História Asas Metalicas - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Espaço, Nave
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Palavras 2.548
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ficção Científica, Romance e Novela, Sci-Fi, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - 3


A faca macia partia o rosbife. Dedalo estava dividido entre manter a polidez enquanto falava e fixar o olhar em sua atividade manual.

- Ele não pára de dizer que ainda está lá, sonhando. Acha que ainda está lá, naquele lugar, imaginando coisas. Que nada disso que está ao redor dele é real

A psicóloga infantil - você acha de tudo no mercado negro da Internet - tomou um gole de sua taça de cidra.

- você o encontrou num hotel em Amsterdã, correto? Como um atrativo a mais.

- Sim... eu cheguei cansado depois da longa viajem. Me deitei na cama. Bateram na porta como se fosse serviço de quarto. Quando eu levantei a cabeça... tinha um menino de oito anos, de pé , nu, me desejando uma boa tarde e listando os favores sexuais que o treinaram a prestar aos hóspedes. Eu... eu fiquei sem reação.

- é natural. Um homem integro como o senhor... o staff deve ter pensado que você era um de seus clientes regulares. E é também natural que uma criança em situação de abuso se refugie em mundos imaginários, ainda mais uma criança com dons criativos como o seu menino. Com o tempo fica difícil discernir o que é real. A possibilidade de que ele continue a fazer associações fictícias se permanecer sem tratamento é quase absoluta, e mesmo que tenha essa assistência ainda é possível que...

  Dédalo sacudiu a cabeça violentamente.

- Minha integridade não tem nada a ver com isso. A senhora sabe porque eu a contratei. Eu... mato pessoas como sustento. Meu alvo estava naquele motel, como me indicaram -inventava Dédalo- algum empresário bêbado abriu a boca e contou coisas importantes demais a um... "profissional do sexo". Era essa a expressão que usaram no meu briefing. A minha perplexidade não era causada apenas por conta da situação asquerosa em que aquele garoto sem roupa vivia. Grande parte do meu horror foi descobrir que aquele pequenino era, de fato, o meu alvo.

- E o que você fez? - questionou a dama, com as mãos unidas sob a mesa, em contato com o vestido vermelho.

- o sentei na borda da cama e o cobri com cobertores grossos. Ele ficava tentando me beijar, tocar em mim, me seduzir, achando que meu comportamento era um tipo de fantasia sórdida. Só começou a entender do que se tratava quando dei um jeito de colocar ele dentro do meu carro nocauteando quem ficava no caminho. O levei para minha casa e minha esposa se apaixonou. Só é um pouco arisco e agressivo conosco. Mas imagino que seja natural. Na escola ele não conversa com as outras crianças. Só fica sentado num canto olhando pra um lugar fixo quase sem piscar. Frequentemente é alvo de brincadeiras sem graça. Inclusive um pestinha, um tal de Miguel...

- você não encontrou sanções por parte dos seus empregadores?

-- Não, felizmente. Mas tive que garantir que o tornaria um de nós.

O mais irônico é que o menino estava correto. A sua paranoia não era patológica. Todo aquele mundo, tudo o que os seus olhos viam e absorviam era um tipo de ilusão até certa medida, a Iniciativa Terra, especificamente. E a sua angústia era tal que causava uma rachadura no fino véu. Causava instabilidades nos sistemas que  compunham a simulação ao seu redor. Vez ou outra anomalias como aquela surgiam. O sistema se reparava sozinho na maioria das vezes, tornando a vida das Units envolvidas ainda mais infernal até que elas cometessem autodestruição para restabelecer o equilíbrio. Já tão profundamente manchadas como estavam, as suas firmwares não eram reutilizadas nem mesmo na mais remota das circunstâncias, restando a estes seres pensantes nada mais que EX OBLIVIONE. Um destino considerado cada vez mais repulsivo e desumano ao ser neohumano, ao qual a imortalidade jazia na palma da não. 

Para as Units mais resistentes ou incapazes de cometer suicídio por quaisquer motivo, no entanto, os Administradores guardavam uma estratégia diferente. Era esse o papel de Dédalo, ou Onix, como viria a ser chamado após conquistar prestígio e recursos. Aquele glitch em Amsterdã, no entanto, ele se recusou a consertar.

- Boa noite, senhor Saladino. O Meu nome é Dario e estou aqui para a sua mais completa fruição - anunciava o menino, gesticulando, apresentando a sua nudez com as mãos. Continuava a falar, a falar coisas que nenhum menino jamais deveria ser capaz de dizer. E continuaria dessa forma caso seu destino não mudasse tão bruscamente.

A porta deslizou para os lados. Laz entrou na enfermaria. Os outros dois permaneceram no umbral.

Mauro se encontrava dentro da estação médica. Precisou substituir boa parte de seu cérebro orgânico, assim como diversos órgãos internos. Tudo em poucas horas. Sua nova carcaça repousava sobre a maca. Ao se ver em companhia, Abriu o casulo de vidro e sentou-se. Vestia nada mais que um escasso rokushaku azul-claro. Olhava para o vazio.

- Mau, Tá tudo bem? Sobre a sua ideia de tirar férias...

- Verde - Mauro fechou os olhos por um longo momento - eu te fiz almirante usando a  influencia dos meus pais depois daquela nossa paixão maluca. Eu doquei naquele outpost para reparar os danos de no casco do meu caça e reabastecer as armas e combustível. Estava bem no meio de um conflito no sistema solar vizinho. Você era um adolescente, tão jovem. Enquanto eu... na ocasião eu já tinha trezentos e oitenta e quatro anos, Laz. Meu corpo já era mais artificial que primitivo naquela época. E fora os herdados, você não tinha mais nenhum aumento significativo. O seu corpo mal estava preparado para suportar o ambiente 0G, no qual você se expunha cinco vezes por semana, oito horas por dia. Depois daquela nossa conversa louca atrás do hall de passageiros eu fiz questão de te tornar um piloto de combate como eu. Não queria te deixar largado, orbitando aquela lua num cantinho desimportante da galáxia por toda a sua vida. Não foi boas intenções apenas. Ver você mexendo naquelas ferramentas me fez pensar em todos os meninos da galáxia que mal merecem o prefixo neo, desperdiçando a vida toda numa estação espacial simplista, desprovida até mesmo de uma baia agricultora, enquanto velhos quadrilhonários se inscrevem na fábrica do próprio universo. Foi por isso que investi quase todos os meus bens na iniciativa Epifania. Eu queria dar um significado para a vida desses garotos. Transformá-los em guerreiros, comerciantes, couriers... Mas infelizmente isso ainda não é o bastante. Eu vejo isso nos seus olhos Laz, na sua melancolia.

- Mau... - Laz foi mergulhado outra vez além da superfície do aparente. Era difícil, doloroso até, ver Mauro pelo que ele realmente era: uma entidade antiga e praticamente divina - você já fez o bastante. Você salvou as nossas vidas ontem - Ele olhou para o casal que observava da porta, acanhados - como vocês dois se sentem quanto a isso. Você já fez muito.

- Verde - Repetiu Mauro - A iniciativa estava bem no inicio quando você se inscreveu. As estações de treinamento não eram tão diferentes daquela na qual você nasceu de um útero artificial e viveu uma juventude medíocre. Mesmo quasimáquinas, as pessoas ainda sentem o chamado da natureza. Você sempre fica aqui dentro, enquanto os nossos emissários cuidam da burocracia, descendo as vezes em estações extremamente complexas, com biomas inteiros ao redor. Quase todos nós descemos numa dessas de vez em quando, menos você. Como almirante você não sai daqui, daqui de dentro. Eu sei a razão da sua melancolia, Laz. Você nunca viu uma forma de vida vegetal complexa, uma simples árvore, na sua vida toda. Setenta e cinco anos gastados dentro de casulos metálicos flutuando no vazio. Você precisa de férias.

- Tudo bem, Mau. Eu faço o que você quiser,  anjo. Qualquer coisa. Só não podemos nos afastar demais do Loop de Barnard. Mas damos um jeito. Depois da última, merecemos isso. Férias. Quanto ao recente ataque, parece que de alguma forma o mainframe nos detectou como uma ameaça aos interesses do grupo Las Minas. Conversei com Granada outra vez. Convenci-o a estabelecer uma trégua breve até descobrirmos o que fizemos de errado.

- Simulação de idade média? É essa a sua ideia de férias, Carlos? - reclamava Sandy, examinando o panfleto com atenção.

Carlos balançou os ombros. O trio andava à esmo pelos corredores do Dreadnought.

- Tecnicamente estamos in duty, então não podemos sair da estrela de Barnard. Não há nenhum planeta "verde" num raio de vinte anos luz. Realidade virtual é a única coisa que nos resta. Agradeça aos nossos contatos, que nos permitiram usar os anexos do Mainframe.

Sandy insistia.

- Mas por que o Mainframe tem interesse nesse tipo de simulação?

- Quem sou eu pra julgar o que nossa soberana IA faz nas horas vagas? Antes de irmos, você tem alguma novidade sobre o ataque, Laz?

- Estive com Granada. E a coisa não é boa. Provavelmente vamos morrer desta vez, ou pelo menos eu vou. Ele me disse que não é o único componente da Las Minas que me vê como uma  ameaça. Aparentemente o simulador galactico que eles usam detectou 87 por cento de chance de que eu vá de encontro aos interesses do do grupo no futuro próximo. Querem eliminar a ameaça antes que ela se consuma. Granada não me disse exatamente qual é a minha ameaça.

- Um confronto direto é impossível. É suicídio. Estamos ferrados mesmo desta vez, mas não vamos de deixar sozinho, Laz.

- Fale por si mesmo - protestou Sandy - chega de problemas por enquanto. Vamos às férias. Mas cadê o Mauro.

- Eu sei disso, Carlos. Preciso descobrir porque o Mainframe me vê como ameaça e assegurar a Las Minas que não farei nada de errado. Sorte que nossa IA soberana não gosta de agir, só fornece dados a olhos que os interpretam como bem desejam. Quanto ao Mauro, foi convocado pra uma missão de última hora. Uma daquelas as quais ele prefere o outro nome.

 Enquanto o trio entrava na câmara da simulação um indivíduo chamado Morgan Lindybland trabalhava em seus estudos com mais vigor do que em todo o resto da sua vida, pois sabia que logo sua existência chegaria ao fim. Prostrando-se sobre a escrivaninha de mogno, haviam folhas de papel por todos os lados. Segurou o reflexo o quanto pode antes de explodir em uma tosse carregada. Mais algumas manchas de sangue apareceram ao seu redor. Acelerou a escrita, queria pôr naqueles documentos todas as suas ideias restantes, mesmo aquelas ainda não escrutinadas pelo método científico. Alguma coisa nunca antes filtrada pelos seus sentidos liberou uma intensidade exorbitante de energia à sua esquerda. O ruído das correntes de luz que giravam em velocidades imensuráveis parecia mil farpas de palha de aço sendo esfregadas entre si. Os papéis voaram, a caneta deixou-se cair, e o rosto virado não teve tempo de expressar coisa alguma. Do outro lado do portal, Dario olhava para um cientista de jaleco estéril ao fundo.

- O drone está pronto? - gritava o rapaz imortal. Obteve uma afirmativa

 Adicionado à sua confusão, uma figura exatamente similar à Morgan adentrou o recinto e deu alguns passos em direção à escrivaninha. Pediu polidamente que o gênio moribundo levantasse de sua cadeira. Como que em hipnose,  Morgan obedeceu enquanto a cópia tomava o seu assento. O jovem do outro lado gritava mais uma vez, dessa vez dirigindo-se ao outro lado do portal. Morgan agarrou a mão do desconhecido, e enquanto atravessava o portal, lançou um ultimo olhar à escrivaninha. A sua cópia sofria convulsões, caia sobre a mesa, morria. O anel de energia logo fechou-se atrás. Dario largou uma caixa cúbica de pura escuridão no chão da estação espacial. A escuridão expandiu em tentáculos que adentraram as fossas nasais, ouvidos e boca de Morgan, fazendo tudo aquilo parecer seu último pesadelo de agonia. Subitamente, após toda a massa negra adentrar o corpo do transeunte temporal, tudo voltou ao equilíbrio, exceto pelo sono anormal que tomou as suas faculdades mentais. Dario tomou-lhe o braço direito e envolveu-o em seus ombros.

- Lindybland... Vou te levar aos seus aposentos. Amanhã tudo fará mais sentido, eu prometo.

E foi assim que Morgam acordou depois de várias horas de sonhos turbulentos. Levantou da cama devagar, sentindo todo o peso de sua idade. Uma janela imensa brindou-lhe com uma vista de fantasia. Andou até ela. Um corpo celeste da cor de uma densa camada de poeira se estendia sob os seus pés, em toda a sua gloria e circunferência, mais distante, no canto direito do alto, um borrão azul profundo reinava soberano. Um gigante gasoso. O garoto dissera a verdade As peças se encaixavam devagar em sua cabeça. Haviam-lhe substituído. Alguém com uma tecnologia infinitamente superior a da sua época julgava que o intelecto dele era importante demais para ser desperdiçado na alvorada do século dezenove. Aquela cópia, provavelmente vazia de alma fora a solução para cerrar o paradoxo.

 Além do horizonte infinito, observou também uma coisa a mais, contrastante pela sua natureza corriqueira: O seu próprio reflexo. Mas havia algo de curioso nele, notou que lhe faltavam roupas, e que a pele descascava-se por toda parte. Enquanto examinava as mãos descamadas, sentiu que todo o seu sistema respiratório se inflamava em tal impulso que parecia intentar uma fuga de seu corpo. Seus órgãos excretores queimavam, explodiam em ardor. Correu para uma porta à parte por instinto, que deslizou para o lado revelando o banheiro. Permaneceu aberta às suas costas.

 Tossia e excretava tecidos de aspecto decaído e fluidos de várias cores. Gemia, gritava; sua pele em carne viva caía espontaneamente ao seu redor sem dor, dissolvendo-se, no entanto deixava-lhe num estado de choque  violento e descomunal.

 Dario veio ao seu socorro. Ajudou-lhe batendo em suas costas e arrancando a carne inútil que pendia. Levou-lhe para debaixo do chuveiro arriscando as suas próprias roupas e continuou a servir de infermeiro. E o processo, agora suavizado pelo grosso jato de água gelada, continuou até que a figura velha e doente de Morgan desse lugar a uma outra, quase juvenil.

 Ainda em choque, porém com o corpo em perfeito estado de pureza e limpeza, Lindybland ofegava. Era, porém, uma ânsia de oxigênio benigna. Morgan notou a suavidade com a qual desempenhava aquele trabalho, antes cada vez mas difícil. Foi percebendo devagar que seus ossos não mais doíam, e que o gosto amargo de sua língua fora também embora, dentre outras coisas. Assim se deu conta da tamanha maravilha que lhe fizeram e sorriu. Sorriu um sorriso cansado, extasiado, suavemente aberto. Era recíproco. O de Dario, no entanto, conservava-se misterioso, cínico quase. Por conta daquele sorriso, algo há muito tempo adormecido irrompeu dentro de Morgan, e num repente envolveu o corpo de Dario e invadiu a boca dele com a sua língua, não sendo mais responsável por suas próprias ações. Momentos depois, Morgan já deitava de bruços sobre a cama. Mordia e cravava as unhas no que encontrava pela frente, urrando de prazer enquanto Dario lhe penetrava por entre as suas pernas abertas, em estocadas intensas.

 Quando os instintos primitivos foram totalmente saciados, ambos nus, sentaram na beirada da cama, abraçados, conversando sobre a natureza daquele universo novo onde a imortalidade não era mais um sonho presunçoso.

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