História As estações que passei ao seu lado - Capítulo 7


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Personagens Originais, Rap Monster, Suga, V
Tags Bangtan, Bts, Estações, Fotografia, Min Yoongi, Romance, Suga
Visualizações 20
Palavras 4.913
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Desculpe pelos erros, tenham uma boa leitura. Por favor, leiam as notas finais ♡

Capítulo 7 - Acordos, pedidos e histórias


Fanfic / Fanfiction As estações que passei ao seu lado - Capítulo 7 - Acordos, pedidos e histórias

3 de Fevereiro de 2017

D I A S  C H U V O S O S

Além de intensificar a preguiça e tirar qualquer resquício de força para levantar da cama, também são ótimos cenários para reflexões profundas ou para metáforas feitas por indivíduos metidos a filósofos. No caso, eu.

Em dias como este, Mália abandonava o mundo real e alojava-se na própria mente, procurando por algo que explicasse quaisquer dos últimos acontecimentos, sem querer, de fato, uma resposta fixa.

Os olhos estavam concentrados no vazio da cidade molhada pelos pingos grossos e rápidos de água que caíam do céu. Quando a forte ventania vinha, tratava de encolher-se nos edredons que lhe cobriam por inteiro como forma de proteção, os braços apoiavam-se no peitoril da janela e, as mãos, seguravam fortemente uma caneca de café Havaiano, feito com um pouco de café, água e leite de coco  – era intolerante a lactose.

Entregue à voz do Silva, a jovem aproveitava o restinho da madrugada para trocar algumas mensagens com o pai. Segundo ele, Theodoro estava bem, a mãe tinha ido visitar a avó e Yasmin e Jade já criavam ideias pro carnaval de fevereiro. Nada diferente dos conformes. Contara-lhe que hoje, mais tarde, teria o seu primeiro dia no trabalho-não-planejado, que o email sobre o projeto chegara um dia depois de tudo ter sido resolvido e que estava com saudades.

Com a desculpa de que o horário na Coréia era tardio e tinha que dormir, despediu-se do homem, jogando o celular na cama logo após. A cidade parecia interessante no momento.

— Creio que não esteja aí para encarar a lua. Seul é poluída demais para isso. – assustou-se com a voz da avó, virando para encará-la. — O que faz aí? Está frio demais, querida.

— Desculpe, me distraí com a noite.

Ela colocou a xícara vazia no criado mudo com delicadeza, aproveitando para sentar-se na cama ainda enrolada nos edredons. Dona Yeru fez o mesmo.

— Tudo bem, tinha o mesmo costume na sua idade. Normalmente passava esse tempinho pensando no seu avô ou no entregador de leite bonitinho. – raspou o cotovelo em seu ombro direito. — Está apaixonada?

— Apenas pensando, na verdade. – murmurou. Os dedos enrolavam a pontinha da última coberta. — Me sinto um pouco... diferente. Independente, talvez? Não sei, essa sensação de estar distante é mais libertadora do que deveria ser.

— Essa sensação faz parte dos benefícios que sair de casa traz, querida. Estou feliz que finalmente esteja provando disso. Espero não demorar tanto pra trazer Theodoro quanto demorei contigo, te queria perto de mim há tanto tempo...

— Theodoro é muito novo pra vir, não acha?

— Sim, acho. Mas seus pais são irresponsáveis demais para cuidar dele sem você, não acha? – retrucou. — Aqui ele teria mais segurança e um recomeço, seu irmão merece isso. Vocês dois merecem.

Mália mordeu o lábio inferior, apreensiva. O desconforto de não conseguir lidar com assuntos familiares se tornava ainda maior quando conversava com os parentes de seu pai, sempre se recusavam a entender a situação por completo. Que sua avó era diferente, disso ela sabia. Todavia, seu coração não conseguia engolir o fato.

— Perdão, não queria tocar neste assunto. Sou um pouco desbocada, você sabe.

Com o corpo sentado de lado, desviou a atenção para a janela embaçada novamente. A testa estava apoiada na cabeceira e os fios emaranhados cobriram as laterais de seu rosto.

A respiração compassada das duas era o único som a ser ouvido em todo o cômodo.

— A senhora está certa, tá tudo bem.

Dona Yeru era uma boa pessoa, embora não gostasse da decisão do filho de casar com Olívia ou da falta de responsabilidade de ambos, ainda fazia de tudo para apoiá-los como família. Sem preferências. Sem preconceitos. Pelo menos, em sua cabeça, era assim que agia.

— Estou errada, Mália. Definitivamente não queria entrar nesse assunto. – suas pequeninas mãos arrastaram pelas costas da neta, em um afago carinhoso. — Na verdade, entrei aqui justamente para falar o contrário disso; quero lhe fazer uma proposta.

Mália voltou a encarar o rosto da avó, analisando-o. Yeru possuía uma pele branquinha, cheia de marquinhas de expressão espalhadas pelo rosto, não tinha vergonha delas. Dizia que eram suas tatuagens naturais. Reparou, também, o quão fino eram os traços de sua boca, só conseguia ver os detalhes do lábio superior por conta da proximidade das duas. A cor escura do cabelo ainda se mantinha viva mesmo sem tinta. Não mudara muito, afinal. 

Ela estava serena.

— E qual seria?

— Enquanto estiver por aqui, quero que se arrisque. Quero que curta, que tente, que sinta a adrenalina de tomar decisões sérias em pouco tempo, sem se importar com as consequências. – desafiou-a. — Este é o momento mais bonito da sua vida, Mália. A juventude se resume em escolhas erradas, situações absurdas e fases que nunca mais irão voltar. Quero que você experimente isso, esqueça das coisas que ficaram para trás e viva uma vida nova.

Mália sentiu arrepios por todo o corpo; odiava mudanças.

— Difícil. – apoiou os cotovelos no joelho e o queixo nas mãos. — Digo, como irei fazer isso? Comprando uma garrafa de bebida alcoólica e saindo por aí bêbada de madrugada, gritando? Quando penso em liberdade, não é bem esse conceito que me vem a cabeça.

— Não precisa necessariamente gritar, só beber e sair está bom pra um começo.

— Vó! – da sua boca surgiu um círculo incrédulo, mas logo fora substituído por um sorriso. — A senhora deveria falar que drogas não são um bom caminho e que devo me preocupar com a minha saúde, não o contrário.

— Claro que não! Seria hipocrisia. Já cansei de receber ligações dos amigos do seu pai pedindo para buscá-lo porque ele estava bêbado demais pra lembrar o caminho de casa. – defendeu-se, apontando o dedo indicador. — Não estou dizendo que é um exemplo de vida e que você deve fazer constantemente, até porque estou velha demais pra acordar e te buscar, porém, de vez em quando é bom.

— Não acredito que a senhora falou isso. – o ar saiu de seus pulmões em forma de gargalhada. — Olha, a parte de não me preocupar excessivamente com a minha família posso tentar, até porque se acontecer algo a distância entre a Coréia e o Brasil não irá diminuir, o estresse é um pouco desnecessário. Agora... bebida, dona Yure, sério?

— Não dê uma de santinha, é irritante. – ralhou, fazendo-a arquear a sobrancelha divertidamente. — Apenas tente de tudo, inclusive a chance de um novo amor. Imagine só, um romance ditado pelas estações? Sempre foi meu sonho, namorar sem o compromisso chato de ter que casar, a pressão era tanta que tirava toda a magia. Ai, que inveja, você nem vai passar por isso...

Mália revirou os olhos.

— E quem disse que não vou?

— Eu! Acha mesmo que vou deixar alguém implicar contigo? Menina mal agradecida. – deu-lhe um forte beliscão que não tardou a arder. Mália grunhiu. — Agora, por favor, viva com a mesma intensidade de um último dia e com a paixão do primeiro. Vai valer muito a pena. – Yeru beijou o local avermelhado. O dia já amanhecia. — Vá se arrumar, são seis horas da manhã. Hoje é o seu primeiro dia no trabalho e o meu primeiro dia de volta à rotina.

— Boa sorte para nós, então.

[...]

Pela quinta vez em dez minutos, a menina releu o email enviado por Matthew e, continuamente, encarou o pequeno prédio de três andares – sendo o primeiro apenas uma garagem. Do outro lado da rua, confirmando que não estava no endereço errado. Se comparado à empresa do Sr. Min, este parecia mais como uma casa avantajada do que um estúdio fotográfico influente. As cores eram tão discretas quanto seu tamanho e todas as quatro janelas estavam fechadas. Embora estivesse cheio de carros, nenhum som provinha de dentro.

Impaciente, seus pés chutavam pequenas pedrinhas no chão, observando os minutos voarem no canto da tela do celular. Até que, por sorte, ele tocou.

Era Matthew.

— Tem certeza que você meu passou o endereço certo, homem? O motorista do meu avô me deu carona pro bairro que me disse, passei pelo teatro, entrei à direita depois da terceira esquina e andei até o meio da rua. Agora estou vendo umas casinhas fofas e um prédio um pouco bizarro.

Bom dia pra ti também, Mália. Dormi muito bem essa noite, obrigado por perguntar. – ironizou. — É esse o endereço, ao contrário de você, nós somos discretos até com as construções. Consigo te ver pela câmera. O Kwan está descendo pra te buscar, atravesse a rua e espere na gradinha branca.

A jovem soltou um longo suspiro, liberando todo o oxigênio que a tensão a fizera armazenar. Aproveitou que o sinal da esquina estava fechado e atravessou, murmurando um obrigada pelo processo.

Espera, espera! Não desligue agora, preciso de informações antes de te entregar para o organizador geral. Abajur ou teto brilhando?

— Mas que droga, Matthew. – encostou-se na grade, irritada. — Eu tô atra...

Responde logo. Abajur ou teto brilhando?

— Está bem, que seja. – fizera careta.  — Teto brilhando.

Que infantil, Mália. – caçoou, voltando a perguntar. — Vidro ou madeira?

— Vidro. Gosto de madeira, porém vidro. Qual é a do questionário?

É a decoração da sua nova casa, seria muito mais inteligente te levar para escolher as coisas ou comprar pelo computador, mas eles acham que a responsabilidade é minha, não sua. Totalmente idiota, só pra ocupar meu tempo. Janelas ou varanda?

— Varanda, acho. Que eu saiba, isso não estava no contrato. Por acaso me perguntaram se eu queria uma nova casa? Moro com meus avós e me sinto confortável, dispenso essa ideia maluca.

Não estava explícito no contrato, mas, no geral, faz parte do acordo. Vai ser um dos cenários pras fotografias ou algo assim, não me explicaram direito. Só entendi a parte que eles queriam algo mais pessoal e real entre você e o Yoongi. Bosque ou cidade?

— Definitivamente bosque.

Não reclame de barriga cheia, menina. Querendo ou não, ainda é uma casa e você não pagará nada por ela, apenas aceite. Número três ou oito?

— Que merda de pergunta é essa?

Ele expirou do outro lado da linha.

Responde!

— Oito, então. – revirou os olhos. — O Kwan está chegando?

Ele está aí, preciso desligar. Foi ótimo negociar contigo. Tenha um bom dia, te vejo depois do trabalho.

Assim que Matthew desligou a chamada, o barulhinho de cadeados sendo abertos despertou sua atenção. Virou-se para o homem que os abria, era o mesmo segurança da empresa do Sr. Min. Parecia uma muralha com óculos escuros e terno preto, carequinha. Bem simpático.

— Bom dia, senhorita. – apontou-lhe a porta principal já aberta.

Pela rápida espiada que conseguira dar, nos fundos do prédio marrom conhaque, havia uma área coberta repleta de equipamentos aprova d'água, aparentemente caros. No primeiro andar, ao total, cinco carros estavam estacionados, uma BMW, uma lamborghini, uma picape da Mitsubishi e os outros dois eram desconhecidos pela jovem. Com os olhos arregalados, tentara absorver o fato de que estava lidando com pessoas muito ricas, totalmente diferentes de sua classe social.

As grandes mãos de Kwan guiavam-a até a escada larga, logo na entrada de vidro opaco.

— Eles acharam mais seguro deixar com escadas do que colocar elevador, o acesso até o térreo se torna mais demorado. Sem assaltos.

Quanto mais subia, mais a quentura do edifício aumentava. Aquecedores eram sua salvação. Como o dia estava mais frio que os últimos, Mália vestia duas meias grossas, uma legging por baixo da calça jeans escura rasgada no joelho direito e uma blusa de manga longa, por cima de tudo, um sobretudo enorme estilo terno. Presente do pai.

Pararam em frente a uma grande porta. Pelo que dizia a placa de prata, o segundo andar.

— A partir de hoje todos os projetos futuros do seu trabalho sairão daqui, espero que esteja ansiosa. Boa sorte. – encarou o homem exibindo sua gratidão através de um sorriso aberto.

Suas mãos agarraram a gélida maçaneta de metal. Era agora. Finalmente. Ritmizara a respiração em um intervalo de três segundos e, na medida do possível, acalmou a euforia de seu sistema nervoso. Em seguida, abrira-a de maneira lenta, vendo por detrás dela aquilo que a acompanharia por longos meses.

Muitas pessoas corriam em direções certeiras dentro daquela sala branca, gigante, tal como um galpão. Do lado de fora, o local não parecia ter nem a metade do tamanho que realmente tinha. Conforme se aproximava, Mália conseguia ver as plaquinhas espalhadas por cada canto; costureiras; estilistas; maquiadoras; fotógrafos; diretores; técnicos e mais profissionais que não fazia a menor ideia se eram necessários ou não.

Ao norte haviam algumas câmeras enfileiradas em uma mesa grande feita de madeira, as filmadoras ocupavam o lado direito. Dos materiais de iluminação, a maioria estava ligado. Sentira que todas as suas imperfeições-não-cobertas-pela-base foram expostas bem naquele momento. No geral, o ambiente não possuía barulho, os únicos sons identificáveis eram de uns homens conversando à esquerda da porta e de outros materiais sofrendo modificações.

Ao sul o chão era coberto por um tapete felpudo, conseguia sentir sua maciez acariciar-lhe os pés mesmo com as duas meias. Bem no fundo, ao lado das portas para os banheiros masculino e feminino, um pequeno corredor à direita se escondia. Apesar da frieza das cores, o estúdio transmitia um sensação de conforto.

— Finalmente, senhorita. – uma mulher cutucou-lhe o ombro, pondo-se a sua frente. — Seiji te espera. Me siga, por favor.

Dando de ombros, acabou por segui-la. A moça baixinha possuía um cabelo cacheado cheio, bem loirinho. Era lindo.

— Estou atrasada? – arriscou perguntar.

— Não, Seiji é o coordenador geral do projeto e quer te conhecer. – abriu a porta escondida do corredor para ela. O sorriso da moça era tão lindo quanto seu cabelo. — Yoongi também está lá. Só pra avisar.

E, bem, para seu coração apressado, a notícia só servira de pontapé para que este estourasse a própria caixa torácica de tenta ansiedade.

Ao contrário da primeira, a atual sala era bem menor. Uma mesa de centro ocupava o meio juntamente com outro tapete felpudo, haviam duas banquetas acolchoadas, um sofá e um espelho gigante à oeste. Seiji encarava atenciosamente a prancheta em suas mãos, sentado no sofá.

Yoongi estava mesmo ali. Sentado, relaxado, aproveitando a deliciosa voz de Bryson Tiller que saía das duas caixinhas de som encaixadas na parte superior da parede leste. Sem a intenção de atrapalhá-lo, Mália não tardou em se acomodar na banqueta vazia ao seu lado.

Ele parecia alguém muito mais interessante que Seiji, oras.

— Já pode parar de me encarar, senhorita. Daqui a pouco vou desidratar com a secada que seus olhos estão me dando. – sua voz estava arranhada, como se tivesse acabado de acordar. As mãos apoiavam a nuca e os olhos permaneciam fechados. Mália não se surpreenderia se fosse verdade.

— Não sabia que conversar comigo era melhor do que continuar dormindo. Me sinto lisonjeada por tamanha importância. – retrucou, sarcástica. Em resposta, ele apenas arqueou a sobrancelha esquerda. — Pensei que você só gostasse de música clássica, Yoongi.

— Por que pensou isso? – sua testa enrugou. Talvez dormir fosse mesmo melhor. — Sou rapper, gostar de rap é o mínimo do mínimo.

Mália arregalou os olhos.

— Você é rapper?!

Sem perceber, Yoongi deixou com que um sorrisinho de canto escapasse de seus lábios. Adorava conversar com pessoas quais não sabiam de sua fama, reconhecia a oportunidade como escapatória. Seus fãs tinham uma imagem montada de si através das músicas que criava e, embora fosse sua personalidade em forma melódica, era uma dentre várias que possuía.

— Tsc, tsc, tsc. – balançou a cabeça, fingindo desaponto. — Pelo visto a senhorita não fez o dever de casa.

Entre as vagas lembranças que tinha, conseguia ouvir as melhores amigas contando sobre o projeto, Yasmin avisou-lhe que Yoongi era rapper, mas em nenhum momento achou que estivesse mesmo falando a verdade.

Seiji se aproximou, desligou o celular e colocou a prancheta na mesa de centro.

— Creio que os dois mereçam uma explicação sobre tudo que está acontecendo, não é? – havia um pingo de constrangimento no timbre de sua voz. — Inicialmente, obrigado por ter aceitado o convite de vir aqui, Mália. E desculpe por nossa desorganização, normalmente não somos assim, fique tranquila, não irá acontecer novamente.

Yoongi pigarreou, apoiando a fíbula direita no outro joelho, os olhos permaneciam fechados. Seiji franziu o cenho.

— Me desculpe também, Min Yoongi. Todas as decisões tinham que passar por ti antes de serem tomadas, lembro deste pedi...

— Ordem. Desta ordem, senhor. – corrigiu-o.

— É, lembro bem desta ordem, porém, seu pai pediu para que nada te perturbasse durante o seu processo de criação. Não pude contrariá-lo, regras são regras. – encolheu os ombros. — Matthew me contou que você concordou com a nossa escolha apesar de tudo. Obrigado por isso.

— Com todo o respeito, só pra deixar claro, concordei por ela, senhor. Não por vocês.

— Enfim... – era nítido a raiva que sentia por receber ordens de alguém tão novo. Sem querer permanecer no assunto, direcionou sua atenção novamente a jovem. — O projeto consiste em treze meses fotografando a rotina dos dois como um casal, nada invasivo, até porque precisamos do consentimento de ambos para construir os cenários. As estações serão a nossa base para as mensagens subentendidas em cada conceito, começará neste inverno e irá até o próximo. Queríamos deixar livre a interação de vocês e, conforme vão pegando segurança e intimidade, as fotos são tiradas. Nada programado. A intenção é justamente trazer a naturalidade de um relacionamento real, inclusive as imperfeições. Como pedido do fotógrafo diretor, nenhuma das fotos serão realmente editadas. Assim como manteremos a discrição do começo ao fim, a pedido da empresa dos meninos. Alguma pergunta?

— Sim, eu tenho uma. – Mália apontou o indicador com o sarcasmo transbordando em sua voz. — Por que vocês me deram uma casa?

— Ah, sim! A casa será o nosso principal cenário, você terá que morar lá até o contrato acabar. Precisamos personalizá-la conforme os seus gostos, senhorita. Além de ser melhor pra sua própria segurança, facilita muito o nosso acesso a ti, sei que vai gostar, não se preocupe. – algo lhe dizia que ele não havia contado tudo. — O resto saberá com o tempo, por hoje é só. – apressado, Seiji pegou o telefone junto com a prancheta, forçando a visão para discar o número de outrem. Ele parecia um homem ocupado.

Agora era oficial, Mália estava mais confusa do que antes.

Jogara todo o corpo no encosto da cadeira, brincando com o rangido que esta soltava, sem saber o que fazer. Por instantes achou que Min Yoongi fosse uma pedra, desde que entrara na sala, o menino não fizera sequer esforço para mudar de posição. Só sabia que continuava vivo pelo levantar sublime de seu tórax. Ainda respirava.

— Realmente não quer me deixar dormir, uh? Esse barulho é irritante. – chutou levemente o pé da banqueta alheia, fazendo-a girar. Mália riu. — Tudo bem, senhorita. Irei matar a sua saudade de mim.

Seus olhos finalmente se abriram e, estranhamente, ambas as escleras estavam cobertas por uma grande vermelhidão. Caso não fosse a maquiagem em todo o seu rosto, ela conseguiria ver o quão cansado o rapaz estava, resultado de duas noites em claro compondo músicas para o próximo comeback. Não conseguia evitar, a criatividade vinha e ele aproveitava-a com paixão.

— O que te fez vir pra cá, Mália? Você não me conhece, não faz a menor ideia do que faremos aqui e seu perfil veio pelo fancafe o que, teoricamente, indica que és uma army. – girou a cadeira em sua direção. — Tenho isso em mente desde que nos falamos da primeira vez.

— Bem... – sorriu amarelo, encarando-o de volta. — Inicialmente, eu queria fazer medicina, me especificar na pediatria, dar orgulho pros meus pais e viajar com as minhas amigas pra comemorar. Esse era o meu sonho. – respirou fundo. — O ano passado foi um pouquinho complicado, as coisas não fluíram, resumidamente, nada deu certo. Minhas amigas souberam do projeto assim que foi lançado e, como elas passaram no que queriam e não podiam fazer parte, me inscreveram no lugar. O resto tu sabes.

— E o que te fez continuar? – arqueou a sobrancelha. Talvez fosse uma mania sua. — O que te fez pensar que valia a pena?

Mália mirou o chão, pensativa.

— Acho que a curiosidade sobre o que você realmente quer fazer, o que quer oferecer para o público. Não sei, Yoongi. Os requisitos exigidos eram tão... normais. Me sentia inferior à seleção de meninas e não haviam sequer motivos pra isso. Você não pediu absolutamente nada. Por quê?

Por instantes, um silêncio significativo pairou no ar.

Até que ele o quebrou:

— Mália, encare o espelho. – com hesitação nos movimentos, ela fixou seus olhos no vidro. — Agora me diga o que vê.

Suspirara.

— Uma garota que têm três pintinhas espalhadas pelo rosto, de pele bronzeada, com cabelo cheio, ondulado e que vai até três dedos depois do ombro. – engoliu a seco. — Os olhos são medianos, um pouco puxados e escuros. O nariz um pouco avantajado também.

— Compare você a mim. – também encarava sua imagem no espelho. — O que vê?

O corpo da menina logo fizera jus ao diagnóstico da ansiedade; alastrando a angústia que engolia seu peito tão rápido quanto o bater de seu coração. Não percebera quando o pé direito começou a balançar-se ligeiramente.

— Duas pessoas totalmente diferentes, fisicamente e culturalmente.

— Um diferente ruim?

— Não, apenas diferentes... – sussurrou, acanhada. — São belezas únicas, originais, uma não inferioriza a outra. Esse tipo de diferente.

— E se várias pessoas, uma vez ao dia, dissessem que você só será bela se for igual a mim, se tiver a minha cor de pele, o tamanho do meu nariz e o formato dos meus olhos. Se a empresa dos seus sonhos recusasse o seu currículo impecável por você não ser magra o suficiente. Se todas as pessoas a sua volta te pressionassem para seguir o padrão e não houvesse ninguém igual a ti nas revistas, nos noticiários e nos banners gigantes nas ruas. – pausou. — Como você se sentiria?

Mália finalmente entendeu a proposta daquele rapaz. Odiava padrões e odiava discutir sobre. Autoconfiança não era, nem de longe, algo que fizesse parte de sua personalidade.

— Eu me sentiria horrível.

— E...?

O desconforto crescia e subia para seus membros superiores. Sentira o rosto começar a suar e, as mãos, a tremer. Com determinação, fechou-as como punhos, buscando concentrar a tensão somente nelas. O pé intensificou a força contra o piso, quase tentando atravessá-lo.

Admitir era a pior parte.

— E faria de tudo para ser igual a ti, para ter a sua beleza, pra escapar da pressão alheia, mesmo que isso custasse a minha própria identidade. – mordera a parte interna da bochecha. — E é exatamente sobre isso que você vai falar.

Touché.

— A população coreana não é feita apenas por pessoas magras, excessivamente brancas e ricas o suficiente para suprir qualquer necessidade estética banal. Há também pessoas comuns como em qualquer outro país, pessoas que levam vidas simples, normais, e difíceis. A grande diferença da nossa sociedade para a Ocidental é que, aqui, os coreanos são obrigatoriamente rendidos ao padrão de beleza assim que nascem. Conforme vão crescendo, fazem de tudo para mudar o que são, dentro do limites que a condição financeira os impõe. A lavagem cerebral é automática.

Yoongi levantou, presunçoso, esticando o braço esquerdo para pegar a garrafinha d'água aberta na mesa de centro. Em lentos passos, caminhou até a parte detrás da banqueta de Mália. Era notória a impaciência da companheira perante o assunto, e ele, mais do que ninguém, sabia muito bem o que ela estava sentindo no momento.

Comodismo sempre fora o seu forte.

O som dos seus sapatos sociais ecoavam com precisão na pequena sala.

— Raciocine comigo; se uma pessoa carregar responsabilidades extremas em cada pequena coisa que fizer ao longo da vida, a tendência dos sentimentos ocasionados pelo medo de falhar é aumentar e transbordar de muitas maneiras; principalmente em forma de problemas psicológicos. É daí que ansiedade vem juntamente com derivados dela, como a depressão.

— E a depressão aumenta a impulsividade. – sua voz se recusava ir além de um murmuro.

— Exato. O resultado é claro, o indivíduo acaba por comer mais, por ser estressar mais e, consequentemente, por engordar ainda mais. – Yoongi apoiou as mãos no ombro da menina. Ela estava tensa e ele, quente. — Isto aumenta o grau da depressão e aflora a angústia que a ansiedade traz, para tentar se livrar disso, ele acaba afogando as mágoas em mais comida. É um ciclo.

— A venda com medicações, suplementos, dietas e produtos estéticos aumentam, não é? Conheço bem esse discurso. – bem até demais. Fixou os olhos nos próprios dedos que se embrenhavam na blusa, fazendo o máximo para ignorar a presença alheia.

— Kailola, olhe pra mim. – a mão posicionada no ombro da menina rastejou-se com delicadeza até a ponta de seu queixo, erguendo-o com cuidado. Mália não conseguiu evitar o arrepio por toda a espinha causado por seus dedos feito plumas. — Meu cabelo não é assim, nem a minha pele, nem os meus olhos, nem meu corpo e eu não posso fazer nada contra isso. Faz parte do meu trabalho. A minha imagem faz parte do meu trabalho. Preciso vendê-la. Essa é a minha vida, assinei esse tipo de contrato para realizar o meu sonho. Não estou sendo falso com meus fãs, estou sendo um sobrevivente. Dinheiro move tudo, inclusive a indústria musical.

As orbes de Min Yoongi desceram para pequena boca alheia, analisando mais de perto as rachaduras feitas a força no lábio inferior, percebeu, também, a tremedeira que os possuía e aumentava com os segundos. Entretanto, não conseguia distinguir os motivos para tal. Sabia que Mália tinha um problema e ele, mais do que ninguém, queria ajudá-la.

Logo voltara a andar pelo cômodo, escondendo as bochechas avermelhadas por ter passado tempo demais a encarando. Esquecera de que, apesar de tudo, ainda era um homem e ela, uma mulher. Uma mulher com uma bela pintinha no lábio superior, aliás.

Os ombros da jovem relaxaram quase instantaneamente quando ele afastara-se.

Estava perto demais.

— Toda empresa precisa de patrocínio, gastamos muito dinheiro construindo os palcos de cada show e os tantos empregados que são contratados pra isso dar certo. Engenheiros, técnicos, dançarinos, equipes para montar, para auxiliar os estilistas, as costureiras, funcionários em geral. Nossa! Não consigo contar a quantidade de pessoas que convivo todos os dias. – dera uma pausa dramática. — Se fôssemos cobrar dos ingressos o suficiente para preencher o que é colocado em pauta e lucrar em cima disso, ninguém iria nos shows. Por isso a quantidade de comerciais feitas. Investimos contando com o retorno, nada pode falhar, é arriscado, mas é a nossa vida.

— As pessoas os veem nos comerciais e querem ser iguais. – insegurança transbordava das pupilas de Mália.

— E qual o sentido de passar a viva toda procurando pela perfeição se tampouco existe? – continuou. — Não precisa ser assim, ninguém merece passar por isso, senhorita. Foi por isso que te contratei, por isso que criei esse projeto. Não vale a pena morrer por um padrão que nem deveria existir.

— É justamente a normalidade que você procura. – dissera mais para si, do que para ele. — Mas não posso aceitar quebrar algo que eu mesma ajudei a construir, Yoongi. Sou o exemplo de garota-manipulável-pela-mídia. Fraca, insegura e dramática. Se o padrão existe é porque alguém o segue, não quero estragar o que você lutou pra conquistar.

O rapaz parou bem a frente da cadeira alheia, repleto de empatia. A Fobia social e a falta de autoaceitação fizeram parte dos principais conflitos que tivera para chegar onde estava. As pessoas diziam que ele era fraco, impacaz, desprezível, e, sem forças pra provar o contrário, ele aceitava as ofensas como se as merecesse.

No final de tudo, sua mente fora o seu maior obstáculo.

Min Yoongi precisou vencer de si mesmo para vencer o mundo. E ele não deixaria que Mália caísse no mesmo buraco.

— Quando a mesma mentira nos é dita vezes seguidas, a verdade se altera. – as mãos brancas do rapaz divagavam no ar, tal como suas lembranças. — E se as pessoas disserem que és fraca e você aceitar o insulto de bom grado, então você se torna fraca. Porque quem decide o que você é, o que quer ser ou o que fazer é a sua persistência naquilo que acredita.

Naquele momento, Min Yoongi não parecia, de fato, falar aquelas palavras diretamente para a jovem. Eram as suas vivências expostas nas entrelinhas.

— Os jovens seguem padrões pela certeza de que sempre terão alguém pra conversar, acreditam que, quanto mais amigos, menos sozinhos irão se sentir. Um método de fugir da solidão e não afundar na carência eterna. – era assim que eu me sentia, ele quis acrescentar. — Quero demonstrar com esse projeto que amor de verdade vem com respeito, ninguém precisa morrer pra sentir vivo, muito menos você.

As batidas do coração de Mália pareciam falhar e uma forte pontada no estômago a atingiu. Queria chorar, mas sentia que não podia fazê-lo na frente dele. 

Pressionou os olhos, buscando coragem no fundo do âmago para continuar a ouvi-lo.

— Quero provar que características são apenas características. E o pré-conceito é o simples medo do desconhecido. O seu papel no álbum é abstrato, Kailola. É profundo. Você não será apenas a representação de um determinado grupo social, será a representação da autoaceitação e liberdade. Por favor, não desiste de tentativa de salvar pessoas que se sentem sem rumo, não deixe-as afundarem nisso.

Ela mordeu o canto interno da bochecha; rasgando a pelinha solta que lá havia de tanto ranger os dentes. Buscando suavidade na voz, respondeu:

— Aceito fazer parte do projeto, independente do quão invasivo seja para o meu interior. – respirou fundo. — Porém, tenho uma condição.

— Qual é a sua condição?

— Quero que me conte a sua história.


Notas Finais


AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

Eu não sei se vou conseguir terminar o próximo capítulo no prazo, aconteceram algumas coisas com a minha saúde que me impedem de escrever :(

Fantasminhas, esse capítulo é muito importante, todo o projeto foi explicado nele e é o principal ponto da fanfic. Qualquer dúvida, só perguntar.

Se possível, até semana que vem [♡]


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