História Autenticidade - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens Baekhyun, Chanyeol, Chen, D.O, Kai, Lay, Personagens Originais, Sehun, Suho, Xiumin
Tags Baekyeol, Chanbaek, Exo, Filosofia, Literatura, Musica
Exibições 18
Palavras 5.416
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Fluffy, Hentai, Josei, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Então... Desculpem-me pela demora a postar. Minha justificativa foi um projeto escolar que sugou minha alma... Mas agora já ta tudo bem e vou postar duas ou três vezes por semana... (TALVEZ)

Anyways, obrigada a todos pelos favoritos e comentários... Boa leitura

Capítulo 2 - Abulia: Não se culpe.


Fanfic / Fanfiction Autenticidade - Capítulo 2 - Abulia: Não se culpe.

 

Byun BaekHyun, 18h45, 02.03.2010.

— LuHan, você sabe o que vim fazer aqui, não é? – disse, sentindo gosto do sangue na boca por ter mordido o lábio com força – Não finja que é surdo... sei que está ouvindo...

— Sei que sabe – respondeu, rouco pelo resfriado que tinha contraído quando acampamos, na semana anterior – E é por isso que não vou responder... é um... vácuo, você entende?

Assenti, sentando na beirada de sua cama, ao seu lado. Ele estava enrolado em um cobertor pesado embora o tempo não estivesse tão frio assim, e o nariz escorria de segundo em segundo obrigando-o a ficar com um pano perto do rosto. 

— Falei com Xiumin ontem... e-ele disse que vai viajar nessas férias, antes de pegar seus documentos e levar para a Universidade de Busan – comentei, olhando para a janela do outro lado de seu quarto – LuHanie... ah... – olhei para ele, que tinha enrolado uma parte do pano no dedo indicador e tentava limpar o interior do nariz – Eles estão zangados comigo, mas eu-eu... Você sabe que eu não posso fazer nada, não é? Fui aprovado na US, tenho bolsa integral e-

— Um futuro promissor na carreira literária – finalizou, a voz analasada pelo dedo que interrompia a passagem de ar de suas narinas – Você está certo... eu acho.

— Vai me odiar também?

— Não te odeio.

— Perguntei se vai me odiar – pressionei, franzindo o cenho para meu amigo miúdo.

Ele hesitou, abriu a boca e fechou de novo. Quando resolveu falar, soltou um risinho debochado:

— Tenho o ChanYeol para te substituir, sempre tive.

Byun BaekHyun, 10h35min, 05.04.2017.

Levei um segundo para processar as palavras de ChanYeol, segundo este que foi o suficiente para me fazer lembrar de todos os detalhes da última vez que conversei com LuHan em seu quarto, a algumas semanas de seu aniversário, e tivemos uma conversa civilizada. A última consversa amigável, distante do grosseiro.

Depois daquele dia, nada mais que palavras rudes e olhares frustrados; depois daquele dia eu pude dizer que tinha me tornado um cara sem preocupações e sem vontade nenhuma de tentar me redimir com um dos meus melhores amigos. Ou com todos eles, meus outros amigos, já que esnobar os sentimentos de LuHan tinha provocado uma reação em cadeia.

Algum tempo depois, eu estava ocupado demais com os assuntos da faculdade para sequer sentir vontade de procurar um de meus amigos para um pedido de desculpas e uma prova de meu amadurecimento. Queria simplesmente que minha vida prosseguisse sem problemas, sem preocupações, sem nada: não me importava que tivesse uma rotina, eu só queria seguir com a vida, sem pessoas no meu encalço causando sentimentos problemáticos.

Agora, mesmo para um cara como eu, que abandona os amigos por “um bem maior” e não se preocupa com isso, é estranho ouvir que um dos tais amigos está morto. 

A boca do meu estômago... senti uma coisa no estômago e outra na cabeça: um calor que espalhava por meu cérebro, mas que deixava o clima ao meu redor frio.

Frio. Morte.

— Ai... – perdi o sustento das pernas, meu coração bombeando rapidamente em meu peito, e senti algo muito mais estranho queimando em minha garganta. Meus joelhos fraquejaram e tive de me escorar num armário ao meu lado, porque as mãos estendidas de ChanYeol pareciam o lugar errado naquele momento.

Ele era a pessoa que cuidou de meu amigo quando eu o abandonei. Sinto vergonha da criança imprudente que fui.

Sinto culpa. Culpa. Culpa. Arrependimento...

— Você não está falando sério – sussurrei, e este sussurro se perdeu no ar quando ChanYeol não me escutou. Não fitei seus olhos e apenas olhei pra baixo, para meus pés – Tudo está... enevoado... Não gosto.

Não gosto mesmo. Que botão aperto pra parar esse sentimento? Essa... Coisa estranha? 

— Baekkie – a voz de ChanYeol estava distante, mas assenti para que ele entendesse que o estava escutando – Você está suando frio, me diz que não vai desmaiar, por favor.

Metade do que ele falou não compreendi porque senti uma pontada horrível no lado direito de minha testa, bem acima da sobrancelha, e a memória de quando minha mãe morreu me atingiu em cheio. 

Nostálgico e doloroso. Que... coisa... estranha...

Apesar de ser a segunda vez sentindo aquele pesar tenso, triste, o sentimento parecia ser novo e cheio de luto. Obviamente, eu não tinha mais tantas memórias boas que pudessem justificar o gosto amargo na boca e o aperto no peito – as memórias boas foram substituídas por brigas, desentendimentos e abandono –, mas talvez, para mim, a justificativa fosse apenas a culpa, o arrependimento de saber que um amigo próximo tinha partido sem que tivéssemos resolvido nossos probleXangaiE, de alguma forma, não é como se eu estivesse sentindo que parte de mim se foi. É apenas a tristeza comum de alguém que sente culpa. É... É isso, é isso.

— Baekkie – ChanYeol segurou meu ombro direito e eu olhei para sua mão, subindo o olhar por seus braços e encarando seu pescoço. De repente, olhar nos olhos de Park ChanYeol se tornou ofensivo para mim.

— Como? – forcei a pergunta, esperando que ele entendesse a quê me referia, mas senti sua hesitação. Uma gota de suor escorreu lentamente por seu pescoço, brilhando com a iluminação da lâmpada do corredor que estávamos.

— O q-

— Como... ele realmente morreu? – indaguei, ainda sem olhá-lo. Era uma pergunta idiota, eu sei, mas, no momento, eu não conseguia organizar minhas ideias, não conseguia me focar em algo quando minhas últimas palavras para meu amigo foram ardilosas e debochadas.

ChanYeol se mexeu, chegando mais perto de mim e segurando meu ombro com mais força. Provavelmente era o primeiro toque amigável que tínhamos fora de nossa trégua na parceria para o karaokê, e perceber isso me fez pensar: ChanYeol e eu éramos idiotas quando se tratava de nossos amigos, mas tínhamos algo em comum fora daquele meio. 

Longe de LuHan ou SeHun, ou KyungSoo ou JongDae, nós éramos um par no karaokê. Perto destes, evitávamos contato a todo custo, evitávamos olhares, piadas internas e conversas desnecessárias porque, no final de tudo, eu era ciumento demais com meus amigos e ChanYeol era fiel demais a eles 

— Ele teve traumatismo craniano depois de bater o carro, em Xangai – disse. 

Cobri minha boca com a mão impulsivamente, sentindo o gosto salgado de uma lágrima que escorreu de meu olho esquerdo. Não sequei. Deixei que ela se perdesse no suor frio que  acumulava em meu pescoço. 

— V-vo... o que... – fechei os olhos, virando a cabeça para o lado e respirando fundo. Minha língua estava pesada e a trilha molhada que a lágrima deixara parecia atrativa para minhas glândulas lacrimais – Não quero chorar. 

— Hm... – me largou, virando o corpo de costas para mim – Pode chorar, se precisar.

— Não q-quero – pigarreei, afastando o nó que se formava.

— Certo...

Puxei a manga da camisa social até o rosto, enxugando qualquer rastro de lágrima que poderia demonstrar um possível choro. Me sentia dez anos mais novo. Mais infantil.

Ah... Eu precisava desviar meus pensamentos daquela perda, daquele pesar, ou iria acabar me martirizando pela eternidade. E eu não queria isso. Eu só queria paz...

— Por que ninguém me avisou? Eu poderia ter... eu queria... gostaria de ter... – pausei, minha mente subitamente esquecendo-se dos sinônimos para as palavras que eu gostaria de usar – homenageado, me desculpado...

ChanYeol hesitou, mas virou para mim e eu o olhei. Ele já estava tão suado que seus cabelos propositalmente descoloridos grudavam em sua testa brozeada, a luz fazendo pequenas sombras dançarem em seu rosto, agora, másculo.

— A mãe dele..., ela achou melhor não dar alarde sobre isso e contar apenas para os mais próximos dele, você sabe, como os caras do colégio.

— Mas eu era do colégio de vocês! E próximo do LuHan! C-como ela-

— Você sabe que não era mais tão próximo, Baekkie.

Puxei os cabelos acima das orelhas, indignado, sentindo o impulso me tomar e a vontade de me socar aparecer. A droga da culpa estava me corroendo a cada novidade e eu já não estava mais aguentando toda aquela gentileza de ChanYeol.

— Chega dessa porra de “Baekkie”, você nunca me chamou assim! Agora, por estar aí, todo... – pausei, erguendo o olhar para seu rosto surpreso, tentando lembrar o adjetivo que tinha surgido em minha mente alguns segundos atrás, quando o ouvira chamar-me por meu apelido, mas não consegui – Você não teve que fazer as mesmas escolhas terríveis que eu e sabe disso e, olha só, agora que não sou mais amigo dos rapazes vo-

— Você está entendendo errado – me interrompeu, erguendo a mão esquerda em uma meia rendição – Fica calmo. Eu só..., cara... – ele abaixou o olhar e se aproximou, pegando minhas mãos e desfazendo os nós que formei com os punhos sem nem perceber.

ChanYeol estava gelado, apesar de tanto suor em seu rosto e pescoço. Ele estava nervoso.

— Podemos continuar essa conversa daqui a pouco, tudo bem?

Não falei nada, tentando controlar minha respiração e aquietar meus próprios pensamentos desordenados. Olhei para seus dedos, que faziam um carinho circular na palma de minha mão, e depois olhei para nossos pés quase colados.

Eu sou pequeno. E me sentia ainda menor com o que descobrira alguns minutos mais cedo. Com a morte de LuHan... Dois anos atrás...

Antes que eu pudesse dar uma resposta para ChanYeol – uma confirmação ou um foda-se rápido –, o sinal tocou, interrompendo o intervalo dos alunos e professores, alertando a mim e a ele. Seus dedos apertaram os meus levemente antes que ele se desvencilhasse e curvasse a cabeça numa reverência meio formal.

— Me desculpe por todo esse desconforto, sunbae ssi.

O tratamento repentinamente formal me pegou desprevenido e, antes que ele saísse para voltar à sala dos professores e buscar seu material, bati e segurei em seu antebraço, forçando-o a inclinar-se e olhar-me.

ChanYeol ainda tinha as mesmas expressões súbitas e exageradas, mas que não eram nada forçadas e sim naturais. Era estranho olhar para ele depois de tanto tempo, era estranho estar próximo dele e não sentir a repulsa adolescente que sentia sempre que ele estava perto de meus amigos.

Mas isso era apenas uma prova de que a adolescência é uma fase de escolhas e pensamentos precipitados. E maior exemplo disso era minha culpa quanto a escolha de ter abandonado meus amigos por uma vida universitária antissocial e despreocupada, onde garotos e garotas não tinham vez, logo, não tinha problemas.

— Você me espera quando sair, ok? – disse, enrolado, esperando que meus olhos já não estivessem vermelhos e minhas mãos tão trêmulas quanto estavam ainda agora.

ChanYeol sorriu fraco, apenas para demonstrar alívio, e pegou minha mão que ainda segurava seu antebraço.

— Você tem que parar de me bater assim, você sabe.

— Desculpa.

— Me passa seu número – pediu, ainda segurando minha mão e mexendo no bolso traseiro à procura, talvez, de se celular – Aigoo, não acredito que ia embora sem pedir seu número – sussurrou, desbloqueando a tela e olhando para mim.

— É... Me dá aqui – peguei seu celular, digitando meu número e colocando meu nome com o honorífico “hyung” no final – Pronto, ChanYeol, agora pode me ligar quando quiser – brinquei, rindo sem humor.

— Ligo quando sair, tá? 

Assenti.

— Certo, até depois.

ChanYeol soltou minha mão, correndo em direção à sala dos professores em seguida, me fazendo perceber que ele talvez tivesse uma memória excelente para gravar caminhos.

Me encostei na parede, olhando para o teto branco do corredor. Não sentia vontade de arrumar minha postura e caminhar para a sala do segundo ano, onde teria que fazer a primeira prova mensal do ano letivo, tudo o que eu queria era um tempo para pensar mais. Um tempo para decidir se o que tinha feito poderia ou ser levado em consideração como uma preocupação com o futuro iminente, ou como um ato desleal e egoísta quando pensado sobre a perspectiva de meus amigos. 

Passei a mão pelo rosto, correndo até a sala dos professores e pegando meu material. 

Talvez, por decreto de alguma divindade, o encontro com ChanYeol tivesse sido o estopim para meu enlouquecimento. Porque como poderia ser possível que algo assim acontecesse depois de sete longos anos, se não fosse para quebrar minha rotina e fritar meu cérebro? 

A morte de LuHan...

É bobo pensar assim, mas durante minha época na universidade eu raramente pensava em LuHan e, quando pensava, não pensava em coisas como sua morte. Simplesmente pensava coisas como “será que ele está bem?”, “ele deve estar saudável, certo?” e “ele tem SeHun e ChanYeol para cuidar dele, então deve estar tudo bem”.

Era uma preocupação genuína, apenas pra quebrar meu paradigma de foco nos estudos e nada mais que isso. Ou seja, era coisa semelhante a um resfriado: algo que quebra sua rotina, mas que fica para trás, esquecido, porque não é forte o bastante para te desequilibrar, te impactar.

— Anotem as questões que vou ditar – falei, ríspido, sentando em minha cadeira e olhando para as faces surpresas de meus alunos.

É, parece que não é todos os dias que estamos com humor o bastante para gentilezas e saudações diárias.

E no meu caso não é falta de sexo. Eu transo bem, obrigado.

— Primeira questão! – gritei, atraindo atenção de um ou outro que estava ocupado demais mexendo no celular – Se eu pegar esse aparelho, você só o verá daqui a duas semanas... Agora, comecem a copiar!


Os primeiros vinte minutos de aula se passaram rapidamente, comigo apenas ditando as quinze questões da prova mensal – que se resumiria a Classicismo, Romantismo e Trovadorismo. Em seguida, pude me recostar no encosto da cadeira e apenas olhar para os alunos à minha frente.

Aquela sala não era pior que o 1A, mas também não era um projeto de 2A. Era uma sala, basicamente, neutra: tinha seus prós e seus contras, mas os alunos eram racionais o bastante para saber a hora de parar de brincar e isso os fazia acumular pontos comigo – pontos de comportamento.

É, por um lado meu emprego não era em todo ruim.

Sempre conhecendo pessoas novas, cujas personalidades ainda estavam em desenvolvimento e que, mesmo assim, tinham teorias intrigantes. Eram pessoas intrigantes, as de hoje em dia.

Totalmente diferentes das pessoas que conheci na adolescência – com exceção de meus amigos, que justamente por serem a exceção eram meus amigos –, cujos ideais não passavam de conhecer seus ídolos, conhecer o mundo e ganhar o coração do oppa. Ou da noona.

Aqui, nessa escola, as pessoas pareciam não se importar tanto com namoros e essas coisas, com exceção de alguns poucos, claro, mas o ponto era: nem mesmo eu consegui ficar longe dos namoros e enrolações da adolescência, como aqueles garotos conseguiam ser tão rígidos sendo eles parte da nova geração?

Sorri, resmungando baixinho, e acabei atraindo a atenção dos alunos para mim. Comprimi os lábios, desviando o olhar.

— Terminei, professor Byun – uma aluna disse, se aproximando.

— Certo. 

— O senhor me assustou quando entrou, mas acho que está mais aliviado agora, não é? – a garota perguntou, e eu a fitei, imaginando o porquê de não saber seu nome, quando lembrei que ela fora um dos que entraram este ano.

— É, estou – sorri para ela – Vocês me acalmam, agindo assim, tão fofos e concentrados.

Ela curvou a cabeça, corada, e ia-se embora quando lhe chamei de volta, perguntando seu nome.

— Soo JangHye – respondeu, baixo, a covinha direita bem destacada.

Curvei a cabeça, assentindo para ela.

Mais uma personalidade singela capaz de me roubar os pensamentos... E isso era tão bom porque, até o momento em que o sexto horário tocou, liberando a todos para ir embora, outras pessoas como ela me fizeram não pensar novamente em minha culpa e em meu arrependimento. 

No bolso traseiro da calça jeans que usava, meu celular vibrou com uma notificação recém chegada e minha primeira reação foi franzir o cenho tentando segurar minha mochila e as provas das duas salas do segundo ano em uma só mão para pegar o celular. 

Deslizei o dedo pela tela, parando de andar e me escorando com o joelho na parede próxima à entrada. Provavelmente era uma mensagem de ChanYeol e saber disso me fez sentir o pesar voltando aos poucos – a realidade voltando aos poucos.

De: número desconhecido: No estacionamento, perto do portão, estou esperando por você.

Meu sangue gelou.

Esperava que ChanYeol também tivesse amadurecido no sentido “compreensão”, porque eu não iria aguentar se ele me advertesse sobre minha palavras direcionadas a ele hoje mais cedo: tinha certeza de que o daria o soco caso ele implicasse comigo ou jogasse na minha cara seu grau de intimidade com os rapazes que um dia considerei meus amigos.

Não respondi sua mensagem nem salvei seu número, apenas bloqueei a tela e coloquei o celular no bolso, ajeitando minha postura e segurando as provas numa mão diferente da que segurava minha mochila. Caminhei o curto espaço até a entrada e empurrei a porta, sentindo a brisa de abril bagunçar meus cabelos, jogando os fios por cima dos meus olhos.

À frente, o estacionamento amplo da escola vazio com alguns poucos alunos conversando entre si antes de tomarem coragem de enfrentar o caminho até suas próprias casas. Olhei para os lados, esperando ver ChanYeol encostado num carro esportivo ou algo assim.

Contudo, não contive um riso nervoso quando o notei me encarando com um capacete debaixo do braço esquerdo, ao lado de uma moto que eu não conhecia o modelo e nem a fabricadora. Mas sabia o bastante de veículos para saber que ela era importada.

— Você é rico, ou algo assim? – indaguei, me aproximando, sem deixar de olhar para a moto brilhante ao seu lado.

— Estou bem de vida e isso é legal – deu de ombros, me entregando o capacete que segurava.

— O quê? Sério isso? – falei, rápido, estendendo o capacete para ele, que usava a chave da moto para abrir um compartimento debaixo do assento, sua costa estava curvada de um jeito cômico e tive de me esforçar para não analisar toda a sua postura – Não gosto de andar de moto. E estou com tudo isso – mostrei minha mochila e as provas.

Ele parou, me olhando por cima do ombro, ainda com a costa curvada. 

— Você está brincando, não é? Me dá isso aqui – pegou as provas, dobrando-as ao meio e guardando dentro da mochila, ao lado do notebook que eu carregava para todo o lado.

Balancei a cabeça, murmurando um agradecimento por ele estar guardando minhas coisas dentro do compartimento da moto, e umedecendo os lábios.

— Quer dizer, eu realmente não me importo, mas... Sei lá, só vamos logo com isso.

Ele riu, se ajeitando com um outro capacete em mãos. Este era preto, diferente do que ele me dera, que era prata.

— Você não tem um carro, BaekHyun ssi?

— Não. Estava ocupado demais com as cadeiras da faculdade e alguns probleminhas de saúde, então tive que deixar pra depois. 

— Depois? – colocou o capacete sobre a cabeça, fechando a trava e sentando na moto, colocando o apoio para trás e girando a chave na ignição – Já é depois... Você ensina há... dois anos?

— Três – corrigi, fazendo o mesmo com o capacete e depois sentando atrás dele, segurando no próprio assento quando ele girou o guidon e se dirigiu lentamente até passar pelo portão – Mas... eu realmente não senti vontade...

Por alguns segundos, enquanto as lojas e as casas bonitas passavam rapidamente por nós, ChanYeol ficou calado, mas quando paramos num sinal, ele me olhou pelo retrovisor e euo olhei de volta.

— Você achou que eu estava magoado com você... Por quê?

Demorei para lembrar de que momento ele estava falando, mas, quando lembrei, desviei o olhar para o semáforo.

— Está verde – disse, fazendo-o desapoiar o pé esquerdo e endireitar-se para seguirmos em frente – Os rapazes ficaram chateados quando disse que iria embora...

— Hm...

Franzi o cenho.

— Você não ficou magoado?

Ele hesitou.

— Por que eu deveria?

— Porque, sei lá, ficou... como se diz... ressentido por eu ter abandonado os rapazes... – gaguejei, falando um pouco mais alto por ele ter aumentado a velocidade e o vento ter se tornado mais barulhento. Era estranho desejar que ele tivesse ficado magoado comigo apenas para saber que ele sentiu minha falta, mas o ponto era que todo mundo gosta de se sentir especial, de sentir que é importante nem que seja como objeto de zoação. Ou um simples parceiro de karaokê.

Balançou a cabeça.

— Na verdade, foi bem chato ficar ouvindo SuHo falar sobre sua deslealdade sem parar, mas, no final, acho que todo mundo entendeu bem – pausou, virando numa esquina e diminuindo a velocidade – Depois de um tempo, você virou apenas uma lembrança pra eles e seguimos em frente. É aqui, vamos tomar uma cerveja.

Abri a boca para comentar sobre o que ele tinha dito, mas franzi o cenho quando olhei para o logotipo do prédio que paramos em frente. Estávamos no centro de Seul, numa área onde as pessoas circulavam livremente com sacolas de compras, celulares colados nas orelhas, vestidos de ternos e com expressões ansiosas.

Eu conhecia aquela avenida, já que todo final de semana me deslocava de meu distrito para beber algo no bar da esquina, e, portanto, conhecia aquele prédio que estávamos parados em frente. 

Não era um lugar pra tomar cerveja, pensei.

— Cerveja? ChanYeol, isso aqui é uma academia.

— Eu sei, vai, desce – falou, dando uma batidinha em meu joelho, talvez querendo me apressar. 

Com cuidado, desci da moto e parei na calçada, tateando meu bolso para ver se meu celular não tinha caído durante o percurso até ali. Felizmente o celular ainda estava preso contra o jeans meio apertado que vesti.

— Vamos – chamou, passando por mim, empurrando as portas de vidro da academia e adentrando o local imponente – Bom... Boa tarde? – cumprimentou a mulher do outro lado do balcão da recepção com um olhar confuso, e ela lhe direcionou um sorriso travesso.

— Boa tarde, ChanYeol ssi – respondeu, endireitando a postura e olhando para ChanYeol através dos fios castanhos de sua franja – JungKook ssi acaba de sair para o almoço e JiHo ssi disse que só poderia vir para o turno da noite.

— Tudo bem, obrigado – suspirou, coçando a cabeça e olhando para mim, que me mantive perto da porta, apenas ouvindo-os e olhando para os equipamentos na extensão da academia – Eu e meu amigo vamos, hm, estar no meu escritório, então não nos incomode a não ser que seja importante, ok?

A mulher deve ter assentido e, quando a olhei, ela me analisava com o cenho franzido. Ela tinha o rosto bonito e alegre, alvo, mas seu olhar era intenso, acusatório; seus cabelos lisos tocavam o lóbulo de sua orelha e uma franja rala cobria sua testa delineada.

Dei de ombros, ignorando seu olhar curioso e seguindo ChanYeol, que já cruzava o arco de madeira que dava lugar à área de musculação, onde podia ver várias esteiras e máquinas especificamente fabricadas para as academias. ChanYeol virou à direita e subiu uma escada que, se não o tivesse visto subindo, nem notaria.

Todo o local interior passava um ar de modernidade e, num clique baixinho, cheguei à conlusão de que tinha a possibilidade de ChanYeol ser o dono daquele estabelecimento. E isso seria uma justificativa e tanto para seus músculos, suas roupas de marca e sua moto importada.

O ChanYeol que eu conhecia não usava roupas de marca, nem era musculoso ou tinha moto; muito pelo contrário, ele estava sempre usando um moletom velho, era magrelo e tinha que caminhar quase dois quilômetros até a estação porque morava, praticamente, no interior.

Agora, como ele conseguiu aquilo tudo eu não sabia.

— Então, aqui é meu escritório – disse, empurrando a porta de madeira no final do corredor estreito do segundo andar e dando espaço para que eu entrasse primeiro – Fico a maior parte do tempo aqui, então... Aish, pensei que tivesse levado meu cobertor pra casa.

Não dei atenção ao que ele falava, mas vi quando ele se aproximou e puxou o cobertor azul marinho que estava amassado em cima da cadeira giratória preta atrás da mesa de madeira. O local era praticamente ocupado por uma estante cheia de livros, troféus e medalhas, além de porta retratos e pastas coloridas com marcadores de papel com datas saltando para fora. Atrás de sua mesa, uma janela grande tinha as persianas abaixadas, mas a luz de meio dia podia passar por uma fresta ou outra na lateral direita: ChanYeol provavelmente ficava espiando o movimento daquele lado da persiana, então acabara danificando o cantinho.

Passei o olhar pela estante mais baixa, subindo o olhar em seguida, observando seus porta retratos enquanto ele recolhia seus objetos pessoais e guardava numa mochila da Nike.

— Waa.. – soltei, me aproximando da estante mais alta e vendo uma foto que me era muito familiar e nostálgica – Pode pegar pra mim? – pedi, apontando para o porta retrato que estava um pouco fora de meu alcance.

— Hm – assentiu, se aproximando e pegando-o para mim – Você... tem uma foto dessa, não tem? Uma cópia, quero dizer...

Passei o polegar pelo vidro, bem em cima do rosto de LuHan, sentindo a poeira do retrato desprender-se deste e grudar no meu dedo. ChanYeol também estava naquela fotografia, ao lado de LuHan, longe de mim porque eu não gostava de tê-lo perto se não fosse para um dueto no karaokê.

— Não, não tenho mais – falei, sentindo minha garganta doer e ouvindo minha própria voz saindo rouca – Queimei essa fotografia no meu primeiro período da universidade, quando... bem, quando ela já estava me deixando perturbado.

— Hmm – murmurou, puxando o porta retrato de minhas mãos com um ar desconfiado – Não vai queimar o meu, é a única foto que tenho de LuHan e sua, antes de tudo desmoronar entre a gente.

Desviei os olhos para a estante novamente, notando que, fora aquela foto comigo e LuHan, a única foto com alguém do nosso grupo de amigos era uma dele com alguém que se parecia muito com KyungSoo. KyungSoo vestia terno e gravata, enquanto ChanYeol tinha como traje a beca de formatura preta e azul.

— Isso foi quando? – indaguei, apontando para a foto que olhava. Olhei para ChanYeol e ele me encarava com o lábio repuxado para a esquerda, fazendo sua covinha se aprofundar na carne de sua bochecha – Que foi?

Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos brancos, fazendo com que respingasse suor no chão. Ele era calorento, por isso sempre preferiu o inverno.

— Senta aí – apontou para uma das cadeiras em frente a sua mesa e sentou-se na outra. Suas omoplatas ficavam acima do encosto da cadeira, enquanto minha nuca ficava perfeitamente recostada neste. – Isso foi há três anos, quando me formei em Educação Física, e KyungSoo estava lá porque JongIn também estava se formando-

— Oi! Vocês estavam na mesma universidade? – perguntei, virando de lado na cadeira para olhá-lo melhor. Ele continuava olhando para frente, em direção à janela, e eu tinha uma visão do contraste que seus cabelos brancos faziam com sua pele bronzeada e a camisa preta que ele usava. 

Ele se tornou um cara másculo, definitivamente, o total oposto do rapaz de cabelos loiros e lisos.

— Bem, sim... – hesitou – JongIn fez dança e, se não me engano, está na China com KyungSoo agora... Eles se casaram.

— Eh?! – levantei da cadeira, segurando nos apoiadores de braço e girando-a para ficar de frente para ele. As cadeiras já estavam próximas, mas quando virei minha cadeira meu joelho encostou em sua coxa esquerda – C-co... Quando?

— Ano passado – deu de ombros, olhando para o colo, onde sua perna estava cruzada por cima do joelho, formando um triângulo entre as pernas.

Arfei, sentindo a indignação me tomar mais uma vez. 

Estava sentindo uma agonia tão grande por ter perdido esses momentos com meus amigos, que não pude controlar o murro que dei na mesa de ChanYeol, fazendo-o se sobressaltar.

— Você foi ao casamento? 

— Não.

Arregalei os olhos, expirando com força.

— Por quê?

ChanYeol girou a cabeça para me olhar e vi a protuberância de seu pomo de Adão ficar marcada.

— Por que eu fiz a mesma coisa que você, depois, e então... ficou um clima estranho entre a gente.

— Você é doido?! Você os abandonou! – acusei, batendo em seu joelho e revirando os olhos quando ele resmungou um “ai” – Quando fez isso e por quê?

Ele ficou calado por um tempo, apenas respirando pesadamente enquanto me olhava com as sobrancelhas franzidas. Sua boca estava entreaberta e minha experiência dizia que ele estava concentrado em seus próprios pensamentos.

Comprimi os lábios, desviando o olhar para o símbolo da marca de sua camisa. Quando levantei o olhar para seu rosto, ChanYeol se levantou e girou a cadeira para ficar de frente para mim, meus joelhos tocando o ponto abaixo de seus joelhos.

— Foi... cinco anos atrás – disse – Eu só quis me dedicar à universidade. Você entende, eu sei. E deixei de sair com eles, só isso... – ele me olhou – Não fale como se você não tivesse feito a mesma coisa, Baek... Hyun.

— Eu deixei... eu deixei você cuidando deles! Caramba... você também abandonou o Lu...

— Não fala merda, porque eu não abandonei LuHan. Nem ele nem ninguém era responsabilidade minha – rosnou, me assustando – Você quis me deixar tomando de conta deles, mas quem iria tomar conta de mim? Todos eles tinham alguém, um par, e eu simplesmente quis cuidar da minha própria vida.

Abri a boca, incrédulo.

— Não eram responsabilidade sua? ChanYeol! Você era como um pai para eles, sempre disse isso! Você nunca se importou sobre cuidar deles e eu entendia isso como sua lealdade a eles... E-eu me enganei?

Ele balançou a cabeça, mas, um segundo mais tarde, percebi que ele estava desdenhando de minhas palavras e não negando.

— É como você disse: eu era como pai para eles, mas toda a família se desestabilizou com a sua saída. E você sabe o porquê? 

Abri a boca para falar, mas ChanYeol calou minha boca com a palma de sua mão, olhando-me com uma chama de irritação.

— Porque, se eu era o pai, você era a mãe. – falou, me fazendo prender a respiração e arregalar os olhos, até mesmo senti um calor subindo para minhas bochechas. Alguns segundos depois, ele tirou sua palma de minha boca e se recostou na cadeira, olhando para o lado – Ah! Você falou sobre eu ter ficado magoado com você, e, é, é isso mesmo; eu fiquei, mas depois vi que você não tinha culpa nenhuma, que só estava se libertando para uma nova vida.

Umedeci os lábios, olhando fixamente para seu rosto, e, quando ele virou para me olhar novamente, não desviei o olhar. Seus olhos escuros se reduziram à expressão de tédio que eu cheguei a conhecer bem no ensino médio, mas o bom é que sua irritação parecia se dissipado.

— Por isso, não se culpe pela morte do LuHan, não se culpe por ter perdido a oportunidade de ser padrinho do KyungSoo – continuou, agora me olhando com um pouco mais de compaixão – E, mais que isso, não me culpe por ter seguido com minha vida, por ter deixado que eles crescessem por eles mesmos. Porque, Baekkie, esse tipo de coisa faz parte da vida e você, por ser um amante de livros mais atento que eu, deveria saber disso.

Pisquei lentamente, depois ergui minha mão e, hesitante, peguei a sua que estava sobre seu joelho, e entrelacei a ponta de nossos dedos. Fechei os olhos e senti meu nariz arder, a vontade de chorar me atingindo com força por compreender cada fonema das sentenças de ChanYeol.

Ele me repreendeu da forma correta, cautelosa, ele escolheu as palavras certas. E isso me fez sentir estranho...

Algumas lágrimas já haviam escorrido por meu rosto quando ChanYeol entrelaçou nossos dedos mais um pouco, chegando a tocar nossas palmas, e se levantou, me puxando de encontro a seu peito. Minha cabeça encostou em seu tórax rígido, meu nariz encostando em seus bíceps, absorvendo a fragrância prazerosa que ele usava.

— Você ainda é bom com essas coisas de autoajuda... não é? – sussurrei, até mesmo meu ar embargado pelo choro que eu me permitia liberar ali, contra o peito de ChanYeol, com nossas mãos entrelaçadas soltas ao lado de nossos corpos.

— Sim – soprou em minha orelha, erguendo a mão livre para rodear meu corpo e me puxar para mais perto – Não mudei muito por dentro, você sabe...

—... Já tinha percebido... – esfreguei minha bochecha úmida em sua camisa preta.

Ele suspirou baixinho.

— Não se culpe, Baekkie, sinta vontade de se libertar, porque está tudo bem em ser egoísta de vez em quando... 

 

Minimamente, assenti, nem me dando conta de que ChanYeol tinha esquecido de abrir a geladeirinha no canto do escritório e pegar nossa cerveja.

  

 

 


Notas Finais


Pelo amor de Deus, ficou bom? Ou ficou forçado para segundo capítulo? Alguém dá um review pra me informar sobre o que achou, por favor!

Obrigada por ler, tenha um bom final de ano.


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