História Atemporal - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chen, D.O, Xiumin
Tags ?2concursoexofanfics?, Baeksoo, Drama, Dtehospital, Soobaek
Exibições 90
Palavras 8.226
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Misticismo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Eu tentei ser muito sensível sobre tudo. A despeito da minha pouca experiência com o tema.
Existem muitas citações a Harry Potter no texto. Creio que compreenderão rapidamente o por quê.
Essa fanfic foi inspirada em parte no MV de Miss You, musica originalmente do Fly to the Sky, mas refeita
pela SM como homenagem com participação do Yixing. Não foi baseada em livros ou filmes apesar de
qualquer similaridade que possa ter. Eu raramente leio romances.

Muito Obrigada!

Obs: Nos encontraremos nas notas finais!

Capítulo 1 - Memórias


 

 

O som da música ainda podia ser ouvido por Baekhyun, não eram mais as notas doces de seu amado piano que soavam na noite fria e bela. Sua apresentação por aquele dia havia encerrado, o som luxurioso do saxofone assumira o ambiente, e ele estava livre para ir para casa, mais uma noite de trabalho havia terminado. Olhou o relógio em seu pulso, chocado por ser bem mais tarde do que previra, imediatamente se sentiu culpado por trabalhar naquela época do ano, no dia seguinte era véspera de natal e ainda não havia comprado o presente de seu marido Kyungsoo. Suspirou imaginando se seus dedos, um tanto doloridos depois de executar peças e peças por horas, não seriam ainda mais torturados pelo volante que teria que apertar entre seus dedos pela próxima hora e meia.

 

Sorriu sozinho ao pensar no mais baixo, Kyungsoo não estaria em casa naquele dia, tinha plantão no hospital de duas a três vezes por semana no fim do ano, e já pensava em fazer algo delicioso para o mais novo comer, já que não dormiria até que ele chegasse, e sendo quase quatro da manhã não demoraria muito a ocorrer. Duas horas livres.... Talvez pudesse até lhe fazer alguns bolinhos. Olhara cautelosamente para um lado e outro da rua, mesmo sentindo-se idiota pela precaução, pois naquele horário nem mesmo os animais senão grilos pareciam acordados naquela área metade urbana, metade arborizada diante do restaurante de luxo. Atravessou quando o sinal abriu para si, bufando por estar sendo tão certinho quanto costumava acusar Kyungsoo de ser, e foi ainda com esse sorriso nos lábios que se viu tomado de surpresa diante de um farol. Um carro virara em sua direção repentinamente, as luzes o cegando por longos momentos e então a dor, a sensação de ser lançado para o alto e o relance das estrelas brilhantes que tanto o haviam encantado no céu limpo daquela noite ao sair de casa. Então era aquilo que seu pressentimento de tantos anos significara? Fora aquilo que ele temera nos últimos cinco anos? Ele sabia que aquele sonho significara algo e agora estirado no chão, sentindo-se cada vez mais fraco e estranhamente alquebrado por fora, tinha a mente ativa e ciente da verdade, podia ouvir as vozes desesperadas em seu entorno, naquele momento pediu silenciosamente desculpas a Kyungsoo, talvez afinal ele não estivesse na ceia do natal, e em seguida repetiu-as a Minseok; o amigo de ambos desde a faculdade teria muito trabalho por sua culpa.

 

 

                                                                     ≈ ≈ ≈

 

 

Aquele era sem dúvida o sétimo copo de café que o médico tomava, os cabelos negros em um corte simples estavam bagunçados, o jaleco sempre impecável parecia mais disforme e amarrotado conforme as horas passaram. Do Kyungsoo estava tendo uma noite cheia, usualmente era o médico responsável pela UTI do Hospital Geral de Seoul, mas naquela noite o hospital estava completamente lotado, precisavam de si na emergência. Nada inusual posto que nos fins de ano era comum pessoas se acidentarem ou simplesmente beberem demais a ponto de precisar de atendimento médico. Havia também uma porção de atendimentos curiosos todos os anos, as enfermeiras não poderiam deixar de comentar entre si. Naquela noite, um pequeno menino de cinco anos havia engolido um enfeite de natal da árvore de sua casa, pensando ser os famigerados papais Noel de chocolate que tanto faziam a festa da criançada. Estava exausto e sabia que ainda haveriam horas pela frente pois as pessoas não paravam de chegar e o médico que o substituiria chegaria apenas as seis da manhã. Olhou para o relógio que apontava ser quase quatro e meia, se perguntando silenciosamente se Baekhyun havia comido direito naquele dia, a vida de músico era bem difícil, por vezes não perdendo muito para sua rotina de médico.

 

Enfermeiras corriam para todas as direções empurrando pequenos carrinhos com medicações, seringas descartáveis, curativos em potes estéreis e outros itens em direção a emergência; provavelmente fazendo a reposição da madrugada para o pronto socorro. No segundo andar as coisas eram um pouco mais calmas, era o setor dos internos, pessoas que estavam se recuperando de cirurgias ou prestes a se submeter a uma, assim como à ala de pacientes de tratamentos complexos, como a ala de oncologia infantil. No terceiro andar ficava o seu usual local de trabalho, onde costumava ficar a unidade de terapia intensiva e o setor onde se realizavam os exames mais corriqueiros. O médico se espreguiçou, pensava seriamente em pedir permissão para sair por alguns instantes e talvez cochilar por quinze minutos em uma das salas de descanso, situadas no prédio anexo ao principal onde ficava o centro de reabilitação e fisioterapia e uma das três lanchonetes do hospital. Sentia um nó de estresse estranho em seu corpo e a impaciência não parava de crescer, já não parecendo tanto com cansaço e sim com aflição.

 

Um arrepio de puro medo atingiu a nuca de Kyungsoo quando viu as portas da emergência se abrirem repentinamente; os paramédicos arrastavam a maca às pressas gritando o estado do paciente, ele havia sido atropelado, pelo que o rapaz entendera e imediatamente sua mente se lançou a ideia de ir auxiliar no atendimento, mas seu corpo parecia pregado ao chão, como se houvesse um cheiro familiar no ar, algo reconhecível para ele que o bloqueava. Era uma sensação estranha, para somar com as que vinha tendo durante esse último quarto de hora. Como um médico atuando a quase quatro anos, fora seus anos de residência é claro; jamais tivera medo de uma emergência ou de qualquer coisa na rotina daquele hospital. Ele amava àquele local e amava sua missão de salvar todas as vidas que podia.  “O nome dele é Baekhyun, achamos a carteira de motorista no bolso da roupa”. Ouviu uma enfermeira dizer, junto a diversas outras coisas relacionadas ao atendido que Kyungsoo não pareceu conseguir registrar. Tudo aquilo ocorria em átimos de segundo, mas sua mente pareceu perceber quase tudo devagar, exceto depois daquele nome.

 

O moreno correu com toda a rapidez que obteve após suas pernas se libertarem dos momentos de hesitação e se viu seguindo as pessoas que levavam Baekhyun. Que não fosse SEU Baekhyun!”  pensava indo para a sala da emergência. Ele não precisou de muito para notar que não pudera contar com a sorte. Mesmo que as roupas do rapaz tivessem sido habilmente cortadas durante o atendimento, poderia reconhece-las, ele mesmo havia dado aquele terno escuro com um lenço cinza e triangular para ele, reconhecia as mechas de cabelo acobreado agora sujas pelo sangue e impregnadas pelos produtos que as enfermeiras passavam na tentativa de expor os ferimentos ao exame médico. Pediu informações, ouvindo atentamente tudo que diziam. Ele havia batido muito a cabeça na queda, havia sido lançado longe pelo carro em alta velocidade que o atingira, haviam fraturas e muito sangue. O próprio motorista ficara machucado e recebera socorro também, embora tivesse ido parar em um hospital diferente.  Não muito depois o médico responsável pela emergência chegou ali. O Dr. Jongdae reconheceria o mais velho, Kyungsoo tinha certeza disso. Seus olhos estavam aflitos, sentia o bolo na garganta de desespero por que pensava em assumir o atendimento naquele instante e não poderia mais, ele sabia.

 

Não precisou de muito tempo para que o rosto do médico responsável se iluminasse de reconhecimento e menos ainda para que seus olhos se cruzassem com os de Kyungsoo e vissem a dor e o pânico por trás dele. Hesitando somente meio segundo antes de finalmente apontar o obvio.

 

— É o seu marido, Dr. Kyungsoo? — Perguntou, mesmo já conhecendo a resposta, sobretudo no silêncio em que o outro se colocou. —Você precisa confiar em mim para cuidar dele. Como parente, sabe que não pode se envolver no momento, suas mãos não estariam firmes o suficiente. — O outro médico lhe disse antes mesmo que tentasse argumentar consigo. Ele sabia que Jongdae estava certo, ser teimoso somente deixaria o atendimento ao seu cônjuge mais lento. As palavras chamaram atenção de uma das enfermeiras que também conhecera o casal e após ela olhar atentamente o paciente, tentou levar o médico moreno dali. Ele precisaria esperar do lado de fora, era uma norma.

 

Uma voz fraca interrompeu a ambos, chamando por Kyungsoo. Este aproximou-se rapidamente tentando acalma-lo.

 

— Você vai ficar bem, meu amor. Eu estou aqui...  — Repetia aproveitando que ainda não o tinham tirado dali; ele também sabia o porquê e ficou ainda mais apreensivo por aquilo. Talvez fosse a última chance?

 

O ruivo, no entanto, tinha a voz falha, mas se esforçava por dizer algo que parecia ter ensaiado, como se já tivesse um discurso pronto, palavra por palavra.

— Não.... Me deixe em um lugar... — Não me deixe em um lugar que eu não possa.... Sorrir. Todos os dias, Soo.

 

O rapaz seguiu repetindo isso de modo fraco, mas os médicos precisavam continuar a prepara-lo para a cirurgia e por fim Kyungsoo precisou ser afastado.

 

Do Kyungsoo não era um homem de perder a calma, passara por todas as provas da faculdade sem arrancar muitos cabelos da cabeça, mesmo que não dormisse quase nada durante a preparação para elas, também tivera notas muito boas sem recorrer a estimulantes para se manter acordado ou qualquer outra droga da moda que sempre se alastravam em momentos de estresse em cursos como o que ele fez. Mas agora sentia como se sua parte racional fosse um animal desconhecido, acuado, e estivesse firmemente guardada em algum setorzinho da mala do Newt Scarmander, novo personagem crush de seu esposo, um Potterhead irrecuperável.

 

A mulher o colocara sentado em uma sala que para ele era tão familiar quando agourenta. Muitas boas e más notícias eram dadas ali, mas como médico não tinha como não ter um medo ainda maior ao se ver na posição inversa a que costumava estar. Ele havia sofrido duas paradas cardíacas a caminho do hospital, ouvira muito bem tudo que fora mencionado na sala de atendimento, antes de ser expulso dela, sabia que seria retirado no momento em que o amigo e também médico adentrara a sala. Sua mente lhe pregava tantas peças que não conseguia deixar de pensar nas manias do marido e nas coisas malucas que lhe dizia. Fazia poucos dias que haviam vistos juntos o novo filme da saga de bruxos e por alguma ideia idiota, sua mente ficava fugindo do medo de perder Baekhyun para se enterrar no mundo da magia do qual ele não parara de tagarelar durante quase todo namoro e o casamento. O que ele lhe havia dito a tanto tempo atrás? Você seria um médico incrível no St. Mungus. Já imaginou usar magia para tratar? E os medicamentos mais eficazes que qualquer coisa que você já viu? Se bem que lá eles cuidam de pessoas muitas vezes com danos mágicos irreparáveis....  Era muito comum o ruivo divagar sobre coisas fantásticas, mesmo quando estavam juntos, era seu charme, sua luz. Oh meu Deus! Baekhyun era a luz de sua vida. Como poderia ficar ali esperando para saber dele? Como poderia deixar sua luz se apagar daquela maneira? Tinham muitas coisas aleatórias nas quais o ruivinho acreditava, algumas que desafiavam a paciência do mais novo pois Kyungsoo era um racional, Baekhyun um sonhador.

 

Ele não conseguia ficar ali de braços cruzados pensando nos comentários de fã do marido, nem poderia esperar por magia como provavelmente Baekhyun faria, com sua fé inabalável no impossível. Estava andando como um louco para a sala de cirurgia que sabia que o Dr. Jongdae costumava utilizar. Não se espantou tanto ao notar que havia um segurança perto da mesma. O médico xingou baixinho, era como se Jongdae fosse legilimente, o homem simplesmente sabia o que as pessoas pensavam. Não era possível!

Talvez ele também fosse viciado na saga, no final das contas. Resmungou consigo mesmo sobre o que pensara. Ele era viciado em Baekhyun, isso havia vindo com o pacote. Mas que absurdo, se concentre Kyungsoo! Sua mente traidora agora exigia, enquanto sentia à vontade de chorar aumentar. Mas não havia nada a ser feito além de voltar para onde estava, ou lutar contra um guarda e atrapalhar uma cirurgia apenas para entrar. Não, ele não faria isso. Largou-se sentando em uma das tantas poltronas creme e então não muito tempo depois ele pode ver o brilho de sapatos sociais negros diante de si e as lagrimas finalmente ultrapassaram aos seus olhos após se deparar com Kim Minseok. O rapaz havia feito faculdade na mesma época que eles e se tornara um amigo inseparável, Baekhyun costumava chama-lo de “Hermione do trio”, pois era o mais sabe tudo e responsável dos três, enquanto Kyungsoo era o mais calado e francamente Baekhyun era meramente, feliz. Novamente sua mente não conseguia esquecer a droga dos filmes. Talvez por que seria mais fácil se tudo que estivesse acontecendo fosse como em um, nada de ruim realmente aconteceria. Queria muito estar em um, ao menos teria mais chance de um final feliz. Quase certeza.

 

Que coisas estranhas para se pensar enquanto chorava e molhava o terno impecável do amigo!

 

— Eu vim assim que eu soube... — O mais velho explicara. — Assim que viu o paciente a quem tratava, o Dr. Kim mandou a assistente dele me ligar. — Explicou notando que aos poucos o mais novo se afastava de si limpando o rosto. Kyungsoo estava constrangido, um médico deveria inspirar calma aos pacientes e familiares e lá estava ele, chorando em plena sala de espera onde poderia ser observado por essas pessoas. Respirou fundo agradecendo mentalmente a Dr. Kim Jongdae. O médico que no momento operava Baekhyun fora um dos poucos que desde o princípio aceitou o fato de Do Kyungsoo ser casado com um rapaz. As pessoas seguiam sendo conservadoras e até desrespeitosas em sociedade, mas Dr. Kim não. Ele tinha aceitado a Kyungsoo como seu aluno durante a residência e o apoiara depois disso, embora nunca houvesse muita proximidade além da profissional e a movida por simpatia, sempre lhe tivera muito respeito e admiração. O aliviava de que fosse nas mãos deles que o mais velho estava.

 

— Eu não sei o que fazer, Minseok. —  Dizia de forma letárgica. Era a primeira vez em sua vida que Kyungsoo sentia-se assim, louco para sair correndo das paredes claras do hospital, o lugar que tanto amava. Um lugar que sempre lhe inspirou mais esperanças do que perdas. Onde vira crianças lutando contra todas as probabilidades, pessoas enfrentando guerras contra si mesmas. Para um médico como ele, hospitais podiam ser tão bons quanto os lugares mágicos com os quais Baekhyun sonhava. Uma magia chamada esforço humano e fé. Por que sim, até os médicos as tinham, mesmo que fosse fé apenas em si mesmo.

 

 

                                                                     ≈ ≈ ≈

 

O dia amanhecera e suas horas transcorreram significando apenas um silêncio profundo e angustiante que havia deixando até Kim Minseok um pouco louco. Em algum momento Kyungsoo havia tido um acesso histérico e fora medicado, ainda em negação, somada à exaustão, acabara por dormir nos braços de Minseok.

As duas notícias que receberam nas primeiras horas pós sol foram arrasadoras, Baekhyun seguia com vida, a cirurgia fora um sucesso, mas, apesar de o neurocirurgião ter trabalhado com eficiência para salvá-lo, o ruivo havia entrado em coma. Suas chances de recuperação plena, contudo, eram muito baixas devido a extensão de seus ferimentos e as dificuldades em estancar o sangramento intracraniano. A maioria das perspectivas caso sobrevivesse, não eram boas.

 

O advogado sentia-se desolado. Era muito próximo a ambos, a ponto de os ter ajudado a casar cinco anos antes, enviando-os a outro país. Casamento este reconhecido pela lei Coreana que a pouco tempo e apesar de muita resistência aceitara o casamento legal homossexual no país.  Era também o executor testamentário de Baekhyun e cumplice de uma história que nunca fizera sentido para si. Até agora. Estava arrepiado ao lembrar-se do amigo entregando-lhe os dois envelopes, um grosso e pesado e outro similar a uma carta simples. Muitos pedidos estranhos haviam sido redigidos por Baekhyun, este possuía pouco dinheiro e o que tinha se encontrava na conta conjunta que o casal mantinha e esta já fora apontada para o esposo no testamento, assim o advogado não fazia ideia do por que todas aquelas coisas mórbidas haviam sido planejadas por ele, além do que o testamento já estabelecia, Baekhyun, porém lhe parecera tão aflito a anos atrás! Que não pudera não aceitar suas incumbências.

 

O médico ainda jazia em seus braços, na mesma sala que por hora estava vazia quando o relógio de parede mostrou que já chegava perto do meio dia. Embora houvesse sido aconselhado a leva-lo para casa, o moreno continuara resistindo a cada instante em que ele tentava o acordar ou mesmo carrega-lo para fora dali. Suspirou sabendo que precisava tentar novamente. Não somente por Kyungsoo, mas por Baekhyun que se pudesse bateria nele por permitir que “ Soo se saísse com suas teimosias de novo”, conforme costumava reclamar.

 

— Nós precisamos ir, Kyungsoo. — O mais velho resolveu fazer mais uma tentativa. — Ele será transferido para a Unidade de terapia intensiva e depois para o quarto particular. Você poderá vê-lo. — Tentava demover o rapaz ainda semiconsciente, argumentando com ele aos sussurros enquanto acarinhava a cabeça alheia como se este fosse uma criança. —  . Mesmo que você tire licença o Dr. Kim me garantiu que teria completo acesso ao seu marido, conforme dita seus direitos de cônjuge. — Afirmava assumindo o tom sério que costumava usar em sua profissão.

 

O moreno apenas levantou-se de mal jeito e se permitiu ser levado. Ele sentia culpa e peso dentro de si, mas... Baekhyun entenderia, ele precisava estar forte para cuidar dele e não como estava agora. Ele acordaria! Sabia que se alguém poderia ser teimoso era seu marido! Fora colocado no carro sem demora, após aceitar ser levado e imediatamente dormira no banco traseiro. Minseok dirigira o próprio automóvel, deixando o que pertencia ao médico ali, sem dúvida Kyungsoo não tardaria a retornar e não o queria dirigindo, por hora. Ele mesmo o buscaria e levaria enquanto sentisse que o amigo não tinha condições de fazê-lo.

 

Chegaram ao apartamento que o médico e o músico dividiam em meia hora, graças ao transito incomumente calmo da véspera de Natal. Deixara Kyungsoo na cama do casal e partira para a cozinha, precisava fazer algo para comer, o médico provavelmente passara a noite sem consumir nada. Achou rapidamente ingredientes na geladeira, aparentemente Baekhyun pretendia empenhar-se na ceia de Natal daquele ano. Era mais comum casais coreanos saíssem para passear nessa época, mas o ruivo e o moreno eram diferentes, sempre convidavam Minseok para comer consigo e passar as festas ao seu lado. Baekhyun já não tinha família, perdera o pai ainda no ensino médio. Já Kyungsoo tinha uma história mais complicada, fora rejeitado pela sua após assumir compromisso com o músico, e nunca voltara a olhar para trás.

O advogado sorriu triste pensando em como seria aquela noite, principalmente por que havia seu dever legal e moral o impelindo a entregar a Kyungsoo um dos envelopes. Após preparar uma refeição e um bilhete que deixara em cima da mesinha, Minseok resolveu-se por passar na própria casa, não poderia deixar o amigo sozinho naquela casa e assim precisava de uma mala com algumas roupas, aquele ponto sequer mereceria discussão, pois sabia que o mais novo não se negaria a recebe-lo ali. Ele sofria também. Entrara no carro decidido a pegar os documentos relativos ao pedido de Baekhyun após ter uma conversa por telefone com Dr. Kim que reafirmou seu prognostico acerca do paciente, sem esconder seu pouco otimismo, coisa que não poderia fazer em frente ao Dr. Kyungsoo.

 

Permitiu que lagrimas escapassem após encerrar a ligação, sentia dor pelos amigos e sentia responsabilidade para com Baekhyun.

 

                                                                      ≈  ≈  ≈

 

O moreno acordou sozinho, a cabeça doía como nunca, mas sua mente ainda funcionava como se não tivesse dormido por um segundo sequer. Antes mesmo de tomar um banho ligara ao hospital para ter notícias de Baekhyun, eram as mesmas... As mesmas que tinha se negado a aceitar ainda naquele dia. Seu amor estava de muitas maneiras entre a vida e a morte, mesmo que ele mesmo como médico pudesse taxar aquilo como uma situação “estável”. O músico passara a noite na Unidade de Terapia Intensiva, mas dificilmente passaria mais do que uns dias ali se permanecesse daquela maneira. Em breve seria liberado para o quarto especial onde então ele poderia vê-lo sempre que pudesse, era muito próximo de onde trabalhava e ele nada mais poderia fazer senão esperar. E rezar.

 

Ele sabia que estava frio naquele dia, embora seu corpo parecesse insensível, todo ele parecia assim, a dor tão aguda que parecera emanar de seu peito como uma chaga aberta em fogo, havia amenizado, como se pedaços de gelo caíssem sobre ela o fazendo sentir-se estranho, algo fora de si. Comeu rapidamente o que fora preparado pelo amigo advogado, sabendo pelo papel deixado sobre a mesa que o mesmo viria em breve, para ficar. Segundo o bilhete.

 

Minseok sempre seria o mais gentil dos três, mesmo quando vinha com seus discursos de mais velho e mais maduro, ou seus incômodos “ eu te avisei” quando algo saia irritantemente como ele havia previsto. Ele era exatamente como uma mãe as vezes, tinha uma boca “maldita” para enunciar problemas. Mesmo assim lá estava ele a tentar cuidar de si,  Kyungsoo constatou com um sorriso triste enquanto revirava as gavetas que dividia com Baekhyun. O cachecol amarelo e vermelho ainda estava lá, no exato lugar onde o marido “louco” havia deixado, misturado a suas meias pretas, onde obviamente não era o lugar dele, lembrando-lhe constantemente que admirava a Grifinória. Já ele? Era supostamente um corvino, ao qual o mais velho o lembrava constantemente que tinha por símbolo uma águia e não um corvo como costumava confundir. Quantas vezes tinham assistido aqueles filmes na vida? Provavelmente mais do que tinha dormido em um mês. E lá estava ele, em plena renascença da febre mágica após estreia da nova saga, visualizando pôsteres de anuncio do filme e pensando somente no seu amado Potterhead, ele sim aproveitaria esse clima, ele sim pararia para discutir teorias loucas com estranhos. Ele sim encheria seus dias de palavras em latim e lhe diria “Nox” ao invés de pedir para por favor apagar a luz, como uma pessoa “normal”. Sacodiu a cabeça sentindo a tristeza novamente, largou a peça de roupa rapidamente como se o queimasse, retirou as outras que precisava e saiu em direção ao banheiro.

 

Estava de folga naquela noite, mas agora era algo sem motivo, a menos que fosse para passar seu pequeno tempo de visita permitida na unidade intensiva com Baekhyun. Vestiu-se rapidamente e saiu, praguejando ao lembrar que o carro ficara no hospital, pegara um taxi em seguida. Ele nunca deixaria Baekhyun sozinho no natal, o ruivo amava o natal, quase tanto quanto não gostava de hospitais. Odiaria passa-lo só ali.

 

Não muito depois Minseok chegara no apartamento e fora simples para ele entender o que se passara, era como se o caos tivesse varrido o apartamento ao invés da ordem que o moreno sempre apreciara. Se viu saindo dali com pressa,  preocupado com o amigo, Kyungsoo sempre costumava ser o mais sério e imprevisível dos três, apesar de suas pequenas previsibilidades, isso sempre fora o encanto do mais novo, mas ao mesmo tempo era a maior preocupação do advogado. Nem hesitou em jogar a mala no sofá e correr para fora. E assim ambos, partiram juntos e separados para o mesmo lugar.

Na mente de Kyungsoo havia apenas o desejo de não abandonar o marido sozinho, como prometera que nunca faria. Em Minseok um questionamento silencioso e uma advertência eram feitos mentalmente e repetidamente para o ruivinho que tanto fazia falta a eles. Por que você não acorda, Baekhyun? Eu espero que esses seus pedidos malucos tenham um objetivo! Diferentemente de alguns casos, o coma do músico não havia sido induzido, era uma das possíveis consequências do traumatismo que sofrera, uma que se concretizou.

 

 

                                                                     ≈ ≈ ≈

 

 

 

 

Era meio da noite e Minseok ainda não tivera coragem de falar nada. Em breve ambos teriam permissão de entrar, apenas por meia hora. Fora uma grande concessão por parte da direção do setor permitir o acesso de ambos ao mesmo tempo, o ambiente exigia roupa apropriada e uma porção de precauções, não permitiam que o advogado levasse nada para ali e foi só na saída de ambos, quando estavam em um setor que pertencia ao descanso dos médicos. No momento vazio. Que o mais velho finalmente tomou coragem de conversar com o outro.

 

— A alguns anos atrás, Baekhyun me procurou aflito e confuso. — Começou engolindo em seco e apertando os dedos uns contra os outros como fazia quando estava muito nervoso. — Ele queria fazer um testamento e também me entregar alguns “objetos”. Confesso que dificilmente uma pessoa tão jovem faz algo do tipo, ao menos que tenha uma fortuna a delegar, uma doença grave ou algo assim. — Contou enquanto via os olhos de Kyungsoo se dirigirem a si parecendo chocados, ele obviamente não sabia nada sobre aquilo. — Ele se recusou a me dar muitas explicações e eu resolvi atende-lo, embora temesse que ele estivesse doente e escondendo de você. O que não parece o caso, já que ele gozou de saúde perfeita ainda muitos anos depois. — Completou rapidamente, não querendo transmitir ideias erradas ao outro. —Hoje eu me sinto, infelizmente obrigado a cumprir com aquilo que empenhei minha palavra Kyungsoo.

 

— Não diga isso! Ele não está morto! — O médico protestou enfaticamente. — Não pode ler isso para mim, Minseok. Eu imploro! — Pediu parecendo derrotado, após horas mantendo sua compostura.

 

O mais velho mordeu os lábios.

 

— Eu não vou ler o testamento dele para você, mas ele deixou em uma carta aberta para mim ordens que precisariam ser seguidas. É muito confuso, dizia que eu deveria seguir caso lhe acontecesse “qualquer coisa” não necessariamente sua partida. Na realidade é como se ele estivesse cobrindo todas as possibilidades. — Coçou a cabeça tentando se aliviar do desconforto sobre suas reflexões da época. Retirando em seguida o pacote da pasta que havia levado consigo. — Ele insistiu que eu deveria entregar imediatamente, no máximo um dia após qualquer coisa que ocorresse a ele.

 

Jogou-se no sofá apertando o pacote; agora que falara sobre ele não se sentia pronto para deixar que o envelope pesado fosse até as mãos do mais novo, mas o soltou assim mesmo, quando Kyungsoo que pareceu ter mudado de ideia resolveu recebe-lo. O viu abrir com as mãos trêmulas, como se esperasse algo para negar tudo que acontecera até então, uma ansiedade que Minseok não vira nunca vinda do mais novo. Aquilo assustava Minseok, se algo ocorresse com o Baekhyun, sabia que o médico ficaria destruído.

 

Um caderno grande caiu sobre o colo do médico, lembrava uma agenda em tamanho maior, de couro e com enfeites dourados, nela palavras douradas escritas na capa. Kyungsoo riu deixando escapar uma lágrima. Estava escrito ali “ Alohomora”. Era tão típico do marido fazer piadas até em momentos assim. Apertou o livro contra si e se decidiu por seguir a capa. Era uma mensagem clara, ele estava aberto, uma “porta” aberta para algo.

 

A primeira página era amarelada, provavelmente sempre fora daquela cor, amarelo velho, gasto. E eis o que continha:

Seoul, 15 de fevereiro de 2010

A muito tempo atrás, eu tive um sonho. Ele era assustador, não por ser feio ou horripilante de nenhuma maneira, e sim por que eu estava na mais absoluta solidão. Eu não tinha você lá e eu sabia que eu nunca mais poderia estar com você. Eu sempre achei que era um pressentimento e esse sentimento não me deixou. Eu resolvi acatar meus sentimentos, Soo. Por que eu não queria que você esquecesse de mim, e queria que tivesse sempre um pedaço de mim com você. Eu não sei se você lerá isso, mas se o fizer, se realmente isso acontecer... tudo que eu sonhei.... Tem algumas coisas que eu queria revisitar com você, e eu não conseguia deixar de pensar nisso. Acima do medo, porque no momento e por algum motivo eu não estou exatamente apavorado. Lembra como nos conhecemos?

 

 Era o primeiro ano da faculdade de Baekhyun e ele havia chegado muito atrasado para tomar sua vaga, teria aula já naquele dia e sequer tinha encontrado seu quarto. A mochila pesava em suas costas, assim como as duas caixas que resolvera levar consigo. Ele não pudera deixar seus livros em casa, ou seus pôsteres. Como viveria sem seus cadernos de música antigos? As partituras? Ou a coletânea da Saga de Harry Potter, o ultimo presente que seu pai lhe dera. E como acordaria sem dar de cara com os dizeres da plataforma 9 ¾ ?  Impossível! Decidira o aspirante a músico. E fora com chutes na porta, já que seus pés eram a única parte de seu corpo mais ou menos disponível, que anunciou que estava ali. Imaginando que seu companheiro de quarto já ocupara seu local. O outro não abrira, todavia, e ele acabara por usar o cotovelo para manipular a maçaneta de alavanca.

 

O que vira o deixara completamente envergonhado. Um garoto pouco menor do que ele mesmo, saíra do banheiro ainda de roupa intima e dera de cara consigo. Ficara tão constrangido que acabara por deixar as caixas caírem sobre os pé do rapaz, que até então não falara nada e quando abrira então a boca, fora para gritar “Ai” e pular xingando por ali, diante de um Baekhyun muito desajeitado  que se desculpava, tentando de tudo que é maneira tocar no pé alheio e massageá-lo. Como se isso pudesse curar a dor. Ou a má impressão que deixara, pois, o rosto do menino não era nada amigável agora.

 

— Me Desculpe. — Disse se curvando e tentando acalmar-se. — Não esperei ver pessoas peladas. Sou seu colega de quarto, Byun Baekhyun. — Apresentou-se notando que o outro não se curvaria em retorno, resolvendo então juntar suas coisas e baixando os olhos, feliz por constatar que não tinha rasgado ou quebrado nada de dentro da caixa.

 

— Eu não estava pelado... E não esperava ser golpeado, por um fanboy. São pôsteres de grupos? — O moreno perguntou ao notar a forma carinhosa que o outro parecia ter com objetos inanimados, chegando a falar com eles. — Meu nome e Do Kyungsoo, à proposito. — O rapaz finalmente apresentou-se observando melhor o menino que dividiria espaço consigo dali em diante.

 

— Não! São as minhas coleções de HP! Você gosta? — O garoto respondera com os olhos brilhando, mal notando que por estar de joelhos estava bem de fronte a cueca alheia, e ao notar se sentiu corar e desviou o olhar.  O que havia de errado consigo? Não poderia parar de se embaraçar? Sequer era tímido!

 

— Eu não conheço muito. — Respondeu Kyungsoo ainda sério. — O chão está muito interessante? Ou é o abajur? — Perguntou tentando entender por que o rapaz seguia no chão e olhando para todos os lados que não para ele.

 

— Me.. Me desculpe. Eu dei de cara com sua varinha e não sabia.... — Tapou a boca rapidamente. — Que diabos estava dizendo!

 

Kyungsoo olhou para si mesmo e não demorou muito para entender a o que o outro se referia, ficando estranhamente constrangido pela primeira vez naquele tempo. Finalmente pegou uma calça vestindo-a rapidamente, sentido em parte ofendido pelo termo “varinha”, aquele estranho era louco!

 

Regras foram impostas naquele dia, Baekhyun não poderia entrar de qualquer jeito, teria uma chave, mas seria legal se anunciar. Ambos fariam assim. Também não poderiam reunir colegas ali, Kyungsoo explicou que por estudar medicina dormia pouco e não conseguia lidar com barulho demasiado. Haviam muitas outras regras como essa, e o ruivinho concordou, mal sabendo na época que muitas daquelas regras seriam quebradas em comum acordo, não muito tempo depois. Em breve haveria pôsteres por todos os lados, em uma mistura maluca de magia em conjunto a pequenos painéis “assustadores” de sistemas circulatórios e outros. Não precisariam anunciar-se um ao outro, pois apesar das diferenças andariam muito tempo juntos, e principalmente, Baekhyun jamais ficaria tão corado sobre a “varinha” de Kyungsoo novamente. Na realidade até conseguiria colocar sua própria para duelar com ela. E em não muito tempo, eles por si só, seriam como mágica.

 

 

Se você leu tudo isso, significa que realmente algo me aconteceu certo? Não foi a velhice e talvez eu não esteja com você para sempre, como eu sempre sonhei. Mas tenho certeza que me sentiu contigo nesse momento. Peça perdão ao emissário desse caderno para você, eu ainda não tenho certeza a quem o entregarei para que chegue as suas mãos, mas tenho uma boa ideia. Eu pretendo preenche-lo com memórias de nos dois. E você pode rir de mim. Você deve rir de mim, Soo. Eu sou o engraçado do casal, sempre fui. Esteja comigo aqui, ao menos aqui, todos os dias que puder, todas as páginas e lembre-se, eu existo enquanto você existir e estarei preso nessas páginas com você. Mas nunca me deixe ficar onde eu não possa sorrir todos os dias, Soo. E onde não possa te fazer sorrir. Eu te amo.

                                                                                 Byun Baekhyun.

 

 

 

 — Filho da puta! — Minseok exclamou sem se conter após a leitura que fizera junto ao outro. — Então ele sabia? Como ele pode guardar isso para si? — O advogado chorava culpado por não ter pressionado Baekhyun a lhe contar o que estava acontecendo na época apropriada.

 

Mas será que algo poderia ser mudado?

 

Kyungsoo, não pudera falar, apenas apertava o livro contra o peito, lágrimas correndo pelos olhos e uma promessa. Leria todos os dias, para si e para Baekhyun, viveria naquele hospital com ele e quem sabe o mais novo voltaria para si?

 

                                                         

 

                                                                     ≈ ≈ ≈

 

Alguns meses se passaram, Kyungsoo seguira com a vida do jeito que pudera. Lia para Baekhyun todos os dias, sempre uma nova página, inédita para ele. Os cabelos antes acobreados do mais velho, ostentavam uma raiz castanha muito comprida, mas estavam sempre bem cortados e sua barba sempre estava feita. O médico cuidava disso pessoalmente. O músico parecia mais magro, mas em muitos momentos o mais novo se permitia acreditar que ele estava apenas dormindo.

 Suas lágrimas seguiam em seu coração pois sentia falta da voz e da alegria do outro, e da maneira como este tocava piano em casa a todo momento, enchendo-a de melodia, mas Kyungsoo resistia graças as palavras do mais novo. Ele amadurecia seus sentimentos dia após dia.

As páginas sempre eram uma surpresa, haviam muitos segredos ali, era obvio que embora o rapaz houvesse começado suas lembranças relatando tempos anteriores ao seu casamento, seguida escrevendo espaçadamente por bastante tempo. Não somente coisas memoráveis, mas também coisas estranhas.

 

Amo como seu cabelo cheira a bumbum de neném.

 

Escrevera certa vez. E Kyungsoo rira para depois chorara, pois, o maior sempre o havia irritado sobre usar shampoo para crianças como um hábito longínquo.  As vezes ele brigava consigo.

 

Espero que em minha ausência aprenda a baixar o assento da privada, só por que somos varinhas casadas não quer dizer que eu goste de sentar nos resíduos de feitiço.

 

Em outras vezes o moreno se porá realmente a chorar, pois talvez nunca pudesse dizer a Baekhyun que topava aquilo, desde que o mesmo parasse de deixar toalhas molhadas na cama e os pratos sujos na pia, que poderia até mostrar a ele novamente como enroscar a tampa da pasta de dente, que o outro sempre deixava aberta. E então houve um dia particularmente sombrio, o aniversário de Kyungsoo, ele sabia que poderia ser mais difícil naquele dia, mas ao abrir a página designada, não haviam memórias e sim um monte de cantadas sem sentido e sem graça que o mais velho costumava recitar para si quando o moreno ficava com ciúmes.

 

 

Eu não tenho uma capa de invisibilidade, mas você acha que hoje à noite eu poderia visitar sua Seção Reservada?

 

Se eu me olhasse no Espelho de Ojesed, veria nós dois juntos.

 

Você sabe o feitiço Petrificus Totalus? Por que você me deixou duro!

 

Eu não sou um Animago, mas às vezes posso ser bem animal.

 

Se eu fosse produzir um Patrono, você seria meu pensamento feliz.

 

Essa última lhe doera muito, e ele passara um longo tempo ali, sozinho. As pessoas do hospital agora haviam se acostumado ao fato de que em todo intervalo possível veriam o médico ali, chorando ou sorrindo enquanto lia e falava com o outro rapaz que “dormia” serenamente, como se nada mais no mundo pudesse perturba-lo. As enfermeiras as vezes passavam por ali, para ver se o médico estava bem e algumas enternecidas com os sentimentos que o jovem nutria, passaram a deixar flores no vaso simples que tinha ao lado da cama que Baekhyun ocupava. Lírios brancos.

 

Aquela pareceria uma existência triste para alguns, as esperanças e expectativas diminuíam, juntamente a atividade cerebral do músico, por fora seu corpo quase se recuperara, o esplendor da beleza serena que Baekhyun sempre tivera e que irradiava ainda mais quando tocava, ainda estava de alguma maneira ali, mas nada mais parecia trazê-lo de volta ao mundo de Kyungsoo. E nem todos os pensamentos felizes que vinha proporcionando ao esposo em suas leituras e esporadicamente a Minseok que o visitava também, tendo a chance de dividir a narração do médico, poderiam apagar os fatos. O moreno não perdia as esperanças, embora tivesse aprendido a conviver com elas, vivia dia a dia com um Baekhyun que não chegara a conhecer completamente, mesmo que jurasse saber tudo sobre ele. E amava tanto essas coisas novas que soubera, quanto todas aquelas que sabia.

 

As vezes eram as piadas sem graça que ele realmente sabia que o mais velho adorava contar, junto ao seu vício por livros, e tatuagens que nunca chegou a fazer, mas que discutiam constantemente sobre, ou como Baekhyun nunca conseguira fazer nada em dia nenhum sem tomar café e constantemente o lembrava-o disso.  Fazendo com que Kyungsoo sempre levasse um para ele, deixando-o do lado da cama do esposo. Como se o maior pudesse e talvez pudesse sentir o cheiro. Em outros dias eram confissões sobre a própria infância, a qual quase nunca quisera falar antes; o medo de ficar só e como decidira ter esperança até no desconhecido, por que para ele, mesmo que no fim as coisas não saíssem como o esperado, sempre eram como tinha que ser.

 

 Eu acredito que podemos fazer nosso destino, mas às vezes ele é tão forte que é ele e quem nos faz. Sempre pensei que no meu caso era da segunda maneira. Dissera Baekhyun em certa página. Me senti destinado a você, mas também destinado a tudo que viria a ser de mim depois. Eu fui destinado a amar um médico apesar do meu desconforto sobre hospitais, e fui destinado a ter a vida mais feliz com ele, que qualquer um poderia desejar.

 

E Kyungsoo aos poucos entendia suas mensagens e os objetivos não explícitos nas palavras.

 

 

 

                                                                    ≈ ≈ ≈

 

  Após tantos meses lendo aquele caderno, apenas uma coisa machucava o médico, juntamente com o estado do esposo. O músico sempre repetia aqueles mesmos dizeres, suas últimas palavras quando estivera consciente. Eram palavras de amor, como um refrão de uma melodia triste que ficara impresso no moreno, até a alma. Toda página terminava assim, um apelo, que Kyungsoo finalmente entendera, junto a tudo que Baekhyun sem querer o ensinara. O ruivo odiara hospitais durante toda sua vida, e sempre achara irônico se apaixonar por um médico, e em cada página pedia indiretamente, para não ter que viver sua vida ali, de um jeito que não poderia sorrir. Kyungsoo só queria esperar, esperar para sempre se assim fosse, e começava a desconfiar que Baekhyun pensava desde sempre que antes de viver assim, deveria partir.

 

O moreno abriu a página marcada para aquele dia e se surpreendeu ao notar o assunto. Ele sempre se surpreendia, é claro, mas ali tinha um relato detalhado da primeira vez de ambos. Ou só da parte constrangedora, por assim dizer.

 

 

 

O verão estava terrível aquele ano e ambos não tinham dinheiro para concertar o ar condicionado do dormitório, aquilo lhes tinha arruinado quase completamente os planos para aquela noite. Contudo o músico tinha esperado demais por aquilo, para deixá-los para depois, fazia quase um ano e meio que ele e o aluno de medicina estavam namorando, mas ainda não tinham realizado um desejo que Baekhyun tinha. Ir até o fim com o namorado. Isso graças a um certo medo, que o mais novo acima de tudo, alimentava. Kyungsoo tinha pose de durão, mas era um virjão, já o ruivo tinha um amplo conhecimento teórico sexual.... Todo adquirido em livros. Tinham decidido tentar ir até o fim daquela vez, passar das “brincadeiras” e Byun Baekhyun não era homem de voltar atrás.

O lugar escolhido fora a biblioteca do dormitório, ali tinha ar condicionado, ali não tinha ninguém durante a noite pois era proibido. E após um tempo morando ali naquele dormitório, Baekhyun finalmente conhecera alguém que conhecia alguém que por sua vez conhecia a alguém, que obtivera uma cópia da chave.

Haviam acendido algumas velas e colocado sobre elas alguns copos transparentes que possuíam entrada para passar ar. Havia sido um pedido de Kyungsoo que pudesse ver o que fazia. Estava assustado a ponto de fazer o mais velho rir. E o ruivo então exigira que fossem velas por ser mais romântico. Velas em um corredor de largo de uma biblioteca.... Só poderia ser ideia de Baekhyun! Mas a cobertura fora providenciada por Kyungsoo, fogo e muito papel nunca seriam boa ideia.  E era isso, agora estavam lá.

 

Os beijos eram ternos, e o coração de Kyungsoo disparara tantas vezes que não sabia como conseguiria fazer aquilo. Sempre amara cada pedacinho da pele de Baekhyun, bem como a barriguinha saliente de alguém que nunca dispensaria uma pizza na vida. Já beijara cada dedo longo e comprido do mais velho e já utilizara os próprios para prepara-lo para o que esperava fervorosamente que fosse prazer. 

 

— Você está com mais medo que eu... Que sou quem vai “levar”, Soo...— Baekhyun debochou enquanto cercava  cintura do mais novo com as pernas.

 

Kyungsoo mordeu os lábios alheios como castigo.

 

— Assim eu não conseguirei ver onde estou colocando! — Respondeu nervoso após se certificar novamente que a camisinha estava ali e que o mais velho seguia preparado.

 

— Eu te amo sabia? — Baekhyun conseguiu distrai-lo enquanto o sentia pouco a pouco dentro de si, uma lagrima solitária escapando pelo olho esquerdo por conta da extrema ardência que sentia.

 

Como um meneio de quadris o moreno tentara adentrar mais, e falhara... escorregando para fora sem querer.

 

— Me desculpe. Me desculpe! — Pediu beijando o mais velho nos olhos e nos lábios, enquanto ele apenas sorria.

 

Era obvio para Baekhyun que o outro estava ainda mais nervoso que ele, e mesmo assim o membro alheio não baixava, bem como ele mesmo se sentia cada vez mais ansioso. Seu quase médico quieto e durão podia ser muito fofo, e que Deus o ajudasse pois isso o deixara ainda mais excitado. Puxando-o para si ele conseguiu que Kyungsoo juntasse os corpos novamente, seus suspiros o encorajavam e pouco a pouco o prazer almejado construiu-se. Entre perguntas bobas do moreno sobre estar fazendo certo e os pedidos do quase músico por mais e mais por fim aconteceu. Desajeitado, inexperiente e extremamente .... Inesquecível.

 

 

Uma voz chamara Kyungsoo porta afora, provavelmente precisava atender alguém em alguma parte do hospital. Sua carga de trabalho havia sido consideravelmente reduzida devido aos problemas familiares, mas ele se recusara a ficar de férias. Queria cuidar de seus outros pacientes, mesmo daqueles tão adormecidos quanto seu belo rapaz.

 

— Pode ir querido, eu ficarei com ele. — A enfermeira se prontificou com um sorriso ameno. O romance dos dois tornou-se algo admirado entre elas e Kyungsoo não deixava de lhes ser grato por isso, após tanta rejeição por ser quem era, e por amar Baekhyun, o ver ser reconhecido como seu par, sua metade, era reconfortante.

 

 

 

Com o tempo e apesar de tudo o médico reencontrou alegria de trabalhar ali, ele já não dormia perto do piano de Baekhyun na sala do apartamento, o que muito preocupava Minseok. Ele já poderia se lembrar do sorriso de Baekhyun, sorrindo também, e ele no fundo sabia que cada palavra naquele caderno era a prova de que o músico fora feliz consigo, páginas repletas dele. Deles. Kyungsoo jamais poderia eutanasiar o marido, embora Minseok tivesse discutido isso consigo em uma quarta feira qualquer. O amigo perguntara para ele meio encabulado, querendo mais que tudo que o moreno se recusasse mortalmente ofendido, mas que ao menos lhe desse alguma ideia do que para si as palavras tão constantes de Baekhyun queriam dizer e acima de tudo, o que ele pretendia fazer.

Dia após dia, pagina após pagina o médico poderia sentir um adeus. Ele era médico e havia sido seu dever salva-lo. Ele era um marido apaixonado e era, portanto, seu maior desejo fazer a vontade de Baekhyun.

 

 

Durante muitos anos o hospital fora seu lar, provavelmente, para ele, ainda o seria. Durante um ano aquelas paredes brancas, serenas e quase sem alegria haviam sido a casa de Baekhyun, mas não o era mais. Ele sabia. Sua atividade cerebral havia cessado, Dr. Kim que sempre estivera tratando do caso, o havia dito.

 

Tristeza.

 

Medo.

 

Dor.

 

E então a última página daquele caderno, agora muito maltratado. Só faltava um pouco para ele ir. Ele sabia.

 

Seul, Sem número. Em algum momento de um futuro que talvez exista.  

 

Assim começava a última página.

 

Eu realmente escrevi muito certo? Eram para ser lembranças, mas, para você pareceu uma vida? Eu reli hoje e pareceu para mim. A essa hora faz muito tempo que eu estou com você por meio de palavras, apenas. Se a pessoa a quem entreguei isso seguiu o que cumpri.... Eu não sei se as coisas saíram conforme eu planejei, embora suspeite que você sinta raiva de mim, ao menos um pouco por pensar em algo assim, sonhar algo assim e esconder tudo. Se eu já parti, Soo. Guarde isso com você, cada palavra que eu coloquei aqui mostram o quanto te amo. Te amo!  Não “ te amei”, espero que perceba a diferença. Espero também que você nunca tenha tentado ou tente ler tudo de uma vez, tem tanto amor aqui que seria muito injusto comigo você me desnudar tão rapidamente. Mas não posso controlar isso né?

 Se eu ainda não “fui” e realmente estou longe dos seus sorrisos e do meu... é hora de me libertar. Eu tenho a sensação de que eu nunca conseguirei partir realmente em paz, sem você me entender. Entender tudo que eu queria ter dito. E ver do meu ponto de vista o que senti por você e como estive feliz nesse tempo...seja lá qual o tempo que estivemos juntos. Sim, vão faltar lembranças aqui...  Eu fiquei com medo de ser como um daqueles fantasmas de Hogwarts que por medo de partir ficaram presos em uma existência ... insuficiente. Eu morro de medo de ser esquecido Soo e por egoísmo meu estou te fazendo viver comigo mais ou menos, um ano a mais? Não, um não um ano não. Trezentos e tantas páginas. Eu não contei pagina por pagina, fiquei com medo de fazer isso e me sentir mórbido. De uma maneira de outra... te fiz viver comigo para sempre.

Me perdoa por não te contar esse pressentimento estranho antes, mas seriam dois ansiosos por algo que poderia nunca acontecer e ninguém merece viver a vida assim. Eu mantenho esperanças e mesmo que tudo dê errado, siga a vida com esperanças também.  Sim, siga com elas e seja tão feliz como fomos juntos.

E por último.... Eu sou culpado por um monte de coisas. Pela minha bagunça que te enlouquece. Pelo seu ciúme bobo. Pelo tapete com o escudo da Grifinória que eu te fiz colocar na sala. Por colocar coisas íntimas em papel que poderiam constranger os netos que talvez não pudemos ter. E acima de tudo por te amar absolutamente com todo meu coração. Always.... Ou como diria eu mesmo, sem parafrasear Severo Snape... Por toda eternidade.

                                                                                      Byun Baekhyun.

 

 

 

O moreno não pode fazer nada além de olhar para aquela última página em papel, uma alegria no fundo do peito, bailando com a dor. Quem poderia dizer ter sido tão amado quando ele? Quem poderia ter amado tanto? Sustentou as mãos levemente frias de Baekhyun dentre as suas. Ele havia ido, era um fato, só precisava de sua benção para fazê-lo em paz. Minseok que acercara de ambos, não podia ocultar as lágrimas e naquele momento ambos não faziam questão de fingir-se de fortes.

 

— Pode ir em paz, meu grande amor. — Kyungsoo sussurrou, sentindo que em algum lugar Baekhyun sorrira. Ele sempre iria sorrir em seu coração, dentro de si.

 

Os aparelhos que lhe registravam um dia a sua vida, registraram também sua ausência. Mas dentro de Kyungsoo, um músico Potterhead sempre existiria e naquele hospital, onde muitas coisas boas e ruins aconteceriam, enquanto Kyungsoo vivesse haveria quem soubesse de uma triste, mas real história de amor.

 

 

Quanto a carta, que era Kyungsoo receber caso este partisse logo. Ela apenas dizia.

Eu sempre te amarei, Soo. E quando finalmente chegar a data em que seria meu aniversário, uma coisa será entregue para você. Minha versão de para sempre.

                                                               Byun Baekhyun

      

 

                                                       


Notas Finais


Gostaria de agradecer a todos a leitura e perguntar. Conseguiram entender os sentimentos do Baek? O que acham?

A playlist que utilizei enquanto escrevia foi:
Miss You - Fly to the sky
Promise - Exo
Awake - Bts
One Thing - Lee Hyun Woo ( Do OST Moorim School)


As piadas Potterhead eu não tenho como creditar apropriadamente, mas coloco aqui o link de onde as encontrei:
http://armadapotteriana.blogspot.com.br/2011/05/cantadas-harry-potter.html


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...