História Beautiful Chaos - Capítulo 40


Escrita por: ~

Postado
Categorias Girls' Generation
Personagens Hyoyeon, Jessica, Seohyun, Sooyoung, Sunny, Taeyeon, Tiffany, Yoona, Yuri
Tags Taeny
Exibições 63
Palavras 9.679
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Fantasia, Ficção, Magia, Poesias, Romance e Novela, Yuri
Avisos: Homossexualidade
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Hey guys, voltei mais cedo e com um capitulo gigantesco e espero que gostem <3

Capítulo 40 - A Garota dos meus sonhos


Quando fui à escola no dia seguinte, me sentei sozinha com Yuri e seus quatro sanduíches de carne moída à mesa do almoço. Enquanto comia minha pizza, só conseguia pensar no que ela havia dito sobre Tiffany. Estava certa. Ela havia mudado, um pouco de cada vez, até que eu quase não conseguisse lembrar como as coisas eram. Se eu tivesse alguém com quem conversar, sabia que essa pessoa me diria para dar tempo a ela. Também sabia que isso era só uma coisa que as pessoas diziam quando não tinha nada a ser dito ou algo que se pudesse fazer.

Tiffany não estava seguindo em frente. Não estava voltando a ser ela mesma, nem voltando para mim. Na verdade, estava se afastando de mim mais do que de qualquer outra pessoa. Cada vez mais, eu não conseguia chegar até ela, ou ao seu interior, nem com o Kelt nem com beijos ou nenhum outro jeito complicado ou descomplicado que usávamos para nos tocar. Agora, quando eu pegava a sua mão, só sentia a frieza.

E quando Hyomin olhou para mim do outro lado do refeitório, não havia nada além de pena nos olhos dela. Mais uma vez, eu era alguém digno de pena. Eu não era a Kim Taeyeon Cuja Mamãe Morreu no Ano Passado. Agora eu era Kim Taeyeon Cuja Namorada Ficou Pirada Quando o Tio Morreu.

As pessoas sabiam que houve complicações, e sabiam que não tinham visto Tiffany na escola comigo.

Mesmo não gostando de Tiffany, os infelizes amam observar a infelicidade dos outros. Eu era a líder de mercado no assunto infelicidade. Eu era mais do que infeliz, pior do que um sanduíche de carne moída amassado e esquecido numa bandeja de refeitório. Eu estava sozinha.

 

Certa manhã, quase uma semana depois, ouvi um barulho estranho, como rangido, um disco arranhado ou uma página se rasgando, no fundo da minha mente. Eu estava na aula de história e falávamos sobre a Reconstrução, o que era uma época ainda mais entediante que a da Guerra Civil, ando os Estados Unidos tiveram de se reconstruir. Em uma sala de aula Gatlin, esse capítulo era ainda mais constrangedor do que deprimente — uma lembrança de que a Carolina do Sul tinha sido um estado escravagista e de que estávamos contra o que era certo. Todos sabíamos disso, mas nossos ancestrais nos deixaram com um eterno zero no boletim moral da nação. Cortes profundos deixam cicatrizes, independentemente do que se tenta fazer para curá-los. O Sr. Lee ainda falava sobre isso, pontuando cada frase com um suspiro dramático.

Eu tentava não escutar quando senti o cheiro de algo queimando, talvez motor superaquecido ou um isqueiro. Olhei ao redor da sala. Não vinha do Sr. Lee, a fonte mais frequente de qualquer cheiro horrível na minha aula de história. Ninguém mais pareceu ter reparado.

O barulho ficou mais alto, até virar um som indefinido e confuso de coisas destruídas — rasgos, falas, gritos. Tiffany.

Fany?

Nenhuma resposta. Acima do barulho, ouvi Tiffany murmurando versos de poesia, e não do tipo que se manda para alguém no Dia dos Namorados.

Não ondulando mas se afogando...

Reconheci o poema, e não era bom. Tiffany lendo Stevie Smith era apenas um passo atrás das poesias mais sombrias de Sylvia Plath e de um dia estilo A redoma de vidro. Era a bandeira vermelha de Tiffany, como quando Yuri ouvia os Dead Kennedys ou BoA picava legumes para rolinhos primavera com um cutelo.

Aguente firme, Fany. Estou indo.

Alguma coisa tinha mudado e, antes que pudesse voltar a ser o que era, peguei meus livros e saí correndo. Saí da sala antes do suspiro seguinte do Sr. Lee.

Seohyun não me olhou quando entrei pela porta. Ela apontou para a escadaria. Krystal, a prima mais nova de Tiffany, estava sentada no degrau de baixo com Boo, parecendo triste. Quando mexi no cabelo dela, ela levou um dedo aos lábios.

— Tiffany está tendo uma crise de nervos. Temos de ficar quietos até vovó e Sooyoung chegarem em casa.

Aquilo era um eufemismo.

A porta só tinha uma fresta aberta e, quando a empurrei, as dobradiças rangeram, como se eu estivesse entrando no local de um crime. Parecia que o quarto tinha sido sacudido. A mobília estava de cabeça para baixo ou destruída ou desaparecida. O quarto inteiro estava coberto de páginas de livros, páginas arrancadas e rasgadas e grudadas nas paredes, no teto e no chão. Não havia um livro sequer nas prateleiras. Parecia que uma biblioteca tinha explodido. Algumas das páginas chamuscadas empilhadas no chão ainda estavam fumegando. A única coisa que não vi foi Tiffany.

Fany? Onde está você?

Examinei o quarto. A parede atrás da cama dela não estava coberta com os fragmentos dos livros que Tiffany amava. Estava coberta de outra coisa.

Ninguém o homem morto & Ninguém o vivo

Ninguém vai ceder & Ninguém vai dar

Ninguém me ouve mas Ninguém se importa

Ninguém tem medo de mim mas Ninguém só fica olhando

Ninguém pertence a mim & Ninguém ficou

Não Ninguém sabe de nada

Tudo o que restou são restos

Ninguém e Ninguém. Um Ninguém deles era Siwon, certo? O homem morto.

Quem era o outro? Eu.

Era isso que eu era agora? Ninguém?

Será que todos as pessoas precisavam se esforçar tanto para entender suas namoradas? Decifrar os poemas distorcidos escritos nas paredes delas com caneta permanentemente ou gesso rachado?

Tudo que restou são restos.

Toquei a parede, borrando a palavra restos.

Porque tudo o que restava não eram restos. Tinha que haver mais do que — mais em mim e Tiffany, mais em tudo. Não era só Siwon. Minha mãe tinha morrido, mas, como os últimos meses tinham mostrado, parte dela estava comigo. Eu vinha pensando cada vez mais nela.

Invoque a si mesma. Esse tinha sido o recado de minha mãe para Tiffany, escrito nos números de páginas de livros, espalhados no chão do aposento favorito dela na propriedade Kim. O recado dela para mim não precisava ser escrito em lugar algum, nem em números, nem em letras, nem mesmo em sonhos.

O chão do quarto de Tiffany parecia um pouco com o escritório do meu pai, com livros abertos espalhados por toda parte. Só que esses livros estavam sem as folhas, o que passava uma mensagem completamente aferente.

Dor e culpa. Era o segundo capítulo de todos os livros que minha tia Sojin tinha me dado sobre os cinco estágios do luto, ou fosse lá quantos estágios as pessoas dissessem que havia no luto. Tiffany tinha passado pelo choque e pela negação, os dois primeiros, então eu devia ter previsto isso. Para ela, acho que significava abrir mão de uma das coisas que ela mais amava. Os livros.

Pelo menos era o que eu esperava que aquilo significasse. Passei com cuidado por cima das capas de livros vazias e queimadas. Ouvi os soluços abafados antes mesmo de vê-la.

Abri a porta do armário. Ela estava encolhida na escuridão, com os joelhos abraçados contra o peito.

Está tudo bem, Fany.

Ela olhou para mim, mas não tenho certeza do que estava vendo.

Todos os meus livros pareciam com ele falando. Não consegui fazer com que parassem.

Não importa. Está tudo bem agora.

Eu sabia que as coisas não ficariam daquele jeito por muito tempo. Nada estava bem. Em algum lugar no caminho entre a raiva, o medo e a infelicidade, ela havia dobrado uma esquina. Eu sabia por experiência própria que não havia volta.

Vovó finalmente interveio. Tiffany voltaria para a escola na semana seguinte, quer ela quisesse, quer não. A escolha dela era a escola ou a coisa que ninguém dizia em voz alta. Blue Horizons, ou seja lá qual fosse o equivalente para os Conjuradores. Até então, eu só tinha permissão de vê-la quando fosse levar seu dever de casa. Andei com dificuldade até a casa dela com uma sacola cheia de folhas de exercícios e perguntas de redação sem sentido.

Por que eu? O que foi que eu fiz?

Acho que não posso ficar perto de ninguém que mexa com as minhas emoções. Foi o que Seohyun disse.

Sou eu que mexo com suas emoções?

Eu podia sentir alguma coisa como um sorriso surgindo no fundo da minha mente.

É claro que sim. Só não do jeito que eles pensam.

Quando a porta do quarto dela finalmente se abriu, deixei a sacola no chão e a tomei nos braços. Apenas alguns dias tinham se passado desde que eu a vira pela última vez, mas sentia saudade do cheiro do cabelo dela, de limão e alecrim. Das coisas familiares. Mas hoje eu não conseguia sentir o cheiro. Afundei meu rosto contra o pescoço dela.

Também senti saudades.

Tiffany olhou para mim. Ela estava vestindo uma camiseta e uma legging pretas, cheia de cortes loucos pelas pernas. Seu cabelo estava se soltando do coque acima da nuca. O cordão, pendurado e retorcido. Os olhos estavam cercados de uma mancha preta que não era maquiagem.

Mas quando olhei atrás dela, para o quarto, fiquei ainda mais preocupada.

Vovó tinha conseguido o que queria. Não havia um livro queimado e nada fora do lugar. Esse era o problema. Não havia uma mancha de caneta permanente, nenhum poema, nenhuma página em qualquer parte do quarto. Em vez disso, as paredes estavam cobertas de imagens, presas cuidadosamente em fila ao longo do espaço, como se fossem uma espécie de cerca prendendo-a.

Sagrado.Dormindo. Amada. Filha.

Eram todas fotos de lápides, tiradas tão de perto que só dava para perceber o pedaço áspero de pedra por trás das palavras entalhadas e as próprias palavras.

Pai. Alegria. Desespero. Descanso eterno.

— Não sabia que você curtia fotografia. — Fiquei me perguntando o que mais eu não sabia.

— Não curto mesmo. — Ela pareceu sem graça.

— Estão ótimas.

— Acham que isso é bom pra mim. Tenho que provar pra todo mundo sei que ele se foi.

— Sei como é. Meu pai precisa manter um diário de sentimentos agora.

Assim que terminei de falar desejei poder retirar o que disse. Comparar ao meu pai não tinha como ser confundido com um elogio, mas ela não pareceu perceber. Perguntei a mim mesmo há quanto tempo ela ia ao Jardim da Paz Perpétua com a câmera e como eu não tinha percebido.

Soldado. Dormindo. Por espelho em enigma.

Cheguei à última foto, a única que não parecia fazer parte do grupo. Era uma moto, uma Harley encostada a uma lápide. O cromado brilhante da parecia deslocado ao lado das pedras velhas e gastas. Meu coração começou a disparar quando olhei para ela.

— Que foto é essa?

Tiffany fez um gesto indicando que não era importante.

— Um cara visitando um túmulo, eu acho. Ele estava meio que... lá. Eu sempre penso em tírá-la daí, a luz está horrível.

Ela ergueu a mão por trás de mim, puxando as tachas da parede. Quando chegou à última, a foto desapareceu, não deixando nada além de quatro buraquinhos na parede preta.

Fora as imagens, o quarto estava quase vazio, como se ela tivesse feito as malas para ir para a faculdade em outra cidade. A cama tinha sumido. A estante e os livros também. O velho lustre que fizemos balançar tantas vezes que pensei que cairia do teto tinha sumido. Havia um futon no chão, no meio do quarto. Ao lado dele estava o pequeno pardal de prata. Olhar para ele encheu minha mente de lembranças do enterro — magnólias saindo da grama, o mesmo pardal de prata na mão lamacenta dela.

— Tudo está tão diferente.

Tentei não pensar no pardal e nem na razão pela qual ele estaria ao lado da cama dela. A razão que não tinha nada a ver com Siwon.

— É, você sabe. Faxina de primavera. Eu meio que tinha destruído o quarto.

Alguns livros esfarrapados estavam sobre o futon. Sem pensar, abri um deles — e me dei conta de que tinha cometido um dos piores crimes. Embora o lado de fora estivesse coberto com uma capa antiga e remendada com durex de O médico e o monstro, a parte de dentro não era um livro. Era um dos cadernos em espiral de Tiffany, e eu o tinha aberto bem na frente dela. Como se não fosse nada, como se fosse meu e eu pudesse ler.

Percebi outra coisa. A maior parte das páginas estava em branco.

O choque foi quase tão terrível quanto descobrir as páginas de rabiscos do meu pai quando achei que ele estivesse escrevendo um livro. Tiffany levava o caderno consigo aonde quer que fosse. Se tinha parado de escrever o tanto que costumava, as coisas estavam piores do que eu imaginava.

Ela estava pior do que eu imaginava.

— Taeyeon! O que está fazendo?

Afastei a mão, e Tiffany pegou o livro.

— Me desculpe, Fany.

Ela estava furiosa.

— Pensei que fosse só um livro. O que quero dizer é que parece um livro. Não achei que você deixaria seu caderno por aí, onde qualquer um pudesse lê-lo.

Ela não olhava para mim, e estava com o livro agarrado contra o peito.

— Por que não está escrevendo mais? Achei que amasse escrever.

Eia revirou os olhos e abriu o caderno para me mostrar.

— Eu amo.

Tiffany sacudiu as páginas em branco, e agora elas estavam cobertas com linhas de pequenas palavras rabiscadas, riscadas várias vezes, revias e reescritas e relidas mil vezes.

— Você o Enfeitiçou?

— Transformei as palavras para fora da realidade Mortal. A não ser que queira mostrar para alguém, só um Conjurador consegue ler.

— Brilhante. Considerando que Seohyun, a pessoa com mais chances de tudo, por acaso é uma Conjuradora. — Seohyun era tão curiosa quanto mandona.

— Ela não precisa. Pode ler tudo no meu rosto.

Era verdade. Sendo uma Sibila, Seohyun conseguia ver os pensamentos e a segredos, até as coisas que se planejava fazer, só de olhar nos olhos. E era por isso que eu costumava evitá-la.

— Então pra que tanto segredo?

Sentei no futon de Tiffany. Ela se sentou ao meu lado, com as pernas cruzadas. As coisas estavam menos confortáveis do que eu fingia que estavam.

— Não sei. Ainda sinto vontade de escrever o tempo todo. Talvez eu não sinta menos vontade de ser compreendida, ou sinta menos que possa ser compreendida.

Meu maxilar se contraiu.

— Por mim.

— Não foi o que eu quis dizer.

— Que outros Mortais leriam seu caderno?

— Você não entende.

— Acho que entendo.

— Em parte, talvez.

— Eu entenderia tudo se você me deixasse entender.

— Não tem o que deixar, Taeyeon. Não consigo explicar.

— Deixe-me ver. — Estendi o braço na direção do caderno.

Ela ergueu uma sobrancelha, passando-o para mim.

— Você não vai conseguir ler.

Abri o caderno e olhei. Não sei se foi Tiffany ou o livro em si, mas as palavras foram aparecendo na página à minha frente lentamente, uma de cada vez. Não era um dos poemas de Tiffany, e não era uma letra de música. Não havia muitas palavras, só desenhos estranhos, formas e curvas subindo e descendo pela página como uma coleção de desenhos tribais.

No fim da página, havia uma lista.

o que eu lembro

mãe

Taeyeon

Siwon

Zhoumi

o fogo

o vento

a chuva

a cripta

o eu que não sou eu

o eu que mataria

dois corpos

a chuva

o livro

o anel

o amuleto de BoA

a lua

Tiffany tirou o livro da minha mão. Havia mais algumas linhas na página, mas não consegui lê-las.

— Pare!

Olhei para ela.

— O que é aquilo?

— Nada, é particular. Você não devia ter conseguido ver aquilo.

— Então por que consegui?

— Eu devo ter feito o Conjuro Verbum Celatum errado. A Palavra Escondida. — Ela olhou para mim com ansiedade, o olhar mais suave. — Não importa. Eu estava tentando me lembrar daquela noite. Da noite em que Siwon... desapareceu.

— Morreu, Fany. Da noite em que Siwon morreu.

— Sei que ele morreu. É claro que morreu. Só não quero falar sobre isso.

— Sei que deve estar deprimida. É normal.

— O quê?

— É o estágio seguinte.

Os olhos de Tiffany faiscaram.

— Sei que sua mãe morreu e que meu tio morreu. Mas tenho meus próprios estágios de luto. Esse não é o meu diário de sentimentos. Não sou seu pai e não sou você, Taeyeon. Não somos tão parecidas quanto pensa.

Olhamos uma para a outra de um modo que não fazíamos havia muito tempo, talvez nunca. Houve um momento indescritível, percebi que estávamos falando em voz alta desde que cheguei, sem usar Kelt para nem uma palavra. Pela primeira vez, eu não sabia em que ela estava pensando, e estava bem claro que ela não sabia como eu me sentia também.

Mas então ela soube. Esticou os braços e me envolveu com eles porque, pela primeira vez, era eu quem estava chorando.

Quando cheguei em casa, todas as luzes estavam apagadas, mas não entrei logo. Fiquei sentada na varanda observando os vagalumes piscando no escuro. Não queria ver ninguém. Queria pensar, e tinha a sensação de que Tiffany não estaria ouvindo. Tem alguma coisa em ficar sozinha no escuro que faz a gente se lembrar do quanto o mundo é grande e o quanto estamos distantes uns dos outros. As estrelas parecem estar tão perto que daria para esticar o braço e tocá-las. Mas não dá. Às vezes as coisas parecem bem mais próximas do que realmente estão.

Fiquei olhando para a escuridão por tanto tempo que pensei ver alguma coisa se mexer ao lado do velho carvalho em nosso jardim. Por um segundo, meu coração acelerou. A maior parte das pessoas de Gatlin nem trancava as portas, mas eu sabia que havia muitas coisas que podiam ultrapassar uma tranca. Vi o ar se mover de novo, quase imperceptivelmente, como uma onda de calor. Percebi que não era alguma coisa tentando entrar na minha casa. Era algo que tinha fugido de outra.

Lucille, a gata das Irmãs. Eu conseguia ver os olhos azuis brilhando na escuridão enquanto ela andava até a varanda.

— Falei pra todo mundo que você encontraria o caminho de casa mais cedo ou mais tarde. Só que encontrou a casa errada. — Lucille virou a cabeça para o lado. — Você sabe que as Irmãs nunca vão soltar você daquele varal depois disso.

Lucille ficou me olhando como se entendesse perfeitamente. Como se soubesse as consequências quando fugiu, mas, por alguma razão, decidiu fugir mesmo assim. Um vagalume piscou na minha frente, e Lucille pulou do degrau.

Ele voou mais alto, mas a gata burra continuou tentando pegá-lo. Ela não parecia saber a que distância ele realmente estava. Como as estrelas.

Como muitas coisas.

 

***

Escuridão

Eu não conseguia ver nada, mas podia sentir o ar fugindo dos meus pulmões. Não conseguia respirar. O ar estava cheio de fumaça e eu estava sufocando.

Taeyeon!

Eu tinha ouvido a voz dela, mas estava distante e baixa.

O ar ao meu redor era quente. Tinha cheiro de cinzas e morte.

Taeyeon, não!

Vi o brilho de uma faca acima da minha cabeça e ouvi uma risada sinistra. Gain. Só que eu não conseguia ver o rosto dela.

Quando a faca entrou na minha barriga, eu soube onde estava.

Estava em Greenbrier, em cima da cripta, e estava prestes a morrer.

Tentei gritar, mas não consegui emitir som algum. Gain jogou a cabeça para trás e riu, as mãos na faca enfiada na minha barriga. Eu estava morrendo e ela ria. O sangue escorria pelo meu corpo inteiro, entrando nos meus ouvidos, nas minhas narinas, na minha boca. Tinha um gosto distinto, de cobre ou de sal.

Meus pulmões pareciam dois sacos pesados de cimento. Quando o sangue nos meus ouvidos abafou a voz dela, fui tomado por um sentimento familiar de perda. Preto e dourado. Limão e alecrim. Podia sentir o cheiro mesmo com o sangue, a fumaça e as cinzas. Tiffany.

Sempre pensei que não pudesse viver sem ela. Agora eu não teria de passar por isso.

— Kim Taeyeon! Por que ainda não estou ouvindo o chuveiro ligado?

Sentei-me de repente na cama, molhada de suor. Passei a mão por debaixo da camiseta, pela pele. Não havia sangue, mas eu podia sentir a marca em relevo onde a faca tinha me cortado no sonho. Ergui a camiseta e olhei para a linha cor-de-rosa irregular. Uma cicatriz cortava a parte de baixo do meu abdômen, como uma ferida de facada. Apareceu do nada, o ferimento de um sonho.

Só que era real e doía. Eu não havia tido um sonho desses desde o aniversário de Tiffany e não sabia por que estavam voltando agora, dessa maneira. Eu estava acostumada a acordar com lama na minha cama ou fumaça nos meus pulmões, mas era a primeira vez que eu acordava sentindo dor. Tentei afastar a sensação, dizendo para mim mesma que não tinha acontecido de verdade. Mas minha barriga latejava. Olhei para minha janela aberta, desejando que Siwon estivesse por perto para roubar o fim desse sonho. Eu desejava que ele estivesse por perto por vários motivos.

Fechei os olhos e tentei me concentrar, para ver se Tiffany estava por perto. Mas eu já sabia que não estaria. Eu podia sentir quando ela estava longe, o que acontecia na maior parte do tempo ultimamente.

BoA gritou da escada de novo:

— Se você está se atrasando de propósito para sua última prova, vai ficar de castigo no seu quarto o verão inteiro. Pode apostar.

Lucille Ball estava me olhando do pé da cama, como fazia quase todas as manhãs agora. Depois que Lucille apareceu na varanda, levei-a de volta para tia Victoria, mas no dia seguinte ela estava sentada na nossa varanda de novo. Depois disso, tia Dara convenceu as irmãs de que Lucille era uma desertora, e a gata foi morar conosco. Fiquei surpresa quando BoA abriu a porta e deixou Lucille entrar, mas ela tinha suas razões.

— Não há nada de errado em ter um gato em casa. Eles conseguem ver o que maioria das pessoas não vê, como espíritos do Outro Mundo que a passagem de volta para cá, os bons e os maus. E eles nos livram de ratos.

Acho que podíamos dizer que Lucille era a versão de BoA no reino animal.

Quando entrei no chuveiro, a água quente caiu sobre meu corpo, levando tudo embora. Tudo exceto a cicatriz. Esquentei ainda mais a água, mas não conseguia me concentrar no banho. Estava envolvida com os sonhos, a risada...

Minha prova final de inglês.

Merda.

Eu tinha adormecido antes de terminar de estudar. Se não passasse na prova, não passaria na matéria, independentemente de me sentar no Lado Olho Bom. Minhas notas não estavam maravilhosas nesse semestre, e com isso quero dizer que eu estava no nível de Yuri. Eu não estava em estado normal de não estudar e me dar bem. Já estava prestes a repetir em história, pois Tiffany e eu tínhamos faltado à Encenação da Batalha de Honey Hill no aniversário dela. Se repetisse em inglês, passaria o verão numa escola tão velha que nem tinha ar-condicionado, ou teria de repetir o ano todo. Uma pessoa com pulso devia estar preparada para ponderar esse tipo de problema. Assonância, certo? Ou seria consonância? Eu estava ferrada.

Esse foi o quinto dia do café da manhã gigantesco. Estávamos tendo provas a semana toda, e BoA acreditava haver uma correlação direta entre o quanto eu comia e o quanto me sairia bem. Eu tinha comido o equivalente ao meu peso em bacon e ovos desde a segunda-feira. Não era surpresa meu estômago estivesse me matando e que eu tivesse pesadelos. Ou pelo menos foi o que tentei dizer a mim mesma.

Cutuquei os ovos fritos com o garfo.

— Mais ovos?

BoA me olhou com desconfiança.

— Não sei o que você está tramando, mas não estou com humor pra isso. — Ela colocou outro ovo no meu prato. — Não teste minha paciência hoje, Kim Taeyeon.

Eu não ia discutir com ela. Já tinha problemas demais.

Meu pai entrou na cozinha e abriu o armário, procurando cereal de trigo integral.

— Não provoque BoA. Você sabe que ela não gosta. — Ele olhou para ela, sacudindo a colher. — Essa minha garota é completamente E-S-C-A-B-R-O-S-A. O que quer dizer...

BoA olhou com raiva para ele, batendo a porta do armário com força.

— Kim Jiwoong, você vai ganhar um par de cicatrizes se não parar de bagunçar minha despensa.

Ele riu e um segundo depois eu podia jurar que ela estava sorrindo, e observei meu pai doido começando a fazer BoA voltar a ser BoA novamente. O momento se acabou, estourando como bolha de sabão, mas eu sabia o que tinha visto. As coisas estavam mudando.

Eu ainda não estava acostumada a ver meu pai andando pela casa durante o dia, se servindo de cereal e batendo papo. Parecia inacreditável que quatro meses atrás minha tia o tivesse internado no Blue Horizons. Embora ele não fosse exatamente um homem novo, como tia Sojin declarou, eu tinha de admitir que mal o reconhecia. Ele não fazia sanduíches de salada de frango para mim, mas ultimamente ficava cada vez mais fora do escritório, e às vezes até saía de casa. Sunny conseguiu um trabalho para ele no departamento de inglês da Universidade de Charleston, como palestrante convidado. Embora o percurso do ônibus transformasse a viagem de 40 minutos em 2 horas, não podíamos deixar meu pai operar maquinário pesado ainda. Ele parecia quase feliz. Relativamente falando, pelo menos, para um cara que ficou enfiado no escritório durante meses rabiscando como um louco. A expectativa era bem baixa.

Se as coisas podiam mudar tanto para meu pai, se BoA estava sorrindo, talvez elas pudessem mudar para Tiffany também.

Não podiam?

Mas o momento passou. BoA estava de volta ao seu mau humor. Eu via no rosto dela. Meu pai se sentou ao meu lado e colocou leite no cereal. BoA limpou as mãos no avental.

— Jiwoong, é melhor você comer um pouco desses ovos. Cereal não é café da manhã.

— Bom-dia pra você também, BoA. — Ele sorriu para ela, do jeito que aposto que fazia quando criança.

Ela se virou para ele com os olhos estreitos e colocou com força um copo de leite achocolatado ao lado do meu prato, embora eu quase não bebesse mais isso.

— Não está muito bom, na minha opinião. — Ela fungou e começou a quantidade enorme de bacon no meu prato. Para BoA, eu sempre teria 6 anos. — Você parece uma morta-viva. Precisa de alimento para o cérebro, para conseguir passar nessas suas provas.

— Sim, senhora.

Bebi toda a água do copo que BoA tinha servido para meu pai. Ela ergueu a famosa colher de pau com um buraco no meio, a Ameaça de Um Olho — era assim que eu a chamava. Quando eu era criança, ela costumava correr atrás de mim pela casa com a colher se eu a provocasse, embora nunca tenha me batido com ela. Eu me abaixei, dando continuidade à brincadeira.

— E é melhor você passar em todas. Não quero você naquela escola o verão inteiro. Você vai arrumar um emprego como disse que faria — a fungou, sacudindo a colher. — Tempo livre equivale a problema e você já tem muito disso.

Meu pai sorriu e abafou uma gargalhada. 

— Sim, senhora.

Ouvi uma buzina de carro e um som grave muito parecido com o do Lata-Velha e peguei minha mochila. Só vi a sombra da colher atrás de mim.

Entrei no Lata-Velha e abaixei a janela. Vovó tinha conseguido que Tiffany voltasse a frequentar a escola uma semana antes, no início do semestre. Dirigi até a fazenda para levá-la à escola no primeiro dia que ela voltou e até parei no mercado para comprar um dos famosos pães doces, mas quando cheguei lá, Tiffany já tinha ido. Desde esse dia, ela vai sozinha de carro para a escola, então Yuri e eu voltamos a ir no Lata-Velha.

Yuri abaixou o volume da música, que estava pulsando pelo carro, pelas janelas e pelo quarteirão todo.

— Não me envergonhe naquela sua escola, Kim Taeyeon. E abaixe essa música, Kwon Yuri! Você vai destruir a minha plantação de repolho com essa barulheira. — Yuri buzinou para ela. BoA bateu a colher na caixa de correio, colocou as mãos nos quadris e então relaxou. — Saia-se bem nas suas provas e talvez eu lhe faça uma torta.

— Não seria uma de pêssego de Gatlin, seria, senhora?

BoA fungou e assentiu.

— Pode ser.

Ela jamais admitiria, mas tinha finalmente começado a gostar de Yuri depois de tantos anos. Yuri achava que talvez fosse porque BoA sentia pena da mãe dela depois da experiência de invasão-de-corpos de Gain, mas não era. Ela se sentia mal por Yuri. ―Não acredito que aquela garota precisa morar na mesma casa que aquela mulher. Ela ficaria melhor sendo criada por lobos. Dissera ela na semana anterior, antes de mandar uma torta de noz para ela.

Yuri olhou para mim e riu.

— Foi a melhor coisa que me aconteceu, a mãe de Tiffany ter entrado no corpo da minha mãe. Nunca comi tanta torta da BoA na vida.

Isso era o máximo que ela dizia sobre o pesadelo de aniversário de Tiffany. Ela meteu o pé no acelerador e o Lata-Velha saiu derrapando pela rua. Quase não era preciso mencionar que estávamos atrasadas, como sempre.

— Você estudou para a prova de inglês?

Não era exatamente uma pergunta. Eu sabia que Yuri não abria um livro desde o sétimo ano.

— Não. Vou colar de alguém.

—De quem?

— Por que você se importa? De alguém mais inteligente que você.

— É? Da última vez que você colou de Jenny Masterson, as duas tiraram 5.

— Não tive tempo de estudar. Estava compondo uma música. Talvez a gente toque na feira do condado. Olha só. — Yuri começou a cantar junto com a música, o que era estranho, porque cantava junto com uma gravação da própria voz: — Garota do Pirulito, partiu sem dizer nada, fiquei gritando seu nome, mas você nunca ouviu.

Ótimo. Outra música sobre Jessica. Isso não devia me surpreender, pois ela não escrevia uma música sobre outra coisa além de Jessica havia quatro meses. Eu estava começando a achar que ela sempre seria vidrada na prima de Tiffany, que não era nada parecida com ela. Jessica era uma Sirena, e usava Poder de Persuasão para conseguir o que queria com uma lambida em um pirulito. E, por um tempo, o que ela quis foi Yuri. Embora ela a tivesse usado e desaparecido, ela não a esquecera. Mas eu não podia culpá-la. Devia se difícil se apaixonar por uma Conjuradora das Trevas. Já era bastante estar apaixonada por uma da Luz.

Eu ainda pensava em Tiffany apesar do barulho ensurdecedor nos meus ouvidos, até que a voz de Yuri foi completamente abafada e eu ouvi Dezessete Luas Só que a letra tinha mudado.

Dezessete luas, dezessete voltas

Olhos tão escuros e brilhantes que queimam,

O tempo tem pressa mas alguém tem mais,

Traz a lua para o fogo...

O tempo tem pressa? O que isso significava? Faltavam 8 meses para a décima Sétima Lua de Tiffany. Por que o tempo tinha pressa agora? E quem era o alguém, e o que era o fogo?

Senti Yuri dar um tapa na lateral da minha cabeça, e a música desapareceu. Ela estava gritando mais alto que a música.

— Se eu conseguir diminuir a levada, vai ficar uma música bem gostosa. — Olhei para ela, que me bateu na cabeça de novo. — Deixa pra lá. É só uma prova. Você parece tão louca quanto a moça dos cachorros quentes no almoço.

O problema era que ela não estava tão errada.

Quando o Lata-Velha entrou no estacionamento da Jackson High, ainda parecia o último dia de escola. Para os formandos, não era. Eles teriam a formatura no dia seguinte, além de uma festa que duraria a noite toda e normalmente deixa um monte de gente em coma alcoólico. Mas para quem estava no primeiro e no segundo ano, ainda havia mais uma prova até a liberdade.

Nana e Hyomin passaram por mim e Yuri e nos ignoraram. As saias curtas estavam ainda mais curtas do que o normal, e podíamos ver lacinhos de biquíni saindo por debaixo das blusas. Tie-dye e cor-de-rosa.

— Olha só. Temporada de biquínis. — Yuri sorriu.

Eu quase tinha esquecido. Faltava apenas uma prova para podermos passar a tarde no lago. Todo mundo que era alguém estava com roupa de banho por baixo, pois o verão não começava oficialmente até que você tivesse dado o primeiro mergulho no lago Moultrie. Os alunos da Jackson tinham um lugar cativo, depois do Canto de Monck, onde o lago se abria numa área profunda e larga que parecia um oceano quando se nadava nele. Exceto pelos bagres e pelas algas do pântano, podia mesmo ser o mar. Nessa época do ano, eu ia até o lago na traseira da picape do irmão de JiYeon com Hyomin, Nana, Yuri e metade do time de basquete. Mas isso tinha sido até ano passado.

—Você vai?

— Não.

— Tenho um biquíni extra no Lata-Velha, mas não é tão legal quanto este.

Yuri puxou o short para que eu pudesse ver a parte de baixo do biquíni, que era quadriculada de laranja e amarelo. Tão discreta quanto a própria Yuri.

— Não, obrigada.

Ela sabia por que eu não ia, mas não falou nada. Eu tinha que agir como se tudo estivesse bem.

Como se Tiffany e eu estivéssemos bem.

Yuri não queria desistir hoje.

— Tenho certeza de que Hyomin vai dividir a toalha com você.

Era uma piada, porque nós duas sabíamos que ela jamais faria isso. Até mesmo a fase do olhar de piedade tinha acabado, junto com a campanha de ódio. Acho que éramos um alvo tão fácil ultimamente que tinha perdido a graça.

— Dá um tempo.

Yuri parou de andar e ergueu a mão para me deter. Afastei-a antes que pusesse começar a falar. Eu sabia o que ia dizer e, por mim, a conversa estava acabada antes mesmo de começar.

— Pare com isso. Sei que o tio dela morreu. Pare de agir como se ainda estivessem no enterro. Sei que você a ama, mas... — Não queria dizer, embora estivéssemos pensando a mesma coisa. Ela nunca mais havia falado no assunto porque era Yuri, e ainda se sentava no almoço comigo quando ninguém mais se sentava.

— Está tudo bem. — Ia dar certo. Tinha que dar. Eu não sabia viver sem ela.

— É difícil de ver, Tae. Ela está tratando você como...

— Como o quê? — Era um desafio. Eu sentia meus dedos se fechando. Estava esperando por um motivo, qualquer um. Parecia que eu ia explodir. Eu queria muito bater em alguma coisa.

— Como as garotas costumam me tratar.

Acho que ela estava esperando que eu batesse nela. Talvez quisesse isso, se me ajudar. Deu de ombros.

Abri minha mão. Yuri era Yuri, independentemente de eu ter vontade de dar uns chutes nela às vezes.

— Desculpe.

Yuri riu um pouco, descendo pelo corredor um pouco mais rápido do que o habitual.

— Tudo bem, Psicopata.

Quando subi os degraus para o destino inevitável, senti uma pontada familiar de solidão. Talvez Yuri estivesse certa. Eu não sabia por quanto tempo mais as coisas iriam continuar assim com Tiffany. Nada era igual. Se conseguia perceber, talvez fosse a hora de encarar os fatos.

Minha barriga começou a doer e botei a mão na lateral, como se pudesse arrancar a dor com as mãos.

Onde está você, Fany?

Eu me sentei na cadeira quando o sinal tocou. Tiffany estava sentada ao meu lado, no Lado do Olho Bom, como sempre. Mas não parecia ela mesma.

Estava usando uma camiseta com gola V que era grande demais e uma saia preta alguns centímetros mais curtos do que jamais usaria três meses atrás. Mal dava para ver a saia debaixo da camiseta, que era de Siwon. Eu quase não reparava mais. Ela também usava o anel dele; Siwon costumava girá-lo no dedo quando estava pensando, pendurado em uma corrente em torno do pescoço. A corrente que Tiffany usava era nova, e o anel estava ao lado do da minha mãe. A antiga tinha quebrado na noite do aniversário dela e se perdido nas cinzas. Eu tinha dado o anel da minha mãe a Tiffany por amor, embora não tivesse certeza de que ela achasse isso agora. Fosse qual fosse o motivo, Tiffany carregava lealmente os nossos fantasmas consigo, o dela e o meu, se recusando a se desfazer de qualquer um dos dois. Minha mãe perdida e o tio perdido dela, presos em círculos de ouro e platina e outros metais preciosos, pendurados sobre um cordão cheio de pingentes e escondidos em camadas de algodão que não pertenciam a ela.

A Sra. English já estava entregando as provas, e não pareceu feliz por metade da sala estar de roupa de banho ou carregando uma toalha de praia. Hyomin estava com ambas as coisas.

— Cinco respostas curtas, valendo dez pontos cada; a múltipla escolha vale vinte e cinco pontos; a redação também. Desculpem, mas nada de Boo Radley dessa vez. Estamos estudando O médico e o monstro. Ainda não chegou o verão, pessoal.

Lemos O sol é para todos no outono. Eu me lembrava da primeira vez em que Tiffany aparecera na aula, carregando o próprio livro surrado.

— Boo Radley morreu, Sra. English. Levou uma estaca no coração.

Não sei quem falou, uma das garotas sentadas atrás com Hyomin, mas todos sabíamos que falava de Siwon. O comentário tinha o objetivo de atingir Tiffany, como antigamente. Fiquei tensa quando as risadas sumiram. Estava esperando que a janela se estilhaçasse ou algo do tipo, mas não houve sequer uma rachadura. Tiffany não reagiu. Talvez não estivesse ouvindo, ou não ligasse mais para o que eles diziam.

— Aposto que o Velho Choi nem está no cemitério da cidade. Aquele caixão deve estar vazio. Se é que há um. — A voz foi alta o bastante para que a Sra. English dirigisse o olhar para o fundo da sala.

— Cale a boca, Hyomin — sibilei.

Dessa vez, Tiffany se virou e olhou diretamente para Hyomin. Isso foi o bastante: um olhar. Hyomin abriu a prova, como se fizesse alguma ideia do que O medico e o monstro se tratava. Ninguém queria enfrentar Tiffany. Só queriam falar dela. Tiffany era o novo Boo Radley. Eu me perguntei o que Siwon diria sobre isso.

Ainda estava pensando nisso quando ouvi o grito do fundo da sala.

— Fogo! Alguém me ajude!

Hyomin estava segurando sua prova, e o papel estava em chamas. Soltou aprova no chão de linóleo e continuou a gritar. A Sra. English pegou seu suéter das costas da cadeira, andou até o fundo da sala e se virou para poder usar o olho bom. Com três boas batidas o fogo se apagou, deixando a prova queimada e fumegante em um ponto queimado e fumegante do chão.

— Eu juro que foi algum tipo de combustão espontânea. Começou a pegar fogo enquanto eu escrevia.

A Sra. English pegou um isqueiro preto brilhante no meio da carteira de Hyomin.

— É mesmo? Junte suas coisas. Pode explicar tudo para a diretora Park.

Hyomin saiu da sala como um furacão enquanto a Sra. English andava até a frente da sala de aula. Quando passou por mim, reparei que o isqueiro tinha o símbolo de uma lua crescente de prata.

Tiffany voltou-se para a prova e começou a escrever. Olhei para a camiseta branca larga, com o cordão tilintando por baixo. O cabelo dela estava preso, amarrado em um nó esquisito, outra nova preferência que ela nunca se dava ao trabalho de explicar. Cutuquei-a com o lápis. Ela parou de escrever e olhou para mim, curvando os lábios em um meio-sorriso torto, que era o melhor que conseguia fazer ultimamente.

Sorri para ela também, mas ela olhou de volta para a prova, como se preferisse pensar em assonância e consonância a me ver. Como se doesse olhar para mim — ou pior, como se ela simplesmente não quisesse.

Quando o sinal tocou, a Jackson High virou um carnaval. As garotas tiraram as blusas e saíram correndo pelo estacionamento com a parte de cima do biquíni. Armários foram esvaziados, cadernos jogados no lixo. As pessoas deixaram de falar e passaram a gritar, depois a berrar, enquanto o pessoal do primeiro ano passava a ser do segundo e o do segundo ano virava formando. Todo mundo finalmente tinha tudo pelo qual vinha esperando o ano todo: liberdade e um recomeço.

Todo mundo menos eu.

Tiffany e eu andamos até o estacionamento. A bolsa dela balançava enquanto ela andava e esbarramos uma na outra. Senti a eletricidade de meses atrás, mas ainda estava fria. Ela deu um passo para o lado, me evitando.

— Como você foi? — Eu tentava puxar papo, como se fôssemos totalmente estranhas.

—Em quê?

— Na prova final de inglês.

— Provavelmente fiquei reprovada. Não li nada do que precisava.

Era difícil imaginar Tiffany não lendo o livro para a aula, considerando que respondera todas as perguntas durante meses quando lemos O sol é para todos.

— É? Eu gabaritei. Roubei uma cópia da prova da mesa da Sra. English na semana passada. — Era mentira. Eu preferia repetir a colar enquanto morasse na Casa de BoA. Mas Tiffany não estava ouvindo. Balancei a mão na frente dos olhos dela. —Fany? Você está me ouvindo? — Eu queria conversar com ela sobre o sonho, mas primeiro precisava fazer com que ela reparasse que eu estava ali.

— Desculpe. Tem muita coisa na minha cabeça.

Ela olhou para o outro lado. Não foi muito, mas foram mais palavras do que consegui arrancar dela em semanas.

— Tipo o quê?

Ela hesitou.

— Nada.

Nada de bom? Ou nada que possamos falar aqui?

Ela parou de andar e se virou para mim, se recusando a me deixar entrar na mente dela.

— Vamos embora de Gatlin. Todos nós.

— O quê?

Eu não estava esperando por isso. E devia ser isso que ela queria. Ela estava me afastando para que eu não conseguisse ver o seu interior, onde coisas estavam acontecendo, onde ela escondia os sentimentos que não queria compartilhar. Eu pensei que ela só precisasse de tempo. Não me dei conta de que era um tempo longe de mim.

— Eu não queria te contar. Ë só por alguns meses.

— Tem alguma coisa a ver com... — O pânico familiar tomou conta do eu estômago.

— Não tem nada a ver com ela. — Tiffany olhou para baixo. — Vovó e Sooyoung acham que, se eu me afastar da fazenda, talvez pense menos. Sobre ele.

Se eu me afastar de você. Foi isso que ouvi.

— Não funciona assim, Tiffany.

— O quê?

— Você não vai esquecer Siwon se fugir.

Ela ficou tensa ao ouvir o nome dele.

— É? É isso que os seus livros dizem? Onde eu estou? No estágio cinco? Seis, no máximo?

— É isso o que você acha?

— Eis aqui um estágio: deixe tudo pra trás e se afaste enquanto ainda da. Quando chego nesse?

Parei de andar e olhei para ela.

— É isso que você quer?

Ela retorceu o cordão cheio de pingentes, tocando nos pedacinhos de nós, nas coisas que fizemos e vimos juntas. Ela o retorceu tanto que achei e fosse arrebentar.

— Não sei. Parte de mim quer ir embora e nunca mais voltar, e outra não consegue suportar ir porque ele amava a fazenda e a deixou pra mim.

Essa é a única razão?

Esperei que ela terminasse — que dissesse que não queria me deixar. Ela, porém, não falou nada.

Mudei de assunto.

— Talvez seja por isso que estamos sonhando sobre aquela noite.

— Do que você está falando?

Consegui a atenção dela.

— O sonho que tivemos na noite passada, sobre o seu aniversário. Quero dizer, parecia com o seu aniversário, exceto pela parte em que Gain me matou. Parecia tão real. Até acordei com isso.

Levantei minha camisa.

Tiffany ficou olhando para a cicatriz rosada em alto-relevo que fazia uma linha irregular no meu abdômen. Ela pareceu que ia desmaiar. Seu rosto ficou pálido e ganhou uma expressão de pânico. Foi a primeira vez que vi algum tipo de emoção nos olhos dela em semanas.

— Não sei do que está falando. Não tive sonho algum ontem à noite.

Havia algo no jeito que ela falou e na expressão em seu rosto. Ela estava falando sério.

— Isso é estranho. Normalmente sonhamos juntas.

Tentei parecer calma, mas sentia meu coração disparando. Tínhamos os mesmos sonhos desde antes de nos conhecermos. Eram eles o motivo das visitas de Siwon ao meu quarto, à meia-noite ele tirava os pedaços do meu sonho que não queria que Tiffany visse. Siwon tinha dito que nossa ligação era tão forte que Tiffany sonhava meus sonhos. O que isso dizia sobre nossa ligação se ela não tinha mais os mesmos sonhos que eu?

— Era a noite do seu aniversário e ouvi você me chamando. Mas quando cheguei à parte de cima da cripta, Gain estava lá, segurando uma faca.

Tiffany parecia que ia vomitar. Eu provavelmente devia ter parado ali, mas não consegui. Precisava continuar insistindo, e nem sabia o porquê.

— O que aconteceu naquela noite, Fany? Você nunca me contou. Talvez seja por isso que estou sonhando agora.

Taeyeon, não posso. Não me obrigue a fazer isso.

Eu não podia acreditar. Lá estava ela, no fundo da minha mente, usando Kelt de novo. Tentei abrir a porta alguns centímetros mais e entrar de novo na dela.

Podemos conversar sobre isso. Você precisa me contar.

Fosse lá o que Tiffany estivesse sentindo, ela superou. Senti a porta entre nossas mentes se fechar.

— Você sabe o que aconteceu. Você caiu quando tentava subir na cripta, desmaiou.

— Mas o que aconteceu com Gain?

Ela puxou a alça da bolsa para cima.

— Não sei. Houve um incêndio, lembra?

— E ela simplesmente desapareceu?

— Não sei. Eu não conseguia ver nada e, quando o fogo começou a se apagar, ela tinha sumido. — Tiffany parecia na defensiva, como se eu a estivesse acusando de alguma coisa. — Por que está fazendo tanto estardalhaço por causa disso? Você teve um sonho e eu não. E daí? Não é como os outros. Não significa nada.

Ela começou se afastar de mim. Parei na frente dela e ergui a camisa de novo.

— Então como você explica isso?

A Linha irregular ainda estava rosada e recém-cicatrizada. Os olhos dela estavam arregalados, absorvendo a luz do primeiro dia de verão. Ao sol, seus olhos castanhos pareciam brilhar com reflexos dourados. Ela não disse nada.

— E a música, ela está mudando. Sei que você a ouve também. O tempo tem pressa? Vamos conversar sobre isso? — Ela se afastou mais de mim, e acho que essa foi a resposta. Mas não liguei e não importava, porque eu não conseguia parar. — Alguma coisa está acontecendo, não está?

Ela balançou a cabeça.

—O que é? Tiffany...

Antes que eu dissesse alguma coisa, Yuri nos alcançou, batendo em mim com uma toalha.

— Parece que ninguém vai ao lago hoje, exceto talvez vocês duas.

— Como assim?

— Olhe para os pneus, ô Derrotada. Estão todos rasgados, de todos os carros do estacionamento, até mesmo os do Lata-Velha.

— De todos os carros? — O inspetor da Jackson, ficaria doido com isso. Calculei o número de carros no estacionamento. O bastante para levar a coisa toda até Summerville, talvez até para o escritório do xerife. Era coisa demais para o inspetor resolver.

— Todos os carros menos o de Tiffany.

Yuri apontou para o Fastback no estacionamento. Eu ainda tinha dificuldade de pensar nele como o carro de Tiffany. O estacionamento estava um caos. Nana falava ao celular. Hyomin gritava com Raina. O time de basquete não ia a lugar algum.

Yuri bateu com o ombro no de Tiffany.

— Não culpo você por todos os outros, mas tinha que fazer com o Lata-Velha também? Estou meio sem grana pra comprar pneus novos.

Olhei para ela. Ela estava transtornada.

Tiffany, você fez isso?

— Não fui eu.

Alguma coisa estava errada. A antiga Tiffany teria arrancado nossas cabeças só por perguntarmos.

— Você acha que foi Jessica ou...

Olhei para Yuri. Eu não queria dizer o nome de Gain.

Tiffany balançou a cabeça com veemência.

— Não foi Jessica. — Ela não soou como ela mesma, e nem segura de si. — Ela não é a única que odeia Mortais, acredite se quiser.

Olhei para ela, mas foi Yuri que falou a única coisa que nós duas pensamos:

— Como você sabe?

— Eu apenas sei.

Acima do caos do estacionamento, ouvimos o motor de uma moto dando a partida. Um cara de camiseta preta passou pelos carros estacionados, jogando fumaça nos rostos das líderes de torcida furiosas, e desapareceu na estrada. Ele estava de capacete, então não deu para ver o rosto. Só a Harley.

No entanto, meu estômago se embrulhou, porque a moto parecia familiar. Onde eu a tinha visto? Ninguém na Jackson tinha moto. O mais próximo disso era o quadriciclo de Hank Porter, que não funcionava desde que ele capotara depois da última festa de Nana. Ou pelo menos foi o que ouvi falar, pois já não fazia mais parte da lista de convidados.

Tiffany ficou olhando para a moto como se tivesse visto um fantasma.

— Vamos sair daqui.

Ela se encaminhou para o carro, praticamente correndo ao descer a escada.

— Para onde?

Tentei alcançá-la, com Yuri correndo atrás de mim.

— Para qualquer lugar longe daqui.

***

 

— Se não foi Jessica, por que os pneus do seu carro não foram cortados? — continuei insistindo, O que tinha acontecido no estacionamento não fazia sentido, e eu não conseguia parar de pensar nisso. Nem na moto. Por que eu a tinha reconhecido?

Tiffany me ignorou, olhando para a água.

— Provavelmente é coincidência.

Nenhuma de nós acreditava em coincidência.

— É?

Peguei um punhado de areia marrom e áspera. Exceto pela presença de Yuri, o lago era nosso. Todos deviam estar fazendo fila no BP para comprar pneus novos antes que Ed não tivesse mais nenhum.

Em outra cidade, você poderia ter calçado de volta os sapatos, chamado aquela areia de terra, e essa parte do nosso lago de pântano, mas a água turva do lago Moultrie era o mais próximo que Gatlin tinha de uma piscina. Todo mundo ficava na margem norte porque era na extremidade do bosque e ficava longe dos carros, então nunca esbarrávamos com alguém que não estivesse no ensino médio — principalmente nossos pais.

Eu não sabia por que estávamos ali. Era estranho o lago ser só nosso, pois a escola inteira tinha planejado estar ali hoje. Eu não acreditei em Tiffany quando ela disse que queria ir. Mas fomos, e agora Yuri estava nadando enquanto compartilhávamos uma toalha suja que ela havia pegado no porta- malas do Lata-Velha antes de sairmos.

Tiffany se virou para o meu lado. Por um minuto, pareceu que tudo tinha voltado ao normal e que ela queria estar ali comigo sobre a toalha. Mas aquilo só durou até que o silêncio se instalasse. Eu via a pele clara dela brilhando sob a camiseta branca, que estava grudada no seu corpo, por causa do calor sufocante e da umidade de um dia de junho na Carolina do Sul. O som das cigarras quase abafou o silêncio desconfortável. Quase. A saia de Tiffany estava baixa sobre os quadris. Desejei pela centésima vez que estivéssemos com nossas roupas de banho. Eu nunca tinha visto Tiffany de biquíni. Tentei não pensar nisso.

Esqueceu que posso ouvir você?

Ergui uma sobrancelha. Lá estava ela de novo. De volta à minha mente, duas vezes em um dia, como se nunca tivesse saído de lá. Em um minuto .... mal falava comigo, e no seguinte agia como se nada tivesse mudado entre nós. Eu sabia que devíamos conversar, mas não queria mais brigar.

Você de biquíni não seria fácil de esquecer, Fany.

Ela se inclinou mais para perto, puxando minha camiseta surrada por cima da minha cabeça, Senti alguns cachos que haviam escapado do penteado dela encostarem no meu ombro. Ela passou o braço ao redor do meu pescoço e me puxou para mais perto. Cara a cara, pude ver o sol brilhando dourado nos olhos dela. Eu não me lembrava de eles serem tão dourados.

Ela jogou a camiseta no meu rosto e saiu correndo em direção à água, como uma criancinha enquanto pulava no lago, ainda de roupas. Eu não a via rir ou brincar havia meses. Era como se eu a tivesse de volta por uma tarde, mesmo sem saber por quê. Afastei o pensamento e fui atrás dela, correndo até a água e pela beirada rasa do lago.

— Pare!

Tiffany espirrou água em mim e eu nela. Suas roupas estavam encharcadas e meu short também, mas era gostoso estar ao sol. Ao longe, Yuri nadava no píer. Estávamos sozinhas de verdade.

— Fany, espere.

Ela sorriu e mergulhou.

— Você não vai escapar tão facilmente.

Peguei a perna dela antes que desaparecesse e a puxei na minha direção.

Ela riu e chutou, se contorcendo até que eu caísse na água ao seu lado.

— Acho que senti um peixe — gritou ela,

Puxei a cintura dela contra a minha. Estávamos cara a cara, sem nada além do sol, da água e de nós duas. Não havia como nos evitarmos agora.

— Não quero que vá embora. Quero que as coisas voltem a ser como antes. Será que não podemos voltar, você sabe, a ser como éramos...

Estendeu a mão e tocou meus lábios.

— Shh.

Um calor se espalhou pelos meus ombros e meu corpo. Eu quase tinha me esquecido dessa sensação, do calor e da eletricidade. Ela desceu as mãos por meus braços e as juntou atrás das minhas costas, encostando a cabeça contra o meu peito. Parecia que havia vapor subindo da minha pele, pinicando onde ela me tocava. Eu não ficava tão próxima dela havia semanas. Inspirei profundamente. Limão e alecrim.., e mais alguma coisa. Alguma coisa diferente.

Amo você, Fany.

Eu sei.

Tiffany ergueu o rosto em direção ao meu e eu a beijei. Em segundos, ela desapareceu nos meus braços, como não acontecia havia meses. O beijo começou a nos fazer mover involuntariamente, como se estivéssemos sob algum tipo de Conjuro próprio. Peguei-a e ergui-a para fora da água, suas pernas balançando sobre meu braço, a água pingando dos nossos corpos. Carreguei-a até a toalha e começamos a rolar na areia suja. Nosso calor se transformou em fogo. Eu sabia que estávamos fora de controle e precisávamos parar.

Fany.

Tiffany ofegou debaixo do peso do meu corpo e rolamos novamente. Tentei recuperar o fôlego. Ela jogou a cabeça para trás e riu; um arrepio percorreu minha espinha. Eu me lembrava daquela risada, saída diretamente do meu sonho. Era a risada de Gain. A risada de Tiffany soou exatamente como a dela.

Tiffany.

Será que eu estava imaginando? Antes que eu conseguisse entender, ela tava em cima de mim e não pude pensar em mais nada. Eu me perdi em segundos, completamente envolvida nela. Meu peito se apertou e me senti ofegante. Eu sabia que, se não parássemos logo, eu terminaria no pronto socorro ou em um lugar pior.

Tiffany!

Senti uma dor lancinante no meu lábio. Empurrei-a para longe e rolei para o lado. Tiffany se afastou e ficou de joelhos. Seus olhos brilham, dourados e enormes. Quase não havia traço do preto. Ela estava respirando com dificuldade. Inclinei meu corpo para a frente, tentando recuperar o fôlego. Cada nervo do meu corpo tinha sido incendiado, um de cada vez. Tiffany ergueu a cabeça e mal consegui ver seu rosto na confusão de cabelos e terra. Só o estranho brilho dourado.

— Se afaste de mim — pediu lentamente, como se cada palavra viesse de um lugar profundo e intocável dentro dela.

Yuri saiu da água e começou a passar uma toalha pelo cabelo. Ela estava ridícula com os mesmos óculos de natação de plástico que a mãe dela a obrigava a usar quando éramos crianças.

— Perdi alguma coisa?

Toquei no meu lábio, fazendo uma careta, e olhei para meus dedos. Sangue.

Tiffany ficou de pé e começou a se afastar de nós.

Eu podia ter te matado.

Ela se virou e correu em direção às árvores.

—Tiffany!

Saí correndo atrás dela.

Correr pelos bosques da Carolina do Sul descalça não é algo que eu recomende. Estávamos passando por um período de seca, e a área ao redor do lago tinha ficado coberta de espinhos, que cortavam os pés como milhares de pequenas facas. Mas continuei correndo. Eu podia ouvir Tiffany mais até do que vê-la enquanto corria esbarrando nas árvores à minha

— Afaste-se de mim!

Um galho pesado de pinheiro se partiu e caiu sem aviso, despencando na trilha alguns metros à minha frente. E já ouvia outro galho estalando mais a frente.

Fany, você enlouqueceu?

Galhos caíam ao meu redor, passando a centímetros de mim. Longe o bastante para não me atingirem, mas perto o suficiente para deixar clara a intenção.

Pare com isso!

Não me siga, Taeyeon! Deixe-me em paz!

Conforme a distância entre nós aumentou, corri mais rápido. Troncos de árvores e arbustos caíram passando por mim. Tiffany desviava por entre as árvores, sem seguir um caminho claro. Estava indo em direção à estrada.

Outra árvore caiu na minha frente, presa horizontalmente nos troncos de cada um dos meus lados. Fiquei presa por um momento. Havia um ninho de águia-marinha de cabeça para baixo na árvore partida. Coisa que Tiffany, em um momento de sanidade, jamais sonharia em fazer. Toquei nos galhos, verificando se havia ovos quebrados.

Ouvi o som de uma moto e senti um vazio no estômago. Empurrei os galhos e passei. Meu rosto estava arranhado e sangrando, mas cheguei à estrada a tempo de ver Tiffany subindo na garupa de uma Harley.

O que você está fazendo, Fany?

Ela olhou para mim por um segundo. Depois desapareceu na estrada, os cabelos pretos ao vento.

Afastando-me daqui.

Seus braços pálidos se agarraram ao motoqueiro do estacionamento da Jackson High, o furador de pneus.

A moto. Finalmente consegui lembrar. Estava em uma das fotos de cemitério de Tiffany, a que sumiu da parede assim que perguntei sobre ela.

Ela não pularia na garupa da moto de um cara qualquer.

A não ser que o conhecesse.

Naquele momento, eu não sabia o que era pior.


Notas Finais


AAAAAAAA VOCÊS VIRAM OS FOTOS TEASERS DA HYO E DA JESSICA? 2 DEMONIAS PRA DESGRAÇAR A MINHA VIDINHA E AH ESTÃO ANSIOSOS PRO MAMA ? (eu to morrendo de ansiedade pra ver a Taeyeon perfomando)

o que tao achando do encaminhamento da fic ? o que acharam desse cap ? (espero que tenham gostado)

beijinhos, amo voces e um xero <3


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