História Back to Black - Clexa - Capítulo 10


Escrita por: ~

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Categorias The 100
Personagens Clarke Griffin, Lexa
Tags Clarke, Clexa, Costia, Lexa
Exibições 179
Palavras 4.518
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Romance e Novela, Suspense, Yuri
Avisos: Adultério, Homossexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Hey, voltei meu povo, sentiram minha falta? Então, fic em fase final viu, não percam um cap desde então haha.

Coloquem a musica do meio para o final do cap, essa musica faz tema com o que Lexa vive nesse cap, se puderem, reparem na letra da musica.

Musica do cap: Colors - Halsey.

Capítulo 10 - Capitulo X - Colors


Fanfic / Fanfiction Back to Black - Clexa - Capítulo 10 - Capitulo X - Colors

PoV Lexa

Para escapar do frio e do interior minúsculo do carro — Izabela disse que precisava de mais espaço para respirar, depois do que acabei de lhe contar —, encontramos um lugar sossegado para nos sentarmos dentro da Sala do Deserto da estufa. O banco fica escondido entre pedras, e cactos. Está muito quente ali, uma diferença marcante em relação à baixa temperatura lá fora. Izabela e eu tiramos os casacos e os colocamos no colo antes de nos sentarmos. Eu tiro meu gorro preto e o enfio no bolso, junto com as chaves.

— Por que você fica me olhando assim? — pergunto a ela, me referindo àqueles olhos verdes tristes, cheios de sofrimento e piedade.

Eu não aceito piedade. Ela com certeza sabe disso.

— Eu só... Bem, é que sei o quanto você amava Cóstia... — explica ela, com palavras suaves e cheias de dor. — Isto é, eu nunca soube de toda a história, mas sabia, ou melhor, sei o suficiente para entender que isso não deve ser fácil para você. E-eu não consigo imaginar... como isso é possível , afinal?

Olho para minhas mãos.

— Sinceramente, não sei. — respondo, desanimada. — Eu não sabia da extensão de tudo isso até a noite passada. — Olho para Izabela, à minha esquerda. — Ela finalmente se lembrou de seu passado, ou o que acredita ser seu passado. Izabela, eu não fazia ideia. Nem sei o que estou dizendo, estou tão confusa quanto você com tudo isso. — Meu olhar se volta para minhas mãos, dobradas entre as pernas, os cotovelos apoiados nas coxas. Eu mexo no relevo do meu grosso anel, constrangida, lembrando depressa o que mandei gravar nele: ‘A Chacal’. Para sempre lembrar onde surgiram as trevas dentro de mim. Para o caso de um dia eu querer esquecer.

— Como assim ela lembrou?

Hesitante, olho para a flora desértica,procurando sinais dos visitantes, que podem estar prestes a entrar para visitar esta sala.

— Clarke, ou melhor, Cóstia , sofre de amnésia desde que a  tirei do abrigo depois do incêndio...

Flashback On

Um ano atrás — Nova York

Eu estava seguindo Cóstia havia duas semanas, depois de tê-la visto em um telejornal, na Times Square, passando atrás do repórter em uma pequena multidão. Derrubei uma xícara de café fervente no colo quando vi seu rosto passando na tela. Havia seis anos que eu estava à sua procura. Seis anos desde a noite em que ela matou a última das três mulheres inocentes — presumivelmente por minha causa —, injetou drogas em mim, pôs fogo em minha casa e arrastou meu corpo para o grande terreno atrás da construção, para que eu não morresse queimada. Nunca mais a vi depois daquela noite, até um ano atrás. Eu achava que ela já estaria longe, àquela altura. Morta, até. Porque não era do feitio de Cóstia simplesmente desaparecer. Ela gostava do jogo. Vivia para ele. Eu esperava que ela deixasse um rastro de cadáveres — todas mulheres louras — para que eu pudesse caçá-la. Assim, quando a vi naquela noite, depois de tanto tempo, algo sombrio e predador estalou dentro de mim. Expectativa. Vingança. Desejo. Amor...

Deixei Baltimore naquele dia e fui para Nova York.

Duas semanas depois, encontrei-a no lugar por onde deveria ter pensado em começar a busca, trabalhando como cantora em um bar e restaurante chique de jazz e blues. Não havia nem sinal de uma Cóstia Fox em lugar algum de Nova York, nem em nenhum outro lugar, aliás. Usei recursos da Ordem para procurar seu nome em toda parte durante seis anos. Ela não tinha nem certidão de nascimento, nem cartão de crédito naquele nome. Mas isso não me surpreendia muito, na verdade, porque ela estava trabalhando para outra Ordem e, como todos nós, nunca usava identidade verdadeira. Mas eu não fazia ideia de que o motivo pelo qual eu não conseguia achar nada sobre Cóstia fosse porque ela estava vivendo sob o nome de Clarke Griffin. Ela morava em um apartamento em Nova York. Pagava contas. Tinha uma grande amiga que morava do outro lado do corredor. E tinha um emprego. Levava uma vida normal, à vista de todos, e parecia estar assim havia muito tempo.

Finalmente, depois de anos de busca, pensei tê-la encontrado.

Fui para o bar naquela noite usando meu melhor vestido, do jeito que ela sempre adorava me ver vestida, e tinha um plano. O bar cheirava a charutos adocicados, uísque e perfume de mulher. Eu estava intoxicada pela atmosfera. Sempre adorei lugares como aquele, onde são servidos os melhores vinhos e há espetáculos sofisticados. Cóstia, apesar de sua profissão de assassina ou de seus ímpetos sexuais sombrios que só encontravam par nos meus, era uma mulher muito refinada — quando não estava matando alguém ou misturando seu sangue com o meu durante o sexo, é claro.

Escolhi uma mesa pequena, redonda e pouco iluminada, bem à esquerda do palco, para ficar à vista, mas sem ser o primeiro rosto que ela notaria quando se aproximasse do microfone. Um punhado de instrumentos ocupava o palco, atrás de onde ela ficaria, e mais dois microfones altos estavam posicionados atrás e ao lado dela, no lugar das backing vocals.

Aquilo já estava começando a trazer muitas lembranças de quando fomos perdidamente apaixonadas, por dois curtos anos.

Eu nunca me sentira tão ansiosa — meu estômago se encolhera em uma bola de músculos dura como pedra, que queimava minhas entranhas. Minha garganta estava dolorosamente seca, por mais que eu tomasse goles do uísque, só para umedecê-la. Mas eu mantinha minha compostura impecável, sem revelar a ninguém sentado às mesas ao redor que, lá no fundo, eu estava prestes a explodir de expectativa e necessidades que somente Cóstia poderia entender.

A banda subiu ao palco em silêncio e se posicionou, seguida pelas backing vocals, mulheres usando vestidos idênticos de renda preta, que envolviam suas silhuetas até os joelhos.

Cóstia apareceu por último. Ela estava linda. A coisa mais linda que eu já vira, como sempre foi, desde o dia em que nos conhecemos. Só que desta vez uma longa cabeleira loura escorria pelos ombros, posicionada perfeitamente para que cada lado formasse uma onda loura sedosa e terminasse em um semicírculo logo abaixo de cada seio. Nem um fio de cabelo estava fora do lugar. Ela usava um vestido curto bege, adornado por plumas e flores de lantejoulas, que compunham um desenho complexo sobre seus quadris e coxas, além de sapatos bege de salto alto, com um brilho prateado salpicado ao redor dos saltos e solas.

Eu estava hipnotizada por ela. Nunca a vira com cabelo louro e com uma maquiagem suave, em tons nudes e rosados, muito menos com um vestido tão leve e macio. Cóstia sempre se vestia de preto. Tingia os cabelos de preto. Pintava os olhos e os lábios em tons escuros. Era como se um anjo tivesse substituído o diabo diante dos meus olhos.

Eu nem imaginava quão verdadeira era essa ideia. Ainda não.

A música começou, e na mesma hora sua familiaridade me deixou atordoada. Minha mão apertou o copo de uísque. Meus ombros ficaram rígidos e eu parei de respirar naquele exato instante.

A letra de “Wicked Game” saía de seus lábios, muito tórrida e cheia de sentimento. Exatamente como eu me lembrava de ela cantar para mim, anos antes. Ela sabia que eu estava ali? Me vira entrar no prédio ou atravessar o salão, procurando a mesa perfeita? Será que ela já sabia que eu estava na cidade e a encontrara? Era possível. Cóstia era uma mestra do assassinato e da espionagem. Estava no auge da forma, era difícil se esconder dela e impossível escapar depois de ser encontrado. Ela sempre estivera um passo à minha frente.

Mas, quanto mais eu a observava, mais começava a rejeitar essa ideia.

Ela olhou para a multidão algumas vezes, quando não fechava os olhos para enfatizar algum verso. Ela movia o corpo esbelto e curvilíneo no ritmo da batida lenta da canção, gesticulando com as mãos cheias de anéis.

Aquela bola ansiosa e quente que era meu estômago começara a abrasar meu peito, pois a canção continuava e ela não me notava. Eu queria ficar de pé e olhar em seus olhos, mas não o fiz. Fiquei sentada ali, parecendo tão calma quanto todos que só tinham ido apreciar o espetáculo.

Quando chegou o último refrão, eu já tinha certeza de que teria que trocar de mesa para que ela me visse.

Mas, então, ela finalmente me olhou.

Seus olhos azuis suaves encontraram os meus. E ela desviou o olhar.

Cóstia não me reconheceu. Mesmo que estivesse fingindo, eu teria detectado o menor sinal de reconhecimento. Ela não deu nenhum. Eu era para ela como qualquer outra mulher sentada na plateia naquela noite, fazendo amor com ela em pensamento, bebendo de sua alma que se derramava sobre o público em doses provocantes através da voz.

Eu estava perplexa.

E desolada.

Eu podia querer matá-la — porque sabia que precisava fazer isso —, mas mesmo assim a amava intensamente, e, quando a única mulher que já amei me olhou nos olhos e não viu quem eu era, não soube mais o que fazer. Comigo mesma. Com tudo. Já era difícil ter passado os últimos seis anos sem ela, mas pelo menos eu tinha a esperança de que ela ainda estivesse por aí e que voltássemos a ficar juntas. Mas, depois disso, meu plano... já não havia mais plano.

Depois daquela noite, comecei a segui-la e a vigiá-la ainda mais de perto. Cheguei ao ponto de invadir seu apartamento, no terceiro andar do prédio, e instalar escutas.

Cóstia, vivendo como Clarke, era a pessoa mais normal do mundo. As conversas que tinha com o amigo do outro lado do corredor eram sobre trabalho, contas, aluguel e mulheres, e, nessas conversas, só o amigo tinha muito a dizer. Cóstia era solteira e, de acordo com o amigo, estava “sem alguem há tempo demais” e precisava “se soltar um pouco”. Os dois até transavam, o que, admito, me excitava quando os ouvia pelas escutas no quarto de Cóstia. Mas eram apenas pssoas liberando a tensão sexual de uma maneira mais acessível, e nenhum dos dois esperava mais do que isso. Fazer sexo com homens não era fora do normal para Cóstia, afinal. Ela fez isso muitas vezes, quando estávamos juntas, embora apenas com a minha presença. Mas mulheres... isso é outra história. Eu fora a única mulher com quem ela já estivera.

Mas aquela Costia não era a minha Costia. Não tinha nada em comum com ela, sem os cabelos pretos e a maquiagem escura e pesada, sequer se parecia com ela. Comecei a achar que talvez ela tivesse uma irmã gêmea da qual eu nunca soubera. Mas logo rejeitei a ideia, depois de pensar nela naquele palco, cantando aquela canção com as mesmas notas e a mesma emoção com que a cantava para mim .

Ela era Cóstia, no fim das contas, mas não era a mesma.

E eu estava determinada a descobrir o porquê.

Mais duas semanas se passaram, e eu estava indo para o apartamento dela de novo, em uma noite fria de dezembro, quando ouvi sirenes da polícia, de ambulâncias e de carros de bombeiros ecoando entre os velhos prédios da rua onde ela morava. Senti cheiro de fumaça. Apertei o passo, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco, e corri para o prédio, onde um brilho quente e laranja se refletia nos edifícios ao redor. Havia pessoas paradas nas calçadas, olhando e apontando, todas encolhidas em roupões, casacos e cachecóis. Fiquei no meio delas, olhando sem fazer barulho, horrorizada, para o apartamento de Cóstia, que ardia em labaredas subindo em direção ao céu noturno frio e escuro. O fogo começara no apartamento dela e se espalhara depressa pelo restante do prédio, enquanto os bombeiros trabalhavam sem trégua para apagá-lo. Eu me sentia morta por dentro, como se algo tivesse penetrado minha alma e morrido ali. Achava que ela estava morta. O apartamento estava envolto em chamas. Mas então, de canto de olho, atrás de todas as equipes de emergência que iam e vinham pela rua, eu a vi caída de lado na calçada fria, rodeada por dois paramédicos e uma pilha de móveis velhos e caixas, provavelmente deixados por alguém que se mudara do prédio.

Inspirei depressa, aliviada por ver que ela estava viva. E, por um momento, eu poderia jurar que, pouco antes de ser deitada em uma maca, ela me viu do outro lado da rua, mesmo com a escuridão e a multidão em volta. E eu poderia jurar que ela soube quem eu era, por um momento fugaz. Senti isso como uma predadora consegue sentir o medo na presa.

Meu coração deu um sobressalto e martelou ruidosamente sob minhas costelas.

Ela me viu e me reconheceu . O jogo havia recomeçado. Ao menos,era o que eu pensava. Uns trinta minutos depois, quando eu tinha resolvido mentalmente que iria atrás dela, os paramédicos ajudaram Cóstia a sair da ambulância. Eu ouvi sua voz fraca recusando a recomendação para acompanhá-los até o hospital para mais exames. Agitando as mãos à frente, ela disse que não e foi embora, seguindo na direção oposta do prédio em chamas e sumindo nas sombras escuras projetadas pelos outros edifícios.

Saindo da calçada, abri caminho entre os grupinhos de curiosos e a segui.

Quanto mais ela se afastava, mais tudo ficava em silêncio. As sirenes e as vozes começaram a sumir ao fundo. As luzes de emergência que volta e meia se refletiam nos prédios reduziram-se a vagos e distantes clarões. Aonde ela estava indo? Comecei a me perguntar se ela própria sabia.

Com o cobertor que o paramédico lhe jogara sobre os ombros, Cóstia avançou, mancando muito, indo cada vez mais para a periferia da cidade. Eu ficava a distância, abrigada pelas sombras, para que ela não me visse. Ela sabia que eu a estava seguindo? E, se sabia, aonde estava me levando?

Quinze minutos viraram trinta. Quarenta e cinco. Quase uma hora andando sem parar, subindo uma quadra e descendo outra, passando pelo trânsito e por lojas. Eu sabia que ela não fazia ideia de aonde ia, ou mesmo onde estava. E, se ela só queria mexer com a minha cabeça — o que sempre era uma possibilidade —, estava se saindo muito bem.

Eu a segui até um abrigo para moradores de rua, onde, em vez de entrar, ela se sentou diante do prédio no concreto duro e frio da calçada e enrolou mais o cobertor contra o corpo trêmulo e machucado.

Ela ergueu os olhos quando parei na frente dela.

— Olá — disse ela, com uma voz cautelosa.

Tentei encontrar em seus olhos o mesmo reconhecimento que pensara ter visto mais cedo, mas não havia nada neles.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei.

Ela se virou para mim de novo, com medo de que nossos olhares se cruzassem. Uniu os joelhos nus e juntou as mãos embaixo do cobertor. De seus lábios saía fumaça. Ela estava descalça.

— Só estou sentada aqui. — explicou, soando confusa.

Desconfiada e meio que esperando que ela cortasse meus tornozelos com um punhal escondido sob o cobertor e saísse correndo e rindo, dei um passo para trás e me agachei diante dela, encostando a barra do longo casaco preto na calçada.

Linhas pretas de fuligem manchavam suas bochechas vermelhas. Todo o lado direito do rosto estava riscado por arranhões, como se alguém tivesse pegado a cabeça dela e raspado no asfalto até sangrar. Ela tremia de frio e de medo de mim.

— P-por favor, me deixe em paz... — pediu, ainda me olhando, mas tentando não me encarar nos olhos.

— Sera... — Eu me impedi de continuar e, em vez disso, perguntei: — Qual é o seu nome?

Ela franziu a testa.

— Eu não conheço você. Por favor, me deixe em paz.

— Você não sabe seu nome? Se puder me dizer seu nome, eu deixo você em paz.

Ela não podia.

Grande parte de mim ainda não acreditava. Eu achei que ela estivesse sofrendo de amnésia, sim, mas ainda estava convencida de que, assim que se lembrasse de quem era, o jogo da vida toda recomeçaria e continuaria de onde eu e ela havíamos parado, seis anos antes.

E, dessa vez, eu não perderia. Depois de persuadi-la — e manipulá-la, tirando vantagem de sua óbvia vulnerabilidade —, eu a levei para casa comigo, e assim que a trouxe para Baltimore, ela se tornou minha prisioneira. Eu iria obrigá-la a se lembrar de quem era e a teria em meu poder assim que ela se lembrasse.

 Flashbak Off

— ... Só que, quando ela finalmente recuperou a memória, poucos dias atrás, eu não esperava que fosse a memória de uma garota que eu não conhecia.

Olho à frente, com as palavras perdidas nos lábios e a mente perdida em lembranças, como se os fatos tivessem acabado de acontecer de novo. Ouço a respiração suave de Izabela saindo das narinas, de tão perto que ela está sentada. Quase consigo ouvir seus pensamentos, cheios de ideias confusas e frases incompletas. Ela quer dizer alguma coisa, precisa dizer, mas não sabe bem o quê.

— Você não contou quem ela era? — pergunta Izabela, depois de uma longa pausa, virando-se para mim . — Se ela não se lembrava, você não contou o nome dela?

Balanço a cabeça, em um gesto breve.

— Quase contei algumas vezes, mas estava intrigada com o fato de ela não lembrar. Intrigada por sua personalidade estranha e delicada. A escuridão dentro de mim queria entender e estudar aquela garota. Nunca vi tanta fragilidade em uma mulher, e ver isso em alguém como Costia, logo nela, me deixava curiosa.

— E o que você fez? — pergunta Izabela, quase sem fôlego, como se quisesse arrancar as palavras dos meus lábios.

— Eu a torturei. — Faço uma pausa, sofrendo ao lembrar de minha atitude.— Durante todo o tempo em que a torturei, minha consciência me dizia que ela era inocente. Eu sofria por ela enquanto derramava seu sangue. Mas não parei. Ela ainda era Cóstia, afinal.

Flashback on

— Por que não me diz de uma vez quem você acha que eu sou? — gritou Clarke, da minha cadeira de interrogatório. Eu estava atrás dela, perto das ferramentas. — Por favor! Por favor! Eu não sei o que você quer de mim! — Soluços sacudiam seu corpo, coberto por nada mais do que calcinha e sutiã brancos.

— Não vai funcionar assim, meu amor. — disse a ela, dando a volta na cadeira com uma longa navalha na mão. Seus olhos saltaram das órbitas quando ela vislumbrou a lâmina prateada entre meus dedos. — Você vai me contar por conta própria quem realmente é. Quero ouvir você dizer, meu amor. Agora sou eu quem controla o jogo. — Fui até ela e olhei para seu rosto contorcido e encharcado de lágrimas. — E posso fazer isso por mais seis anos. — provoquei. — Até você lembrar. Até você me dizer seu nome.

— Meu nome é Clakre! Clarke Griffin! — gritou ela, tão alto que sua voz ficou rouca por um tempo. Ela lutou contra as correias de couro que a prendiam na cadeira pelos tornozelos, pulsos, tórax e testa.

Posicionei a lâmina entre os dedos e comecei a cortar suas pernas...

Flashback off

— Quando Clarke confessou seu nome, chocou a nós duas, embora eu tenha ignorado isso durante a tortura. Ela se lembrou bem rápido de coisas da antiga vida. Uns dias antes, quando a tirara da rua na frente do abrigo, ela não se lembrava de nada. Mas se lembrou do nome, embora não do nome que eu queria. E foi preciso criar um terror absoluto para trazê-lo à tona. Eu soube, então, que seria assim que eu conseguiria fazer Cóstia ressurgir e trazê-la de volta para mim. Usando medo. E dor. E, por fim ...

Paro e engulo em seco a culpa de minhas transgressões.

A mão de Izabela toca meu ombro.

— Por fim o quê, Lexa? —pergunta ela, em voz baixa. Por fim, sexo , é o que quero dizer, mas não consigo me obrigar a admitir isso em voz alta, porque sinto que me aproveitei dela, embora ela quisesse todas as vezes em que aconteceu. Me sinto culpada e envergonhada por abusar de uma garota tão frágil e inocente. Me sinto indigna de alguém como Clarke, porque ela é muito gentil, pura e piedosa. E, a cada vez que eu a penetrava, odiava a mim mesma mais e mais.

Ainda olhando para a frente, respondo, com a voz distante:

— Isso não importa.

Com relutância silenciosa, Izabela aceita minha recusa em contar.

Sua mão deixa meu ombro no mesmo momento em que a pequena família que vimos do lado de fora mais cedo entra na sala espaçosa. Izabela e eu tomamos nota da presença deles, assim como eles da nossa, escolhendo seguir na direção oposta.

— O que ela tem? — pergunta Izabela, me olhando nos olhos. — Ela parece muito... não sei, traumatizada. Meu Deus, Lexa, por mais ódio que eu sinta pelo que ela fez com você, não consigo deixar de ter pena dela.

— Eu não sei o que ela tem. — respondo, sentindo uma pontada de impotência. Baixo a cabeça, apoiando-a nas mãos. Depois de um momento, levanto de novo e bato nas pernas com as palmas das mãos. — Eu poderia enfrentar qualquer coisa. Eu estava preparada para matá-la, Izabela, mesmo amando-a do jeito que amo. Eu estava preparada. Porra, estava me preparando para isso desde que ela me deixou naquele gramado. Eu estava pronta para enfrentar qualquer coisa que ela fizesse comigo. Mas não isso. — Balanço a cabeça, com o olhar fixo em um ponto do chão entre meus sapatos. — Nunca imaginei nada assim .

— Por que decidiu me contar tudo isso?

— Porque não sei o que fazer. Eu tinha um plano, e ele mudou quando finalmente a encontrei. Aí bolei outro plano, que, como o anterior, tive que jogar fora e recomeçar do zero. — Dou um longo suspiro e endireito as costas. — É um problema do caralho, e acho que não vou encontrar no Google as respostas de que preciso para lidar com isso.

As vozes do casal e da criancinha ficam mais altas quando eles se aproximam lentamente.

Eu me levanto, vestindo o casaco. Izabela faz o mesmo.

— Lexa... — começa ela, sem erguer a voz —, você quer meus conselhos porque não sabe o que fazer ou está só procurando a confirmação de uma escolha que já fez?

Franzo um pouco o cenho, mas decido não responder. Porque não tenho certeza da resposta.

— Não posso ficar com alguém como ela. — digo, em vez disso. — Nós somos diferentes demais. Ela merece alguém melhor do que eu.

— O que isso significa? — indaga Izabela, com cautela, embora eu tenha a impressão de que ela entendeu alguma coisa a mais do que eu no que acabei de dizer.

Penso nisso por um momento, mas ela me ajuda, sugerindo:

— Você disse “alguém como ela”. Não disse Cóstia. Por que não disse Cóstia?

Entendo agora, e isso só deixa meu humor mais sombrio.

— Porque quando tudo isso acabar, existe uma chance de que ela não seja mais Cóstia.

Izabela me encara com um olhar benevolente.

— Então acho que, enquanto isso, você deveria amar quem está ali. — sugere, no momento em que a família se aproxima atrás de nós.

‘Amar? Isso foi uma acusação ou só uma observação?’

Izabela me encara com uma expressão terna e compreensiva, mas o momento é interrompido — por sorte — pela família, que agora está perto demais para que possamos continuar a conversa. Seguimos pelo caminho lado a lado, indo para a saída. Izabela me olha e acrescenta:

— Só por curiosidade, o que você planejava fazer quando encontrasse Cóstia?

— Tudo. — respondo, e deixo por isso mesmo.

Voltamos para o ar gelado de fora e vamos depressa para nossos carros, parados lado a lado no estacionamento.

— Não vou contar nada para Victor. — declara ela, parada ao lado da porta de seu carro, me olhando por cima do teto do meu. — Tecnicamente, você está de licença, então tudo isso é pessoal. Ele vai entender.

Faço que sim, tremendo dentro do casaco.

— Obrigado, gata.

— Mas quando Victor chamar você a campo de novo, se você ainda for considerada incapacitada por causa disso, vou ter que contar o motivo.

— Eu sei. — digo em voz baixa. — Por enquanto, vou investigar Clarke Griffin. — diz ela. — Se você não conseguiu encontrar nada sobre Cóstia Fox, talvez eu tenha mais sorte com o outro nome dela. — Faço que sim novamente. — Depois eu conto o que descobrir.

Ela abre a porta e começa a entrar, mas para e me olha mais uma vez. Uma espécie de dor indecifrável marca seu semblante.

— E se você precisar de mim para qualquer coisa... qualquer coisa , LExa, sabe que farei por você.

Não piscamos por vários momentos enquanto nos olhamos. O significado não declarado de sua oferta se descortina entre nós como um evento trágico e inevitável, doloroso demais para ser mencionado em voz alta.

***

Passo o resto do dia longe de casa. Tenho muito no que pensar, embora vá levar mais do que algumas horas para organizar minhas ideias.

Às seis da tarde, ainda não resolvi absolutamente nada. Às oito da noite, depois de dirigir sem rumo pelo tempo que pude, só estou mais intolerante com a situação toda. Não consigo nem pensar direito. Não consigo funcionar o suficiente para formar uma frase razoável, muito menos uma solução.

Porque não tem porra de solução nenhuma.

Eu sei que, não importa o que aconteça, só o que posso fazer é deixar acontecer, porque não posso impedir.

— Quer mais café? — Ouço uma voz suave perguntar.

Tirando os dedos do cabelo, levanto a cabeça, erguendo os olhos do celular sobre a mesa. A linda garçonete de cabelo escuro está ao meu lado com um sorriso, olhando para a caneca de café vazia.

‘Há quanto tempo estou aqui? Balanço a cabeça.’

— Não, mas obrigada.

Ela me deixa sozinha com meu sofrimento, e parte de mim gostaria que não deixasse. A velha Lexa flertaria por algum tempo, os olhos fazendo promessas que sei que a deixariam excitada, então esperaria o turno dela acabar. A velha Lexa a levaria para o hotel mais próximo e amarraria suas mãos às costas. Ela a comeria até ela ficar com lágrimas nos olhos, implorando para eu não parar. Mas a velha Lexa se foi, e, quanto mais penso nesse “problema”, mais sinto que estou começando a me tornar a LExa ainda mais velha. A pessoa que eu era antes de conhecer Cóstia, quando torturava e matava sem prudência porque não conseguia evitar. Por todos esses anos, me agarrei ao meu eu mais disciplinada, a mulher que Cóstia me ajudava a ser, porque tinha esperanças de encontrá-la e tê-la em minha vida de novo. Mas agora que sei que isso não é possível, me sinto voltando à vida de puro terror que levava desde criança, depois de escapar dos meus algozes.

Se eu me tornar essa pessoa de novo, ela vai me destruir.

Eu não vou ser útil para a nova Ordem de Victor Faustine.

Vou ter que deixar este lugar e a vida que construí, com as pessoas que aprendi a amar, e continuar no caminho solitário e autodestrutivo da Chacal.


Notas Finais


Então, a partir daqui serão os momentos finais, peço que leiam com bastante atenção.


Beijooos


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