História Boys Of my Life - Capítulo 13


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS), Black Pink, EXO, Got7, Seventeen
Personagens Jisoo, Jungkook, Kim Mingyu, Lisa, Sehun
Visualizações 45
Palavras 5.508
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Crossover, Escolar, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 13 - Faz de Conta


Fanfic / Fanfiction Boys Of my Life - Capítulo 13 - Faz de Conta

 

— Pronta? — Pergunta Jeon.

Eu seco as palmas das mãos no short. Queria ter tido tempo de arrumar melhor o cabelo.

— Na verdade, não.

— Então vamos conversar sobre nossa estratégia. Você só precisa agir como se estivesse apaixonada por mim. Não deve ser muito difícil.

Reviro os olhos.

— Você é a pessoa mais convencida que já conheci.

Jeon sorri e dá de ombros. Ele segura a maçaneta, mas para.

— Espera — diz ele, depois puxa o elástico do meu cabelo e joga no jardim.

— Ei!

— Fica melhor solto. Confie em mim.

Jeon passa os dedos pelo meu cabelo, ajeitando-o, e bato na mão dele. Em seguida, ele pega o celular no bolso de trás da calça jeans e tira uma foto minha. Eu olho para ele sem entender.

— Para o caso de a Momo olhar meu celular — explica Jeon.

Vejo-o colocar a foto como papel de parede.

— Podemos tirar outra? Não gostei de como meu cabelo ficou.

— Não, eu gostei. Você está bonita.

Ele só deve ter dito isso para podermos entrar logo, mas eu me sinto melhor. Entro na festa com Jeon e não consigo deixar de sentir uma onda repentina de orgulho. Ele está aqui comigo. Ou sou eu que estou aqui com ele? Eu a vejo assim que entramos; Momo está sentada no sofá com as amigas, todas segurando copos vermelhos. Não há namorado por perto. Ela ergue as sobrancelhas para mim e sussurra alguma coisa para Sana

— Eeeei, Lalisa— grita Sana, me chamando com o dedo. — Venha se sentar aqui com a gente.

Começo a andar na direção delas achando que Jeon está ao meu lado, mas ele não está. Ele parou para cumprimentar alguém. Eu o encaro com expressão de pânico, mas ele faz sinal para eu ir em frente e diz apenas com movimentos labiais: É com você. Atravessar a sala sozinha é como atravessar um continente com Momo e as amigas me observando.

— Oi, pessoal — digo, e minha voz sai aguda e meio infantil. Não há espaço para mim no sofá, então me empoleiro em um dos braços, como um pássaro no fio telefônico. Fico com os olhos grudados nas costas de Jeon, que está do outro lado da sala com uns caras do time de Basquete. Deve ser legal ser ele. Tão tranquilo, tão à vontade consigo mesmo, sabendo que as pessoas o estão esperando, tipo Jeon está aqui então agora a festa pode começar de verdade. Olho ao redor só para ter alguma coisa a fazer e vejo Jimin, Namjoon, Jin, Yonggi e Taehyung. Eles acenam para mim com simpatia, mas não se aproximam. Parece que todo mundo está esperando e observando — esperando e observando para ver o que Momo vai fazer. Estou arrependida de ter vindo. Sana se inclina para a frente.

— Estamos todas doidas para saber… Qual é a história entre você e o Jungkook?

 Sei que foi Momo quem a mandou perguntar. Momo toma goles de sua bebida com toda a naturalidade do mundo, mas está esperando minha resposta. Será que já está bêbada?

— Jeon já deve ter contado...

Sana faz um gesto que indica que o que Jeon diz, não conta.

— Queremos saber de você. Afinal, é tão surpreendente. Como foi que isso aconteceu?

Ela se inclina mais para perto, como se fôssemos melhores amigas. Quando hesito e desvio o olhar para Momo, ela sorri e revira os olhos.

Está tudo bem, pode falar, Lisa. Jeon e eu terminamos. Não sei se ele contou, mas fui eu que terminei com ele.

Eu assinto.

— E quando vocês começaram a sair?

Ela tenta parecer indiferente, mas sei que minha resposta é importante. Ela está me testando.

— Faz pouco tempo — digo.

— Quanto tempo? — Insiste ela.

Engulo em seco.

— Logo antes do início das aulas.

Não foi essa a história que Jeon e eu combinamos? Os olhos de Momo brilham, e meu coração despenca. Falei a coisa errada, mas é tarde demais. É difícil não ficar preso no feitiço dela. Ela é o tipo de pessoa que você quer que goste de você. Você sabe que ela pode ser cruel; já a viu sendo cruel. Mas, quando Momo está olhando para você e prestando atenção, quer que isso dure. Em parte, é por causa de sua beleza, mas tem mais alguma coisa, algum tipo de magnetismo. Acho que é a transparência: tudo que ela pensa ou sente está escrito em sua cara e, mesmo quando não está, ela diria de qualquer jeito, porque Momo diz o que pensa sem parar para medir nas consequências. Consigo entender por que Jeon foi apaixonado por ela por tanto tempo.

— Acho adorável — diz Momo, e as garotas começam a conversar sobre um show para o qual estão tentando conseguir ingressos, e eu fico sentada ali, feliz por não precisar falar, me perguntando como estão as coisas com os cupcakes lá em casa. Espero que meu pai não os asse por tempo demais. Não tem nada pior do que um cupcake seco.

As garotas passam a falar de fantasias de Halloween, então me levanto para ir ao banheiro.

Quando volto, encontro Jeon sentado em uma poltrona de couro, bebendo cerveja e conversando com Jimin. Não tem lugar para mim; o braço do sofá foi ocupado. E agora?

 Fico ali de pé por um segundo, mas preciso decidir rápido: preciso fazer o que uma garota apaixonada faria. Faço o que Momo faria. Vou até Jeon e me sento no colo dele como se fosse meu lugar de direito. Jeon dá um gritinho de surpresa.

— Oi — diz, engasgando com a cerveja.

— Oi.

Em seguida, aperto de leve o nariz dele como vi uma garota fazer em um filme em preto e branco. Jeon se ajeita na poltrona e me olha como se estivesse segurando o riso, e fico nervosa; apertar o nariz de um garoto é romântico, não é? Então, pelo canto do olho, consigo ver Momo nos encarando. Ela sussurra alguma coisa para Sana e sai da sala.

Mais tarde, vou pegar refrigerante e vejo Momo e Jeon conversando na cozinha. Ela está falando com a voz baixa e urgente, estica a mão e toca no braço dele. Jeon tenta afastar a mão dela, mas Momo não solta. Estou tão hipnotizada que não reparo quando Jinyoung se aproxima de mim enquanto abre uma garrafa de cerveja.

— Oi, Lisa.

— Oi!

Fico aliviada em ver um rosto familiar. Ele fica de pé ao meu lado, com as costas apoiadas na parede da sala de jantar.

— Por que eles estão brigando?

— Nem faço ideia — respondo.

Dou um sorriso discreto. Com sorte, é por minha causa. Jeon vai ficar feliz de ver que nosso plano está finalmente dando certo. Jinyoung faz sinal para eu chegar mais perto.

 — Uma briga não é um bom sinal, Lisa — sussurra ele. — Quer dizer que alguém ali ainda gosta do outro.

O hálito dele tem cheiro de cerveja. Humm. Momo obviamente ainda gosta dele. Jeon deve gostar dela também. Jinyoung dá tapinhas na minha cabeça.

 — Só tome cuidado.

— Obrigada.

Jeon sai da cozinha.

 — Está pronta para ir embora?

Ele não espera minha resposta, apenas sai andando com os ombros tensos. Dou de ombros para Jinyoung.

— A gente se vê na segunda!

E saio correndo atrás de Jeon. Ele ainda está com raiva, consigo perceber pela forma como enfia a chave na ignição.

— Meu Deus, ela me deixa louco! — Jeon está tão nervoso que calor emana dele em ondas.

— O que você disse para ela?

Eu me remexo no banco, nervosa.

— Ela me perguntou quando começamos a sair. Falei que foi logo antes de as aulas começarem.

Jeon dá um gemido profundo.

— Nós ficamos naquele primeiro fim de semana.

— Mas… vocês já tinham terminado.

— É, bem. — Jeon dá de ombros. — Tanto faz. O que está feito está feito.

Aliviada, coloco o cinto de segurança e tiro os sapatos.

— Por que vocês estavam brigando, afinal?

— Não precisa se preocupar com isso. Você fez um bom trabalho, aliás. Ela está morrendo de ciúmes.

— Eba — comemoro. — Jeon… como você soube que amava a Momo?

 — Meu Deus, Lalisa. De onde você tira essas perguntas?

— Sou uma pessoa curiosa por natureza. — Eu viro o para-sol para me olhar no espelho e começo a fazer uma trança embutida. — E talvez a pergunta que você deveria estar se fazendo agora é por que está com tanto medo da resposta?

— Eu não estou com medo!

— Então por que não me responde?

Jeon fica em silêncio, e tenho certeza de que não vai responder, mas, depois de uma longa pausa, ele diz:

Não sei se amei Momo. Como eu poderia saber? Tenho dezessete anos, caramba.

— Você tem dezessete, não é tão jovem. Cem anos atrás, as pessoas se casavam quando tinham praticamente a sua idade.

— É, isso foi antes da eletricidade e da internet. Cem anos atrás, caras de dezoito anos lutavam em guerras com baionetas e tinham a vida de outras pessoas nas mãos! Eles já tinham vivido muito quando chegavam à nossa idade. O que o pessoal da nossa idade sabe sobre o amor e a vida?

Eu nunca o ouvi falar assim, como se realmente se importasse com alguma coisa. Acho que ainda está nervoso por causa da briga com Momo. Faço um coque e prendo com um elástico.

— Sabe quem você parece? Meu avô — digo. — E acho que está enrolando porque não quer responder à pergunta.

— Eu já respondi, você que não gostou da resposta.

Paramos na frente da minha casa. Jeon desliga o motor, o que ele faz sempre que quer conversar um pouco mais. Por isso, não saio logo do carro, coloco a bolsa no colo e procuro a chave, embora as luzes estejam acesas no andar de cima. Ele apoia a cabeça no banco e fecha os olhos.

— Você sabia que, quando as pessoas brigam, isso quer dizer que ainda gostam uma da outra? — Como Jeon não responde, eu continuo: — A Momo deve mesmo ter você na palma da mão.

Espero que ele negue, mas não. Em vez disso, diz:

— É, mas eu queria que não fosse assim. Não quero que ninguém seja dono de mim. Não quero pertencer a ninguém.

Jisoo diria que pertence a si mesma. Soo diria que não pertence a ninguém. E acho que eu diria que pertenço às minhas irmãs e ao meu pai, mas isso nem sempre será verdade. Pertencer a alguém… Eu não tinha percebido, mas, agora que estou pensando no assunto, parece que é tudo que eu sempre quis. Ser de alguém de verdade, e que essa pessoa fosse minha.

— Então esse é o motivo por que você está fazendo isso. — Em parte, é uma pergunta, mas na verdade já sei a resposta. — Para provar que não pertence a ela. E que seu lugar não é com ela. — Eu hesito. — Você acha que tem diferença? Entre pertencer a alguém e estar com alguém?

— Claro. Um implica escolha, o outro, não.

— Você deve amar muito a Momo para se dar todo esse trabalho.

Jeon faz um som de desdém.

— Você é romântica demais.

— Obrigada — digo, apesar de saber que ele não falou como elogio. Respondo só para irritá-lo. Sei que consegui quando ele pergunta com expressão azeda:

O que você sabe sobre o amor, Lalisa? Você nunca namorou.

Fico tentada a inventar alguém, um garoto do acampamento, de outra cidade, de qualquer lugar. O nome dele é Jay está na ponta da minha língua. Mas seria humilhante demais, porque ele saberia que é mentira; já contei a ele que nunca namorei. E, mesmo que não tivesse falado, é bem mais patético inventar um namorado do que apenas admitir a verdade.

Não, eu nunca namorei. Mas muitas pessoas que conheço namoraram e não se apaixonaram nem uma vez. Eu já me apaixonei. É por isso que estou fazendo isso.

Jeon dá uma risada debochada.

— Por quem? Mingyu? Aquele idiota?

— Ele não é idiota — defendo-o, franzindo a testa. — Você nem o conhece. Não sabe do que está falando.

— Qualquer pessoa com meio cérebro consegue perceber o quão idiota aquele cara é.

— Você está chamando minha irmã de burra? — Pergunto.

Se ele disser uma coisa ruim que seja sobre minha irmã, é o fim. Essa coisa toda vai acabar. Não preciso dele tanto assim. Jeon ri.

— Não. Estou dizendo que você é!

— Quer saber? Não precisa mais responder. Está claro que você nunca amou ninguém além de si mesmo. Tento abrir a porta do passageiro, mas está trancada.

— Lisa, eu só estava brincando. Para com isso.

— A gente se vê na segunda.

Espera, espera. Primeiro me responde uma coisa. — Jeon se recosta no banco. — Por que você nunca namorou ninguém?

Eu dou de ombros.

— Não sei… Talvez porque ninguém tenha me convidado para sair?

— Mentira. Eu sei que o Mark convidou você para o baile, e você disse não.

Fico surpresa por ele saber disso.

— Acho que eu disse não porque fiquei com medo.

 Eu olho pela janela e passo o dedo no vidro, desenhando um M de Mark.

— Do Mark?

—Não é isso. É assustador quando é real. Quando não é só na sua imaginação, mas, tipo, ter uma pessoa de verdade na sua frente, com, sei lá, expectativas. E vontades. —  Eu finalmente olho para Jeon, e fico surpresa com o quanto ele está prestando atenção; seus olhos estão alertas e concentrados como se ele estivesse realmente interessado no que estou dizendo. — Mesmo quando gostei muito de alguém, amei até, eu preferia ficar com minhas irmãs, porque é o meu lugar — continuo.

— Espera. E agora?

— Agora? Ah, não gosto de você assim, então…

— Que bom — diz Jeon.

— Vê se não se apaixona por mim de novo, tá? Não dá para ter mais garotas apaixonadas por mim. É muito cansativo.

Dou uma gargalhada alta.

— Você é tão metido.

— Estou brincando — protesta ele, mas sei que não está. — O que você viu em mim, afinal? Ele abre um sorriso, já arrogante de novo, convencido do próprio charme.

Sinceramente? Eu não saberia dizer.

O sorriso enfraquece, mas se recompõe rápido, só que agora Jeon não está mais tão seguro de si.

Você disse que era porque eu faço as pessoas se sentirem especiais. Você… você disse que era porque danço bem e fiz dupla na aula de ciências com Shindong!

 — Uau, você decorou mesmo cada palavra daquela carta, hein? — Provoco.

Sinto uma pequena onda de satisfação ao ver o sorriso de Jeon sumir completamente.

Essa onda vem seguida de remorso, porque feri os sentimentos dele sem nenhum motivo.

O que deu em mim para fazer isso? Querendo consertar as coisas, acrescento:

Não, é verdade. Você tinha mesmo algo de especial na época.

Acho que só piorei a situação, porque ele faz uma careta. Não sei mais o que dizer, então abro a porta do carro e saio.

— Obrigada pela carona, Jeon.

 Quando entro em casa, passo primeiro na cozinha para checar os cupcakes. Estão organizados em potes plásticos. A cobertura está meio desajeitada, e os confeitos, irregulares, mas de um modo geral parecem muito bons. Isso é um alívio.

------------------------------------------------------------------------------------------------------

Estou de pé em frente ao mostruário, com os dedos encostados no vidro, quando Jeon aparece, vindo dos fundos da loja.

— Oi — diz ele, surpreso.

— Oi — respondo. — O que você está fazendo aqui?

Jeon me olha como se eu fosse burra.

— Minha mãe é a dona, lembra?

— Eu sei disso. Só nunca vi você aqui. Você trabalha na loja?

— Não, tive que trazer uma encomenda para minha mãe.

—  Quanto custa este globo?

 — O preço que está na etiqueta.  

Jeon apoia o cotovelo no mostruário e se inclina para a frente.

Você devia ir.

Eu olho para ele.

— Aonde?

— Buscar as cadeiras comigo.

— Você acabou de reclamar do quanto vai ser um saco.

 — É, sozinho. Se você for, talvez seja um pouco menos pior.

— Nossa, obrigada.

 — De nada.

 Eu reviro os olhos. Jeon diz “de nada” para tudo! É tipo Não, Jeon, esse não foi um agradecimento genuíno, então você não precisa responder.

— Então, você vai ou não?

—Não.

— Ah, vamos! Vou buscar as cadeiras em uma propriedade à venda. O dono era recluso. As coisas estão lá há cinquenta anos. Aposto que vai ter coisas para você olhar. Você gosta de coisas antigas, não gosta?

— Gosto — respondo, surpresa por ele saber isso sobre mim. — Na verdade, eu sempre quis ir a uma venda dessas. Como o dono morreu? Quanto tempo passou até que alguém encontrasse o corpo?

— Caramba, como você é mórbida. — Ele estremece. — Não sabia que você tinha esse lado.

— Eu tenho muitos lados — digo para ele, e me inclino para a frente. — E aí? Como ele morreu?

— Ele não morreu, sua esquisita. Só está velho. A família vai mandar o cara para um asilo. — Jeon ergue uma sobrancelha para mim. — Então pego você amanhã às sete.

— Sete? Você não falou nada sobre sair às sete da manhã em um sábado!

— Desculpa — diz ele parecendo culpado. — Temos que chegar cedo, antes que todas as coisas boas sejam vendidas.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Naquela noite, preparo o almoço do dia seguinte para mim e para Jeon. Faço sanduíches de rosbife com queijo e tomate, maionese para mim e mostarda para ele. Jeon não gosta de maionese. São as coisas engraçadas que você aprende em um relacionamento de mentira.

Soo entra na cozinha e tenta pegar uma metade de sanduíche. Dou um tapa na mão dela.

— Não é para você.

— Então é para quem?

— É para o meu almoço amanhã. Meu e do Jeon.

 Ela sobe em um banco e me observa embrulhar os sanduíches em papel alumínio. Sanduíches ficam bem mais bonitos em papel-alumínio do que dentro de potes plásticos. Sempre que posso, uso papel alumínio.

— Eu gosto do Jeon — diz Soo. — Ele é muito diferente do Mingyu, mas gosto dele.

Eu olho para ela.

— O que você quer dizer?

— Não sei. Ele é engraçado. Faz um monte de brincadeiras. Você deve estar muito apaixonada se está fazendo sanduíches para ele. Quando a Jisoo e o Mingyu começaram a namorar, ela fazia macarrão com molho de três queijos o tempo todo, porque é o prato favorito dele. Qual é o prato favorito do Jeon?

— Eu… eu não sei. Quer dizer, ele gosta de tudo.

Soo me olha de soslaio.

— Se você é a namorada dele, deveria saber qual é a sua comida favorita.

— Sei que ele não gosta de maionese — digo.

— Isso é porque maionese é nojento. Mingyu também odeia maionese.

Sinto uma pontada. Mingyu odeia mesmo maionese.

— Soo, você sente falta do Mingyu?

— Eu queria que ele ainda viesse aqui. — Um olhar de saudade surge no rosto dela, e estou quase lhe dando um abraço quando Soo coloca as mãos nos quadris. — Mas não use todo o rosbife, preciso dele para meu lanche da semana que vem.

— Se acabar, faço salada de atum. Caramba.

— É bom mesmo — diz Soo, e sai correndo.

“É bom mesmo”? De onde ela tira essas coisas?

--------------------------------------------------------------------------------------------------------

Às sete e meia, estou sentada à janela esperando Jeon chegar. Carrego um saco de papel pardo com nossos sanduíches e minha câmera, para o caso de haver alguma coisa sinistra ou legal que eu possa fotografar. Estou imaginando uma mansão velha, cinza e em ruínas, como se vê nos filmes de terror, com um portão e um laguinho sujo ou um labirinto no jardim. A minivan da mãe de Jeon para na porta da minha casa às 7h45, o que me deixa irritada. Eu poderia ter dormido mais uma hora inteira. Corro até o carro e entro, e, antes que eu possa falar qualquer coisa, ele diz:

— Desculpa, desculpa. Mas olha só o que eu trouxe para você. — Ele me passa um donut em um guardanapo, ainda quente. — Eu parei e comprei bem na hora que abriram, às sete e meia. É de café com chocolate e açúcar. —  Eu arranco um pedaço e coloco na boca.

— Hum! Ele me olha de soslaio enquanto acelera o carro. — Então fiz a coisa certa ao me atrasar, né? Eu concordo enquanto dou uma mordida grande.

— Você fez a coisa perfeita — digo, com a boca cheia. — Ei, trouxe água?

Jeon me entrega uma garrafa de água pela metade, e tomo um grande gole.

— É o melhor donut que já comi — comento.

— Que bom. — Jeon olha para mim e ri. — Você está com açúcar na cara toda.

 Eu limpo a boca com o outro lado do guardanapo.

— Nas bochechas também — diz ele.

— Tudo bem, tudo bem. — O carro fica em silêncio, o que me deixa nervosa. — Que tal um pouco de música? Pego meu celular.

— Na verdade, você se importa se ficarmos em silêncio por um tempo? Não consigo ouvir música antes de a cafeína começar a agir.

— Hã… claro. Não sei se isso quer dizer que ele quer que eu fique quieta também. Eu não teria concordado com esse passeio se soubesse que teria que ficar em silêncio. Jeon está com uma expressão serena no rosto, como se fosse o capitão de um barco de pesca e estivéssemos flutuando placidamente em alto-mar. Só que não está dirigindo devagar; ele está dirigindo muito rápido. Consigo ficar em silêncio por uns dez segundos.

Espera, você quer que eu fique quieta também?

 — Não, eu só não quero música. Você pode falar o quanto quiser.

— Tudo bem, qual é a sua comida favorita?

— Eu gosto de tudo.

— Mas qual é sua favorita? Tipo, sua favorita de todas. É macarrão com queijo, frango frito, bife ou pizza?

— Gosto disso tudo. Igualmente.

Solto um suspiro irritado. Por que Jeon não entende o conceito de escolher uma coisa favorita? Jeon imita meu suspiro e ri.

— Tudo bem. Gosto de pão de canela. É minha comida favorita.

— Pão de canela? — Repito. — Você gosta de pão de canela mais do que de patas de caranguejo? Mais do que de cheesebúrger?

 — Sim.

— Mais do que de bife?

 Jeon hesita. Mas responde:

— Sim! Agora pare de criticar minha escolha. Não vou mudar de ideia.

 Eu dou de ombros.

— Tudo bem.

Eu espero, dando a ele uma chance de me perguntar qual é minha comida favorita, mas ele não pergunta.

— Minha comida favorita é bolo — digo, por fim.

— Que tipo de bolo?

— Não importa. Qualquer um.

— Você acabou de me encher porque não escolhi!

— Mas é tão difícil escolher um tipo! — Exclamo. — Tem aquele bolo de coco com cobertura de glacê parecida com uma bola de neve. Gosto muito desse. Mas também gosto de cheesecake, de torta de limão e de bolo de cenoura. E também de bolo red velvet com cobertura de cream cheese, e bolo de chocolate com cobertura de ganache. — Eu faço uma pausa. — Você já comeu bolo de azeite de oliva?

— Não. Parece estranho.

— É muito, muito gostoso. Úmido e delicioso. Vou fazer para você.

 Jeon geme.

— Você está me deixando com fome. Eu devia ter comprado um saco inteiro de donuts. —  Eu abro o saco de papel pardo e pego o sanduíche dele. Escrevi um J no papel alumínio para saber qual era o dele.

— Você quer um sanduíche?

— Você fez para mim?

— Bom, eu estava preparando um para mim. Seria falta de educação trazer só um sanduíche e comer na sua frente.

Jeon aceita o sanduíche e come com a parte de baixo ainda envolta no papel.

— Está gostoso — comenta, assentindo. — Que mostarda é essa?

— Mostarda de cerveja — respondo, satisfeita. — Meu pai compra de um catálogo de comida bacana. Ele adora cozinhar.

— Você não vai comer o seu?

— Estou guardando para depois.

No meio do caminho, Jeon começa a costurar no trânsito e fica olhando para o relógio no painel.

— Por que você está com tanta pressa? — Pergunto.

— Os Kang — diz ele, batendo com os dedos no volante.

— Quem são os Kang?

— Um casal idoso que tem um antiquário em Cheongdam. Da última vez, chegara, cinco minutos antes de mim e fizeram a limpa. Isso não vai acontecer hoje.

 Impressionada, digo:

 — Uau, eu não fazia ideia de que a concorrência nessa área era tão acirrada. —  Como um sabe-tudo, Jeon dá um sorrisinho.

 -----------------------------------------------------------------------------------------------------

Estamos parados em um sinal de trânsito quando Jeon se senta ereto de repente.

— Ah, merda! Os Kang!

 Eu estava quase dormindo. Meus olhos se abrem na mesma hora.

— Onde? Onde?

— Carro vermelho! Dois carros à frente, à direita.

 Eu estico o pescoço para olhar. É um casal de cabelo grisalho, com uns sessenta ou setenta anos. É difícil ter certeza, tão de longe. Assim que o sinal fica verde, Jeon acelera e sai dirigindo pelo acostamento. Eu grito “Vai, vai, vai! ”, e logo passamos pelos Kang. Meu coração está disparado e não consigo deixar de colocar a cabeça para fora da janela e gritar, porque é tão emocionante. Meu cabelo balança ao vento, e sei que vai ficar todo embaraçado, mas não me importo.

— Uhullll! — Grito.

— Você é louca — diz Jeon, me puxando pela barra da camisa. Ele está me olhando como olhou no dia em que eu o beijei no corredor. Como se eu fosse uma pessoa diferente do que ele imaginava. Quando chegamos à casa, já há alguns carros estacionados. Estico o pescoço para tentar ver melhor. Eu estava esperando uma mansão com portão de ferro fundido e talvez uma ou duas gárgulas, mas é só uma casa normal. Devo parecer decepcionada, porque, quando para o carro, Jeon diz para mim:

— Não julgue uma venda pela casa. Já vi todo tipo de tesouro em casas normais e lixo em casas elegantes.

Eu saio do carro e me abaixo para amarrar o cadarço.

— Vamos, Lisa! Os Kang vão chegar a qualquer momento!

Jeon segura minha mão e corremos até a porta da frente; estou ofegante e tentando acompanhá-lo. As pernas dele são tão mais compridas do que as minhas. Assim que entramos, Jeon vai direto até um homem de terno, e eu me inclino para tentar recuperar o fôlego. Algumas pessoas andam pela casa e olham a mobília. Tem uma mesa de jantar comprida no meio de uma sala cheia de louça, cristais e enfeites de porcelana. Vou até lá para olhar. Gosto de uma cremeira branca com flores cor-de-rosa, mas não sei se posso tocar e ver quanto custa. Pode ser muito caro. Tem uma cesta grande com enfeites de Natal antigos: Papais Noéis e renas de plástico e ornamentos de vidro. Estou remexendo na cesta quando Jeon se aproxima com um sorriso enorme no rosto.

— Missão cumprida. — Ele indica um casal idoso que está olhando um aparador de madeira e sussurra

Você comprou as cadeiras? — grita o sr. Kang.

 Ele está tentando parecer casual, não irritado, mas mantém as mãos na cintura e uma postura muito rígida.

Você sabe que sim — responde Jeon. — Boa sorte da próxima vez.

 Para mim, ele diz:

— Está vendo alguma coisa legal?

— Um monte. — Eu mostro uma rena rosa. É de cristal e tem o nariz azul. — Isto ficaria lindo na minha penteadeira. Você pode perguntar ao cara quanto custa?

— Não, mas você pode perguntar. Vai ser bom para aprender a negociar.

Jeon segura minha mão e me leva até o homem de terno. Ele está preenchendo uma papelada em uma prancheta. Parece ocupado e importante. Nem sei se eu deveria estar aqui. Acho que não preciso da rena de verdade. Mas Jeon está me olhando com expectativa, então pigarreio e pergunto:

— Com licença, senhor, quanto custa essa rena?

— Ah, ela faz parte de um lote — responde ele.

— Ah. Hã, me desculpe, mas o que é um lote?

— Quer dizer que é parte de um conjunto. Você tem que comprar o conjunto inteiro. Custa setenta e cinco dólares. É vintage, entende? Começo a recuar.

— Obrigada — digo.

Jeon me puxa e dá um sorriso largo para o homem.

— Você não pode juntar com as cadeiras? Um brinde com a compra?

O homem suspira.

— Não quero separar o conjunto.

Ele se vira para mexer nos papéis na prancheta. Jeon me lança um olhar como quem diz: É você que quer a rena, é você que tem que falar. Olho para ele como quem diz: Não quero tanto assim, e Jeon balança a cabeça com firmeza e me empurra na direção do homem.

— Por favor, senhor. Pago dez dólares por ela. Ninguém vai saber que falta uma rena. E, olha, a patinha está lascada embaixo, está vendo? Eu mostro a rena.

— Tudo bem, tudo bem. Pode levar — diz o homem, meio irritado, então abro um sorriso para ele e pego a carteira na bolsa, mas ele faz sinal indicando que não precisa.

— Obrigada! Muito obrigada. Seguro a rena contra o peito. Talvez barganhar não seja tão difícil quanto eu pensava.

Jeon pisca para mim e diz para o homem:

— Vou estacionar a minivan mais perto para podermos carregar as cadeiras.

 Eles saem pela porta dos fundos e fico andando pela casa, olhando as fotos emolduradas nas paredes. Fico curiosa para saber se também estão à venda. Algumas parecem bem velhas: são fotos em preto e branco de homens de terno e chapéu. Uma das fotos mostra uma garota com vestido de crisma, todo branco e rendado como um vestido de noiva. A garota não está sorrindo, mas tem um brilho malicioso nos olhos que me faz lembrar Soo.

— É minha filha, Jude.

Eu me viro. Um senhor idoso de suéter azul e calça jeans grossa está encostado na escada, me olhando. Parece muito frágil; a pele é branca e fina como papel.

— Ela mora em Ohio. É contadora.

Ele ainda está me olhando, como se eu lhe lembrasse alguém.

— Sua casa é linda — digo, apesar de não ser. É velha e precisa de uma boa reforma. Mas as coisas lá dentro são lindas. —

 Está vazia agora. Todas as minhas coisas foram vendidas. Não vou poder levar comigo, sabe.

— O senhor quer dizer quando morrer? — Sussurro. Ele me encara.

— Não. Quero dizer para o asilo.

— Certo — digo, e dou uma risadinha, como costumo fazer quando fico constrangida.

— O que você está segurando?

Eu mostro.

— Isto. Ele... o homem de terno me deu. Você quer de volta? Eu não paguei. Faz parte de um lote.

 Ele sorri, e as rugas na pele fina ficam mais fundas.

— Era a favorita da Jude.

Eu a estendo na direção dele.

— Talvez ela queira guardar...

— Não, pode ficar. É sua. Ela nem se deu o trabalho de me ajudar com a mudança. — Ele assente, ressentido. — Tem mais alguma coisa que você queira levar? Tenho um baú cheio de roupas antigas dela.

Drama familiar. Melhor não me envolver nisso. Mas roupas vintage! Isso é tentador.

 Quando Jeon me encontra, estou sentada de pernas cruzadas no chão da sala de música, olhando dentro de um baú velho.

. — Olha, Jeon! — Mostro o vestido. — O sr. Cha disse que posso ficar com ele.

— Quem é o sr. Cha? — Pergunta Jeon, e a voz dele preenche a sala.

Eu aponto para o senhor cochilando e levo o dedo aos lábios.

— Bem, é melhor a gente sair logo daqui, antes que o cara responsável pelas vendas o veja dando coisas de graça.

 Eu me levanto depressa.

— Tchau, sr. Cha — digo, mas não alto demais.

Acho que é melhor deixá-lo dormir. Ele estava chateado antes, quando me contou sobre o divórcio. O sr. Cha abre os olhos.

Esse é seu namorado?

— Na verdade, não — respondo.

Mas Jeon coloca o braço sobre meus ombros.

Sim, senhor. Sou o namorado dela.

Não gosto do jeito como ele fala, como se estivesse debochando de mim e do sr. Cha.

— Obrigada pelas roupas, sr. Cha — digo, e ele se senta mais ereto e estica a mão para pegar a minha.

— De nada, Jude. Dou um aceno de adeus e pego minhas coisas novas.

Quando saímos pela porta da frente, Jeon pergunta:

— Quem é Jude?

Mas finjo não escutar. Acho que adormeço em dois segundos por causa da agitação do dia, porque a próxima coisa que percebo é que estamos parados na porta da minha casa, e Jeon está sacudindo meu ombro.

— Chegamos, Lisa.

 Abro os olhos. Estou segurando o vestido e a blusa contra o peito como se fossem um cobertorzinho de criança, e minha rena está no colo. Meus novos tesouros. Sinto como se tivesse acabado de roubar um banco e conseguido fugir.

— Obrigada pelo dia de hoje, Jeon.

 — Obrigado por ir comigo. — E, de repente, ele acrescenta: — Ah, é. Eu me esqueci de dizer uma coisa. Minha mãe quer que você vá jantar lá em casa amanhã à noite.

Meu queixo cai.

— Você contou sobre nós para sua mãe?

 Jeon me olha com irritação.

— A Soo sabe sobre nós! Além do mais, minha mãe e eu somos bem próximos. Na nossa família, somos só ela, eu e meu irmão, Hoseok. Se você não quiser ir, não precisa. Mas saiba que minha mãe vai achar você mal-educada por recusar o convite.

— Só estou dizendo… Quanto mais gente souber, mais difícil será gerenciar tudo, você precisa restringir as mentiras ao menor número possível de pessoas.

— Como você sabe tanto sobre mentir?

— Ah, eu mentia o tempo todo quando era criança. Mas eu não as encarava como mentiras. Achava que era brincar de faz-de-conta. Uma vez falei para Soo que ela era adotada e que a família dela era de um circo itinerante. Foi por isso que ela começou a fazer ginástica olímpica.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...