História Brinquedo mal-assombrado - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Personagens D.O, Kai, Sehun, Xiumin
Tags ?2concursoexofanfics?, Dtehospital, Terror, Xiusoo
Exibições 28
Palavras 7.764
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Suspense, Terror e Horror, Violência
Avisos: Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


Hospitais... se esse tipo de hospital não estiver correto... céus! vai ser bem decepcionante TT hsuahsuasushuash Sabem aquela pessoa que cai de paraquedas em um tema completamente "desconhecido"? Prazer.

Aviso que é bem possível que um XiuKai possa estar presente, mas como não focaremos em couples apenas leiam e sejam felizes <3

Aviso 2, leiam com as luzes apagadas e com uma música bem macabra ^^ deixa tudo melhor

Boa leitura!! o/

Capítulo 1 - Capítulo Único


 

 

— Estamos velhos demais para isso. — Murmurou Do Kyungsoo de braços cruzados, tendo uma distância segura do prédio capengando. As pessoas ao seu redor sorriam, zombavam uns dos outros, apostavam dinheiro e bebidas, tudo para saber quem seria o mais corajoso.

— É uma casa assombrada! — Disse Oh Sehun entusiasmado, o garoto tinha brilho nos olhos e ambos arregalados e excitados, toda aquela energia deixava-o elétrico de uma maneira muito infantil, porém Kyungsoo gostava, gostava principalmente porque Sehun só se permitia extravasar e sorrir daquela forma quando estava ao seu lado. — Não existe restrição de idade! É um brinquedo.

— Exatamente! É um brinquedo.

Sehun encarou seu amigo com um bico nos lábios, o garoto batia os pés impacientemente no chão de areia, encarando com afinco as pessoas que iam entrando no prédio mal-assombrado. Kyungsoo ria de tudo aquilo, ele sabia que seu amigo teria pesadelos a noite, não conseguiria dormir e provavelmente pediria por uma companhia e Kyungsoo, como o bom amigo que era, atenderia mais um pedido. E por ser um bom amigo, Kyungsoo cedeu, enquanto olhava Sehun mordendo o lábio inferior ainda encarando o maldito brinquedo.

— Está bem! — Disse ele por fim. — Vamos comprar os ingressos.

De imediato Sehun voltou a sorrir, esbanjava um sorriso aberto e escancarado que fez com que seus olhos se encolhessem. Ambos foram até a bilheteria do parque e compraram as duas entradas, cada um com seu dinheiro.

— Vocês são loucos de entrar lá. — Disse o homem da bilheteria, com um sorriso engraçado no rosto.

— Será divertido! — Replicou Sehun, dando pulinhos constantemente, expressando, sem intenção, sua agitação.

Kyungsoo tratou de puxar seu amigo para a fila do brinquedo, não parecia grande coisa, podiam ouvir mais risadas do que gritos de terror vindos de dentro do prédio, uma grande quantidade de pessoas, em sua maioria jovens e crianças, paravam em frente à casa assombrada decidindo se deveriam testar sua coragem ou não; Kyungsoo talvez estivesse um pouco mais nervoso do que gostaria de admitir, mas não falaria nada, seria divertido, afinal.

— D.O, — sussurrou Sehun, chamando seu amigo pelo apelido que apenas ele e alguns mais íntimos arriscavam dizer, — acho que aqueles caras estão olhando para a gente. Disfarça!

Kyungsoo jogou as mãos no rosto escondendo o sorriso bobo que lhe tomou a face, em seguida, segurando os fios castanhos com as mãos, olhou ao redor do parque, mas atentando-se ao máximo em qualquer pessoa bonita que os olhava; encontrou uma fila imensa no carrinho de algodão doce, crianças correndo próximas a roda gigante e dois homens, não muito distantes, vestidos despojadamente encarando a fila da casa mal-assombrada. Um deles, o mais alto, vestia uma jaqueta de couro preta e calças jeans, enquanto o outro vinha com uma blusa social preta, dobrada até os cotovelos, um boné preto escondendo a maior parte dos fios loiros e óculos escuros. Óculos escuros. Kyungsoo divertiu-se com aquilo, afinal eram dez horas da noite.   

— Aqueles dois? — Perguntou Kyungsoo, voltando a olhar para seu amigo. — Com roupas pretas?

Sehun assentiu e, ironicamente, nenhum dos dois tentava mais disfarçar, ambos encaravam os outros dois garotos, provavelmente de sua idade, com afinco, ora trocavam risadas e comentários maliciosos, ora decidiam como iriam dividir os casais.

— Quero o mais alto. — Anunciou Sehun, encarando extasiado o outro casal de amigos.

— E eu o loiro.

A fila avançou, deixando apenas mais duas pessoas na frente de Sehun e Kyungsoo, eram duas garotas, muito jovens, muito bonitas, talvez não tivessem mais que catorze anos, Kyungsoo observava-as distraidamente, estavam mudas, o medo que as cercava devia ser absurdo, provavelmente. As duas garotas, repentinamente, saíram da fila, dando espaço para que outras duas pessoas tomassem seus lugares.

— Obrigado, docinho! — Disse um homem alto, de cabelos escuros e jaqueta preta; o mesmo que observava os dois amigos anteriormente. Este homem, acompanhado de seu amigo que em nenhum momento desviou o olhar do funcionário do parque que olhava despreocupadamente a cena, beijou uma das garotas, era a mais frágil e o beijo envolveu línguas e gemidos.

Kyungsoo encarou Sehun e ambos traziam a mesma dúvida: o que estava acontecendo? Afinal, aquilo era errado, eram apenas crianças, não eram?

Os dois amigos viam o beijo se tornar cada vez mais rápido, cercando braços e puxões de cabelos, contudo apenas o homem realizava aqueles atos, a garota e sua amiga estavam estáticas, pareciam estátuas e certamente Kyungsoo e Sehun pensaram que se tratavam de estátuas. O outro homem, o loiro com óculos escuros, acendeu um cigarro despreocupadamente, como se aquele beijo erótico em uma menina de catorze anos fosse algo correto.  

Kyungsoo vendo que aquela cena não acabaria e que ninguém no parque, nem mesmo o inútil do funcionário que observava a cena petrificado fariam alguma coisa, foi ele mesmo tomar uma atitude.

— Ei! — Entoou ele rispidamente, dando tapas no ombro do homem que compulsivamente continuava beijando a adolescente de catorze anos. O beijo foi encerrado, a garota não demonstrava nenhuma reação, sequer olhou para Kyungsoo, entretanto, os dois caras encaravam o coreano de razoáveis um metro e setenta, despreocupadamente.  — Isso é um parque de diversões. Há crianças, famílias, ninguém é obrigado a presenciar seu beijo...  apaixonado.

Com um movimento feito com a cabeça do homem de jaqueta de couro, as duas meninas saíram da fila e afastaram-se como se nada tivesse acontecido. Sehun olhou para Kyungsoo, esperando encontrar aquele mesmo olhar de “o que está havendo aqui?”, mas Kyungsoo deferia uma carranca enraivecida pelo homem a sua frente.

Eram marginais, certamente. Deviam viver cercado por drogas e talvez estivessem drogados naquele instante, porém rótulos não importavam para Kyungsoo, ele apenas possuía muita liberdade para falar, tinha uma língua afiada e incontrolável, se ele não gostava de algo, ele simplesmente dizia, sem se importar com as consequências.

O mais alto deu as costas e adiantou-se a andar, visto que o funcionário do parque chamou os próximos da fila; o outro, antes de fazer o mesmo ato que o amigo deu uma baforada com aquele maldito cigarro muito próximo ao rosto de Kyungsoo, deixando o coreano com pensamentos muito, muito agressivos.

Sehun segurou seu amigo pelo ombro, prevenindo que acontecesse qualquer coisa que estragasse a noite, mas para Kyungsoo a noite já havia acabado.

— Não vou entrar com esses caras. — Falou, convicto de que ele não seria capaz de se controlar se o deixassem trancados na mesma sala.

— D.O, — murmurou Sehun, fazendo novamente aquele bico com os lábios, seus ombros caíram e o dinheiro que havia sido gasto no ingresso parecia ter sido desperdiçado.

— Os próximos da fila! — Chamou através de um microfone o funcionário que esperava na porta do prédio junto com os outros dois bonitos e estranhos homens. Kyungsoo não se mexeu, olhou para trás pronto para deixar que outros passassem em sua frente, mas não havia mais ninguém.

— D.O, por favor!                

— Os próximos da fila! — Entoou novamente o funcionário. — Preciso de no mínimo quatro pessoas para liberar a entrada.

Kyungsoo bufou, se existia um destino e ele acreditava que sim, certamente estava sendo caçoado. O coreano encarou os outros dois homens, o mais alto estava de costas, encarando a porta do prédio assombrado, contudo, o outro deferia olhares indecifráveis a Kyungsoo; parecia estar desafiando-o, como se dissesse “aposto que não vai querer entrar no prédio, não é?”

Sehun, desistindo de convencer o amigo, saiu da linha que demarcava onde a fila se iniciava, mas uma mão firme pegou seu pulso e logo os dois estavam entregando os bilhetes para o funcionário. Kyungsoo poderia estar louco, mas podia jurar que o cara com óculos escuros sorriu, um sorriso esnobe e zombeteiro, era um sorriso que mostrava toda sua gengiva e dentes brancos e alinhados, com certeza se aquele cara fumava não era diariamente, seus dentes eram perfeitos.

A porta foi aberta, arranhando o chão e criando um ruído desagradável, os quatro e somente os quatro adentraram ao prédio. O som agitado do parque de diversões ficou para trás, tal como suas luzes coloridas. A porta foi fechada, arranhando novamente o chão e criando novamente um ruído desagradável.

Lá dentro o escuro não conseguia dominar, pois algumas luzes vermelhas no teto e no chão sinalizavam para que todos pudessem andar vendo onde pisavam.

Sehun estava ao lado de Kyungsoo e o garoto parecia ainda mais elétrico, apertando o braço do amigo a todo o momento, revirando a cabeça de um lado para o outro esperando ver algo realmente apavorante.

— Bem-vindos, caros pacientes! — Proliferou uma voz grossa e logo a sombra de um homem transformou-se em carne e osso, usava um jaleco branco manchado de sangue e luvas da mesma forma, percebeu Kyungsoo, apesar da pouca iluminação. O rosto do homem parecia o de um louco, com olhos fundos e vermelhos, piscava com frequência e tremia a boca de maneira forçada. Era um bom ator, tinham de admitir. — Somente os mais honrados chegam ao final do labirinto, o hospital esconde mistérios malignos e se vocês encontrarem algum corpo, certamente entenderão que são os próximos.

O médico soltou uma risada macabra, dessas que vemos nos filmes infantis, Sehun bateu novamente no braço de Kyungsoo, entusiasmado.

— Do outro lado dessa porta, vocês vão encontrar as mais terríveis experiências. Mutações que deram tragicamente errado! Homens metade homem metade animal, sanguinários e carnívoros, o primeiro que os ver será o primeiro a morrer, tomem cuidado, pois as experiências são monstruosas, causadas por cálculos mal feitos e nem

— Você deve ser um péssimo médico. — Disse um dos homens ao lado de Kyungsoo, interrompendo a encenação do médico; Kyungsoo deu-se conta que se tratava daquele que usava óculos e boné, contudo agora o homem não usava nenhum dos dois, esbanjava os fios loiros, jogando-os todos para trás.  — Para suas experiências darem tão errado.

O ator, não se deixando intimidar por aquele ser arrogante que queria chamar a atenção, correu aos pulos até ele.

— Vocês são minhas experiências. — Sussurrou, carregando a voz de uma maneira que chegou a trazer arrepios em Sehun e Kyungsoo. — Um pelo amor e um pelo medo. Uma experiência e um fracasso. Sobrevivam ao hospital se forem capazes, meus caros pacientes.

Uma nova porta se abriu, deixando que um som tenebroso entrasse na cabeça dos quatro jovens, o médico soltou uma nova gargalhada maligna e correu para o meio das sombras, deixando apenas os quatro jovens e uma porta escancarada.

Todos, com aquela sensação de excitação e receio, deram passos confiantes para dentro do labirinto. Kyungsoo achava graça naquilo tudo, a música que arrepiava os cabelos do braço, as luzes vermelhas, os gritos silenciosos, até mesmo o sangue trilhando um caminho pelo corredor era motivo para rir e ter a certeza de que aquele brinquedo do parque de diversões era realmente destinado às crianças.

— Haha! Olha esse sangue, D.O! — Disse Sehun, rindo. O garoto e mais jovem do grupo não sabia, mas ele era aquele que estava com mais medo, porém jamais admitiria aquilo em voz alta nem mesmo para Kyungsoo.

A porta, estrondosamente, fechou-se. Deixando os quatro pacientes dentro do labirinto. Logo de início uma escolha: qual caminho seguir?; a bifurcação dividia-se em duas e estava escuro demais para tentar adivinhar o que cada caminho oferecia.

— Por onde vamos? — Interrogou Sehun, sussurrando no ouvindo de seu amigo. Kyungsoo não fazia ideia, como poderia saber? Contudo ele tinha a certeza de que não deviam entrar em nenhum deles, todos pareciam estranhos demais, confusos e aterrorizantes demais.

Antes de Sehun e Kyungsoo tomarem uma decisão, os outros dois homens já se adiantaram e iniciaram sua entrada no caminho da direita.

— Vê se não se perde, D.O! — Pronunciou o cara de cabelos loiros, quando já estava de costas, deixando Kyungsoo impossibilitado de ver aquele sorriso sarcástico e doentio.

— Ele sabe seu apelido, — sussurrou Sehun, mesmo sabendo que não existia mais ninguém para ouvi-los. — Como ele sabe seu apelido?

— Ele ouviu você falando quando entramos. — Disse Kyungsoo, esquecendo-se quase que imediatamente do cara de cabelos loiros.

Ambos, em um consentimento único e silêncio, começaram a andar para o caminho da esquerda. A música ambiente começou a pesar, deixando que súplicas e gritos de terror fossem ouvidos com uma maior facilidade. Deixando que Sehun e Kyungsoo ficassem mais apreensivos a cada passo.

O corredor por onde passavam tinha um cheiro estranho e forte, não era nada agradável. Por toda a sua extensão portas iam recebendo batidas violentas, sangue ia pingando das paredes e braços ora ou outra saiam do chão para tocar suas canelas, alguns caiam do teto, arrancando um grito ou outro de pura surpresa de ambos.

Sehun agarrou-se a Kyungsoo e este fez o mesmo; andando, portanto, esmagando um ao braço do outro, tropeçavam com frequência e gritavam em uma união espetacular.

A primeira sala a qual os garotos deveriam passar era o ambulatório, local onde era realizada pequenas cirurgias, aplicações de injeções e algumas consultas, a sala possuía apenas uma maca, uma mesa e um corpo. Todo o resto estava revirado, sujo e destruído. 

A porta, a qual levava para fora do ambulatório, ficava do outro lado da maca, local onde o corpo se encontrava. Talvez fosse um brinquedo, não respirava e tinha o rosto desfigurado; ao aproximarem-se, os dois jovens notaram que todo o corpo do paciente estava desfigurado, tinha as pernas tortas, um osso exposto no ombro direito e um corte profundo na barriga, que deixava amostra uma grossa crosta esverdeada.

Sehun e Kyungsoo passaram pela maca atentos ao corpo, atentos a qualquer sinal de vida; ambos estavam com medo, mesmo sabendo que tudo não passava de um inocente brinquedo.

Foi Sehun que abriu a porta, empurrando-a com cuidado, mas foi Kyungsoo que escutou algo se movendo atrás deles. No mesmo instante em que um grito horrendo erguia-se da cama, os dois talharam a correr e fechar a porta. Duas batidas violentas foram ouvidas, mas logo foram cessadas.

Os dois amigos trocaram um olhar risonho e acusatório, como se dissessem: “você está cagado de medo”.

O olhar brincalhão fechou-se quando descobriram onde tinham entrado. Era a U.T.I, ou unidade de tratamento intensivo, catorze camas dispostas uma ao lado da outra, criando apenas um único corredor até a próxima porta, que estava visível e longe, muito longe.

— Sehun? — Chamou Kyungsoo, contando e notando que em cada cama uma protuberância podia ser notada por debaixo dos lençóis. Os tambores continuavam insistentes, perturbando a mente e até mesmo a visão dos jovens. — Quando eu disser corre, você corre.

Sehun assentiu, segurando na mão de Kyungsoo que tremia tal como a sua. Ambos fixaram seu olhar na porta, há sete metros de distância. As protuberâncias começaram a se mexer quando ambos deram seu primeiro passo, em seguida as luzes vermelhas começaram a piscar e uma sirene alertando perigo soou, veio rápida e ensurdecedora.

— Agora! — Disse Kyungsoo, iniciando a corrida e puxando Sehun pela mão. Os corpos começaram a grunhir, a debater-se, alguns caiam para fora das camas, outros pulavam para fora da cama, mas seja lá qual a maneira, cada um deles começou a seguir os dois jovens. Sehun meio gritava, meio ria; ele tinha a certeza de que aquele hospital mal-assombrado seria divertido; Kyungsoo apenas corria, tentava a todo custo parar aqueles gritos que inundavam sua mente, eram terríveis e desgastantes, era como se ele próprio estivesse causando toda aquela dor.

Foi Kyungsoo quem chutou a porta e fechou-a antes que os corpos de pacientes mortos-vivos viessem até eles. Do outro lado da porta os corpos gritaram por ajuda, pediram para que Kyungsoo e Sehun tirasse-los daquele lugar. Os dois amigos tiveram a certeza de que alguns deles diziam que os médicos estavam chegando, e repetiam: “tirem-nos daqui os médicos estão chegando”.

Sehun olhou Kyungsoo e ambos estavam ofegantes, Kyungsoo com as mãos no joelho e Sehun com ambas as mãos na cabeça.

— Acha que estamos no fim? — Perguntou Sehun, puxando seus próprios cabelos e rodando a cabeça pelo novo corredor, este mais calmo, contudo mais aterrorizante, possuíam cadeiras de rodas, macas tombadas, paredes cobertas por buracos e uma única luz branca piscando no final do corredor.

Um novo grito fez com que o chão tremesse, as paredes pareciam gemer e as cadeiras ao longo do corredor passaram a se movimentar, mesmo que não existisse ninguém em cima delas para que tal ato acontecesse.

— Eu não sei. — Respondeu Kyungsoo, preferindo encarar o rosto escultural de Sehun do que as luzes que piscavam ao final do corredor.

Os dois amigos olhavam para trás constantemente, tinham aquela certeza bizarra de que estavam sendo observados, talvez fossem as câmeras que deveriam estar escondidas no brinquedo, talvez fossem os próprios atores por de trás das paredes, de qualquer forma, a sensação continuava e tentar não pensar nela não era uma opção. Era incontrolável, existia alguém ali, alguém observando cada passo, cada gesto surpreso, de fato existia alguma presença que os observava.

Sehun gritou ao ser tocado por uma mão que saia da parede, Kyungsoo tentou rir do desespero do amigo, mas estava desesperado demais para isso.

O final do corredor parecia tão longe, tão longe e o som ambiente não ajudava tampouco, parecia que os gritos desesperados e as súplicas ardentes tinham se entrelaçado dentro da cabeça dos dois meninos. Mas foi outro grito que os deixou perturbados, veio tão vivo como os gritos de fãs na frente de seu ídolo.

— Vocês! — Ouviram dizer, a voz tão alta que sobrepôs o som ambiente do hospital; Sehun e Kyungsoo se sentiram estranhos, um tremor friorento preencheu seus corpos, deixando-os com a respiração falha, mas com algum esforço ambos conseguiram se virar ficando de frente para a voz que os chamou, e lá estava ele, o cara alto, de jaqueta, o mesmo que havia deferido um beijo “apaixonante” em uma das meninas que estavam na fila. — Graças a Deus encontrei vocês.

Institivamente, Sehun e Kyungsoo deram dois passos para trás, vendo que o outro com as mãos erguidas sobre a cabeça se aproximava com passos largos, trazia uma expressão aflita e olhares amedrontados consigo.

— Meu amigo... — falou ele com a respiração falha, continuava a se aproximar, com passos vacilantes, porém diminuindo a distância cada vez mais, — ele... ele sumiu. Estava comigo na sala das mutações, mas... mas quando olhei para o lado ele não estava mais lá.

Sehun encarou Kyungsoo, porém o garoto estava muito preocupado com aquele que se aproximava, deixando seu olhar fixo em cada passo que encurtava a distância entre os três.

— Ele deve ter se perdido. — Disse Kyungsoo, puxando Sehun para perto, enquanto dava mais dois passos para trás.

— Não, não... aqueles caras pegaram ele            

— Que caras? — Perguntou Kyungsoo no mesmo instante, o som ambiente não era nada comparado com as batidas descompassadas de seu coração. 

A expressão aflita e amedrontada intensificou-se. O rosto do garoto com a jaqueta de couro curvou-se em dor e desespero, havia medo naqueles olhos e os mesmos ficaram encharcados com lágrimas que não deveriam estar ali. Seu braço foi erguido, apontando para algo atrás de Sehun e Kyungsoo, os dois garotos congelaram, porém, foram incapazes de mover um músculo sequer. O som que se seguiu foi aterrorizante, arrepiando primeiro os pelos do corpo, para só então alcançar os ouvidos. Era um som que torturava, horroroso e mortífero. O som se seguiu outras duas vezes, contudo Kyungsoo já estava no chão e Sehun, após seu grito de terror, também foi ao chão, caindo de costas e movendo-se o mais depressa que conseguiu para longe daquele barulho.

A serra elétrica na mão do garoto mal-encarado de cabelos loiros foi desligada e pousada descuidadamente próxima a sua perna. O mesmo talhou a rir descontroladamente, sendo seguido, do outro lado do corredor, por seu amigo que não aparentava mais estar triste ou sequer desolado.            

Kyungsoo encarou Sehun, com o peito subindo e descendo sem estabilidade alguma, ambos não possuíam palavras nem ações possíveis para serem feitas. Estavam em choque.

— Você tinha que ter visto a cara deles, — gargalhou o garoto com a jaqueta de couro, correndo pelo corredor até seu amigo; a risada fora tão escandalosa que as mãos aplaudiam com força, a barriga começou a dor e lágrimas surgiram nos olhos dos jovens. Sehun também tinha lágrimas nos olhos, contudo as deles eram um pouco mais difíceis de serem aceitas.

Kyungsoo ergueu-se do chão e foi ao encontro de Sehun, que possuía as duas mãos tapando o rosto.

— O grito que o cara deu, que merda!

— Você está bem? — Perguntou Kyungsoo a Sehun, encontrando finalmente palavras que tivessem força para escapar de sua boca.

Sehun não respondeu, odiava chorar e odiava que o vissem chorando, o garoto ficou no chão por mais alguns instantes até que tivesse a certeza de que nada de ruim iria acontecer e que mais nenhuma lágrima pudesse escapar de seus bonitos olhos.

— Vamos, Sehun. — Disse Kyungsoo, puxando desajeitadamente seu amigo para cima. — Levante.

O garoto obedeceu, continuava a ouvir as risadas descontroladas dos outros dois e não conseguia entender o que assustar dois completos estranhos tinha de engraçado. Eles não se conheciam, não tinham intimidade alguma, tudo aquilo era ridículo.

— Espero que não tenham se assustado muito. — Riu o garoto de cabelos loiros. Kyungsoo não poderia dizer em palavras o quanto odiava aquele cara e eles se conheciam a duas horas, não muito mais que isso.   

— É um excelente ator. — Retrucou Kyungsoo, segurando o braço de Sehun com ambas as mãos, visto que podia sentir que as pernas do amigo estavam moles e instáveis.

— Faculdade de Artes Cênicas, — disse o garoto mais alto, sua jaqueta ia sendo retirada do corpo e revelou uma pele morena e lisa.

A serra elétrica foi deixada em um canto qualquer e os dois garotos, ainda sorrindo prazerosamente, se aproximaram. O maldito barulho de tambores e porta rangendo penetrava nos ouvidos de Kyungsoo tal como sinos de igreja, deixando um eco, insuportável, dentro de seu cérebro.    

— E então? Conseguiram achar a saída? — Perguntou o loiro, com os óculos escuros pendurado na gola da camiseta preta. — Kim MinSeok, à proposito.

— JongIn, Kim JongIn. — Apressou-se a dizer o outro, encostando descuidadamente no ombro de Kyungsoo, que se assustou com a espontaneidade deixando que um arrepio gélido percorresse o seu corpo. — Haha! Acho que exageramos no susto.

O garoto gargalhou e imediatamente ergueu ambas as mãos, como se estivesse passando por uma vistoria policial.

— Então, — disse Minseok, percorrendo com a mão os fios loiros, — encontraram a saída?

— Acha que estaríamos aqui se tivéssemos encontrado algo? — Rebateu Kyungsoo, esquecendo-se de que não conhecia aqueles caras e que não devia deixar sua língua tão solta por aí.

— Esse lugar está estranho. — Murmurou Sehun, encarando o chão fixamente. O garoto nem ao menos percebeu que as palavras haviam escapado de sua boca, apenas se deu conta do que tinha acabado de falar quando notou um silêncio estranho e três figuras com sobrancelhas erguidas encarando-o. — Esse lugar está estranho.

— Defina estranho.  — Murmurou zombeteiro, Minseok, deixando que os braços ficassem cruzados em volta do peito.

— Não sei, está bem? — Disse Sehun irritado por todos estarem olhando para ele como se tivesse enlouquecido. — Mas tem algo muito estranho com esse lugar.

Minseok gargalhou, recebendo um olhar risonho de JongIn e dois pares de olhos verdadeiramente preocupados com aquela situação.

— Isso é um brinquedo. — Frisou ele. — Um brinquedo. A intenção dos caras é exatamente essa, fazer com que fiquemos com medo, aterrorizados. 

— Então por que não conseguimos achar a saída? — Perguntou Sehun depois de um minuto de silêncio. — Estamos andando há quase uma hora.

Minseok jogou os ombros para cima.

— É um labirinto, não é? Talvez tenhamos nos perdido... eles irão mandar alguém caso isso tenha acontecido. Relaxem! Vamos nos divertir um pouco.

— Nos divertir? — Questionou Kyungsoo, condenando aqueles outros dois garotos por estarem ali, contudo satisfeito por ele e Sehun não estarem mais sozinhos.

Sehun encarou seu amigo, podia perceber a aflição controlada de Kyungsoo, a boca era mordida com frequência, os dedos batucavam uns nos outros e os olhares procuravam freneticamente qualquer coisa atrás de si.

— Encontramos umas enfermeiras macabras, na outra sala. — Disse JongIn, bagunçando seus próprios cabelos com ambas as mãos. — Vamos até lá!

Sehun observou atentamente os dois garotos virarem as costas e caminharem pelo local de onde viram sair JongIn, ele começou a se perguntar se haveria qualquer possibilidade de aquilo acontecer. “O que eu estou dizendo?”, perguntava-se a si mesmo, “a intenção era essa, não era?”. Diversão. A intenção era sempre se divertir.

— Vamos. — Murmurou para Kyungsoo, que aceitando a escolha do amigo começou a seguir aquela cabeleira loira.

Os quatro jovens passaram por uma portinha minúscula, tendo que se abaixar para atravessá-la, entrando em seguida em outro corredor, este muito mais claro que os anteriores, contudo com o som ambiente muito mais nítido e aterrorizante. Uma parede de vidro revelando um berçário destruído chamava a atenção de todos, não pelas seringas e o sangue espalhado pelo chão nem pelas luzes que piscavam aleatoriamente, muito menos pelo odor de carne estragada e as incubadoras jogadas pelo chão; não, o que realmente chamava a atenção dos quatro jovens eram as enfermeiras. 

Elas zanzavam pela sala, batendo umas nas outras, rindo e falando aleatoriamente, seus rostos estavam cobertos por uma máscara cirúrgica e a roupa branca estava rasgada, revelando abdomens, seios e coxas. 

JongIn correu até a porta aberta e encarou os outros três, esperando no mínimo uns comentários maliciosos em relação as mulheres, todas tinham corpos esculturais, eram tão belas quanto as estudantes de sua universidade.

— Eu não entro ai. — Apressou-se a dizer Sehun, fincando os pés no chão e puxando Kyungsoo pelo braço.

Minseok vendo a cena, soltou um riso desacreditado e começou a se perguntar se aqueles dois eram realmente namorados, seria um desperdício, afinal ele havia realmente se interessado no garoto de olhos grandes.

— São apenas mulheres. — Falou JongIn, tendo a metade do corpo dentro do berçário. — Vamos mexer um pouquinho com elas.

Kyungsoo não se importou de esperar junto a Sehun, estava cansado de correr e de levar sustos, estava cansado e sonolento, todas aquelas luzes e aquele som fazia com o que o pequeno se sentisse dentro de uma balada, uma balada maligna e traiçoeira. Kyungsoo notou o braço manchado de Minseok e não pode conter sua curiosidade. 

— Ei, o que é isso no seu braço? — Perguntou ele, fazendo com que Minseok parasse a quatro passos da porta do berçário, local onde JongIn já havia entrado.

Minseok encarou primeiro D.O, o garoto era realmente bonito, em seguida olhou seu braço, onde um rastro quase imperceptível de sangue fazia-se aparecer.

— Um cara lá atrás me arranhou, ele tinha unhas enormes.

— Deixa eu adivinhar: o mesmo cara da serra elétrica?

Era estranho, realmente estranho. Kyungsoo encarou o corte e só conseguia pensar que aquilo era um corte, não um simples arranhão, o rastro fino de sangue escorria até o pulso de Minseok, umedecendo a camiseta e deixando que a pele branca do garoto ficasse ainda mais clara em contraste com o líquido escuro.

Sehun, desenrolou-se do braço de Kyungsoo e aproximou-se da parede de vidro, observando JongIn mexer com as funcionárias do parque, funcionárias muito bem pagas para amedrontar os visitar do hospital mal-assombrado.

— O que foi? — Perguntou Minseok, retornando ao seu ponto de partida, ficando mais próximo de Kyungsoo, ficando cada vez mais desnorteado em relação àquela beleza. — Nunca viu sangue, D.O

— Para de me chamar de D.O, você não é meu amigo.

— Como devo chamá-lo, então, D.O?

— Kyungsoo. Do Kyungsoo, está bem?

— Temos um problema, — chiou Sehun com a mão na maçaneta da porta, — não quer abrir.

Ele tentou duas, três vezes, quatro vezes, mas sua força não parecia ser o suficiente. Ele estava próximo a porta, mas não a viu se fechar, “estava aberta nesse segundo”, pensava ele frustrado.              

JongIn, tampouco, ouviu a porta se fechar, o som ambiente estava muito alto e o garoto tampouco ouviu, do outro lado do vidro, seu amigo jogando-se contra a porta, na falha tentativa de abri-la.

— Mas que merda! — Chiou Minseok, chutando a porta mais duas vezes e desistindo em seguida. — Não abre.

Kyungsoo revirou os olhos, qualquer idiota conseguiria ver que a porta estava emperrada.

— É. Percebemos.

Minseok, ignorando o sarcasmo do garoto de olhos esbugalhados, socou o vidro com força.

— JongIn! A porta emperrou seu monte de bosta.

JongIn prosseguia, afastando as incubadoras e contornando os destroços estirados no chão, tudo para chegar até as enfermeiras semidespidas.

Todas usavam máscaras brancas no rosto, cobrindo todo o nariz e maxilar, os olhos estavam fechados e elas murmuravam coisas sem sentido algum, falavam sobre guerras, traições e impostores.

O garoto interceptou a primeira delas, tinha só metade dos seios amostra e a saia branca suja de sangue, o mesmo sangue que escorria de suas pernas.

Somos pacientes... — murmurou a mulher no instante em que JongIn ia encostar em sua cabeça, — somos pacientes... pacientes não saem do hospital.

JongIn retirou a mão em choque, o que ele via não parecia lentes de contato, não parecia humano tampouco. O garoto de pele morena, cabelos negros e jaqueta de couro em mãos, deu dois passos para longe da enfermeira, mas a mesma já tinha visto-o, encarava-o como um leão encara sua presa, encarava-o sem olhos com apenas duas bolas vazias, dois buracos grandes e sangrentos.  

— Mas que porra! — Cuspiu ele, vendo a enfermeira se erguer do chão desajeitadamente, os seios pulavam para fora da roupa rasgada, mas aquilo não chamava a atenção de JongIn, não mais.

Do outro lado da porta os três jovens continuavam a tentar abrir a porta emperrada, nenhum deles sequer pressentiu o terror que lá havia.

— Agora, os caras da segurança vão aparecer. — Disse Minseok, despreocupadamente.

A porta foi socada com força, assustando todos os três; Kyungsoo foi até o vidro para observar o que JongIn fazia, mas o garoto preferia não ter se mexido, JongIn estava apavorado e agredia a porta com força, Kyungsoo teve quase certeza de que aquilo não era nenhum fingimento. O pequeno observou, então, o motivo de tanto terror, saia das sombras, se arrastando pelo chão, debatiam-se umas nas outras, mexiam a boca e carregavam lâminas cirúrgicas nas mãos, mãos cheias de sangue, o mesmo sangue que existia em seus olhos... órbitas vazias e negras.

Kyungsoo tremeu, afastando-se do vidro lentamente.

— Abra a porta, — disse ele, tendo a voz falha e corroída pelo maldito som ambiente que insistia com aqueles gritos, gemidos de dor... morte. Minseok apenas continuou encarando-o. — Abra essa maldita porta!

O pequeno empurrou Minseok para o lado e desesperadamente começou a puxar a maçaneta e jogar seu ombro contra a porta.

— JongIn! — Berrou o loiro ao ver a mesma cena que Kyungsoo, as vozes pareciam aumentar, as súplicas se tornavam mais insistentes, as luzes piscavam em uma maior velocidade.

JongIn continuava ouvindo a mesma frase: “somos pacientes... pacientes não devem sair do hospital”; ele viu seu amigo do outro lado do vidro, gritando e esmurrando a parede transparente, viu os outros dois também, todos tão apavorados quanto ele. As enfermeiras continuavam a se aproximar, deixando rastros de sangue por onde passavam, eram seis, apenas seis, JongIn conseguiria dar conta de todas elas.

— Se isso é parte da atuação de vocês é melhor pararem! — Rosnou o garoto, segurando um pedaço de madeira que encontrou no chão.                              

Não era atuação, ele sabia disso, mas a certeza em sua mente não o ajudava, não o acalmava, também pouco soou reconfortante quando após um grito histérico as seis enfermeiras começaram a correr em sua direção. Os gritos se misturavam, vinham de um JongIn, dos três jovens do outro lado, dos gritos que o som ambiente trazia, eram todos gritos desesperados.

JongIn esquivou-se da primeira, acertou a segunda com o pedaço de madeira que não surtiu nenhum efeito, recebeu um golpe na barriga, o sangue subiu pela boca, o garoto podia sentir o gosto amargo e forte de seu próprio sangue, encarou o berçário, lugar onde devia existir vida nova e esperança.

Pacientes... — ouviu uma das enfermeiras dizer, não sabia qual era, todas pareciam tão iguais e todas fecharam um círculo em volta de seu corpo caído.

A faca que veio em sua garganta impediu-o de gritar, mas ele pode ouvir seu amigo gritando do outro lado do vidro, ele podia ouvir Minseok chamando seu nome e aquele chamado seria o último que ouviria; JongIn sorriu, imaginando o que aconteceria a seguir, imaginando em como o destino era algo traiçoeiro. 

— JongIn! — Continuou a gritar Minseok, socando o vidro com força, deixando que seu sangue pintassem a tela transparente. “Não pode ser real, não pode! ”, pensava consigo mesmo.

— Se isso for algum tipo de piada, — rosnou Kyungsoo evitando olhar para o berçário, Sehun acompanhava-o, deixando que seus passos ficassem cada vez mais afastados do vidro, — se isso for uma brincadeira, é melhor

— Brincadeira? — Indagou Minseok, desacreditado.

O garoto cambaleou para longe do vidro tendo sua mente desvanecida. Não teve tempo de dizer ou fazer o que queria, teve tempo apenas de ativar sua mente novamente, pois aquele barulho horrendo retornara e desta vez Minseok tinha a certeza de não era uma brincadeira.

— A serra, — murmurou Sehun, mas foi logo silenciado pela mão de Kyungsoo que voou até sua boca.

O barulho ecoou pelas paredes, uma, duas, três vezes. O pavor afincou-se de tal maneira no corpo dos três jovens que nenhum deles viu quando a porta do berçário se abriu.

Pacientes... — ouviram dizer por suas costas, Sehun fechou os olhos, havia lágrimas neles e dessa vez nenhuma foi impedida de sair. — Pacientes não devem sair do hospital.

A corrida desenfreada teve início, a serra elétrica cercando os quatro cantos e os sussurros ritmados atrás de si. Nenhum deles teve condições para pensar em um plano, se perguntar o porquê de tudo aquilo estar acontecendo ou assegurar-se de que não gritariam quando ouvissem aquela risada maléfica ecoar pelos corredores.

As luzes vermelhas banhavam o corpo dos três jovens, cobriam todas as paredes do hospital, deixando-os cada vez mais apavorados.

Kyungsoo ao passar um dos quartos viu uma sombra, do tamanho de um homem ou maior, a serra elétrica foi ligada novamente, ele fechou os olhos e continuou a correr, seguindo Minseok e Sehun que iam na frente; o forte enjoou invadiu sua garganta, mas o pequeno não se deixou levar pela fraqueza, continuou correndo e gritando coisas que eram esquecidas no segundo seguinte; os três esbarravam nos móveis, nas cadeiras de rodas e no sangue que não parecia tão falso, naquele momento. 

O barulho da serra aproximava-se a cada passo dado, era como se os três jovens estivessem correndo direto para as lâminas afiadas. Kyungsoo, após sentir uma respiração em seu pescoço, caiu em seguida, rolando até bater com a cabeça na quina da parede, o garoto olhou para os lados e incompreensivelmente não viu nada, mas ouviu a serra elétrica, triturando o ar, desafiando seus maiores medos.

— Kyungsoo! — Berrou Sehun, notando a queda do amigo. Sem pensar em absolutamente nada o garoto mais novo correu até o local da queda. Suas mãos tremiam, suas pernas tremiam, suas lágrimas tão secas e tão assustadas. — Vamos, Kyungsoo, levante-se. Rápido!

A serra ia chegando, eles podiam sentir sua presença, o ruído ficava mais próximo a cada segundo e, Kyungsoo com uma dor aguda vindo de seu pé, encarou o membro lesionado.

A torção era leve, talvez nível um, o tênis acobertava o hematoma, mas a dor continua a mesma. Era insuportável.

— Sehun, — sussurrou Kyungsoo ouvindo passos violentos se aproximarem, — saia daqui.

O garoto mais novo olhou desacreditado para Kyungsoo, como poderia deixar para trás alguém que amava tanto?

— Está louco?

Minseok olhava a cena de longe, um Kyungsoo caído, uma sombra horrenda emergindo das sombras, os gritos de Sehun e logo uma mancha de sangue cobrindo sua visão. 

A serra desceu em direção ao ombro de Sehun, rasgando-o. Kyungsoo não conseguiu emitir som, não conseguiu se mexer, nada tinha sentido algum. Seu melhor amigo estava morto.  

Viu a figura grotesca, metade homem e metade animal, com pelos no rosto e dentes que saltavam da boca, como os daquele tubarão que havia matado um turista nas praias da Califórnia.

A mutação surgiu tão rápido, veio sem hesitação, desceu a cruz em Sehun como se serrasse alguma madeira. Os gritos de dor que agora não pareciam somente o som ambiente do hospital, pareciam ter se perdido, as luzes pareciam ter ficado mais escuras, a visão de Kyungsoo ao ver ser amigo cair sobre si deixo-o tonto e vê-lo ser arrastado como o pedaço morto de carne que era, causou-lhe tantos enjoos que tudo que poderia ser feito era desmaiar.

Sehun foi arrastado pelas pernas, as roupas encharcadas de sangue, a roupa rasgada no local onde a serra havia abaixado e, Kyungsoo não teve condições de puxar seu amigo, de dizer o quanto amava aquela criatura tão especial para si.

Tudo se perdeu. Tudo. Nada mais importava. Por um segundo, Kyungsoo não se importaria de morrer ali mesmo, não se importaria em se levado e imprensado nas paredes, onde gritaria e assustaria os próximos visitantes. Sua vida havia acabado.                

— Vamos! — Gritou. — Levante-se daí! — Dizia Minseok, segurando Kyungsoo pelos braços.

Kyungsoo deixou-se ser arrastado por Minseok, este mancou uma corrida frágil e lenta. Suas mãos estavam úmidas pelo suor e aquecidas pela mão no loiro, as pernas doíam e o ar parecia não querer entrar em seus pulmões; fechou os olhos, enquanto corria, e vislumbrou novamente Sehun, tão vivo e forte... e agora, morto.

Minseok segurava a mão de Kyungsoo com força, talvez mais força do que devia, mas não podia deixar o outro estagnado no meio daqueles corredores, não podia deixar que outro morresse; encontrou, então, uma porta, a qual abriu-a em silêncio e certificou-se de que se tratava apenas de um consultório médico e nada mais. Entraram os dois, uma pequena e fraca luz foi acessa; Minseok, mesmo tendo a certeza de que estavam sozinhos naquela pequenina sala, analisou todos os cantos minunciosamente e então jogou-se no chão.  

Lá estava ele, o pequeno Kyungsoo, tão maduro e forte para sua idade e tão frágil e humano, quanto qualquer outro. A dor de seu pé se agravou e ele pode sentir que mãos tocavam o local lesionado, mas não se importou, nada mais importava, afinal. Em um breve momento de plena loucura, pode enxergar Sehun, ele sorria pela figura alta e majestosa; sim, era assim que Sehun seria lembrado: uma figura alta e majestosa, com um sorriso bobo que apenas os mais próximos conseguiram identificar, uma voz grossa e um humor vacilante... mas o que importava, afinal? Sehun estava morto.

— Kyungsoo? — Chamou Minseok, ajoelhando-se diante do garoto que dormia. — Precisa acordar... temos que sair daqui.

“Não fora um sonho, então”, pensava Kyungsoo consigo mesmo. Abriu os olhos, sabendo que a pouca luz da sala não afetaria em nada; Minseok tinha a bochecha esquerda manchada de sangue e naquele momento o garoto não parecia nem um pouco arrogante e antipático, ele parecia alguém doce e gentil.

Kyungsoo arrumou-se no chão, endireitando suas costas, sentiu uma dor latente vinda de seu pé e curiosamente sorriu ao ver o amontoado de pano que estava sobre sua lesão.

— Você fez isso? — Indagou, encarando Minseok que assentiu sem pudor. — Tem sangue no seu rosto.

O loiro, instintivamente, correu a mão para seu rosto e tocou a mancha avermelhada.

— Provavelmente, — disse ele, sentando-se aos pés de Kyungsoo, — é do seu amigo... você estava sujo com o sangue dele... eu sinto muito.

Kyungsoo sorriu em meio a toda aquela dor.

— Sinto muito por JongIn.

Era estranho, sem dúvidas, como as aparências enganavam, como sua mente era traiçoeira, como a vida era uma infinitude de dias ruins, mas que em casa um deles existia algo bom, algo valioso, algo tal como Sehun havia sido.

— Você com certeza não é médico. — Riu Kyungsoo, desenrolando o pano que Minseok havia colocado em seu tornozelo, estava inchado com manchas roxas e negras.

— E você é?! — Perguntou de maneira sarcástica o outro.

Kyungsoo ergueu os ombros, tocando de maneira delicada sua própria lesão, parecia mais grave do que imaginava, o dor era latente.

— É uma entorse de grau 2, eu suponho. Uma ruptura parcial dos ligamentos. — Disse Kyungsoo descuidadamente, deixando Minseok se perguntando o que aquilo queria dizer, seus olhos pequenos estavam brilhantes e as sobrancelhas arqueadas, como se dissessem “você por acaso é médico? ”. — Estou no quarto ano da faculdade de medicina. Sehun sempre dizia que se eu não me formasse em medicina eu poderia desistir da vida. Ele tem razão, não me vejo fazendo outra coisa.

Um silêncio grotesco e constrangedor tomou conta dos dois garotos.    

— Todo labirinto tem uma saída. — Disse de repente Minseok, encarando Kyungsoo com afinco, procurando uma resposta para aqueles problemas, procurando uma saída... procurando um amigo. — Podemos estar perto.

Kyungsoo moveu sua perna, mas parou no mesmo instante. A dor era absurda.

— Não vou conseguir andar.

— Não vou te deixar aqui, se é isso que pensa. — Rebateu Minseok, erguendo-se imediatamente. Kyungsoo observou o garoto de cabelos loiros ir até a mesa, ele abria as gavetas com fúria, remexia nos papéis, percorria os dois armários.

— O que você está fazendo? — Indagou Kyungsoo de certa forma, confuso, parecia-lhe inútil qualquer tentativa de sair daquele lugar. — Não vai encontrar remédios aqui, se é isso que está procurando.

Minseok não deu atenção, continuou sua busca desenfreada até que não restasse um só lugar para procurar.                  

— Tem que haver algo! — Rugiu o loiro, socando a mesa e logo encontrou algo por debaixo dos papéis bagunçados, desenhos familiares, com linhas vermelhas e amarelas. Minseok puxou o grande papel e voltou para o lado de Kyungsoo, que torcia o rosto em dor. — Um mapa.

Kyungsoo segurou a folha com as próprias mãos, sem dúvidas era o mapa daquele hospital, o prédio era enorme, mas possuía uma saída, somente uma e não estava tão longe de onde estavam, vinte metros, talvez menos.                    

— Temos que tentar! — Murmurou Minseok, vendo o olhar do garoto com olhos grandes fitarem o tornozelo machucado. — Kyungsoo, pense em Sehun... ele não gostaria de ver você desistindo, não é? Kyungsoo, vamos lá... sim?

Após um aceno com a cabeça, Minseok ajudou que Kyungsoo se erguesse, os gemidos de dor eram indispensáveis, eles simplesmente saiam da boca do garoto, mas com os braços apoiados em Minseok e uma das pernas erguidas, eles se puseram a andar.

A porta foi aberta e um tremor gélido passou pela espinha dos dois jovens. O hospital estava em um perfeito silêncio, não emitia som algum, sem gritos, súplicas e até mesmo as luzes vermelhas haviam parado de piscar.  

— A saída fica por ali. — Sussurrou Minseok no ouvido de Kyungsoo, ambos encaravam o largo corredor com suas luzes vermelhas e paredes cobertas pelo sangue.  

Andaram com passos lentos, Kyungsoo mordendo sua própria camiseta para que os gemidos de dor não se sobressaíssem.

Um barulho curioso parou os dois, vinha do final do corredor, mas nada podiam ver, apenas ouviam o barulho, eram gritos... risadas, eram risadas.

— São crianças?! — Perguntou Kyungsoo, reconhecendo aquele som feliz e mágico.

— Estamos perto!

Voltaram a andar, os passos mais agitados, os sorrisos estampados em ambos os rostos; uma luz amarelada e colorida fez-se adiante, era a saída. Conseguiam ouvir o som da roda gigante, não estavam longe, iriam conseguir. Prosseguiram seu caminhar com um sorriso bobo nos lábios, esquecendo-se do silencioso prédio, das enfermeiras e as mutações; os dois jovens, tinham, finalmente, uma luz no final do túnel.

Era um portão, um portão com grades e aberto, precisam somente ergue-lo um pouco mais para que conseguissem passar por ali. Os suspiros de alívio vieram, o coração batia rapidamente, mas não por medo, por excitação. Podiam ouvir com uma maior nitidez o som alegre do parque de diversões, estavam chegando.

Minseok soltou Kyungsoo por alguns segundos para que ele pudesse erguer as grades, pensou em gritar por ajuda, mas estavam tão perto que aquilo não passou por sua cabeça.

Pacientes não podem sair do hospital... — sussurraram atrás das paredes, a mesma voz fria, eram as enfermeiras. — Pacientes não podem sair do hospital...

Nenhum dos dois conseguia ver nada, existia apenas o corredor vermelho, apenas isso. Minseok prosseguiu com as grades, estavam emperradas, mas moviam-se sempre que um esforço maior era feito.

Um baque retirou sua atenção e suas mãos de sua saída, Kyungsoo estava de bruços no chão, com as mãos esticadas na frente do corpo e um olhar totalmente confuso. E então os sussurros voltaram, vieram fortes, as paredes pareciam tremer e o chão a se abrir.

— O que houve? — Perguntou Minseok, ajudando o garoto de olhos grades a se erguer.

Kyungsoo não respondeu, forçou sua subida, apoiou-se nos braços de Minseok, mas não conseguiu se mover.

— Minhas pernas, — sussurrou com uma voz falhada, foi puxado novamente, mas desta vez não por Minseok, o garoto também não sabia dizer quem havia o puxado, mas puxaram e eram mãos firmes, fortes e arrastavam-no para o chão, para baixo, para o subsolo. — Minseok...

A voz falhada veio seguida de lágrimas e soluços desesperados por ajuda. Kyungsoo foi puxado foi Minseok, que demonstrava a mesma expressão. Kyungsoo estava sendo engolido pelo chão, por mãos que não podiam ser vistas, mas que existiam, tal como as mortes de seus amigos existiram.

Pacientes... pacientes, — repetiam as vozes, — pacientes não podem sair do hospital.

Os olhares de pânico de Minseok encontram os de Kyungsoo, este trazendo aquelas duas bolas brilhantes e negras, estavam desesperadas, suplicando por ajuda, gritando e segurando-se nos braços do loiro para que não fosse levado, para que não morresse, seus suplicavam pela vida.

Pacientes... pacientes, — repetiam as vozes.

Um grito de dor e aflição saiu da boca de Kyungsoo, mas logo foi abafado pelo silêncio. Minseok se viu sozinho, com o chão se fechando, as paredes aquietando-se e tudo ao redor obrigando-lhe a passar por debaixo das grades.

O último garoto, olhou desacreditado ao redor, estava do lado de fora, realmente do lado de fora, sem espelhos ou luzes vermelhas, o garoto tocou os cabelos loiros mais uma vez, sentindo uma dormência estranha vinda de seu braço. Parado há três metros do hospital mal-assombrado, ele arregalou os olhos para o simples arranhou em seu antebraço; não era como um arranhão, era como um corte cheio de fungos, negro e fedido como se estivesse naquele estado deplorável por semanas.

Sentiu-se tonto, encarou as crianças que corriam não muito longe, ouviu os gritos de horror e risadas debochadas dos outros jovens, daqueles que entrariam em breve no hospital mal-assombrado. A fila para entrar no brinquedo estava imensa, mas parecia tão longe, tão embaçada, tão duplicada.

Minseok olhou, com aquela visão míope, para a ferida em seu braço, era nojenta e incurável e então deixou que tudo ficasse escuro. O baque no chão foi a última coisa que ouviu, mas conseguia sentir, mesmo desacordado, seu corpo adentrando em um lugar amaldiçoado.   

 


Notas Finais


E então?! \o/ Espero que aqueles que leram tenham gostado <3

Mas e aí, você teria coragem de entrar em algum hospital mal-assombrado?

Até a próxima!


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