História Blue (Malec) - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias Shadowhunters
Tags Clace, Deficiencia, Homofobia, Machismo, Malec, Morte, Racismo, Sizzy
Visualizações 380
Palavras 4.384
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Drogas, Estupro, Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Pansexualidade, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Transsexualidade, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Compensando o século que pulei sem postar... rs rs

Músicas do capítulo:

— I Wanna Dance With Somebody, Whitney Houston
— Boyz II Men, End Of the Road (uma das minhas músicas preferidas de todos os tempos ♥)
— One Sweet Day, Mariah Carey feat. Boyz II Men
— Un-Break My Heart, Toni Braxton (uma das músicas mais lindas do mundo pra mim, e que me faz chorar litros sempre que escuto ♥)
— Hero, Mariah Carey
— No Scrubs, TLC (aquela música legalzinha e vergonhosa que eu escuto mesmo e taco o foda-se)

Enjoy it.

Capítulo 4 - Chatreuse


Fanfic / Fanfiction Blue (Malec) - Capítulo 4 - Chatreuse

4

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Like a chest of hidden gold

Shimmers in the depths below

We are, we are, the treasures that

They hide

Like the sun that saves the night

Bursting through a darkened sky

We are, we are, soldiers of the light

— Ella Henderson, "̶G̶l̶o̶w̶ "

 

αłєc​

A pele de Magnus é quente e aconchegante, sua boca é macia e úmida e deslizava pelo meu pescoço como se estivesse faminta. Suspirei. Minhas mãos pareciam ter vida própria; meus dedos apertavam sua cintura, incitando-o a ir mais forte com os movimentos de seus quadris. O aperto no meu estômago não era sentido há muito tempo e meu corpo nunca correspondera a ninguém daquela forma. Mas foi quando ele me olhou nos olhos e disse que me queria... foi nesse segundo que meu coração tilintou no meu peito e eu tive a sensação de que não estava respirando. Seu cheiro estava me embriagando e tirando meus sentidos. 

— Não. — Digo, por fim.

Um breve momento de lucidez tomou conta de mim, mas não durou muito quando Magnus pressionou-se para baixo, sentindo minha ereção contra sua calça colada.

— Não? — Ele debochou com um sorriso zombateiro surgindo em seus lábios pequenos. Sua respiração cruzou com a minha e eu senti que estava ofegando; o controle que lutava para ter todos os dias partia em segundos quando ele se aproximava. — Seu corpo está dizendo outra coisa.

Não estava preparado para o que estava acontecendo. E não saber exatamente o próximo passo de alguém sempre me deixava nervoso. O fato de Magnus ser imprevisível, difícil de lidar e nunca se importar com o que eu falo, me tirava do sério. Eu estava correspondendo às expectativas de Isabelle ao me comprometer com o Instituto, mesmo que o meu trabalho fosse complicado por si só. Estava lutando por uma coisa que odiava — aquelas risadas, sons, músicas e felicidade me enojava —, lutando por uma família que não parecia mais pertencer a mim. E Magnus não tinha o direito de brincar comigo como se eu fosse mais um de seus namoricos adolescentes. 

— Você conhece limites? — Minha voz soou alta e dura, Magnus franziu as sobrancelhas e se afastou do meu rosto. Encolheu-se como se estivesse acuado; e seus olhos... Seus olhos se encheram de lágrimas no momento em que ele se levantou e virou-se de costas para mim. Apoiou uma mão na mesa e eu ouvi — embora ache que ele não quisesse — que ele tentava controlar os soluços. 

Magnus estava em silêncio por dois minutos inteiros e eu estava, ainda, sentado com um incômodo doloroso entre as pernas. Quando olhou para mim, finalmente, algo parecia ter se partido. Eu nunca o havia visto — nesses cinco dias em que o conhecia — tão frágil. Sua independência e beleza radiante era o que atraía os curiosos; a forma como ele dançava e sorria, acenando para as pessoas e esbanjando um brilho que eu nunca tinha encontrado antes... Nada daquela dor em sua expressão, nada daquele desgosto pelo meu grito, nada nele naquele momento se parecia com o jovem de 18 anos apaixonado pela vida. 

— Eu... Eu sinto muito, Sr. Lightwood — ele me disse com a voz baixinha. Engoliu em seco e enrolou os dedos uns nos outros. — Não deveria ter feito isso.

Eu estava estático na cadeira, olhando-o para tentar entendê-lo. Seus olhos não encontravam os meus e a confiança trajada como uma segunda pele — mais chamativa que suas roupas — não estava aparente. Parecia que havia sido desligada, deixada de lado por um tempo. E eu me perguntei: qual das duas carcaças é a verdadeira? A insegura e quebrada ou a brilhante e impulsiva? Eu não sabia a resposta, mas podia afirmar que ambas eram lindas. Lindas de sua própria maneira. 

— No que estava pensando? — recuperei-me após um breve milésimo de segundo. Minha voz não estava mais alta; não usaria mais esse tom com ele, principalmente por ter percebido a forma como o havia atingido. — Isso é completamente antiético!

Ele se afastou, caminhando até que a mesa nos separasse. Meu coração ainda estava acelerado e minha mente nublada. Mas eu precisava me recuperar. Sentia-me como um traidor por ter deixado chegar àquele ponto. Um cafajeste. Eu não deixaria que Magnus me obrigasse — com seus encantos e sua teimosia — a trair meu amor por Trix. Ela é meu coração; a mulher por quem eu larguei tudo e perdi tudo.

E nem mesmo Magnus seria capaz de mudar isso.

— Eu... Eu sei! — Magnus pressionou as pálpebras, fechando os olhos, com uma força que me atingiu. Sua voz saiu tremida e ele balançou a cabeça; estava ficando pálido e seu corpo estava a ponto de ceder. — Eu...

Ele não terminou de dizer porque saiu correndo. Eu estava de pé, chamando seu nome, mas ele estava longe. A porta estava escancarada e eu não era capaz de entender o que havia acabado de acontecer. Sentei-me novamente, passando o polegar pelas rugas de estresse que se formaram entre as minhas sobrancelhas e bufando audivelmente.

— Porra!

Meu punho cerrado atingiu a mesa e eu joguei a cabeça para trás, irritado. As coisas naquele lugar estavam se tornando mais complicadas do que eu achava que seriam. 

☵​

Algumas pessoas passam pela vida em um arco-íris infinito, cheio de caminhos iluminados e lembranças inesquecíveis. Histórias bonitas e engraçadas que serão um conto encantado para o futuro.

Aparentemente, eu não era uma delas.

Havia feito o que sempre fazia às quatro da tarde e retornado, torcendo para que ninguém tivesse me visto sair. Ao colocar as mãos nos bolsos e virar à esquerda no primeiro corredor assim que se entra no Instituto, meu corpo trombou com o de Clary que vestida em um macacão cinza e blusa branca de mangas; cabelos presos por um pincel de maneira desordenada e as mãos sujas de tinta — até mesmo um pouco do rosto —, carregava duas telas sob um dos braços e parecia apressada.

— Ai que droga! — Clary se embaralhou para pegar as coisas do chão e eu, franzindo os lábios, me abaixei para ajudá-la. — Droga, droga... Estou atrasada... Muito atrasada!

Pelo tempo que passei afastado, havia esquecido da forma como Clary era uma figura diferente das que se encontrava por aí. Seu jeito estabanado, tagarela e “estranho” tinham sido os fatores culpados por Jace ter se apaixonado por ela. Por que investir em uma menina que não o colocava em um pedestal como qualquer outra? Era exatamente a própria resposta. Clary era diferente; e por Jace aceitá-la como ela era e vice-versa, eram perfeitos um para o outro. 

— Ainda fala sozinha? — Minha voz chamou sua atenção e ela me olhou, então. Clary precisou ajeitar os óculos de grau — que estavam tortos — para me enxergar completamente.

— Alec! — gritou animada, chamando a atenção das pessoas ao redor. Ela fez menção de me abraçar, mas retesou no lugar. Não sabia se era porque ela se recordava do fato de que a única pessoa que chegar tão perto era Trix — senti uma dor em meu estômago ao me lembrar dela, ao me lembrar do que quase fiz ao deixar que Magnus me seduzisse — ou se porque percebeu que estava suja de tinta. — Nossa... Você assumiu no lugar dos seus pais há dias e eu ainda não o tinha visto!

— Estive ocupado. — Eu respondi, virando as folhas que a ajudei a recolher e vendo que eram desenhos. Um em especial me chamou a atenção, um assinado por Magnus Bane. — Alunos da sua classe?

— Alunos da terapia — ela me respondeu com seu mesmo sorriso de sempre, estendendo a mão para pegar os desenhos.

— Terapia? — meu rosto, provavelmente, estava bastante cômico porque Clary deu uma risadinha discreta.

— Sua mãe implantou isso um pouco antes de... — Ela não terminou de falar, mas, mesmo assim, não demonstrei nada para impedi-la de dar a entender o que queria. Fazia cinco dias, eu estava bem. — Enfim, alguns alunos precisam de atenção redobrada. As aulas de pintura e desenho os ajuda a expressar o que estão sentindo... do que têm medo.

Medo? Magnus tinha medo de um... homem? Balancei a cabeça tentando tirá-lo da minha mente. Eu não deveria pensar nele, não após a tarde que tive. Havia acabado de me redimir, de pedir desculpas. Eu sou fiel à minha esposa. Mexi com o indicador na aliança em meu anelar e respirei fundo, voltando a olhar para Clary quando ela chamou minha atenção.

— Eu tenho que ir — disse apressada, passando por mim e caminhando de costas pelo corredor. — Apareça para jantar hoje, como nos velhos tempos.

Eu pensei seriamente em negar, mas não daria essa desfeita a Jace e sua esposa quando os havia afasto por tanto tempo. Por isso acenei afirmativamente para Clary e voltei a andar até minha sala.

Quando cheguei à porta e coloquei a mão na maçaneta, olhei para o lado e meu rosto virou mármore. Magnus estava a poucos metros de distância, em um lugar vazio e discreto — tirando que de onde eu estava conseguia ver tudo —, sendo pressionado contra a parede enquanto era beijado por um rapaz alto e moreno. Ele estava com os lábios entreabertos, a boca do garoto em seu pescoço e as unhas arranhando as costas dele.

Eu fiquei parado e não me movi; eu não sabia porque não estava me movendo. Assim, nos minutos em que fiquei ali, vi Magnus abrir os olhos e seu olhar encontrou-se com o meu. Ele me encarou com as íris enevoadas, os lábios gemendo um nome que não era o meu. Não era como horas antes; não era mais um pedaço de vidro quebrado, era apenas um adolescente sem escrúpulos, condicionado por suas escolhas impensadas. E pensar que em uma época não tão distante eu havia sido parecido, havia tomado iniciativas parecidas, me fez virar as costas e entrar no escritório, ignorando-o completamente e deixando que a máscara de diretor tirasse um descanso.

☵​ 

Às sete da noite, com a escuridão sendo abraçada no lado de fora, coloquei de volta minha gravata e o casaco do meu terno. Cocei os olhos após retirar os óculos e os guardei na gaveta da mesa. Apaguei as luzes, deixando apenas a da luminária acesa e caminhei até a porta. Abri-a e passei por ela, travando-a logo depois. Não estava com os pensamentos em ordem para os documentos do caso agora, e muito menos para passar a noite organizando-os com Magnus.

Não demorei a entrar em meu carro e dirigir até o apartamento de Clary e Jace no Brooklyn. Eu não entendia a moda daquela década e por isso meu rosto se tornava cada vez mais franzido à medida que avançava no caminho; mulheres com o “cabelo poodle” saíam e entravam de lanchonetes, riam e embarcavam em conversíveis com a capota abaixada, cantando alto e erguendo as mãos para o alto. As roupas de cores vibrantes e tons flúor — Isabelle adorava e falava a todo momento —; jaquetas enormes, polainas, coletes... A diversidade era enorme de um bairro para o outro e, por um momento, senti-me fora da realidade. Quando vi uma mulher com inúmeros colares no pescoço, com muitas pulseiras e um cabelo de cor e penteado como o de Cindy Lauper, decidi que pararia de encarar.

Ao estacionar o carro em frente ao prédio pequeno de cinco andares, fui capaz de ver Jace parado ao lado do portãozinho de ferro. Ele acenou para mim e eu assenti, descendo do veículo e travando-o. Jace parecia muito mais simples do que a população nova-iorquina que encontrei no caminho, vestindo apenas calças jeans e uma camiseta azul.

— Pensei que não viria — disse ele ao que eu me aproximei e começamos a subir os degraus da entrada. Jace morava no primeiro andar, se eu bem me lembrava. Clary sempre teve medo de altura. — Clary está ansiosa para cozinhar para você.

— Eu não faria isso com ela — eu respondi com sinceridade. 

— Fico feliz, então. — Jace sorriu, dando tapinhas singelos nas minhas costas.

Uma música suave soava no apartamento, o toca-discos em uma mesinha ao lado do sofá de couro marrom. Entrei de forma um pouco acanhada, não os visitava desde todos os acontecimentos com Trix. Aquilo havia me afastado, porque, para mim, era isso que minha esposa queria.

— Ela está na cozinha — eu conseguia ouvir risadas, o que me dizia que Clary não estava sozinha.

Franzi o cenho.

— Você não está armando nada, está? — Eu odiava quando as pessoas me diziam que eu devia seguir em frente, encontrar alguém e me apaixonar. Mas eu não queria, não conseguia... Trix é minha esposa e eu não deixaria que ninguém mudasse isso, não importa em que circunstâncias estamos agora.

— Ninguém aqui te chamou para um encontro às cegas, Alec — ele disse, erguendo as mãos em rendição. — Mas decidimos convidar mais uma pessoa, se não se importa.

Chegamos à fonte das risadas, a temperatura estava quente. Clary estava com os cabelos cacheados presos em cima da cabeça e vestia uma calça e camisa — diferente da maioria das mulheres, Clary gostava da simplicidade e comodidade — enquanto mexia em algo no fogão.

Magnus, pode pegar os tomates na geladeira para mim? — Meus olhos pareceram procurar pelo dono do nome mais rápido do que eu esperava.

Ele se levantou de onde estava abaixado — mexendo na gaveta de verduras e legumes da geladeira —, torcendo o nariz de maneira bonitinha ao caminhar até Clary. Eu não sabia se era intencional ou não, mas sempre que ele andava seus quadris se mexiam em uma ondulação perfeita, como se ele estivesse rebolando. A calça justa e vermelha — era de cintura alta e muito comum entre homens — marcava completamente as curvas que, pelo o que percebi, ele não gostava de ter, mas, ao mesmo tempo, tirava proveito para conseguir o que queria.

— O que vai fazer com eles? — Ele perguntou a ela. Ambos não pareciam ter visto a mim ou a Jace ainda.

— Molho caseiro para espaguete! — Clary comentou animada, agradecendo pelos tomates com um beijo materno no rosto de Magnus. Ele riu para ela, assentindo. Sua risada era melodiosa e divertida; ele deveria rir mais vezes.

— A especialidade dela. — Jace fez sua voz se tornar presente, assustando Clary que derramou molho chão e Magnus que, assim que se virou, me viu e fechou a expressão como se estivesse com vergonha. — Ei, cuidado, ruivinha.

Clary deu risada, lançando um olhar torto para Jace.

— Você não deveria chegar do nada!

— Nós estamos parados aqui há minutos, amor — Jace se aproximou, deixando um selinho nos lábios de Clary. Tanto eu quanto Magnus viramos o rosto; não gostava de ver a felicidade de um casal quando eu estava onde estava. Mas, em silêncio, me perguntei qual era o motivo do desconforto de Magnus.

— Ah, claro. — Clary sorriu para mim. — Fico muito feliz que tenha vindo, Alec.

Eu assenti, sem saber como agir. As lembranças do meu momento com Magnus na minha sala não saíam da minha cabeça, assim como o atrevimento dele de se agarrar — descobri ser com seu namorado, Imasu — daquele jeito em um lugar quase colado a diretoria. 

— Obrigado pelo convite — respondi.

Após o silêncio constrangedor que se seguiu, onde a tensão era possível ser cortada com uma faca, Jace e eu voltamos para a sala. Ele me disse que Magnus jantava com eles toda sexta-feira desde que começara a estudar no Instituto. E aquilo me deu apenas mais uma confirmação de que, de alguma forma, Jace e Clary se apegaram a Magnus quase como se ele fosse filho deles. Mesmo que fossem jovens demais para o sentido biológico, o emocional parecia ter encontrado uma forma de adotá-lo e transformá-lo em alguém da família. 

— Como está indo com o caso? — Jace me perguntou, oferecendo-me uma cerveja. Eu não neguei, mesmo sabendo que deveria. Meu histórico com bebidas não era dos melhores, mas ele não precisava saber o quão ruim poderia ser. — Ainda difícil?

— Apenas a parte da documentação já está me enlouquecendo. — Eu disse, levando a garrafa até a boca e dando um generoso gole. Meu interior reagiu positivamente, implorando por mais. — Tenho uma audiência no mês que vem, e quero tentar encerrar isso de uma vez por todas.

— É a sua decisão que prolonga ou dá fim a essas coisas, não é? — Jace esticou as pernas em cima da mesinha de centro, aproveitando que Clary estava ocupada demais para repreendê-lo.

— Basicamente, sim. — Respondi ao recostar as costas no sofá. — Alguns casos precisam de mais tempo, de mais audiências e mais testemunhas. Não posso tomar uma decisão sem averiguar tudo o que estiver ao meu alcance, a vida daquelas pessoas está nas minhas mãos quando se referem a mim como “vossa excelência”.

— É bom saber que encontrou algo com o que se importa o bastante — ele sorriu para mim, parecendo realmente orgulhoso. Por aquele momento, senti-me terrível por ter me distanciado do único melhor amigo que tive. — Como está Isabelle e Max?

Uma dor dilacerou meu coração, mas eu não me deixei abater.

— Isabelle não está falando comigo e Max não quer me ver — deitei a nuca no encosto do sofá e fechei os olhos. — Acho que eu sou um estorvo para o luto deles... Mas Nona me deixa ciente de tudo o que está havendo, se estão se alimentando e indo bem na escola. Robert não sai muito do quarto e por isso não toma conta dos filhos da maneira que deveria. 

— Você não é um estorvo, Alec — disse Jace. — Se importa com eles.

— É claro que sim — concordei. — Mas os rumos que tomei para a minha vida quebraram as pedrinhas do caminho que me levava a eles... E para reconstruir... Bom, eu não sei se sou capaz de reconstruir o que quer que seja.

Senti um tapinha reconfortante na minha perna e abri os olhos, encontrando as orbes douradas de Jace brilhando para mim.

— Você é capaz de qualquer coisa, irmão. — Ele disse. — É uma das pessoas mais fortes que eu conheço.

Eu não disse nada, apenas assenti. Clary nos chamou para jantar vinte minutos depois e quando ela foi até a sala, Jace retirou os pés rapidamente de cima da mesa. Ela franziu o rosto para ele, como se soubesse o que ele estava fazendo. Ele sorriu acanhado para ela, se movendo rapidamente para a cozinha e eu o segui. Magnus estava terminando de arrumar a mesa e parecia cantarolar baixinho; seu pescoço, na base perto do ombro, estava marcado por feridas roxas recentes. Marcas de mordidas que eu sabia muito bem de onde tinham vindo. 

— O cheiro está delicioso — ouvi Jace dizer ao se sentar.

— Magnus me ajudou — disse Clary. — Ele é excelente na cozinha.

Magnus ficou com as bochechas vermelhas, sentando-se um pouco tímido.

— Eu meio que fui obrigado a aprender — sua voz estava triste, suplicante e Clary percebeu o sentimento escuro que o tomou, mudando completamente de assunto. Magnus pareceu respirar aliviado quando apoiou os pulsos na mesa e olhou para mim.

Nós comemos entre conversas e risadas; Jace e Clary conversavam e davam risada, para ser mais exato. Eu comia em silêncio e Magnus também. Havia um véu escuro sobre nós, de alguma forma sufocava. Ficar no mesmo lugar que ele me tirava dos eixos e embaralhava tudo aquilo que eu havia lutado tanto para arrumar. Por isso, não me atrevi a encará-lo mais nenhuma vez, não daria motivos para o meu coração voltar a ficar agitado.

Após a refeição, Clary me enxotou para cuidar da louça na cozinha enquanto preparava alguns vinis para que escutássemos bebendo vinho. Arregacei as mangas da minha camisa social e molhei a bucha na água, ensaboando primeiro os pratos. Estava em silêncio, vez ou outra olhando pela janela e encarando a noite cada vez mais ampla. Mas no meio do meu torpor, um cheiro doce e suave me envolveu como se estivesse tomando posse de mim. Eu sabia quem era e não precisava olhar; em quase sete dias meu corpo reagia a Magnus como um alucinado, um viciado sem moral.

Meus músculos retesaram quando seu braço roçou no meu, causando uma queimação explícita. Ele deixou alguns copos sobre a pia, afastando-se um pouco e pegando um pano. Começou a secar as coisas que eu já tinha lavado e não disse nada, ao menos olhou para mim. Eu não conseguia respirar, era capaz de sentir todos os meus órgãos trabalhando dobrado para que eu não acabasse morrendo. Porque isso que ele fazia comigo, eu sempre tinha a sensação de que estava em meus últimos minutos de vida e mesmo assim não me importaria em gastar todos com ele.

— Desculpe por ter saído correndo daquele jeito. — Magnus disse baixinho, parecendo ainda concentrado no que fazia.

Eu assenti uma vez, ensaboando mais um prato e enxaguando.

— Éramos para ter conversado sobre o que aconteceu — não era como se eu quisesse, mas sabia que era preciso. Magnus se mostrava cada vez mais misterioso cada vez que ficávamos mais próximos. — Esclarecer regras e limites.

— Eu sei que não deveria ter feito o que fiz — ele bufou e eu sabia, por algum motivo, que ele estava revirando os olhos. — E sinto muito, tá legal? Não vai se repetir.

— Foi por isso que estava quase fazendo sexo com seu namorado perto da minha sala? — Eu não me virei para ele ao perguntar e não alterei minha voz, embora ela estivesse mais grave. — Você parecia ter se recuperado rápido.

Eu vi pela minha visão periférica Magnus apoiar as mãos na pia e se virar para mim; a sombra rosa em seus olhos deixava seu rosto ainda mais belo, assim como o batom em seus lábios e sua expressão indecifrável.

— Eu estava tentando me redimir — disse ele. — Imasu gosta de mim, está comigo mesmo sabendo o quanto é difícil, e eu quase o trai ao... ao avançar daquele jeito em você. Além disso, você é casado, não é? — Ele apontou com a cabeça para a aliança no meu dedo. — Decidi pedir desculpas a ele, mesmo não tendo contado o motivo. Assim como pedi a você mais cedo.

— Por que não contou a ele? — Perguntei realmente curioso.

Magnus voltou a secar a louça, dando de ombros.

— Eu não quero estragar meu relacionamento por algo que não significou nada — ele disse. — Algo que nem mesmo chegou tão longe. Não quero ser ruim para Imasu, não quando ele é bom para mim. — Magnus deu uma pausa e após um suspiro dolorido voltou a falar: — Não estou acostumado a ser amado e não quero acabar com isso.

Eu larguei a bucha dentro da pia e lavei as mãos, virando-me para Magnus. Ele pareceu surpreso pela mudança súbita e saltou minimamente para trás. Seus olhos pareciam ainda mais bonitos quando vistos de perto assim; eu precisei respirar profundamente para apagar a imagem de seu corpo contra o meu e sua boca me tentando a cometer pecados cruéis, que feririam minha esposa e me fariam sentir culpa depois.

— Você está apaixonado por ele?

Era uma pergunta simples, ao meu ver, mas deixou Magnus estático. Ele ficou segurando o pano entre os dedos e a respiração pareceu se perder. Precisou escapar do meu olhar para se recuperar, encarando a noite através da janela. Uma música alta e alegre vinha da sala, misturando-se com as conversas e risadas de Clary e Jace. A cozinha era distante e eles não iriam até nós naquele momento, por isso não me importei em continuar próximo de Magnus esperando uma resposta.

— Apaixonado? — Magnus parecia confuso. — Eu gosto do que ele faz comigo... Como me ajuda com a minha necessidade...

— Isso não é uma resposta concreta — disse. — Você não sabe se está apaixonado por ele, é isso?

Magnus me ignorou, ganhando uma onda de confiança de repente. Ele se tornou o garoto que me comeu com os olhos ao me conhecer e me dominou com suas provocações e com sua boca esperta.

Você já se apaixonou? — Ele rebateu minha pergunta anterior, um sorriso divertido nos lábios.

Eu não queria pensar sobre Trix ali, não com ele. Não queria que ela invadisse minha mente com a culpa e o temor em minhas veias. Não queria precisar me afastar de Magnus naquele momento por causa dela.

— Sim. — Eu disse. — Minha esposa morreu.

Não, eu não estava tão tranquilo quanto pareceu. Na verdade, o assunto me deixava com as sensações ruins, mas o álcool no meu organismo e o fato de ser Magnus — simplesmente Magnus — fez a sentença não se tornar tão pesada, por mais que a revelação fosse grande.

— Minha nossa... — Magnus estava com os olhos arregalados. — Eu... Você ainda usa a aliança.

— Não tenho porque tirá-la — eu dei de ombros.

— Entendi. — Ele assentiu. — Eu sabia que tinha alguém, mas não pensei que...

— E mesmo sabendo disso fez o que fez? — Eu perguntei, erguendo uma sobrancelha.

— Eu... Não estava em mim mesmo — ele disse, acanhado. — Já pedi desculpas por isso.

Não sabia o que havia acontecido mas, de repente, eu estava contra o corpo de Magnus, ele com as mãos apoiadas no meu peito e eu com as minhas ao redor de seu rosto. Ele ergueu os olhos para me olhar, a respiração descompassada. A energia que nos envolveu mais cedo no meu escritório apertou-nos em seu cinto. Eu decidi não decidir nada; não pensar em nada, não quando eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, acabaria cedendo ao magnetismo que me puxava para ele. Nada do que havia afirmado para mim naquele dia fazia sentido no momento; não existia Trix, não existia culpa ou amor por outro alguém, tudo o que existia era Magnus, era nós dois.

— Alexander... — Magnus chamou com a voz baixa, quase menos que um sussurro.

Eu pressionei as pálpebras, engolindo o nó em minha garganta. O cheiro dele, que me perseguiu com as lembranças, era mais uma prova de que eu estava perdido. De que, mesmo com o preconceito do lado de fora, mesmo com os riscos, mesmo com tudo, eu ainda o queria. Eu não conseguia não querer.

— Me deixe pressionar você contra a parede com os lábios partidos, nossas respirações aceleradas — eu disse quase tão baixo quanto ele; à medida que me ouvia, Magnus começava a ofegar com mais força. — Me deixe beijar você... E provar a mim mesmo que é possível eu ter tudo o que sempre quis da vida.

E com a queimação no peito e a pele pinicando com o contato entre nós, eu o beijei. E nada do que eu tenha feito antes pareceu tão certo quanto aquilo.


Notas Finais


Me perdoem pelos errinhos que sempre escapam!

A imagem está meio ruim, mas a calça do Magnus é como essa vermelho meio rosa que o cara tá usando: http://www.eufacoafesta.com.br/wp-content/uploads/2015/06/18.01.2013_12.57.27.bcsportbikes_com.jpg

Espero mesmo que tenham gostado... Obrigada por tudo :) ♥

Até loguinho.

XOXO


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