História Bolo de cenoura - Capítulo 1


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Amizade, Bolo, Bolo De Cenoura, Drama, Escolar, Suícidio, Tragedia
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LIVRE PARA TODOS OS PÚBLICOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Escolar, Ficção
Avisos: Suicídio
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Fanfic / Fanfiction Bolo de cenoura - Capítulo 1 - Capítulo Único

A menina nova chegou meio de mansinho, sentando ao meu lado no primeiro dia de aula. Ela sorriu para mim, mas eu não fiz nada como resposta. Aquele sorriso meio que me pegou de surpresa, sabe? Por que alguém sorriria para mim daquela maneira sem nem me conhecer?

Ela tinha cabelos cacheados e era meio "cheinha", como insistiam em dizer as garotas da sala quando pensavam que ela não estaria escutando. Ela escutava, às vezes. 

Já a vi correndo pro banheiro diversas vezes, tentando segurar as lágrimas que eu sabia que iriam cair assim que ela se trancasse em algum dos boxes. Por que aquela garota havia sorrido para mim?

- Oi, seu nome é João, não é? - Ela perguntou, em um dia qualquer quando boa parte da sala já havia saído para o intervalo. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e eu me lembro de ter gostado do modo como os fios ondulados balançavam quando ela mexia a cabeça.

- Sim, o seu é Letícia, não é? - Eu perguntei de volta. Achei interessante o fato de ela ter tanta coragem para puxar assunto. Em geral o que sempre me afastava de outras garotas era a ideia de que meninos devem sempre dar o primeiro passo. Como se meninas não pudessem se mostrar interessadas também.

- Sim, muito prazer, João! - Falou ela me estendendo a mão para um aperto amigável. Suas mãos eram macias e frágeis, tive receio de machuca-la se apertasse com mais força que o devido. - Trouxe bolo de cenoura com chocolate, você quer?- Perguntou ela, me mostrando um recipiente de plástico verde contendo alguns pedaços do tal bolo. - Eu mesma quem fiz! - Disse ela, orgulhosa.

Um grupo de garotas entrou na sala naquele momento e todas começaram a rir da menina segurando a vasilha com o bolo. "Ela realmente vai comer aquilo? Meu Deus..." Comentou uma delas enquanto saíam de novo da sala para rir da garota sem serem vistas.

- Claro, bolo de cenoura é o meu favorito! - Eu respondi, satisfeito por não ter que comprar lanche naquele dia.

Letícia se tornou minha melhor amiga. Nos falávamos com frequência e começamos a trocar mensagens e ligar um para o outro quando não podíamos nos encontrar pessoalmente. Ela era a pessoa mais incrível que eu havia conhecido e cozinhava magnificamente bem. Principalmente quando se leva em consideração que ela tinha apenas onze anos.

As piadas nunca pararam. Ela era sempre alvo de alguma brincadeira diariamente, eu nunca soube como ela aguentou todos aqueles anos. Eu nunca percebi, naquela época, o quanto aquela garota era forte. Nunca notei o esforço que lhe custava sorrir sempre que me via, ou quanta força de vontade era necessária para que ela se levantasse todos os dias pela manhã e viesse à escola trazendo lanches para ambos em sua vasilha de plástico verde.
Eu poderia ter dado um valor maior a ela naqueles dias, poderia tê-la defendido, levantado minha bunda da cadeira e brigado por ela.

Eu poderia tê-la salvado.


"Gorda, baleia, saco de areia!"

Era o que cantaram quando ela subiu no palanque para pegar seu diploma de conclusão do ensino fundamental. Seus cabelos estavam presos em um elegante coque que lhe havia custado um boa quantia para ser feito, segundo ela havia me contado com animação alguns dias atrás. Estava vestida com sua cor favorita, num vestido azul brilhante que causava um bonito contraste com sua pele branca, translúcida. 

Aquela era pra ser sua noite. Seu pai iria nos levar para um rodízio de pizza após o evento e ela teria a chance de esquecer todo o sofrimento passado da quinta até a oitava série. Ao menos por um dia, ela se sentiria linda, especial, importante.
Importante de uma forma que eu nunca a disse que era.

Por que eu nunca disse o quanto ela significava pra mim? 

Por que?

Nada me impedia de ter dito, não encontro nenhuma desculpa que me absolva disso.

Letícia  se matou naquele dia. Tirou sua vida com seus próprios anti-depressivos, que eu nem sequer sabia que ela tomava na época. 

Aquela foi a última humilhação de sua vida, na frente de toda a sua família, professores e amigos. Uma brincadeira estúpida, desnecessária e covarde tirou o futuro de uma garota incrível, privou o mundo de um ser humano excepcional, destruiu a única pessoa capaz de fazer o melhor bolo de cenoura com chocolate do universo.

Letícia se foi, mas fez de mim um homem. Fez de mim uma pessoa que se importa e que tenta sempre fazer o melhor pelos outros. É o mínimo que posso fazer por sua memória, é mínimo que posso fazer para lidar com essa culpa que me destrói cada dia um pouco mais. 

Letícia foi morta por um mundo de padrões, um mundo estético, um mundo de medidas.
Letícia foi morta por um mundo deprimente que receita anti-depressivos para crianças, ao invés de tratar a si mesmo.
Letícia foi morta pela cultura da imagem, da adoração à modelos impossíveis e ideais tão vazios quanto individualistas.

Mas não se engane, foi o mundo quem saiu perdendo. 

Ao menos eu posso dizer que comi daquele bolo um dia.



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