História Awaked - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 3
Palavras 3.686
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Adormecida


Fanfic / Fanfiction Awaked - Capítulo 3 - Adormecida

Eu nem conseguia acreditar que eu finalmente tinha chegado naquele hospital, pareceram horas até lá, quando na verdade tinha levado menos de 10 minutos. Abri a porta correndo e com cuidado retirei a garota em meus braços. Nem me importei em fechar as portas do carro, deixei tudo como estava. Apenas saí correndo com ela em meus braços, o seu sangue escorrendo por mim, manchando toda a minha roupa. Dei um chute na porta e ela se abriu mais que depressa. Senti o olhar dos meus colegas me penetrarem fundo, mas eu não estava nem um pouco preocupado com isso. A Amy veio correndo em minha direção e para a minha surpresa já tinha pedido ajuda. 
— Mas o que é que está acontecendo aqui? — Ela me olhou com um olhar de reprovação. Por um momento fiquei confuso se era pelo fato de eu ter voltado para lá, quando eu deveria estar dormindo, ou se era por saber que eu era o culpado por tudo aquilo.
— Agora não há tempo para explicações. Olha o estado dela. Precisamos ajuda-la, rápido. Vamos direto para a sala de cirurgia. — Falei sem nem mesmo olhar para a Amy, eu simplesmente não conseguia parar de tentar correr contra o tempo. Afinal, quantos minutos eu ainda teria para evitar a morte daquela garota?
— Matt, você precisa me explicar o que isso significa. — Não é possível que a Amy ainda consiga estar calma numa situação dessas. A garota está morrendo e a única coisa com que ela deveria se preocupar é em salvá-la, afinal, é isso o que os médicos fazem.
— Amy, não está vendo que ela está perdendo muito sangue? Pelo amor de Deus, pare de me fazer perguntas e venha comigo até a sala de cirurgia. Chame mais enfermeiros, provavelmente a cirurgia será de risco e complicada. — Eu apenas tremia e tremia. Eu estava na carreira de médico há mais de oito anos, trabalhava com a Amy desde então e naquele mesmo hospital já havia visto de tudo. Mas eu nunca tinha sido o responsável por nenhum dos meus casos. Todo aquele cansaço, todo aquele sono, tudo havia se dissipado. E eu estava mais alerta do que nunca. 
— Dr. Mark, acompanhe a garota e preste os primeiros socorros, além de fazer todos os outros procedimentos, por favor. Em poucos minutos estarei pronta na sala de cirurgia. — Assim ordenou Amy ao médico de apoio e colocou a mão sob a minha frente, me impendido de prosseguir.
— Amy, me deixe passar agora. E eu não estou pedindo. — Por um instante pareci irritado ao falar isso, pois as minhas palavras saíram por entre os dentes. Mas eu realmente estava irritado. Será que ela não vê que eu preciso, necessito, estou implorando para salvar aquela garota? 
— Matt, se acalma, caramba. Olha o seu estado. Me diga o que aconteceu. — Ela me disse isso enquanto entrávamos na sala de preparação, onde ficavam todos os equipamentos de segurança e esterilização. Estávamos nos vestindo para a cirurgia.
— Olha, eu estava voltando para casa, mas estava muito cansado e acho que acabei cochilando. — Até aí eu ainda estava conseguindo falar, mas daí fui perdendo o controle e quando dei por mim as palavras já não conseguiam mais sair com facilidade. — Então eu me acordei com um barulho e um impacto sob meu carro. Fui eu, Amy. Eu sou o culpado. Por isso me sinto na obrigação de salvar aquela garota. — Então eu já não podia mais me controlar, as palavras saíram rápidas, cansadas, trêmulas, falhas. Eu mal conseguia colocar as luvas em minhas mãos.
— Tudo bem, Matt. Eu vou fazer de tudo para salvar aquela garota. Confie em mim, vai dar tudo certo. Afinal, quem é maior cirurgiã daqui? — Eu mal pude acreditar que a Amy pôde me dizer aquilo com a maior naturalidade do mundo e pior, que me disse aquilo sorrindo, como sempre.
— Como assim você vai fazer de tudo para salvá-la? Você que não quer dizer que... — Diabos, aquela já era a terceira vez numa mesma noite em que a Amy me interrompia.
— Olha para você, Matt. Você não está em condições de aplicar nem uma injeção. 
— Você quer parar de fazer brincadeirinhas? Para, isso é ridículo às vezes, sabia? — Depois de anos de amizade, depois de várias doses de bebidas em bares, depois de tudo pelo que já tínhamos passado, pela primeira vez eu tinha me exaltado com a Amy. Mesmo dada às circunstâncias, por um momento eu senti que ela estremeceu por dentro. O que havia acontecido comigo? Então ela veio em minha direção e colocou as mãos sob os meus ombros.
— Se você realmente quer salvar aquela garota, então me deixe fazer o que tiver de ser feito. Sendo franca com você, se for você a operá-la, as chances de ela morrer só aumentarão. — Ela me falou isso olhando em meus olhos e engolindo em seco, eu sei que eu tinha a machucado.
— Então vá e salve-a, eu imploro. Faça tudo, Amy. Faço tudo, por favor. Até o impossível. Pelo amor que você tem a mim. — Eu a abracei e a deixei ir. Antes que ela entrasse na sala de operação, ela se virou e abaixou a cabeça, como quem queria me dizer que iria dar tudo certo.

Depois que a Amy entrou na sala de cirurgia, olhei para o relógio e ele marcava 00:25. Me sentei numa das cadeiras que ficavam de frente para a sala de cirurgia e fiquei a olhar fixamente para a porta, como se olhando para ela, eu me sentisse ali dentro, fazendo alguma coisa. Comecei a pensar em tantas coisas, afinal, aquela era a primeira vez que era eu a me sentar naquela cadeira e aguardar. Geralmente eram as pessoas que esperavam por mim. Nesses anos todos de trabalho, eu nunca consegui compreender como as pessoas se sentiam esperando por mim, por isso nunca dei muita importância para elas. Eu até costumava demorar um pouco para sair e avisá-las de tudo que tinha acontecido. Foi quando percebi o quanto eu estava sendo mesquinho. A aflição que eu estava sentindo era tamanha, que eu mal conseguia me conter. As minhas mãos suavam, a minha respiração parecia que iria faltar, o meu coração batia tão rápido que por um momento eu pensei em pedir ajuda, pois achava que estava prestes a ter uma síncope. Então comecei a chorar. Eu chorava igual a uma criança que se perde da mãe no parque de diversões. Eu coloquei a cabeça entre os joelhos e apenas chorei. Chorei até não ter mais lágrimas para chorar. Há muito tempo eu não chorava. Nos últimos meses eu vinha suportando uma solidão profunda, uma tristeza sem explicação, uma carência, uma frustração. Mas até então eu nunca tinha chorado. Eu já não me reconhecia mais. Por que eu estava tão desesperado? É claro que saber que você é o responsável por um atropelamento, do qual você poderá ser o culpado de uma morte, não é nada fácil. Eu não estava me importando com possíveis processos, nem se iria parar numa prisão. Não, nada disso passava pela minha cabeça. Eu só não queria perdê-la. Eu não queria que ela morresse. Eu não queria passar o resto da minha vida pensando naquela garota, na vida que ela perdeu por minha causa. As horas pareciam terem parado. Cada vez que eu olhava para o ponteiro do relógio, parecia que ele mal tinha acabado de sair do lugar. Eu já não estava aguentando mais aquela espera e a minha cabeça parecia que ia explodir. Fui até a enfermaria e tomei um calmante, quem sabe assim eu conseguiria controlar os meus nervos.

O relógio marcava 00:40. O relógio marcava 01:00. O relógio marcava 01:30. O relógio marcava 01:50. O relógio marcava 02:15. O relógio marcava 02:29. O relógio marcava 02:48. O relógio marcava 03:00. O relógio marcava 03:12. Até que eu adormeci.
— Matt. Matt. — Escutei aquela voz sussurrando ao fundo e senti aquela mão leve em meu ombro.
— Amy? — Fui acordando aos poucos, tonto por causa do efeito do calmante. Abri os olhos e senti que eles queimaram com toda aquela luz se misturando a todos aqueles tons de branco das paredes.
— Você acabou dormindo, não é? — A Amy falava abaixada, ainda sussurrando.
— É, eu tomei um calmante. Acho que você precisa revisar esses calmantes, eles nos deixam drogados. — Me levantei aos poucos, pois as minhas costas estavam me matando. Olhei para o relógio e ele marcava 06:56. Por um momento eu não me lembrei de nada, mas aí eu vi a Amy me olhando com aqueles olhões e apertando os lábios. E então eu me lembrei, eu havia acordado totalmente e estava mais uma vez vivendo aquele pesadelo. — E a garota? Amy, pelo amor de Deus, me diga que ela sobreviveu. — Dei um pulo da cadeira ao dizer isso, de modo que fiquei tonto por causa da medicação, o que me levou a colocar a mão na testa quase que imediatamente.
— Matt, sente-se, por favor. — Eu sou médico e já havia feito as pessoas passarem por essa situação por várias vezes. Acredite, quando um médico pede para que você se sente, não é nada bom. Eu sabia que não iria escutar algo bom.
— Por favor, não me diga que... — Eu falei sussurrando, mal pude terminar a frase. Então me sentei. Não porque a Amy havia me pedido, mas porque não aguentei ficar de pé. Eu não estava preparado para ouvir aquilo, eu não queria ouvir aquilo.
— Matt, por favor, me escute. Eu fiz de tudo, aliás, todos nós fizemos de tudo. Como você pôde ver, ela estava muito machucada. Teve várias escoriações, duas fraturas expostas, uma no braço e outra na perna, perdeu muito sangue por conta de uma hemorragia interna. É, bem, veja isso. — Ela pegou algumas radiografias e me mostrou. — Nós conseguimos estancar a hemorragia, por sorte tínhamos sangue compatível suficiente no banco. Mas... — Dessa vez fui eu quem a interrompi.
— Então o que aconteceu? A hemorragia não foi estancada? Ela não recebeu mais sangue? — Eu demonstrava claros sinais de desinquietação. 
— Pegue isto. — Ela me mostrou mais uma radiografia, a qual ela não tinha me mostrado junto com as outras. — Ela recebeu uma pancada muito forte na cabeça, eu acho que você não viu antes por causa de toda a confusão. Matt, quanto a isso eu não pude fazer nada. Eu tentei o que pude, mas não havia nada a ser feito, entende? Vamos lá, você é médico, vai me entender. — Eu olhei a radiografia e entendi do que a Amy estava falando. Havia uma fratura imensa no crânio e me perguntei como não pude ver aquilo antes. 
— Então ela morreu de traumatismo craniano? Ou de hemorragia? Me diz o que aconteceu. — Mais uma vez estava eu gritando com a Amy.
— Ela não morreu, Matt. — A Amy deve ter se alterado com todo aquele meu comportamento, porque àquela altura ela já estava a choramingar, enquanto passava as mãos em meus cabelos, na tentativa de me acalmar.
— Como assim ela não morreu? Amy, me diz o que aconteceu.
— Ela não morreu. Mas está em coma — A Amy disse isso como quem já esperava a minha reação, mas talvez para a surpresa dela eu acabei não fazendo nada. Fiquei a olhar para ela por alguns segundos, até que pude dizer algo.
— Quais... Quais as chances dela se recuperar bem? — Falei gaguejando, pausadamente. Dessa vez foi a Amy quem ficou calada, apenas piscando os olhos já molhados de lágrimas, segurando a minha cabeça que agora parecia descontrolada. — Amy, fala alguma coisa. — Aquele silencio estava me matando e eu sabia que as palavras seguintes poderiam me matar muito mais.
— Eu vou ser muito franca com você. As chances dela se recuperar são mínimas. Sinceramente, eu acho que ela nem vai. — Me levantei da cadeira, tonto, o coração parando, a respiração faltando. 
— Não. Não. Não. Não. — Eu dizia repetidamente, sussurrando quase que inaudível, com uma das mãos na boca.
— Matt, por favor, olha para mim. Vem cá, não faz assim. Se acalma, meu amigo. — Eu estava de costas para a Amy e senti as mãos dela sob as minhas costas, como quem queria fazer com que eu me virasse para ela.
— Não. Não. Não. Não. — Eu continuava a repetir sussurrando quase que inaudível, com uma das mãos na boca. — Até que o desespero tomou conta de mim e eu me deixei descontrolar de vez. — Nããããoooo. — Eu gritei em desespero, me jogando ao chão, com as mãos na cabeça. 
Então a Amy se atirou no chão junto a mim e me abraçou ali mesmo, ao mesmo tempo que tentava me levantar. Assim que eu parei de gritar, passei os meus braços por entre o pescoço dela, de modo que ela acabou se deixando cair no chão. Nós chorávamos. Eu pela garota desconhecida e a Amy por mim. A Amy era muito frágil, emotiva. Me ver chorar fazia ela sentir as minhas dores. E eu estava completamente fora de mim. Me levantei e saí correndo pelos corredores, chutando tudo o que via pela frente. Os olhares de desaprovação dos colegas de trabalho e dos pacientes me seguiam. Então a Amy saiu correndo atrás de mim e num abraço tentou me acalmar.
— Xiii. Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem. — Ela me dizia isso abraçada comigo, acariciando os meus cabelos.
— Não, não vai. Aquela garota tinha uma vida, sabia? Eu a tirei dela. O que teria sido pior? A morte ou isso? Me diz, Amy. Como poderei viver com essa culpa agora? Eu queria ser médico para salvar pessoas. Salvar. Não matar, nem machucar. Você me entende? — As lágrimas entravam pela minha boca, aquelas lágrimas salgadas. Eu mal conseguia falar.
— Eu sei, meu querido. Eu te entendo. Mas por favor, não faça isso. — Aquele abraço da Amy parecia querer me proteger do mundo, daquela dor, daqueles sentimentos, daquelas pessoas me olhando feio. 
— Sebastian, vá preparar uma dose de calmante para o Matt, por favor. — A Amy disse, olhando para o enfermeiro ao lado, que já estava de prontidão lá, como se soubesse que eu iria precisar de ajuda.
— Agora mesmo. Só um minuto.
— Eu não quero calmante, eu não quero nada. Eu só quero a vida daquela garota de volta, entende? — Eu estava com a cabeça enfiada debaixo dos braços da Amy o tempo todo, como se eles fossem o meu refúgio, apenas olhava para ela quando falava.
— Por favor, Matt. Confie em mim. — O enfermeiro chegou e entregou um copinho descartável com algumas gotas amareladas dentro. — Aqui, meu bem. Toma, vai te fazer se sentir melhor. — Amy disse, me entregando o copinho.
— Amy, você não entende. 
— Entendo sim, meu amor. Eu te entendo mais do que ninguém, acredite em mim.
— Não, você não entende. Se me entendesse, não estaria tentando me consolar com drogas.
— Matt, não diga isso. Você pode não me conhecer a fundo, não sobre algumas coisas. — Ela me disse isso e mesmo sem olhar para ela, pude notar que algo nela mudou. Eu não sei porquê, mas foi o que senti. — Aqui, tome.
— Tudo bem, tudo bem. — Peguei o copinho e tomei tudo, me engasguei entre o choro e acabei tossindo muito. Não sei o que me deram, mas deveria ser muito forte. Antes mesmo das gostas chegarem ao meu organismo, comecei a me sentir um pouco sonolento. Talvez nem fosse a medicação. Talvez o meu corpo já não estivesse mais aguentando tudo aquilo e quisesse apenas desfalecer. Continuei abraçado a Amy, até que fui aquietando o choro e os meus olhos foram se fechando. Tudo havia se apagado, mais uma vez.

Acordei deitando numa das camas, as quais os meus pacientes costumavam ficar. A minha cabeça ainda estava rodando, sentia algumas pontadas até. Tentei me levantar, mas mesmo devagar, precisei ficar por um tempo sentado na cama, pois estava com a sensação de que se pusesse os pés no chão, acabaria caindo. Assim que a tontura melhorou, calcei os meus sapatos e saí à procura da Amy. Não precisei procurar por muito tempo, pois assim que abri a porta do quarto dei de cara com ela.
— Olha só quem acordou. Como é que você está se sentindo? — Amy abriu um sorriso e me deu um abraço.
— Confuso. — Amy apertou os lábios olhando para baixo ao ouvir isso. — Que horas são?
São 14:30 — Amy olhou no celular. — Eu sei que não é nada fácil. Acredite em mim, eu sei bem como é querer fazer algo por alguém, mas não poder. — Estávamos caminhando para a sala de Amy. Assim que chegamos lá, Amy fez eu me sentar na cadeira de consulta e ela se sentou na cadeira dela, do outro lado da mesa. 
— Por que você está o tempo me dizendo isso? — Perguntei frangindo as sobrancelhas.
— Escute, assim que eu tinha acabado de me formar, a minha sobrinha de apenas 6 anos acabou se enrolando numa cerca de arame farpado e se cortou todo. Ela estava aprendendo a andar de bicicleta, sabe? Então ela perdeu o equilíbrio e acabou sendo arremessado à cerca. Minha irmã chegou junto ao marido com ele nos braços, assim como você fez com a garota. Eu mal conseguia ver o rostinho dela por causa do sangue. E eu fiquei tão nervosa que desmaiei. — Amy abaixou a cabeça de modo que os cabelos caíram sob o seu rosto, o escondendo.
— E então? — Falei de modo que tentava ver o rosto dela.
— Quando eu acordei, me disseram que ele havia sofrido um corte na jugular e que... — Nesse momento a Amy mal conseguia falar. Ela pôs a mão na testa e desabou.
— Eu sinto muito. Eu sinto muito mesmo. — Falei, engolindo em seco a cada palavra. — Mas não foi a sua culpa.
— Foi eu quem deu a bicicleta, sabe? — Amy olhou para mim e falou afastando o cabelo do rosto. 
— Mesmo assim, você não pode se culpar por isso. 
— Eu demorei alguns anos para entender isso. Mas minha irmã até hoje não entendeu. Eu não a cobro por nada. Matt, eu não havia te contado nada disso antes, porque isso sempre foi muito duro para mim, entende? Se resolvi te contar sobre isso agora, é porque entendo bem como você está se sentindo. O que eu quero te dizer, é que você também não teve culpa. Você também não pode se culpar por isso. — Amy me falava tudo aquilo com muita convicção, de modo que por alguns instantes, enquanto olhava para os olhos dela, eu acabava digerindo tudo o que ela me dizia.
— Se não se importa, eu gostaria de ver ela. — Falei quase que me levantando da cadeira. A minha vontade de ver aquela garota parecia ser maior que tudo.
— Agora não vai dar. Estão preparando ela para mais alguns exames. Você sabe, de praxe. 
— Sei. — Falei meio que bufando, como se estivesse indignado.
— Matt, você precisa descansar. Por que não vai para casa e tira alguns dias de folga? Sabe, para se recuperar de tudo. 
— Da última vez que mandou eu ir para casa descansar, acabei deixando uma pessoa em coma.
— É disso que eu estou falando. Você precisa colocar os seus pensamentos em ordem. Como vai poder trabalhar com eles todos aflorados assim? Por favor, me escute. Você precisa se dar um tempo, entende? 
— Tudo bem, Amy. Você tem razão. Mas eu poderia voltar aqui amanhã de manhã, sabe, para dar uma olhada na garota? 
— Claro, meu bem. Você pode voltar aqui a hora que quiser. Mas só se isso for te fazer bem. Tem certeza de que quer mesmo fazer isso?
— Sim, eu tenho.
— Então venha cá. — Amy se levantou e esticou os braços, me convidando para um abraço. Então me levantei e a abracei bem forte. — Eu vou te levar para casa, está bem? — Amy falou beijando o meu rosto.
— O que foi? Vai querer retirar a minha habilitação? — Pela primeira vez depois de tudo aqui, me permiti descontrair com algo.
— Talvez. — Amy riu.

Eu estava no carro com a Amy, enquanto seguíamos para a minha casa, eu ficava a ver os vultos das paisagens que passavam por mim. Os meus pensamentos estavam longe e confusos, nem eu mesmo sei definir o que estava se passando pela minha cabeça. Foi aí que passamos por ele. Maldito viaduto. Eu sempre pensava besteiras quando passava por ele, mas agora era mais que isso. Eu havia atropelando alguém bem debaixo dele. Ele iria para sempre me trazer lembranças más. Por um momento cogitei a hipótese de derrubá-lo. Mas como? A Amy deve ter percebido que algo se passava em minha cabeça enquanto passávamos por ele, então ela colocou uma mão em meu ombro e olhou para mim dando um sorriso. Finalmente chegamos à minha casa. Aquela casa solitária, agora estava ainda mais sombria. Não era mais o silêncio da minha mente que iria me atormentar, porque agora a minha mente tinha algo do que me acusar. 
— Está entregue. — Amy falou sorrindo, me dando um tapinha no ombro.
— Muito obrigado, mamãe. — Retribui a brincadeira.
— O que? Mamãe? Fez eu me sentir anos mais velha, sabia? Por que não irmã? — Amy caiu na gargalhada.
— Amy, obrigado de verdade. Obrigado por ter feito tudo o que pôde. Obrigado por cuidar tão bem de mim. Obrigado por tudo mesmo. E me desculpa por ter gritado com você. Eu realmente não sei onde estava com a cabeça.
— Tudo bem, Matt. Você não precisa se desculpar por nada. Já disse que eu te entendo. — Amy falou olhando para mim, apertando a minha mão.
— Então está bem. Eu preciso voltar para casa. 
— Tudo bem, Amy. E mais uma vez, obrigado. — Dei um abraço longo e apertado nela e saí. Fechei a porta do carro e acenei para ela, enquanto ela ia se afastando.

Entrei em casa e olhei para o teto, depois para todos os lados. Aqui estávamos nós: Eu e a solidão. Dessa vez eu não bebi, nem fiz nada. Eu apenas caí na cama, do jeito que estava mesmo. Eu adormeci em questão de segundos. O meu cansaço, tudo o que tinha acontecido e todos aqueles calmantes agora pareciam estarem fazendo efeito de uma vez só. Eu fechei os olhos e caí em sono profundo, apenas não mais profundo do que o daquela garota.



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