim em minha casa, criança!

- O que vai fazer? Me machucar? Se o fizer, não vai ter cura pra fazenda e seus negócios vão por água abaixo! – ele falou com toda a raiva que sentia. Aquela mulher mandona e chantageadora realmente o tirava do sério. – Você que sabe, velha Bonnie, de qualquer forma, Aristeu vai ter que me ajudar, como dizia no trato.

A deusa cresceu de tamanho, tomando seus três metros de altura e estampando raiva em seu rosto. Seu contorno irradiava poder em uma aura rosada ameaçadora, mas o legado de Esculápio, mesmo assustado com a cara feia da deusa, permaneceu de pé com o cajado em mãos, imponente, como uma estátua de seu próprio ancestral.

 Aristeu trocou olhares entre os dois e tocou o ombro de Caleb, deixando um sorriso esperto cortar seus lábios rosados. A aparência do deus ficou mais confiante do que nunca, as abelhas ao seu redor envolveram Caleb como um manto protetor.

- Bonnie, você sabe que ele tem a melhor oferta, você pode ser uma louca egomaníaca, mas não é burra. – falou o deus da apicultura e do queijo, em toda sua glória divina.

  Mel e laticínios, Caleb não poderia rezar por um deus melhor para ter a seu lado para encarar uma deusa romana antiga e superpoderosa.

- Ok, eu cedo. Juro pelo rio Estige que darei todos os direitos trabalhistas a meus deuses de agora em diante. – um trovão ao longe foi ouvido, selando o trato. – Agora, faça sua parte do acordo.

Caleb sorriu para Aristeu, que o fitou de cima a baixo, agradecido de verdade.

O legado então tocou o basilisco e ergueu o cajado, conjurando o poder de Esculápio e disse: - Linda, faça as honras!

A serpente branca abriu a boca, expelindo um jato de fogo verde e laranja. O garoto concentrava todo o seu poder naquilo, onde as chamas tocavam, a paisagem enegrecida e morta ganhava um tom verde vivo e se alastrava. A tatuagem de Caleb brilhava e ardia, sua força estava sendo consumida pelo cajado, mas ele precisava fazer aquilo – tinha gostado de Aristeu, apesar de achar ele um bobão, além de que odiara o jeito com que Bona Dea tratava Ru, Pottie e Eddy.

O legado suspirou e sentiu o suor cair por sua testa enquanto ele conjurava seus poderes e alastrava um fogaréu de chamas mágicas por toda a paisagem. As chamas traziam a vida de volta rapidamente, subitamente curando a mácula deixada pelos basiliscos. O garoto cambaleou, vendo a paisagem tornar-se verde enquanto o céu já escurecia.

Ele parou, Linda cessou o modo lança-chamas-curativo e voltou a dormir. O garoto se apoiou no cajado e ofegou, fitando Bona Dea nos olhos. A deusa voltou a seu tamanho normal e o fitou desgostosa.

- Satisfeita?

- Sim. Vocês podem passar a noite se precisarem, Caleb. – vociferou ela, firmemente. – Mas depois disso, nunca mais retornarão em minhas terras, entendido?

- Fico mais que satisfeito em não ter que te olhar de novo, anfitriã. – ele sorriu sôfrego, quase caindo para o lado, mas sendo aparado por Aristeu, que o segurou firmemente contra si e encarou sua chefe.

- Ah, Bonnie. – falou o deus do queijo, sorrindo. Seus olhos ganharam um brilho castanho sem igua. – Depois que Caleb e seus amigos se forem, eu me demito!

Bona Dea quis gritar e assumir a forma gigantesca dela. A deusa, no entanto, apenas começou a irradiar poder, seus contornos tornando-se cada vez mais cintilantes. Caleb, lento e confuso, não compreendeu o que se sucedia, mas então, a mão de Aristeu cobriu sua vista bem a tempo.

Bona Dea assumiu sua forma divina e desapareceu em um clarão relampejante. Caleb voltou-se para o deus e disse: - O-obrigado.

- Eu que agradeço, Saint-Dominique. – disse Aristeu, sua roupa agora um manto branco que deixava parte de seu peitoral exposto. Um chiton grego de saia curta e barra dourada no meio, como um cinto. O deus sorriu, havia uma coroa de louros assentando sua cabeça. Caleb piscou, reparando que o deus agora parecia bem mais jovem, tinha uma pele leitosa e o rosto coberto por sardas, os cabelos cacheados estavam raspados aos lados. Ele estava jovem, mais jovem que Caleb. – Venha comigo, você quer a localização de Mnemósine, certo? Eu lhes darei...Mas antes, que tal jantarmos e descansarmos? Vocês não podem seguir com você assim, e eu adoraria ouvir você contar suas aventuras, não ouço a voz de um herói faz éons.

 Caleb suspirou e andou ao lado do deus, que caminhava tranquilamente, vendo a natureza ganhar vida de novo pelo poder de Esculápio. Aristeu pegou a besta de Caleb no chão e deixou outro sorriso cortar o rosto. Caleb piscou, reparando pela primeira vez e concluindo: O deus das abelhas era bonito.

- Não recusaria comida por nada, Lorde Aristeu.

- Me chame de Theo, as meninas sempre me chamam assim. É bem melhor que Aristeu ou Apicultor. – ele comentou, risonho.

Os dois então andaram pelo jardim ressuscitado juntos. Era hora de discutir o próximo passo da missão e descansar um tanto. Caleb sorriu, vendo Aristeu a seu lado e sorrindo feito um bobo vez ou outra, sem razão aparente.

- Hã...Ok, claro, vamos...Theo.


Notas Finais


==*TRILHA SONORA*==
- Caleb conversa com a Boa Deusa e o Apicultor - https://www.youtube.com/watch?v=0fiLkBfr0b4
- O preparo do veneno/Caleb elimina as pragas - https://www.youtube.com/watch?v=Y2V6yjjPbX0

Valeu pela leitura, pessoal! Até a próxima!
Quem não leu a saga anterior, aqui vai a lista:
* == SAGA "A Outra História" == *
* Os Heróis do Olimpo - A Outra História - http://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-os-herois-do-olimpo-os-herois-do-olimpo--a-outra-historia-1438939*
* Os Heróis do Olimpo - AOH II - O Crepúsculo do Olimpo - https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-os-herois-do-olimpo-os-herois-do-olimpo--aoh-ii--o-crepusculo-do-olimpo-2261241*
* Os Heróis do Olimpo - AOH III - A Ruína da Névoa - https://socialspirit.com.br/fanfics/historia/fanfiction-os-herois-do-olimpo-os-herois-do-olimpo--aoh-iii--a-ruina-da-nevoa-3296148
* Os Heróis do Olimpo - AOH IV - A Fúria Celestial - https://spiritfanfics.com/historia/os-herois-do-olimpo--aoh-iv--a-furia-celestial-5469436


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