História Awaked - Capítulo 4


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Drama, Romance
Exibições 3
Palavras 4.097
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 4 - O Despertar


Fanfic / Fanfiction Awaked - Capítulo 4 - O Despertar

Assim que abri os meus olhos, os senti arderem com a claridade que vinha da janela por entre a persiana, o que parecia fazer com que a luz aumentasse. Mas aí me lembrei de que os meus olhos não doíam apenas por causa da claridade lá de fora, mas também pelo excesso de calmantes e por toda a frustração pela qual eu tinha passado. Pelo menos eu havia dormido, mesmo ainda estando me sentindo cansado. Esfreguei os olhos ainda meio fechados e me pus de pé. Fui ao banheiro e fiquei por alguns minutos deixando a água escorrer da minha cabeça ao meu corpo, como se aquela ducha quente pudesse lavar não apenas por fora, mas por dentro de mim também. Eu só queria encontrar um jeito de me sentir melhor, de acabar com toda a minha culpa, mas por mais que eu tentasse me convencer de que essas coisas acontecem, eu não podia parar de pensar que se eu tivesse prestado mais atenção, eu teria evitado tudo aquilo. O pior de tudo é que agora eu não podia fazer mais nada. Têm certas coisas das quais não adianta o que você faça, não dá pra mudá-las. Me vesti e fui pra cozinha preparar algo pra comer, embora ainda estivesse com o estômago embrulhado, sabia que eu tinha que me esforçar, porque se não acabaria ficando ainda mais debilitado. Assim que comecei a passar a geleia no pão, escutei o telefone tocar.
— Alô.
— Bom dia, meu bem. Como você está? — Era a Amy, com aquela voz de quem está sempre rindo.
— Estou um caco, mas estou tentando me juntar.
— Dormiu bem? Como passou a noite?
— Eu dormi igual a quem está em coma. 
— O que disse? — Demorei alguns minutos pra entender bem o porquê da pergunta da Amy, mas só depois de alguns segundos pude entender a reação dela, seja qual for que tenha sido. Mas sinceramente, eu nem tinha dito aquilo como um deboche ou algo assim, saiu meio que sem querer mesmo.
— Esquece. — Falei como quem tinha acabado de perceber que falou besteira e o pior é que eu tinha falado mesmo. — Eu posso passar por aí daqui a pouco, sabe, pra ver a garota?
— É claro que pode, eu já disse que pode vir vê-la a hora que quiser.
— Então eu estarei aí em alguns minutos e aproveito pra te ver, está bem?
— Combinado. Até logo, Matt. Espero que você se cuide. 
— É claro que sim, farei isso. Até logo, Amy.

Desliguei o telefone porque a Amy nunca desligava mesmo, pois ela tinha a mania de achar que eu iria falar mais alguma coisa e ela iria acabar desligando na minha cara. Acabei de passar a geleia nos meus pães e os comi acompanhados de um bom suco bem gelado. Não que eu estivesse com a mínima vontade de comer, na verdade, a cada mordida uma ânsia de vômito tomava conta de mim, não sei explicar o que estava embrulhando o meu estômago: Se era o excesso de calmantes ou toda aquela frustração que rondava a minha cabeça a todo segundo. Mas eu sabia que precisava ficar forte, afinal, eu queria tentar fazer algo por aquela garota. Sabe-se lá Deus o que, mas eu apenas queria tentar ajudá-la de alguma forma, nem que pra isso eu tivesse que dar mais do que o melhor de mim. 

Ainda com aquela ânsia de vômito, fui até o banheiro escovar os dentes, estava ansioso pra sair e chegar logo no hospital. Não era bem o hospital que eu queria ver, mas a garota. Por uns instantes fiquei a pensar se todas as pessoas que de alguma forma prejudicava alguém também se sentiam tão ligados à vítima como eu. É claro que eu me referia às pessoas que sentem verdadeiramente algo, não àquelas que atropelam e simplesmente vão embora sem culpa alguma. Tentei afastar todos os pensamentos de mim, porque eu sabia que se eu continuasse me entregando a eles daquele jeito, mais uns dias e eu estaria louco. Então não podia me entregar assim tão fácil, afinal, sempre há uma esperança, certo? Eu mesmo já havia visto vários casos em que não demos nenhum fio de esperança aos parentes e de repente o paciente se recuperou maravilhosamente. Mas aí me veio à cabeça: E se ela ficar paraplégica, ou algo do tipo? Não, chega. Eu já tinha me decidido a não pensar nessas bobagens. Nada do que eu imaginasse iria mudar a situação daquela garota e tudo o que eu poderia fazer agora era esperar. Me olhei no espelho e vi que os meus olhos estavam fundos. Pensei em como essas coisas conseguem acabar com a pessoa, tanto psicologicamente como fisicamente. Tinha falado em deboche pra a Amy que eu estava parecendo um caco, mas o que eu não sabia é que eu estava mesmo. Com toda essa confusão de pensamentos, acabei me distraindo e deixei a escova cair no chão. — Eu sou um merda mesmo — Pensei. Ao me agachar pra pegar a escova no chão, senti a minha cabeça rodar. Seria o efeito dos calmantes ainda? Enquanto lavava a porcaria da escova, pensava que assim que chegasse ao hospital verificaria esses tais calmantes, porque sinceramente, senti pena dos pacientes que usavam eles. Já estava pensando em sair, quando percebi que precisava fazer a barba, porque eu já estava com cara de mendigo e aquela barba era o toque final da minha fantasia de morador de rua. Por incrível que pareça o cheiro da espuma de barbear estava fazendo com que o meu estômago ficasse ainda mais embrulhado, mesmo ela sendo a minha espuma preferida. Peguei o barbeador daqueles descartáveis mesmo, porque eu não estava querendo demorar ainda mais pra sair. A cabeça tonta, os pensamentos confusos, o estômago embrulhado, a mão tremendo, foi então que pensei que o meu estômago não estava satisfeito com o que tinha comido e estava prestes a devolver tudo. Inclinei o meu pescoço pra baixo na pia, de modo que fiquei segurando o barbeador com a mão pra cima. Apesar do esforço, o meu estômago acabou decidindo ficar com a comida, afinal. Não vomitei, mas me senti ainda mais tonto. Como queria acabar logo com aquilo e ir ao hospital, levantei a cabeça e tentei barbear abaixo do queixo. Ainda confuso e olhando pra cima (cena clássica de homens que estão a barbear embaixo do queixo), quando bati os olhos e voltei a olhar diretamente pra o espelho, eis que a vejo. Eu a vi atrás de mim, olhando pra mim com olhar de quem também não está entendendo nada. Eu nem tinha a visto direito ainda, mas sabia que era ela. Era a garota que eu atropelei. Mas como poderia? Levei um susto tão grande, de modo que dei um passo pra trás e cai no chão. Senti uma pequena ardência e algo escorrendo em meu pescoço. Que beleza, havia me cortado. Me levantei devagar e olhei rápido pra trás, mas não havia ninguém. Dei uma olhada no espelho, mas também não vi mais nada, além da minha cara de idiota. Limpei o sangue, cuidei do corte e passei mais uma água no rosto só pra garantir. — Matt, Matt, você está ficando doido. — Falei pra mim mesmo.

Quando saí pra fora, senti os raios do sol que tinha nascido há poucas horas em meu rosto. Eu sempre aconselhava os meus pacientes a tomarem sol àquela hora, porque iria lhes fazer bem, mas até então nunca tinha experimentado de verdade o quanto aquilo poderia ser realmente bom. Fiquei parado em frente de casa, com os olhos fechados, sentindo o calor acolhedor do sol em meu rosto, respirando fundo, com as mãos no bolso. Por um momento parecia que tudo estava bem, até que o meu momento de paz interior foi despertado pelo tumultuo do jornaleiro que vinha correndo igual a um louco com medo do cachorro que vinha logo atrás. 
— Você precisa trazer algum petisco pra ele. — Gritei com as mãos à boca. — Ele apenas fez um sinal de “legal” com o dedo e continuou correndo. 
O cachorro era bonzinho na verdade, só corria atrás dele porque queria mostrar quem é que manda. Ou não.

Assim que fui abrir a garagem, me lembrei de que meu carro ainda estava no hospital e de que tinha sido a Amy que tinha me trazido pra casa. Fiquei pensando em como poderia voltar a dirigir depois de tudo, mas eu sabia que era preciso encarar os meus medos, as minhas incertezas, os meus pensamentos. Será mesmo que eu vou poder voltar a ter uma vida normal agora? E se eu não superar e começar a agir como um maníaco que não consegue se desligar de algum trauma? Eu tenho que ser forte, eu preciso. 

Estava caminhando pela rua, tentando pegar um táxi, quando dou de cara com uma barraquinha de flores. Tinha flores de todos os tipos e cores, mais do que eu podia imaginar que existisse. O perfume de uma se misturava à outra, de modo que nem dava pra saber de qual delas vinha algum cheiro. Eu já estava me afastando da barraquinha, quando olhei pra trás e quase que automaticamente me vi caminhando de volta até ela. 
— Me faça um buquê dessas... Aqui. — Falei pra senhora que estava as vendendo, apontando com o dedo quais flores eu queria levar.
— Boa escolha, meu rapaz. — A senhora me respondeu com um sorriso inocente.
Enquanto a senhora fazia o buquê, me peguei olhando pra todas aquelas flores e me perguntando de qual será que ela gostaria mais, qual seria a sua preferida, ou se realmente gostava de flores. De repente, como se algo soprasse no meu ouvido, me veio à cabeça: Orquídeas. Frangi as sobrancelhas e mais que depressa soube o que fazer.
— Me desculpe, senhora, mas vou levar essas daqui. — Falei apontando com o dedo outra vez.
— Tudo bem, meu rapaz. Mas por que não leva as duas?
— Acho que não. — Falei sorrindo.
— Prontinho, aqui está. — Pouco tempo depois, a senhora me falou entregando as flores.
— Obrigado. Quanto é? 
— 20 dólares. — Me respondeu a senhora já com a mão esticada.
— Nossa, aqui está. — Falei arregalando os olhos, com expressão de quem estava sendo roubado. Sinceramente, nunca havia comprado flores pra alguém, então não podia imaginar em como um simples buquê de orquídeas pudesse ser caro.

Finalmente encontrei um táxi, então entrei com cuidado pra não estragar o buquê (afinal tinha sido muito caro) e mandei ele seguir até o hospital. Fui o caminho todo segurando o buquê como uma noiva, de vez em quando via o taxista me olhando pelo espelho, mas eu nem me importava com a situação, porque eu realmente não queria estragar o buquê, de modo que até mesmo fechei a janela, com medo de que o vento violento do carro pudesse machucar as flores. Você deve estar pensando que todo esse cuidado é pelo fato de ter sido caro, mas na verdade eu só queria que o buquê chegasse até ela bem bonito. 

Assim que passei pela porta de entrada, avistei a Amy com um copinho descartável de café, conversando com a recepcionista. Foi meio estranho porque todos olharam pra mim e eu sabia que eles estavam pensando sobre algo do que tinha acontecido. Ignorei todos e apenas continuei caminhando com aquele buquê nas mãos (igual a uma noiva).
— Olá, Dra. Amy.
—  Oi, Matt. — Amy se virou já com os braços abertos pra me dar um abraço. — São pra mim? Que lindas. Muito obrigada, meu querido. — Ela ficou tão deslumbrada com as flores que ela achava que eram pra ela, que nem se lembrou mais do abraço. 
— Ah, na verdade não. — Fiquei com dó da Amy, porque ela já estava tirando o buquê das minhas mãos.
— Hm, então tá. — Senti os olhinhos dela murcharem mais rápido do que as pétalas daquelas flores iriam murchar. Além de ela estar fazendo bico igual a um neném que tem o doce roubado pelo cachorro. 
— Como você está? — Amy me perguntou sorrindo, como se nada tivesse acontecido. Na verdade eu sei que ela tinha feito aquela ceninha de dó por brincadeira, porque ela nem mesmo gosta de flores.
— Eu estou bem, de verdade. Um pouco confuso, é verdade. Mas tudo irá se encaixar, não é mesmo?
— É claro que vai. — Amy falou com as duas mãos sob o meu ombro. — O que foi isso? — Amy fez cara de espanto olhando pra o corte no meu pescoço.
— Coisas de homem, você não vai entender. — Falei passando a mão no rosto, como se ali ainda houvesse alguma barba.
— Eu acho que entendo sim. Imagina quando esses acidentes acontecem em outros lugares? Nós mulheres sabemos bem como é, acredite. — Amy falou rindo igual a uma hiena nervosa. Eu realmente não queria pensar nessa cena.
— Onde ela está? — Perguntei antes que pudesse mesmo imaginar a cena.
— Está no 5° andar, quarto número 2. Vai lá.
— Estou indo, Amy. Ah, depois quero conversar umas coisas com você. — Falei olhando por cima do ombro pra Amy, já quase com o pé no elevador.
— Já sei, é sobre os calmantes. Nada melhor do que sentir na pele, não é, Dr.? — Amy caiu na gargalhada.

Assim que abri a porta do quarto, senti o frio que habitava ali. Não que tivesse algum ar-condicionado ligado, não era esse tipo de frio. Mas ver aquela garota cheia de cortes naquele rosto liso e branco, que se misturavam àqueles aparelhos, me fez sentir algo que não sei explicar. Já havia visto outras pessoas em coma, mas ela era diferente. Coloquei as flores num dos jarros que sempre ficam nos quartos caso alguém tinha a mesma ideia que eu, o enchi de água e o deixei encima do balcão ao lado da cama. Cheguei bem perto dela e então pude ver seu rosto melhor. Agora sem os piercings e sem o sangue, apenas os cortes. Apesar de toda machucada, dava pra se notar que ela era bem nova e também muito bonita. Segurei a mão dela, aquela mão gelada e estática, de modo que o curativo em seu braço se moveu. Ao passar a minha mão por entre as dela, senti meu punho encostar no seu, só que ele parecia estar áspero, foi quando dei uma olhada e vi um monte de cicatrizes. Então era isso, ela se cortava. Mas por quê? Uma moça tão jovem e bonita. O que a levou a fazer isso consigo mesma? Fiquei mais alguns minutos a contemplá-la, imaginando como seria a cor de seus olhos, quando tentei abri-los, mas não pude ver nada mais além de uma confusão de cores, talvez pelo estado em que se encontrava. Pensei em como ela poderia se chamar, qual a sua verdadeira idade, o que ela fazia e pra onde estava indo quando eu a atropelei. Pensei na preocupação dos seus pais e no desespero do seu namorado, ou quem sabe noivo. Por algum motivo me neguei a imaginar que ela poderia ter um namorado, então preferi não pensar nessa parte. Não me pergunte o porquê. Puxei a cadeira pra perto da cama e segurei firme a mão dela.
— Eu sei que você não pode me escutar, mas mesmo assim eu quero te dizer uma coisa. Primeiramente, eu sinto muito mesmo pelo que aconteceu. Se eu pudesse voltar atrás, eu teria feito qualquer coisa pra evitar isso. Eu realmente queria ter feito algo pra te ajudar, pra te salvar, mas não pude. Mas eu te prometo que eu vou tentar ser forte e ficar sóbrio pra procurar uma maneira de te tirar dessa maldita cama. Em minha cabeça tem se passado muitas coisas, mas não irei perder o controle, não agora. Eu vou te tirar daí, sem nenhuma sequela. Eu te prometo. 
Me levantei ainda segurando a mão dela, dei mais uma olhada em seu rosto, beijei sua testa e saí. Antes que eu fechasse a porta, fiquei por mais alguns segundos a observá-la, na esperança dela mover um dedinho se quer. Mas não moveu, não iria mover. 
— E aí, ela gostou das flores? — Amy ironizou rindo na mais pura frieza.
— Amy, você é terrível às vezes, sabia? — Falei com uma expressão de bravo. 
— Desculpa, Matt. Você sabe como eu sou. Só estou tentado te animar.
— Tudo bem. — Falei com as mãos no bolso, olhando pra o chão. — Já falou com algum parente dela?
— Sabe que não? Nós procuramos algum documento, mas não achamos nada. Nem mesmo um celular. Absolutamente nada.
— Como assim não acharam nada? E os pais dela? Sabe, a família dela deve estar desesperada. — Falei quase que gritando, eu já tinha ficado nervoso mais uma vez.
— Pois é, Matt, eu sei. Mas realmente não achamos absolutamente nada. Nem sabemos como proceder. A menina está em coma, sem nenhum parente e ainda tem as despesas. Quem vai arcar com todas as despesas?
— Como assim? Como você pode pensar em despesas numa hora dessas? Caramba, Amy. — Falei batendo na mesa.
— Calma, Matt. O que deu em você? — Amy se levantou e veio até mim.
— Eu só estou exausto de tudo isso, sabe? — Falei num tom mais baixo. — Olha, me desculpa. Eu sei que você é a diretora do hospital e vai ter que prestar esclarecimento à gerência pela garota, sei que não é culpa sua. Mas olha, coloca tudo na minha conta enquanto não encontrarmos os parentes dela, está bem?
— Quer que eu coloque as despesas na sua conta? Está doido? — Amy falou jogando as mãos ao ar.
— É o mínimo que eu posso fazer, não é? 
— Mas Matt... — Não deixei a Amy terminar, estava muito cansado pra argumentar sobre algo com ela.
— Olha, só faz o que eu te pedi, está bem? Por favor. — Fui em direção a ela e coloquei minhas mãos em seu obro.
— Está bem, Matt. — Amy me disse abaixando a cabeça.
— E vê se dá um jeito nos calmantes, sério. — Falei sorrindo.
— Pode deixar, não se preocupe. — Amy riu também.

Fiquei algumas horas no hospital vendo os meus pacientes, mas apenas como amigo, já que a Amy tinha me proibido de visitá-los como médico. Finalmente tomei coragem e entrei no carro, que estava com uma amassadura encima do capô. É estranho, afinal, o impacto veio da frente, então o que diabos tinha feito aquela amassadura? Mas isso não era importante, pois não fazia diferença alguma. Depois fui almoçar num restaurante que tinha por perto, pelo menos o embrulho no estômago havia passado. Tirei o dia pra descansar a mente, então fiquei dando voltas pela cidade sem ter o que fazer. Andando pela cidade, com o pensamento em apenas um lugar: O hospital. Com o pensamento apenas em uma pessoa: Aquela garota. Ela estava ali sozinha, sem ninguém. E a sua família provavelmente não fazia a mínima ideia do que poderia ter acontecido com ela. O sol já estava se pondo, quando de repente me lembrei de alguém que poderia me ajudar. Acelerei com tudo e me pus no caminho de casa.

Quando cheguei em casa já tinha escurecido, então me joguei no sofá da sala e peguei o telefone. Fiquei torcendo pra que ele atendesse logo, porque sinceramente eu não estava com saco pra ficar ligando, ligando e ligando. Disquei os números e tentei a sorte.
Bip da chamada.
Bip da chamada.
Bip da chamada.

— Alô. — É claro que eu gostei-adorei-amei que o Ben atendeu rápido, mas sinceramente, aquilo me surpreendeu.
— Atendeu na primeira ligação, como você me explica isso?
— Estou tomando uns remédios aí e não posso beber. — O Ben falou como quem estava chateado.
— Remédios? O que você tem?
— Fim de semana, sabe como é. Comi de mais e... — Nem deixei ele terminar, porque sabia que viria merda em frente (literalmente falando).
— Olha, eu preciso muito de um favor seu. 
— Pode mandar. — O mais bizarro de tudo é que eu escutei um barulho ao fundo e como minha imaginação estava com tudo, pude até sentir o “cheiro”. — Hunf. — O Ben gemeu como quem tinha sentido dor, ou pior, sujado as calças. 
Eu contei tudo pra o Ben, sobre o acidente, sobre a garota, sobre o coma e sobre ninguém ter encontrado nada que pudesse nos levar aos parentes dela.
— Então, você acha que pode me ajudar? 
— Eu posso ver o que fazer. 
— Muito obrigado, Ben. Mas, então... Fora isso, o que você acha que vai acontecer comigo? — Perguntei com voz de preocupação.
— Como assim? O que está dizendo?
— Sabe, o que pode acontecer comigo, por eu ter atropelado uma pessoa e a deixando em coma?
— Bem, se você não contar eu também não conto.
— O que quer dizer com isso? — Perguntei frangindo as sobrancelhas.
— Você me disse que quer ajudá-la, certo? Então primeiro ajude-a. Deixe as coisas irem rolando. Se alguém prestar contas à polícia, aí a gente vê o que faz, mas enquanto a garota não tiver nem parentes, por que não deixar isso um pouco de lado? Afinal, você quer ou não quer fazer algo por ela?
— Tudo bem, você tem razão. — Falei suspirando. Eu não iria me sentir muito bem com isso, mas o Ben tinha razão, afinal, o que eu poderia fazer por ela caso fosse processado, ou preso? Precisava estar com a minha cabeça livre pra pensar direito numa forma de tirar ela daquele maldito coma.
— Então, está bem. O que você pode dizer sobre ela? Digo, como ela é? 
— Ela aparenta ter entre 18 e 20 anos. É muito bonita. Cabelo liso, médio e castanho. Tem dois piercings no nariz e algumas tatuagens. Estava usando uma jaqueta de couro, uma blusa e uma saia, ambas as roupas pretas. E também tem as cicatrizes. 
— Que cicatrizes?
— No punho. Eu acho que ela se cortava.
— Caramba. — Ben falou como quem tinha se assustado.
— É. — Sussurrei apenas.
— Não tem como me mandar uma foto? 
— Ben, a garota está toda inchada. — Falei com indignação. 
— Deixa pra lá então. — Ben falou como quem acabara de perceber a merda que tinha falado. — Olha, eu vou tentar ver o que posso fazer. Acho que dou conta, afinal, a delegada da cadeia da cidade tem uma quedinha por mim. — Ben tinha essa mania de achar que todas as mulheres tinham uma quedinha por ele, o que é estranho, porque ele sempre estava sozinho. — Qualquer coisa, eu te ligo.
— Muito obrigado, Ben. Obrigado por tudo. — Falei fechando os olhos, com um sorriso de esperança. 
— Me agradeça vindo tomar uma cervejinha comigo qualquer dia desses. — Ben falou sorrindo.
— Pode deixar, qualquer dia eu apareço. — Qualquer dia desses, quando eu finalmente ver aquela garota se levantando daquela maldita cama fria e todo esse pesadelo acabar.
— Então está bem. Vou ver o que posso fazer e já te ligo. — Ben interrompeu meu pensamento.
— Ficarei no aguardo. — Respondi.
— Só mais uma coisa. — Ben falou quando eu já estava desligando o telefone.
— O que é? — Falei prontamente.
— Você não precisava ter mencionado que a garota é bonita. — Ben me disse isso e desligou. 

Pensei a respeito e o pior é que ele estava certo, eu realmente não precisava ter mencionado isso, nem sei por que o fiz. Dei um sorriso largo, abaixei a cabeça de modo que a balançava pra lá e pra cá, com o telefone apoiado sob ela. Fiquei deitado no sofá assistindo aquelas porcarias que passam nas noites de domingo, então pedi uma pizza e continuei deitado, apenas esperando o retorno do Ben. A pizza chegou, eu a comi e nada do telefone tocar. Mais alguns minutos no sofá e o telefone finalmente toca.
— Ben?
— Olha, eu sei que isso é meio frustrante, mas eu não encontrei absolutamente nada. Provavelmente já se passou mais de 24 horas do desaparecimento, o que é estranho, porque a família dela já deveria ter prestado queixa. 
— Como assim não encontrou nada? Ninguém a procurou? — Logo se deu pra perceber a minha perturbação pela voz.
— Me desculpa, Matt. Mas eu vou continuar procurando, eu prometo. Qualquer coisa, eu te ligo. Até logo.
Bip de chamada encerrada.
Bip de chamada encerrada.
Bip de chamada encerrada.
Bip de chamada encerrada.

Fiquei sentado no sofá, com os olhos parados e o telefone no ouvido. Não é possível que ninguém tenha dado falta dela. O que mais me indignava não era o fato de ninguém tê-la procurado, mas o fato de não poder saber quem era ela, nem mesmo o nome dela. Aquilo só me frustrava ainda mais, mas apenas desliguei a TV, tomei um bom banho e fui pra cama. Queria estar com a aparência bem melhor de manhã pra ir visitá-la, não que ela pudesse me ver, mas sei lá, vai que ela acordasse, nunca se sabe. Afinal, seja dormindo ou acordado, o que custa ter esperança?
 



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