História Blue Blood - Capítulo 29


Escrita por: ~

Postado
Categorias Avenged Sevenfold
Personagens Arin Ilejay, Johnny Christ, M. Shadows, Personagens Originais, Synyster Gates, The Rev, Zacky Vengeance
Tags Amizade, Romance
Exibições 136
Palavras 11.061
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Ecchi, Famí­lia, Hentai, Misticismo, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Intersexualidade (G!P), Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


OI, INTERNET.
BU! 💘
É! HOJE NÃO É DIA 20, mas, adivinhem... AVENGED SEVENFOLD LANÇOU SINGLE DE SURPRESA, ENTÃO, TEMOS CAPÍTULO DE BLUE BLOOD SURPRESA TAMBÉM!!!!
Já ouviram The Stage? CARALHA, EIN
Vamos lá?

Enjoy!

Capítulo 29 - Chapter: Gabriela's Chains (Blinded in).


Mas isso não foi um pecado,

Uma vida de desculpas julgando cada ato,

Você se esquece de como falar e fazer todas as perguntas. — Blinded In Chains, Avenged Sevenfold.

 

Brian pareceu tão entristecido quanto eu e tive que fazer o impossível para lembrar de que, naquele carro, eu quem estava arrasada e que o tatuado precisava ouvir o que lhe deveria ser dito. Eu não tinha ideia de onde caralhos arranquei tanta coragem para falar tudo. A dor estava realmente tão forte assim que eu precisei despejá-la de uma vez só? Eu podia sentir essa amargura até na minha língua.

Conforme, nada do que eu tinha pronunciado era mentira e Brian parecia entender bem isso, enxergar isso.

— Gabriela. — Ele respirou fundo, quase como se falasse “você não precisa fazer isso. Volto pra HB sem problemas.”.

— O fato de eu estar desapontada com você não quer dizer que eu quero você bem longe de mim. — Completei depressa demais.

A última coisa que eu queria era tempo e espaço pra ficar pensando o quanto Synyster Gates, Brian Haner tinha se tornado alguém repulsivo para mim.

— Mas também não é o contrário disso. — Olhou para mim depois de apertar um pouco o volante. — Você não quer ler o nome do seu primo no visor do celular, quanto mais olhar pra mim.

Brian tinha razão sobre Victor, no entanto... Jesus Cristo, como é difícil explicar essa necessidade de não ficar magoada com ele, de tentar ajudá-lo a competir contra essa comodidade doentia que destruiu seu casamento!

— Não vai me querer por perto agora pra, a cada vez que olhar na minha cara, lembrar que está com nojo de mim. Até eu não quero ficar perto de mim.

— O que eu quero é que você fique por perto sendo o cara que sempre me mostrou ser, Brian. A pessoa, o meu amigo que eu amo e admiro. — Minha voz saiu quase como uma suplica.

Vi que iria precisar me explicar.

— De um lado, o guitarrista mundialmente famoso, desejado, sexy, sarcástico, desinibido; do outro, o cara com um caráter terrivelmente encantador, divertido, que sabe valorizar tudo, sonhador e que se realiza todos os dias com os seus melhores amigos. Não é complicado estar em cima do muro se tratando de Gates e Haner, acredite. Eu sempre soube me equilibrar bem nele, tanto após ter sua amizade quanto antes disso, porém... — Curvei os lábios, levantando um pouco a cabeça e olhando para cima. — Agora é como se o muro tivesse se abaixado, e tudo o que eu preciso é que você o levante novamente. — O encarei expressando várias interrogações, questionando se ele estava entendendo o que eu queria dizer. — Somos amigos e eu não quero ficar com essa angustia no peito por causa das suas atitudes ridículas que, mesmo não tenho nada a ver comigo, me machucam. Passa a tarde comigo, como combinamos.

Ele ficou apenas me encarando por um tempo. Agradeci a Deus por Brian estar sem óculos e xinguei Haner mentalmente pelo misto de emoções que ele estava expressando pelo olhar. Era um mesclado que, em qualquer outra situação, me deixaria nervosa e até mesmo encantada com a simplicidade e singularidade dos seus olhos castanhos, todavia, agora, era um misto de emoções que só me deixava confusa de tanta raiva e angustia.

Boceta.

Dei duas tapas no teto do carro para “despertar-nos”.

— Vai estacionar o carro ali perto do píer. — Apontei para o outro lado da rua e bati sua porta.

Assim o fez enquanto eu o esperava no hall da entrada. Ele tinha trazido sua mochila consigo e eu me peguei pensando qual roupa ele usaria para sair com Luana essa noite. Até o elevador, não falamos nada, foi quando decidi começar minha lição de moral, mesmo depois do discurso emotivo para que ele saísse do carro:

— Você tem que decidir o que quer da vida, sabia? — Eu encarava meus pés, esperando chegarmos ao décimo segundo andar. — Eu deixei claro: me preocupo bem mais com você do que com a Karina e, Brian... — Olhei para ele. — Isso não é natural. Luana e você se prendem um ao outro da maneira mais debilitada que eu consigo imaginar. — Doía no meu peito isso. Não existia nada que eu desejasse mais a ele do que felicidade e uma realização conjugal, e esse “namoro” nem de longe era o que eu queria para Brian, o que ele merecia ou até mesmo o que ele queria (como me contou em uma noite que conversamos por telefone enquanto eu estava em POA – capítulo 17) e mesmo admitindo não me importar com Karina, eu também não desejava isso a ela. Uma jovem bonita, inteligente, se submeter a isso... — Não é possível que o sexo seja tão bom ao ponto de vocês se privarem viver uma vida de verdade, um amor. — Suspirei no final, retomando o ar e logo me envergonhando de ter falado tudo o que precisava ser dito. — Acho que devo ser a última pessoa na lista de quem tem direito de “meter o dedo” na relação de vocês dois, mas você é meu amigo e eu detesto a sua maneira de lidar com sua atração corporal e o puta vazio emocional que deve sentir desde que se separou da Michelle. — As portas se abriram, fazendo-me dar de conta de que eu já tinha falado o bastante.

Sai do elevador com Brian logo atrás de mim.

— Você é, praticamente, a primeira pessoa da lista que pode “meter o dedo” na porra da minha vida. Da lista a qual eu dou importância. — Admitiu sem dificuldades enquanto eu abria a porta.

— Então se resolve, Brian. — Levantei minha atenção para ele ao abrir a porta. — Cuida da sua vida dando mais respeito a si mesmo e respeitando mais àquela que está com você. — Fiz um sinal para que ele entrasse na frente e, assim que o fez, entrei e tranquei a porta.

Entrei em “casa” já pegando o controle do ar-condicionado e o ligando, tirando a jaqueta e jogando-a no sofá.

— Pode deixar sua mochila aí. Fica à vontade. — Comentei amarrando o cabelo no topo da cabeça com uma liga que estava no meu pulso. — Calor da porra. Tô morrendo de fome. Que horas são? — Cruzei o apartamento para ir até a geladeira enquanto Brian, com o olhar, acompanhava todos os meus passos perto da lousa que ficava ao lado da porta.

Ao não obter resposta, abri a geladeira e retirei de lá duas garrafinhas de água e estiquei meu corpo para ver o tatuado.

Brian parecia mais pensativo do que em qualquer outra situação que já estivemos. Segurando as garrafinhas apenas em uma mão, estalei os dedos da outra, chamando sua atenção.

— Oh! — Levantou o pulso ao rosto para ver as horas no seu relógio. — Quinze pras uma.

— Quer pedir alguma coisa ou fazer?

Ele cerrou os olhos como se tivesse se agradado de algumas das propostas, entretanto, com planos em mente.

— Depende. Você teve sorte em “herdar” o dom do seu grandaddy na cozinha?

— Anos morando com ele, acho que aprendi muita coisa. — Dei uma das garrafinhas para ele e abri a minha, dando alguns goles com um olhar desconfiado.

— Então, podemos preparar algo. Claro, você é a mestre. Estou aqui só pra cumprir mandado do acordo. — Ri fraco. Adorava vê-lo tão... Humano. Era algo que Brian tinha que me atraia muito, sua naturalidade incomumente encantadora até na fala.

— Eu só comprei o básico anteontem. — Peguei sua mochila e caminhei até o sofá, deixando-a lá e voltando à cozinha para abrir os armários, onde James tinha organizado tudo o que eu havia comprado. — Arroz, enlatados...

— Frango, legumes. — Olhei para trás e Brian estava com as portas da geladeira abertas.

Tudo estava congelado, o que me fez murmurar de preguiça e fome, e então, na minha cabeça começou a correr ideias do que poderíamos almoçar.

— Vai demorar, mas vai valer a pena. — Sorri sugestiva, tirando o pacote de peitos de frango no congelador e deixando debaixo d’água, na pia. — Enquanto isso, podemos começar a arrumar isso tudo aqui. — Coloquei as mãos no quadril, parando no meio da sala e olhando em volta.

Folhas de jornal espalhados pelo chão, nas bordas das paredes para que não sujasse de tinta; algumas malas minhas ainda na sala, objetos fora do lugar, caixas por abrir. Meu mais novo quarto deveria ser o pior cômodo até agora (mesmo que não tivesse mudado nada de lugar, a maioria das coisas lá estava parafusada no chão por conta dos terremotos que acontecem na Califórnia) com boa parte dos meus pertences amontoados um sobre o outro.

Fiz uma salada com as frutas que tinha comprado na sexta (o que nos satisfaria para esperar o frango descongelar) e lanchamos em silêncio enquanto fazíamos novos desenhos no quadro negro enorme na parede ao lado da porta (Syn praticamente desenhou todos os modelos das próprias guitarras), nos falando apenas para organizar nossas tarefas seguintes e perguntar ou responder ao outro o que estávamos rabiscando. Por quase uma hora, Brian se encarregou de arrumar e limpar a sala e a cozinha e eu, meu quarto e o quarto de hospedes.

— Por que não contratou ninguém pra fazer isso? — Tomei um susto com a voz atrás de mim.

Estava ajoelhada ao lado da banheira, limpando-a com uma esponja.

— Não se contrata pessoas pra desempacotar caixas de mudanças e arrumar suas coisas. — Franzi os olhos debochadamente para ele.

— Tô falando de faxina. Você tá aí feito a Cinderella de cabelo cinza e toda tatuada. — Riu, analisando alguns dos desenhos do meu corpo, já que eu estava apenas de shorts e top por conta do calor.

— Jesus Cristo. Synyster Gates fazendo referência a Cinderella... — Gargalhei. 

— Qual a graça? Cê sabe que eu tenho uma irmã. Quando a Kenna era mais nova, eu assistia cada filme infantil com ela... — Passou a mão na cabeça, quase como se tentasse expulsar algumas cenas. — E, falando nisso, agora a música dos Sete Anões vai ficar na minha cabeça. — Gargalhei de novo. 

— Respondendo sua pergunta de antes> eu gosto das coisas do meu jeito. — Suspirei, sentando em cima das minhas pernas para relaxar o corpo e Brian pegou outra esponja no balde de metal e sentou ao meu lado, ajudando-me. — James disse que o sinhô que trabalhará aqui é bem organizador e, se ele vir minhas coisas no lugar antes de começar a arrumar tudo, ele verá onde eu gosto que cada objeto esteja e como esteja.

— Gabriela, isso é paranoia. — Ele soltou uma gargalhada.

— Me chama de paranoica de novo e eu deixo você aqui esfregando essa banheira, sozinho. — Brinquei fingindo de séria e Haner só fez rir ainda mais.

— Ele arrumou até doméstico pra você? — Arqueou uma sobrancelha.

— Van Bass facilitou tudo pra mim. — Sorri rapidamente. — Ele é uma ótima pessoa, e não só por ter me ajudado em tudo... É humilde, solidário pra caramba, por mais que tenha um império nas mãos.

— Império?

— O pai é dono desse e mais alguns prédios na Califórnia. James foi terminar os estudos em Londres, Brian. Deve ser dois ou três anos mais novo que eu, não lembro.

A companhia dele era tão boa que até lavar uma banheira parecia ser divertido... Talvez pelas histórias que ele começou a contar sobre o dia de uma foto “maluca” que eu afirmei conhecer (1), uma em que ele estava na banheira com Jimmy, Valary e Justin, o ex-baixista da banda, começamos a cantarolar juntos algumas músicas da Disney que vinha em nossa mente, e falar algumas coisas imorais sobre South Park, Family Guy e Happy Tree Friends (desenhos que eu assistia sempre que estava triste). Já estávamos praticamente pulando na cama, encenando astros do rock enquanto cantávamos Hakuna Matata.

Terminamos de organizar boa parte do apartamento e lavar os dois banheiros, então, Brian foi tomar banho no banheiro do corredor e eu no do meu quarto (2, roupa), o encontrando na cozinha para que eu pudesse auxiliar enquanto fazíamos nosso almoço das três e meia da tarde.

— Eu não vou conseguir fazer isso sem música. — Reclamou falso. — Me dá seu celular? — Ele estendeu a mão, já de olho num player que tinha em cima do balcão de aço.

— Cadê o seu? — Entreguei a ele.

— Descarregou tem meia hora. Você tem um adaptador pra me emprestar?

— No quarto. — Apontei com o polegar por cima do ombro e fui lavar minhas mãos, seguindo para a geladeira e pegando tudo o que iria precisar.

Ele voltou com o adaptador na mão, dizendo que colocaria o celular para carregar em uma das tomadas da cozinha, só para ouvirmos caso alguém ligasse. Escolheu uma música no meu telefone conectado ao player que fez com que eu começasse a rir.

Ouvir: I’m Gonna Be — 500 Milles.

— Por que a cada vez que eu abro sua playlist, me surpreendo? — Perguntou rindo, estendendo a mão pra mim.

— Vem me ajudar. Deixa de graça. — Ri, apressando-o para que me ajudasse a descascar as quatro batatas.

If I get drunk, yes I know I’m gonna be, I’m gonna be the man who gets drunk next you. — Comecei a rir escandalosamente com a encenação de Brian até ele puxar-me pela mão e colocar um braço em volta da minha cintura, fazendo com que minhas pernas tremessem instantaneamente. — Vamos lá, você que é a cantora aqui, sou apenas um guitarrista.

Syn ficou sério quando o encarei descaradamente, eu senti um mesclado de sensações por estarmos com os corpos tão próximos quanto enquanto dançávamos no iate na noite anterior. A música deveria ser o único som ali impedindo que Brian escutasse meu coração nervoso, contudo, não o impedia de sentir meus batimentos sobre seu peitoral, que se apertava contra meus seios.

Foi quase automático quando coloquei-me nas pontas dos pés, fazendo com que nossos olhos ficassem na mesma altura; consequentemente, nossos lábios.

Qualquer sensação sumiu e qualquer sonho se desfez quando Brian estalou um beijo em minha bochecha, afastando-se lentamente logo em seguida, deixando com que uma corrente elétrica agradável percorresse meu corpo pelo carinho.

Isso. Essa era minha realidade. Intocada por Brian Haner.

Argh, o que deu na minha cabeça?

— Ei! Ainda está aqui? — Estalou os dedos na minha frente.

— Sorry. — Coloquei a mão na testa. — Viajei um pouco.

— Percebi. — Riu. — É a música? Te trás lembranças ruins? Quer que eu troque?

— De manheira alguma! — O puxei pelo braço, fazendo com que ele ficasse ao meu lado no balcão. — Me ajuda a descascar essas batatas.

— Vou lavar as mãos. — Anunciou.

Foi quase meia hora fazendo aquele prato — já que precisamos assar e desfiar o frango antes de levar o prato montado ao forno — ao som do que o aleatório nos mandasse; apesar de Brian ter ajudado e ainda ter se disponibilizado a lavar a louça, deixei em segredo o nome da refeição até que estivesse pronta.

Após colocar a travessa no forno, virei de frente para o rapaz, que estava encostado no balcão de aço com um vidro de um dos ingredientes.

— De onde você tirou isso?

— Oh... Vende em um mercado em Beverly Hills. Comprei sexta. É requeijão. — Apontei rapidamente para o creme que ele cheirava curiosamente. — É um creme brasileiro. — Expliquei melhor e ele riu, fechando o vidro e o guardando na geladeira.

— Quanto tempo tem que ficar no forno?

— Só dez minutos. É o tempo pro queijo derreter sobre o frango e o purê. — Dei os ombros.

— Quer fazer o que enquanto isso? Aquelas ali são as últimas caixas. Podemos terminar essa mudança agora. — Brian comentou já caminhando até as caixas sobre a mesa de centro da sala.

— Não, não! — Me alertei. — Essas caixas são álbuns de fotografias e DVDs caseiros... — Ele encarou-me instigante ao sentar no sofá e puxou uma das caixas para cima do seu colo.

— Eu quero ver.

Uma coisa que eu tinha aprendido era que não adiantava muito dizer “não” a ele e, bisbilhoteiro do jeito que é, começou a mexer nas pastas de fotografia.

— Por onde começamos? — Reprimi a vontade de tomar o meu álbum de quando eu era criança de suas mãos, sentando-me no sofá com ele.

— Eu passo as fotos. Se tiver qualquer uma que você não possa ver, por exemplo, eu usando meu pinico de sapinho, eu pulo a fotografia na mesma hora. — Brian soltou uma risada estrondosa e fez um sinal para que eu me aninhasse a ele no sofá e abrisse logo o álbum.

Os dez minutos em que a comida esteve no forno e mais dez para que esfriasse um pouco para podermos comer deu a Haner a oportunidade de ver três álbuns comigo, com direito a resposta para qualquer pergunta, mesmo que inconveniente. “Descobriu” eu ser míope e ter operado aos dezenove; com quem eu tinha aulas de guitarra quando criança; eu ter conhecido Roni no curso de inglês e só no ano seguinte ter conhecido Ariane, quando a família deles se mudou para a casa atrás da do grandaddy; que conheci Júnior quando repeti o oitavo ano; minhas “aventuras” e encrencas no Bar do Beto e inúmeras viagens pelo Brasil e pela Europa, tanto a férias de família quanto a trabalho.

— Sua mãe tem um jatinho particular?!

— A B Um Eventos tem um jatinho particular. — Corrigi. — É útil em toda empresa, só que ele só é autorizado a cruzar os estados brasileiros, não pode ir além da fronteira do Brasil. Foi bem útil quando a Miley Cyrus foi pro Brasil e o avião da agencia atrasou duas horas. — Levantei-me para servir-nos a refeição. — Brian, você quem colocou seu celular pra carregar nessa tomada? — Cerrei os olhos ao ver o aparelho perto da pia. — Ela não pega. Fica com “interferência” nos fios por causa do interruptor do triturador.

— Por que não me disse antes?

— E eu ia saber? Nem cheguei perto da pia; você quem lavou a louça. — Ele levantou depressa, vindo buscar o celular e indo para o quarto colocá-lo para carregar enquanto eu nos servia.

— Oi, Chris. — Atendi o telefone e apoiei-o entre a bochecha e o ombro para pegar a tigela no forno com as luvas de cozinha. — Tudo bem?

— Alguma dificuldade aí? Sua voz está abafada. — Riu e eu peguei o celular direito depois de colocar os pratos no balcão.

— Nada não. Pode falar.

— Estávamos pensando em jantar em algum restaurante de LBC. Quer ir? Temos que estrear essa cidade com você. — Ri, colocando uma mão na cintura.

— Que horas?

— Então é um “sim”?

— Já me ouviu dizer “não” a vocês? — O guitarrista parou de falar como se estivesse pensando. — Okay, não responda porque, senão, você vai encontrar algum momento em que eu disse “não”. — Brinquei. — Eu fiz uma comida maravilhosa pro almoço e acho que foi até demais... Cês não querem vir pra cá? Poupa gastar em restaurante, já que quase todos os dias estamos gastando com comida em Burbank.

— Você cozinha? Preciso muito provar disso. Sem problemas? Margot vai.

— Sem problemas. Vou te mandar a localização. — Joguei beijos e desliguei, deixando meu celular sobre o balcão.

— Ouvi você falar sozinha? — Brian vinha andando calmamente do corredor, ainda vagando pelo apartamento com o celular e o adaptador em mãos.

— Tava no telefone. Guy, escolhe qualquer tomada. Por que está analisando território? — O assisti colocar o celular carregar perto da TV.

— Eu ia colocar lá no seu quarto, mas já faz bem umas três horas que eu mal vejo minhas notificações, e quero ler as mensagens. — Explicou rapidamente, caminhando até mim. — Cacete, que cheiro maravilhoso... — Quase gemeu a seguinte frase, caminhando até ficar do meu lado como se o seu olfato lhe guiasse. — Já vai me contar qual o prato misterioso?

— O nordestino: escondidinho de frango. — Sorri maliciosamente, colocando uma porção no prato a sua frente.

— Escon-oquê?

— É uma comida brasileira, Brian. Prova só... Você vai gostar. — Quase que roboticamente, peguei o garfo do seu prato com um pouco da comida (uma quantidade para que não queimasse sua língua mas que ele ainda pudesse sentir o sabor) e meti em sua boca quando o mesmo a abriu para falar algo.

Ao prender o garfo com os lábios, soltei-o e Brian encarregou-se de tirar o talher da boca.

— Você precisará ensinar Helga a fazer isso. — Revirou os olhos em prazer, falando ainda com a boca um pouco cheia.

— É bem simples. — Ri, cobrindo a travessa com um guardanapo e pegando meu prato. — Difícil é encontrar requeijão a venda em Orange Country, mas pode fazer só com estrato de tomate também. — Fomos comer no sofá.

Deixei que Brian escolhesse um filme para assistirmos. Aproveitando meu gosto por Musicais, ele se aproximou da prateleira com os poucos DVDs (que eu só comprava porque tais filmes não tinham disponíveis na Netflix), contudo, Syn se distraiu com seu celular.

— Vai viciar a bateria se ficar mexendo enquanto carrega. — Encolhi minhas pernas, embrulhando-me com o lençol.

— Só queria ler as mensagens da Michelle. Ela acabou de me lembrar uma coisa importante. — Se levantou, sentando ao meu lado e olhando sério para mim.

— Lá vem. Tá me assustando. O que que foi?

— Espera eu terminar de contar tudo antes de responder qualquer coisa. — Assenti. — A Syn Gates Clothing se tornou oficial e, faz um tempo que eu estou com uma ideia na cabeça. Tanto tempo que cheguei até comentar com sua irmã antes mesmo de falar pra Mi. — Respirou fundo. — Vamos precisar de uma imagem pra representar a marca. Eu quero que seja você. — Não resisti em soltar uma gargalhada, fazendo Brian ficar visivelmente aborrecido.

— Syn, eu não sou modelo! — Estiquei-me para pegar meu copo com suco e buscar acalmar-me com o liquido. — Me colocar pra representar sua marca? Tá louco? Outra: a marca é sua, representa você!

Estava tão surpresa que sentia meus lábios tremerem em nervosismo. Quando imaginaria Synyster Gates me pedindo para posar com sua marca de roupas?!

— Não importa se é modelo ou não. Eu também não sou e posarei para fotos. — Gesticulou.

— Se você já é o “personagem” da marca, pra que me usar também?

— Lins, acredite, você não iria gostar de me ver usando vestidos. — Me olhou com uma cara de “duuh” e eu ri. — A marca não é só de camisetas e calças e você sabe disso. Viu os modelos de roupas da Michelle. — Relaxou as costas no encosto do sofá, colocando um pé em cima do mesmo e apoiando o braço no joelho para gesticular num ar descontraído. — Gabriela, você é a imagem perfeita pra isso.

— Isso é loucura, Gates.

— Um pouco talvez, mas, pensa. São só algumas fotos a cada lançamento. É coisa fácil. — Procurou empolgação nos meus olhos e eu comecei a considerar essa possibilidade.

Ariane era modelo e, por anos, acompanhei vários de seus desfiles e sessões. Se tinha uma coisa que eu sabia era que NÃO ERA FÁCIL pousar para fotos sem parecer desajeitada ou um robô.

— Tem a Michelle. Quem mais perfeita seria pra isso além da criadora? — Arqueei uma sobrancelha.

— Mich é delicada, Gabi. Apesar de estilosa e forte, devo dizer, ela não teria coragem de usar metade dos vestidos que desenha. — Brincou. — E você... Nem tão delicada, nem tão bruta. Real, autêntica, firme. Linda. Provavelmente a representação feminina em pessoa do rock. Se você não for a escolha perfeita pra representar a marca, não tenho mais opções. E a Michelle concorda comigo.

Parei pensativa por alguns segundos.

Se Brian só precisava de algumas fotos minhas usando tais roupas, por que não o fazer? Poderia ser divertido, não? Além do mais, era a Syn Gates Clothing, uma marca que, por anos, eu acreditei que jamais ouviria falar novamente no nome.

— Feito, então. — Apontei para ele. — Porém, teremos que tratar melhor disso. Sou formada em Publicidade e não vai ser fácil me fazer assinar contrato de exclusividade. — Brinquei, empinando o nariz.

— A primeira sessão talvez seja até mesmo enquanto eu estiver em turnê. Depois, quando voltar, podem querer algumas fotos de nós dois, vai depender da Michelle. É coisa rápida. Nesse tempo que passaremos fora, a DiBenedetto vai agilizar bastante o processo de criação e a equipe de marketing vai ver se consegue jogar em alguma revista ou site popular. — Levantou-se animado, voltando para olhar os DVDs.

— Vai ser mole. Depois que Synyster Gates abusar nos looks que usará nesses shows que seguirão...

— Pode crer que ele abusará. — Riu. — Que filme é esse? — Tirou de lá um para qual encarou a capa de forma desconfiada.

— Aah! — Soltei um gritinho baixo e animado. — Hairspray! É um filme perfeito! Empata com “Grease” dentre os meus musicais favoritos. — Comentei.

— Resumo. — Estava começando a desconfiar que era mania do Haner pedir prévia de tudo.

— Fala sobre preconceito e racismo, e ainda é divertido de assistir, nada muito pesado, mesmo com a puta lição de moral que ele passa.

Brian pareceu interessado, sendo assim, colocou no aparelho de DVD e conectou os cabos à TV, seguindo para fechar todas as cortinas do cômodo em que estávamos, para que luz ali fosse somente da televisão, então, voltou para sentar ao meu lado e puxou um pouco do lençol, que eu tinha pegado para mim, para cobrir suas pernas enquanto comíamos e assistíamos ao filme.

Sabendo todas as músicas, não calei a boca praticamente metade do filme, ainda dando corda para que Syn cantasse comigo nos refrães mais repetidos. Foi uma tarde tão agradável, apesar de exaustiva... Nem parece que antes de dormir na noite anterior, mal queria olhar para ele, por qualquer lado, eu não poderia ter melhor companhia naquele momento.

Depois do filme, fomos para meu quarto, onde mostrei para ele todoos os álbuns de fotografias enquanto escolhia algumas para pregar no quadro da parede. Brian me contava um pouco da sua juventude quando se identificava com alguma fotografia ou mesmo quando eu perguntava — e como eu estava interessada! Nunca imaginei que escutaria da boca de Gates uma história que narrava seu primeiro “trabalho”, que foi como pedreiro (3), para ajudar a família; ou que teve que fazer seu primeiro show no A7X com a pele laranjada por conta de um bronzeamento artificial em spray que tinha dado errado. 

— É, é verdade que conheci Jimmy na diretoria. — Riu, afirmando o que tinha contado no DVD da banda, All Excess. — Foi na época em que eu sai da casa da minha mãe, Jan, em Newport Beach, pra voltar a HB e morar com o papai. Eu era novato e estávamos na fila do lanche quando ele resolveu se meter na minha frente. Tínhamos doze anos. — Deixei de fazer qualquer coisa e virei um pouco mais meu corpo para ele, dando total atenção.

O semblante de Brian parecia encantado ao falar dos momentos com seu melhor amigo, e, não parecia tão abatido como eu sempre imaginei que ficasse... Me parecia nostálgico.

— E, quando nos tornamos amigos, as coisas demoraram bastante para acontecer...

— Como assim?

— Bom, diferente do que muita gente pensa ou do que deve ter por aí na internet, os caras e eu não estudávamos juntos. Nunca estudamos. — Gesticulava. — Apenas éramos do mesmo colégio.

— E como se conheceram?

— Mesmo que o Sullivan fosse, mais ou menos, nosso “pilar”, a história é bem mais confusa. — Riu, virando-se para mim e encostando suas costas na cama, já que estávamos sentados no chão, e colocou os braços em volta dos seus joelhos sem deixar de gesticular. — Matt e Zacky se conheceram ainda novos em um ensaio da banda de um vizinho do Baker, de quem o Sanders é sobrinho e, no ano seguinte, passaram a estudar na mesma sala que o Jimmy e os Berry, mas ainda não falavam bem com ele porque, digamos, ele era um maluco... — Rimos. — Depois que descobriram que o Rev era gente boa e tocava bem pra caralho, começaram a se aproximar, por eu ser amigo do Jimmy, chegamos a nos conhecer aquela época, de rosto e nome e, às vezes, andávamos juntos, mas a amizade não evoluiu já que eu passei a fazer o colegial no Mayfair High School. Depois disso, eu ingressei na Musicians Institute. Só mantive contato com o James. — Deu os ombros.

— Seu ensino médio completo foi baseado em música? — Assentiu.

— E isso porque meu pai quis que eu nunca nem aprendesse a tocar guitarra! — Se fez de ofendido, fazendo-me curvar os ombros ao rir e continuou a história: — Quando voltei, os caras tinham uma banda e estavam quase lançando o primeiro álbum. Jimmy falava bastante sobre o assunto toda vez que ligávamos um para o outro e, de vez em quanto, eu falava com o Zacky ou o Matt. Tendo um bom conhecimento sobre música, eles me chamaram para ajudar a terminar o álbum e eu ajudei na composição no solo de Warmness on the Soul e entrei oficialmente pra banda depois do lançamento do Sounding The Seventh Trumped, quando, finalmente, assinamos com a Warner. — Finalizou com um suspiro.

— E o Johnny? Quando ele, necessariamente, entrou?

— Eu tinha um projeto paralelo com Jimmy, Buck Silverspur e Justin, o ex baixista do A7X. Ele teve uns problemas sérios com autoestima e entrou em uma depressão profunda. Com o Waking The Fallen em processo, Matthew, o irmão mais novo do Zacky, que tem a mesma idade do Johnny e estudava com ele, o apresentou à banda e se encaixou mais do que perfeitamente.

— Passei dez anos da minha vida achando que vocês se conheciam desde o berço, sei lá...

— É, mas se bem que isso não muda muito o que sentimos um pelo outro. — Encostou a cabeça no colchão, encarando-me de forma singela. — Você deve entender isso. Seus amigos são como sua família, assim como os meus são pra mim. — Sorri para ele e voltei a grudar as fotos.

— Falando do projeto paralelo... Pinkly Smooth? — Ri quando Brian colocou as mãos no rosto como se não quisesse falar sobre isso. — Ah! Vamos lá! Talvez seja minha única oportunidade de falar sobre isso com você. Era uma banda genial! Mr. Bungle tinha acabado de se separar e o “nascimento” de Pinkly Smooth foi mega importante no avant-garde!

Ele abaixou as mãos dando uma risada sem som.

— Foi divertido, admito, só que, por ser um dos nossos primeiros trabalhos como compositores, soava bem cru.

— Fala assim de novo e eu te chuto daqui. — Brian gargalhou. — Aquele álbum único foi fantástico. Nós dois estudamos música, Brian, tem que concordar que estou certa. Você não tem ideia de por quantos anos eu o “cacei” e nunca encontrei! Só escutei pela internet e depois de muitos anos de lançamento. — Revirei os olhos e ri ao ter uma lembrança sobre o álbum.

— Que? 

— Quando eu estava perto dos dezoito anos, a Luiza já morava por aqui tinha uns dez anos e ela "forjou" um álbum pra dizer que tinha encontrado. Me deu de presente de aniversário. — Brian soltou uma gargalhada abafada. 

— Como descobriu?! 

— Foi meio óbvio quando ela me mandou me enviou por correio e, apesar de ter feito uma cópia bem bonitinha da capa e tudo, na lista de música, ela esqueceu de colocar "Pixel & Nasal". — Rimos juntos. — As letras eram ótimas e, argh, mano... A guitarra! — Joguei a cabeça para trás em prazer só de lembrar dos melódicos que soavam como aço no country e, quando voltei a olhar para ele, Brian estava rindo de leve, ainda abraçando seus joelhos.

— É, devo concordar. E talvez o som da guitarra tenha ficado bom só porque eu me inspirei bastante no Trey Spruance.

— Achei que “McFly” tinha muito a ver com o Trey mesmo. O cara é um puta de guitarrista. Mas também tinha um pouco de Mike McCready. — Opinei.

— Onde foi essa foto? — Seus olhos pregaram atenção na próxima fotografia que eu peguei e Brian esticou e cruzou as pernas, curvando seu corpo para analisar de perto. — É você? Quantos anos tinha?

— Casamento da Luiza. Eu tinha dez. — Ri, entregando a foto a ele para que satisfizesse sua curiosidade em analisá-la. — Foi no Convento dos Espinheiros, em Evora, Portugal. — Puxei mais algumas fotos e arrastei meu corpo para o lado do guitarrista, encostando minhas costas na cama e entregando a ele outras imagens.

— É um convento mesmo? — Ergueu uma sobrancelha ao olhar a segunda fotografia.

— Deve ter sido lá pelo século dezenove, ou metade do vinte. Hoje em dia, é um hotel com spa. — Apontei para minha mãe atrás de mim, numa hidromassagem. — Meus avós se casaram lá e minha mãe também... Duas vezes. — Acrescentei e rimos. — E, o dia em que eu casar, será lá também. — Cruzei os braços, determinada e Haner olhou sério para mim.

— Quer casar no mesmo lugar que seus avós, pais e irmã?

— E minhas tias. — Acrescentei, descruzando os braços. — Eu posso ser “moleca” do jeito que for, mas... — Peguei uma das fotos. — O que eu mais desejo na vida é um amor como o dos meus avós. Não foi nenhum pouco fácil pra eles dois ficarem juntos, confie em mim. — Olhei para ele rapidamente e voltei a encarar a foto. — Só que tudo foi vingado depois, e meu sonho, em relação a família, é ter um compromisso tão abençoado quanto o deles. — Devolvi a imagem a ele e Syn fitava-me pasmo.

— Não fazia ideia que pensava essas coisas. — Ri.

— Eu também nunca lhe imaginei de assistindo Hairspray e ainda fazer ceninha de Zac Efron, mas vivemos isso hoje. — Brinquei, contudo, ele não expressou nada além de curiosidade.

— Não acha essa visão conservadora demais? Pensei que fosse mais moderna em relação a essas coisas. — Neguei com a cabeça.

— O que seria do mundo sem alguns pontos conservados, Brian? Algumas coisas realmente têm seus valores. Amor, família, sonhos... O que seriamos nós sem eles?

— Devo concordar com você. — Comentou lentamente. — Um amor como o dos seus avós, então? — Assenti. — Acreditava que o teria com o seu ex? O Leonardo...

Pensei bem antes de responder, olhando o teto do quarto por alguns segundos e entrelaçando meus dedos um nos outros, estalando a língua.

— O casamento é o mais sagrado relacionamento que um ser humano pode conceber. — Respirei fundo. — No grego... — Era uma vez... — No grego existem quatro palavras para expressar o amor. — Olhei para ele. — Enquanto no português existem duas, “amor” e “paixão”, e, no inglês, uma, “love”.

Ele prestava sua atenção pacientemente, e parecia interessado no que eu tinha a dizer. Pigarrei e continuei:

— Hoje em dia, tudo é amor. Transformaram esse sentimento em qualquer coisa. — Franzi os lábios. — “Ágape” é o amor de Deus por nós. “Storgé” é a palavra que representa o amor entre família. “Filos” representa o amor entre amigos. — Tomei ar. — “Eros” representa o amor entre um casal. — Soltei o ar dos pulmões e ri fraco. — Percebe que um casamento é o único comprometimento humano de “eternidade”?  Aquele laço que une os quatro tipos de amor? A minha concepção sobre isso pode até ser religiosa demais, ou conservadora, eu sei. Mas é o que foi pregado pra mim, a minha vida inteira, Brian. É no que eu acredito. O que eu valorizo. — Dei uma pausa. — E é com o que você se compromete quando diz “Yes, I do.”. É a única coisa que pode acreditar que será pra sempre. — Olhei para meus dedos e os estalei, voltando minha atenção para o guitarrista. — Então, não. Eu não amava o Leonardo. Só que isso não significa que eu não era completamente apaixonada por ele, ou que eu não queria fazê-lo tão feliz quanto fiz...

Tomei um susto com o barulho estrondoso do meu celular. Engatinhei até ele, que estava sobre o criado mudo e minha face congelou de felicidade ao ver de quem era a mensagem.

— Meu Deus, meu Deus.

— Que é?

— É a Ariane. — Respondi completamente aliviada e nervosa ao mesmo tempo.

— Pensava que já tinham voltado a se falar. — Ele sorriu, possivelmente feliz pela modelo finalmente ter procurado fazer contato comigo. — Pode ler em voz alta?

Assenti depressa e abri o SMS.

 

#Arie: É. Está meio tarde por aí e, por aqui, mais ainda! Cheguei no Brasil faz algumas horas e eu não peguei num sono em momento algum do voo! Nem a agonia do trabalho fez com que eu me mantivesse ocupada o suficiente para não pensar nas merdas em que eu te falei. Gabriela, eu nem sei como começar a te pedir perdão... Eu fui mais que péssima! Fui estúpida, fútil e injusta! Talvez o choque de ser traída fez com que eu tivesse um surto total com a pessoa por quem eu conheci o cafajeste quando na verdade você é a última pessoa a quem eu deveria meter nisso tudo é você, só que isso não é desculpa para todas as imbecilidades que eu te falei.

Eu não liguei porque realmente não tenho coragem de enfrentar essa vergonha que estou sentindo e, parece que escrevendo, eu consigo encontrar as palavras para não dar uma de idiota novamente.

 

Respirei fundo antes de continuar com o próximo paragrafo, já que tinha me deixado nervosa só de ler das primeiras frases mentalmente. Brian escutava tudo o que eu lia atentamente enquanto colava as últimas fotos.

 

Mesmo com tudo isso, eu gostaria de assumir que provavelmente eu tenha sim um pouquinho de inveja da vida que você está levando... Caramba, você se tornou alguém super especial para as pessoas que passamos quase dez anos da nossa vida desejando de todo o coração conhecer... É normal que eu tenha um leve ciuminho! Porém, você continua sendo minha amiga, eu não poderia ficar mais feliz por todas as suas realizações e novas conquistas, feliz por você estar feliz, e isso faz com que eu tenha mais ciúmes deles perto de você (que é MINHA) do que de você perto deles... Perdão pelo show que eu dei há quase duas semanas, do fundo do coração. Se ainda quiser conversar sobre isso outro dia, tudo bem. Eu amo você.

 

Quase chorei de alivio por ela ter dado índice de que estava tudo bem, e Brian ficou de joelhos assim como eu estava e me abraçou em um tipo de comemoração.

— Preciso respondê-la.

 

#Portugaleira: Você não faz ideia do quanto eu fiquei preocupada sem noticias suas! Passei dias em agonia! E... Bom, alguns amigos realmente me fizeram entender esse seu surto, senão, pode acreditar que teríamos problemas! Olha... Está tudo bem, tá? Eu não quero mesmo ficar brigada com você, quanto mais agora, e, vem cá, como você está? Sei que essa deve ser a pergunta mais ridícula que eu posso fazer, mas passamos quase duas semanas sem nos falar e o Roni também não me ajudou nas informações e não estou falando com o Victor.

Sobre o ciúmes ou inveja... Ah, Arie... Acho que eu nunca entenderia se você não tivesse falado e, eu não vou dizer coisas de “são pessoas normais como nós, para com isso!” ou “nem tudo anda tão bem assim ao ponto de você querer estar no meu lugar” porque eu tô realmente vivendo um sonho... E eu espero que esse seu pesadelo passe logo. Se algum dia essa magia de ser amiga dos nossos ídolos me iludir tanto e fazer com que eu me torne uma ignorante à sensibilidade, aí sim você pode ficar furiosa comigo!

Eu estarei aqui pra o que você precisar, sempre.

Te amo.

 

— Well... Não tem como esse dia melhorar. — Sorri, sentando-me sobre meus joelhos.

— Acho que terminamos. — Olhou para o quadro de fotos, satisfeito com nosso trabalho.

— Sim. Terminamos. — Levantei-me, pegando o quadro com sua ajuda.

— Onde irá querer colocar?

— No único parafuso que falta ser coberto no corredor.

Auxiliei Brian até que o quadro estivesse reto e comemoramos o fim do trabalho com um Hi-5, quando Brian encarou algo atrás de mim.

A porta do quarto de hospedes estava aberta, dando de vista direito para a janela, que estava tomada pela escuridão da noite.

— Puta que me pariu. Que horas são?! — Ele correu até a sala, pegando seu celular e praguejando os infernos. — Gabriela! São oito da noite! Eu deveria ter saído daqui há uma hora. — Começou a discar qualquer coisa depressa no seu celular e, pelo barulho que o teclado digital fazia, conclui ser uma mensagem de texto. — Vou tomar banho, okay? — Mal esperou minha resposta, voou para o quarto de hospedes.

Ouvir: Stand Up — Hindi Zahra.

Sentei no sofá imaginando o quanto Karina deveria estar furiosa por estar esperando por Brian e devo ter passado bastante tempo saboreando minha imaginação, já que quando levantei e fui até o quarto de hospedes, Brian já estava vestindo sua camiseta em frente ao espelho.

— Obrigada por me ajudar hoje. Tornou as coisas bem menos irritantes e entediantes. — Ri, pegando sua jaqueta em cima da cama enquanto ele me fitava pelo reflexo do espelho e esticou os braços quando eu fiz um sinal de que lhe vestiria a jaqueta.

Brian observava sem expressão cada movimento meu, virando para mim quando ajeitei as costuras em seus ombros.

— Estou bonito?

Era até vergonhoso para eu admitir a mim mesma que estava com uma leve inveja de Karina, por mais que tenha esperado por Brian por mais de uma hora... Ver o guitarrista se arrumando daquela forma só para encontrá-la mexia de alguma maneira comigo. Ciúmes, talvez.

— Você está lindo. — Sorri, tentando quebrar o contato visual ao ajeitar sua gola.

— Obrigado. — Suspirou. — Pela dança no iate, pela tarde, e até pela lição de moral. — Engoli o seco. — Principalmente por ter cuidado da minha irmã. Não esquecerei disso. — Prometeu.

Brian então focou em meus olhos e, antes mesmo que eu pudesse me sentir nervosa pelo ato, as sensações se multiplicaram quando Haner selou seus lábios ao topo da minha testa.

Fechei os olhos, deliciando-me com a representação de afeto, sentindo meu corpo se arrepiar pelos meros seis segundos que passou ali com os lábios na minha pele.

— Não esquece o que eu lhe pedi, okay?... Resolva sua vida, Brian. — Ousei passar a mão pelo seu cabelo, jogando-o para trás, já que já estava caindo sobre seu rosto. — Tanta gente querendo te ver feliz de verdade.

Ele sorriu sem jeito e afirmou com a cabeça.

— Preciso ir. — Aumentou o tom de voz para quebrar qualquer comodidade que poderia estar sendo criada ali. — Eu espero ver você na sessão da SGC. Michelle irá te mandar alguns e-mails confirmando ou marcará uma reunião para contrato...

Ri enquanto o rapaz colocava sua mochila nas costas e o acompanhei para fora do quarto.

— Syn, eu faria isso de graça.

— Mas seria injusto, então, sem teimosia. — Avisou. — A gente se vê. E da próxima vez que eu vir aqui, iremos fazer mais desenhos nesse quadro negro. — Apontou para a lousa ao lado da porta que eu tinha aberto para ele.

— Você quem manda. — Brinquei. — Boa turnê, Gates.

Fechei a porta assim que o guitarrista tomou o elevador e senti como se parte de mim fosse com ele.

Coisa esquisita.

Busquei ignorar o seu cheiro, que tinha ficado por toda parte do apartamento até no meu edredom com qual se embrulhou enquanto assistíamos Hairspray e olhei em volta orgulhosa do trabalho em que fizemos ali.

Fui para o banheiro tomar um banho e começar a me arrumar para receber e jantar com meus amigos.

 

*Brian’s POV*

 

Ouvir: The Stage — Avenged Sevenfold.

Talvez não tivesse sido a mais genial das ideias ter passado o dia com ela em Long Beach. Deus sabe o quanto resisti a qualquer tentação de possivelmente beijá-la, por mais que, em poucos momentos, estivéssemos tão perto fisicamente. O teste das situações como a proximidade na cozinha, a despedida, eu acho que, talvez, nunca tenha sido tão homem em suportar tais tentações.

Eu sabia que as merdas que eu tinha feito no sábado não tinham sido apagadas com a tarde de domingo em LBC. Via em seus olhos que ainda estava magoada, porém, por alguma razão, parecia que Gabriela esforçava-se ao máximo para deixar de lado; quase como se houvesse motivo pior para ficar chateada, ou maior para perdoar-me.

Conhecer mais a mulher que estava despertando cada vez mais meu interesse me surpreendeu. Tinha tantas histórias que eu ainda não sabia e, quanto mais sabia, necessitava de mais. A virtude da brasileira conquistava-me, devo dizer, no entanto, mostrava ainda mais que, com tudo em nossa volta, eu não poderia roer nenhuma pilastra da nossa amizade e arriscar algo. Seria um verdadeiro filho duma puta se fosse egoísta a tal ponto, e eu precisava sempre me lembrar de que Gabriela não merecia nada o que eu podia lhe oferecer, já que o que eu podia lhe oferecer eram apenas mágoas e um mundo sujo onde vive Synyster Gates.

Por sorte, Luana ainda estava se arrumando quando passei para buscá-la no campus, todavia, isso não fez com que ela não percebesse meu atraso de uma hora e meia. Depois de um agradável jantar e algumas fotos numa festa de irmandade, minha acompanhante resolveu comentar sobre minha imprudência com o nosso horário, já provocando-me na primeira frase:

— Conversamos, conversamos... Me contou sobre Abbi, sobre o fim de semana com rapazes e até sobre a Kenna, mas não me contou como foi a tarde com sua queridinha, Syn. — Cantarolou as primeiras palavras. — E você está tenso agora. — Virou seu corpo para mim assim que estacionei o carro em frente ao seu prédio.

— Foi tranquilo, além de cansativo. — Disse com um suspiro, tentando cortar o assunto com uma resposta rápida.

— Não aconteceu nada? — Tossiu rindo em um leve deboche, porém, que deixou-me incomodado. — Uau, a garota é bem mais forte do que eu imaginava!

— Como assim?

— Vejamos, Bri: você é o sonho dela desde a adolescência. Entende isso, não é? Amor platônico, paixão imaculada. — Gesticulou, dando ênfase nas últimas frases com um tom dramático.

— O Synyster é. — Falei com um tom sarcástico. Nada do que Karina insinuasse sobre Gabriela me frustraria hoje... Não depois de ter passado a tarde com ela.

— Ah, por favor, não começa. Você sabe o que estou tentando dizer. — Fez um sinal para que eu parasse. — Vocês têm o mesmo corpo, querido. Não tente generalizar pela personalidade. — Sorriu com o canto dos lábios. — É um dos caras que, possivelmente, aquela mulher mais desejou na vida. O guitarrista solo da banda favorita. Se aconteceu qualquer coisa que te deixou com esse olhar encantado a noite inteira, que eu sei bem que não é por estar aqui comigo, vou tentar te acordar pra vida, Syn. Você está se iludindo achando que viverão um romance. — Ri irônico.

— Karina, não aconteceu nada e, diferente do que você está tentando me convencer, a Gabriela sabe separar muito bem as coisas, assim como eu. Mostrou isso desde que nos conhecemos e não é por uma tarde que passamos juntos que a fez pensar ou me ver diferente.

O duplo sentido na frase fez meu peito, de alguma forma, se apertar.

Pelo menos, assim eu esperava... Com tudo o que Karina estava me falando era impossível não lembrar do que Lins disse sobre “viver em cima de um muro” entre Haner e Gates... E que tinha se abaixado pela minha “distração” de sábado.

— Ficou pensativo. — Analisou quando parei com o carro em frente ao seu prédio. — Baby, escute... — Tirou o cinto de segurança e se virou para mim. — Vai acontecer algo. Pelo menos, um beijo. Sei que, sim. Ou, iria... Já que, agora, vejo que a Gabriela tampouco pensa em ter algo com você que até outro deve ter. — Franzi as sobrancelhas.

— Do que você está falando, Luana? — Eu já não conseguia nem rir. A insinuação tinha sido séria demais para que eu tratasse-a com deboche ou fosse cínico.

— Que já faz uns dois meses que ela se mudou e que uma garota bonita e talentosa como ela não passa muito tempo solteira na Califórnia. — Falou devagar fazendo algumas expressões sarcásticas que estavam me aborrecendo.

Da última vez que ela não ficou tão furiosa quando se tratava da gaúcha eu desconfiei que Luana sabia de algo que eu não sabia...

— Você tem que me falar. — Quase ordenei. Qualquer coisa que ela estivesse escondendo a respeito Gabriela me interessava.

— Talvez sua fã esteja vivendo um romance com outra pessoa, Syn. — Sorriu de forma meiga e a insinuação fez algo borbulhar no meu peito. — “Talvez” não. Ela está. Quer saber? Ela sabe mesmo separar as coisas. Pensei que confundiria os sentimentos de Gates para Haner, como você gosta dizer. — Riu fraco. — Devo admitir. — Me encarou. — Eu só achei que Michelle lhe contaria primeiro que eu e faria o papel de “melhor amiga” e te protegeria de um possível coração magoado, ou que a própria Gabriela diria logo... Sinto muito que esteja sabendo assim.

Por que eu me sentia tão traído? Até a Michelle sabia?

— Mas, sejamos claros, Brian. Se acontecesse qualquer coisinha entre vocês, mesmo que um só beijo, nada mais daria certo depois disso. Seus amigos ficariam furiosos, Gabriela confusa e desesperada por ter traído a confiança de todos eles. — Contou. — Olha só pra mim. — Segurou meu queixo. — Se você está mesmo gostando dela, dá o espaço para que a garota construa uma vida nova e saudável nessa cidade. Dê espaço para que alguém a faça feliz. — Eu sabia que não era altruísmo de sua parte, muito menos por se importar comigo (mesmo eu também sabendo que ela se importava SIM comigo), era apenas um ponto de seu auto ego que a fazia ter medo de ser “trocada”. — Meu bem, eu sou real. Nós somos.

Puta merda, mesmo. Eu estava dando ouvidos a isso? Já tinha colocado na cabeça de que não meteria um dedo na vida da Gabriela, só porque me recusava a ser egoísta com ela, não porque acreditava que seu afeto por mim era coisa de fã e ídolo; isso já tinha saído da minha cabeça há tempos, tínhamos construído algo muito além disso, éramos amigos.

 

— Lembra do que você nos disse no back rock pub? Eu tenho certeza que você já falou coisas muito mais fortes com seus amigos... Pro seu namorado, você está sendo a fã perto do Avenged Sevenfold. É normal que ele se sinta inseguro ou te fale alguma merda...

— Você...

— Não entenda mal, por favor. Eu não estou falando pra te provocar, muito menos pra te ofender.

— Eu sei. Você falou como Brian. Eu disse que sabia diferenciar brincadeira de piada de mau gosto.

— E também disse que sabia diferenciar o Synyster do Brian. Aprendi a acreditar nisso. Só tenta fazer o Leonardo entender que agora você é amiga do Brian Haner. Não tem o porquê ficar numa tecla da primeira vez que sentamos para conversar e que nem imaginávamos que te veríamos de novo.

— Brian Haner me aconselhando.

— Você é parte da família agora.

 

Mas eu sabia bem que esse não era o ponto. Não na parte em que se dizia a respeito sobre o que eu sentia por ela.

Gabriela não suportaria nada do que eu tinha a oferecer. Assedio, holofotes... Ela mal ME suportaria. E o fato de ela ter outra pessoa só podia ser um sinal do universo me avisando de que “nós” jamais aconteceria e que, antes mesmo que eu fosse fraco o bastante para jogar tudo no ar e assumir o que eu sentia (por conselhos da Michelle), precisava protegê-la de mim. Como Karina deixou claro: se eu sentia mesmo tudo o que sentia, não podia ser egoísta.

— Como você pode ter se enchido de esperanças se não aconteceu nada entre vocês, Syn? — Franziu as sobrancelhas. — Vejo bem isso. Não aconteceu nada o dia inteiro. Nem um beijo. — Curvou-se para beijar-me a bochecha. — Se concentra em nós. Eu detestaria ver você mal por causa de uma novidade.

Novidade? Não. Não era isso e eu sabia. Meses atrás, no Brasil, eu tinha concluído isso. Não era mais questão de ser uma “novidade” a qual eu não levei pra cama... Era a primeira mulher, em tempos, por quem eu via e considerava a possibilidade de me apaixonar. De amar.

Só que pra essa mulher, se tornar minha era incogitável.

— Manda mensagem quando chegar em casa, okay? — Deu-me um beijo singelo nos lábios. Conhecendo-a bem, era uma de suas mil maneiras de me provocar fisicamente.

Eu precisava ir a um lugar antes de voltar a HB, mesmo sendo onze da noite. Não sei de onde caralhos arrancaria coragem, mas era algo que precisava ser feito. E depois eu ainda teria que tirar satisfações com a DiBenedetto.

 

*Brian’s POV Off.*

 

— Tá destorcido demais. — Ri, pegando o violão dele.

— Então faça você, mestre das cordas. — Ironizou.

— Olha, não vem de deboche comigo porque você quem está me “reensinando” a tocar. — Empinei o nariz e Christopher riu.

Estiquei-me por cima do instrumento para mudar algumas notas na partitura e, com dificuldade, comecei a tocar; depois de errar a introdução do pré-solo duas vezes, consegui tocá-lo perfeitamente com habilidade.

— Isso foi uma progressão hipnotizante? — Se surpreendeu. — Um groove harmônico não é uma das técnicas mais inteligentes de se usar no primeiro álbum. — Cruzou os braços.

— Só a base será assim. É uma das últimas músicas e o álbum de vocês está quase pronto, tem que ser divino. — Respirei fundo para continuar a contar. — Com a base assim, fará com que a pessoa sempre queira escutar a música, mas, colocando um arranjo no solo melódico é o segredo. Ninguém quer ouvir um moleque de treze anos fazendo solos de guitarra no estilo “ouçam como eu toco rápido!”. As pessoas querem sentir a música.

— Retiro o sarcasmo, você é a mestre das cordas. — Ri.

— É um groove com um arranjo de quinto grau harmônico. — Apontei para o acorde “si” nas cordas.

— Um empréstimo modal para que a pessoa queira ouvir até o fim.

— Progressão hipnotizante. — Conclui e rimos. — Aprendi com a minha avó ao piano, quando aprendi “Easy”, na versão do Faith No More, aos seis anos. Com violão é ainda mais fácil só porque a guitarra teria um solo nessa faixa. — Devolvi o violão pra ele. — Tenta de novo, só que mais rápido e faz o encerramento que vier à sua mente que eu anoto, de preferência um riff de quatro casas. — Christopher assentiu e iniciou a tocar, até eu ouvir alguém batendo na porta.

— Visita onze e vinte da noite. Sério? — Arqueou uma sobrancelha.

— O que é mais que esquisito. Os únicos nomes que eu deixei na portaria foi o seu, o da Luiza, o da McKenna e do Brian ainda... — Comecei rolando no chão para tirar minhas pernas de cima do sofá e levantar, arregrando os olhos ao ver pelo olho mágico quem era. — Vai pro quarto, agora! — Falei baixinho, fazendo um sinal que praticamente expulsasse o guitarrista dali. — Agora, vai! — O puxei pelo braço para que se levantasse.

— Ai! O que é? Quem é?!

— Shiu! Faz silêncio. — O empurrei para dentro do cômodo e fechei a porta antes que ele fizesse mais perguntas.

A minha necessidade de escondê-lo era desconhecida por mim... Mas a última coisa que eu queria era que Haner visse Christopher no meu apartamento tão tarde da noite.

— Esqueceu alguma coisa? — Brinquei ao abrir a porta e dar espaço para que ele entrasse.

— Eu precisava conversar com você. — Meu sorriso se fechou.

Brian estava tão sério que eu pude sentir sua frieza descendo na minha coluna.

O que aconteceu com o cara radiante que tinha passado o dia comigo?

— Você estava tocando? — Seus olhos bateram no violão em cima do sofá. — Deu pra ouvir do corredor. Está se saindo bem. Fico feliz que esteja tomando habilidade, ouvi você tocar Missing in Action no Rock’s voice... Ér... — Fechou os olhos e apertou as pálpebras, balançando a cabeça para recordar de que não tinha vindo até aqui falar sobre violão.

Fechei a porta e cruzei os braços, dando tempo para que o guitarrista iniciasse o assunto.

Algo estava me cheirando mal.

— O jantar foi bom? — Tentei sorrir, na esperança de que ele tinha ido contar sobre o que resolveu na sua vida.

— É exatamente sobre isso que eu vim falar... Ou melhor; esclarecer, avisar. — Gesticulou e começou a andar de um lado para o outro.

O nervosismo dele estava me aborrecida.

— Eu pensei no que você me disse, Gabriela. Repensei minhas atitudes, meu relacionamento com Karina...

— Brian, isso é ótimo. Não que fosse minha finalidade separá-los, só que...

— Gabriela, eu resolvi que é melhor fugirmos dessa convivência toda que passamos a ter.

Senti meu corpo inteiro latejar como se eu tivesse levado um enorme tombo. Não pisquei mesmo com os olhos carregados de água e senti meu coração se encolher no meu peito.

— Do que você está falando? — Quase gaguejei. Era como se estivesse me deserdando. Abandonando tudo que eu sentia por ele. — Brian, olha pra mim. — Segurei seu queixo e fiz com que o guitarrista me encarasse. Gates tirou minha mão do seu rosto com a máxima repreensão de que eu o tocasse.

Dei dois passos para trás com a boca aberta. Isso não podia estar acontecendo.

— Vou levar meu relacionamento a sério, cuidar da minha vida, fazer tudo o que você me aconselhou hoje, mais cedo. E o início desse... — Respirou fundo, desviando o olhar por alguns segundos e então voltou a me encarar. — O início desse caminho que eu pretendo tomar envolve evitar qualquer intimidade que conturbe meu namoro com Karina.

Eu expressava incredulidade.

Tivemos um dia perfeito e você vem aqui destruir tudo?!

— Olha aqui, se for alguma das suas piadas de mau gosto, eu já disse que não têm graça! — Eu estava entrando em desespero como nunca.

— Não é piada.

— Me desculpe se a nossa amizade atrapalha seus planos de felicidade. — Ironizei, tentando manter qualquer máscara que fizesse-me conter as lágrimas, mas era impossível. Sentia como se estivesse me abandonando.

Ouvir: Babe, I’m Gonna Leave You — Led Zeppelin.

Eu não lamentava. Era verdade que eu não gostava da ruiva perto dele, e que Brian estaria bem melhor sem ela, mas o fato de eu querê-lo feliz não tinha como finalidade em jogá-lo a Karina.

Meu coração subiu até a garganta.

 

Eu tinha me convencido de que Brian conseguia fazer com que eu me sentisse melhor fosse qual fosse a situação ou o sentimento... Medo; púbico; indecisão; sozinhos; animo ou saudades.

Abaixei a cabeça e vi a mão dele timidamente estendida para que eu a segurasse.

— Eu não quero ficar longe de você. 

— Eu espero mesmo que você não tenha a intenção de se afastar de todos nós. De mim. — Levantei o rosto e busquei qualquer vestígio de sarcasmo em seus olhos quando o guitarrista desviou o olhar dos pés para me fitar, mas Brian tinha as íris dos olhos castanhos calmamente suplicativas.

 

Por que estava agindo daquela forma?

— Eu não vou aceitar isso. — Pronunciei com a voz firme.

Eu aceitaria e respeitaria a vontade de qualquer amigo, qualquer relação que eu amo e respeito como amo e respeito minha amizade com Brian, contudo, não podia desistir assim dele. ELE não poderia desistir assim de nós.

— Brian. — O chamei em um fio de voz. — Por favor, repense. Reconsidere o que for. Não pode ser egoísta assim. — Supliquei.

Ele por a caso sabia o que sua amizade significada para mim para deixar-me desse jeito?! Sabia o que ELE significava para mim?!

Me recusava chorar em sua frente. Por mais que estivesse doendo tanto...

— Eu não estou pedindo que pare de falar comigo, Gabi. — Passou as mãos nos olhos, respirando fundo.

— Ah, não está? Você bate na minha porta quase meia-noite dizendo que se afastar de mim é o início de uma “vida melhor”. — Bufei e logo dei de conta do que aquela conversa se tratava.

Brian acreditava que longe de mim seria melhor?

Por favor, se explique. Faça o que fizer, mas não me deixe chorar por você.

 

— Antes que eu ou que você durma? Eu não fui o único quem bocejou. Poderia cantar pra mim?

— Qual música?

— Sério?! Fácil assim?

— Pra você, sim. — Quase arrependi-me de ter respondido na lata. Eu poderia até imaginar a cara de malicia que ele fez. — Desmancha esse sorrisinho.

— Qual?! — Fez-se de desentendido.

— Quer que eu cante ou não?

Ian havia sido a única pessoa para quem cantei até que dormisse, porém, diferente do que eu senti cantando para ele, submissão, dor e paixão, por Brian, eu sentia companheirismo, calma e afeto e, o fato de que ele, mesmo que de forma idiotamente travada e desastrosamente enrolada, começou a cantar comigo, lentamente e com a voz tão baixa quanto a minha, quem pegou no sono naquela noite, fui eu.

 

— A Karina sente ciúmes de você. Eu só não queria um clima ruim. — Bingo. Estava começando a se explicar... Agora, o que restava era eu conseguir arrancar a verdade dele.

Eu sabia que Brian jamais se afastaria de alguém só porque Luana se sentia insegura. Isso não fazia parte da personalidade do Haner, abandonar as pessoas que o amavam... Pelo menos, eu acreditava que não fazia.

— E ela tem motivos pra sentir ciúmes? — Soltei e Brian perdeu qualquer expressão que eu pudesse decifrar. — Você não vai me falar mais nada, não é? — Tentei ser rude, todavia eu só sentia vontade de chorar. Temi a resposta e, se ele respondesse que sim, acabaria comigo.

Não se afaste de mim. Eu perdi tantas pessoas, mas perder sua amizade não teria comparação...

— Desculpa. — Suspirou pesado, passando as mãos no rosto e jogando os cabelos para trás. — Eu não estou dizendo que quero isso. — Respirou fundo. — Só que...

— Você só pode estar de brincadeira. — Meu fio de voz foi sarcástico e rouco, frágil. O meu nervosismo estava começando a tomar conta de mim. Não queria que ele fosse embora. — Não vem com esse papo de “é melhor assim”. Não me interessa. — Cuspi as palavras querendo chorá-las e suplicar que ele retomasse sua opinião sobre nós. — Pode falar pra Karina se despreocupar. Ficarei longe de você.

— Quer saber? Não tem nada a ver com ela! — Admitiu finalmente. Vamos lá... Continua.

— E com o que tem a ver, então, Synyster Gates? — Usei o mesmo tom. Eu já via Brian embaçado por causa das lágrimas que ainda estavam sendo carregadas pelas minhas pálpebras. — Eu não sabia desse seu lado estúpido, Syn. Muito obrigada por mostrar só ag...

— Eu perdi! — Quase gritou, cortando o que eu dizia, terminando o seu “só que...”. — Eu perdi, Gabriela. — Roscou, enchendo a boca para falar meu nome, curvando-se um pouco para ficar com o rosto na altura do meu e apontando para si mesmo. — E o melhor que eu faço agora é ser bom pra única mulher que eu nunca conseguiria magoar, porque eu odiaria te fazer chorar pelo meu egoísmo.

— Já fez. — Disse ríspida, sentindo as lágrimas de ódio e angustia escorrer pelas minhas bochechas. — Mas, tudo bem. — Menti, contando com a voz completamente embargada e pedi a Deus para que Brian não percebesse, mesmo as lágrimas molhando livremente meu rosto.

Chorar era algo tão raro para mim. Eu sempre tentava manter a cabeça levantada até o final... Mas tinha algumas quedas e dores que eram impossíveis de suportar sem me derramar em choro.

Eu não iria começar um drama real. Não iria forçá-lo a continuar ser meu amigo se o mesmo mal fazia questão.

 

— Tem alguma resposta pro egoísmo?

— Depende. — Ouvi uns sons de porcelana se batendo na ligação. Provavelmente Brian se servindo de café. — Algumas vezes se resume em amor próprio e, outras vezes, se resume a amar muito outra pessoa.

 

— Vai embora daqui. — Pedi com a voz fraca, caminhando com as pernas tremulas até a porta e a abrindo para que o guitarrista saísse.

— Você podia ter me contado que estava namorando antes. — O que? Namorando?!

— Você podia ter me mostrado que é um imbecil antes dessa cena.

Podia também ter se mantido calado e ter deixado eu bater a porta em paz — pensei, no entanto, Brian esticou seu corpo para dentro do apartamento e segurou meu pescoço firmemente por cima do cabelo (que já grudavam no meu queixo por conta dos litros de lágrimas), beijando-me a testa da mais terna e afetuosa forma possível o que, além de destruir-me ainda mais, me deixou mais furiosa com tudo. Eu poderia esmurrá-lo se não saísse depressa dali.

Antes que ele pudesse se afastar (coisa que eu achava que queria), puxei-o pela jaqueta e o abracei com força, encolhendo-me em seu peitoral quando Brian passou seus braços por cima dos meus ombros. Sem me afastar nenhum pouco, com os olhos fechados, comecei a fazer movimentos com as mãos como se fosse socá-lo diversas vezes no peito; Haner apertava-me cada vez mais forte quanto eu tentava tomar distância para realmente conseguir machucá-lo externamente tanto quanto ele estava me machucando internamente. Assim que eu desisti, ele me soltou.

Só então o tatuado pegou a maçaneta e, por si só, fechou a porta lentamente, encarando minha face vermelha; antes que pudesse girar o trinco para fechar a porta em silêncio, joguei-me sobre ela, empurrando-a e fechando-a de vez, antes que começasse a chorar ainda mais na sua frente. Não precisava e nem podia me humilhar mais do que tinha me humilhado ao implorar que não fosse embora.

Fechei a porta não na cara de Synyster Gates; o cara com quem eu tinha fantasias, ou aquele por quem eu era apaixonada desde os dezesseis assim como era por tantos outros ídolos, ou mesmo quem mais me inspirava na música... Fechei a porta na cara de Brian, uma das pessoas que eu mais dava importância naquela cidade; aquele que era compreensível e leal, aquele que me conquistou e conseguiu me magoar como se tivesse rompido um namoro de anos.

Egoísta.

Encostei minha cabeça ali, procurando manter minha respiração e controlando o choro, que parou de sair assim que tomei ar.

Não existiam mais alternativas para cogitar e culpar por toda a confusão que tinha se formato. A única opção tinha nome: Karina. Ela tinha contado a Brian sobre minha conversa com Michelle e de forma errada; não que a ruiva se esforçaria para contar a verdade, se soubesse e, não, essa história mal contada não era justificativa para Haner se distanciar de mim, porém, como se fosse com qualquer outro amigo meu, eu teria que respeitar sua decisão.

Ainda demorou para que eu ouvisse seus passos denunciarem que estava indo embora de vez e, assim que ouvi o elevador se fechar no corredor silencioso do andar, soquei e chutei a porta quantas vezes pude.

Eu senti flechas atravessarem meu peito e logo eu não conseguia chorar, apenas xingar e soluçar pelo nó preso na garganta. Ouvi uma batida de porta atrás de mim, vindo do corredor e Christopher correu até meu corpo, segurando-me firme para que eu parasse de agredir o que visse na frente, inclusive ele, e me levou para o sofá enquanto eu soluçava inconsolável em desespero, em desesperança.


Notas Finais


FOTO NA BANHEIRA (Link 1): https://65.media.tumblr.com/e9ecaa54d2fbfddf0a205fe54af8532f/tumblr_of0017tdy91vsbp9qo2_500.jpg

ROUPA DA GABRIELA (Link 2): http://www.polyvore.com/blue_blood/set?id=207982582

BRIAN DE PEDREIRO (Link 3): https://67.media.tumblr.com/75a89971f1592e4118b4667e50551b0b/tumblr_of0017tdy91vsbp9qo1_400.jpg

Muitas entrevistas traduzidas e vídeos assistidos pra saber como os rapazes se conheceram e como a banda foi formada (exatamente como tá escrito aí).
Próximo capítulo só no dia do meu aniversário, hahaha.
GOSTARAM? COMENTEM.
Achei pesadinho, mas tava ANSIANDO MUITO por isso. huehuehue

LINK DA MÚSICA NOVA DO A7X (pra quem ainda não ouviu): https://www.youtube.com/watch?v=fBYVlFXsEME

Me sigam no twitter @badassyn

xoxo, Brey.


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