História Bloodrose - Capítulo 1


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Confronto, Guerra, Luta, Magia, Ocultismo, Original, Romance, Saga, Vampiros
Exibições 8
Palavras 3.462
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Artes Marciais, Aventura, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Super Power, Suspense, Terror e Horror
Avisos: Álcool, Canibalismo, Drogas, Heterossexualidade, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Bem, quem acompanhou minha outra fanfic, As Aventuras de John Cogwar: O Sortudo do 202, sabia que eu estava planejando uma outra, original, para postar ainda este mês. O primeiro capítulo está aqui. Não posso dar certeza quanto ao segundo (que na verdade é só a parte dois desse), mas não deve demorar.
Espero que gostem, essa história está com muito potencial.

Capítulo 1 - A Guerra das Rosas Parte 1


1840 d.C.

Dois dias após a chegada de César

 

  O ponteiro do relógio se moveu. Tec. Ele olhou surpreso para o objeto, um relógio de bolso dourado, cujo visor incomum contava de zero a dez segundos, com apenas um grande ponteiro. Até apertar o único botão, no topo do objeto, o ponteiro havia permanecido imóvel. Outro segundo se passou, tec. “Será que?”. Os olhos de César se mantinham enterrados no visor, acompanhando o ponteiro. Sua mente borbulhava com a grande questão ali presente, o terror da resposta inflamava seus pulmões, de forma que era impossível desviar o olhar. Mantinha a respiração presa pela ansiedade que tomava seu corpo. Tec. Tec. Tec. Suas mãos começaram a tremer e, enfim, ele levantou o olhar.

 Tec.

Tec.

 A resposta havia paralisado-o. A chama da vela, outrora branda e quente, agora estava imóvel, gélida, como uma pintura na parede.

 

 

1834 d.C

 A música continuava a tocar, as bandejas iam e vinham. Lord Arlton continuava a brindar o nome do filho. Os convidados aplaudiam e bem-diziam. As jovens tentavam esconder seus sorrisos e flertes. Que alegria contagiava o salão! O orgulho da família Roseblood acabara de ser aceito na maior universidade do país. Um futuro matemático, como o pai, e o grande herdeiro de uma das mais nobres e ricas famílias da corte. Até mesmo um grande bispo da região compareceu para dar sua benção ao jovem prodígio, que em seus dezoito anos de vida havia provado não só ser um sucessor perfeito, mas alguém com potencial para elevar o nome da família à níveis jamais sonhados.

 Jonathan, o grande presenteado pela festa, banhava-se pela atenção e amor que recebia. O orgulho que via nos olhos de seu pai fazia tudo aquilo ter sentido. E as palavras dos demais convidados apenas confirmavam seus sentimentos. Alto, forte, pele branca e lisa, com queixo e nariz esculpidos pelos mais experientes anjos, de cabelos negros e olhos azuis, um perfeito Roseblood. A luz central do salão cobria seu corpo, enquanto mastigava petiscos, ria com os nobres e flertava com suas filhas. “Que rapaz!”, eles diziam. Que pai não amaria dar a mão de sua princesa para tal homem?

 Do outro lado do salão, num canto escuro e mínguo, a vergonha dos Roseblood. O garoto inveja o irmão mais velho à distância, esquecido pela multidão. Ora, feliz ele que estivesse esquecido. Antes o conforto da solidão do que os olhares raivosos e nojentos dos outros. Ele, César, misturava os genes de sua mãe e dos Roseblood, menor que o irmão mais velho, de corpo esguio, olhos castanhos, e cabelo negro. Uma mecha distintamente loira cruzava sua franja, mecha que desde a infância foi apelidada como “a maldição de Elizabeth”. O terror de uma criança, crendo ter sido amaldiçoado pela própria mãe que morreu em seu parto.

 - Cééé-zar! – duas leves mãos agarraram suas bochechas por trás, tentando forçar um sorriso em seu rosto – Dê um sorriso! Não está feliz pelo seu irmão?

 O jovem olhou para trás, vendo a linda chama que adentrava a sua escuridão.

 - Maria, e-eu – ele mordeu a língua antes que falasse, suas próximas palavras eram desconhecidas até mesmo para ele.

 - Esquece, não precisa dizer. Eu te conheço – ela pegou-lhe a mão e levou-a ao peito do jovem – Você tem bom coração, Cézar. Um dia eles vão ver isso. Um dia VOCÊ vai ver isso.

 O calor da pálida mão de Maria aquecia-o. Um ano mais velha que ele, e uma amiga de infância. Eram incontáveis suas histórias – aquelas conhecidas pelos seus pais e as não conhecidas. Cézar, aos seus quatorze, começava a conhecer o que era o amor, o que era a paixão, e começava a querer descobrir o sexo oposto. Ainda ignorante sobre tudo isso, de uma coisa ele era certo: nada disso fazia sentido, se Maria não fosse a mulher com que ele descobriria estas coisas.

 Ali eles se sentaram, e dos convidados riram pela noite inteira. Dos vestidos, das garotas, dos garotos, de Jonathan, dos seus pais, dos nobres puxando os sacos uns dos outros. Ainda, mais ousados, roubaram vinhos da adega, e deram um jeito de enfiar caviar no bolso do paletó de um convidado.

 Uma noite para ser lembrada! Para ser lembrada pela eternidade! Mas, por outros motivos.

 Quando o relógio badalou, Alrton trouxe seu sucessor para perto e iniciou um discurso. Enquanto ele falava, Lord Henry encontrou César e Maria, rapidamente agarrando-a pelo braço:

 - Filha, eu já não lhe mandei ficar longe desta coisa? Quando digo para se aproximar dos Roseblood, eu quero que vá atrás do mais velho, e não da praga. – ele sacudiu a cabeça – Não que isso importe mais, agora venha, Lord Arlton tem um anúncio a fazer.

 Arrastando-a, eles foram junto de Jonathan e Arlton. César assistia enquanto as sombras cobriam-no novamente. Num momento de coragem, marchou em direção ao centro do salão, buscando recuperar sua chama de alegria. Ao chegar, as palavras de seu pai imobilizaram suas pernas:

 - Como é sabido, as famílias Roseblood e Castforward têm uma longa história em conjunto. Minhas duas irmãs se casaram com Castforward, assim como meu pai, e muitos outros das nossas famílias. Como podem ver, eu era o rebelde aqui – ele riu – Mas hoje vamos manter a tradição. É com muito prazer que, junto ao grande Lord Henry, anúncio o casamento dos nossos maiores orgulhos, Jonathan V. Roseblood, e Maria Castforward, futuramente Maria C. Roseblood.

 A multidão aplaudiu. Entretanto, três pessoas foram surpreendidas naquela noite. Jonathan, com sua pose completamente quebrada, tentou manter a compostura, evitando olhar na direção de Maria e, daquele que ele sabia que havia sido o mais ferido, César. Maria imediatamente arregalou os olhos e procurou por César na multidão. O último, paralisado, encontrou o olhar de sua amada, com uma lágrima lhe rasgando a face.

 César correu. Correu e correu. Longe da luz que o feria e de volta para a solidão eu o acolhia. Atravessando o salão e a cozinha como um tornado, destruindo tudo em seu caminho, até chegar ao lado de fora da grande mansão onde, metros longe de casa, caiu em prantos e desespero.

 - POR QUE? POR QUE? POR QUE? POR QUE? POR QUE? POR QUE? POR QUE? – ele socava a grama, como quem tentava golpear o universo – POR QUE? – numa tentava extrema de se conter, mordeu o próprio braço, até degustar o próprio sangue.

 A noção do tempo se foi com as lágrimas, até que mãos macias tocaram seu rosto, com um corpo quente e familiar deitando ao seu lado no chão. César ergueu os olhos vermelhos e viu aquele lindo rosto de Maria, lavado em lágrimas, enquanto ela balbuciava algo:

 - E-eu.. Eu não sabia

 Foram as palavras dela antes de afogar o rosto no peito de César, que rapidamente a enrolou em seus braços, ali deitados no chão sujo e na grama fria. Com um carinhoso beijo no topo da cabeça, ele atraiu a atenção dela.

 - Eu te amo. Eu quero casar com você. Maria, eu te am-

 A maior confissão de César foi interrompida por um beijo. Maria se atirou sobre seu corpo, encontrando os lábios de seu amante. As lágrimas salgavam suas bocas, e seus sorrisos em meio àquela tragédia seriam lunáticos senão lúdicos. Ele a abraçou forte e respondeu ao sentimento. Como poderia, tamanha tristeza e alegria num único momento?

 A chama de Maria eliminava a escuridão do mundo de César. Tudo o que ele queria naquele momento era viver com aquela chama para o resto de sua vida. Não importava a nobreza, os títulos, os nomes, as terras. Tudo o que importava estava bem ali em seus braços. E nada pior do que ter sua maior alegria arrancada deles.

 E foi assim que Lord Henry fez. Mais uma vez tomando a filha com brutalidade, arrancou-a do jovem apaixonado e a atirou para trás.

 - Garoto desgraçado! – um chute violento bagunçou os sentidos do garoto – Então era isso o que você queria, não é? Desgraçar minha filha! – antes que César pudesse juntar forças para se levantar, um golpe em suas costas garantiu que ele não o fizesse – Me diga, faz isso por diversão, por raiva de mim ou por inveja do seu irmão? – outro golpe, desta vez no rosto, abrindo-lhe um corte profundo.

 - PAPAI, POR FAVOR! – a garota saltou para segurá-lo, mas foi atirada novamente.

 - Quer saber, eu mata-lo agora! Estaria fazendo um favor para sua família e para todas as outras!

 O espancamento continuava, com golpes seguidos nas costas, costelas, estômago e rosto. O frágil corpo do garoto já não aguentava mais. O gosto de sangue em sua boca só crescia. A dor era insuportável, a ponto de que ele já não mais sentia seus membros, exceto quando eram atingidos. Seus ouvidos já não ouviam mais as afrontas de Lord Henry, apenas os gritos da garota, tentando salvá-lo.

 Henry finalmente cessou o ataque, levando a mão ao paletó e sacando um revólver. Com um lenço de seda, lustrou o cano e calmamente apontou-o para a cabeça do jovem.

 “Eu vou morrer? Eu... vou morrer... Eles vão me matar... Pela Maria... Ela estava tão linda hoje...” Sua mente já incoerente tentava se agarrar à última fonte de luz em sua vida.

 O puxão do gatilho foi seguido por um estrondo. Uma mão rapidamente golpeou a arma, direcionado o projétil para longe e atirando-a no chão. Jonathan, surgindo entre Henry e César, agarrou o Lorde pela camisa, olhando-o no fundo dos olhos:

 - Lord Henry, não irei tolerar tal comportamento! Como podes apontar uma arma para o irmão de teu genro, e filho de teu amigo?!

 - Jonathan! E-eu – as palavras imediatamente sumiram da boca do homem, ele estava perante ao prodígio dos Roseblood, sendo humilhado pelos seus atos vis – Este ser tentou desgraçar sua futura esposa, na noite em que anunciamos seu casamento!

 Jonathan imediatamente golpeou a face do homem.

 - Não ouse usar tais termos com meu irmão! César é um bom garoto, que apenas cedeu aos seus desejos!

 - M-mas Jonathan!

 - Eu jamais poderia honrar minha família se ignorasse os sentimentos de meu querido irmão. Não se preocupe, Lord Henry, ei de manter minha parte no acordo e prosseguir com o casamento, seja lá o que tenha acontecido. Não porque quero, mas porque este é meu dever. Mas não me olhe nos olhos e peça para que eu passe por cima de meu irmão!

 O silêncio adentrou a boca do homem, que apenas expressava culpa.

 - Jonathan, me desculpe. Perdi o controle num momento de raiva. Você é honroso demais para este mundo, quero que saiba que isto só me faz ainda mais certo de que és o homem para minha filha.

 Jonathan o largou, correndo para seu irmão, que assistia a cena. Tomando o caçula nos braços, carregou-o de volta para mansão, onde foram providos cuidados. No meio tempo, Lord Henry e Maria tomaram a carruagem para casa. Não tarde, o jovem César dormiu, e poucas horas depois a festa havia se encerrado e os empregados terminavam de fechar as cortinas e apagar as luzes.

 As próximas duas semanas foram um silêncio na casa Roseblood. Arlton se recusava a olhar na direção de César que, ainda deformado, com hematomas e vermelhões, além de cicatrizes permanentes no rosto, se acolhia em seu quarto lendo. A história havia se espalhado, saindo da boca de Henry: o vil e impulsivo César tentou agarrar a bela Maria Castforward, interrompido pelo atento Lord Henry e salvo pelo glorioso Jonathan Bloodrose, tão puro e justo que perdoou a selvageria do irmão.

 César apenas saiu de seu quarto quando uma carta foi entregue em suas mãos. Escrita em uma linguagem-código usada por ele e Maria, o bilhete dizia para encontrá-la no porão de sua mansão, um local secreto, suspostamente construído como um esconderijo contra ataques, e agora usado pelos dois como ponto de encontro e brincadeiras.

 O jovem saltou em seu cavalo e atravessou a cidade tão rápido quanto podia. Fugindo da escuridão e buscando rever a chama que iluminava sua vida. Como quem podia alcançar toda sua esperança. Deixando a montaria, se esgueirou pela propriedade, com a ajuda de alguns serviçais dos Castforward, e finalmente chegou na passagem secreta para o porão. Logo atrás da porta, outro bilhete pregado. Tomou o em mão e se esgueirou pelo pequeno e estreito corredor. Ao chegar na saleta principal, o maior terror que sentira na vida apagou a última chama de esperança:

 Balançado, pendurada por uma corda no teto, a pálida Maria, enforcada, com um pequeno sorriso congelado em sua face. Na pequena mesa ao seu lado, um bilhete explicando para seus pais que não poderia viver uma vida de tristeza, e que preferia morrer com seu amor do que viver sem ele. Do seu outro lado, uma cadeira, e em cima dela, uma corda, um conjunto especialmente designado para uma única pessoa.

 César caiu de costas em horror, deixando um grito sonoro ecoar pela mansão. Rapidamente o grito foi atendido, e não tardou até que os Castforward chegassem. A mão chorava com os outros filhos, os serviçais tentavam manter a compostura e não ceder aos prantos enquanto se ocupavam em consolar a família. Henry, por sua vez, agarrou César pelo colarinho e o arrastou pelo chão da mansão até o lado de fora. Lá, agarrou uma velha bengala da família, feita de madeira e preenchida com chumbo, com a qual começou a espancar o jovem. O bilhete, que as mãos de César não deixavam largar, carregava as últimas palavras de Maria, que só seriam lidas em meio à prantos dias mais tardes, pelos olhos do garoto.

 “César,

Eu te amo. E digo isso com todo o meu coração. Você sempre foi alguém que sempre admirei...

 Henry esmagava as costelas do garoto com sua bengala, chorando aos sons dos ossos quebrando e dos gritos de dor.

 “...Você é forte, aguentou um inferno na sua vida, e mesmo assim sempre soube sorrir e me fazer sorrir. Você é bom, mesmo sendo odiado por tantos, sempre demonstrou compaixão e sempre tentou ser amado...

 Os golpes continuavam, cada vez mais vorazes. Das costelas, Henry desceu para as pernas, as quais flagelou até  que estivessem em pedaços.

 “... Eu sei que eles não enxergam isso, e que fizeram você acreditar que não é verdade, mas, se aquele beijo foi verdade, então eu sei que isso também é.”

 Os gritos de dor de César foram desaparecendo, sua garganta já não suportava mais. A dor não era anestesiada pelo luto, mas amplificada.

 “ Você é o homem que escolhi para minha vida, e se não posso tê-lo, então não quero ter nenhum outro. Me desculpe pelo que vou fazer, mas saiba que sempre te amei e sempre vou te amar. Sei que isso é egoísta, mas... Se não quiser viver nesse mundo escuro sozinho, venha comigo. Na eternidade nós ficaremos juntos...

 Os braços de Henry foram se cansando e as pancadas cada vez mais lentas, mas ainda dolorosas.

 “ Mas se não quiser, saiba que eu entendo. Peço que me perdoe pelo que fiz. Caso continue a viver, quero que viva como o César que eu conheço...

 Nos golpes finais, Henry acertou-lhe o pescoço...

 “ Quero que seja forte e honroso, quero que lute pelo que acredita e que demonstre compaixão...

 Os braços, estilhaçando os ossos até o ombro...

 “... Que se busque ser ainda melhor. Que se erga perante à todos e nunca mais deixe alguém olhar para você com desprezo!

 E por fim a cabeça, apagando os sentidos do garoto.

 “ Quero que erga a cabeça, que creia no seu bom coração, e que não tenha vergonha de mostrar para todos o por que eu me apaixonei por você! Porque eu sei que um dia todos irão ver. E nunca, nunca deixe de acreditar nisso, porque eu acredito, sempre acreditei e sempre vou acreditar.

 

 Com amor, de sua esposa.

 Maria C. Roseblood.

 

 O bilhete somente fora lido no dia do enterro da jovem. Ainda em enfermo, incapaz de comparecer, César fora deixado em prantos em seu quarto. Inconsolável, agarrando-se às últimas palavras dela. Em seu peito, uma culpa ainda maior crescia: pela segunda vez, Henry havia tirado sua chance de estar com sua amada. Tudo o que ele queria, naquele momento, era tomar lugar ao lado dela naquela forca, à lá Romeo e Julieta.

 Um ano se passou. A culpa virou carvão para uma nova chama no garoto. O último brilho de sua amada, suas últimas palavras, haviam se tornado o mantra pelo qual ele viveria. Se tornaria o melhor, superando todo e qualquer. Se tornaria apreciado. Se tornaria o homem pelo qual ela se apaixonou. E mais importante de tudo: ninguém jamais poderia menosprezá-lo, pois isto seria uma desonra ao nome dela.

 Com esse pensamento, César abotoou as mangas do paletó e seguiu para a igreja com o restante da família. A missa daquele dia era especial: um ano da morte da jovem Maria. A nobreza amontoava-se nos bancos, e consolavam os Castforward.

 Com a entrada da família Roseblood, os olhares se voltaram. Garotas e nobres se amontoaram em Jonathan e Arlton, consolando-os pelas memórias do ano passado. Para César, apenas olhares de nojo para o garoto que levou a bela jovem ao suicídio.

 Lord Henry, por sua vez, não podia suportar aquela visão. Levantou-se da primeira fileira e caminhou a passos largo até César. Apontando para sua cara, com uma expressão de raiva e nojo:

 - O que este demônio veio fazer aqui? Já não basta fazer o que fez, vem se deleitar na nossa tragédia? SUMA DA MINHA FRENTE!

 Os olhos de César mantinham-se presos ao chão. Num tom monótono e frio, ele respondeu:

 - Algo está errado, Lord Henry Castforward. Nossos olhos não estão se encontrando.

 - Que pestilência é ess-

 Henry foi interrompido com uma joelhada nas genitais. O homem caiu de joelhos, de olhos arregalados e sem conseguir ao menos gritar de dor. César agarrou-lhe os cabelos e virou sua face para cima:

 - Agora sim nos olhos estão sem encontrando. Agora que aprendeu seu lugar, não se esqueça. Não serei tão gentil da próxima vez.

 Num movimento brusco, bateu a cabeça do homem contra um dos bancos de madeira e o atirou no chão. Todos ficaram em silêncio, sem qualquer reação, apenas seguindo o garoto com os olhos. Caminhando lentamente até o altar, César tomou à frente e abriu a cerimônia com suas palavras:

 - Vocês todos aqui... Vocês deviam morrer. De todos aqui ninguém conhecia a Maria. Vocês conheciam o brinquedo da família Castforward, mas não conheciam a Maria. E se ousam dizer que faziam, então me digam, qual a cor favorita dela? Qual a peça de teatro favorita dela? Quais constelações ela sabia apontar no céu? Qual era sua sinfonia favorita? E se não sabem responder, pois bem, em ordem: branco; Sonho de uma noite de verão, de Shakespeare; Ursa menor e ursa maior, eram as únicas; e nenhuma, ela odiava sinfonias. Vocês estão aqui perpetuando seu teatro grotesco, buscando interesses pessoais em meio a tragédia alheia. Querem saber outra coisa sobre ela? Isto, exatamente isto, era o que ela mais odiava nesse mundo. Então, se tens algum respeito pela memória dela, da mulher que eu amei e ainda amo, saiam desta igreja. Mas antes, quero que ouçam minhas últimas palavras neste altar: vocês todos viram beijar meus pés no dia em que eu cobrir o mundo com minhas mãos. E nesse dia, eu vou rir enquanto chuto suas bocas sujas de volta pra terra, de onde não deveriam ter saído.

 Ele desceu do altar e caminhou até a saída. Arlton o olhava enfurecido. Jonathan desviava o olhar, como poderia ele confrontar o irmão, sendo cúmplice de sua dor? Daquele dia em diante, César se tornou um excluído da sociedade. Seu pai, numa tentativa de não vê-lo mais, botou-o numa carruagem para a capital, onde seria tutelado por um conhecido distante.  Lá, pelos próximos anos, César se aperfeiçoou nas áreas do conhecimento e do corpo. Graduando com recordes em seu colégio, sendo o único aluno a apresentar notas perfeitas. Campeão invicto nacional de esgrima, e um atirador e caçador exemplar. Campeão de xadrez nacional. Líder do time de natação. E prodígio do direito, faculdade que entrou e imediatamente demonstrou uma proficiência jamais vista. Cartas e mais cartas chegavam as mãos de Arlton, que pouco fazia se não as atirar ao fogo da lareira.

 

1840 d.C

 A carruagem parou e César desceu, carregando sua única bagagem de mão. Seu irmão rapidamente o cumprimentou com um abraço. Apesar da ternura do irmão, os olhos tristes em seu rosto apenas confirmavam a mensagem da carta: Arlton Bloodrose estava em seu leito de morte, vítima de uma doença rara, e agora apenas faziam esperar seu último suspiro.


Notas Finais


O que acharam da primeira parte do primeiro capítulo? Interessados na história?
Bem, pequeno não-spoiler, o próximo contará a história do Jonathan mais afundo. Para quem está se perguntando "cade tudo aquilo que tinha nas tags?", fique calmo, estamos chegando lá.


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