História Beautiful Chaos - Capítulo 39


Escrita por: ~

Postado
Categorias Girls' Generation
Personagens Hyoyeon, Jessica, Seohyun, Sooyoung, Sunny, Taeyeon, Tiffany, Yoona, Yuri
Tags Taeny
Exibições 78
Palavras 5.701
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Fantasia, Ficção, Magia, Poesias, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


HEYYY ~ sry a demora, eu pretendia postar ontem mas por algum motivo desconhecido minha internet passou o dia inteiro sem funcionar.

sem mais delongas vão ler o cap, vejo vocês la embaixo <3

Capítulo 39 - A ligação


Nas semanas seguintes, convenci Tiffany a sair de casa comigo três vezes. Uma, para ir ao cinema com Yuri, quando nem a combinação favorita dela de pipoca e caramelos de chocolate a animou. Outra vez para ir à minha casa comer os biscoitos de melado de BoA e assistir a uma maratona de filmes de zumbis, minha versão do encontro perfeito. Não foi perfeito. E uma vez para uma caminhada ao longo do rio Santee, mas acabamos voltando depois de 10 minutos com sessenta picadas de insetos cada uma. Onde quer que ela estivesse, era nesse lugar que não queria estar.

Hoje foi diferente. Ela finalmente encontrara um lugar onde ficou à vontade, mesmo sendo o último que eu esperaria.

Entrei no quarto dela e a encontrei esparramada no teto, os braços estirados sobre o gesso, o cabelo espalhado como um ventilador preto ao redor da cabeça.

— Desde quando você consegue fazer isso?

Eu já estava acostumada aos poderes de Tiffany, mas desde seu décimo sexto aniversário eles pareciam estar ficando mais fortes e descontrolados, como se ela estivesse crescendo desajeitadamente e virando a Conjuradora que seria no futuro. A cada dia, a Tiffany Conjuradora estava mais imprevisível, desenvolvendo seus poderes para ver o que conseguia fazer. Como acabamos vendo, o que ela conseguia fazer nesses dias era causar todo tipo de confusão.

Como na vez em que Yuri e eu estávamos indo para a escola no Lata Velha e uma das músicas dela tocou no rádio como se a estação a estivesse tocando. Yuri ficou tão chocada que desviou o carro por reflexo e entrou uns 60 centímetros na cerca viva da Sra. Park.

— Foi um acidente — disse Tiffany com um sorriso torto. — Uma das músicas de Yuri estava na minha cabeça.

Ninguém jamais tinha ficado com uma música de Yuri na cabeça. Mas ela acreditou, o que deixou seu ego ainda mais insuportável.

— O que posso dizer? Causo esse tipo de coisa nas mulheres. Minha voz é macia como manteiga.

Uma semana depois disso, Yuri e eu estávamos andando pelo corredor e Tiffany apareceu e me deu um abraço, bem na hora em que o sinal tocou. Achei que ela finalmente tinha decidido voltar para a escola. Mas Tiffany não estava na verdade. Era algum tipo de projeção, ou sei lá que palavra os Conjuradores usam para fazer a namorada parecer uma idiota. Yuri pensou que eu tivesse tentando abraçá-la, então me chamou de ―namorada durante dias.

―Senti saudades. É crime? Tiffany dissera, achando engraçado, mas eu estava começando a desejar que a vovó interviesse e a colocasse de castigo, e fizesse o que se faz com uma Natural que andava aprontando.

Não seja reclamona. Pedi desculpas, não pedi?

Você é uma ameaça tão grande quanto Yuri no quinto ano, quando sugou todo o suco dos tomates da minha mãe com um canudo.

Não vai acontecer de novo. Juro.

Foi o que Yuri disse naquela época.

Mas ela parou, não foi?

Sim. Quando paramos de plantar tomates.

— Desça.

— Gosto mais daqui de cima.

Peguei a mão dela. Uma corrente elétrica percorreu meu braço, mas não soltei. Puxei-a para baixo, em direção à cama e ao meu lado.

—Ai!

Ela estava rindo. Eu podia ver o ombro dela mexer embora estivesse de costas para mim. Ou talvez ela não estivesse rindo, e sim chorando, o que era raro atualmente. O choro tinha quase parado e sido substituído por uma coisa pior. Nada.

O nada era enganoso. Era mais difícil descrever, consertar ou impedir o nada.

Quer conversar, Fany?

Sobre o quê?

Puxei-a mais para perto e apoiei minha cabeça na dela. O tremor diminuiu, e a apertei com tanta força quanto podia. Como se ela ainda estivesse no teto e eu é que estivesse pendurado.

Nada.

 

 

Eu não devia ter reclamado do teto. Havia lugares mais loucos onde se podia ficar. Como onde estávamos agora.

— Tenho uma sensação ruim em relação à isso.

Eu suava, mas não conseguia limpar o rosto. Precisava que minhas mãos ficassem onde estavam.

— Que estranho. — Tiffany sorriu para mim. — Porque tenho uma sensação boa em relação a isso. — Os cabelos dela se mexiam com a brisa, embora eu não tivesse certeza de que tipo de brisa. — Além do mais, estamos quase lá.

— Você sabe que isso é loucura, certo? Se algum policial passar por aqui, vamos ser presas ou enviadas para o Blue Horizons para visitar meu pai.

— Não é loucura. É romântico. Casais vêm aqui o tempo todo.

— Quando as pessoas vão para a torre de água, Fany, elas não estão se referindo ao topo da torre de água. — Que era onde estaríamos em um minuto. Só nós duas, uma escada instável de ferro de uns 30 metros e o céu azul da Carolina.

Tentei não olhar para baixo.

Tiffany tinha me convencido a subir até o topo. Havia algo na empolgação da voz dela que me fez concordar, como se uma coisa tão idiota pudesse fazê-la se sentir como da última vez em que estivemos ali. Sorrindo, feliz, suéter vermelho. Eu me lembrava porque havia um pedaço de linha vermelha pendurada no cordão dela.

Ela também devia se lembrar. Então ali estávamos nós, em uma escada, olhando para cima para não olharmos para baixo.

Quando chegamos ao topo e observei a vista, entendi. Tiffany estava certa.

Era melhor ali em cima. Tudo ficava tão longe que nada importava.

Fiquei com as pernas penduradas na beirada.

— Minha mãe colecionava fotos de antigas torres de água.

—Ah,é?

— Assim como as Irmãs colecionam colheres. Só que, pra minha mãe, eram torres de água e cartões postais de Exposições Mundiais.

— Eu achava que todas as torres de água eram como essa. Como uma grande aranha branca.

— Em algum lugar no Illinois, tem uma com o formato de uma garrafa de ketchup.

Ela riu.

—E tem uma que parece uma casinha, a essa altura do chão.

— Devíamos morar lá. Eu subiria e jamais voltaria a descer. — Ela se recostou na parede branca e quente. — Acho que a de Gatlin devia ter formato de pêssego, um grande pêssego de Gatlin.

Recostei-me ao lado dela.

— Já tem uma assim, mas não é em Gatlin. Fica em Gaffney. Pelo visto, eles tiveram a ideia primeiro.

— Que tal uma torta? Podíamos pintar esse tanque para parecer uma das tortas de BoA. Ela ia gostar.

— Nunca vi uma assim. Mas minha mãe tinha a foto de uma com formato de espiga de milho.

— Ainda prefiro a casinha. Tiffany olhou para o céu, onde não havia uma nuvem.

— Eu iria querer a espiga de milho e o ketchup, se você estivesse lá.

Ela pegou minha mão e ficamos assim, na beirada da torre branca de água de Summerville, olhando para o condado de Gatlin como se fosse uma terra de brinquedo cheia de pequenas pessoas de brinquedo. Tão pequena quanto a cidade de papelão que minha mãe montava debaixo da árvore de Natal.

Como pessoas tão pequenas podem ter problemas?

— Ei, trouxe uma coisa pra você. — Observei enquanto ela se sentava ereta, olhando para mim como uma criança.

— O que é?

Olhei pela beirada da torre de água.

— Talvez devêssemos esperar até que não pudéssemos morrer por causa da queda.

— Não vamos morrer. Não seja tão covarde.

Coloquei a mão no meu bolso de trás. Não era nada de mais, mas já estava comigo havia algum tempo, e eu tinha esperança de que pudesse ajudá-la a se reencontrar.

Peguei uma minicaneta permanente presa a uma argola.

— Está vendo? Ela pode ficar no seu cordão, assim.

Tentando não cair, estendi a mão até o cordão de Tiffany, o que ela nunca tirava. Tinha um monte de pingentes, e cada um significava uma coisa para ela. A moeda achatada da máquina do Cineplex, onde foi nosso primeiro encontro. Uma lua de prata que Siwon deu a ela na noite do baile de inverno. O botão do colete que ela estava usando na noite da chuva. Eram as lembranças de Tiffany, e ela as carregava consigo como se fosse perdê-las e ficar sem prova alguma de que aqueles poucos momentos perfeitos de felicidade aconteceram.

Prendi a caneta na corrente.

— Agora você pode escrever onde quer que esteja.

— Até mesmo em tetos? — Ela olhou para mim e sorriu, de um jeito um pouco torto, um pouco triste.

— Até mesmo em torres de água.

— Adorei.

Ela falou baixinho e tirou a tampa da caneta.

Antes que eu percebesse, ela estava desenhando um coração. Preto na tinta branca, um coração escondido no topo da torre de água de Summerville.

Fiquei feliz por um segundo. Então tive a sensação de que estava caindo até o chão. Ela não estava pensando em nós. Estava pensando no próximo aniversário dela, na Décima Sétima Lua. Já estava fazendo a contagem regressiva.

No meio do coração, ela não escreveu nossos nomes.

Escreveu um número.

***

 

Não perguntei a ela sobre o que tinha escrito na torre de água, mas também não esqueci o assunto. Como eu poderia, quando tudo o que tínhamos feito no ano anterior foi uma contagem regressiva para o inevitável? Quando finalmente perguntei por que Tiffany tinha escrito aquilo ou para que era aquela contagem regressiva, ela não quis dizer. E tive a sensação de que ela não sabia.

Isso era pior do que saber.

Duas semanas tinham se passado e, pelo que eu podia perceber, Tiffany ainda não tinha escrito nada no caderno. Usava a minicaneta presa ao cordão, mas parecia tão nova quanto no dia em que a comprei no mercado. Era estranho não ver a caligrafia dela, suas mãos ou o All Star surrado, que ela não usava muito ultimamente. Tinha começado a usar botas pretas no lugar dos tênis. O cabelo também estava diferente. Quase sempre preso para trás, como se achasse que podia arrancar a mágica que havia nele.

Estávamos sentadas no degrau mais alto da minha varanda, no mesmo lugar onde estávamos quando Tiffany me contou que era uma Conjuradora, um segredo que nunca tinha contado a uma Mortal. Eu estava fingindo ler O médico e o monstro. Tiffany olhava as páginas em branco do caderno como se as linhas azuis e finas guardassem a resposta para todos os problemas.

Quando eu não a estava observando, contemplava minha rua. Meu pai ia voltar para casa hoje. BoA e eu tínhamos ido visitá-lo no Dia da Família todas as semanas desde que minha tia o levara para o Blue Horizons. Embora ele não tivesse voltado a ser quem sempre tinha sido, eu tinha de admitir que ele estava agindo quase como uma pessoa normal de novo. Mas ainda estava nervoso.

— Chegaram.

A porta de tela bateu atrás de mim. BoA estava de pé na varanda quando um avental com bolsos, do tipo que ela preferia no lugar do tradicional, principalmente em dias como aquele. Segurava o amuleto de ouro pendurado no seu pescoço, esfregando-o entre os dedos.

Olhei para o começo da rua, mas a única coisa que vi foi Billy Watson andando de bicicleta. Tiffany tinha se inclinado para a frente para ver melhor.

Não vejo carro algum.

Eu também não via, mas sabia que veria em uns cinco segundos. BoA era orgulhosa, principalmente quando se tratava das suas habilidades como vidente. Ela não diria que tinham chegado a não ser que soubesse que estavam chegando.

Logo aparecerá.

E, de fato, o Cadillac branco da minha tia virou à direita na Cotton Bend. Tia Sojin estava com a janela aberta, o que ela gostava de chamar ar-condicionado 360, e eu podia vê-la acenando desde a quadra anterior. Fiquei de pé e BoA passou por mim.

— Venha. Seu pai merece uma recepção apropriada.

Isso era um código que significava Vá para a calçada, Kim Taeyeon.

Respirei fundo.

Você está bem?

Os olhos castanho-claros de Tiffany brilharam ao sol.

Estou.

Menti. Ela deve ter percebido, mas não disse nada. Peguei a mão dela. Estava fria, como sempre andava ultimamente, e a corrente de eletricidade pareceu mais uma pontada de congelamento.

— Kim Jiwoong. Não me diga que comeu torta de alguma outra pessoa além da minha. Porque parece que você caiu em um pote de biscoitos e não conseguiu sair.

Meu pai lançou-lhe um olhar sagaz. BoA vivia a muito tempo com ele, e ele sabia que a provocação dela era carregada de tanto amor quanto um abraço.

Fiquei ali parada enquanto BoA o tratava como se ele tivesse 10 anos. Ela e minha tia estavam conversando como se os três tivessem acabado de chegar do mercado. Meu pai sorriu para mim sem entusiasmo. Era o mesmo sorriso que me dava quando visitávamos o Blue Horizons. Dizia: Não estou mais louco, só envergonhado. Vestia a velha camiseta da Duke e uma calça jeans, e de alguma forma parecia mais novo do que eu me lembrava. Exceto pelas linhas ao redor dos olhos, que se destacaram quando ele me puxou para um abraço desajeitado.

— Como você está?

Minha voz ficou presa na garganta por um segundo, e eu tossi.

— Bem.

Ele olhou para Tiffany.

— É bom ver você de novo, Tiffany. Lamento sobre seu tio.

Aquilo era o sinal da rigorosa educação sulista. Ele precisava se manifestar sobre a morte de Siwon, mesmo em um momento constrangedor como aquele.

Tiffany tentou sorrir, mas só conseguiu parecer tão pouco à vontade quanto eu.

— Obrigada, senhor.

— Taeyeon, venha até aqui e dê um abraço em sua tia favorita.

Tia Sojin estendeu as mãos. Eu queria jogar os braços ao redor dela e deixar que espremesse o nó que havia no meu peito até ele sumir.

— Vamos entrar. — BoA acenou para meu pai do alto da varanda. — Fiz frango frito e um bolo de Coca-Cola. Se não entrarmos logo, o frango vai dar um jeito de ir embora para casa.

Tia Sojin passou o braço pelo de meu pai e o guiou escada acima. Ela tinha o mesmo cabelo castanho e corpo magro da minha mãe, e por um segundo pareceu que meus pais estavam em casa de novo, passando pela antiga porta de tela da propriedade Kim.

— Preciso voltar para casa.

Tiffany estava segurando o caderno contra o peito como um escudo.

— Você não precisa ir. Entre.

Por favor.

Eu não falava aquilo por educação. Não queria entrar lá sozinha. Alguns meses antes, Tiffany teria percebido. Mas acho que naquele momento a mente dela estava em outro lugar, porque ela não percebeu.

— Você precisa passar um tempo com sua família.

Ela ficou mais perto e me beijou, os lábios mal tocando a minha bochecha. Estava quase no carro antes mesmo que eu pudesse contestar.

Observei o Fastback de Hyoyeon desaparecer pela minha rua. Tiffany não dirigia mais o rabecão. Pelo que eu sabia, ela não tinha nem olhado para ele desde que Siwon morrera. Sooyoung o tinha estacionado atrás do velho celeiro e depois jogado uma lona sobre ele. Agora ela dirigia o carro de Hyoyeon, todo preto e cromado. Yuri tinha quase babado na primeira vez em que o viu: ―Sabe quantas garotas eu conseguiria com esse carro?

Depois que a prima traíra a família toda, eu não entendia por que Tiffany iria querer dirigir o carro dela. Quando perguntei, ela deu de ombros e disse: ―Ela não vai mais precisar dele. Talvez Tiffany achasse que estivesse punindo Hyoyeon ao dirigir o carro dela. Ela tinha contribuído para a morte de Siwon, algo que ela jamais perdoaria. Observei o carro dobrar a esquina, desejando poder desaparecer junto com ele.

Quando cheguei à cozinha, havia café no fogo. Havia também problemas. BoA estava ao telefone, andando de um lado para o outro em frente à pia, e a cada minuto ou dois cobria o fone com a mão e relatava a conversa para Tia Sojin.

— Não a veem desde ontem. — BoA colocou o telefone de volta no ouvido. — Faça um chá com conhaque para tia Victoria e a coloque na cama até que a encontremos.

— Encontrar quem?

Olhei para meu pai, que deu de ombros.

Tia Sojin me levou até a pia e sussurrou do jeito que as damas sulistas fazem quando alguma coisa é horrível demais para ser dita em voz alta.

— Lucille Ball. Sumiu.

Lucille Ball era a gata siamesa de tia Victoria, e passava a major parte do tempo correndo pelo jardim das minhas tias-avós presa com uma coleira a um varal, uma atividade à qual as Irmãs se referiam como exercício.

— Como assim?

BoA cobriu o fone com a mão de novo, apertando os olhos e firmando o queixo. O Olhar.

— Parece que alguém colocou na cabeça da sua tia a ideia de que gatos não precisam ficar presos, porque sempre voltam pra casa. Você não sabe nada sobre isso, sabe? — Não era uma pergunta. Ambos sabíamos que era eu quem dizia isso havia anos.

— Mas gatos não devem ficar na coleira tentei me defender, mas era tarde demais.

BoA me olhou com raiva e se virou para Tia Sojin.

— Parece que tia Victoria está esperando, sentada na varanda, olhando para a coleira pendurada no varal. — Ela tirou a mão do fone. — Você precisa levá-la para dentro de casa e colocar os pés dela para cima. Se ela ficar tonta, ferva alguns dentes-de-leão.

Saí de fininho da cozinha antes que BoA estreitasse ainda mais os olhos. Ótimo. O gato da minha tia de 100 anos tinha sumido e era minha culpa. Eu teria que ligar para Yuri para ver se ela podia dirigir pela cidade comigo para procurar Lucille. Talvez as fitas demo de Yuri a espantassem de onde estivesse escondida.

— Taeyeon? — Meu pai estava de pé no corredor, bem em frente à porta da cozinha. — Posso falar com você um segundo?

Eu andava com medo disso, de quando ele pediria desculpas por tudo e tentaria explicar por que tinha me ignorado por quase um ano.

— Tá, tudo bem. — Mas eu não sabia se queria ouvir. Não estava mais com raiva. Quando quase perdi Tiffany, houve uma parte de mim que entendeu por que meu pai tinha ficado completamente atormentado. Eu não conseguia imaginar minha vida sem Tiffany, e meu pai tinha amado minha mãe por mais de 18 anos.

Eu sentia pena dele agora, mas ainda doía.

Meu pai passou a mão pelo cabelo e chegou mais perto de mim.

— Eu queria dizer o quanto lamento — ele fez uma pausa, olhando para próprios pés. — Não sei o que aconteceu. Um dia eu estava lá escrevendo no seguinte, só conseguia pensar na sua mãe: me sentar na cadeira dela, irar os livros dela, imaginá-la lendo por trás dos meus ombros. — Ele ou para as mãos, como se estivesse falando com elas em vez de comigo. Talvez fosse um truque que ensinavam no Blue Horizons. — Era o único lugar onde eu me sentia próximo a ela. Eu não conseguia esquecê-la.

Ele olhou para o velho teto de gesso e uma lágrima escapou do canto dos seus olhos, descendo lentamente pela lateral do rosto. Meu pai tinha perdido o amor da vida dele, e tinha se desfeito como um suéter velho. Eu tinha testemunhado aquilo, mas não fiz nada para ajudar. Talvez ele não fosse o único culpado. Eu sabia que devia sorrir agora, mas não tinha vontade.

— Entendo, pai. Queria que você tivesse dito alguma coisa. Eu também sentia falta dela. Sabia?

A voz dele estava baixa quando finalmente respondeu:

— Eu não sabia o que dizer.

— Tudo bem. — Eu não sabia se realmente sentia isso, mas pude ver o alivio se espalhar pelo seu rosto. Ele estendeu os braços e me abraçou, apertando minhas costas com os punhos por um segundo.

— Estou aqui agora. Quer conversar?

— Sobre o quê?

— Coisas que você precisa saber quando tem uma namorada.

Não havia nada sobre o que eu menos quisesse conversar.

— Pai, nós não precisamos...

— Tenho muita experiência, sabe. Sua mãe me ensinou algumas ao longo dos anos.

Comecei a planejar minha rota de fuga.

— Se algum dia quiser conversar sobre, você sabe...

Eu podia me jogar pela janela do escritório e me espremer entre a cerca e a casa.

— Sentimentos.

Quase ri na cara dele.

—O quê?

—BoA diz que Tiffany está tendo dificuldades com a morte do tio. Não está agindo normalmente.

Deitada no teto. Recusando-se a ir à escola. Não se abrindo comigo. Escalando torres de água.

— Não, ela está bem.

— Por mais que eu amasse sua mãe, na metade do tempo eu não fazia ideia do que se passava na cabeça dela. Os relacionamentos são complicados. Você sabe que pode me perguntar qualquer coisa.

O que eu podia perguntar? O que se faz quando o coração quase para de bater cada vez que vocês se beijam? Se há vezes em que você deve ou não ler as mentes uma da outra? Quais são os primeiros sinais de que sua namorada está sendo Invocada para sempre pelo bem ou pelo mal?

Ele apertou meu ombro uma última vez. Eu ainda estava tentando formular uma frase quando me soltou. Ele olhava pelo corredor, na direção do escritório.

O quadro emoldurado de Kim Taeyang estava pendurado no corredor. Eu ainda não estava acostumado à ideia de vê-lo, embora tivesse sido eu a pendurá-lo no dia seguinte ao enterro de Siwon. Ele tinha ficado escondido debaixo de um lençol durante minha vida inteira, e isso parecia errado. Kim Taeyang tinha abandonado uma guerra na qual ele não acreditava e morrera tentando proteger a Conjuradora que amava.

Então arrumei um prego e pendurei o quadro. Pareceu a coisa certa a fazer. Depois disso, entrei no escritório do meu pai e juntei as folhas de papel espalhadas pelo aposento. Olhei para os rabiscos e círculos uma última vez, a prova do quão fundo o amor pode ir e de quanto tempo uma perda pode durar. Depois limpei o escritório e joguei as folhas no lixo. Isso também pareceu a coisa certa a se fazer.

Meu pai andou até o quadro, fiquei observando-o como se o estivesse vendo pela primeira vez.

— Não vejo esse cara há muito tempo.

Senti-me aliviada por termos mudado para um assunto novo que as palavras saíram meio atropeladas.

— Eu o pendurei. Espero que não tenha problema. Mas pareceu que devia ficar aqui, em vez de embaixo de um lençol velho.

Por um minuto, meu pai olhou para o quadro do rapaz de uniforme Confederado, que não parecia muito mais velho do que eu.

— Esse quadro sempre ficou debaixo de um lençol quando eu era criança. Meus avós nunca falavam muito sobre ele, mas não iam pendurar o quadro de um desertor na parede. Depois que herdei esta casa, encontrei-o coberto no porão e o trouxe para o escritório.

— Por que não o pendurou? — Nunca imaginei que meu pai tivesse olhado para o mesmo quadro escondido quando era criança.

— Não sei. Sua mãe queria que eu o pendurasse. Ela amava essa história: o modo como ele fugiu da guerra, embora isso tenha acabado custando sua vida. Eu queria pendurá-lo. Mas estava muito acostumado a vê-lo coberto. Antes que o fizesse, sua mãe morreu. — Ele passou a mão pela parte de baixo da moldura entalhada. — Sabe, seu nome é em homenagem a ele.

— Eu sei.

Meu pai me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez também.

—Ela era louca por esse quadro. Fico feliz por você tê-lo pendurado. Aqui é o lugar dele.

Não escapei do frango frito e nem da expiação de culpa de BoA. Então, depois do jantar, dirigi pelas redondezas da casa das Irmãs com Yuri, procurando por Lucille. Yuri chamava o nome dela entre mordidas em uma coxa de frango enrolada num papel toalha cheio de gordura.

— Você devia ter trazido mais frango frito. Gatos adoram frango. Eles comem pássaros na natureza. — Yuri estava dirigindo mais devagar do que o habitual para que eu pudesse procurar por Lucille enquanto ela batucava no volante do carro ao som de ―Love Biscuit, a nova e péssima música da banda dela.

— E aí? Você ia ficar dirigindo enquanto eu me pendurava pela janela com uma coxa de frango na mão? — Yuri era tão transparente. Você só quer mais frango.

— Verdade. E bolo de Coca-Cola. — Ela esticou o osso da coxa para fora da janela. — Aqui, gatinha, gatinha...

Observei a calçada, procurando um gato siamês, mas outra coisa me chamou a atenção: uma lua crescente. Estava na placa de um carro, entre um adesivo da Stars and Bars, a bandeira Confederada, e um do Bubba‘s Truck and Trailer. Igual às outras placas da Carolina do Sul com o símbolo estadual que eu tinha visto milhares de vezes, mas nunca havia pensado no assunto. Uma palmeira azul e uma lua crescente, talvez uma lua Conjuradora. Os Conjuradores realmente estavam ali havia muito tempo.

— O gato é mais burro do que pensei, se não conhece o frango frito da BoA.

— Gata. Lucille Ball é fêmea.

—É um gato.

Yuri fez uma curva e dobramos a esquina para a Main. Boo Radley estava sentado no meio-fio, observando o Lata-Velha passar. Seu rabo balançou, uma batida solitária de reconhecimento, enquanto desaparecíamos na rua. O cachorro mais solitário da cidade.

Ao ver Boo, Yuri limpou a garganta.

— Falando de garotas, como estão as coisas com Tiffany?

Ela não a via muito, apesar de mais do que a maioria das pessoas. Tiffany passava a maior parte do tempo na fazenda, sob os olhares atentos de vovó e das primas, ou se escondia dos olhares atentos delas, dependendo do dia.

— Estão melhorando. — Não era exatamente uma mentira.

— Estão? Ela parece meio diferente. Mesmo se tratando de Tiffany. — Yuri era uma das poucas pessoas da cidade que sabia do segredo dela.

— Seu tio morreu. Esse tipo de coisa mexe com a gente.

Yuri devia saber melhor do que ninguém. Ela tinha me visto tentando entender a morte da minha mãe e, depois, o mundo sem ela nele. Sabia que era impossível.

— É, mas ela quase não fala e vive usando as roupas dele. Você não acha o meio estranho?

— Ela está bem.

— Se você diz.

— Continue dirigindo. Precisamos encontrar Lucille. — Olhei pela janela para a rua vazia. — Gata burra.

Yuri deu de ombros e aumentou o volume, A banda dela, os Holy Rolers, vibrou pelos alto-falantes. ―A garota foi embora. Levar um fora era o lema de todas as músicas que Yuri escrevia. Era o jeito dela de encarar as coisas. Eu ainda não tinha descoberto o meu.

Nunca encontramos Lucille, e jamais tirei da cabeça a conversa com Yuri e a que tive com meu pai. Minha casa estava em silêncio, o que é algo que não queremos quando estamos tentando fugir dos próprios pensamentos.

A janela do meu quarto estava aberta, mas o ar estava tão quente e parado quanto tudo naquele dia.

Yuri estava certa. Tiffany estava agindo de modo estanho. Mas só tinham se passado alguns meses. Ela sairia dessa e as coisas voltariam a ser como antes.

Mexi nas pilhas de livros e papéis sobre minha escrivaninha, procurando O guia do mochileiro das galáxias, meu eterno livro para tirar alguma coisa da cabeça. Debaixo de uma pilha de quadrinhos de Sandman, encontrei outra coisa. Era um pacote, enrolado no papel pardo típico de Sunny e amarrado com um barbante. Mas não havia BIBLIOTECA DO CONDADO DE GATLIN carimbado nele.

Sunny era a amiga mais antiga de minha mãe e a bibliotecária-chefe do Condado de Gatlin. Era também a Guardiã no mundo Conjurador — uma Mortal que protegia os segredos e a história dos Conjuradores e, no caso de Sunny, a Lunae Libri, uma Biblioteca Conjuradora cheia de segredos dos próprios. Ela tinha me dado esse pacote depois que Siwon morreu, mas eu o esqueci completamente. Era o diário dele, e ela achou que Tiffany fosse querer ficar com ele. Sunny estava enganada. Tiffany não queria vê-lo ou tocá-lo. Nem deixou que fosse levado para a fazenda. ―Fique você com ele, tinha dito ela. ―Acho que não conseguiria suportar ver a letra de Siwon.

Estava juntando poeira na minha escrivaninha desde então.

Virei-o nas minhas mãos. Era pesado, quase pesado demais para ser um livro. Fiquei curiosa sobre como ele era. Provavelmente velho, com uma capa de couro rachado. Desamarrei o barbante e o desembrulhei. Eu não ia lê-lo, só olhar para ele. Porém, quando afastei o papel pardo, percebi que não era um livro. Era uma caixa preta de madeira com entalhes complexos formando estranhos símbolos Conjuradores.

Passei a mão pela tampa, me perguntando sobre o que ele escrevia. Não conseguia imaginá-lo escrevendo poesia, como Tiffany. Provavelmente estava cheio de notas sobre horticultura. Abri a tampa com cuidado. Queria ver algo em que Siwon tivesse tocado todos os dias, algo que era importante para ele. O forro era de cetim preto e as páginas em seu interior estavam soltas e amareladas, escritas com a caligrafia apagada e rebuscada de Siwon. Toquei numa página, com um único dedo. O céu começou a girar e me senti caindo para a frente. Vi o chão chegando mais perto, mas quando cheguei ao chão, caí através dele e me vi em uma nuvem de fumaça...

Havia incêndios ao longo do rio, os únicos traços das plantações que existiam lá apenas horas antes. Greenbrier já estava tomada pelas chamas. A Fazenda Choi seria a próxima. Os soldados da União deviam estar fazendo uma pausa, embriagados com a vitória e a bebida que tinham roubado das casas mais abastadas de Gatlin.

DongWook não tinha muito tempo. Os soldados estavam chegando, e ele teria de matá-los. Era o único meio de salvar A Fazenda. Os Mortais não tinham chance alguma contra ele, mesmo sendo soldados. Não eram páreo para um Incubus. E se o irmão dele, JiHoon, voltasse dos túneis, os soldados teriam dois deles para enfrentar. As armas eram a única preocupação de DongWook. Embora as armas Mortais não pudessem matar a espécie dele, as balas o enfraqueceriam, o que poderia dar soldados o tempo de que precisavam para incendiar A Fazenda.

DongWook precisava se alimentar, e apesar da fumaça, conseguia sentir o desespero e o medo de um Mortal ali perto. O medo o deixaria forte. Fornecia mais poder e sustento do que lembranças ou sonhos.

DongWook viajou em direção ao cheiro. Mas, quando se materializou no bosque atrás de Greenbrier, soube que era tarde demais. O cheiro estava fraco. Ao longe, ele podia ver Yejin Hwang curvada sobre um corpo na lama. Ivy, a cozinheira de Greenbrier, estava parada atrás de Genevieve, segurando alguma coisa contra o peito.

A velha viu DongWook e foi correndo na direção dele.

— Sr. Choi, graças a Deus. — Ela baixou a voz. — O senhor precisa pegar isto. Coloque-o em algum lugar seguro até que eu possa buscá-lo. — Tirando um pesado livro preto das dobras do avental, o colocou nas mãos de DongWook. Assim que ele tocou no objeto, DongWook pôde sentir seu poder.

O livro estava vivo, pulsando contra suas mãos como se tivesse batimentos cardíacos. Ele quase podia ouvi-lo sussurrando, pedindo que o pegasse — que o abrisse e libertasse o que estava escondido lá dentro. Não havia palavras na capa, só uma única lua crescente. DongWook passou os dedos pelas beiradas.

Ivy continuou falando, considerando o silêncio de DongWook uma hesitação.

— Por favor, Sr. Choi. Não tenho mais ninguém a quem entregá-lo. E não posso deixá-lo com a Srta. YeJin. Não agora.

YeJin ergueu a cabeça como se pudesse ouvi-los em meio à chuva e ao rugir das chamas.

No momento em que YeJin se virou na direção deles, DongWook entendeu. Ele podia ver os olhos amarelos dela brilhando na escuridão. Os olhos de uma Conjuradora das Trevas. Naquele momento, ele também entendeu o que estava segurando.

O Livro das Luas.

Ele já tinha visto o Livro antes, nos sonhos da mãe de YeJin. Era um livro de infinito poder, um livro que a Sra. Hwang igualmente temia e reverenciava. Que ela escondia do marido e das filhas, e que jamais teria permitido cair nas mãos de uma Conjuradora das Trevas ou de um Incubus. Um livro que podia salvar a Fazenda Choi.

Ivy tirou alguma coisa das dobras da saia e esfregou na capa do Livro. Cristais brancos rolaram pelas beiradas. Sal. A arma de mulheres supersticiosas, que traziam seu próprio tipo de poder das Ilhas do Açúcar*, onde seus ancestrais tinham nascido. Elas acreditavam que o sal afastava os Demônios, uma crença que DongWook sempre achara divertida.

— Vou buscá-lo assim que puder. Juro.

— Vou guardá-lo em segurança. Você tem minha palavra.

DongWook tirou um pouco do sal da capa do Livro para que conseguisse sentir seu calor contra a pele. Ele se virou em direção ao bosque. Andaria alguns metros, por causa de Ivy. As mulheres como ela sempre se assustavam ao vê-lo viajar, por serem lembradas do que ele era.

— Guarde-o, Sr. Choi. Faça o que fizer, mas não o abra. Esse livro não traz nada além de infelicidade para quem o manuseia. Não escute quando ele o chamar. Vou buscá-lo.

Mas o aviso de Ivy foi dado tarde demais.

DongWook já estava escutando.

Quando voltei a mim, estava deitada de costas no chão do meu quarto, olhando para o teto. Ele era pintado de azul, assim como o da casa, para enganar as abelhas carpinteiras que faziam ninhos ali.

Sentei, ainda tonta. A caixa estava ao meu lado, a tampa fechada. Abri-a, e as páginas estavam lá dentro. Desta vez, não toquei nelas.

Nada daquilo fazia sentido. Por que eu estava tendo visões de novo? Por que via Choi DongWook, um homem do qual o povo da cidade desconfiava havia gerações pelo fato de a Fazenda Choi ter sido a única fazenda a sobreviver ao Grande Incêndio? Não que eu acreditasse muito no que o da cidade dizia.

Mas, quando o medalhão de YeJin provocou as visões, houve um motivo. Uma coisa que Tiffany e eu precisávamos descobrir. O que Choi DongWook tinha a ver conosco? O ponto em comum era O Livro das Luas. Estava nas visões do medalhão e nessa. Mas o Livro estava desaparecido. A vez que alguém o vira fora na noite do aniversário de Tiffany, quando em cima da mesa da cripta, cercado pelo fogo. Como tantas coisas, era nada além de cinzas agora.

* As Antilhas receberam por muito tempo o apelido de Ilhas do Açúcar, por causa do cultivo da cana-de-açúcar. 


Notas Finais


Espero que vocês tenham gostado e o próximo cap vai vim essa semana ainda pra compensar minha demora <3 (se bobear amanha talvez ~), o que vocês tão achando que ta acontecendo com a Fany ?? Estão gostando?
E ah queria saber se vocês conhecem alguma loja que venda albums de kpop, to querendo comprar uns mais não sei em que loja comprar.
PS: Se alguém aqui é fã de 2NE1 lamento muito pelo o que aconteceu ;-; eu curtia mt o grupo apesar de n fazer parte do fandom, fiquei bastante triste pela noticia.
Vejo vocês em breve e prometo mts emoções nos proximos caps <3 ~ xero


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