História Blue (Malec) - Capítulo 3


Escrita por: ~

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Categorias Shadowhunters
Tags Clace, Deficiencia, Homofobia, Machismo, Malec, Morte, Racismo, Sizzy
Visualizações 449
Palavras 4.426
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Demorei mais tempo para postar esse capítulo do que Magnus Bane demora para se arrumar, então sinto muito morecooooooooos!

Músicas do capítulo:

— Time Of My Life, Dirty Dancing Movie
— Greased Lightning, Grease
— You're Thet One That I Want, Grease
— I Need a Hero, Bonnie Tyler
— Always, Bon Jovi
— Crazy, Aerosmith
— Cryin', Aerosmith
— More Than Words, Extreme
— Maniac, Flashdance Movie

Eu amo clássicos, e vocês? :)

Enjoy it.

Capítulo 3 - Aquamarine


3

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Silent words in my mouth

Yeah, they want to scream out

And I'll leave my old shadow behind

In my heart and out of my mind

— Aubrey Peeples, "̶T̶h̶e̶ ̶W̶a̶y̶ ̶I̶ ̶W̶a̶s̶ "

 

мαgηυs

Com um som estridente tocando à minha direita, tateei cegamente em busca do despertador enquanto sentia o braço de Imasu me envolver na cama. Quando o encontrei, com os olhos meio abertos, apertei o botão para desligá-lo e sentei no colchão. Franzi as sobrancelhas quando senti a luz do sol queimar minhas pálpebras. Olhando para o relógio na parede, percebi que já se passava das oito da manhã e que, dessa forma, eu estava completamente ferrado. Puxando os cabelos para tirá-los do rosto, empurrei as pernas para o chão e me coloquei de pé. Me movi o mais rápido que podia para me arrumar, pegando as roupas do chão e vestindo-as com pressa. Eu nunca me atrasava, nunca mesmo, mas aquela manhã não parecia estar ao meu favor e com a conduta do novo diretor — Alexander Lightwood, senhor pedaço de mau caminho —, sabia que uma bronca era uma possibilidade perfeita.

Ao calçar meus sapatos, não me lamentei ou me importei por estar indo embora sem me despedir de Imasu. Ele era meu primeiro namorado — não que usássemos essa tal de definição —, mas as coisas entre nós eram confusas. Quando estávamos na cama conseguíamos nos entender e eu era capaz de não me sentir podre e sujo. Ao ter outra pessoa me tocando, uma pessoa que me tocava porque eu queria e não se satisfazia dos meus medos, o passado parecia desaparecer. No entanto voltava de minuto em minuto, às vezes em sonhos ou em realidades paralelas durante o dia. Eu havia conseguido fugir da Indonésia com um dinheiro que Catarina e eu passamos anos juntando, mas ainda estava apavorado. 

Uri deve estar furioso e quando me encontrar, vai me matar. É claro que ele vai.

Não olhei para trás ao fechar a porta do apartamento de Imasu e sair pelas escadas de forma apressada. Catarina deve estar me procurando e eu implorava para que, ao mesmo tempo, estivesse me dando cobertura. Alexander Lightwood não era como Robert; era severo e rude, com uma postura arrogante. Eu havia lido no jornal — ele era bem conhecido — sobre sua forma implacável nos julgamentos. Um juiz ávido por justiça, que não se importa com as consequências de suas ações para fazer a coisa certa.

Não sabia o que alguém com uma carreira daquelas estava fazendo dirigindo uma escola de Artes — ele se destoava muito dos alunos e professores —, mas não duvidaria de seu pulso firme para lidar com o Instituto. Testá-lo logo em sua primeira semana era loucura, mas ideias loucas geralmente funcionavam para mim.

Não demorei muito para chegar ao colégio — principalmente porque Imasu não morava tão longe — e assim que passei pelos portões e pelo jardim abarrotado de música e pessoas, abaixei a cabeça e subi os degraus da entrada. Passei por corredores de salas extensas até chegar à ala masculina de dormitórios. Entrei rapidamente e fechei a porta atrás de mim, corri para o chuveiro e tomei o banho mais apressado da minha vida. Quando terminei, vesti uma calça jeans escura e uma camiseta de mangas longas — larga e com detalhes bonitos — de cor vinha, um pouco manchada por brilho em dourado. E ao me abaixar para pegar o pente que havia caído no chão, escutei a porta do cômodo abrir em um estrondo e saltei, sentindo meu coração balançar de um lado para o outro.

Girei em meus próprios pés lentamente, para então encarar quem havia entrado. Não esperava ver Alec parado ali, vestindo um terno completamente negro — inclusive a camisa e a gravata — e me encarando sob seus óculos de grau. Seu rosto estava sério — como sempre — e o maxilar trincado; ele segurava a maçaneta entre os longos dedos e ao menos parecia estar respirando.

— Diretor Lightwood. — Eu não sabia o que acontecia comigo quando ele estava por perto, mas minha postura mudava e tornava-se ainda mais arredia. Minha voz deixou minha boca com malícia e diversão, modalidades conhecidas por mim, mas quase nunca utilizadas. Nem mesmo com Imasu. — Como vai?

Ele revirou os olhos e respirou fundo, soltando a maçaneta e dando um passo para dentro. Seus sapatos sociais fizeram barulho no assoalho enquanto ele deslizava seus lindos olhos azuis de cílios grandes por todo o quarto.

Eu não gostava dele — pelo menos desde que o havia conhecido —, mas não podia negar nem para mim mesmo que ele era um homem bonito e elegante; capaz de causar em mim um desejo intenso no baixo frente.

Ao fundo, no meu rádio, a música You’re The One That I Want do filme Grease — não era uma obra recente, mas eu adorava e a população também — tocava em alto volume; e sorrindo de lado, deixando minhas presas a mostra e destacando o batom em meus lábios, comecei a mexer os quadris de acordo com a melodia divertida. Alec retesou onde estava e eu dei uma risada baixinha.

Girei o pente entre os dedos e movi os lábios dizendo “You’re the one that I want” e o vi morder o lábio inferior de forma discreta, franzindo o cenho. Aquele pequeno gesto deixou um lastro de queimação pelo meu corpo e eu tive a sensação de que apenas passaria quando ele me tocasse. Naquele segundo, tive a certeza de que queria que ele me tocasse, na mesma proporção em que queria deixá-lo louco por não conseguir me controlar. 

A indireta que eu cantarolei enquanto continuava dançando deixou o ar pesado. Sr. Lightwood parecia ter sido atingido por um golpe no rosto, mas não demorou para se recuperar. Ele atravessou meu quarto, deixando um lastro do seu cheiro pelo caminho, e desligou o rádio, encarando-me de maneira ainda mais dura.

— Não gosta de clássicos, Sr. Lightwood? — Eu cruzei os braços sobre o peito, deixando claro que sua postura não me desarmaria.

— Não gosto de atrasadinhos — disse Alec com as sobrancelhas unidas; eram largas e escuras, com um pequeno risquinho falhado em uma delas. Acentuava seu rosto de forma perfeita e eu colocou aquilo em minha listinha de “Aspectos que o fazem perfeito... e um babaca”. — Onde estava, Sr. Bane?

Eu percebi que a voz dele não se alterou, embora sua expressão não fosse nada boa. A maioria das pessoas não escondiam tanto as emoções atrás de caretas, mas eu não era como a maioria das pessoas. E, pelo jeito, Sr. Lightwood também não. 

— Transando com o meu namorado. — Digo com uma convicção que demorei meses para conquistar. Após fugir de casa, não queria mais ser o garotinho com medo e que recebia insultos dizendo que as formas do seu corpo eram as culpadas pelos abusos que sofria. Eu queria apenas fazer o que amava, eu queria ser forte. — Isso não é crime, é?

Eu não conhecia a ideologia de Alexander quanto ao homossexualismo, não sabia o que ele achava dos protestos, das mortes e da doença. Se nos condenava ou não dava à mínima. E mesmo que eu escondesse aquelas informações do resto do mundo, alguma coisa me impedia de esconder dele. As palavras saíam com sinceridade camuflada de deboche, e eu havia desistido de tentar controlá-las.

Ele levou o polegar e o indicador até a ruga formada entre as sobrancelhas e respirou fundo, colocando a outra mão no cinto trançado na calça social.

— Eu não me importo com suas saidinhas — disse ele após poucos minutos. Eu ia responder, mas ele falou antes que eu pudesse: — Mas são problema meu quando começam a interferir na sua bolsa de estudos. Não quero ter que te expulsar daqui, Magnus.

Magnus. O sotaque dele tinha um aspecto especial ao pronunciar meu nome. E eu já ouvira de muitos outros nova-iorquinos, mas havia algo em seu tom. Era majestoso de uma forma que não deveria ser; meu coração não devia ter palpitado e minha garganta não devia ter ficado seca. 

— Esse é o meu primeiro atraso desde o início das aulas — retruquei com a voz ácida.

— Não são somente seus atrasos — disse Alec ao caminhar para mais perto, mas ainda mantendo uma distância que, para mim, parecia segura. Eu percebi a aliança em seu dedo anelar esquerdo, brilhando diante dos meus olhos. E me perguntei que tipo de mulher se casaria com um homem tão cru como ele. — Você foi pego transando no banheiro masculino no primeiro mês aqui.

Eu não gostei da forma como aquilo soou, como se fosse um insulto. Eu não era uma vadia por dormir com certas pessoas, por buscar uma saída através do sexo. Mas eu deixava que falassem, porque os boatos podres eram mais simples do que a verdadeira razão por trás do meu “apetite sexual”.

— Meu pai não agiu da forma como deveria, mas eu não sou ele. — Alec me olhou nos olhos, causando uma onda desesperadora pelos meus olhos. Engoli em seco com o peso de seu olhar. — Não vou deixar que haja assim sem sofrer as consequências. Isso é uma escola, não uma boate de pessoas...

O interrompi no momento em que deduzi o que ele ia dizer. Minhas bochechas arderam e eu bufei audivelmente, revirando os olhos de maneira irritada.

— De pessoas como eu? — Dei um passo à frente, ameaçadoramente. Eu podia ter um corpo feminino demais para um homem e não ser tão alto quanto ele, mas não deixaria que nada vindo de ternos e sapatos caros me colocasse para baixo. —  Que pessoas? Gays?

Eu nem me dei ao trabalho de esconder o meu desgosto ao encará-lo. Para a maioria das pessoas, não havia profundidade para entender a diferença ou as carcaças como a minha; carcaças que lutavam, mas escondiam dor sob a sua superfície.

— O quê?! — Alexander pareceu se recuperar. — Eu não ligo para a sua sexualidade e a maneira como a usa. Não me importo com os seus namoricos e sexos sem compromisso... Mas eu irei interferir se isso interferir em mim. Se interferir nos seus estudos e nos que convivem com você aqui.

Revirei os olhos, decidindo não retrucar.

— Vou receber uma advertência?

— Sim. — Ele assentiu. — Vá para sua próxima aula, mas esteja na minha sala assim que seu período acabar para receber seu castigo.

Sorrindo de escanteio, eu me aproximei. Alexander poderia ser hétero e casado, mas brincar com ele era divertido. Nunca ultrapassaria a linha do limite, mas o que estivesse ao meu alcance para utilizar contra ele, não seria desperdiçado. Apoiei minha mão sobre o seu peito, percebendo satisfeito que seu coração batia acelerado ali dentro. Ele se retesou mais uma vez naquele dia, e eu encarei minhas unhas pintadas de rosa até me sentir seguro o suficiente para olhá-lo nos olhos.

— Prometo ser um bom garoto, Sr. Lightwood. — Disse a ele e assim que tive a confirmação de que, de alguma forma, o afetava, me afastei e sorri. — Eu preciso ir agora. Mas vou estar na sua sala no horário combinado.

Corri até a porta e dei uma risadinha, olhando por cima do ombro e dizendo:

— Você fica muito gostoso de preto, Sr. Lightwood. — Então passei pela porta e fui pelo corredor até a sala de aula.

— Como você e Imasu estão? — Catarina me perguntou durante o almoço; estávamos sentados no jardim, sentados na grama. Minhas pernas estavam sobre as dela, e suas mãos habilidosas faziam carinhos reconfortantes em meus cabelos.

Eu fiquei batendo meus indicadores um contra o outro enquanto assistia a turma do curso de música formar uma roda mais ao longe, tocando alegremente e fazendo algumas pessoas dançarem. Eu era apaixonado pelo teatro, mas o meu não envolvia muitas falas e sim dança. Então não pude impedir meu corpo de se agitar com a melodia.

Ouvi Catarina rir e sorri de lado.

— Uau! — Eu resmunguei. — Você é mesmo muito intrometida.

— Sou sua melhor amiga desde que éramos crianças — ela disse com uma voz risonha. Catarina era filha da antiga empregada da minha casa de infância; era uma mulher gentil e amável que havia morrido muito cedo. — Sabe que pode me contar tudo.

— E esse “tudo” inclui minha vida sexual? — Dei risada dos barulhos insatisfeitos que ela soltou.

Senti Catarina balançar a cabeça e puxar os meus fios de cabelo.

— Eu te conheço e sei que não faz sexo porque gosta, mas porque acha que precisa — disse Catarina para mim e ela estava certa, mas eu não ia dizer isso. — Na verdade, tenho certeza de que o prazer sexual nunca realmente foi sentido por você.

— Imasu é muito bom com a boca, obrigado.

— Não estou falando de gozar, Magnus. Estou falando sobre química, o verdadeiro prazer em se estar com alguém, em sentir alguém. Uma ereção, gemidos e um orgasmo nem se comparam a essa sensação.

— Você já sentiu? — Perguntei, ainda prestando atenção na alegria em volta. Por mais que estivesse tentando reconstruir minha vida, trilhar um caminho, ainda era difícil não me lembrar do inferno que tive que aguentar. Não havia um suporte para mim além de Catarina e quando ela não estava por perto, a morte parecia uma alternativa melhor. Infelizmente, fui pego antes de minha tentativa de suicídio dar certo. Uri nunca tinha me estuprado com tanto força quanto naquele dia.

Eu fechei os olhos, reprimindo as lágrimas. Meu coração rasgou mais um pouquinho, no entanto não deixei que Catarina percebesse.

— Química? Sim, claro. — Catarina me respondeu. — Mas química e amor são diferentes. Quando temos um caso, ela é o que move, entende? Continuamos com a pessoa pela forma como nos sentimentos com ela, seja na cama ou não. Mas quando se ama, bom, não é muito fácil de entender.

— Você pode amar alguém e não ter química com ela?

— Claro. — Ela assentiu. — Amar alguém não significa sentir desejo sexual por ela, ser saciado ou ter uma química incrível. São aspectos diferentes, características diferentes. Por isso, quando alguém se apaixona por uma pessoa e tem todo esse emaranhado de emoções por ela, pode se considerar sortuda. Não é tão simples de achar.

— Então apesar de ter tido química com alguém, não se apaixonou? — Eu virei o rosto para encará-la. Não era muito bom naqueles assuntos, embora sexo para mim não fosse algo irreconhecível. De todos os jeitos, infelizmente. — Frustrante.

— Na época não foi, não estava pronta para um relacionamento. — Catarina se curvou e beijou minha testa. — Assim como não estou agora. Mas quando estiver, espero ter ambas as coisas.

— Eu não acredito em uma realidade melhor para mim do que um namorado viciado em sexo e disposto a apagar as marcas que Uri deixou no meu corpo. Não sei nem se posso chamá-lo de namorado... Imasu é tão inconstante.

— Tem certeza de que é ele? — Catarina riu, apoiando as mãos sobre minha barriga e entrelaçando nossos dedos. — Você é quem foge de relacionamentos, Magnus. Seja qual for. Imasu é apaixonado por você, todo mundo sabe disso.

— Não quero magoá-lo... — Franzi o cenho. — Mas não sou capaz de dar o que ele quer e o que precisa. Eu não sou completo. Namorar alguém que não é virgem é fichinha, quem é virgem hoje em dia, afinal? — Balancei a cabeça, apertando meus dedos nos dela. — Mas ter um relacionamento com alguém que foi estuprado? Violado de maneiras doentias, tanto morais quanto físicas? Não, nem todo mundo aguenta isso.

— Você nem contou para ele.

— Não preciso. Não vai durar, você sabe. 

— Você não quer que dure porque tem medo — senti Catarina se curvando para deixar mais um beijo em minha testa, no exato momento em que lágrimas contidas borraram meu lápis na linha d’água. — Nem todo mundo vai te machucar, Magnus.

— Eu não sei disso — disse em resposta. — Depois de ter minha família, meu sangue, fazendo aquelas coisas comigo e deixando que Uri abusasse do meu corpo, da minha alma... Eu não sei de mais nada.

Senti minha melhor amiga me abraçar apertado e a ouvi chorar.

— Eu sinto muito por nunca ter tido coragem... Por nunca ter encontrado uma forma de te ajudar.

— Você não podia, ele te ameaçava e me ameaçava. Você estava com medo, Cat — eu disse. — Não é culpa sua.

— Eu sinto muito. — Ela repetiu aquilo algumas vezes, mas a única coisa que eu fiz foi chorar em silêncio junto a ela. Agradecia por ninguém ser capaz de nos ver aquela distância, mas me martirizava por ter deixado que aquilo me atingisse mais uma vez. Uri não merecia minha dor, ele não merecia se deliciar com o meu sofrimento. Eu não podia dar isso a ele.

Então quando as lembranças chegaram, os toques nojentos e os gemidos satisfeitos, senti vontade de me jogar nos braços do primeiro que aparecesse. Desde que chegara a Nova York, me viciei no êxtase de ser livrado daquelas sensações usando outras pessoas. Eu não dava esperanças, mas via um rosto e um corpo e o usava para meus próprios fins. Meu namoro com Imasu garantia que eu não fizesse besteira — principalmente com a onda da doença se espelhando — e que não fosse assassinado nas ruas por causa do povo conservador que acredita que pessoas como eu são doentes. Mas, às vezes, eu parecia sentir necessidade de algo a mais. Qualquer coisa que levasse a dor embora, mesmo que ela fosse voltar depois.

Minutos mais tarde, Catarina e eu estávamos recuperados. Éramos bons em cair no desespero e nos recuperar rapidamente. Era uma fachada reerguida sem esforço agora, mas que precisou de muito material para ser construída. 

— Acabou o intervalo.

Olhei para o relógio no meu pulso e suspirei. Não tinha mais aulas agora, o que significava que tinha que ir até a diretoria.

— Tenho que ir — me levantei, limpado a grama da calça.

— Se ferrou com o atraso, não é? — Catarina estava com os olhos vermelhos, mas não havia indícios de que havia chorado. E eu esperava que em mim fosse o mesmo.

— Talvez — sorri, dando de ombros. — A boa notícia é que por causa de uma maravilhosa noite na cama de Imasu, vou ter algum tempinho tirando o Sr. Lightwood do sério.

Catarina riu.

— Por que cismou com ele? 

— Não é nada — dei de ombros. — Só quero ver o quanto ele aguenta até mandar tudo se foder.

— Você quis dizer "o quanto ele aguenta até me foder", não é? — Catarina caminhou ao meu lado, e logo estávamos no corredor das salas. 

— Não seria uma má ideia — dou risada. — Ele com certeza seria o melhor homem com quem já transei. Mas não vai acontecer por alguns motivos: ele é hétero, casado... E eu não gosto dele.

— Desde quando você precisa gostar do cara para querer dar para ele? — Catarina perguntou, e ela tinha um carta ali. Era verdade. — Além do mais, você não sabe se ele é hétero, Magnus.

— Que eu saiba casamentos homoafetivos são proibidos — eu disse a ela com a voz mansa, embora o sentimento de desigualdade estivesse presente. — E ele tem um pneu no dedo anelar.

— Isso não significa nada. — Catarina afirmou ao pararmos diante da sala do diretor; a última porta em um corredor cheio de pessoas. — Vai logo. A gente se vê mais tarde.

— Até mais.

Assisti enquanto ela se afastava e, logo depois, coloquei a mão na maçaneta e com a outra bati na madeira branca. Uma voz rouca e grave soou lá de dentro, ordenando que eu entrasse. Eu o fiz, fechando a porta atrás de mim quando passei por ela. Alexander estava sentado atrás de sua mesa enorme e marrom; os cotovelos estavam apoiados sobre ela e os cabelos — pela primeira vez — pareciam desordenados. A camisa social escura estava erguida pelos antebraços, marcando os músculos perto dos ombros. Ele não olhou para mim num primeiro momento, mas assim que fiz um barulho com a garganta, ergueu o rosto e me encarou.

Ele ficava muito bem com aqueles óculos pendendo no nariz.

— Senhor Bane — ele disse, como uma saudação. Não consegui identificar a emoção por trás da voz dele ao me ver.

— Estou aqui — sorri de lado. — Falamos sobre um castigo, não é?

Alexander se remexeu em sua cadeira, deixando de encarar os papéis em cima da mesa. Após tanto anos preso a Indonésia e a minha família, era quase impossível acreditar que em 1985, em um outono norte-americano incerto, eu conheceria alguém tão difícil de se decifrar quanto eu mesmo. Era irritante, mas ao mesmo tempo se parecia com uma diversão da qual eu deveria tirar proveito. 

— Sim, claro. — Ele fingiu uma tosse, aumentando meu sorriso. — Uma advertência sobre sua falta de compromisso com as aulas.

— Eu nunca fiz nada parecido antes — eu disse. — Pode encontrar muitas coisas no meu histórico de poucos meses aqui, mas nada que interfira nos meus estudos.

Apontando para a cadeira diante dele, vociferou com olhos para que eu me sentasse. Eu fiz isso, revirando os olhos e cruzando as pernas. Agora se ele estava encarando minhas coxas, a culpa já não era minha — sorri malicioso.

— Jace me falou muito bem de você — disse ele. — Assim como Clary e outros professores.

— Eu não sou um aluno ruim.

— Mas é difícil — ele rebateu, o rosto frio. — E, como eu disse antes, não sou o meu pai. Não vou ser suave com você.

— Não precisa — pisquei para ele —, eu gosto com força.

— Sr. Bane! — Ele rugiu.

— Não estou mentindo — troquei minhas pernas de lugar, me curvando para frente. A blusa larga possuía um decote grande que valorizava o meu peitoral moreno, este que também servia de apoio para os meus colares. — Você não faz ideia do que sou capaz de aguentar, Sr. Lightwood.

Tantos sentidos para uma única frase. Eu mesmo engoli em seco ao perceber as inúmeras verdades por trás quando ela deixou de ser apenas um divertimento sexual. Alexander franziu o cenho e apertou as mãos uma contra a outra. Ele me olhava intensamente, o aquamarine de seus olhos me deixando zonzo.

— Você vai poder ficar acordado até depois do horário de recolher — ele me ignorou —, mas apenas para me ajudar com algumas papeladas de um julgamento em aberto.

— Espera — eu franzi o nariz. — É sério? Vou te ajudar a organizar papéis como castigo?

Quando eu apoiei os braços sobre a mesa, senti Alexander ficar tenso. Mordi meu lábio inferior, sabendo exatamente como o batom dava mais volumes e a eles fazia os homens desejarem saber qual era o gosto.

Ele não sorriu, mas houve um tremor em seu maxilar e eu tenho certeza de que ele estava se divertindo com alguma piada interna.

— Não faz ideia de como ser juiz é cansativo, não é? — Ele apontou com os olhos para oito pilhas enormes sobre o sofá do outro lado do escritório.

— Isso tudo é de um único caso? — Meus lábios estavam escancarados. Eu não sairia vivo daquilo.

— Um caso que foi arquivado e desarquivado muitas vezes — ele suspirou, retirando óculos e massageando a cabeça. Depois os colocou de volta e voltou a mexer no que via antes de eu entrar. — Um dos mais difíceis da minha carreira.

— E você tem certeza de que quer a minha ajuda? — Eu suspirei, apoiando o rosto nas mãos. — Eu sou excelente na cama, mas péssimo em organização. Só vou ferrar com o seu trabalho.

Eu estava ouvindo, mas quando fechei os olhos me recordei dos sentimentos escancarados ao conversar com Catarina mais cedo. Do meu desejo insano de esquecer, tudo voltou com força. Então, quando ergui o rosto, sorri daquela maneira que eu odiava — aquele jeito perverso de se querer alguma coisa — e me levantei. Alexander parecia distraído com o que estava fazendo, mas eu pude ver que ele sentiu o meu cheiro e minha aproximação; teve tanto impacto sobre ele que seu corpo paralisou. Meus dedos passaram por seus ombros e eu inalei tudo o que ele que vinha dele; o cheiro era enlouquecedor e a pele sob meu toque — mesmo coberta — era fria. Arrepiou meu corpo e me fez sorrir mais, principalmente quando virei a cadeira lentamente e me sentei sobre o colo dele.

Eu me inclinei para analisar a expressão dele, e para entender o porquê não me afastava. Não era incomum da minha parte agir daquela forma, mas não acontecia quando eu estava sóbrio — não com frequência. No entanto, me arriscar a esse tipo de tentativa sem saber para onde estava seguindo era novidade. Ele poderia ser homofóbico e eu tinha quase certeza de que era casado; tantos pontos, mas nenhum forte o suficiente para que eu me afastasse dele.

Mesmo que eu quisesse preencher lacunas, curar o passado e apagar as marcar de Uri em mim, não pude deixar de impedir que um lampejar de desejo brilhasse em meus olhos. E fiquei surpreso ao constatar um nos olhos de Alec. Eu deslizei minhas mãos dos ombros ao pescoço e, tomado por inúmeros sentimentos, deslizei meus lábios pela garganta.

Um pequeno gemido escapou de mim mesmo quando ele reagiu; não da forma como eu pensei, mas apoiando as mãos em minha cintura e me dando mais acesso a ele. Ali também era frio, mas também macio. O gosto era indecifrável, mas delicioso. O cheiro era mais forte e os fios de cabelo em meus dedos pareciam firmes para serem puxados. A conexão entre nossos corpos me fez erguer o corpo e descê-lo, roçando tudo de mim em tudo dele. Uma fumaça parecia ter tomado posse da minha mente enquanto eu marcava a pele pálida do Sr. Lightwood sem me conter. Prendi meus dentes e puxei, passando a língua logo depois. Aquilo me deu um ofego e a pequena resposta me fez ir ainda mais forte, tanto com meus quadris quanto com a minha boca.

Alec suspirou como se fosse um homem à beira da morte implorando por um último ofegar. Eu me sentia da mesma forma.

Fiz uma trilha de beijos até o maxilar dele, sentindo suas mãos ganharem força em minha cintura; Alec estava me ajudando nos movimentos e eu sorri contra sua pele. Não sabia o que estávamos fazendo e não retirava a ideia de que não gostava dele da cabeça; Mas como Catarina falara antes, tudo com desejo era diferente. Com química. E entre nós algo parecia preste a explodir.

Mordisquei seu queixo, respirando pesadamente. Ele mal me tocara, mas foi o suficiente para sentir meu baixo ventre ranger. Além de que, abaixo de mim, algo endurecia cada vez mais rápido.

— Sr. Lightwood, eu quero você — eu murmurei muito perto de sua boca, mas sem beijá-lo. Meu peito subiu e desceu em algo que não conseguia decifrar, estava tremendo e minha pele parecia arder. Eu estava ardendo por ele. Para ele. — Por favor.


Notas Finais


Sobre a conversa do Magnus com a Catarina... Quantas pessoas que passaram por coisas semelhantes a ele não se sentem assim? Como se não servissem pra ter um relacionamento, seja ele qual for... Para trabalhar, para ter uma vida social... Quantas pessoas com um passado assim não conseguem superar, ainda têm medo? Estupro é uma palavra forte por si só; mas não se trata apenas do ato de violar alguém fisicamente quando esta pessoa, claramente, não quer. Não é apenas conotação sexual. É tudo o que envolve, é o que faz com a cabeça de alguém, com a auto estima, com a sua vida... Não é justo, não é? O criminoso pode ser preso, mas a vítima sofreu um trauma que pode nunca superar. E, meu deus, saber que coisas assim existem é tão doloroso. Tão doloroso.

E por isso que quero que entendam as atitudes do Magnus, como os sentimentos deles são confusos... Já vi muitas pessoas como ele sendo chamadas de fracas; mas que pessoa fraca passaria por tudo isso e ainda tentaria se reerguer? Eu digo por mim: não conseguiria. Magnus é um guerreiro, assim como todos que sofrem com esse tipo de impacto.

Então, gente, essa história, como eu disse antes, é sobre superação, preconceitos, dor, sofrimento... Mas principalmente é sobre o crescimento de alguém, sobre como cada um lida com seus problemas. É sobre amor. O amor que pode ser o gás que você precisa para aguentar. Quem não precisa de amor, não é?

Assim como o Alec precisa, por todos os problemas com a família e suas dores. Max também precisa, para aguentar o fato de ser diferente dos garotos da sua idade e não poder fazer o que eles fazem. Por Izzy e seu emocional forte aos quinzes anos para cuidar do pai, do irmão caçula (e por mais que ele negue) e do irmão mais velhos. Ainda tentando superar a morte da mãe e não deixar de ser uma adolescente... As pessoas morrendo com HIV, em protestos contra a homofobia; crimes de ódio. Jace e sua história (que vão saber sobre em breve). Todos eles precisam de amor. Eu preciso e vocês precisam. Então, um brinde a isso e lembrem-se: haverá amor, não importa à quem.

Um grande beijo pra todas as pessoas desse mundo. Para as que perderam, para as que superaram, para quem sofre e quem sofreu. Pra você aí e pra sua família; pros seus amigos, pros seus ídolos. Um grande beijo para qualquer um capaz de sentir amor.

Espero que tenham gostado do capítulo. Muito obrigada por todo o apoio e carinho, é muito importante pra mim ♥

Amo vocês.

XOXO


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