História Assim no Inferno como no Céu - Mariela - Capítulo 3


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Lesbicas, Mariana, Mariela, Rafaela
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Palavras 6.269
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Crossover, FemmeSlash, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Orange, Romance e Novela, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Universo Alternativo, Violência, Yuri
Avisos: Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Eu não ia postar esse hoje mas como estou sem nada para fazer mesmo... Ta ai.

Capítulo 3 - O período de Tribulação


POV RAFAELA

Eu suspirei e olhei para o relógio que estava na parede branco-acizentada oposta a mim. Já faziam horas que eu estava sentada naquela maldita cadeira desconfortável, de frente para uma mesa de ferro onde havia um gravador em cima. Tentei passar a mão no cabelo como sempre faço e meus movimentos foram barrados por conta das algemas em meus pulsos. Minhas algemas estavam presas no pé da mesa por outro par de algemas o que limitava muito os meus movimentos. Era impossível mexer os braços, mas se eu quisesse conseguiria bater no delegado que me encarava do outro lado da mesa e nos dois policiais parados ao lado dele. A mulher não parava de me olhar uma expressão dura. Uma expressão que não escondia nada o seu ódio. Dei um sorriso irônico para ela e voltei a olhar para o delegado a minha frente.

 Ainda era meio dia e eu estava presa naquele lugar desde que tentei sair de casa quando tinha acabado de amanhecer. Uma viatura estava me esperando do lado de fora e eu fui “convidada a comparecer” na delegacia para um depoimento. O policial que me algemou disse que fez aquilo apenas por precaução, pois todos sabem o que eu realmente sou. Ainda bem que a Mariana ainda estava dormindo quando eu sai de casa para tentar da um fim na moto do cara que me desafiou na noite anterior. Ela provavelmente estava preocupada pelo meu sumiço de horas, mas estaria mais preocupada ainda se tivesse me visto sendo algemada e levada para a delegacia. Suspirei novamente quando vi que o delegado não ia fazer nada além de me encarar e ergui as mãos.

- Isso é realmente necessário?

- Até você confessar, sim. - ele disse.

- Confessar o que? - me fiz de inocente - Eu já respondi todas as suas perguntas.

 Ele se curvou um pouco mais para frente, espalmando as mãos na mesa e me olhando nos olhos.

- Onde você estava na noite passada quando um homem foi morto por um tiro na cabeça a apenas 200 metros da sua casa?

- Eu já te disse. - falei cansada - Eu estava em um reunião de amigas na casa de uma delas e depois sai de lá com a minha namorada e nós fomos para casa.

- A moto da vitima estava em frente ao portão da sua casa quando acharam o corpo.

- Não tinha nenhuma moto lá quando minha namorada e eu chegamos. - repeti. Acho que ele estava falando a mesma coisa para ver se eu cairia em contradição. - Eu já disse isso duas vezes. Não é mais fácil tocar esse gravador ai para ver?

- Isso aqui não é uma brincadeira, Ferrari! - ele bateu na mesa com força - Eu faço vista grossa para todos os seus crimes e aceito muito bem o seu tráfico, mas não vou ignorar um assassinato!

- Eu já disse que não sei do que você está falando. - respondi com calma sem tirar meus olhos dos dele - Olha, quando vocês vão me soltar? Minha namorada deve estar preocupada comigo e…

- O que vocês fizeram assim que chegaram em casa? - ele perguntou - Não tornaram a sair? Nenhuma de vocês?

- A gente tinha mais o que fazer em casa para ficar saindo. - dei um sorriso safado - Quer que eu diga o que a gente fez? Okay. Primeiro estávamos na casa de uma das minhas amigas como eu disse. Então entramos no carro para ir embora e todo aquele clima da madruga começou a tomar conta da gente. Então eu parei o carro rapidamente na rua e a arrastei para dentro de casa. A gente se beijou… Ai ela me jogou no sofá e…

- Chega. - ele disse - Não é isso que eu quero saber.

 Eu ri.

- Mas eu estou contando o que aconteceu! Você não queria saber o que aconteceu exatamente? Então, eu estou falando.

- Confesse que você matou aquele homem! - seu rosto bonito ficou vermelho de raiva - Confesse!

 Me fingi de indignada e falei lentamente:

- Espero que você não esteja tentando me induzir a confessar algo que eu não fiz, senhor delegado. Isso é crime e o senhor sabe muito bem disso.

 Ele se ergueu e coçou a cabeça com raiva. Dei um sorriso irônico de vitória e falei:

- Eu já disse que não tive nada a ver com aquilo. Acha que eu matei o cara? Então prove!

 Alexandre me olhou de lado e finalmente suspirou derrotado.

- Eu desisto. - pegou o gravador na minha frente e falou - Depoimento encerrado as 12:34 do dia 13 de Agosto de 2022.

 O gravador foi desligado e eu ergui as mãos.

- Vão me soltar agora?

- Sim, vou buscar as chaves. - ele apontou para a mulher alta que estava na sala - Você fica aqui tomando conta dela para que não faça nenhuma gracinha.

- Sim, senhor.

 O delegado saiu acompanhado do outro policial e eu fiquei sozinha com Vivian. Sorri ironicamente para ela e vi minha amiga soltar a respiração que estava presa durante todo o meu depoimento. Ela correu para perto da mesa e sussurrou apressadamente:

- Você é louca, Rafaela? Matar um cara assim… Tão perto da sua casa e deixar a moto lá… Você só pode ter enlouquecido! Ontem mesmo nós conversamos sobre isso e você prometeu se comportar.

- Eu não tive culpa, okay? - sussurrei de volta - O cara apareceu na minha casa do nada para cobrar a morte do dono do morro onde ele morava. A Mariana estava comigo no carro quando a gente viu o cara lá na frente. Eu só tive tempo de coloca-la para dentro e voltar para me resolver com o cara. Ele puxou uma faca e eu atirei. O que você queria que eu fizesse?

- Desse um fim no corpo, qualquer coisa!

- Eu não tive tempo de…

 A porta se abriu e o outro policial retornou com as chaves. Vivian me empurrou e se ergueu rapidamente para disfarçar.

- Nada de gracinhas, Ferrari! Deixe as mãos onde eu possa ver… - ela fingiu notar a presença do outro policial só então - Olha só, parece que você se safou dessa vez.

 Eu pisquei para ela quando o outro policial se agachou para me soltar e Vivian tentou segurar um sorriso que saiu mesmo assim. Me levantei da cadeira e fui acompanhada para fora da sala pelo outro policial. Tive que assinar um formulário para sair e logo já estava na rua. O sol atingiu meu rosto e eu me espreguicei para retomar a sensibilidade dos braços. Essa tinha sido por pouco.

 

POV MARIANA

 Como fazer quando você acorda de manhã e nota que sua namorada sumiu de novo e não deixou nenhum bilhete avisando onde estaria? Acho que eu nunca vou achar uma resposta para isso. Bati na cama ao meu lado procurando por Rafaela, mas só encontrei o vazio. Olhei as horas no celular. 07:00, onde ela estava tão cedo?

 Fui para o banheiro e não a encontrei lá. Rafaela também não estava na cozinha e o café da manhã não estava pronto. Provavelmente ela teve que correr para a favela por causa de algum problema qualquer. Preparei meu café rapidamente e comi mais rápido ainda. Eu chegaria atrasada na clinica se não me apressasse. Me vesti o mais rápido que pude e peguei as chaves do meu ônix ao lado da porta. Destravei as portas e abri a garagem para tirar meu carro de lá. Eu estava tão acostumada a ir com a Rafaela e me senti muito frustrada por ela ter sumido daquele jeito.

 Dirigi rapidamente até o centro da cidade onde a clínica ficava e tentei não pensar em onde ela poderia estar ou no que poderia estar fazendo. Tentei a todo custo manter Rafaela afastada dos meus pensamentos, mas foi meio impossível. Novamente eu tive o mesmo sonho e nele o homem me dizia as mesmas coisas e insistia para que eu libertasse a Rafaela. Só que eu não sabia como!

 Na noite passada ela matou aquele cara… Ela não disse, mas eu sei que matou. São anos de convivência, eu consigo ver nos olhos dela quando ela mata alguém. Eles ficam mais… Brilhantes. Meu Deus, isso é tão errado. Tão errado! Mas o que eu poderia fazer? Eu a amo, não consigo viver sem ela. Eu a amo tanto que chego a fechar os olhos para as vidas que ela tira. Como eu poderia ajuda-la? Eu não tinha nenhuma resposta para isso também, mas aquela manhã eu estava disposta a ter uma conversa séria com a Rafaela sobre o que ela estava fazendo e tentar colocar um pouco de juízo naquela cabeça linda e completamente louca. Bem, seria uma missão impossível.

 Comecei mais um expediente e mal prestava atenção direito no que estava fazendo. Vários dos meus colegas vieram me perguntar se eu estava bem e eu apenas concordei com a cabeça. O que eu poderia fazer? Dizer para eles que estava totalmente preocupada com a minha namorada traficante que sumiu aquela manhã e com o sonho estranho que eu estava tendo toda noite com um homem todo vestido de branco me falando coisas sem sentido e me alertando para trazer a Rafa para a luz? Fora de cogitação, não tinha ninguém que eu poderia falar aquilo. Bem, talvez eu tentasse com alguma das minhas amigas… Mas qual delas me escutaria sem rir? O rosto da Larissa veio na minha mente. Sem a Talita e a Sara por perto, teria que ser ela.

 Deu o meu horário de almoço e eu fui para o refeitório. A televisão estava ligada no suporte e passava o jornal do meio-dia que contava as principais notícias da manhã e da noite anterior. Eu apenas brinquei com a minha comida com o garfo e encarei-a. A fome não estava presente em mim. Suspirei e ergui o rosto para a televisão. Já que eu não conseguiria comer era melhor me entreter um pouco e não pensar na Rafaela. Ouvi o âncora do jornal falar:

- E mais um novo surto da doença que está aterrorizando o mundo foi confirmado no Brasil. - ele disse em um tom sério - O surto aconteceu dessa vez aqui na Capital e deixou os hospitais em alerta. Em uma noite foram mais de 200 casos confirmados e quase o dobro desse número estão em observação com suspeitas de serem desse novo vírus. Os cientistas ainda não tem uma explicação para essa essa nova doença que se propagou pelo mundo em tão pouco tempo, mas alguns já o estão chamando de  Virus Apokalypsis.

 Franzi o cenho e sussurrei:

- Apokalypsis?

- Assustador, não? - Sofia perguntou quando se sentou do meu lado e abriu sua marmita. - Mariana, você está bem?

 Olhei para ela.

- Apokalypsis? - perguntei - Isso não significa Apocalipse em grego?

 Ela deu de ombros.

- Não faço ideia, mas pela semântica deve ser.

 Olhei para a televisão de novo onde o ancora ainda falava:

- … As autoridades pedem para que a população tome cuidado quando sair na rua e sempre lavem as mãos e evitem contato com as pessoas que estiverem com a doença. Lembrando que os sintomas são: febre, fraqueza, sangramento pelos orifícios do corpo e dor corporal. O Vírus Apokalypsis permanece sem cura e ainda não se sabe ao certo qual o seu modo de transmissão.

- Credo. - Sofia falou, mas depois olhou para mim - Não vai comer, não?

- Não. - eu me levantei - Não estou me sentindo bem, com licença.

 Agora para completar meu dia, aquela maldita doença chegou em São Paulo. Minha preocupação com a Rafaela apenas aumentou. Espero que ela lave bem as mãos…

(...)

 Sai da clínica na esperança de encontrar a Rafa do lado de fora, mas ela não estava lá. Fui até meu Ônix, me sentindo ainda mais desanimada e com as palavras do sonho martelando na minha cabeça. Dirigi tristemente até em casa e torci para já encontrar a Rafaela lá para podermos conversar, mas se ela não estivesse eu logo iria para a casa da Larissa para desabafar.

 Ela não estava lá e seu Astra estava parado no mesmo lugar que deixou na noite anterior antes de me arrastar para dentro de casa e me trancar no banheiro para ir matar aquele cara. Sai do carro para abrir o portão da garagem e estacionar meu Ônix lá dentro. Quando eu escancarei o portão ouvi passos atrás de mim e me virei rapidamente.

 A respiração ficou presa na minha garganta quando eu vi quem era e corri para abraçar Sara. Minha amiga me apertou com força em seus braços e soltou um solução.

- Sara… - eu falei - Que saudade.

 Ela me apertou mais e eu me deixei ficar naquele abraço. Senti que ela estava muito quente. Finalmente nós nos separamos e sorrimos uma para a outra. Passei meus polegares no rosto dela para limpar suas lágrimas e ela segurou minha mão.

- Você está linda. - ela disse - Ainda mais do que antes.

 Aquele comentário quase me fez corar e eu lembrei da época em que ela brigou feio com a minha namorada por gostar de mim. Rapidamente eu decidi mudar de assunto.

- Entre, por favor. Eu vou apenas colocar o carro aqui na garagem e já vou com você.

 Dei a chave de casa para ela e corri para estacionar meu Ônix branco. Entrei e fechei a porta sorrindo ao ver a Sara sentada no sofá. Ela olhava sem parar para as escadas. Eu ri e falei:

- A Rafaela não está.

 Sara respirou aliviada quando eu disse aquilo e eu me sentei ao lado dela. Faziam anos que eu não a via.

- Por que a Ingrid não me falou que você viria?

- Nem ela sabia. - Sara riu - Eu vim de surpresa.

- Poderia ter me avisado.

- Eu queria fazer uma surpresa, Mari. - ela disse carinhosamente - Mas me conta, como estão as coisas na clínica.

- Ah, estão ótimas! - eu disse animada - Falta pouco para eu finalmente poder abrir a minha clínica particular.

- Estou muito orgulhosa de você. - ela segurou minha mão e eu senti novamente como estava quente. Mais quente até do que a da Rafa - O que foi?

- Sua mão… Está queimando.

 Sara tirou a mão rapidamente e desviou o olhar. Notei que ela estava com algumas gotas de suor na testa e mesmo assim usava um casaco pesado. Não estava tão frio assim…

- Sara, você está bem? - perguntei preocupada - Você está suando.

 Toquei a testa dela e também estava muito quente. Sara me afastou rapidamente e mudou de assunto.

- Eu te assustei quando cheguei? Você estava tão distraida… No que estava pensando?

 Me perguntei se eu deveria ou não contar para ela. Bem, eu diisse que falaria com a Larissa porque não tinha nem a Talita ou a Sara por perto… Mas agora a Sara esta aqui e eu com certeza me abriria com ela. Ela não iria rir… Ela nunca riu de nada que eu contei e me deu muito suporte emocional quando a Rafaela terminou comigo muitos anos atrás. Naquela época a Sara ainda tinha 17 anos e eu tinha 18. Agora já somos ambas adultas. Ela com 23, a mesma idade da Rafa e eu prestes a fazer 25. Não adiantava nada prender aquelas neuras só pra mim.

- Em muitas coisas. - suspirei - Que bom que você está aqui, eu não tenho mais ninguém para desabafar… Na verdade tem, mas me sinto mais a vontade com você.

- Pode me falar o que quiser, você sabe disso. Sempre soube.

 Dei um sorriso.

- Obrigada. Então… Eu, eu estou preocupada com a Rafaela. Ela continua fazendo as mesmas coisas de sempre e eu sei que ela é muito boa nisso, mas eu tive uns sonhos estranhos essas noites… Eu sonhei com um homem todo de branco falando que o fim está próximo e que eu deveria me preparar e colocar a Rafaela nos eixos ou ela vai morrer.

 Sara pensou um pouco.

- Provavelmente você anda tendo esses sonhos porque anda muito preocupada com ela.

- Sim, eu pensei nessa possibilidade… Mas são tão reais.

- É que a sua preocupação é real. - ela riu - Não se preocupe, Mari. Tenho certeza que essa noite você vai dormir muito bem e não vai ter nenhum sonho louco.

 Sorri de novo e segurei a mão dela para me sentir melhor. Ainda estava quente… Tão quente…

 

POV RAFAELA

 Eu sei que deveria ter dado alguma notícia para a Mariana depois que sai da delegacia, mas meu celular havia ficado em casa e aquela hora ela já deveria estar no trabalho. Voltei para casa e passei pelo meu carro que estava parado no mesmo lugar. Em breve eu o colocaria para dentro. Vi um monte de chamadas perdidas do Alan no meu celular e retornei.

- Fala, viado. - eu disse quando ele atendeu enquanto comia a quinta banana - O que você quer?

- Porra, Rafaela! Sua amiga policial ligou aqui e me falou que você foi parar na delegacia!

- Fui. - joguei a casca no lixo - Mas deu tudo certo. Eles não tinham provas contra mim.

- Dessa vez, né? O que deu em você para fazer isso tão perto de casa e deixar o corpo lá?

- Alan, o que você queria que eu fizesse? O cara veio pra matar ou pra morrer… Bem, ele conseguiu o que queria.

 Eu ri e o Alan disse irritado:

- Não tem graça! Você já tem 23 anos, tem que parar de agir como uma adolescente de 17 e…

- Cala a sua boca! - eu gritei - Foi essa adolescente de 17 anos que ergueu a porra dessa favela e dominou São Paulo e o Brasil inteiro, seu pedaço de merda! Se esqueceu de tudo que eu fiz? Se esqueceu do que eu fiz na Bahia? Na Cracolândia? Lave a sua boca antes de me criticar, Alan!

 Silêncio.

- Você tem razão, me perdoe.

- Tudo bem. - me acalmei - Olha, eu estou indo ai pra favela. Okay?

- Okay, vem ai.

 Desliguei e sai de casa de novo a caminho da favela.

(...)

 Passei as horas restantes lá e ouvi um pessoal comentando sobre surtos do novo Virus Apokalypsis que tinha finalmente chegado a São Paulo. Me surpreendi por não ter chegado antes. Uma cidade tão grande assim e cheia de turistas já devia ter tido algum surto há muito tempo. Parece que até o meio dia já haviam sido cerca de 600 doentes e nessas horas que se passavam o número quase dobrou. Eu ri com a preocupação do Richard enquanto bebíamos no bar do Lucas.

- Tá com medo cara? - perguntei.

- Você não? - ele arregalou os olhos - Nunca assistiu aqueles filmes de apocalipse zumbi? Sempre começa com um surto de doença e depois… - ele fez uma pausa dramática - Todo mundo morre!

- Com o tanto de arma que temos nessa favela, os zumbis não vão durar muito. - falei dando um gole na minha cerveja - Isso sem contar todas as outras favelas.

 Ele não pareceu muito convencido.

- Não sei não… Tá sinistro isso ai.

- Isso não existe, Richard. - falei impaciente - Não existe essa coisa de zumbi ou qualquer outra merda que eles usem nessas séries para adolescentes e…

 Parei de falar quando um calafrio percorreu meu corpo e apertei meu copo com força quando fechei os olhos para tentar expulsa-lo, mas daquela vez eu não consegui. Comecei a suar frio e ouvi vagamente a voz dos outros perguntando se eu estava bem. Abri os olhos e vi a expressão preocupada do Alan me encarando. Desviei os olhos dele para a entrada do bar e vi um cara me olhando.

 Não seria a primeira vez que eu via algo sobrenatural e eu já estava acostumada com aquilo, mas aquele cara era diferente de todos os outros… Ele parecia tão humano… Seus cabelo eram bem pretos como os meus e seus olhos tinham um brilho avermelhado. Só os olhos denunciavam que ele não era humano. Bem, os olhos e toda a aura branca que o envolvia e brilhava tanto que me atraia de alguma forma.

 Me levantei lentamente da mesa e decidi ir atrás daquele cara. Os outros não vieram atrás de mim, afinal já estavam bem acostumados com a minha mudança de humor constante. O homem se afastou quando eu sai do bar e eu entendi que deveria segui-lo. Eu não fazia ideia do que ele era. Não poderia ser um anjo, eu nunca me comuniquei com coisas boas… Aquele cara com certeza não era nada bom, eu conseguia sentir , mas mesmo assim algo nele me atraia… Assim como a escuridão fria e estranha me atraia no pesadelo.

 Finalmente o homem parou em uma escadaria deserta e eu pude me aproximar mais. Senti o ar ficar mais frio perto dele e me arrepiei inteira.

- Quem é você? - perguntei de uma vez e percebi que eu estava um pouco assustada - O que você quer comigo?

 Ele sorriu e me encarou com seus olhos vermelhos.

- Eu estou apenas te observando.

- Me observando? Você não respondeu minhas perguntas.

- Eu sou um amigo. - ele disse respondendo a primeira - E o que eu quero de você é bem simples. Estou apenas te protegendo, te observando, te esperando.

- Me esperando, como assim? - eu tentei não parecer nervosa mas aquele cara me assustava - Se você quer alguma coisa comigo, perdeu seu tempo. Eu não vou fazer nada e… Você nem ao menos é real! É só uma alucinação da minha cabeça!

 Eu não tinha tomado os calmantes hoje e talvez esse fosse o motivo de estar vendo aquele homem estranho. Ele me olhou com uma expressão irônica que me lembrou terrivelmente a minha e disse calmamente:

- Não sou? Bem, se você quer uma prova… Vá agora para a sua casa e vai encontrar a sua namorada conversando com a Sara. Oh, esse nome é familiar para você?

- Impossível… - eu disse com cautela - A Sara nem mora mais em São Paulo.

- Vá ver com seus próprios olhos.

 Eu não queria dar o braço a torcer e fazer o que aquele estranho dizia, mas não aguentei pensar na Mariana perto da Sara. Virei as costas e corri para fora da favela, mantendo uma mão no quadril para segurar a arma ali. Se ela realmente estivesse lá eu iria matá-la e fodam-se as consequências.

 Parti correndo para fora da favela e ninguém tentou me parar. Eles já estão bem acostumados com a minha loucura iminente. Corri para casa e abri o portão com força praticamente abri a porta de entrada com um chute e congelei ao ver a Sara sentada no sofá ao lado da Mariana. Mariana se virou rapidamente quando ouviu a porta abrir e se levantou.

- Amor, calma…

- O que essa garota está fazendo aqui? - perguntei com raiva.

- Rafa… - Mariana me segurou pela cintura e se colocou na minha frente - Calma.

- Calma? - eu quase gritei - Eu disse o que aconteceria se essa menina atravessasse o meu caminho de novo!

- Rafa, olha… - Sara começou.

- Cala a boca, não fala comigo! - tentei afastar a Mariana, mas seria impossível sem machuca-la - Me solta…

- Não! - ela me olhou com suplica naqueles olhos castanhos que eu tanto amo - Não, amor. Ela só veio me ver, não faz isso. Por favor, não faz isso.

 Eu amoleci totalmente com aquele pedido desesperado e um pouco da raiva sumiu. Acariciei levemente o rosto da Mariana e ganhei um selinho. Vi o alivio nos olhos dela quando nos encaramos de novo. Olhei com raiva para a Sara e vi que ela também estava aliviada.

- O que você está fazendo aqui?

- Eu só pensei em aparecer e ver a Mariana.

- Pensou merda. - falei - Já conversaram? Pode ir embora agora.

- Rafa, não faz assim. - Mariana pediu - Ela é minha amiga.

- Foda-se, Mariana! Eu avisei para essa menina sumir da minha frente!

 Sara abriu a boca pra falar, mas começou a tossir como se estivesse engasgado com alguma coisa e começou a sufocar. Minha raiva sumiu e eu corri para segurá-la quando ela caiu no chão e começou a convulsionar. Mariana se desesperou e se aproximou por trás de mim. Sara tossiu mais uma vez e um jato de sangue voou da boca dela para o meu rosto.

- Porra! - passei a mão no rosto para tirar o sangue dos olhos - Caralho, pega um pano! Rápido!

 Mariana correu para obedecer e eu virei Sara de lado para que ela cuspisse todo o sangue que saia. Vi que tinha sangue escorrendo do seu nariz também. O corpo dela estava muito quente e a Sara suava frio. Mariana apareceu com um pano molhado e eu limpei o rosto de Sara.

- Sara. - chamei - Sara, olha pra mim!

 Ela me olhou e eu vi medo em seus olhos. Senti uma coisa ruim dentro de mim. Eu ouvi o pessoal comentando sobre os sintomas da doença na favela aquela tarde. Febre, sangue… Então eu entendi porque ela apareceu tão de repente. Ela não queria morrer sem rever a Mariana.

- Você sabia. - sussurrei - Porra, Sara…

 Mariana deve ter entendido porque tentou se aproximar para ajudar, mas eu gritei:

- Não! Não se aproxime, Mariana!

 Ela parou assustada com o meu grito.

- Mas… Rafa, o sangue voou todo no seu rosto.

- Eu sei! - não era hora para pensar naquilo - Chama a ambulância, ela está sufocando!

 Mariana correu para pegar o telefone e eu fiquei amparando Sara no chão e a ajudando com todo o sangue que agora escorria mais do seu nariz e ameaçava sufoca-la.

- A ambulância está a caminho. - minha namorada falou.

 Escorrei Sara no chão ao lado do sofá e corri para lavar o rosto e as mãos e sumir com o pano. Mariana veio atrás de mim e eu vi lágrimas nos seus olhos.

- Rafa, você está…?

- Não sei, fique quieta tá bom? Não fale nada disso para os médicos.

 Logo a ambulância chegou e colocaram a Sara em uma maca e enfiaram dentro do carro. Os paramédicos estavam vestidos com aqueles trajes de alta proteção.

- Alguma das duas teve contato com a enferma?

- Não. - eu respondi na hora - Ela apenas foi ao banheiro e caiu no chão na volta, mas nós não tocamos nela.

 Mariana se mexeu desconfortavelmente ao meu lado e o homem assentiu com a cabeça.

- Temos que leva-la para o hospital, vocês não podem nos acompanhar porque a doença é altamente contagiosa. Se alguma das duas sentirem os primeiros sintomas de febre e dor nas horas seguintes, procurem o hospital mais próximo.

- Sim, senhor.

 Ele se enfiou na ambulância depois de pegar o contato da Ingrid para avisar do ocorrido para a familia da Sara e Mariana e eu entramos em casa de novo. Ela puxou meu rosto para si e me deu um selinho demorado. Tentei afasta-la, mas não consegui.

- Por que você fez isso?

- Se você ficar doente, eu também fico.

 Não consegui responder e apenas a puxei para um abraço. Meu amor por ela é tão grande que chega a doer e a cada dia cresce mais. Me lembrei do que o homem disse sobre estar me protegendo. Bem, espero que ele realmente esteja ou do contrário eu provavelmente vou morrer.

 

POV MARIANA

 Uma semana se passou desde o incidente com a Sara na minha casa. Minha amiga morreu de madrugada no hospital… Os médicos não conseguiram conter o fluxo do sangue e ela morreu como sempre acontece com quem fica doente. Milagrosamente nem a Rafaela nem eu apresentamos sintomas, mas eu chorei muito quando soube a notícia através da Ingrid. Rafaela também ficou muito abalada com aquilo. Apesar de toda a rivalidade e ciumes eu sei que ela gostava muito da Sara. As duas se conheciam desde a época do Ensino Médio. Nós fomos no velório junto com as outras meninas e eu percebi que todas choraram muito… Apenas minha namorada não derramou uma lágrima, mas também não saiu do lado do caixão. Não é do feitio da Rafaela chorar, mas deu para ver que ela se importava,

 Como eu disse, uma semana se passou. Eu terminei meu estágio com sucesso e agora estou apta para ser uma veterinária de fato… Ou pelo menos estaria se o mundo não tivesse virado um caos. As ruas estão cada vez mais desertas, as pessoas tem medo de sair e se contaminarem através do ar. Alguns estabelecimentos estão fechados por medo e outros por luto de entes queridos que foram atingidos pela doença. O número de mortes se tornou alarmante e ainda não descobriram um jeito de conter aquele surto.

 Rafaela me acompanhou até o mercado que estava meio vazio, pois as pessoas não saiam de casa, mas dava para notar que o volume de alimentos estava diminuindo.

- Pelo visto não fazem mais entregas. - Rafaela falou - O pessoal está realmente apavorado.

- Não é pra menos, né? - eu disse - As ruas estão tão vazias… Da até medo de sair.

- Eu sei, por isso não te deixo sair sozinha.

 Sorri para ela. Rafaela consegue ser extremamente fofa. Amo esse jeito que ela cuida de mim, mas dava para ver como ela estava tensa com tudo o que estava acontecendo. Nos noticiários só falavam sobre o Virus e as pessoas pareciam ter enlouquecido. Ela olhou em volta quando chegamos ao caixa e eu vi que estava de olho em um homem que parou próximo a nós e olhava uma prateleira. Eu ia perguntar para a Rafa o que tinha acontecido, mas vi o homem desviar o olhar para nós e voltar a olhar a prateleira rapidamente.

 Começamos a passar as comprar a moça do caixa e ela sussurrou:

- Você viu?

- Vi. - admiti - Há quanto tempo?

- Desde que entramos aqui.

- Por que não me falou?

- Não queria te preocupar. - Rafa pagou e pegou as sacolas de uma vez sozinha. Haja força naqueles braços - Vamos sair daqui, vem.

 Eu a acompanhei rapidamente e abri o porta-malas do carro. Ela jogou as comprar pra dentro de todo jeito e fechou o bagageiro com força. Olhamos para a saída do mercado e vimos o cara sair sem levar nada.

- Entra no carro. - ela mandou.

 Eu obedeci na hora e entrei, colocando o cinto. Rafaela entrou e ligou o carro. Ela saiu do estacionamento do supermercado e olhou pelo retrovisor.

- Abre o porta-luvas.

 Fiz o que ela pedia e já procurei pela sua arma, afinal eu sabia que era isso que ela queria. De repente eu me lembrei e dei um tapa na minha própria testa.

- Não está aqui!

- Como assim não está ai, Mariana? - ela gritou e acelerou o carro pelas ruas vazias - Procura direito.

- Não está! Lembra que a gente saiu com o meu carro ontem? Você deixou a arma nele.

- Puta que pariu! - ela socou o volante - Ele está seguindo a gente.

 Me virei um carro acelerando atrás de nós. Não tinha ninguém na rua, já passavam das seis da tarde, não havia nenhum carro… Só nós e ele. Rafaela jogou o Astra para a direita para dar espaço para o homem nos ultrapassar e o carro dele passou direto. Por um momento eu me senti aliviada. Não devia ser nada, ele apenas estava seguindo o caminho dele e… Então o carro da frente fez um cavalo-de-pau e parou barrando o nosso caminho.

- Caralho. - Rafaela sussurrou e começou a tatear por baixo do banco - Eu sabia.

- O que vamos fazer? Você não pode sair na mão com ele, Rafa, olha o tamanho daquele cara.

- Eu não vou sair na mão com ele. - ela puxou um martelo enorme de debaixo do banco - Eu disse para você que o povo endoidou. Você não sabe as histórias que eu escutei na favela… Eu não falo nada para não te assustar, amor, mas… Estão loucos. Pessoas se matando nas ruas, brigando por nada, roubando uns aos outros, agredindo, estuprando… - ela se virou e tocou meu rosto carinhosamente - Eu nunca vou deixar que toquem em você.

 Coloquei minha mão por cima da dela no meu rosto e fechei os olhos por um segundo para me acalmar.

- Por que? Por que fazem isso?

- Por dinheiro, comida, gasolina, maldade… Não sei. - ela olhou através do vidro para o homem que tinha saído do carro e vinha na nossa direção. - Trave as portas.

- Rafa, não!

 Mas ela saiu do carro antes que eu pudesse me mexer e eu só pude travar as portas como ela havia mandado. Olhei minha namorada se aproximar daquele cara enorme e estranho levando apenas aquele martelo grande na mão direita. Como a gente conseguiu esquecer a arma no Ônix? Eu quis me bater por ter deixado que ela esquecesse da arma. Eu não suportaria ver minha mulher apanhando. Não, ela não ia apanhar. Ela já passou por coisa pior e sobreviveu.

 O povo realmente tinha enlouquecido e não apenas em São Paulo. Pelo que se dizia, o mundo todo estava louco. Nos noticiários eles falavam de guerras e disputas por toda a parte, em todos os continentes… E ainda tinha a porra daquele vírus matando cada vez mais. Lembrei novamente dos meus sonhos com aquele homem. Por que aquilo me perturbava tanto? De alguma forma eu sabia que tinha a ver com o caos que o mundo tinha se tornado.

 Rafaela se aproximou do cara finalmente e eles pareceram conversar. Comecei a rezar para que fosse apenas uma conversa cordial e o homem fossem embora. Já tinha tanta gente morrendo… Tanta gente doente e se matando por nada… De repente minha mente deu um lapso e eu pensei:

- Doença… Mortes… Brigas… - meu coração pulou uma batida e eu senti um medo aterrador - Peste, Guerra e Morte. Não, Não pode ser. Isso não é real, é apenas uma passagem na Bíblia, não pode ser real.

 Todo mundo que vem de família Cristã com certeza já ouviu falar dos quatro cavaleiros do Apocalipse. Peste, em seu cavalo amarelo; Fome, em seu cavalo preto; Guerra, no vermelho… e Morte no cavalo branco. Claro que todo mundo já ouviu falar sobre eles. Os arautos que trariam o fim do mundo. Mas não podia ser real de verdade. Digo, sempre teve morte, doença e fome no mundo, assim como guerras. Sempre teve e o que está acontecendo agora é apenas isso. Apenas isso, Mariana, não haja como uma velha viciada em ir para a igreja que vê presságios do Apocalipse em tudo que acontece. Isso nem é real, é apenas uma passagem da Bíblia que pode ser interpretada de várias formas e não necessariamente com quatro entidades que vão acabar com o mundo e…

 Meus pensamentos foram cortados quando eu vi Rafaela dar uma martelada na cabeça do homem. Soltei um grito dentro do carro, mas ela não me ouviu. Ela deu outra martelada e o homem caiu no chão. Vi minha namorada, a garota que eu tanto amo, erguer o martelo com as duas mãos e bater com força no crânio do homem. Ela deu uma pancada, e mais outra, e outra. Foram tantas que eu nem consegui contar. Fiquei paralisada pela visão da massa disforme que havia virado a cabeça do estranho.

 Rafaela parou de bater finalmente e olhou para mim no carro. Ela deve ter visto a minha cara de assustada. Eu estava com vontade de vomitar, nunca tinha visto ninguém morrer muito menos de um jeito tão brutal daqueles. Rafaela abriu a porta do carro do homem e vasculhou tudo a procura de alguma coisa. Então ela correu de volta para o carro e entrou. Vi como o martelo estava ensanguentado, mas ela não pareceu se importar e o jogou para o banco traseiro. Não consegui falar nada, toda a minha voz tinha sumido.

- Temos que sair daqui. - ela ligou o carro de novo - Quando chegarmos em casa, vamos pegar o Hades e nossas coisas e vamos para a favela. Lá é bem mais seguro, não podemos ficar em casa. O povo enlouqueceu.

- Mas… - falei com a voz fraca.

- Mas o que? - ela me olhou de um jeito que me deixou assustada, mas acho que o que tinha nos seus olhos era apenas a adrenalina de ter matado o cara - Eu não vou deixar nada acontecer com você, Mariana. Nós vamos para a favela, lá tem armas e bem mais segurança.

- E as nossas amigas?

- Eu vou mandar elas irem para lá também. Apenas durante tempo suficiente para as coisas se acalmarem… Tem que acalmar. - ela disse pensativa - Isso não pode durar para sempre.

  Seus olhos verdes estavam focados nas ruas a nossa frente e eu ainda podia ver neles o brilho da morte.


Notas Finais


Me avisem caso haja qualquer erro


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