História Behind Closed Doors - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias SHINee
Personagens Jinki Lee (Onew), Jonghyun Kim, KiBum "Key" Kim, Minho Choi, Taemin Lee
Tags 2min, Dark!jongkey, Jonghyun, Jongkey, Key, Shinee
Exibições 201
Palavras 22.307
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Drama (Tragédia), Lemon, Romance e Novela, Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


*ressurge da tumba feito um zumbi ao som de why so serious.mp3* TANTANTARAM

olha quem tá viva! eu, ana, pois sim, e com um capítulo de 22mil palavras e algumas cacetadas. eu senti muita, muita falta de escrever e do pessoal aqui, mas... muita coisa aconteceu esse ano e eu peço perdão por abandonar minhas histórias. eu poderia entrar em detalhe mas estaria dando desculpas e /isso/ é algo que não quero: minhas desculpas serão dadas por meio de capítulos, o quão antes eu puder escrevê-los.

passei um tempão no lado internacional do fandom de SHINee então meu vocabulário de português tá meio... enferrujado otl. também estou tendo que lidar com um problema chato de atenção enquanto as lentes novas dos meus óculos não chegam, por isso imploro que relevem certos erros. não tenho tempo pra revisar o capítulo agora (limite de tempo no pc ;___;), mas juro juradinho que amanhã, quando voltar da escola, vou polir esta bagunça aqui direitinho.

ah, antes de irmos ao capítulo, algumas coisas:

*Não deixe o 'parte final' no título do cap te assustar. só quer dizer que é a parte final da série de flashbacks retratando o relacionamento Taemin/Minho (que aliás pegou fogo neste capítulo hooooooooo), e a partir daqui vamos seguir com a história sem interrupção.

*O QUE SIGNIFICA QUE TEM PUTARIA COM JONGKEY NO PRÓXIMO, É. >:)

*O personagem que começa a relatar este capítulo é o Kai, por razões que verão adiante. ele só vai voltar a ser de importância ao final da fic, no entanto. (aviso tanto para aqueles que gostam quanto para os que desgostam dele lol.)

*O capítulo está dividido em partes: I - Danger, II - The Rain, III - Sweat and Tears e IV - Blood. o título delas é o título da música que me ajudou a escrevê-las (ou editá-las, já que vim escrevendo este capítulo há meses). na ordem: Danger - BTS // The Rain - Ladies Code // e a música das terceira e quarta é a mesma, Blood Sweat and Tears do BTS, só mudei a ordem das palavras.

*Uh, mais alguma coisa...? ah, sim. alerta de manifestações de afeto exageradas, doçura excessiva, idiotice da parte do Minho, abuso sexual (o que implica sexo em si, mas né. pra ser específica, cena de blowjob), automutilação e a vagabundice toda que vocês todos gostam.

sintam-se livres pra me matar lmao mas comentem primeiro, por favor. <3 minha inspiração está lá no chão e um pouco de incentivo faria milagres ;;

♡ revisado 18/10/16 às 00:52 ♡

Capítulo 6 - 06: A Silver Moon of Dream-Like Memories (Parte Final)


06: A Silver Moon of Dream-Like Memories

 

 

Parte I:

DANGER

 

 

Os lobos com os quais Jongin sonhava não corriam sobre quatro patas.

Também não eram cobertos de pelugem, e suas mandíbulas tampouco eram afiadas. Não — os lobos que os perseguiam durante os sonhos que o mantinham acordado à noite eram criaturas nuas e de pele enrugada, aquecida por grossas camadas de mentiras intricadas e de veneno escorrendo do canto de suas bocas famintas. Caminhavam sobre duas pernas assim como ele, mas não havia como confundir o brilho lunático em seus olhos: Jongin sentia nos pelos em sua nuca que se arrepiavam; sabia de todas aquelas vezes que correra em círculos, sozinho e rouco de tanto chorar, na esperança de espantá-los de seu rastro.

Mas o que ele deveria saber — o essencial — era que não havia como escapar. Uma vez que as feras provassem uma única gota de seu sangue, elas viriam atrás de mais, de sua carne e veias e entranhas até que nem mesmo seus ossos pudessem descansar em paz.

Paz, uh. Se fizesse certo esforço, Jongin conseguia resgatar fragmentos de memória onde paz era uma constante — mas esses momentos se extinguiam num piscar de olhos, despedaçando-se entre os dentes de seus predadores de duas pernas. Há quanto tempo aquele delírio já durava? Existira alguma vez em que seus crepúsculos não foram recheados de pés doloridos, de gemidos patéticos de temor e do uivar incessante de uma matilha inteira abocanhando seus calcanhares?

Oh, ele havia ouvido falar sobre lobos em pele de cordeiro, sobre o quão astutos e maquiavélicos eles podiam ser quando possuíam uma presa na mira.

E quanto mais pensava naquilo, Jongin — covarde, fracote, temeroso Jongin — chegava à conclusão de que ele era, afinal, o cordeiro em falsa pele de lobo.

 

 

 

“Eu nomeio Kim Kai.”

Do Kyungsoo era o que muitos chamavam de A Imagem da Perversão. Tentativas frustradas à parte, Jongin não conseguira encontrar algo que apontasse o contrário. A Imagem Da Perversão tinha pele alva e leitosa e uma curva debochada no canto dos lábios — carnudos e pequenos e adoráveis — que nem aqueles olhos grandes e recheados de inocência podiam suavizar. Falsa inocência, aliás. Jongin nunca vira Kyungsoo libertar seu lobo anterior antes, uma notável anomalia em meio a selvagens em seu habitat natural; no entanto, nas raras circunstâncias que encontrara os olhos do garoto mais velho com os seus, o que vira não se assemelhava em nada com a demência de um animal engaiolado.

Kyungsoo não dava sinais de estar contendo sua fera interior — então por que a sensação de desconforto, a tensão que Jongin sentia acumular-se em seu estômago toda vez que aquele par de pérolas negras percorria o cômodo à procura de sua presença? Talvez devesse repreender-se por tamanha pretensão — ou talvez pudesse permitir-se a tal, pois, imaginação ou não, os olhos de Kyungsoo sempre adquiriam um brilho singular ao fitarem os seus apenas e os de mais ninguém.

“O que está fazendo parado aí, Kai?”

A bolha de torpor estourou ao redor de Jongin. Longe de ser surpresa alguma, a bagunça roubava os ares de elegância da Sala Comunal, repleta de risos e uivos — lobos? Não, não, aquelas eram pessoasveja, elas não têm garras. Mas lobos também caminhavam sobre duas pernas, não era? — que, por mais barulhentos que fossem, não o distraíram do ligeiro subir de sobrancelhas vindo a ele do outro canto da sala.

Kyungso era como um foco de luz no escuro em momentos que Jongin não sabia para onde olhar.

Ele ficaria contente em se entregar para sempre ao papel de cervo pego na frente dos faróis não fosse Baekhyun, que até onde Jongin sabia surgiu dos quintos dos infernos e caiu sobre si com um tropeço floreado, esbarrando a cabeça na sua. Atordoado, não notou a breve tensão na mandíbula de Kyungsoo, ou no modo como este se esquivou para um canto mais recluso.

Até então Jongin lutava para se esquivar dos beijos de Baekhyun e grunhiu sob a pressão de uma inesperada chave de braço; a única coisa boa que podia tirar daquilo era que o aperto abafava o ruído irritante da gargalhada de seu agressor. Todos os olhos haviam se voltado para eles — para ele, e Jongin suspeitava que a atenção atraída fosse mais mérito da atitude espalhafatosa de Baekhyun do que do fato de estarem ambos em cima da mesa de centro.

Baekhyun bagunça deixavam de ser sinônimos por um fiozinho de nada.

“Este é meu campeão—criei ele com minhas próprias mãos, se quiserem saber!” Jongin os esquivou de um copo de plástico jogado naquela direção; Baekhyun imediatamente se partiu em gargalhadas. Os outros oito — sete, corrigiu-se Jongin, incapaz de não notar a figura pálida e estóica de Kyungsoo reluzindo em meio a um canto habitado por sombras — imitaram sua reação, entoando “Kim ‘Kaipeão’!” e outros gritos igualmente grotescos de — supunha que assim fosse — encorajamento.

E enquanto uma parte de si dizia que a última coisa que devia estar fazendo era encarar a medusa nos olhos, Jongin se recusava a largar o jogo sem que Kyungsoo erguesse sua bandeira branca primeiro. Estupidez sua imaginar que Do Kyungsoo se conformaria com uma trégua.

Jongin só pôde encarar ao passo que figura do mais velho se aproximava de si.

Isso era algo novo — Kyungsoo detestava de expor — e excitava Jongin. Num ato de bravura — e o que é que um cordeiro em pele de lobo sabia sobre bravura? —, ele deixou-se curvar os joelhos, mantendo-os na altura ideal para que a respiração quente e ritmada de Kyungsoo roçasse em sua garganta.

“Boa sorte nos Jogos,” Do Kyungso sussurrou, como se sua própria voz não houvesse nomeado Jongin Campeão, não houvesse ele mesmo enfiado Jongin naquele jogo entre lobos. “Espero que vença, de verdade. Seria uma pena se fracassasse e acabasse se tornando o Alvo de alguém mais além de mim, Kim Kai.”

Você é o ponto vermelho no centro do alvo e eu estou apostando todas as minhas flechas em você, foi o que Jongin compreendeu. Qualquer pessoa com o mínimo de juízo correria do fardo de estar sob a mira da Imagem da Perversão, e no entanto... de algum jeito, Jongin não se sentia em perigo.

Covarde, fracote, temeroso e estúpido, como provava-se agora.

“É... uma honra ter sido nomeado,” murmurou Jongin, na mesma entonação airada. “Não vou te decepcionar, Kyungsoo.”

Podia jurar que a curva nos lábios de Kyungsoo quando este se virou não levava consigo o usual traço de deboche, o que já era estranho em si. Mais estranho ainda, decidiu Jongin, foi o beijo suave depositado em seu pescoço antes que a figura de olhos brilhantes se dissolvesse em pleno ar.

 

 

 

Jongin estava sozinho.

Em teoria, a ausência de olhares à espreita deveria garantir-lhe algum senso de alívio, por menor que fosse; exceto que não era o caso. Talvez fosse esse mesmo o problema. A convivência contínua com seus predadores tornara-o cauteloso, desconfiado da própria sombra quando esta não estava à vista. Costurara sua fantasia de lobo tão próxima à derme que não sabia mais distinguir pele de felpa. 

Ali, sozinho, Jongin carecia de firmeza sobre quem era. O disfarce era úmido e incômodo, aderindo-se a todos os lugares errados de seu corpo. Ele queria poder usar suas presas para arrancá-la fora de uma vez por todas, mas estas também eram frágeis e falsas.

Dinheiro nunca fora uma constante na vida de Jongin. Jamais tomara isso como empecilho, seguindo a fio o conselho de sua mãe: o de que ser pobre em dinheiro não era brecha para permitir-se ser pobre de alma. Sentia-se privilegiado por ter sido educado e criado por uma das mulheres mais doces, mais gentis e fortes que conhecia, e por ter a oportunidade de erguê-la a seus olhos como inspiração para encarar os desafios impostos a si.

Nos últimos tempos, entretanto, a imagem de sua mãe vinha dissolvendo-se em sua memória. A vergonha corrompia cada canto de sua mente feito ácido.

Ninguém sabia de sua origem humilde. Ninguém sabia da bolsa integral que conseguira com 97% de aprovação no teste de entrada. Ninguém sabia que Kai era uma marionete grotesca por trás da qual Kim Jongin se escondia.

A não ser por Kyungsoo.

Jongin estivera tão certo de que enterrara as pistas de sua vida fora daqueles portões; estivera tão certo de que o interesse inicial do garoto mais velho em si fora impulsionado por intenções genuínas. Jongin era um idiota. Era algo que sua mãe lhe dizia, também, quando pressionada pelo estresse de sustentar a eles dois. Garoto estúpido, confiando nas pessoas! Não venha chorando atrás de sua velha mãe quando enfiarem uma faca nas suas costas e tirarem de você aquilo que não tem!

O curioso era que Kyungsoo não lhe tirara coisa alguma — pelo contrário. Kyungsoo lhe dera tudo e além. Roupas novas, livros novos, todo tipo de comida de gente rica — e um lugar, junto a uma reputação sólida, na Mesa A.

Como Kyungsoo descobrira era um mistério, e algo que podia ser questionado depois. Jongin tinha prioridades — uma delas sendo a dívida que deveria pagar por aquele ato mais tarde. Perguntaria a Kyungsoo se tivesse coragem, o que obviamente não tinha. E Kyungsoo apenas o observava, sem dizer nada. Sem nomear seu preço.

Certamente não hesitara em nomear-lhe peça principal daquele jogo sádico, pensou Jongin, bufando.

Ele não queria ser o campeão de Baekhyun, ou o campeão de porra alguma, não quando de campeão, peão era a única coisa que Jongin sempre seria. Ele conhecia aquele sistema. Como as inúmeras outras gangues do colégio, a EXO caçava em bando, mas o campeão, nomeado em cada rodada, tinha preferência sobre o pedaço mais suculento da presa.

Era um teste. Para o azar ou sorte deles, Jongin era um às em testes. Ainda existiam suspeitas em torno de sua presença na gangue, e capturar o Alvo bastaria para fazê-las desaparecer. Não, não capturar. Aniquilar.

Primeiro vem o pega-pega — era a voz de Do Kyungsoo, e não sua, que reverberava pelos ouvidos de Jongin, e ele sabia que se o mais velho estivesse ali, o repreenderia por não estar prestando atenção em seus arredores.

O corredor estava vazio e silencioso salvo os sons da batalha se desenrolando nos andares próximos; e, de qualquer forma, considerando quem era seu Alvo, Jongin não achava que uma aproximação silenciosa fosse fazer muita diferença.

Huang Zitao não vai ser uma presa fácil para você, sussurrara Kyungsoo contra sua bochecha no espaço apertado do armário de serviço, para onde o havia puxado assim que a baderna dentro da Sala Comunal da EXO fora cortada pelo soar rouco da sirene que simbolizava o início dos Jogos — o Uivo do Lobo, como gostavam de chamar.

Eu já o vi treinar sozinho uma vez, Kaiele vai tentar te pôr no chão no instante em que você se revelar. Se ele não tiver uma daquelas malditas espadas chinesas escondida em algum lugar, é claro.

Perto demais; Kyungsoo estivera perto demais. Jongin ainda podia inalar o aroma de chiclete de framboesa — um cheiro requintado de Kyungsoo — impregnado na gola de sua camisa.

Espa...? Como assim, armas são estritamente proibidas

Yeah, yeah, mas contanto que ninguém morra, eu duvido que Taemin dê a mínima. Você não?

Lee Taemin — a razão para todo aquele Circo dos Horrores. Jongin havia conversado pessoalmente com o Presidente do Conselho Estudantil, uma vez, e diferente de Kyungsoo, não houvera nada de aroma inebriante ou presença cálida sobre Taemin. O garoto era como um cadáver cuja beleza fora preservada num caixão de cristal moldado sobre sua pele, seu interior pútrido e recheado de peçonha.

Isso não faz sentido, o murmúrio frustrado fizera caminho por entre o par de lábios de Jongin, palavras roçando com gentileza a têmpora do menor. Por que Zitao seria escolhido como Alvo se ele pode lutar?

Ele é não é um lobo, Jongin, dissera Kyungsoo, por fim encarando-o nos olhos.

E nós dois sabemos que você também não é.

 

 

 

Uma parede de caos o atingiu de frente, sólida e rompante.

Num piscar desnorteado dos olhos, Jongin não estava mais sozinho. Coiotes e lobos — tantas feras e por todo o lugar, gargalhando e rosnando, dentes rangendo atrás de um gostinho da presa que, no momento, não se encontrava em lugar algum.

Jongin viu Yixing ser arremessado de cabeça contra a parede e congelou em horror ao tomar nota de quem liderava a outra gangue. Kim Jonghyun, o Cachorro Louco. Outrora um cachorro vira-lata, agora a momentos de mostrar que merecia a fama com mérito de sobra.

Numa situação ideal, Jongin torceria os calcanhares e correria dali sem arriscar olhar para trás e seu disfarce que se danasse. Na realidade, Jongin preparava-se para fugir quando Huang Zitao despontou da curva do corredor, olhos estreitos alargando-se em choque ao absorverem a imagem do pandemônio que aguardava por ele.  

Um relance aos arredores apontava que ninguém além de Jongin percebera sua presença ali. Para aqueles engajados na briga, o tempo continuava a escorrer e cada segundo era uma cicatriz a mais no rosto de alguém. Aos fundos, Baekhyun agonizava de bruços no chão, e Chanyeol buscava vingança pelo o que quer que tivesse acontecido ao outro, uma garrafa de vidro quebrada nas mãos.

Zitao recuou um passo e Jongin avançou outro, olhos nublados como nuvens no céu em noite de lua cheia. Ele sentiu suas — falsas — presas alargarem.

Não vou te decepcionar, Kyungsoo.

 

Jongin lançou-se na direção do Alvo, e o mundo ao seu redor espiralou-se num burrão.

 

 

 

 

Parte II:

THE RAIN

 

 

 

“Okay, escute, eu já disse que está tudo bem. Relaxe, Jinki.”

Para alguém culto e de vocabulário tão extenso como Jinki, a definição de relaxar era estranhamente faltosa ao seu conhecimento.

Minho não via razão para tamanho alvoroço — era só um resfriadinho de nada. A tempestade era a única a ser culpada, vinda de surpresa e desabando sobre eles sem piedade. Além do mais, Jinki estava tão encharcado quanto ele. Não havia base alguma naquele ato de quem cometera o Pecado dos pecados.

“Eu—ah, droga—eu realmente, realmente sinto muito—“

“Jinki—“

 “Eu sou tão—eu sou tão estúpido, caralho. Tão, tão estúpido, um idiota, um completo imbecil...” Considerando a natureza hostil das palavras, Minho supunha que não fosse intenção do garoto mais velho ser ouvido. “Taemin está certo, sempre está certo. Um inútil de um gordo idiota...”

“Hey,” Minho tentou, rezando para que o toque de sua mão no ombro do outro fosse tão gentil quanto o nuance de sua voz.

O Vice-Presidente do grêmio ergueu o rosto e fitou em estranheza o sorriso gentil direcionado a si. A reação só fez Minho sorrir ainda mais por sobre a frágil tristeza que sentia ao ouvir alguém como Jinki pensar sobre si de tal forma cruel.

“Você é legal, e é uma gracinha, e não pense que não percebi quando colocou sua jaqueta sobre mim para me proteger da chuva.”

Sua mãe sempre lhe dissera, não sem humor: você é charmoso demais para o próprio bem.

Minho não era um playboy, muito menos um player — os jogos que o interessavam se restringiam aos gramados e aos vídeo-games. A ideia de usar seu charme natural para a canalhice jamais lhe passara a cabeça. Era uma mera questão de ser espontâneo: se algo sobre alguém o encantava, não se acanhava em fazer-los ter ciência de tal. Era bom fazer as pessoas se sentirem bem.

As breves circunstâncias em que sua honestidade fora confundida com flerte descarado o levaram, uma vez ou outra, a questionar aquele aspecto de sua personalidade, mas reações positivas como a de Jinki — bochechas cheias manchadas de vermelho e lábios franzidos na caça a um sorriso fugitivo — espantavam as dúvidas para longe.

Jinki abrira a boca para rebater, decerto a meio caminho de algum comentário auto-depreciativo, quando o ranger da porta da enfermaria ao se abrir engoliu o som prematuro de suas palavras.

“Ah, perdão, os deixei esperando por muito tempo—? Hey, Lee!” O enfermeiro, surpreendentemente alto e jovial, reluziu frente à figura de Jinki. A expressão de Jinki escureceu e Minho teve a sensação de que o sentimento não era recíproco entre os dois.

“Changmin-ssi.”

Max,” corrigiu o enfermeiro. “Bobinho, quantas vezes terei que dizer para deixar as formalidades de lado? Está aqui para buscar o medicamento do Lee no.2, suponho? Ouvi que as novas doses são bem... fortes. Sem ofensa, mas a este ponto já deveriam ter trancado o garoto num manicô—”

“Eu não estou aqui por Taemin,” cuspiu Jinki. “E tome cuidado com o que e a quem diz, Shim Changmin—ou Max, ou o diabo que for. Choi Minho precisa de remédios para resfriado e de um uniforme novo,” ele terminou, impaciente.

Em poucos segundos, a postura do Vice-Presidente sofrera uma alteração drástica. O timbre grosseiro e autoritário evocava respeito, a ponto de Minho querer erguer-se e curvar-se a ele — algo que Changmin não fora estúpido de ignorar.

O enfermeiro concedeu com um bulir da cabeça. “Você tem a mais plena razão, Jinki-ssi. Não falharei com meu profissionalismo outra vez.” E voltou-se para Minho, que até então flutuava distante da órbita de conversação. “Choi Minho, uh? Por favor, venha comigo. Aluno novo, correto?”

“Uh, yeah.”

“Presumi. Teria sido um pecado me esquecer do rosto mais bonito que eu vejo em anos.”

Minho chacoalhou um arrepio e o seguiu para dentro da enfermaria, dizendo a si mesmo que era apenas o frio e nada relacionado ao sorriso desconcertante de Changmin.

O cheiro de esterilização era detestável, mas o ambiente era claro e lustroso e as camas enfileiradas lado a lado pareciam confortantes o bastante. “Sente-se,” instruiu Changmin, “e tire as roupas.”

Fale sobre ser assertivo, huh. Minho esperou até que o enfermeiro estivesse de costas para livrar-se da jaqueta, camisa e meias. Changmin lançou-lhe um olhar de soslaio.

“As calças fazem parte da vestimenta, sabe,” cantarolou ele, ao que Minho respondeu:

“Preferiria mantê-las, se não tiver problemas.” Preferiria mantê-las enquanto perto de você. Embora silenciosa, sua desconfiança fez-se ruidosa — o que arrancou de Changmin uma risada.

“Aww, que garotinho esperto,” ronronou Changmin, todo escárnio de início ao fim. O que inicialmente ele tomara por jovialidade, Minho percebia agora, não se passava de absoluto deboche. “Sorte minha que cérebro e bolso não se relacionam nesses casos, hmm?  Ah, olhe—tem um uniforme reserva aqui que vai servir, acho.”

Pior que o cheiro forte de esterilização era o cheiro pútrido de tirania vindo de Changmin. Minho não tinha o costume de ser encarado de cima daquela maneira, ou de sentir-se tal qual um animalzinho encurralado. Changmin aproximou-se, forçando entre eles um ar de intimidade que deveria estar em qualquer lugar exceto ali. Minho apertou as roupas úmidas contra o peito.

 “Uniforme novo—verifica. Remédio para tosse e inflamação—verifica,” murmurou ele, acompanhando a enumeração com os dedos. “Fica em torno de 109540 won. Se não puder, ou não estiver disposto a pagar, um boquete também serve, suponho.”

Minho sentiu as veias gelarem. Um... um...?  Aquilo era parte de alguma pegadinha sádica, só podia ser. Era a única explicação cabível para o divertimento inalterável dançando livremente nas feições de Changmin.

“Não pensou que as coisas aqui corressem na base da caridade, pensou?  Esta instituição em particular é cara, e eu não digo isto com leveza. Muita gente se mata para pagar as taxas mensais e acaba não sobrando para despesas adicionais como livros, roupas... remédios. Você vê, Choi Minho, que como um profissional de integridade, eu jamais poderia negar a um aluno em necessidade o acesso a uma boa saúde. A falta de dinheiro não é um problema para mim. Agora, se os meios alternativos que eu os ofereço são de moralidade questionável... com toda a franqueza, há coisas piores do que chupar meu pau esperando por eles através daquelas portas.”

A imagem de Changmin lambendo os beiços lembrava a Minho de um abutre banqueteando-se em carne podre, e por um momento ele quis vomitar.

“Uma pena que você me parece ser cheio da grana.” O enfermeiro suspirou. “Algo me diz que nos divertiríamos juntos, não acha? Hey, não precisa me olhar assim. Vou colocar as despesas na sua conta, relaxe.”

Minho quase que não arrancou as roupas secas e os frascos de remédio das mãos pegajosas de Changmin, resoluto em deixar o lugar o quão rápido possível. Enfiou-se na jaqueta de tweed e apressou-se para saída, fingindo não ouvir a voz ressoar às suas costas:

“Mal posso esperar para vê-lo de novo, Choi Boy~”

Minho rezava pelo contrário.

 

***

 

Não era um de seus dias de sorte, Minho concluíra. Seus planos de encontrar Jinki e relatar a ele o episódio da enfermaria foram frustrados pelo sumiço inopinado do Vice-Presidente, cujo papel de guia fora tomado por um garoto esguio e de semblante delicado que afirmava chamar-se Luhan.

O tal Luhan fulano sofria de um grave caso de falta de senso de privacidade. Falava com as mãos mais do que com a boca — conquanto esta também não ficasse para trás — e fazia pouco caso do fato de estar grudado feito uma sanguessuga a um completo estranho.

Minho ignorava o próprio desconforto parte em cortesia, parte porque, sozinho, não teria como navegar pelo labirinto de corredores.

“Faz tanto tempo que não temos uma cara nova na nossa mesa!” Luhan gralhava alegremente. “Você é alto, uh? E forte. E ruivo. Hmm. Bem exótico. Seria metade americano, talvez?”

A questão trazia em si uma nuance de retórica, mas ainda sim Minho replicou: “Meus pais são coreanos. Ambos.” Era rotina ser confundido com um estrangeiro, já.

Luhan piscou os olhos de gazela.

“Oh. Ohh! Engano meu, perdão. Isso não foi ofensivo, foi?”

Minho sacudiu os ombros.

“Legal da sua parte não ligar, mesmo,” continuou Luhan, “especialmente quando todos os outros aqui são uns xenofóbicos do caralho. A maioria, pelo menos. Até agora só não fui espancado—ou estuprado—até a morte porque Kris concordou em me proteger, e o cara é, tipo, um gigante. Ninguém é estúpido de mexer com ele. Coreanos puros detestam mestiços—chineses em particular.”

“Não só coreanos puros são assim,” murmurou Minho em resposta. Sua experiência na América, que tanto se vangloriava de seus ideais liberais, fora marcada por manifestações de racismo — sutis e diretas.

Luhan cutucou-lhe o braço. “Aww, vamos lá, não faça essa carinha de enterro! Eles vão amar você. Principalmente se falar mal dos americanos! Eu mesmo faria piada à custa da minha raça para cair nas graças deles, mas você sabe, isso meio que seria autoflagelação. Além do mais, meu ego é enorme. Ainda estou tentando descobrir se isso é bom ou ruim.”

Eles pausaram frente a portões de madeira e ferro pesado. Agora que pensava com clareza, Minho via que certos pontos da arquitetura do lugar era um misto de rústico e moderno, com predominância de paredes de pedra e lustres antigos pendurados no teto nos andares inferiores.

Por um lado, era encantador; por outro, a atmosfera sombria lembrava a uma masmorra medieval. O tilintar de talheres e o rumor vindos por detrás das portas era quase inaudível, afogando o corredor adjacente num silêncio ameaçador.

Felizmente, Luhan logo os levou para dentro, onde o ar era quente e o cheiro de comida abundante fez saliva inundar a boca de Minho. O que Luhan dissera sobre a xenofobia ali corrente ficou nítido nos olhares indiscretos lançados a eles à medida que avançavam hall adentro. Apesar disso, o garoto chinês caminhava de queixo erguido.

Minho queria perguntar por que o refeitório só contava com duas grandes mesas quando o espaço tinha capacidade para várias delas, mas a dúvida lhe escapou nas costas de um pensamento fugaz. 

“Não está, ah, meio... lotado por aqui?” Minho titubeou. “Por que não vamos para a outra—”

“Sehun, você cai fora. Está expulso da mesa A.”

Sehun — o garoto a quem Luhan se dirigia com tamanha rispidez — ergueu as sobrancelhas ao topo da testa. Estava tão incrédulo quanto Minho: aquele não soava como Luhan. O doce e tagarela Luhan de antes dera lugar a uma versão frígida e estóica de si.

Sehun pôs-se de pé num ímpeto e Minho xingou baixo ao notar que ambas as mesas caíram em silêncio, seu foco desviado para onde os três estavam. Não tenho nada com isto, não tenho nada com isto, não tenho nada com isto—

“Ficou maluco? Luhan!”

 “É Luhan-ssi para você,” disse Luhan calmamente. “E eu estou perfeitamente—“

“Luhan-ssi porra nenhuma!” Quando Sehun se jogou para frente, Minho teve convicção de que assistiria Luhan ser destroçado bem ali naquele ponto, mas não foi o caso: o garoto mais alto agarrou o mais esbelto pela camisa, mãos trêmulas fechadas em punhos. “Você é meu namorado, que infernos pensa que está fazendo...”

Luhan empurrou-o com igual brusquidão. “Um, você foi uma vergonha nos Jogos de hoje. Desmaiando no meio da briga—que fracote. Não foi decisão minha, amor, então guarde sua angústia adolescente para o resto da EXO. E dois—você não é meu... namorado. Não mais.”

“Não. Não, não, só porque eu perdi nos Jogos...”

“Sim, Sehun, só porque você perdeu nos jogos,” cuspiu Luhan, impaciente. “Agora vai, xô, xô! Vá comer com o resto dos perdedores, se ainda tiver sobrado alguma coisa.”

Minho mal pôde desfrutar dos últimos momentos do intervalo, preso nos detalhes da cena que se repetia em sua cabeça como um filme ruim. Nem mesmo o delicioso sabor do tteokbokki lhe servido — o favorito de Minho — foi capaz de afastar o gosto amargo que a partida indiferente de Luhan após a briga impregnara em sua boca.

Desculpe, tenho tarefas do Conselho Estudantil a cumprir, o garoto lhe dissera, ainda naquele tom categórico. E me desculpe por... isso tudo. É difícil de explicar. Por enquanto... fique atento enquanto come, Minho, ou esta gente aqui pode acabar devorando você.

Soara estranhamente como uma premonição.

 

***

 

Os céus choraram sobre Seul por mais três dias até o sol varrer a umidade e o frio por completo, dando caminho a um clima morno e agradável. Indiferente ao clima, cada segundo enclausurado entre as paredes da S&M era uma mancha escura nos humores de Minho.

Seus estudos iam bem. A rotina era puxada, os professores, impassíveis; nada que oferecesse desafio, contudo. Sua presença na hora do lanche fora bem recebida — diria mesmo que era almejada. Era... esquisito. Em vez do alívio cálido de ser aceito pela maioria, o sentimento que volvia ao seu redor era frígido e sintético, como se alguém tivesse carimbado um ‘Aprovado’ de verde em sua testa.

Strike um.

Jinki esvanecera sem deixar rastro de fumaça, e o deslumbre que a vastidão do colégio trouxera-lhe de primeira fora substituído por crua frustração. O máximo de palavras que Minho trocara com alguém naquelas duas semanas se limitara a um bate-papo superficial com um garoto de sua mesa que se mostrara fluente em inglês — ‘You are Minho, right? I’m Key. Kibum, actually, but you may call me Key.’ — uma concisa interação brutalmente interrompida por um namorado —noivo, diziam certos rumores — ciumento.

Minho sempre fora um indivíduo sociável. A fome por algum, qualquer tipo de contato físico e mental interpessoal o corrompia de dentro para fora, feia e não usual.  

Strike dois.

Por último, os sussurros.

Tão sutis, inaudíveis e invisíveis que o Minho de outrora teria dispensado como imaginação sua. Eram sussurros secretos na forma de brisa, mais fáceis de serem sentidos do que ouvidos, queimando em sua nuca quando quer que virasse as costas. Esses sussurros falavam sobre coisas monstruosas que aconteciam sob o teto da S&M nas quais Minho se recusava a acreditar.

Strike três.

A tonelada de tensão sobre seus ombros precisava ser aliviada o quanto antes, e a oportunidade perfeita veio naquele dia de sol ameno.  Educação Física. A quadra externa do colégio estava tomada por alunos dos segundos e terceiros anos e Minho serpenteou através deles, acenando para uma ou outra face familiar.

“Hey, olhe lá, é o Troll. Cuidado pra não bater a cabeça num galho, Gigante!”

Minho se virou e — ah. Era o delinquente do portão. Ele bulia uma bola de rugby entre as mãos, e por baixo da pose lesada havia um toque ligeiramente... selvagem sobre si. Talvez fosse o brinco afiado pendendo de uma orelha; quem sabe os cabelos platinados raspados dos lados, ou os lábios secos e rachados. Fora do uniforme da escola, Minho via o quão muscular ele era. Ele arqueou uma sobrancelha.

“O que foi que fez com o dinheiro que roubou de mim, Gnomo? Devia ter comprado um salto alto.”

“O Gnomo,” repetiu o baixinho entredentes, “se chama Kim Jonghyun, e ele poderia foder você inteiro numa partida de rugby usando salto alto.”

Finalmente, uma pitada de excitação. Os que estiveram ali se aquecendo e se engajando em amistosos passes de bola de repente formaram o círculo em volta dos dois, atraídos pelas centelhas que faiscavam do confronto.

O monstro competitivo que existia em Minho silvou em deleite. “Certeza? Ouvi dizer que rugby é jogo de gente grande.” 

Jonghyun umedeceu os lábios.

“Tu não vai ser assim tão grande quando eu te fizer aos pedaços.”

Minho descobriu, de uma maneira não-tão-agradável, que Kim Jonghyun era um cara de palavra.

 

***

 

O cheiro nauseante de hospital foi a primeira coisa que Minho registrou ao acordar — a segunda foi o fato de estar na enfermaria de todos os lugares, e a terceira a percepção de que não possuía a mínima noção de como parara ali.

Um riso depravado vindo do canto ao seu lado prometia respostas às suas questões. A imagem de Jonghyun, sentado à beirada da cama onde ele repousava, penetrou a visão cerrada de Minho.

“O que...”

“Você apagou legal,” disse Jonghyun. “O que foi que Changmin disse? Concussão?”

“Você me deu uma concussão,” concluiu Minho, secamente. A hora de morrer de constrangimento teria que ser adiada — o momento de brilhar pertencia à dor pulsante em sua cabeça. “Changmin—Changmin não está por aqui, está?”

Jonghyun fungou. “Não o vi por aqui. Deve estar molestando algum pobre coitado.”

Ele sabe, pensou Minho. E mais: a falta de inibição em sua fala insinuava que o que Changmin fazia na privacidade da enfermaria não era segredo. E ninguém faz nada?

Minho precisava encontrar Jinki. Precisava confirmar se as atrocidades que ouvira eram de fato verídicas.

São rumores, muito provavelmente. Jinki teria reagido se isso fosse verdade, não teria? Todos aqui devem ter se juntado para me pregar uma peça.

“Concussão,” Minho repetiu. “Puta merda, como foi que isso aconteceu?”

“Num momento você estava com a bola; no outro, meu cotovelo estava na sua cara e paft no chão. E sim, foi proposital. Considere isso minha forma de boas-vindas. Ótimas-vindas, eu diria—o rugby é apenas um treino, sabe. Você pode ser alto e forte, mas falta coragem de usar essa força... um desperdício.” Jonghyun emitiu um ruído de desdém; Minho tentou não sentir-se ofendido.  “No momento que os Jogos começaram pra valer, tu tá ferrado. Bye bye Mesa A, bye bye mordomia.”

A parte final de sua sentença funcionou como um gancho. Minho se ouviu perguntar,

 “O que... é esse tal de Jogo, afinal? Ouço falarem sobre isso o tempo todo e ninguém me diz o que é.” Ele pensou em Luhan; como humilhara Sehun em público em consequência desse Jogo.

Jonghyun o encarou sem piscar. O silêncio que se estendeu predizia maus agouros.

 “Você... você está bem mais ferrado do que eu pensava, Choi Minho. Por acaso já ouviu o nome Lee Taemin?”

 

***

 

O nome parasitou sua mente por dias a fio.

Lee Taemin.

Por vezes, Minho se dava o luxo de apertar os olhos e tentar desenhar sob as pálpebras um rosto que fizesse jus às coisas que Jonghyun lhe dissera.

“Você acha que eu sou louco, uh? Um monstro de presas afiadas? Taemin é um vampiro; incapaz de se saciar não importa quanto sangue drene.”

Baseado naquelas palavras, conjurou a imagem de um ser cadavérico, uma criatura morta-viva esquecida fora de sua tumba e de feições horríficas, consumidas pela decomposição.

Suas tolas presunções não chegavam aos pés da realidade.

O encontro ocorreu na terceira vez que se perdia dentre as instalações do colégio, a caminho da última aula daquela manhã. Minho vagou e vagou e decidiu ir na onda de um grande dane-se, cochilando junto a parede de um corredor ermo. Suas notas não sofreriam dano, que tanto fizesse.

Quando despertou, seu olhar foi imediatamente atraído pelo campo gravitacional da presença estranha à entrada do corredor, e Minho sentiu o ar escapulir de seus pulmões. O garoto era — era lindo. Tão negros eram os cabelos, tão macios os lábios e tão róseas as bochechas. Uma beleza exótica, rara, que transpirava, incontestavelmente, de dentro para fora.

“...Por acaso estaria perdido?”

“Não... quer dizer, hum, sim. Como sabe?”

Sóis cintilavam no sorriso do garoto.

“Foi uma suposição. Afinal você é novo por aqui, certo, Choi Minho?”

“...você sabe meu nome?”

O moreno fez que sim. “Mas você não sabe o meu, não é? Juro que não sou nenhum stalker, mas... digamos que tenho certo interesse em você. Se importaria se eu te acompanhasse até sua sala? Tem todo o direito de recusar, é claro.”

“Eu... não me importaria, não,” Minho respondeu. Soava estúpido aos próprios ouvidos. O garoto estendeu uma mão delicada, e quando Minho a tomou na sua, ambas formaram um encaixe perfeito.

“Eu sou Lee Taemin, o Presidente de Classe. Você já deve ter ouvido falar de mim por aí.”

 

***

 

“As regras dos Jogos são simples,” narrara Jonghyun a Minho em voz suave. Em algum ponto do diálogo o mais velho se espremera na cama da enfermaria junto a Minho. “Não mate ninguém. E só.”

“...Tá brincando.”

 “Tô mesmo? Taemin é o idealizador do circo todo. A razão? E eu é que sei? Nunca parei para contestar, nem tive vontade. Você tem que entender que há diversos lados da mesma situação. Antes, quando os pais de Taemin eram os diretos efetivos, a hierarquia era estamental. Bolsistas eram tratados feito lixo e os riquinhos sugavam todos os privilégios—isto é, quando não estavam fodendo com a vida de alguém. Ou fodendo alguém. Taemin criou os Jogos e com eles, a oportunidade de vira-latas como eu alcançarem esses privilégios. E funciona do contrário, também, como você viu com Oh Sehun. Taemin tirou dinheiro da jogada e nos tornou iguais.”

 “Um verdadeiro geniozinho do mal, aquele,” Jonghyun prosseguira. “Nos jogou no Inferno com a promessa de uma passagem pro Céu àqueles que sobreviverem.”

“Você tem medo dele?” Minho indagara.

“Medo...? Hmm. Eu não diria medo, medo. Eu consigo me virar. Receio, sim. Mesmo sendo o criador dos Jogos, Taemin nos despreza. Precisa ver o deleite e o nojo na cara dele quando ele acompanha as brigas. Não sei, mas acho que ele vê a todos nós como selvagens, incapazes de conter nossas feras. E ele se acha superior porque é um com sua fera.”

Jonghyun ergueu os olhos para ele.

“Dizem que ele tem... problemas. Tipo, mentais. E que Jinki, o primo dele, só está aqui pra garantir que ele não vai, sabe, pirar total. Taemin tende a ficar na dele, mas de vez em quando...” Uma curta hesitação. “Uma vez ou outra, ele... marcou, por dizer assim, certas pessoas aqui. Essas pessoas não continuaram no colégio por muito tempo.”

“Taemin as expulsou?”

“Taemin as fez implorar para serem expulsas, Minho.”

 

***

 

“...Eu ouvi várias coisas sobre você.”

“O quê—sério?” A risada de Taemin preencheu-lhe os ouvidos, rouca e airosa. Um convite espontâneo para o próprio Minho sorrir. “E olha que eu só disse aquilo para dar efeito. Que tipo de coisas andam dizendo sobre mim, hmm?”

Certas obras de arte enganavam o olho ingênuo, fabricando uma ilusão de perfeição facilmente desvendada por uma observação minuciosa. De perto, planos retos expunham linhas tortas, e truques de luz cobriam borrões de tinta.

Obras de arte em nenhures se assemelhavam a Taemin — porque Taemin era perfeição real e em movimento, rico em detalhes intrincados e cada vez mais vívidos à proximidade.

Eles compartilhavam o mesmo ar de tão perto que estavam, esparramados em almofadas dispersas no chão da sala do Conselho. Taemin o guiara de volta a sala de aula em vão, uma vez que a matéria já havia sido dada e os alunos se preparavam para inundar os corredores ao som impendente do sinal.

Pode estudar comigo, se quiser, Taemin oferecera. Modéstia à parte, estou algumas semanas a frente de todo mundo no assunto.

O garoto era brilhante. Coletava, processava, destrinchava e absorvia informações sozinho — não admirava que fosse seu próprio mentor. Enquanto trocavam anotações, antes de cederem à languidez do fim da tarde nas almofadas acolchoadas, Taemin confessara que possuía maior habilidade para números, e que seus pais tiraram proveito disso colocando-o no controle do planejamento financeiro da instituição.

“É quase como terapia,” articulara.

Minho não gostava da escassez de espaço entre eles. Não gostava do roçar acidental dos cabelos de Taemin em sua face toda vez que o garoto se inclinava um pouco sobre si para alcançar um livro, nem do cheiro adocicado de frutas que exalava dos fios escuros. Não gostava de estar tão perto que era capaz de contar seus cílios um por um.

Não podia se permitir gostar da familiaridade com a qual Taemin o tratava — como se fossem velhos conhecidos —, pois cedo ou tarde teria que fazer uma escolha árdua: acreditar em Jonghyun ou acreditar em seus instintos. Instintos que viam em Taemin uma fragilidade sólida e imploravam para Minho o tomar em suas mãos e o proteger.

Dizem por aí,” Minho embutiu na sentença uma pausa dramática, “que você é incrivelmente inteligente, e daria um ótimo professor.”

“Mentiroso.” Taemin esbarrou o ombro no seu. “Primeira coisa que descubro sobre você: é um péssimo mentiroso.”

“Terceira coisa. Se esqueceu de ‘incrivelmente alto’ e ‘incrivelmente charmoso’.”

“Estou falando de atributos fáceis de esconder. Seria difícil pra você esconder o quão bonito é—foi a primeira coisa que percebi, afinal.”

Minho esperara uma provocação em retorno — não uma resposta tão honesta. “O-obrigado,” ele titubeou, arrancando de Taemin um meio sorriso recheado com porções iguais de sinceridade e travessura. Seus lábios logo se franziram, no entanto.

“Eu até poderia. Dar aula, quero dizer. Se as pessoas não detestassem tanto minha presença.”

Detestar a presença de Taemin? Blasfêmia. Taemin era tão doce e genuíno, tão amável— 

Taemin é um vampiro, Minho; incapaz de se saciar não importa quanto sangue drene.

“Eu adoro sua presença,” as palavras saltaram de sua boca, infiltradas. Com o caos em sua mente, era impossível discernir o que era e o que não era apropriado dizer.

Mas então Taemin incandesceu-se inteiro, sinuosos fios de luz ocupando o cinza sintético de seus olhos e Minho resolveu que nenhum senso de certo e errado o faria retirá-las. 

Talvez a mordida de um vampiro não doesse tanto assim.

 

“Quer lanchar comigo amanhã?”

 

 

 

 

                                                                                                                                                   

INTERLÚDIO

 

 

A agenda de Taemin estava lotada para o dia seguinte aquele, e também para o dia depois desse. Minho foi vê-lo novamente num dos raros momentos que não tinha a imagem de Taemin flutuando em sua cabeça, a aparição súbita do garoto durante o fim da primeira aula da manhã o deixando num breve estado de choque. No fundo, no fundo Minho esperava que a existência mística de Taemin fosse resultado de um truque de fumaça, fadada a desaparecer longe do alcance de seu olhar.

Inspecionando o resto da silenciosa, silenciosa sala, viu que não era o único vislumbrado. A diferença era que muitas daquelas reações tinham raiz no lado mais obscuro do espectro... e Taemin, decerto, podia lê-las melhor do que ninguém. Senti-las até, provavelmente; o moreno mantivera a cabeça baixa ao longo de sua visita ao professor, evitando contato visual, falando baixo enquanto discutiam questões da administração do colégio.

Minho sufocou um choramingo na garganta, se remexeu em sua cadeira e xingou todos aqueles que se atreviam a fazer Taemin se sentir desconfortável  por razão alguma em sua mente. Minho sentia náusea, náusea ao ver o moreno de ombros encolhidos, tão pequeno e inferior sob o peso do julgamento alheio. Olhe para mim, Taemin. Ignore esses idiotas. Erga a cabeça e olhe para mim.

O professor e Taemin chegaram a um consenso sobre o que quer que discutiam, e o moreno trotou para fora da sala sem reconhecer sua presença. O professor voltou-se para o quadro.

“Quando me virar outra vez, espero que estejam copiando a matéria e não babando por cima do Sr.Lee,” admoestou o Sr.Im. Cadernos e livros sussurraram instantaneamente em resposta.

“Hum, Sr.Im?” Chamou Minho. “Será que posso falar com Tae—o Presidente da Classe por um minuto?”

“Ah, muito bem. Quer babar sobre ele em privado, uh, Sr.Choi?”

As bochechas de Minho enrubesceram, extraindo uma risadinha coletiva da classe. O professor Im o dispensou com um sorriso torto que Minho, em sua escapada aflita da sala, deixou de perceber.

Taemin fechava a porta da sala ao lado atrás de si quando Minho o avistou, o nome do moreno em seus lábios. Havia algo de maravilhado nos olhos escuros dele quando Minho se aproximou, e a visão fazia seu estômago se retorcer de uma maneira boa.

“Minho?” Taemin soava incrédulo. Por que está me olhando assim, falando assim? Você que é a criatura etérea e inacreditável aqui, não eu. “Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?”

Muita coisa. Tudo.

“Eu...” Minho pausou sua própria voz ofegante e tentou de novo, desta vez esboçando um sorriso. Respire. Não tem motivo para nervosismo. “Hey, vai estar livre hoje? Durante o almoço? Só tivemos tempo para conversar sobre moléculas e forças de atração da última vez e isso é, sinceramente, meio que uma droga.” É ridículo e eu sei, mas eu senti sua falta.

Taemin arqueou uma sobrancelha. “Existe algo mais interessante que moléculas e forças de atração?” Minho captou a nota de divertimento em seu timbre e quase que suspirou em alívio. Veio naturalmente, a percepção de que estava disposto a fazer de tudo para manter Taemin sempre assim, com os humores na alta e os cantos dos olhos enrugados, sorrindo discretamente. Minho honraria a tarefa.

“Sem querer desrespeitar a física, mas existe você.”

Esqueça olhos enrugados e sorrisos discretos — Minho queria congelar a imagem de Taemin corando, acima de qualquer coisa, para sempre sob suas pálpebras.

“Eu... eu sou feito de moléculas, então... é por causa delas que eu sou interessante, só... isso,” foi sua adorável e nula defesa. Minho pisou a frente, pairando sobre o garoto que se recusava a encontrar seu olhar. Ele queria roçar a ponta dos dedos nas bochechas rechonchudas e avermelhadas e beijar os cabelos sedosos e...

“A física também explica a força da atração que tenho por você?” Murmurou Minho, um tanto rouco.

Taemin escolheu aquele instante para erguer a cabeça e partir a bravura de Minho em estilhaços com seu encarar intenso, inflexível. O moreno afastou a cortina de cabelos para trás da orelha e riu.

 “Você é mesmo um total pegador, wow. Okay, então.” Este começou a se afastar, sequer pausando para lançar um olhar sobre o ombro. “Onze e meia, telhado da escola.”

“Eu não sou um pegador!”

“Que pena! Se fosse, já teria me pegado!”

Minho praticamente dançou de volta a sala de aula, alheio aos olhos do professor Im que o acompanhavam sem mais sorrir.

 

 

 

A última aula da manhã acabou dez minutos depois do tempo estabelecido por Taemin, o que forçou Minho a correr escadaria acima até o telhado em receio de se atrasar além do que já havia e fazer o garoto pensar que havia lhe dado o bolo. No entanto, em vez de Taemin, foi Luhan quem Minho encontrou, de pé sobre o parapeito contemplando a vista lá embaixo. Minho rapidamente entrou a ação e atirou o garoto ao chão.

“Ouch—!”

“Você quer se matar?! Não me diga que ia realmente saltar do telhado!”

“Yah, não fale besteira! É claro que eu não ia saltar!”

Luhan esfregou a cabeça onde havia batido com ela no chão sob a força do ataque de Minho; depois, ignorando a dor, fechou a cara para o ruivo. “Parabéns em tentar evitar que eu supostamente me machucasse me machucando pra valer.”

Minho fez uma careta diante a, não falsa, porém convenientemente colocada, acusação.

“Eu só pensei...”

“Yeah, eu sei o que pensou,” interrompeu Luhan. “Bom garoto, você, impedindo pessoas de saltarem do telhado. Mas da próxima vez que me vir numa situação destas, só... me deixa pular, okay?”

Minho compreendeu, por meio daquelas palavras, que o Luhan que via agora não era o Luhan tagarela de seu primeiro dia de aula, muito menos o Luhan frígido que humilhara o próprio — ex — namorado na frente de todos. Se tratava de um Luhan mais... real, cru, e Minho não tinha ideia de como lidar com ele.

Por enquanto, sentaria ao lado dele com as costas apoiadas no parapeito e o manteria companhia.

“Eu mereceria, sabe. Se fosse pra isso acontecer.”

Minho fitou-o de soslaio, intrigado pela sentença. Luhan suspirou alto. “Eu sou... tipo... uma prostituta de luxo. Não só naquele sentido, mas em todos os aspectos do meu ser. Eu faria qualquer coisa por e para qualquer um que me oferecesse conforto e segurança.”

“Não há nada de errado com isso,” contestou Minho. Antes que pudesse elaborar, contudo, Luhan retomou sua linha de pensamento:

“Sim, mas você não entende. Eu posso me defender. Eu sei me defender. Mas eu escolho e caminho fácil e seguro porque sou egoísta e mesquinho e decido, no lugar de lutar, baixar a cabeça e abrir as pernas para quem quer que seja. E eu digo literalmente, tá? Mal posso contar nas mãos todas as vezes que traí Sehun em troca de favores. Sehun...” A dor vivia ali, clara e gritante, no nome que Luhan quase não conseguia pronunciar.

“Eu amei... Sehun por cinco anos sem ele saber antes de começarmos a namorar. Na verdade, começamos a namorar com ele pensando que ele havia começado a gostar de mim primeiro, e por alguma razão idiota eu não contei pra ele sobre isso antes. Foi como um sonho se tornando realidade e depois eu—“ um engasgo o fez pausar, “depois eu... me corrompi, suponho. No início eu só queria proteger a gente, sabe? Eu sabia que ele levaria merda dos outros por estar comigo, então comecei a dar meu jeito pra ganhar algum respeito deles e não machucar a imagem de Sehun tanto assim. Só que eu acabei perdendo o respeito por  mim mesmo em algum ponto.”

“Luhan...”

“Por favor, não toque em mim,” o garoto mais velho ganiu, se encolhendo para longe da mão simpática de Minho que esfregara seu ombro. “Eu me sinto tão sujo, Minho. Sehun era a única coisa que me fazia sentir como se eu valesse algo e agora que eu me livrei dele pra me proteger, eu vejo que não sobrou nada de mim que vale a pena proteger. Nada.” Luhan esfregou o nariz com a manga da jaqueta, enterrando o rosto ali por um certo tempo depois de voltar-se a Minho. “Você não faria isso, certo? Você faria diferente se estivesse no meu lugar. Você é um garoto tão bom, tão bom mesmo, Minho. Duvido que trairia a pessoa que ama pra se proteger.”

Trairia? Minho não tinha uma resposta para aquilo. Ele não era Luhan, nunca estivera na pele de Luhan, estava em qualquer posição menos a de julgá-lo por seus atos. Minho sacudiu os ombros.

“Nah, não trairia, não,” rumorejava Luhan; para si mesmo, ao que aparentava. “Você parece mais do tipo que trairia o resto do mundo inteiro pra proteger quem ama, mesmo que a coisa fosse acabar feia pra você. É estúpido. E admirável.”

...A segunda hipótese era mais plausível, de fato. Certos uns são raros em meio a milhões, e uma vez que encontrados, que sentido fazia abrir mão deles, quando novecentos e noventa e nove inteiros não compensavam sua perda?

Luhan se desmanchou em ruídos que eram parte gargalhadas, parte soluços sôfregos. “Eu realmente... eu realmente falo demais, fuck... ah, esqueça que eu disse qualquer coisa. Bebi umas três... quatro? garrafas de soju durante o intervalo. Aposto que pode adivinhar como as consegui, ha.” Ele se pôs de pé, rechaçando a ajuda de Minho apesar de sua passada instável. “Hey, e Minho?”

O ruivo encarou a figura esguia, bela e miserável de Luhan em expectativa.

“Continue a ser um bom garoto.”

Minho se manteve quieto, duvidando que, bêbado como estava, Luhan fosse esclarecer o significado por trás de suas palavras.

Ambos se viraram para a porta de acesso ao telhado quando esta se abriu e Taemin, por fim, surgiu por ela, vestido em seus habituais jeans rasgados e suéter de lã jogado sobre a camisa de abotoar. O moreno pausou ao detectar a presença de Luhan primeiro, trocou olhares com Minho em seguida e depois com Luhan novamente.

“Você está... bêbado?” Inquiriu Taemin.

“Pra porra,” Luhan confirmou. O moreno franziu os lábios, desgosto claro em suas feições; contudo, julgou melhor deixar aquela passar sem comentários. Luhan então se foi e Taemin revelou um de seus tênues, raros sorrisos.

Um em um milhão.

Ao zumbido que marcava o fim do intervalo, Minho sabia que Taemin era mais novo, seu signo era Câncer, tinha dois cachorros chamados Adão e Eva, sempre cheirava doce e a frutas, se distraía com facilidade e não, não possuía calças que não fossem rasgadas; também não planejava adquirir uma tão cedo. O sino tocou e passou ignorado. A conversa espirituosa embalara Minho como uma canção de ninar, e o ruivo não fez esforço para protestar quando Taemin sugeriu que deitasse em seu colo porque shhh, eu vou tomar conta de você.

Ele caiu no sono assim, com as mãos gentis do garoto em seus cabelos e a batida do coração de Taemin — tão gentil quanto — em seus ouvidos.

 

A cena se repetiu no dia seguinte aquele, e no dia depois, e no dia depois.

 

***

 

“Sabe, até certo ponto pensei que fosse esperto, mas agora eu vejo que você é estúpido pra porra.”

Minho arriscava dizer que Jonghyun e ele estavam em termos amigáveis, agora, embora de vez em quando isso fosse... discutível.

“Pensei ter dito pra ficar longe de Taemin,” admoestou o mais velho. “E o que você faz? Sai andando por aí com ele agarrado no pescoço.”

Eu sei,” Minho chiou. “Eu sei. Não é culpa minha, okay? Ele—ele está por todo o lugar, hyung, não importa aonde eu vá.”

Era uma verdade meio mal contada. Parte da culpa era sua, afinal, por deixar-se cair prisioneiro dos encantos de Taemin. Na defesa de Minho, tais encantos eram impossíveis de se resistir. Fosse um morder dos lábios, um riso acanhado disfarçado nas costas das mãos ou um simples piscar dos longos cílios negros — o mais sutil dos gestos; a mais curta das falas o tinha vidrado em Taemin. Minho recordava ter lido algo sobre uma crença antiga de que os loucos perdiam suas cabeças sob influência da lua — daí o termo lunático.

A analogia se aplicava, e a um nível de paridade perturbador.

Começou com convites inocentes para estudarem juntos nas horas vagas, sozinhos, Taemin, ele e uma pilha de livros no carpete macio da sala do Conselho. (Minho sequer pensara em recusar — daria qualquer coisa para vislumbrar quantas vezes pudesse a imagem de Taemin em óculos de aro, nos dias que se esquecia das lentes de contato.) Depois, convites para o almoço no telhado tornaram-se um ritual sagrado. E quando se deu por conta, Minho gastava a maior parte dos seus dias ao lado de Taemin.

Jonghyun fazia parecer como se Minho não houvesse pensado naquilo, o que ele havia. Diversas vezes criticara seu comportamento submisso em relação a Taemin, mas quando buscara dentro de si, percebera a ausência do mais ínfimo traço de arrependimento.

Entretanto... de algumas semanas para cá, uma mutação estranha carregava o ar de energia estática.  Mesmo quando não estava com Taemin — especialmente quando não estava com ele, Minho sentia a presença do garoto ali — invisível, mas incontestável. Lunático, talvez; paranoico, não. Taemin flutuava às suas costas na fachada de sua sombra, seguindo-o por todo o lugar. Queimando a base da nuca de Minho com seus olhares fantasmas e evaporando-se no ar quando o ruivo se virava para olhar.

O recado não-dito era claro: não há para onde escapar.

“Ele—eu acho que ele está me perseguindo, hyung,” Minho confessou. Taemin, Taemin, Taemin onde quer que olhasse. Esperando por Minho à porta da sala, aconchegando-se na curva de seu braço ao caminharem juntos pelos corredores. Era sufocante e se estivesse sendo sincero, aquilo o assustava um pouco.

Porque Taemin, também, parecia ciente do efeito que seus olhos de lua cheia exerciam sobre Minho.

“Você vai almoçar com ele hoje?” Perguntou Jonghyun, tentativo. Minho sacudiu a cabeça.

“Ele me chamou, mas eu disse que ficaria na biblioteca o dia todo.”

“Corrija-me se eu estiver errado, mas você obviamente não está na biblioteca.”

“Prometi que ia me encontrar com Jinki-hyung, faz semanas que não o vejo.” Ali, no gramado externo, as chances de esbarrar com Taemin eram miúdas. Uma vez, Minho questionara a razão das cortinas da sala do Conselho estarem sempre fechadas e o garoto revelara sua aversão ao sol. 

Um borrão em sua visão periférica chamou-lhe a atenção e Minho girou os olhos para Jinki, que acenava naquela direção do outro lado da relva. A cerca da quadra onde ele e Jonghyun estavam empoleirados tremeu quando Minho desceu dela, derrubando o mais velho no chão ao som de um baque de fazer estremecer. O ruivo saiu às gargalhadas enquanto o outro proferia mil pragas atrás de si.

“Hyung! Senti sua falta!” Minho apertou Jinki em seus braços e o rodopiou com ele assim, soterrando os protestos de seu hyung em afeição. Jinki rolou olhos para a animação de Minho em retorno ao seu inibido‘senti sua falta, também’.

Enquanto esfregava o rosto no ombro de Jinki, gozando da preciosa sensação de comodidade, Minho ouviu um estalo no ar sobre suas cabeças. Direcionando os olhos para o prédio do colégio à sua frente, ele enxergou uma sombra pelo vidro da janela do andar mais alto.

 A sombra o enxergou de volta por um momento célere — depois, fechou as pestanas e desapareceu.

 

***

 

 “Honestamente—não passou pela minha cabeça que fosse ficar. Você não me parece do tipo que... frequenta. Hum. Eventos como... esse.” Confusão permeava o espaço entre as sobrancelhas de Jinki.

“Está dizendo que não sou legal o bastante?” Minho cutucou-lhe as costelas, chamando atenção para sua ofensa forjada. Desnecessário dizer que Jinki não engoliu a atuação. Minho rolou os ombros para trás e, imaginação sua ou não, o estralar de seus músculos levou consigo parte do estresse infligido pela semana de provas.

“Eu não gosto de festas,” afirmou ele, “mas não foi escolha minha. Coisa da minha mãe. Algo sobre ela ‘estar cansada de me ouvir reclamar feito uma pré-adolescente pelo telefone’ e eu ‘precisar encontrar outra pessoa com quem fofocar e para fazer tranças nos meus cabelos’. Eu disse que não precisava ir a festas para fazer amigos, mas ela se recusou a vir me buscar. Disse que se eu quisesse passar o final de semana em casa, teria que ir a pé.”

“Uma mulher charmosa, sua mãe,” apontou Henry Lau, vice-capitão do time de rugby e conhecido de Jonghyun — agora também de Minho. Henry cochilara nos degraus da escada da entrada enquanto eles conversavam, o que explicava a voz arrastada.

Minho fez um ruído espiritoso. “Charmosa é eufemismo. Minha mãe tem a boca tão suja o próprio senso de humor.”

“E mesmo assim você é um perfeito cavalheiro, uh? Eu vou ter que me casar com você só pra conhecer minha infame futura-sogra~”

Os traços de Jinki foram varridos por uma carranca surgida do nada. “Achava que fosse o Hétero dos héteros, Lau,” resmungou ele. Minho jogou a cabeça para trás e gargalhou alto.

“Henry fode qualquer coisa que tenha pernas!”

“Não sei onde ouviu isso—pernas jamais foram um requisito.”

Jinki tomou a deixa para chutar Henry, que saiu rolando escada abaixo.

No horizonte, uma onda azul-escuro engolia o fulgor alaranjado do dia. O período noturno de aulas era mais tranquilo, de modo generalizado; em contraste, o espaço de tempo entre o fim da tarde e o início da noite fervia com vida. O intervalo antes do jantar era frequentemente aproveitado pelos alunos para estudarem e revisarem matérias — e embora alguns optassem pela quietude da biblioteca, a maioria se agrupava por cantos aleatórios dos corredores e escadarias.

Hoje, o caos da rotina havia sido derrotado por um silêncio mórbido, mas benquisto. Dada a localização isolada da S&M, finais de semana tendiam a ser reservados para que os internos visitassem suas famílias na cidade. Minho sentia falta de casa, e sabia, pelo desalento mascarado na voz de sua mãe quando esta ligava, que ela morria de saudades suas. Suspeitava que o cenário não fosse assim para todos, pois os que permaneciam ali compunham um número considerável. 

Minho reconhecia que as ações de sua mãe eram bem intencionadas, e por isso evitara contestar. Era triste o fato de que podia contar seus amigos nos dedos. Jonghyun, Jinki (Henry era uma adição recente; por enquanto seria descartado) e... bem.

A coisa toda com Taemin era... complicada.

Era evidente que o que quer que Taemin fosse para Minho, estava a um patamar acima do que Jonghyun e Jinki representavam. Minho concluíra que aceitar isso de cara o safaria de complicações adiante. Taemin encravara um pedaço de si por baixo de sua carne e toda vez que eles se tocavam, os nervos de Minho respondiam instantaneamente, explodindo em fogos de artifício multicoloridos sob sua derme cujo impacto reverberava por suas veias e atingia-o direto no coração.

Taemin era uma singularidade. Fácil de apreciar, difícil de entender. Pueril e maquiavélico ao mesmo tempo, um gênio ingênuo para idade que tinha. E quando olhava — quando olhava para Minho, parecia enxergar nele os segredos do universo inteiro. O misto de adoração e fixação que Minho via neles era um reflexo de seus próprios sentimentos.

Fazia algum tempo que não via Taemin, aliás. Minho se envergonhava em admitir que vinha, sim, o ignorando de propósito.

Ele precisava colocar suas prioridades em ordem — precisava decidir entre acreditar em Jonghyun e acreditar no que seus instintos diziam. E então decidir se, afinal, ele realmente se importava que Taemin fosse o catalisador de todo aquele caos.

Às vezes... às vezes Minho questionava se, talvez, Taemin em si não era a essência do caos, e se não era justamente isso que o tornava tão tragicamente belo.

“Você tem um par?”

“Par?” Repetiu Minho.                 

“Pensei que fosse melhor ter com quem ir,” Henry explicou. Minho encolheu os ombros. Verdade fosse dita, ele se recusava perder a cabeça com a tal festa — que nem era uma festa festa, de acordo com Henry. O evento tinha data fixa semana anterior ao início dos Jogos, e tratava-se, acima de tudo, de uma oportunidade para se fazer alianças durante a captura do Alvo.

À recordação dos Jogos, os punhos de Minho se fecharam.

Agora não é a hora, admoestou a si mesmo, forçando-se a relaxar.

Mais tarde lidamos com isso.

 “Jinki-hyung,” chamou Minho, “você tem um par?”

“A-ah, bem... eu não vou.” Após uma fungadela, elaborou, “Vou ficar na casa da minha tia.”

Quer dizer que Taemin também vai para casa? Vou ter que esperar tanto tempo para vê-lo de novo...?

“Ótimo!” Henry bateu palmas. “A gente pode ir junto,” disse, sorrindo a Minho de orelha a orelha. Sua quedinha pelo mais novo dos três era mais óbvia do que nunca.

Não seria assim tão ruim, disse Minho a si mesmo. Henry pouco o interessava num contesto romântico, mas o cara era uma boa companhia.

“Uh... pode ser?”

“Okay. Okay! Legal!” Levado pela excitação, Henry havia elevado a voz e saltado de pé — um segundo depois, aparentou dar-se conta de sua transparência e acanhou-se. “Então, hum. A gente se vê amanhã à noite?”

“Yeah, Henry. Até.”

Minho observou Jinki assistir a partida de Henry, e assim que o eco dos passos do terceiro desapareceu, ouviu-o dizer: “Você acabou de arranjar um problema, Minho-ah.”

“Não acabei, não,” rebateu Minho teimosamente. “Shh, está tudo ok, não é como se eu estivesse dando bola para ele.”

“E Henry sabe disso?”

Aquela voz não pertencia a Jinki.

A figura esguia de Taemin se misturava às sombras do corredor às suas costas — o garoto era feito de sombras; nos olhos, nos cabelos, na aura de mistério — mas o sorriso doce que lançava a Minho reluzia no escuro tal como pirilampos.

Um sorriso instantâneo floresceu nos lábios de Minho. Ele deixou a afeição abundante em seu peito fluir naturalmente por sua fala, “Ei, Pequeno.”

Havia um ar de inquietação ao redor de Taemin que o desconcertou momentaneamente. Taemin era sempre tão sereno, tão certo de si. Teria acontecido algo...? Espere — oh.

Seus olhos recaíram sobre Jinki, cujo semblante espelhava a rigidez de seu primo mais novo. Minho coçava para fazer algo que quebrasse a atmosfera constrangedora, mas nada lhe veio à cabeça.

Por fim, Jinki pôs-se de pé. “Eu... v-vou indo, então. Minho-ah... Taemin-ssi,” proferiu o último nome sibilo, e apressou-se para algures que não ali.

Sem demora, Taemin cruzou o espaço entre eles e jogou-se nos braços acolhedores do maior. Minho não tinha se dado conta do quanto almejara por aquele instante até ter o pequeno ali, bem ali, sólido e quente contra seu peito, cabelos macios pinicando seu queixo e o aroma intoxicante de Taemin provocando-lhe as narinas.

“Você sumiu,” arfou Taemin. “Hyung. Eu fiquei só o tempo todo e—onde diabos você se meteu?”

Minho roçou o nariz na bochecha de Taemin, rezando para que aquilo bastasse como pedido de desculpas.

“Desculpe. Desculpe, Pequeno, eu estava...” Fugindo dos meus pensamentos sobre você; dos meus sentimentos por você. “As provas estavam me matando. Não sou nenhum gênio como você, se lembra?”

A desculpa esfarrapada lhe rendeu um beliscão na barriga.

“Idiota,” Taemin resmungou. “Eu poderia ter ajudado. Eu teria feito qualquer coisa pra te ajudar, hyung.”

“Eu sei, Tae.” A mão de Minho que não apertava a cintura de Taemin corria livremente por seus cabelos, num ritmo vagaroso que imitava o cair da noite. Ele trouxe o mais novo para perto — a intenção era aniquilar qualquer espaço que houvesse entre eles. “Hey, você vai para casa com Jinki-hyung?”

Taemin ergueu o rosto de seu peito.

“Você vai ficar?”

“Ordens da Sra.Choi.” Minho suspirou. “Ela quer que eu me ‘entrose’.

“E você resolveu se entrosar com Henry Lau?”

“Hey, Henry não é assim tão mau.”

“Claro que não,” caçoou Taemin, logo então se desvencilhando do abraço e levando consigo todo seu calor. “Ah, bem... Divirta-se na festa, então, hyung.” Ele fez menção de se afastar, mas Minho o agarrou pelo pulso.

Ele segurou o olhar de Taemin com firmeza.

“Venha comigo.”

“Minho—“

“Eu quero que venha comigo,” Insistiu Minho.  “E não use aquela desculpa de ‘ninguém me quer ali’. Eu quero você lá, comigo.” Dito isso, tomou a face do moreno nas mãos e encostou-lhe os lábios à lateral do rosto, tatuando seus murmúrios sobre a pele do outro.

 “...Okay,” Taemin exalou, enfim, contra seu pescoço.

“O que você quiser, hyung. Qualquer coisa que quiser.”

 

 

Mesmo a lua tinha um lado obscuro, não tinha?

 

Não era errado querê-la inteira — escuridão, crateras e tudo o mais.

 

***

 

Minho sentia-se mal por eventuais desavisados que adentrassem o dormitório e se deparassem com a bagunça à la festa de fraternidade em andamento sob o teto do corredor principal da ala. Ele passara da fase de sentir-se mal por si mesmo há alguns minutos, quando, recém-saído do banho e a caminho de seu quarto, se vira puxado para dentro e feito refém do alvoroço.

O hall dos dormitórios era extenso, em termos de comprimento — todavia, sua largura suportava, no máximo, três pessoas lado a lado. Vinte no mesmo lugar e ao mesmo tempo era pedir por problema.

Se alguém tivesse notado o atual estado do pobre ruivo — água pingando de seu peito exposto e toalha de banho pendendo de seus quadris — claramente não dava bola. Minho rezava para que a toalha se mantivesse firme sob uma respiração e xingava aquele bando de anarquistas sob a seguinte, lutando para alcançar o sossego de seu quarto sem ser vítima de mãos bobas —espanca minha bunda outra vez e eu espanco tua cara! — e falhando miseravelmente.

A cena toda deleitaria Jonghyun, se o mais velho estivesse ali. Ele havia retornado para casa na noite passada junto os demais, uma expressão taciturna dissolvendo seus traços grosseiros em ares de derrota no instante que pisara além dos portões. A cena acompanhara Minho em suas cismas sobre o perfil da família que esperava por Jonghyun em casa para incitar tal tipo de reação.

Apesar da personalidade... difícil, Minho se importava com o bruto. Bem como o bruto se importava com Minho. Uma amizade improvável? Talvez.  Desafiar as probabilidades era entretenimento da mais alta qualidade, na opinião de Minho.

Absorto no alívio de alcançar o fim do corredor intacto, o ruivo sequer avistou a figura de guarda à porta do quarto que ele e Jonghyun compartilhavam — ou a insatisfação emanando dela ao ter a presença ignorada.

“Não vai me convidar para entrar, Choi Boy?” Era Henry; seu sorriso torto de assinatura em plena exibição.

Minho queria dizer que não, obrigado, eu preferia não trocar de roupa na frente de alguém que vem dando em cima de mim desde que nos conhecemos, mas o argumento morreu na ponta de sua língua. Ele fez um gesto para que Henry entrasse e fechou a porta atrás de si.

“Que pandemônio é esse no corredor, aliás?”

Henry se jogou na cama de Jonghyun. “A ocasional orgia de sempre,” disse, apoiando-se num cotovelo. O olhar aguçado que recebeu o fez erguer as mãos em rendição. “Certo, sem orgias. Choi Boy é homem de um pau só, vou me lembrar disso.”

Choi Boy. Minho conteve um estremecimento. Desde que Changmin o chamara daquela forma o apelido adquirira uma sonoridade distorcida, desagradável aos tímpanos. “Um, esse apelido é ridículo e dois, você nem sabe se eu sou gay.”

Henry ergueu ambas as sobrancelhas.

“E você não é?”

Minho não perdeu tempo formulando uma resposta. “Algo desse tipo,” replicou ele distraidamente. Foram-se os tempos em que a questão de sua orientação sexual o mantinha acordado à noite. Minho gostava de pessoas, e ponto final. Rótulos predefinidos lhe davam dor de cabeça. Ademais, seu foco no momento estava em vestir-se o quanto antes — o olhar predatório de Henry ardia em sua pele, e não de uma forma boa.

O olhar de Taemin, não — o ardor deste era diferente. Aqueles orbes de ônix, em vez de incendiá-lo, despertavam dentro de Minho o fogo que ali já existia e o convidava a queimar tudo o que estivesse no caminho. Incluindo a si mesmo.

“A bagunça lá fora?” Henry disse enfim. “O dormitório é o ponto de encontro, acho. Eles só estão antecipando as coisas. A festa é na Toca do Lobo, mas ninguém sabe onde infernos fica isso a não ser pelos putos da EXO—são eles que a organizam.”

“Uma festa que ninguém sabe onde fica.” Minho finalizou o nó do laço preto que ia ao redor do colarinho da camisa.

 “Tecnicamente, yeah. Ou quando começa. Mas boatos dizem que a noite sempre acaba com alguém quebrando uma perna ou um braço.”

 “Parece divertido, uh?”

O ruivo checou seu reflexo no espelho de chão e murmurou em aprovação. O jeans preto justo apelava para o lado casual, ao passo que a camisa social branca e os fios rubros cuidadosamente jogados para um lado assinalavam-lhe um ligeiro quê de elegância. Um combo adequado, tendo em mente quem ele queria impressionar. Taemin era indiferente a extravagâncias — os jeans rasgados, os tênis desgastados e os cabelos constantemente desgrenhados comprovavam isso.

“Entãããão...” começou Henry, como quem não queria nada, “ouvi dizer que o Sataemin decidiu nos agraciar com sua presença, desta vez.”

Minho permaneceu calado.

“Mais interessante ainda,” insistiu Henry, “ouvi que você o convidou. Meio que golpe sujo, não acha? Tsk, tsk. Convidando outras pessoas depois de ter aceitado ir comigo.”

“Podemos muito bem ir os três, Henry.”

“Que é, ele te forçou ou algo assim?”

“Você mesmo disse,” Minho cerrou os dentes, “que eu o convidei. Está aí sua resposta. Eu o convidei, por simples e pura vontade própria.”

Henry escolhera um péssimo momento para agir feito o imbecil que era, alheio aos fiapos de aura negra escapando dos ombros tensos do garoto mais alto ao prosseguir com seu discurso cáustico:

“Só estou dizendo isto porque gosto de você, okay? Eu percebi como aquela cria nojenta de verme andou grudada em você nos últimos dias. Não deixe ele te coagir, Minho, esmague o vermezinho antes que ele acabe sugando todo o seu sangue. Todo mundo age como se Taemin fosse oh-tão-temeroso Lorde Das Trevas,” cuspiu. “Porra nenhuma que aquele magrelo é. Eu entenderia se sentissem nojo dele, mas medo? Já olhou para a cara dele? Nem dá pra saber se é homem ou mulher. Que bom que aquela... coisa fica trancada naquela sala do Conselho, agora. Antigamente eu era obrigado a ver aquela putinha andando pelos corredores como se fosse o dono do mundo e vivia morrendo de vontade de vomitar só de olhar para a cara dele.”

“Ele é doido, sabe? Tipo, literalmente retardado. Antes de você chegar ele ia às aulas como todos nós—mas um dia o maluco pirou na sala de aula e começou a falar e gritar consigo mesmo. Ele acha que a gente não sabe que ele tem problema mental. Você já viu ele dopado de remédios?” Henry estremeceu, enojado. “É assustador. Estou dizendo, foderam com a gente quando decidiram botar este colégio nas mãos de um retardado.”

 “Henry... Henry—chega.”

“Todo mundo tem medo do Taemin, mas eu não. Eu estava pensando nisso, sabe, e esperei que você pudesse ajudar no plano, já que ele não larga do seu pé. Se a gente se livrar ele dos remédios e forçá-lo a ter um ataque no meio de todo mundo, com certeza os pais deles vão perceber que ele não tem capacidade de continuar aqui. Ou a gente pode—“

Minho estava tremendo dos pés à cabeça, raiva a ponto de estourar suas veias e sufocá-lo numa onda de sangue fervente quando, inesperadamente, as luzes do andar inteiro se apagaram.

Mas que porra—?

No lugar da música pop, gritos apavorados irromperam do corredor. O frio do medo colidiu com o ardor da fúria em seu corpo e Minho teve a sensação de que ia desmaiar; ou que, pelo menos, passaria o resto da vida com o coração entalado na garganta. Ele tateou a parede em busca da maçaneta da porta, em vão; seus sentidos eram inúteis naquela situação. Ele ouviu Henry xingar alto e um baque seguido por um gemido de dor ribombou às suas costas.

“M-Minho?! Minho, o que foi — ahh, caralho!“

O ruído da porta se abrindo pelo lado de fora afogou quaisquer outros. Ai, meu Deus. Jesus fodido Cristo

O flash de uma lanterna atacou-lhe o rosto, desorientando-lhe o suficiente não apenas para garantir o anonimato do intruso, mas também para desarmá-lo do ataque que se sucedeu. O agressor imprensou Minho contra a parede, amarrou-lhe as mãos às costas e o vendou por trás, tudo num único gole de ar.

“Mas que merda é essa?! Quem é você!?” Minho lutava debilmente contra a pressão ao redor de seus pulsos, mas um detalhe minúsculo o fez cessar suas ações. O agressor inclinou-se por sobre seu ombro e soltou uma lufada de ar em seu ouvido, rindo calorosamente quando seu prisioneiro estremeceu e desencadeando em Minho outra série de arrepios.

A fragrância inebriante de frutas era inconfundível.

“T-Taemin...?”

“Desculpe, te assustei?” A voz sussurrada do garoto realçava a intimidade da situação: ambos pressionados contra a parede, e atrás de Minho, o corpo esguio, porém sólido de Taemin encaixado firmemente no seu. “São as regras, mas eu prometo que vai ser divertido. Venha comigo e confie em mim, okay, baby?”

Minho não teve escolha salvo exalar um fraco “okay” acompanhado de um aceno trêmulo. Sua cabeça girava em torno do apelido — baby, Taemin — Taemin — o chamara de baby —, incapaz de computar a abundância de afeição que transbordava dos cantos da boca do mais novo.

“...Eu confio em você,” sussurrou Minho.

A picada do veneno de Henry se dissipara numa dor surda, esmagada e afugentada para o abismo de sua inconsciência, e em seu lugar pulsava a adrenalina trazida pelo prospecto de uma caminhada às escuras sob a guia das mãos suaves de Taemin em sua cintura.

Por mais cautelosos que fossem, e por mais que Minho dissesse a si mesmo que ele confiava em Taemin e Taemin nunca iria deixá-lo se machucar, os primeiros passos às cegas de nada fizeram para diluir o bolo de receio em seu estômago, ou os cenários em sua cabeça onde ele tropeçava e caía e levava Taemin na queda consigo. Ao emergirem no corredor, contudo, Minho percebeu que seu medo não se encaixava na atmosfera de euforia. A música havia retornado, mais alta e mais agitada; os gritos eram de divertimento em vez de terror. Loucos. Eram todos loucos, cambaleando pelo escuro e rindo ao se esbarrarem uns nos outros, propensos a se ferirem feio e não dando a mínima.

Minho se entregou ao sentimento de vulnerabilidade — de liberdade, sentiu-se amolecer contra Taemin e o moreno o apertou com força entre seus braços finos, gargalhando em seu ouvido, as mãos de ambos entrelaçadas sobre o peito do ruivo quando eles aceleraram o passo e desataram a correr, bêbados de trevas e um do outro.  

 

***

 

 

 

PARTE III:

SWEAT AND TEARS

 

 

 

Minho perdera conta de quantas vezes eles esbarraram pernas e cotovelos um no outro, meio desgraciosos em seus tropeços enlaçados com risada — nada que abalasse sua confiança no aperto seguro no qual se encontrava, ou que se sobressaísse ao retumbar hilariante do coração de Taemin contra suas costelas.

Ele tinha uma breve noção de que seguiam cada vez mais para baixo, para os níveis mais rústicos do prédio onde o ar era úmido e roçava quente em suas bochechas, mas verdade fosse dita: Taemin podia o estar arrastando para as profundezas o Inferno agora mesmo e Minho iria sem resistir. Um doce preço a se pagar por ter o moreno ali tão perto, tão vivo e real.

A música agora não só vibrava através de seus tímpanos, como parecia reverberar pelas paredes e chão e tanger seu corpo inteiro — isso ou estavam no meio de um terremoto. Foi no crescendo da batida que as passadas de Taemin perderam o vigor e Minho pausou por instinto, ciente de que o temido momento de retornarem a seus espaços pessoais havia chegado.

“Espere aqui,” disse Taemin em voz suave.

O garoto se esvaiu e o mesmo aconteceu com a força nas pernas de Minho. Talvez Jonghyun devesse tomar liberdade para chutar seus traseiro mais vezes, já que uma corridinha daquelas o tinha arfando contra uma parede próxima. Ele descansou a cabeça na pedra áspera, grato pelo choque entre o fresco dos tijolos e o suor abundante que escorregava de sua têmpora e encharcava a venda sobre seus olhos.

Puta merda, aquilo era insano — a reação de seu corpo a qualquer coisa relacionada a Taemin era no mínimo anormal, e no pior dos casos, bem-vinda. Seu coração desatara a pulsar desde que haviam deixado o dormitório até então sem previsões de parada. Minho estava certo de que o tremor violento em suas mãos também não era recente, apenas mascarado pelo aperto estável das de Taemin nas suas.

Henry fora o gatilho para a explosão de emoções intensas em seu peito, isso era inegável. Recordar a sujeira que espirrara de sua boca bastava para Minho sentir o sangue correr mais rápido em suas veias e sua pele formigar de dentro para fora. Mas fora Taemin quem filtrara aquelas emoções em algo bom, e era Taemin em quem Minho queria pensar agora. Henry que se ferrasse.

“Minho?” Taemin estava de volta no exato segundo, e Minho se entreteve com a ideia de seus pensamentos terem alcançado o garoto de alguma forma. “Vou tirar sua venda, mas não abra os olhos ainda, está bem?”

Minho aquiesceu.

“Bom garoto.” Deus, Minho quis grunhir. Ele negava possuir fetiches em particular, mas ouvir Taemin chamá-lo de baby bom garoto naquela voz ligeiramente rouca provava-se aos poucos sua mais absoluta ruína. 

A venda foi retirada de seus olhos e substituída por um material mais elaborado, que cobria além da metade de seu rosto. Ao ok de Taemin, Minho abriu os olhos e viu que ele e o resto das pessoas ali estavam todos mascarados.

O adorno sobre a bela face de Taemin era menos uma máscara e mais um intricado de cristais translúcidos emaranhados ao redor de seus olhos e bochechas, conectados às correntes dos piercings em ambas suas orelhas. A parte de cima da máscara se assemelhava a um tikka indiano: os cristais formavam uma coroa em torno de sua cabeça e uma jóia maior pendia no centro de sua testa.

Era uma visão de tirar o fôlego, especialmente com os raios de neon brilhando de dentro da alcova atrás deles incidindo contra a lateral do perfeito, perfeito rosto do garoto.  E como se não bastasse — como se Minho ainda contasse com algum ar em seus pulmões —, uma gargantilha apertava o pescoço de Taemin, chamando atenção para a clavícula exposta pela obscena camisa de mesh.

Taemin estava... era magnífico.

Minho tragou em seco.

“H-Hah... então é aqui, huh? A tal Toca do Lobo.” Ele rapidamente buscou um tópico para ocupar sua boca caída. “Ok, eu sou o único que acha isto aqui sinistro? Parece um mausoléu, não um lugar onde se dar uma festa,” constatou Minho, estremecendo.

 Taemin gargalhou.

“Bingo.”

“Bin—? Não. Não, tá me zoando.  me zoando, né?”

 “Bobinho,” Taemin beliscou-lhe a bochecha, “é um mausoléu. Ou foi, um dia, pelo menos. Os garotos deram um jeito no lugar há uns quatro anos, então pode relaxar—prometo que não vai encontrar nenhum esqueleto por aí. Quer dizer... a menos que esteja procurando por um, aí não posso prometer nada.”

“Yah, Taemin!”

Taemin gargalhou mais uma vez e o puxou para dentro do salão escuro. Eles foram barrados na porta por um garoto alto com máscara de pássaro que exigiu que bebessem os drinks oferecidos na entrada antes de terem acesso permitido. Minho desconfiava do conteúdo servido naqueles corpos finos de vidro, mas bastou Taemin encostar a borda da taça em seus lábios, um sorriso brincalhão dançando nos próprios, para Minho ceder e entorná-la toda.

Sua boca formigava com o sabor refrescante de pasta de menta, o ardor suave do álcool e o toque exótico de algo não identificado.

Era quente e Minho sequer podia ver um palmo adiante em meio a escuridão lá dentro; mal podia ver Taemin em toda a sua glória, o que era no mínimo aborrecedor. Era quente e havia animais por cada canto — lobos, aves, cães e gatos. Pessoas disfarçadas de feras. Minho tocou a própria máscara, sentindo o que pareciam chifres de cervo nas extremidades. A de Taemin era a única que fugia do tema animal.

Ele vê a todos nós como selvagens, incapazes de conter nossas feras. E ele se acha superior porque é um com sua fera.

Quem havia dito aquilo, mesmo? A voz era familiar, mas Minho não se lembrava de quem. E por que isso seria relevante? Taemin deitara as mãos em seu peito e os lábios em sua orelha e a palavra dançar em seu ouvido. Isto era relevante. Taemin, as mãos de Minho no quadril e cintura de Taemin, as unhas de Taemin arranhando sua nuca e a respiração irregular de ambos se misturando no tímido espaço entre suas bocas eram relevantes.

Num momento eles estavam dançando, e no outro, beijando-se feito loucos.

Estava quente pra caralho e Minho encontrou do que beber na boca de Taemin — e depois do que chupar e devorar na língua do garoto mais novo. Ele mordeu o lábio inferior macio do moreno, arrancando dele sangue e gemidos, e em troca, Taemin roubou-lhe um ruído gutural ao chocar a pélvis na sua. Minho separou suas bocas com um puxão brusco dos cabelos de Taemin e mordeu com força o pescoço arqueado do garoto.

Hahh... M-Minho...”

Oooh, aquele era um som bonito. Agudo e resfolegado — desesperado, implorando por ele. Por Minho. Ele queria... queria ouvir aquele som outra vez e uma vez mais. Queria e o teria em replay pelo resto da noite.

Infernos, pelo resto da vida.

Taemin não produziu o mesmo som quando foi imprensado contra uma parede, ou quando Minho rasgou um pedaço da gola de sua camisa para beijar e lamber seu peito macio de cima a baixo, mas os gemidos trêmulos e as súplicas —Minho, Minho, p-por favor...ah, ah! — eram também música da mais alta qualidade. A nuvem de desejo na qual Minho flutuava o mantinha longe de pensamentos coerentes, todavia, era irracional, despida de lógica, a ciência de que estava amando as reações de Taemin ali, à mercê de suas mãos. Taemin havia enroscado braços e pernas em torno de Minho e o mantinha grudado ao seu corpo como se fosse morrer caso se separassem.

Minho realmente, realmente esperava que Taemin não fosse morrer dadas tais circunstâncias, porque um intruso de máscara de raposa plantou-se de pé a frente deles e se recusou a mover até que recebesse atenção. Taemin rosnou seu descontentamento e afastou-se da boca insistente de Minho, apenas para senti-la, quente e úmida, sugar sua orelha — justo onde seu piercing estava.

“Oh, D-Deus.... O que quer—ugh—Baekhyun?”

Baekhyun? O nome de Minho não era Baekhyun. Taemin deveria estar falando seu nome e somente seu nome. Ele mordiscou a pele sensível às bordas do piercing. “Minho!”

Bingo. Minho sorriu em triunfo.

“Consegue discutir sobre negócios mesmo com o ruivo aí prestes a te devorar?”

“C-certamente. Fuck.”

“Ha! Você drogou ele, não foi?”

“Eu não—Chanyeol disse—“

“Que é só um estimulante, eu sei. Ele também vende LSD jurando que é bala de morango, de vez em quando. Peraí—cara! Você também tá chapadão?!”

“Direto ao ponto, se tiver um.

“Hum, sim, sim, claro. Ouviu os rumores sobre Tao, suponho?”

“...Que ele pretende denunciar cada um de vocês, ratazanas nojentas, e depois fugir pros braços do papai e da mamãe dele na China? Não posso dizer que o culpo.”

Por favor, olha quem diz. O rei das ratazanas nojentas em pessoa.”

“Ponto, Baekhyun. Ponto.”

“Quanto vai custar para eu garantir que o nome Huang ZiTao vai sair daquela urna no dia da escolha do Alvo?”

“Nada que possa ser discutido aqui e agora.” Taemin pareceu enfim se dar conta de onde estavam e do corpo suspeitosamente amolecido entre seus braços. Ele fez Minho erguer a cabeça da curvatura de seu ombro, o suficiente para analisar o estado do mais velho, e praguejou em vista os sinais do efeito da droga: pupilas dilatadas e vidradas, pálpebras trêmulas e suor frio escorrendo sobre a pele lívida. “Merda. Baekhyun, segure ele aqui por um minutinho, está bem?”

“Hey, o garoto é sua responsabilidade! Taem—filho da puta!

Minho mal conseguia compreender como era possível se sentir frio e quente de uma vez só daquela maneira. Seu coração batia tão rápido e Taemin não estava ali — por que bater rápido se Taemin não estava ali? Taemin. Taemin. Onde estava Taemin?

A garganta de Minho doía quando ele tentava falar, mas Taemin havia desaparecido e aquilo doía muito mais. “Taemin... T-Tae...” Ele chamou, tão coerente quanto podia.

“Oh não não não, garotão, não se atreva a desmaiar em cima de mim!”

“Tae... min...”

“Eu estou aqui. Eu estou aqui, baby, shh, shh.”  Taemin, Minho pensou em alívio, reconfortado pelo calor da voz já que seus olhos se recusavam a enxergar. Logo ele estava de volta aos braços de seu Pequeno, seu anjo, seu... seu... “Sentiu minha falta, mmn? Vem cá, vamos dar um jeito em você e fazer você se sentir melhor, okay?”

Minho acenou uma, duas, três vezes.

“Okay. Okay, okay... okay...”

 

 

 

 

Carregar Minho de volta ao dormitório foi trabalhoso. 

O ruivo era alto e sólido onde Taemin era esguio e franzino. Somada a subida por três lances de escada, e a falta de cooperação da boneca de panos que Taemin praticamente arrastava com o apoio de seus ombros. À altura que havia sucedido em despi-lo das roupas de festa, deitá-lo de costas na cama e saído para buscar água e uma toalha, Minho recuperara fragmentos de sua consciência.

Taemin sentou o copo d’agua na mesa de cabeceira e pôs-se a enxugar a pele viscosa do garoto mais velho.

“Tae...?” Rouquejou Minho, com certa dificuldade. “Você... Taemin... me drogou...” Taemin não reagiu, sequer piscou. O trabalho de suas mãos sobre o corpo de Minho era delicado.

“Tae... Taemin...”

“Eu queria que você se divertisse,” cedeu o mais novo sob pressão. “Me desculpe, Minho-hyung. Eu queria...” Mas Taemin acabou por não nomear seu desejo, afinal.

“Está com raiva de mim?”

Talvez a situação requeresse que Minho sentisse raiva. Ele estivera em festas antes, estivera bêbado em festas antes, mas drogas nunca foram parte da diversão. Sob a mira atenta dos olhos de corvo de Taemin, contudo, raiva não tinha vez. Além disto, Taemin tomara conta de si, não tomara? Ele se responsabilizara pela segurança de Minho durante toda a noite e zelara por ela como nenhum outro.

“Nós... nos beijamos.”

“É uma pergunta?” Indagou Taemin, aparentemente divertido pela confusão na face do ruivo. “Sim, nós nos beijamos. E fizemos mais que beijar, também. E se fosse por mim...” Taemin exalou. “Se fosse por mim, teríamos feito ainda mais. Mas você... você é especial, hyung, e eu me mataria antes de tentar qualquer coisa com você neste estado.”

Aquiescendo, Minho deitou a cabeça no lado frio do travesseiro e permitiu-se fechar os olhos. Era isso ou admitir que, se fosse por ele, teria feito muito, muito mais com e a Taemin.

“Eu sou virgem,” disse Minho do nada. “Quer dizer, hum. Não meu signo, m-mas... você sabe. Eu nunca. Hum. Tinha feito nada... nada como... aquilo que fizemos na festa. Mas h-hey! Está tudo bem, está tudo bem porque é você, e se for você eu não... eu não ligo.”

Taemin soltou uma risada roufenha. Minho franziu o cenho. Havia ele dito algo engraçado sem perceber? Algo estúpido?

“Isso é... lisonjeiro. Mesmo, Minho,” disse Taemin. Ele havia se dobrado para esfregar o pano úmido na testa de Minho, sobre os cabelos empapados de suor, e a nova posição fazia com que seus cabelos negros projetassem sombras pelos planos e depressões de seu rosto. Os olhos de Taemin não cintilavam com a luz; em vez, sugavam-na e diluíam-na na escuridão. “Mas não ligar... querer... são coisas diferentes. Me deixaria muito mais feliz saber que ao invés de não ligar,você me desejasse tanto quanto eu te desejo, hyung.”

Eu desejo. Só Deus sabe o quanto eu te desejo, Taemin — mas é complicado. Você... é complicado.

“E é meio óbvio que este não é o caso, vamos ser sinceros um com o outro. Você deixou isso claro quando me ignorou por semanas.”

Não, não, não. Minho chacoalhou a cabeça, desesperado em fazer Taemin compreender sua confusão.

“Não é bem assim,” jurou. E talvez Taemin compreendesse; tudo o que fez foi sorrir para Minho.

“Eu entendo. Não sou estúpido, hyung, muito menos alheio às coisas—menos ainda aquelas que se referem a mim. Eu sei que as pessoas falam sobre mim, sei que muitas escutam e acreditam, e sei que toda vez que estamos juntos você dá um passo atrás antes de dar dois em minha direção, por causa das coisas que ouviu. Então... pergunte a mim o que quiser—qualquer coisa que queira saber, e eu te darei uma resposta honesta.”

A proposta era tentadora a ponto de Minho não saber por onde começar.

“Por que os Jogos?” Soava bom o bastante para um começo.

“Por que não?” Taemin deitou a mão que manejava a toalha. “A maioria de nós vive confinada aqui, neste colégio interno, longe de nossos amigos e da supervisão de nossos pais, à mercê do estresse e das expectativas delirantes de professores e do resto do mundo. Soa familiar?” Não para Minho. “Já leu ‘O Senhor das Moscas’, hyung? Conta a história de um grupo de crianças de um colégio interno que sofrem um naufrágio e acabam presos numa ilha deserta; apenas eles e as leis da natureza. Eles se sentem felizes, no início. Livres. Elegem um líder entre eles e passam a sustentar a si próprios em perfeita harmonia.”

“Até assim não mais ser,” continuou num sussurro. “Poucos aos poucos elas começam a perder a sanidade e a humanidade, e o que resta delas é barbárie e selvageria em estado bruto. Você sabia que ‘Senhor das Moscas’ é um dos títulos de Belzebu, uma das três entidades da primeira hierarquia do Inferno, Minho? Belzebu foi dado como o demônio da gula—assim como da ambição e ganância. Enxerga a paridade agora? Todos aqui somos crianças numa ilha deserta, temendo que nossos instintos primitivos um dia tomem controle de nós. Ou... quase todos. Outros são como os demônios que habitam o Inferno. Senhores das moscas, da gula, da ambição e da ganância.”

A voz de Taemin era de uma riqueza terna que preenchia o cômodo por completo e se enrolava por Minho como um cobertor quente, ignorado o conteúdo de suas palavras. Minho reservou a limitada energia que tinha para escutar atentamente e confiar em Taemin para lhe dar as respostas que procurava.

“Sabe do que demônios gostam? Sacrifícios. E demônios como estes que andam entre nós alimentam-se não do ato altruísta de se sacrificar, mas do sacrifício demandado, forçado por aqueles que querem se salvar. Eu olhei nos olhos de cada um aqui e me vi de frente com o monstro do egoísmo, e nele encontrei a oportunidade de evitar que minha ilha paradisíaca não se transformasse num pesadelo.”

“Isso faz de mim seu sacrifício?”

“O quê?”

“Eles acreditam que você é como um. Um demônio. Isso faz de mim seu sacrifício?”

“Você me vê como um demônio?” Perguntou Taemin. “É por isso que age tão hesitante perto de mim? Porque se sente como um sacrifício?”

Minho provavelmente não devia ter incitado questões para quais respostas lhe faltavam.

“Por quem está se sacrificando, então, hyung?”

Idiota! Ele havia dito aquilo num impulso e agora, confrontado por suas próprias palavras, via a verdade da qual elas careciam. Minho não era e não se sentia um sacrifício, e Taemin tampouco era demônio algum.

“Ninguém,” sussurrou ele. “Ninguém, me desculpe, eu não... não sei por que disse isso. Eu... ouvi tantas coisas sobre você e depois de realmente te conhecer percebi que elas não batiam e essa coisa toda me deixou confuso. Não estou me sacrificando por ninguém. Estou aqui com você, agora, porque não existe outro lugar onde eu queira estar,” Minho agora estava desesperado para se fazer ouvido, puxando Taemin junto a si e enterrando o rosto o seu pescoço, inspirando de seu cheiro intoxicante, gozando do par de braços que o envolveram em retorno. “Me perdoe, Pequeno.”

“Mmmn, perdoado. Mas só porque se eu ficar com raiva de você vou voltar a me sentir só o tempo todo, e a solidão é meio que...” Taemin ajeitou-se na cama, pés enlaçados com os de Minho e cabeça descansada no ombro do ruivo. “Brutal, às vezes.”

“Você não vai se sentir assim outra vez, Pequeno, eu prometo. Vou garantir que não.”

Taemin beijou sua bochecha. “Eu sei que vai, hyung. Mais alguma pergunta?”

A face de Luhan, pálida e distorcida pela melancolia, relampejou em sua memória de repente. Resquícios da confusão provocada pela droga, quem sabe. Por outro lado, graças aos cuidados de Taemin, Minho sentia sua temperatura normal e seus pensamentos — ou a maioria deles —  de volta no lugar.

“Só mais uma. Hum, hipoteticamente falando... se, uh, estivesse numa situação onde trair a pessoa que ama fosse para o bem de sua segurança, você a trairia?”

“‘O bem da minha segurança’?” Taemin ecoou, quase que divertido. “Se ‘o bem da minha segurança’ importa mais que a pessoa que amo, é porque não a amo de verdade. Simples.”

“Então a resposta é sim?”

“A resposta é... se eu estivesse numa situação dessas, faria como Jesus Cristo. Me deixaria crucificar e sangrar pelo bem da pessoa que amo. No entanto... não sou Jesus Cristo e sendo que jamais poderia me igualar a ele, não sou capaz de amar e perdoar a todos. Os outros... os que não amo—eu os afogaria no sangue que tiraram de mim, no sangue que viram como símbolo da minha derrota, e garantiria assim que não mais servissem de ameaça a mim e a pessoa que amo.”

 

Fazia sentido. Não era Minho o sacrifício, afinal de contas.

Eram os outros.

 

***

 

“Changmin, preciso da sua ajuda.”                       

“Finalmente cedeu aos meus charmes, eh?” O projeto de enfermeiro flertou de imediato. Segundos dentro da enfermaria e Minho se sentia pronto para sair correndo dali.

Ele forçou seus pés a ficarem no chão, entretanto. Uma olhadela pelas fileiras de camas bem-arrumadas dizia que estavam a sós; como Minho queria e receava ao mesmo tempo.

“Taemin sabe que está aqui? Ouvi dizer que vocês estão namorando, é verdade? Descobriu que prefere receber ao dar e veio aqui para saber como é levar de um homem de verdade?”

“Pare de falar merda,” Minho cuspiu. “Não é nada da sua conta. Mas já que tocou no assunto, não, Taemin não sabe que estou aqui, e é melhor pra todos que não saiba. Será que podemos conversar como adultos ou perdi meu tempo à toa?”

 “É meu dia de folga, não pode simplesmente entrar aqui e demandar que eu aja como um adulto,” disse Changmin, contrariando o que dizia ao fechar bem as portas e adotar uma máscara de seriedade por sobre a soberba usual. O enfermeiro tomou assento numa das camas e rolou os olhos para a recusa de Minho de se sentar. “Como quiser, Choi Boy. Seja rápido—os Jogos começaram hoje, pelo que soube, o que significa que a enfermaria estará lotada nos próximos dias e eu gostaria de descansar antes disso, muito obrigado.”

Okay, aqui vamos nós. Minho conhecia o bastante de si para saber que um passo em falso o usurparia de sua confiança, mas agora que estava onde precisava estar, disposto a fazer o que estava, seu propósito parecia fútil.

Não importa. Eu tenho que pelo menos tentar, e se eu conseguir... as coisas vão mudar e terá valido a pena.

A chegada da manhã varrera os resquícios da presença de Taemin do dormitório, o que assegurara tempo o suficiente a Minho para pensar e repensar os acontecimentos da noite anterior e de todos os dias sequentes a sua admissão à S&M. 

 Ele se colocara no lugar de Taemin; tentara enxergar a situação da perspectiva de um garoto gênio encarregado da responsabilidade custosa de administrar um colégio prestigiado como aquele, e durante os segundos que encarnara a personagem, compreendera a origem da ideia de que caos podia ser controlado por mais caos, se aplicado na medida e pela pessoa corretas.

Era aí que estava o problema. Até onde se controlava o caos antes que o caos passasse a te controlar? E a tal ponto, era possível identificar o próprio descontrole?

Minho acreditava em bondade inata e oblíqua. Acreditava que mesmo pessoas ruins contavam com pelo menos um ponto fraco; isto é, um objeto que despertasse a bondade escondida em si. Bondade que frequentemente passava despercebida por outros, ocasionalmente pelo próprio recipiente. Bondade existia de diversas formas e em diversos lugares — bastava dar-lhe chance para germinar.

O que Minho não acreditava era que os Jogos fossem o ultimato.  Ao contrário de Taemin, o Taemin religioso fervoroso, Minho não acreditava em Belzebu, demônios ou sacrifícios. Não acreditava em Jesus Cristo, e detestava a noção de que um único Escolhido deveria pagar pelos pecados cometidos por outros. Ele faria Taemin enxergar o seu ponto de vista.

“Você conhece Huang Zitao?”

“Taozi? É claro. Chinês, treinado em artes marciais; causou uns bons estragos nos pobres Alvos desde chegou ao colégio—sei disso porque fui eu que consertei os braços e costelas quebradas.”

“Ele é o Alvo esta semana.”

“O quê?” Changmin arfou, incrédulo. “Não, não, não, isso não pode ser. Tao é parte da EXO, membro da mesa A, o topo do topo da hierarquia. Taemin tem um acordo com essas pessoas de não incluí-las nos Jogos. O que ele quer, erguer o inferno dentro do próprio Inferno?”

 “Não tenho ideia,” confessou Minho, invertendo o peso sobre os pés. A corrente de informações — Tao pertencer a mesa A e a existência da tal EXO, o que diabos quer que isso fosse — era nova para ele, o que o fez enxergar sua inadequação e insipiência no assunto, sendo um mero novato entre o círculo de veteranos.

Também havia outro elemento em questão: a familiaridade que o novo Huang Zitao carregava em suas sílabas. Uma comichão na parte de trás de sua cabeça incomodara Minho a manhã toda, quase como... uma memória esquecida da qual aquele nome fazia parte. Mas ele rechaçara a ideia, pois ouvira falar do garoto pela primeira vez no início da manhã, durante o sorteio do Alvo.

Minho umedeceu os lábios, convocando a confiança que não tinha para então dizer:

“Vai soar louco e eu sei, mas preciso que me ajude a manter Zitao a salvo. Se você puder escondê-lo aqui enquanto eu—“

“Enquanto você o quê?” Interrompeu Changmin, entre ares de deboche. “Se sacrifica no lugar dele como um nobre herói? Fode Taemin até que aquele psicopata recupere os sentidos?”

“Taemin não é—“

“Um psicopata, sim, estou ciente de que o transtorno de personalidade dele é outro. Modo de falar.” Transtorno de personalidade...? “Deixe-me dizer isto logo de cara, Minho: não vai funcionar. E não tem por que funcionar. As coisas iam perfeitamente bem sem seu traseiro enxerido e vão continuar bem sem seu traseiro enxerido. Se está mesmo determinado a tomar o Diabo como seu namorado, vai ter que aguentar o som dos gritos das almas torturadas por ele enquanto dormem juntos.”

Hyung, por favor...”

“Hyung?” Changmin gargalhou. “Boa tentativa, Choi Boy. Pode continuar me chamando de hyung, se quiser, é bonitinho, mas não vai adiantar. Não vou fazer isso, me desculpe. Tenho o gênio perfeito para as coisas perversas e obscuras, não para os atos de altruísmo.”

Minho sentiu os ombros despencarem.

“Tudo bem.” Ele havia considerado aquele cenário, é claro, mas admitia que rezara para que a quedinha de Changmin por garotinhos bonitos agisse a seu favor. “Eu... vou indo, então. Obrigado mesmo assim.”

Changmin o interceptou a centímetros da porta.

“Ei, espere, você estava na festa ontem a noite, não estava? Ouvi Baekhyun dizer que ‘um ruivo das pernas de saracura’ tinha fritado ontem e que ‘Taemin finalmente ia perder o cabaço com ele’.”

Minho engasgou com a própria saliva. A única coisa fritando ali era seu olhar semicerrado sobre Changmin, cujo sorriso de malícia cintilava feito a lâmina de uma faca.

“Que tipo de enfermeiro é você, afinal?”

“Um muito bom, meu diploma vai te assegurar disso.”

“Não acredito que não saiu da universidade de medicina direto para a cadeia.”

“Eu provavelmente foderia algum policial em troca da minha liberdade, sem problemas.”

Nojento.

“Mas hey, isso deve ser verdade, não é? Baekhyun também disse que alguém tinha quebrado a perna durante a festa e olha o que aconteceu com Henry.” Changmin suspirou, pesaroso.

“Henry?”

Da última vez que falara com Henry, o chinês-canadense se provara um verdadeiro filho da puta e Minho jurou que não voltaria a se entrosar com ele novamente. Era inesperado que o nome de Henry brotasse numa conversa com Changmin.

“O que aconteceu com Henry?” Perguntou Minho. O pressentimento ruim que o invadira tomou forma na sentença que então partiu dos lábios do enfermeiro:

“Quebrou as pernas ontem. Ambas as pernas. Disseram que foi na festa—que tudo estava escuro e todo mundo estava fritado e que ele deve ter caído e pisaram nele sem perceber. Vou te dizer: um elefante deve ter se infiltrado naquela tal festa, porque quem pisou nas pernas dele fez um estrago e tanto, triturou os ossos dele e os fez de pó. Foi transferido para um hospital neste instante, aliás, pouco antes de você chegar aqui. Se o que o tagarela do Baekhyun diz é verdade, também pediu transferência do colégio.”

“...O-Oh.”

Sinistro era pouco para descrever as circunstâncias do incidente.

O que Henry havia dito mesmo antes da festa?

Boatos dizem que a noite sempre acaba com alguém quebrando uma perna ou um braço.

“Yo, Choi Boy, o sino toca daqui a três minutos,” Changmin alertou. “Não vai se preparar para os Jogos? Esconder debaixo da saia de Taemin ou algo assim?”

“Ah... y-yeah, eu. Hum, vou indo. Posso — posso pegar um remédio pra dor de cabeça primeiro?”

“Claro, bebê. Em boquete ou em dinheiro?”

“Você é realmente nojento,” murmurou Minho, apanhando um dos frascos de dipirona da estante de analgésicos. Atirou uma nota de 5000 won na cara de Changmin e se mandou — às pressas, porque os Jogos haviam começado e Minho tinha um Alvo para resgatar.

***

 

A estratégia era simples: deixar um recado no armário de Zitao explicando quem Minho era e suas intenções, encontrar com o garoto chinês na sala de manutenção do quinto andar e ali montar um forte, onde Zitao ficaria acampado pela duração dos Jogos e Minho seria seu guardião, trazendo-lhe comida, água e as anotações do dia. Era perfeito, pois a entrada para a passagem de ventilação que circulava o colégio inteiro ficava naquela sala. Assim, em caso de emergência, Zitao teria como se locomover para um local seguro.

Era o plano perfeito, disso Minho tinha certeza. Exceto que a peça principal para ele funcionar estava dez minutos atrasada.

Será que ele sequer recebeu o bilhete? As palmas de Minho transpiravam em ansiedade, forçando-o a limpá-las em seus jeans a cada meio minuto. Era uma possibilidade — o armário de Zitao era o lugar mais propício a ser vigiado e usado para uma emboscada.

Se serve de consolo, pelo menos o cara é rápido. Tão rápido que o que Minho vira dele fora um borrão de cabelos loiros espetados disparando através das portas do refeitório, instantes depois de seu nome ter sido retirado da urna não pelo timbre apático de Taemin, e sim pela voz trêmula de Jinki. Minho sentira simpatia pelo doce Vice-Presidente de Classe, transparente em seu desgosto pelos Jogos.

Desgosto que tentara Minho a convocá-lo para ser parte do plano, mas a ideia foi descartada à memória da animosidade entre os primos. E se eles fossem descobertos? Jinki e seu relacionamento com Taemin sofreriam as consequências e Minho teria sido o catalisador de todo o desastre.

Um dia ele teria coragem para questionar o porquê de suas duas pessoas favoritas detestarem uma a outra. Um dia. Por enquanto, se manteria fora dos assuntos de família.

tap-tap-tap de passos vindo naquela direção eriçou seus sentidos; Minho preparou a raquete de badminton que trouxera em caso de emergência, pronto para atacar antes que atacassem.

Uma mão surgiu do nada e pousou sobre seu ombro e Minho girou, gritando e brandindo a raquete loucamente.

OW! OW, PERAÍ, EU TÔ DO SEU LADO!” A figura alta de cabelos amarelados gemia. “Huang Zitao, lembra?! Você deixou um recado—agh!”

O braço agressor de Minho oscilou. “Zitao?” Repetiu ele, só para confirmar. O garoto chinês acenou por baixo das mãos que lhe protegiam a cabeça das raquetadas. “Oh. Oh! F-Foi mal, meu Deus, foi mal—eu meio que, uh, entrei em p-pânico.”

“Eu também, achei que fosse morrer por um momento,” resmungou Zitao. Minho quis se encolher e virar pó, tamanho seu constrangimento; coisa que deixou transparecer, segundo a risada do garoto. “Hey, nós dois nos exaltamos, okay? E além do mais foi minha culpa por me atrasar. Está um inferno lá embaixo, quase que me pegaram no caminho até aqui.”

Minho suspirou em alívio por Zitao.

“Isso é... isso é bom, que ótimo.” O ruivo percorreu o andar com os olhos uma última vez e, ao garantir-se de que estava limpo, sacou as chaves do bolso da calça e pôs-se a andar. A sala de manutenção ficava logo à esquina do corredor. “Vamos indo, então...? Pegou o que precisava? Roupas e tudo mais?” Minho pausou na espera de uma resposta.

Um murmúrio ambíguo de Zitao, grudado a seus calcanhares, o fez continuar.

“Você parece um tanto tenso, Choi Minho. Tem certeza de que está disposto a fazer isso tudo por mim? Um mero estranho?”

“É por uma boa causa. E não importa que você seja um estranho, o que importa é que essa coisa de Jogos é injusta e desumana e ninguém merece passar por isso.”

“Injusta e desumana, uh? O mesmo pode ser dito sobre o idealizador disso tudo, então, você não concorda?”

O idealizador dos Jogos. Taemin. Minho retesou-se. “Trouxe o que precisava?” Pressionou, em tom cauteloso. Ele girou para encarar Zitao nos olhos e deixar claro que o rumo da conversa seguiria as regras de Minho, quando um detalhe obrigou seus pés a congelarem ante a porta.

Nunchakus. Os dois bastões interligados rodopiavam sob o comando das mãos de Zitao, cujo sorriso frio prometia nada menos que uma encrenca a diante.

“Tenho tudo o que preciso bem aqui, Choi Minho.”

A reação de Minho foi tardia, o que deu a Zitao a chance de esmagá-lo contra a porta e incapacitar o braço que segurava a raquete numa única investida. Minho tentou acertá-lo jogando o punho livre para trás, mas Zitao previu aquilo e cercou seu pescoço com os nunchakus, usando a pressão da mordida fria da corrente em pele morna para puxar sua vítima contra si e limitar qualquer movimentação. Minho se debateu e engasgou e arquejou, ambas as mãos agora lutando para afrouxar a corrente que o sufocava.

“Ah, ah, ah, quietinho aí ou vai se machucar, bonitinho~” Cantarolou o chinês em seu ouvido. “Ele me fez prometer que não te machucaria. Muito.”

“S-S... olta... solt...ta...”

“Foi mal, ruivinho, não vai dar. Recebi ordens para manter você amarradinho dentro dessa sala até o Lorde das Trevas chegar, mas hey, se for um bom garoto e parar de tentar me chutar, talvez eu não te amarre.”

Minho sempre fora um bom, bom garoto.

Como prometido, Zitao não o amarrou uma vez enfurnados na sala úmida, destituída de janelas, ventilação e mobília senão por uma cadeira posicionada ao centro. Foi nela que Minho despencou ao ser chutado no peito por driblar seu agressor e tentar derrubar a porta.

Zitao lhe atirou um olhar afrontado. “Essa é sua de um bom garoto? E olha que eu estava sendo legal!”

Mas que porra é esta. Que porra. É. Esta. Minho não estava entendendo porra alguma. Como diabos isso foi dar errado? Ele não sabe que estou do lado dele?!

“Posso ver nessa carinha que está confuso e prometo que já, já tudo vai ser explicado. Vamos deixar claro que não é nada pessoal, tá bem?”

“Oh, sim. Na boa,” rebateu Minho, sarcasmo e frustração pelejando em sua fala. “Eu não—eu não entendo. Por que, por que está fazendo isso?! Por que não quer que eu te ajude—

“Porque ele não precisa de ajuda.”

Minho não ouvira a porta ranger aberta, sequer notara a presença de um terceiro oculta pela estatura de Zitao.

 A voz, entretanto... Minho desejava não reconhecer aquela voz.

“O nome dele não é Zitao,” disse Taemin, Taemin, em carne e osso de pé naquela sala malcheirosa em que Minho havia sido aprisionado e agredido. Taemin, sempre belo e delicado, brincando de torcer seu brinco rosário como quem brinca de Deus. “E ele é mais um canadense aguado do que chinês, por falar nisso.”

“Continue, por favor, eu acho extremamente sexy quando jogam sal na minha ferida.”

Taemin dirigiu um sorriso inocente ao loiro alto. “Aww, não fique assim. Deveria estar feliz que mal teve contato com sua descendência chinesa, Kris, sabe como chineses são tratados por aqui. Ainda mais sendo o guardião do pobre Luhan — que, aliás, ficou à beira de um coma alcoólico um dia desses, fiquei sabendo. Espero sinceramente que ele esteja bem agora.”

“Ele nunca vai estar bem enquanto estiver no meio dessa gente e você sabe disso, seu demoniozinho,” devolveu Kris, carrancudo. “Será que posso me mandar agora? Desde que larguei a EXO eles vêm querendo comer meu cu nos jogos e se me der licença, vou comer o deles primeiro ou me foder tentando.”

Taemin gesticulou impaciente para a porta escancarada. Naquele ínterim, Minho erguera ao seu redor uma barreira de quietude sólida o suficiente para conter o fluxo de indagações ameaçando fluir de sua boca em rajadas e afogá-lo. Manteve a cabeça baixa, o queixo apoiado no peito. Kris desvanecera e o entregara de bandeja às mãos da fera.

“Minho.”

Minho não ia olhar.

Minho não ia olhar.

Minho não ia olhar.

“Hyung...”

Não sou seu ‘hyung’ de verdade, sou? Você brinca com essa palavra e nem tem respeito por mim.

“Hyung.” Era injusto, traiçoeiro, jogo sujo — Taemin sabia o efeito que falar naquele timbre doce e tocar Minho simultaneamente surtia no mais velho. Taemin era injusto, traiçoeiro, o epítome de uma jogada desleal. “Você não quer olhar para mim nem falar comigo, mas pode ouvir o que eu tenho a dizer, certo?” Ele se acomodou no colo de Minho, encaixou a ponta do nariz em sua têmpora, suas mãos pequenas envolvidas na densa massa de cabelos avermelhados. “Relaxe. Posso sentir seu corpo inteiro tremendo. Está tudo bem, Minho, não vou te machucar. Nada disso foi com a intenção de te prejudicar, amor.”

Não tolerando a falta de recíproca, Taemin agarrou os braços de Minho que pendiam dos lados da cadeira e enrolou-os um depois do outro em sua cintura, selando o abraço íntimo. O que acontecera era demais para absorver, então Minho desistiu de tentar.  Estava exausto. Confuso.

“Você, por outro lado...” Prosseguiu Taemin. “Estou desapontado, Minho. Eu confiei em você e você tentou me prejudicar—por que, hyung? Era mentira o que me disse na noite passada? Ainda se vê como meu sacrifício e quis se rebelar, é isso? Eu não compreendo. Eu não compreendo, Minho, então me ajude a compreender. Fale comigo, por favor. Por favor, hyung.”

Beijos trilharam sua testa, pálpebras e lábios. “Por favor...”

Em vez de resistir às carícias, Minho se focou em conter a gargalhada explosiva que lhe subia a garganta. É aí que tá a coisa, Taemin, sou eu quem não entende porcaria alguma. Numa hora você me promete respostas sinceras e na outra me confunde mais e mais, e o ciclo continua. Cansei desse jogo. Cansei.

“Qual era sua intenção, afinal? Esconder Zitao aqui e depois o quê? Minho, pense na ilha. Nas crianças e nos demônios—se ninguém se sacrifica, todos sofrem. Já imaginou o que aconteceria se os alunos se voltassem uns contra os outros, na falta de um único alvo? Já imaginou se eles se voltassem contra você?

Aquele discurso era história remoída e ultrapassada. Minho se concentrou no que o interessava. “Como soube?”

“EXO vigiava o armário de Zitao quando viram você colocar um bilhete lá dentro.”

“Não, como você soube, Taemin? Você não estava lá. Você não estava em lugar algum, por isso forçou Jinki a fazer o maldito sorteio—“

“Jinki?” Entoou o garoto.

Uma coisa obscura e monstruosa respirava subjacente ao seu tom de voz, e para seu infortúnio, Minho acabara de despertá-la. Taemin ergueu-se num movimento brusco, quase não derrubando Minho junto à cadeira que agora contornava.

“É sobre Jinki, então?” Sibilou. “O que me disse na noite passada era mentira, afinal de contas? Ainda se sente um sacrifício de um demônio como eu, hyung? É pelo estúpido do Jinki que está se sacrificando? Responda!” A coisa obscura e monstruosa de antes retornou, mais barulhenta e poderosa, rugindo a plenos pulmões. Minho não era páreo para ela.

“N-Não, Taemin, Jinki não tem nada a ver...” A ansiedade em seu peito crescia paralela à velocidade que Taemin rodopiava, rodopiava e rodopiava.

“Eu acredito em você. Acredito em você, de verdade, mas... ouvir o nome dele sair da sua boca me deixa... furioso.” Taemin despencou ao chão entre suas pernas, unhas cravadas no espaço onde as coxas de Minho se encontravam — na porção sensível de carne que o tinha refém de uma onda de arrepios.  “Eu amo meu primo. Ele é sangue do meu sangue, somos praticamente... a mesma pessoa desde quando éramos crianças e nossas mães nos criavam como irmãos. Jinki é o irmão mais velho que nunca tive, e eu o amo tanto. Mas eu sempre fui uma criança egoísta, e ficava sempre de mau humor quando era forçado a compartilhar meus brinquedos com ele. Eu cresci e continuei a ser aquela mesma criança egoísta, você entende, Minho? Não estou dizendo que seja meu brinquedo. Você é algo de valor para mim. Algo que não estou disposto a compartilhar, nem mesmo com Jinki.”

A ironia era que Minho queria Taemin e somente Taemin, quando talvez Jinki tivesse sido a opção mais segura.

“Olhe para mim, Minho,” instruiu Taemin, sorrindo a ele quando suas faces se alinharam. “Seus olhos são... tão bonitos. Da primeira vez que olhou para mim e eu me vi refletido nos seus olhos, soube que minha imagem é a única que deve pertencer neles.”

“Taemin...” o sussurro partido cambaleou, débil, pelos lábios rachados de Minho. Está me assustando, queria dizer. Não reconheço a pessoa que está aqui na minha frente e ela me amedronta.

“Shhh, chega de conversa por enquanto, hm? Ainda tenho que decidir o que vou fazer com você.” Taemin fez um estalo com a língua. “Não posso simplesmente deixá-lo sair e arriscar que tente sabotar os Jogos outra vez, concorda?”

“N-Não vou, não vou tentar, juro—“

“Me perdoe por não acreditar na sua palavra, hyung. Agora sente aí, bem assim, quietinho, e seja um bom garoto.”

Os dedos ágeis de uma das mãos de Taemin trabalharam no zíper da calça de Minho enquanto a outra serpenteava sob sua camisa, acariciando os músculos sólidos de seu abdômen, que se retesaram e estremeceram em resposta ao estímulo. Minho tentou protestar, mas Taemin esfregou seu membro entre os dedos e soltou um gemido alto ao sentir a carne morna pulsar contra sua palma, e a queixa se transformou num arquejo esgoelado.

Taemin o esfregava de cima a baixo com delicadeza, com devoção, polegar roçando brevemente a pequena fenda na cabecinha úmida e avermelhada que já gotejava pérolas leitosas. Ele inclinou a cabeça e contornou os testículos tesos com a língua, e os olhos de Minho rolaram para dentro de seu crânio quando os chupou um por um.

A pletora de sensações era entorpecente e tão boa e Minho se sentia sujo, sujo por estar adorando ser tocado daquela forma pela primeira vez.

“Seu gosto é tão doce,” Taemin gemeu, seguindo a fala com uma longa lambidela da base à ponta, mapeando a veia protuberante que se estendia pelo comprimento. Minho era grosso e longo e perfeito, cheio de veias espessas que ele podia sentir pressionadas à parte de dentro de suas bochechas ao abrigá-lo inteiro dentro de sua boca. Minho arriscou um relance para a imagem dos lábios inchados de Taemin distendidos ao limite em torno de sua ereção, rachados e sangrando e pingando cuspe, e emitiu um sonoro “porra!”

Minho agarrou um punhado dos cabelos negros do garoto e forçou Taemin a engolir mais de si. O mais novo engasgou no pedaço de carne — grosso demais para uma boca tão delicada —, contudo, o tratamento brusco parecia excitá-lo além do compreensível, pois gemidos abafados tornaram-se frequentes e ele empurrou a cabeça para frente em sincronia com os quadris de Minho, incentivando o ruivo a foder sua boca. Incapaz de desapontá-lo, Minho estocou mais rápido para dentro da cavidade quente e úmida, orgasmo iminente na forma como a língua de Taemin revestia a glande com pinceladas desordenadas, lambuzadas.

Resistindo à pressão do aperto em seus cabelos, o moreno recuou alguns centímetros e retomou a coroa farta entre os lábios. Taemin chupou-a com força e Minho uivou, derramando pragas, lágrimas de prazer e esperma em sua boca, bochechas e queixo.

Ponderou brevemente se a sensação de pintar um quadro era a similar. Taemin decerto daria uma bela obra de arte — arfando e tossindo de joelhos no chão, gotas de sêmen pontilhando o escuro de seus cabelos e longas tiras do leite viscoso cobrindo-lhe as feições. Ele engoliu o que Minho lhe oferecera com generosidade e ainda lambeu os lábios.

 

Um demônio, ah, sim.

 

***

 

 

PARTE IV:

BLOOD

 

 

 

Da última vez que Minho vira sua mãe ele chorara nos braços dela como um garotinho, e supunha que naquela época estivesse de fato confuso e perdido feito um. Sua mãe ajoelhara ao seu lado nos degraus da saída do fórum e o apertara forte, protegendo-o dos olhares tortos que eram lançados aos Choi onde quer que se mostrassem presentes. 

 Choi Sooyoung fora moldada pela vida tal qual uma estátua esculpida em pedra. Bonita, imponente e requintada, mas acima de outros inúmeros atributos, gentil e cordial. Engravidara pela primeira vez aos 13 — incidente que gerara o primogênito da família, Minseok. Minho veio a nascer quatro anos depois, realizando o desejo de seus pais — um casal negligente de adolescentes terminando seus estudos — de ter dois filhos homens para criar e mimar à vontade.

Ser mãe naquela etapa prematura de sua vida não impediu Sooyoung de se formar do ensino médio, e de posteriormente botar as garras no seu diploma de publicidade e relações públicas da Universidade Ewha para Mulheres. Um dos hobbies favoritos de Minho era se gabar sobre a brilhante publicitária que tinha por mãe; a mulher era capaz de transformar o mais banal dos produtos num alvo de consumo. Ocasionalmente, Sooyoung tirava proveito da beleza exótica de Minho para seus projetos, chegando até a conseguir papéis para ele em comerciais de empresas de pequeno porte.

Essa era a vida de Minho há seis meses, embora o desbotar gradual das memórias fizesse parecer seis anos, seis vidas. Seis meses atrás ele usufruía de uma vida agradável nos EUA; de manhãs onde a cozinha transbordava com o cheiro de panquecas, frutas e sucos e o som da risada de Sooyoung; de tardes lamacentas no gramado do time de futebol profissional de seu pai e de noites saudosas conversando pelo Skype com Minseok, atualmente em intercâmbio na Escócia.

A vida agradável nos EUA durou até seu pai, Yunkyum, ser preso, e Minho e Sooyoung serem extraditados para sua terra natal.

Minho sentira-se estúpido por chorar após o julgamento, seis meses atrás; sentia-se estúpido no cenário presente, lacrimejando ante a visão de sua mãe lavando louça em roupas de faxina e de pés no chão. Ele largou malas e receios no piso e correu para abraçá-la.

“M-Minho—?” A expressão de Sooyoung denunciava choque, tristeza, alívio. Ela retornou o gesto com fervor igual. Não importava que cheirasse a poeira e produtos de limpeza, porque debaixo do odor havia um aroma distinto de lar. “Oh, meu Deus, é você? É você mesmo? Você—você cresceu, está maior que seu pai agora!”

A risada de Minho foi fraca. “Nah, não tem como você saber, lembra?” Brincou. Dor momentânea escorreu dos olhos de sua mãe e desaguou no sorriso ofuscante característico dela. “Mãe, me perdoe. E-Eu não entrei em contato esse tempo todo e... e... você se deu o trabalho de me ligar e saber como estavam as coisas e eu nem... nem considerei saber de você. Me sinto tão mal, eu me sinto... eu sinto que te abandonei.” Como papai fez com nós dois.

Sooyoung calou seu gaguejo beliscando-lhe as bochechas.                                        

“Desculpe, querido, mas seu plano de me emocionar com esse discurso falhou,” provocou ela. “Vamos, Min, não seja dramático. Está agindo como se Seul e Incheon ficassem a dez minutos de caminhada. Aí se fosse o caso eu te daria uns bons chutes por não vir me visitar. Aposto que estava ocupado sendo um estudante brilhante e futuro candidato ao prêmio Nobel.”

“Prêmio Nobel não sei do quê.”

“Prêmio Nobel das Pernas Long—ow, não me bate, eu sou sua mãe!”

Levou duas horas para que as malas fossem desfeitas e o conteúdo delas arranjadas no quarto que Minho, com certa estranheza, chamava de seu. Podia contar na mão esquerda o número de ocasiões em que pisara ali dentro por mais de cinco minutos.

Qualquer coisa era preferível ao dormitório infernal da S&M.

O rastro de vapor que o seguiu para fora do banheiro anexo ainda era quente quando seu celular vibrou no criado-mudo, e continuou a vibrar ao longo da noite: enquanto se vestia, durante o jantar, após Sooyoung retirar a mesa e ambos se acomodarem no sofá em frente à televisão, as pernas dela sobre a mesinha de centro e Minho deitado em seu colo.

“Não vai atender?” Perguntou Sooyoung, espiando a tela na busca por um nome. ID NÃO IDENTIFICADO, lia-se.

“Não,” respondeu Minho, sabendo exatamente de quem se tratava.

E pensar que eu estava a salvo em casa. Ele bufou. Não era óbvio que queria distância dele? Minho jogara os presentes deixados em seu armário no lixo, trocara o número de celular, até rearranjara seu cronograma de aulas para evitar ser encontrado por ele. Minho precisava de tempo e espaço, coisa que ele parecia obstinado a consumir e infectar com sua presença.

O que acontecera naquela sala escura do quinto andar... era imperdoável.

Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. Não tem como ele me seguir até aqui, estou seguro aqui.

“Mãe?”

“Hm?”

“E... as coisas com o papai?”

Sooyoung expirou alto.

“Feias. Estão bem feias. Além da prisão, a indenização que estão pedindo... seu pai desviou muito dinheiro do time, Minho, uma quantia... absurda. A Associação quer o dobro dessa quantia de volta, o que é impossível acontecer, nas condições atuais. Perdemos dinheiro contratando advogados, fechando acordos, indenizando patrocinadores e etc. Isso significa que a estadia de Yunkyum na cadeia pode ser... mais longa do que pensávamos.”

Era justo.

“Por quê?” murmurou Minho, preso num conflito de amargura e derrota. “Eu penso no que ele fez o tempo todo e quebro a cabeça tentando encontrar um motivo, algo que explique os atos dele e... nada. Por que o pai faria isso? Ele não é um homem ruim.”

“Está procurando as respostas certas pelos métodos errados, querido. Sabe o que penso sobre ‘pessoas ruins’ e ‘pessoas boas’...”

“‘O conceito de pessoas boas e ou ruins é um mero equívoco,” recitou o ruivo perfeitamente, “só existem as pessoas, suas ações e as consequências geradas por elas’. Yeah, mãe, eu já ouvi você dizer isso só um zilhão de vezes. A coisa é: você é maluca, e seus conselhos são igualmente malucos.”

“Aww, obrigada.” Sooyoung riu baixo. “Meus conselhos podem ser loucos, mas não significa que não possam ser relevados. Pense num homem que cuida de um jardim. Ele mora sozinho numa casa grande com um enorme jardim onde brotam rosas, camélias, lírios... ele ama suas flores. Cuida delas religiosamente. Acorda de madrugada todos os dias sem falta, pouco antes de o sol nascer, para conversar com elas; trata-as como se fossem sua família. É um bom homem para com suas plantas.

Esse mesmo homem é um criminoso notório por raptar, assassinar e abusar de crianças da vizinhança que ele mantém em seu porão. Ele as larga lá para definhar e apodrecer e quando chega a hora, as enterra em seu jardim, devolvendo-as à terra de onde suas plantas se alimentam. As rosas continuam a florescer cada vez mais belas, erguidas sobre sangue e ossos.”

“Ele é um homem ruim,” disse Sooyoung, “ele é um homem bom. Dos dois, ambos. Depende da sua perspectiva.”

“Esse homem não existe,” apontou Minho.

“Claro que existe, olhe ao seu redor. Somos todos assassinos notórios cuidando de um belo, belo jardim de rosas, sangue e ossos.”

“...Eu acho que vou para a cama agora.”

Sooyoung beijou-lhe os cabelos. “Tá bem, não se esqueça de expulsar o monstro debaixo da cama antes. Aliás, quando vai pintar o cabelo de novo? O ruivo combina com você, mas você é novo e tem um tempão para experimentar. Que tal rosa? Cinza, prata talvez?”

“Boa noite, mãe.”

O toque do celular o manteve acordado por horas a fio. O monstro da insônia escondido debaixo da cama não lhe deu trégua.

Cansado de rolar e se contorcer e pensar sobre os lençóisMinho atendeu a ligação. O relógio fez graça: apitava quatro e quinze da manhã.

Silêncio clamou a vanguarda na guerra travada pela pessoa ao final da linha; e então...

 “Eu sinto muito, hyung.”

Minho fechou os olhos.

“Minho, eu... eu te amo, tá? Te amo.”                 

Sonhou.  

 

 

 

Sooyoung saiu de casa às pressas na manhã seguinte; grogue de sono, Minho captou fragmentos de seu discurso — algo sobre uma amiga íntima desolada nas margens da cidade e um trem que raramente respeitava os horários predefinidos.

“Ah, e antes que eu me esqueça: a previsão do tempo avisou que ia chover forte, não sei quando, mas feche as portas e janelas por precaução! Volto antes do amanhecer para te levar ao colégio, querido, divirta-se!”

Como se passar o dia trancafiado em casa fosse sinônimo de diversão. Minho não se divertiu; se entediou. O fim da tarde marcou seu record de horas estirados no sofá da sala feito um saco de batatas, comendo pipoca fria ao som da tevê ligada num programa de música ao vivo e da garoa que farfalhava em segundo plano. O telefone fez-se mudo, para o favor de seu cochilo prolongado.

Veio o cair da noite, e junto a ele um estrondo intenso.

Minho saltou de seu sono alarmado, embora antecipasse a tempestade. Chuva e vento sobrepunham-se, furiosas, causando desordem e perturbando as janelas seladas das casas próximas a árvores. A ventania — titeriteiro da natureza — meneava os fiapos de água sobre os galhos — seus violentos fantoches.

BANG! BANG! BANG! A batida disparada de seu coração se confundia com o ruído originado da porta. Minho respirou fundo — ao nível de sentir tontura — e girou a maçaneta, indo de encontro direto a um sorriso ensanguentado.

“H-Hyung,” Taemin balbuciou por ele como se Minho fosse seu herói, seu salvador, seu Messias renascido, e aquilo era tão fodido porque seu suposto salvador só pôde encará-lo em horror à medida que Taemin sangrava, sangrava, sangrava. Cortes irregulares, pequenos e largos, todos sangrando terrivelmente abriam-lhe a pele dos braços desnudos pelas mangas erguidas da camisa de abotoar — outrora branca, agora vermelho vinho.

Minho entrou em pânico.

“T-Taemin? Oh meu Deus, Taemin!” O ruivo puxou para si a figura débil de Taemin e seu pânico atingiu novas alturas quando o garoto tropeçou e caiu em seu peito, gritando de dor. Entretanto, nem sequer a galeria de hematomas frescos que trazia o absteve de abraçar e segurar firme a cintura de Minho.

“Taeminnie? Taeminnie, o-o que aconteceu? Quem te machucou, o que aconteceu?” A ideia de alguém ter feito mal a Taemin enquanto Minho não estava lá o enojava. Ele queria vomitar, queria chorar e arrancar sangue do responsável por aquilo.

“Diz pra mim, Pequeno,” sussurrou Minho, oh-tão-doce, trilhando dedos pelos cabelos empapados de água e sangue do garoto aos soluços em seu aperto. Minho ergueu o queixo de Taemin e beijou, lambeu suas lágrimas, mandando-as dali para o oblívio. “Me diz, hmm, quem fez isso com você? Alguém do colégio machucou você? Taemin, olhe para mim. Olhe para mim e me diga agora.”

“Me desculpa!” Ganiu o pequeno, frágil garoto. “Me desculpa, me desculpa, me desculpa, me desculpa...”

“Shh, shh, você precisa me dar um nome, só um nome...”

H-Hyung. Hyung, eu estava tão triste. Eu estava tão, tão triste e só e você me odeia e eu te amo tanto e isso d-dói! Dói tanto, hyung, me desculpa, me desculpa. Eu n-não gosto de dor—não gosto de dor mas eu fiz tudo errado e eu m-mereci, não mereci? Ser punido. Eu m-machuquei você, ent-tão... f-foi justo me machucar, também.”

Os cortes... Taemin fizera aquilo sozinho...?

Okay. Okay, eu posso lidar com isso. Minho tentou manter-se calmo. “Respire comigo, Pequeno, isso... isso. O que você usou? Pra... pra se cortar?”

“F-Faca.”

“Estava limpa? Enferrujada?”

“Era n-nova,” relatou Taemin, entonação e respiração ambas fracas. Sirenes berravam aos ouvidos de Minho. Aquilo não era bom.

“Certo, certo. Você vai ficar bem, Taemin, prometo. Segure-se em mim, vamos te dar um banho e limpar essas feridas... por agora.” Minho suspeitava que os cortes mais profundos requeressem pontos.

Minho implorou para Taemin ser forte no momento em que a água quente da banheira penetrou sua carne exposta, e o moreno, obediente, conteve gemidos horríveis por trás dos dentes. Foi tranquilizante assistir a água ensanguentada volver ralo abaixo. O simples processo de limpar os cortes esgotou aos dois — Taemin em especial. Seu corpo nu e pálido tremia acoplado à frente do corpo de Minho, vergado, mole, sobre a borda da banheira.

O mais velho contemplou, brevemente, a criatura franzina em seus braços. Taemin, em resposta, suspendeu um olhar acanhado que coagiu Minho a inclinar o rosto para baixo e roçar o nariz no seu.

Vou cuidar de você mesmo que isso implique te proteger de si mesmo.

Os cortes nos braços — e pernas, descobriu Minho em desprazer — foram esfregados com pomada e enfaixados. Minho pescou do guarda-roupas seu suéter mais quente e largo e apenas deu-se por satisfeito ao mirar a cama e topar com Taemin todo encolhido sob a peça de roupa, cercado de dois travesseiros. Minho — tomado banho e de pijama — deitou-se meio jogado por cima ele, aprisionando o menor num casulo de ternura e afeto entre seu corpo e a cama.

“Meu pai tentou me matar quando eu tinha sete anos,” Taemin disse calmamente.

“O médico da família disse que era esquizofrenia. Nossa família sempre foi muito religiosa; é um ritual que preservamos há gerações. Meu pai em particular era pastor, e um fiel extremista, só que na época eu não o via assim — eu adorava ir à igreja e acompanhá-lo aos seminários, afinal. Mamãe... fazia cara feia para certos hábitos dele, como... como quando ele se trancava no quarto dos fundos ao fim de cada mês e... se chicoteava. Para se livrar dos pecados.

Ele só piorou. Recitava versos aleatórios da bíblia como se estivesse num transe à mesa do jantar, e por vezes vagava pela casa de noite, cruz e água benta debaixo do braço, clamando estar no rastro de um demônio. O demônio eraeu, afinal de contas. As coisas que ele via... elas eram sombrias e horríveis e aconteceu que ele começou a me ver como uma delas. Porque eu estava sempre lá, sempre lá. Porque eu amava papai tanto que não percebi o que ele tencionava até nos trancar no banheiro e tentar me afogar, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

“Mas eu estou bem.” A voz de Taemin estilhaçou-se em mil pedacinhos. “Eu cresci e perdoei o que ele fez, como ele queria que eu fizesse. Eu... eu não sou um demônio, sou, Minho? Demônios não perdoam coisas assim, perdoam?”

“Não,” concordou Minho, piscando lágrimas intrusas para fora dos olhos.  “Demônios também não amam—e você me ama, certo?”

“Mais do que qualquer coisa, hyung.”

 

Não era hoje que Minho recitaria aquelas três palavras de volta. Um dia.

Um dia.

 

***

 

AGORA

 

 

“Não precisa dizê-las, sabe.” A fala de Taemin era mais respirada do que propriamente dita, dali, do abrigo que encontrara entre o queixo e o pescoço de Minho, no espaço onde de quando em quando roçava suas bochechas e lábios, idêntico a um felino sedento por afeição. “Seu coração as grita para mim. Eu te amo, Taemin, eu te amo, eu te amo.”

Minho afagou-lhe os cabelos. “Sábio coração, esse meu.”

“Hmm.”

“Não vai rezar antes de ir dormir?” Estava preocupado com o episódio sucedido no jantar — a súbita falta de apetite do garoto e o comportamento irritável, anormal, considerada a dose de remédios calmantes a qual estava submetido —, contudo, investigaria os fatos uma outra hora. Taemin se sentia mal e seu dever como namorado atencioso era cuidar dele e mimá-lo.

Como sempre fiz e sempre farei.

“Hoje não,” respondeu ele, suspirando. “Deus pode vir falar comigo pessoalmente, se quiser. Marcar ora ou coisa assim. Estou cansado.”

“Vá dormir logo, seu maldito herege.”

Havia algo que Minho aprendera a adorar nos dois anos que passara como um constante visitante da propriedade dos Lee: a janela do quarto de seu namorado tomava quase dois terços da parede oposta à cama, fazendo com que as noites passadas a dois fossem menos sobre dormir e mais sobre observar o céu sem estrelas.

Exceto que as estrelas estavam lá — só não era possível vê-las. Em casos assim, Minho se contentava com as luzes artificiais da cidade lá embaixo, brilhando azuis, roxas e amarelas enquanto o corpo esguio de Taemin em seus braços o mantinha aquecido. Como agora.

Hoje, nem o esplêndido show de cores fora capaz de desfazer o nó de emoções na boca de seu estômago, o frio silencioso das reticências que precediam a tragédia nos livros de romance.

Algo estava errado por ali.

Com ele, com Taemin, com as luzes que já não pareciam tão cintilantes.                                            

Algo estava errado, e Minho nunca antes se desapontara com o que seus instintos diziam.

 

 

 

 

 


Notas Finais


explicando o súbito ponto de vista do Kai: ele e Minho são parecidos, passam por situações similares, mas reagem de maneiras ligeiramente diferenciadas. o Kai está abrindo mão da própria identidade para se manter a salvo - mas pelo menos ele /está/ fazendo algo. o Minho só fica lá, em cima do muro, reclamando e levando boquete do Taemin. oops

como eu disse antes, escrevi o capítulo esporadicamente - assim, aposto que muitas partes parecem avulsas, soltas umas das outras. peço perdão por isso. a partir de agora vou me esforçar para ser uma autora mais responsável.

bom, é isso! terminamos a saga de flashbacks e o próximo vai mostrar Kibum virando a puta do Jonghyun - o que não é uma boa coisa, é uma coisa muito feia e desumana, mas duvido que vocês pensem assim. nem eu penso assim, pra falar a verdade. é a vida. estou dizendo esse tanto de besteira porque tinha umas coisas filosóficas e daorinhas pra dizer que me escaparam agora.

espero que tenham gostado! até mais~ ♥


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