História Branco e Preto - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens D.O, Kai
Tags ?2concursoexofanfics?, Dtehospital, Kaisoo
Exibições 51
Palavras 5.480
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Famí­lia, Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Olá pessoinhas. Eu estou aqui com uma fic para um concurso que tá rolando. Primeiro quero pedir desculpas porque essa semana foi a minha última da faculdade e eu estou APROVADISSIMA, virei Psicologa e to feliz. Mas foi uma luta e eu só tive tempo para escrever a fic do concurso hoje! Isso incluí pensar no plot. Então não é aquilo que eu pensei, é um clichêzinho básico, mas que pode emocionar se você se deixar levar. Então mesmo sendo escrita as pressas, eu espero que cative. Achei melhor postar algo mediano e tirar uma nota mais ou menos do que nem participar e perder a nota.

Enfim, obrigada por perderem o tempinho de vocês.

AVISO: PEGUEM OS LENCINHOS PORQUE O CHORO É GRANDE.

Estão avisados.

Capítulo 1 - Oneshot


Era sempre o mesmo branco. Por mais que o coração de Kyungsoo desejasse, por mais que em seus sonhos aquilo fosse diferente, ao abrir os olhos era sempre o mesmo branco. Não é como se não estivesse acostumado, já havia perdido as contas de quanto tempo o mesmo cenário lhe era imposto insistentemente. Já era para ter se acostumado; já era para tal fato passar despercebido como a rotina que nos faz viver. Mas a verdade é que o jovem se perdia em seus pensamentos toda vez que mergulhava na imensidão branca; se perguntava quando seria abençoado por um pouco de preto.

Piscou duas ou três vezes, queria afastar a amargura que carregava em seu peito e tentou encher sua cabeça com as coisas boas da vida. Cerrou suas pálpebras e recordou-se de um momento bobo de quando possuía apenas sete anos. Lembrou-se do dia em que resolvera subir na árvore da pracinha que ficava em frente a sua casa. Não avisou ninguém, queria provar a sua mãe que era forte, que não precisava mais de ajuda. Ledo engano, assim que pisou no terceiro galho, ouviu o barulho da madeira se rompendo e sem conseguir se agarrar ao tronco foi ao chão de bunda e tudo. Foi uma choradeira só, e no fim, a única coisa que Kyungsoo desejou foi ter o colo de sua mãe para sempre.

Infelizmente, Deus não ia muito com a sua cara. É certo que o rapaz nunca fora deveras religioso, não seguia com louvor os ensinamentos da igreja a qual seus pais frequentavam. Mas também não era nenhuma cria do inferno. Sempre fora mediano em tudo; nas notas escolares, nos relacionamentos com as pessoas. Nunca se entregava verdadeiramente nas coisas, sempre se restringia porque acreditava que o envolvimento em excesso poderia causar uma frustração maior ainda. Pena que quando completou seus vinte e dois anos percebeu a quantidade de sentimentos que deixara de experimentar por causa do medo.

Com tantos pensamentos desconexos em sua cabeça, Kyungsoo nem mesmo escutou o barulho da porta se arrastando. Também não notou a presença de uma moça coberta pelo branco de suas roupas. Ela trazia consigo uma bandeja com frutas, uma porção pequena de arroz e algo que cheirava a sopa de peixe. Foi com o odor da comida que o rapaz despertara de sua reflexão profunda torcendo o nariz de forma infantil. Odiava profundamente aquela comida de hospital e mesmo sendo obrigado a ingeri-la a mais de quatro meses seguidos, sentia-se como se fosse a primeira vez que aquela gororoba lhe era apresentada.

Com toda a delicadeza que lhe fora presenteada, a enfermeira apoiou a refeição sobre a mesinha que ficava ao lado da maca do paciente. Riu-se ao ver as expressões de desgosto do menino e tratou de apertar o botão que fazia parte da cama de Kyungsoo se erguer o possibilitando ficar sentado. Finalmente o menino abriu seus olhos e focalizou o belo rosto da garota que lhe enfiava as colheradas de esgoto goela abaixo todas as manhãs. Coitada, ele sabia que era seu trabalho, e que ela desejava o seu bem. Mas o desjejum era horrível e toda vez que o paciente via aqueles pedaços de peixe boiando no liquido gorduroso, sentia que iria vomitar o restante da sua vontade de viver.

 

-Bom dia, senhor Do. –A enfermeira desejou com seu tom de voz animado. Logo se virou de costas e pegou a cumbuca na qual estava servida a sopa. –Está na hora do seu café da manhã!

-Como você é capaz de me desejar bom dia sabendo que eu vou ser obrigado a comer isso? –Kyungsoo colocou a língua para fora em sinal de desgosto e ainda fez questão de levar as mãos à barriga simulando que iria vomitar se aquela colher lhe tocasse os lábios.

-Não adianta reclamar, mocinho. Você precisa da proteína do peixe! –Respondeu a menina já munida de uma colherada farta. –Vamos, abara essa boca.

-Nem pensar. –E como se tivesse seus cinco anos de novo, o paciente passou seus dedos sobre a boca simulando o fechar de um zíper. Depois cruzou os braços e virou o rosto negando o pedido com sua cabeça.

-Senhor Do... Eu tenho outros pacientes para alimentar também. Vamos colaborar, por favor. –Apesar da suplica, a garota estava prendendo o riso entre seus dentes. Kyungsoo estava internado há aproximadamente quatro meses e meio, e com visitas diárias para seu atendimento, a enfermeira Jung estava para lá de acostumada com o jeito birrento do menino que poderia até mesmo chamar de amigo.

-Negativo. –Disse rapidamente e tornou a travar a boca.

-Você não tem jeito mesmo. –Ela rodou os olhos e largou a colher sobre a bandeja desistindo de alimentá-lo. –Sabe que se não comer vai ficar fraco e...

-Morrer? –Os grandes olhos de Kyungsoo direcionaram-se rapidamente a moça que sentiu suas pernas tremerem. Às vezes esquecia-se das condições de saúde de seu amigo. Estava tão acostumada a brincar com ele que não se recordava da seriedade do caso. –Isso eu vou de qualquer jeito e não vai demorar.

-Não diga isso, Soo. –Jung desmoronou, seus ombros até caíram de tristeza.

-Nós sabemos que é verdade. –O rapaz respirou profundamente e com muito esforço levou a mão esquerda trêmula até sua cabeça. –Eu já não tenho mais cabelo algum. Já não consigo me alimentar sozinho, pois o tremor faz com que toda a comida seja derramada. Já não posso ir ao banheiro sozinho, muito menos tomar banho sozinho porque minhas pernas estão fracas demais para aguentar esses quarenta quilos de nada. Até mesmo respirar tornou-se um sacrifício nas últimas semanas. Eu sinto que está perto e eu... Eu desejo que seja rápido.

 

O clima afundou-se em uma nuvem densa de angústia. A pobre enfermeira engoliu suas palavras, pois sabia que nada confortaria aquela dura verdade. Seu conhecimento adquirido não só nas carteiras da faculdade, mas também na correria do dia a dia hospitalar a levava a saber que Kyungsoo estava prestes a dizer adeus. Desde o começo dos exames, a descoberta do tumor cerebral, o inicio das quimioterapias e a sentença de morte dada pelo médico que classificou o câncer como terminal, tudo fora acompanhado por ela. Era como perder um membro da família e nem toda a ética profissional poderia impedi-la de ser humana e chorar.

Mas não queria fazer isso na frente do paciente,. Kyungsoo já tinha melancolia demais em sua vida, ele precisava permitir-se sorrir nesses últimos dias. Aproveitar sessenta anos em alguns meses, talvez semanas ou quem sabe um dia. Jung suspirou deixando-se abater e retirou a bandeja virando-se em direção a porta ainda calada, com o coração cheio de dor. Equilibrou-se para conseguir abrir a porta do quarto, cheia de coisas nas mãos, quando foi surpreendida pela mesma se abrindo sem ela tocar.

Um perfume maravilhoso invadiu o ambiente no mesmo instante. A sua frente, um sorriso branco contrastando com a pele bronzeada a fez ganhar um tom de cor de rosa nas bochechas tamanha a beleza e simpatia que o rapaz emanava. Jung o conhecia, alias, não havia um só funcionário do hospital que não o conhecesse. Alegre, cheio de vida e sempre com uma surpresa escondida nas costas. O visitante era tão popular naquele lugar que nem precisava mais de crachá de identificação, já o cumprimentavam pelo primeiro nome.

 

-Jongin? –A enfermeira se perguntou mesmo sabendo a resposta.

-Bom dia, Jung! –O menino aumentou ainda mais o sorriso e levou seus olhos a bandeja cheia que a moça carregava. –Kyung não comeu nada?

-Ele se negou a comer essa gororoba, fez até birra. –A garota completou pedindo licença logo em seguida.

-Sorte dele que eu tenho uma surpresa o esperando bem aqui. –Jongin revelou um saco de padaria que estava escondido atrás de suas costas.

-O que você trouxe, Nini? – Os olhos tristonhos ganharam vida no momento em que o visitante entrou no quarto. Apesar de todo o clima fúnebre que envolvia a rotina de Kyungsoo, a presença de seu namorado era a única coisa capaz de afastá-lo de todo o mal, uma vez que sua mãe não poderia mais lhe dar colo. Não por ela já ter partido desta vida para o plano espiritual, antes fosse isso. A família do rapaz estava toda vivinha, mas já o considerava morto desde o momento em que Do assumiu-se homossexual. E a partir daí, ele estava sozinho no mundo. Por isso Jongin era tão importante para si, pois era sua única fonte de amor.

-Você está mesmo mais interessado no doce que eu te trouxe do que em mim, senhor Kyungsoo? –A sobrancelha do moreno se curvou e ele fingiu uma expressão de sofrimento.

-Então quer dizer que é um doce? –Kyungsoo sorriu e se forçou a desencostar do travesseiro para tentar enxergar melhor o que estava na mão do maior.

-Kyung! –Jongin bateu o pé ouvindo as risadas da enfermeira Jung que estava fechando a porta do quarto para deixá-los a sós. O menino tinha a capacidade única de transformar qualquer ambiente pesado em uma alegria plena. Era um dom.

-Desculpe,Nini. –O menor relaxou seus músculos ao perceber que não conseguiria se ajeitar sozinho. –Eu estou realmente faminto, mas aquela sopa me causa enjoo só de olhar. Estou desejando algo doce há tempos.

-Eu sei disso meu pequeno. –O moreno se aproximou enfiando sua mão na sacola para revelar um delicioso Hotteok, uma panqueca recheada com diversos tipos de castanha e açúcar mascavo. Uma sobremesa nada saudável por ser frita.

-Eu não acredito! Um hotteok! Eu venho sonhando com isso! Você é maravilhoso Jonginie! –Kyungsoo esticou seus braços com dificuldade e seu namorado se aproximou sentando sobre a maca. Deixou um abraço gostoso no menor e encheu seus lábios fartos de selares estalados. Depois aproximou o doce de sua boca e ficou contente com a mordida cheia de vontade vinda do enfermo

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Kyungsoo se deleitou com cada mordida, parecia uma criança se lambuzando com o chocolate que escorria por entre os dedos do moreno. Até tentou roubar mais uma porção do saco, mas acabou derrubando em sua roupa fazendo a maior bagunça. Os dois riram de forma idiota, e passaram os dedos melecados um no rosto do outro. Em momentos como esses, era como se permitissem esquecer por minutos que fossem, a areia escorrendo pela ampulheta. Há quatro meses Jongin mudara toda sua rotina apenas para dar o melhor ao seu namorado, praticamente morava no hospital.

Nos dias de semana, o estudante de direito seguia para a faculdade, ralava bastante, mas ficava trocando mensagens com seu namorado durante os intervalos. Na hora do almoço, passava em casa para cozinhar e levava uma marmita para dividir com Kyungsoo, mesmo sendo contra as regras do hospital. Depois voltava para trabalhar numa loja de CDs que ficava algumas ruas dali. Assim que o Sol se despedia, Jongin voltava para ficar com seu pequeno até que este adormecesse e, às vezes acabava dormindo ali também, outras voltava para casa. Nos fins de semana costumava a ir logo cedo para o hospital e sempre inventava algo de diferente para alegra os dias de Do. Era uma rotina pesada, cansativa, mas o garoto não demonstrava fraqueza. Estava ali pelo namorado e ficaria ao seu lado até seu coração parar de bater.

 

-Nini, estava maravilhoso. –Kyungsoo lambeu seus lábios e virou o rosto acabando por se deparar com o espelho do banheiro que por acaso tinha sua porta aberta. O sorriso morreu num rompante. As lágrimas começaram a encher seus olhos e estavam prontas para jorrarem como cachoeiras. Mas Jongin percebeu a repentina tristeza e tratou de espantá-la segurando o rosto do menor.

-Estava tão bom assim que você ficou emocionado? –Brincou abraçando ao namorado com cuidado. Não queria machucá-lo.

-Não é isso. –O enfermo respirou fundo tentando fazer o ar entrar em seus pulmões. – Olha para mim. Estou cada dia pior, num estado deplorável. E você é tão bonito, tão gentil... Podia estar num relacionamento saudável. Eu estou acabando com sua vida, Jongin, estou te prendendo a algo que não vai durar. É como se você estivesse regando uma flor murcha que está condenada a morrer. Por que ainda perde tempo comigo sendo tão legal? Eu não mereço isso, eu sou...

-Porque eu te amo, Kyung.-Respondeu simples, como se fosse tão óbvio quando a fórmula da água. –Eu sei e você também sabe que não adianta regar a tal flor uma vez que ela está condenada a morrer. Mas eu quero ser o Sol desta flor até o último dia que ela aguentar.

-Você é um idiota, sabia? –E o pranto veio sem nem pedir licença. Do escondeu seu rosto no peito do namorado e começou a soluçar. Sempre mostrava-se forte, indestrutível ou, quem sabe, conformado com o destino. Mas só Jongin sabia o tamanho da fragilidade que morava naquele serzinho. Somente ele sabia o pavor que Kyungsoo tinha do juízo final, do dia da despedida.

-Um idiota que te ama. –Retrucou e iniciou uma carícia cheia de amor nas costas do pequeno. –Você sabe que dia é hoje?

-Não faço ideia. Eu perco um pouco da noção do tempo aqui no hospital. –Mentiu só para Jongin continuar.

-Sei disso. Hoje é nosso aniversário de namoro. Três anos juntos. –Disse todo orgulhoso, enchendo o peito para falar.

-É verdade! –Kyungsoo movimentou-se rápido e acabou ficando tonto. Sua cabeça girou e ele precisou agarrar com força a blusa do maior. –Nossa.

-Você está bem? –Jongin sentiu-se tenso, segurou o corpo de Do notando a palidez de sua pele.

-Está passando. Foi uma das minhas tonturas. Estou com dificuldade de respirar, acho que preciso do oxigênio.

-Certo. –Ainda preocupado, o moreno deixou o menor ajeitado sobre a cama e se levantou para poder arrumar o oxigênio e o cabinho que encaixaria na narina de Kyungsoo. Desenrolou com atenção e o encaixou como precisava. Já estava acostumado, poderia ser até mesmo auxiliar de enfermagem tamanha sua dedicação. Deu a mão a seu companheiro que parecia um pouco ansioso, mas ficou aliviado ao sentir o ar retomando aos seus pulmões como tinha que ser. O coração de Jongin voltou a bater com tranquilidade e ele também pode respirar normalmente. Cada vez que o menor passava mal era um desespero diferente.

-Estou melhor. Acho que não consigo mais ficar muito tempo longe do oxigênio. Sinto como se meus pulmões fossem pedras, como se eles estivessem enrijecidos. Ou simplesmente como se eu não tivesse mais força para puxar o ar.

-Então não tire mais o oxigênio, pequeno. –Jongin ajeitou os fios do aparelho passando-os por cima das orelhas do namorado. –Você acha que aguentar sair do quarto hoje?

-Sair do quarto? O que você quer dizer com isso?

-Calma, amor, não é bem o que você está pensando, me desculpe. –Lamentou o moreno. –Eu realmente tentei falar com a administração do hospital para poder te levar para fora hoje, assim comemoraríamos nosso dia num restaurante lindo, com vista para o rio Han. Mas eles negaram... Disseram que é preciso autorização da família. Se acontecer algo de pior para com você enquanto estivéssemos fora, a administração do hospital sofreria um processo tremendo. Eles não podem arriscar assim.

-Eu entendo, Nini. –Disse o menor cabisbaixo.

-Mas, por favor, não fique assim. –Jongin voltou a passar sua mão quente no rosto gélido do namorado, lhe fazendo carinhos constantes. –Com ajuda do doutor Chanyeol, do enfermeiro Sehun, dos seguranças Jongdae e Minseok, além de várias outras pessoas, incluindo a Jung, consegui elaborar uma surpresa maravilhosa.

-É verdade? –Os olhos esbugalhados ganharam um brilho. –Que tipo de surpresa?

-Uma que envolve se divertir muito. Você acha que consegue?

-Mesmo que seja meu último dia, Nini. –Kyungsoo se animou. –Eu faço qualquer coisa para sair desse quarto e que não seja para ir para sala de exames.

-Eu sei meu anjo. Vamos aproveitar que o dia está lindo. –Jongin não pode acreditar que aquele dia finalmente chegara. Foi necessário travar uma luta épica com o Hospital para conseguir retirar o menino do quarto ao menos um dia que fosse. Precisou usar o choro como argumento, precisou brigar muito e contar com a comoção de muitos profissionais dali que viviam acompanhando o relacionamento de ambos. Precisou lutar contra o preconceito porque os gerentes do lugar só se referiam ao moreno como “amigo do paciente”. Que amigo que nada! Eles eram namorados, amantes, pessoas apaixonadas! Mas havia conseguido. E precisava fingir que estava tudo bem. Havia conseguido porque o último exame feito em Kyungsoo apontava que o tumor estava por quase todo o cérebro do menino e que ele não duraria muito mais que uma semana. Na verdade, poderia morrer a qualquer momento.

-Vamos sim! Você é realmente o melhor namorado,Nini. –E Kyungsoo segurou com todo o restante de suas forças as lágrimas.

-Vamos. –O moreno pegou a cadeira de rodas que ficava no canto esquerdo, ao lado da porta do banheiro e a trouxe para mais perto. Depois encaixou suas mãos, uma nas costas e a outra debaixo das pernas de Do para, enfim, levantá-lo da cama e colocá-lo na cadeira. O ajeitou com esmero. Deixou beijinhos na testa, nas bochechas e nos lábios. Depois arrumou o cilindro de oxigênio para que este pudesse ser levado apenso ao paciente.

-Estou tão feliz, sinto que meu coração vai sair pela boca. –Comentou o menor fazendo uma careta de dor vindo de suas pernas. –Mesmo morrendo de dor de cabeça.

-Você quer que eu peça para aplicarem um pouco de morfina? –Jongin questionou enquanto ajeitava o tripé do soro que também deveria ser levado durante o passeio.

-De jeito nenhum. Por muito tempo me privei de sentir as emoções por completo. Hoje eu quero vivê-las, é a minha última oportunidade.

-Certo, pequeno. –O maior precisou engolir o choro, balançar a cabeça e botar o seu belo sorriso novamente.

 

Assim que tudo se ajeitou, o moreno abriu a porta do quarto e revelou para Kyungsoo um corredor agitado, com enfermeiros passando de um lado para o outro. O menor piscou algumas vezes mostrado-se admirado, era como se estivesse conhecendo o mundo novamente. Sua visão andava turva, mas não o impedia de ver as plantas verdinhas penduradas nos cantos do hospital. Reparou nos quadros, nos números em dourado pendurados em cada porta, cumprimentou cada médico que lhe deu tapinhas nas costas. Estava tão sorridente que podia sentir o músculo de suas bochechas doerem.

Mas nada superou o que seu namorado fez em seguida. Distraído com um garotinho também careca devido ao tratamento quimioterápico, Kyungsoo não percebeu a intenção do moreno ao colocar a pequena criança em seu colo. Do achou fofo, aninhou o garotinho e fez a voz para seu coelho de pelúcia. Porém, no momento que Jongin acelerou a cadeira de roda pegando velocidade pelos corredores, o enfermo gritou e gargalhou sentindo a deliciosa adrenalina lhe abraçar. O menininho em seu colo se divertiu tanto quanto ele. Mas a pessoa que realmente aproveitou o momento foi Chanyeol, o médico responsável pelo caso de Kyungsoo.

O gigante doutor entrava na frente da cadeira para assustar ao garoto de cinco anos que perdia o ar de tanto que ria. Jongin fugia de um lado e Chanyeol aparecia de outro. O hospital ficou uma baderna, mas ninguém ousou reclamar. De repente todos estavam contagiados com a alegria que estava apenas começando. O oncologista avisou a seu paciente que Sehun iria preparar um delicioso almoço para eles comemorarem o aniversário de namoro, porém teriam de esperar um pouco mais porque o enrolado do médico Baekhyun havia queimado a primeira receita. Ainda bem que ele era cardiologista, e não cozinheiro.

Chanyeol pegou seu outro paciente do colo de Kyungsoo e deu um high five animado avisando que estava na hora dele voltar para tomar alguns remedinhos. Ambos se despediram dos amigos e Jongin continuou sua caminhada com o namorado, todavia com mais tranquilidade e sem a correria. Chegaram até próximo do elevador e aguardaram o mesmo até que este estivesse no andar. Adentraram ainda ofegantes da brincadeira de outrora e assim que a porta fechou, Kyungsoo desatou a rir.

 

-Isso foi tão bobo, mas tão divertido! –Comemorou com um sorriso em forma de coração.

-Pois você nem imagina o que vem a seguir!

 

Mesmo com a insistência de Kyungsoo, o namorado não se atreveu a contar para onde estavam indo. Ele só sabia que o elevador não parava de subir e, possivelmente, eles estavam seguindo para o terraço. Seu raciocínio logo foi comprovado, chegaram ao último andar e atravessaram uma porta de vidro. Era impossível não se emocionar com o ambiente criado exclusivamente para eles. Tudo ideia de Jongin, mas com participação especial de Minseok e Jongdae.

Havia uma estrutura formando uma enorme barraca na cor branca. Seu formato era engraçado, parecia uma tenda indiana. Por dentro era possível encontrar um monte de almofadas. Logo mais a frente, havia uma mangueira jogada no chão e de repente tudo fez sentido na cabeça do enfermo. Havia falado na semana anterior que sentia falta da praia, da piscina, de tomar Sol... Aquilo só podia ser coisa de Jongin.

 

-Você... É mesmo o que eu to pensando? –O pequeno disse quase que saltando na cadeira.

-Se você está pensando em ficar todo molhado... –Jongin deixou a cadeira de Kyungsoo num lugar estratégico e se afastou para pegar a mangueira e lançar um olhar brincalhão, como o de uma criança que está prestes a aprontar. Não deixou nem mesmo o outro pensar direito, abriu a torneira o máximo que pode e precisou segurar firme para que a água não saísse descontrolada pelo terraço do hospital. O jato foi certeiro na cabeça de Kyungsoo que tentou se proteger, mas não conseguiu mover seus braços com agilidade. Ficou ensopado em poucos segundos e se deliciou com a sensação da pele molhada.

Só não se deliciou mais do que com a imagem de seu namorado sem blusa. Jongin queria aproveitar aquele momento junto a seu pequeno e acabou tirando parte de sua roupa para não ficar colando em seu corpo. Ah, a saudade bateu forte do tempo em que eles chegavam do colégio e os pais de Kyungsoo não estavam em casa. Eram beijos afobados de um lado, mordidas possessivas do outro e um amor sem igual sobre a cama. Que saudade o moreno tinha de se deitar com seu companheiro, lhe fazer massagem e receber aquela massagem naquele lugar. Eram tempos bons que ele faria questão de guardar a sete chaves em suas memórias.

Mas também não perderia a oportunidade de provocá-lo, mesmo que fosse pouca coisa. Ao notar o olhar vidrado do namorado, Jongin direcionou a água para cima deixando pequenas gotas caírem sobre seu peitoral bem definido. Os lábios de Kyungsoo se entreabriram rapidamente, como se buscassem se umedecerem após uma cena de muito calor. Era possível ver o suor escorrer de sua testa e a cada vez que o moreno passava a mão por seu próprio corpo, um suspiro maior escapava dos lábios do enfermo.

 

-Gosta do que vê? –Comentou se aproximando e voltando a molhar seu namorado.

-Você é lindo. Sinto falta de fazer amor com você.

-Você também é lindo, sabia?

-Até parece... Eu estou horrível.

-Você é lindo, Kyung. –Jongin segurou o queixo do menor o fazendo fixar seus olhos nos alheios. Depois debruçou sobre o pequeno e lhe roubou um beijo. Mas não um beijo qualquer; era repleto de carinho, devoção, amor, paixão. As línguas trabalhavam num ritmo sincronizado, talvez fosse o melhor beijo dos dois. Tão intenso e cheio de sentimentos que em poucos segundos tornou-se salgado. É que as benditas lágrimas estavam ali mais uma vez. E partindo de ambas as partes.

-Você está chorando. –Kyungsoo afirmou sentindo uma batida de seu coração falhar. Jongin era a pessoa mais positiva que conhecia, se ele estava triste é porque a situação realmente demandava uma dose de depressão.

-São lágrimas de amor. E de ansiedade também. –O moreno confirmou se ajoelhando na frente do namorado.

-Eu quero sentir seu corpo. –O menor comentou tentando erguer as mãos em direção a Jongin. O maior não tardou a ajudar, e com auxilio de seus dedos, conseguiu trazer os de Kyungsoo até sua pele. Os toques foram sutis, aos poucos o pequeno dedilhava a tez morena sentindo o calor natural que ela emanava. O moreno olhava Kyungsoo com idolatria enquanto pensava no tamanho da saudade que teria que suportar. –Desce um pouco mais.

-Você está muito safadinho hoje. –Jongin provocou ao perceber aonde o namorado almejava chegar com as mãos. –Ainda estamos em um hospital, sabia?

-A minha boca ainda funciona muito bem.

-Kyungsoo! –O moreno ficou vermelho como pimenta e afastou as mãos do namorado que caiu na gargalhada.

-Tudo bem, já entendi...

-Não é que eu não queira, mas eu estou com outra ideia na cabeça.

-E que ideia que é essa?

-Sei lá, a gente podia casar, não é mesmo?

-O quê? – Kyungsoo deu um grito. Era seu sonho, afinal. –Eu achei que eu era o doente aqui!

-Não fale assim, amor. Poxa eu sei que seu sonho é casar e eu gostaria de proporcioná-lo antes que você...

 

Silêncio. Não seria necessário completar meias palavras. Aliás, sem as palavras já doía, imagina se elas fossem concretizadas. Era melhor que se ficasse em silêncio. Por isso Jongin calou-se. Meteu a mão no bolso direito de sua bermuda e tirou uma caixinha de veludo. Abriu a mesma e mostrou a Kyungsoo o anel que ele havia escolhido. Era de ouro branco, maravilhoso. Ainda sem palavras, o menor moveu a cabeça positivamente e teve sua mão puxada para que o anel se encaixasse com perfeição entre os dedos. Depois, o moreno o ajudou a colocar o anel em si e beijou a mão de seu amante demoradamente.

 

-Sabe, isso está parecendo filme da sessão da tarde. –Comentou o enfermo assim que seu namorado desligou o esguicho. Eles ainda estavam ensopados. –Todo clichê.

-Você tem algum problema com clichês?

-Eles são chatos e entediam rápido. São repetitivos e nós já sabemos o final.

-Então por que existe?

-Porque tem gente gosta.

-Eu gosto de clichês. Eu gosto de dizer que te amo. Parece que hoje dizer eu te amo é muito clichê e as pessoas não gostam mais.

-Você é um romântico sem remediação, Nini. Digo que não gosto de coisas imensamente repetitivas porque elas entendiam. É como o teto branco do quarto. Eu odeio esse branco.

-Você precisa aprender a olhar o clichê pelo outro lado, amor. A história pode ser a mesma, mas os sentimentos, ah, esse são únicos. Lembra-se daquela vez que a gente transou na maca, eu coloquei a poltrona na frente da porta, foi logo uma semana depois que você foi internado. Você ficou olhando para o teto... Mas aposto que não estava sentindo tédio.

-Não mesmo, foi uma das nossas melhores vezes. Foi uma loucura... Eu senti muito tesão. –Kyungsoo envergonhou-se de seu próprio comentário.

-Então, e daquela vez que dormimos juntos e eu fiquei cantando para você. Você também ficou olhando para o teto.

-Daquela vez eu estava bem triste, só conseguia sentir dor.

-Viu só. O mesmo branco, sentimentos diferentes. A vida, amor, é feita de momentos clichês. A diferença está em como escolhemos senti-los.

-Você está muito filosófico hoje, Nini. –Kyungsoo se esforçou e conseguiu tocar nos cabelos negros do namorado.

-Desculpe, amor. Talvez eu esteja tentando conversar comigo mesmo.

-Você está com medo, não está?

-Confesso que sim.

-Eu também. Eu não queria te deixar.

-E eu não queria deixá-lo ir.

-Você me promete que vai se cuidar?

-Pare de falar isso. Até parece que você vai embora hoje.

-Nini...

-Eu sei.

-Eu te amo.

 

Jongin não conseguiu responder. Abaixou sua cabeça e se arrepiou todo. Mas felizmente aquele momento de tortura finalizou com a voz animada do doutor Baekhyun que chegou junto à Sehun. Assim como em filmes americanos, eles trouxeram o almoço em um carrinho no qual a refeição estava escondida por debaixo de uma grande abóboda de alumínio. Sehun até mesmo se fantasiara de garçom, assim como o cardiologista vestia um dólmã de chef de cozinha. Os dois foram guiados para uma mesa improvisada ao lado da grande tenda e ali o almoço foi servido.

O prato escolhido era o favorito de Kyungsoo, risoto com bastante camarão. Os dois esbaldaram de tanto que comeram, Jongin tinha certeza que sairia rolando dali. Foi até mesmo permitido que o enfermo tomasse um golinho de vinho. A diversão, as piadas, as lembranças causaram um misto de alegria e tristeza. Sehun e Baekhyun participaram tentando proporcionar aos dois o melhor momento de suas vidas.

E assim a tarde caiu, as primeiras estrelas começaram a despontar no céu e os raios de sol tornaram-se alaranjados. Os pratos foram recolhidos e o casal voltou a ficar a sós. A sensação de paz ficou mais acolhedora também. Jongin dirigiu a cadeira de Kyungsoo até a tenda e o retirou da mesma arrumando seu corpinho sobre as almofadas. Depois acendeu as velas que tinham um aroma gostoso de camomila. Por fim, deitou-se ao lado de seu amor e entrelaçou seus dedos aos dele.

Por causa do fino tecido, era possível enxergar o céu ganhar sua tonalidade negra aos poucos. Ficaram abraçados, corpos colados, olhos nos olhos aproveitando cada milésimo de segundo. Os narizes roçaram sutilmente, alguns beijos foram trocados e a harmonia das respirações os deixou ainda mais envolvidos no clima. Até que Kyungsoo gemeu baixo pela dor que sentia em sua cabeça e pernas. Jongin selou sua testa e começou a sussurrar uma canção de ninar nos ouvidos do namorado. Ainda era cedo, na verdade sempre seria. Ele nunca estaria pronto para o momento da partida.

 

-Você sabe que ainda pode mudar de ideia. –Jongin disse sem muita força.

-Eu sei. Mas eu já tomei minha decisão. Conversei com Chanyeol antes de ontem. Sei que ele te contou minha decisão.

-Só mais um pouco, por favor. –O moreno implorou apertando o corpo de seu namorado.

-Eu não quero me esquecer de você. Chanyeol falou que não passa de uma semana. E que nos últimos dias é bem possível que eu fique demente, sem saber mais de nada, ou então em coma induzido. Eu não quero que termine assim. Eu quero fechar meus olhos e lembrar de seu rosto. É com essa imagem que eu quero ir.

-Pequeno...

-Desculpe o egoísmo, Nini, mas também quero que você se recorde de mim com esse sorriso. –E Kyungsoo sorriu.

-Se essa é sua escolha, eu vou apoiar. Mas...

-Nós havíamos combinado, Nini. E esse foi o melhor dia da minha vida porque eu estive ao seu lado e nada mais importa. Eu sempre estarei ao seu lado.

-Eu sei amor. –E chorou. Porque não dava mesmo para não transbordar emoção.

-Eu... Vou sentir saudade. Quer dizer, não sei se do lado de lá ainda existe sentimento, mas se existir eu vou sentir.

-Eu nunca vou esquecer você. Nunca.

-Obrigado por ter entrado em minha vida.

-Kyung,por favor, eu não...

-Amor, nós combinamos. Você cumpriu com sua parte de dar o melhor dia da minha vida. Agora eu preciso ir. Eu não aguento mais essa dor. Eu não aguento mais te ver sofrer.

-Tá bem, amor. Tá bem. Na verdade não está nada bem.

-Jongin. –E Kyungsoo respirou fundo. –Tira o oxigênio, por favor.

-Não... Só mais um pouco. –O moreno tremia de tanto que soluçava. Era como se um pedaço de si estivesse morrendo.

-Amor. –E com muito sofrimento, Jongin o fez. Os cabos foram afastados. –Obrigado.

-Eu te amo tanto.

-Eu sei. Eu tenho um desejo.

-Qual? –Questionou desesperado.

-Me beija.

-Mas você já está com dificuldade de respirar. –Jongin afirmou ao ver o esforço que seu namorado fazia.

-Me beija.

-Só posso beijar depois que você disser sim.

-Achei que o pedido de casamento já valesse.

-Você tem que dizer sim.

-Ok. –Respirou com dificuldade novamente. –Sim, eu aceito.

-Então agora você é meu marido e eu já posso beijá-lo.

 

Jongin fechou seus olhos e beijou os lábios gelados de Kyungsoo. Ainda não se conformava com a escolha do namorado, mas havia prometido apoiá-lo. Do optara por não se medicar mais. Suas condições já estavam ao fim e ele queria aproveitar seus dias finais com alegria e não entubado na UTI. Sabia que a Morte estava lhe tocando os ombros alegando que era hora de partir. Mas antes precisava daquele beijo. Abriu os olhos uma última vez e não havia a imensidão branca. Pelo contrário. Estava tudo escuro, tudo negro. Aos poucos, sentia-se sumindo, como se estivesse se afogando naquele escuro pesado e denso. E se sentiu um imenso idiota. Tanto almejou o negro que agora sentia falta do branco. Porque o branco é composto por várias cores, mas o preto... O preto é ausência da cor. A ausência da vida.

Mas Kyungsoo não tinha mais escolha. Suas cores haviam chegado ao fim.


Notas Finais


É só isso mesmo. Desculpa ai qualquer coisa e assim que eu tiver oportunidade eu pretendo melhorar essa fic. Fazer uma riqueza de detalhes maior e deixá-la com mais sentimento. Mas mesmo assim, obrigada!


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