História Caçadores de Folclore - Capítulo 13


Escrita por: ~

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Categorias Supernatural
Personagens Bobby Singer, Dean Winchester, Personagens Originais, Sam Winchester
Tags Bobby, Dean, Sam, Sammy, Spn, Supernatural, Winchester
Visualizações 283
Palavras 16.835
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Nota atualizada: 14/08/2017

Oi oi meus caçadores, como vocês estão? Espero que bem! Bom, acho que não preciso falar muito sobre o mito que iremos lidar nesse capítulo, o título já diz muito. Chegamos ao famoso Saci Pererê, e acho que ele é o mito mais famoso do nosso folclore! Enfim, esse capítulo foi inspirado no filme "Homem nas Trevas", eu nunca assisti o filme, vi apenas o trailer e tirei a ideia de lá, então se vocês forem ver o trailer, perceberão as semelhanças com o capítulo!

Bom, vou parar de enrolar muito, então, sem mais delongas, boa caçada!

P.S.: Capítulo revisado, mas sempre escapa algum erro, então me desculpem!

Capítulo 13 - Sr. Pererê


Fanfic / Fanfiction Caçadores de Folclore - Capítulo 13 - Sr. Pererê

P.O.V Laura

- Mãe, estou saindo! – Gritei após terminar de descer a escada da minha casa. Passei pela porta da cozinha e minha mãe estava de costas para a mesma, fazendo alguma comida que aquecesse a família nessa noite fria de Santa Catarina. – Mãe! – Chamei novamente, fazendo a mulher virar assustada para mim, distraída com seus próprios feitos.

- Sim?! – Perguntou para mim com o olhar meio perdido em qualquer coisa que eu não sabia o que era. Balancei a cabeça negativamente, descrente de tamanha distração que tomava minha mãe enquanto a mulher fazia a janta. Mas, eu não me importava muito com isso, era a única distração que a mulher tinha.

- Vou sair com o Júlio e o Marcelo. – Avisei para que a mesma não ficasse preocupada.

Minha mãe apenas concordou em silêncio, ainda distraída com sei lá o que, mas logo em seguida começou a falar alguma coisa que eu não prestei muita atenção. Saí dali deixando a mais velha murmurando sozinha algo sobre eu tomar cuidado na rua e não voltar muito tarde. Revirei os olhos, eu não era mais criança, sabia me cuidar.

Vesti o casaco por cima da blusa de manga comprida e saí de dentro da minha casa quentinha. Ajeitei minha touca, puxando-a mais para baixo e em seguida enfiei as mãos dentro dos bolsos do grosso casaco. Caminhei sem pressa pelas ruas pouco movimentadas da cidade, cumprimentando algumas pessoas que passavam por mim.

Os mais inteligentes não ousavam sair de suas casas nesse frio cortante que caía sobre as ruas escuras do bairro, mas eu tinha compromisso com meus amigos e não poderia faltar de jeito nenhum, e aqui estava eu caminhando pelas ruas como se estivesse embalada para presente em um monte de tecidos grossos e que faziam um ótimo trabalho me aquecendo.

Foi inevitável não abrir um sorriso enorme ao avistar de longe, sentados nos bancos frios de madeira da praça, tão embrulhados em tecidos grossos quanto eu, meus dois melhores amigos. Júlio levava a boca um cigarro, tragando-o e em seguida soltando a fumaça densa que se misturava a respiração, também densa, que saía da boca de Marcelo, meu outro amigo, que se encontrava ao seu lado. Ambos me esperando.

- Fala seus vagabundos! – Comentei de forma divertida ao chegar ao lado dos mesmos, que abriram um sorriso ao verem que eu realmente estava cumprindo com o prometido, mesmo estando tão frio como estava hoje. Júlio tragou o cigarro uma última vez, e tacou o filtro ainda pela metade no chão. Levei meu pé à bituca no chão e amassei a mesma, apagando por fim o cigarro.

- E aí, princesa, como você está? – Marcelo perguntou de forma galanteadora, como sempre fazia quando estava comigo. Dei de ombros com a forma que ele havia falado comigo, já estava acostumada com o mais velho dando em cima de mim, e apenas respondi sua pergunta.

- Estou bem, tirando o fato de eu estar quase virando um picolé aqui fora! Só vocês mesmo para me fazerem sair de casa nesse frio de polo norte. – Comentei os fazendo rir e concordarem. Eu sentia a ponta do meu nariz ficar gelada e podia ver a minha respiração virar uma densa fumaça ao sair de minha boca. – E vocês? – Perguntei sorrindo.

- Estamos indo, como sempre! – Júlio respondeu enquanto esfregava as mãos cobertas pelas luvas uma na outra, a fim de esquentar ainda mais as mesmas. – E aí, o que vamos fazer de bom hoje? – O menino voltou a falar, perguntando de forma ansiosa pela travessura que faríamos hoje à noite.

Era sempre assim. Todo final de semana, de preferência à noite, eu me encontrava com os meninos na praça da cidade – local que ficava quase completamente vazio no horário da noite – e juntos planejávamos alguma merda para fazer e para animar um pouco mais a nossa monótona noite que se resumia em ficarmos trancados dentro de casa, fugindo do frio e aguentando parentes chatos.

E dessa vez eu estava encarregada de pensar em algo para fazermos. Uma tarefa difícil e que exigia muita criatividade por parte do encarregado, mas que eu gostava muito de pensar e criar. As ideias mirabolantes que passavam por minha cabeça, às vezes, eram tão surreais e delirantes, e até mesmo impossíveis de serem executadas, que me faziam rir sozinha ao ver o qual louca eu era.

- Que tal brincarmos um pouco com o velho perneta da rua 9? Faz tempo que não damos uma visita a ele, já estou com saudades! – Abri um sorriso maldoso ao pronunciar a ideia que vagou pela minha mente por toda a semana e que era a melhor a se fazer. Senti-me aliviada ao ver os meninos abrirem um sorriso tão maldosos quanto o meu, nitidamente aprovando a ideia que dei.

- É por isso que você cola com a gente desde mais nova, Lau! – Júlio comentou, rindo tão maldoso quando eu, e fazendo nosso toquinho de mãos que criamos quando éramos crianças. Sim, além de melhores amigos, nós três fomos criados juntos, e somos inseparáveis desde quando éramos pequenos. Sorri mais abertamente com o fato deles terem gostado do que eu pensei.

- Já estou até ouvindo ele gritar: “Seus pestinhas, saiam da minha casa ou eu vou fazer vocês engolirem essa bengala!” – Marcelo comentou imitando a voz do velho, curvando-se minimamente, colocando a mão na cintura como se sentisse dor e pulando em uma perna só. Nós três gargalhamos de sua imitação perfeita do velho.

- Vocês não prestam mesmo! – Comentei, recuperando o fôlego por conta da crise de risos que tive com a imitação de Marcelo. Respirei fundo, soltando todo o ar pela boca e me sentindo recuperada.

- Você não fica para trás, Lau. – Júlio comentou e eu apenas concordei, com um sorrisinho no rosto.

- O que estamos esperando? Vamos até a casa do velho fazer uma visitinha. – Marcelo perguntou descendo do banco e ficando de pé ao meu lado. O menino passou seu braço por meus ombros, me puxando para perto dele, fazendo-me revirar os olhos com essa atitude. Ele não cansava de ser abusado mesmo.

Juntos caminhamos, lado a lado, até a rua 9 onde morava o velho Araújo, mais conhecido carinhosamente pelos jovens do bairro como Velho Perneta da Rua 9. Pelo que sabíamos o homem morava sozinho, e não teve nenhuma esposa ou até mesmo algum parente vivo, pelo que os mais velhos falavam ele sempre foi sozinho. E isso era um prato cheio para os jovens que não tinham nada para fazer – como nós três – e preferia infernizar a vida dele.

Não tínhamos pressa em chegar na casa dele, seguindo um caminho tão conhecido por todos os jovens, e durante o caminho – um pouco longo, diga-se de passagem – eu aproveitei para repassar o que tinha em mente para os meninos, dizendo todo o plano muito bem bolado por mim durante a semana, não querendo que nada desse errado, ou então nos daríamos muito mal.

O plano era simples: iríamos invadir a casa do homem – o que não era muito difícil de fazer – e brincar um pouco de fantasma, fazendo um barulho ali e outro aqui e se escondendo para que o velho não nos visse. Nada demais. Não é como se fôssemos matar o velho do coração, ou talvez sim. E tínhamos certeza que ele não nos faria nada, até porque não conseguia se mover sem sua cadeira de rodas, o que garantiríamos de esconder dele em um lugar bem longe. Um pouco de precaução nunca é demais.

- Acho que ele já foi dormir... – Júlio comentou. Estávamos do outro lado da rua, enquanto olhávamos a casa de apenas um andar. As janelas estavam fechadas e estava completamente escuro dentro do imóvel velho, com a tinta de cor verde-água descascando e suja, com algumas rachaduras e marcas de mofo. Um imóvel velho.

- Melhor assim, facilita a nossa vida e dá mais emoção ao plano de sermos “fantasmas”. – Comentei rindo e eles apenas concordaram. – Agora vamos logo! – Falei.

Tomei a frente e atravessei a rua escura a vazia, subindo sem fazer barulho na varanda que circulava toda a casa velha. Olhei pela janela da frente, observando a sala vazia e escura do homem. E então eu e os meninos demos a volta pela casa, tentando achar alguma janela que estivesse aberta e nos desse a chance de entrar na casa sem que precisávamos arrombar alguma porta. E parecia que o destino estava de bem conosco.

A janela da cozinha estava completamente arreganhada, parecia brilhar, nos chamando, nos dando a oportunidade perfeita de entrar na casa que estava tomada por um silêncio assustador e incomodo. Meti a cabeça para dentro da casa, observando tudo e tentando achar alguma coisa que fizesse nosso plano ir por água a baixo, mas, como o destino era meu fã número um, não havia nada. Pelo contrário, havia algo que nos ajudaria muito: abaixo da janela estava a pia da casa, e eu agradeci mentalmente por isso.

- Está tudo limpo! – Sussurrei para os meninos, e mesmo falando baixo eu tive a impressão que havia gritado, tudo por culpa do eco que fez dentro da casa, o que me deixou um pouco alerta. Olhei para os meninos ao meu lado e eles pareciam, pela primeira vez, aflitos e hesitantes em relação ao que faríamos. – Que foi?! – Perguntei risonha.

- Nada... – Marcelo comentou olhando para os lados como se estivesse sentindo algo, ou desconfiado de algo.

Estranhei sua atitude estranha, mas logo dei de ombros e como eu parecia ser a mais corajosa dos três, tomei a iniciativa novamente, apoiando minhas mãos no batente da janela e tomei impulso para cima, fazendo força com os braços e podendo, finalmente, alcançar a janela, passando as pernas pelo buraco e ficando de pé sobre a pia de alumínio, e cautelosamente em pulei dali, evitando fazer muito barulho no pouso.

- Estão esperando o que? Andem logo com isso, não temos a noite toda! – Perguntei em um tom muito baixo, mas ainda assim escutando o eco pela casa.

Eu estava um tanto irritada com os meninos pelo fato dos mesmos ainda estarem parados do lado de fora da casa, pareciam estar colados no chão, ou até mesmo pareciam estátuas assustadas. Eles, definitivamente, pareciam com medo de algo que eu não fazia ideia do que podia ser e isso estava me deixando muito irritada. Eles nunca foram assim, sempre estavam entusiasmados com nossas aventuras – um tanto piores que essa –, porque agora que iríamos "brincar" com um velho perneta eles estavam agindo dessa forma?

- Lau, vamos embora daqui, não estou me sentindo bem hoje... – Júlio disse meio receoso.

Ele estava agindo da mesma forma que Marcelo, olhando para os lados desconfiando de que algo pudesse aparecer. Percebi seu lábio inferior tremer, atitude típica de quando ele realmente estava com medo de algo. Ignorei os sinais que seu corpo me enviava pelo simples fato de não saber o que causava tanto medo nos meninos e revirei os olhos em descaso, abrindo em seguida um sorriso sarcástico.

- Parem com isso, parecem crianças, quando besteira! Pulem agora para cá, ou eu vou até aí buscar vocês pela orelha. – Mandei, fazendo questão de demonstrar toda a minha irritação, e mesmo hesitantes os meninos pularam para dentro da casa, um de cada vez, tomando o máximo de cuidado para não fazerem barulho. – Vamos explorar a casa! – Falei animada e feliz por finalmente estar começando a me divertir.

Caminhamos em silêncio pela casa, observando cada canto dela. O imóvel me parecia maior do que ele realmente demonstrava ser. Nós três tomávamos o máximo de cuidado para não esbarrar nos móveis espalhados pela casa, ainda mais porque a casa estava muito escura. O silêncio que fazia ali dentro era tanto que eu era capaz de escutar as batidas aceleradas dos corações dos meninos. Parecia que havia uma bateria de escola de samba nos acompanhando.

A casa continha muitos quartos e cômodos desnecessários, e esses lugares continham muitos armários de ferro, com muitas prateleiras e sobre elas, muitas caixas de papelão, o que eu achei bem estranho. Além disso, o imóvel inteiro fedia a mofo e tinha mais infiltração nas paredes do que tinta. Paramos de andar na metade do enorme corredor, de frente para uma porta que escapava uma fraca luz pelo vão abaixo dela.

Abri a porta com extremo cuidado, agradecendo por ela não ranger – coisa típica de casa velha – e vi que a mesma dava acesso ao quarto do velho. Sorri maldosa com a cena que se passava a minha frente e que me agradava muito. Meu plano finalmente iria começar. O homem estava deitado na cama, parecia ter um sono pesado e profundo. A cadeira de rodas encontrava-se ao lado da cama, pronta para ser usada assim que o velho acordasse.

- Peguem a cadeira. – Sussurrei o pedido para os meninos. Marcelo fez o que eu pedi sem hesitar e percebi que ele parecia um pouco mais relaxado com o que faríamos, e isso de certa forma me aliviou, ele começava a gostar da aventura e começava a sentir a adrenalina correndo em suas veias. O menino pegou a cadeira, que estava fechada, e a trouxe para fora do quarto. Rapidamente, e com muito cuidado, eu voltei a fechar a porta.

- Onde eu escondo ela? – Marcelo sussurrou a pergunta perto do meu ouvido.

Aquilo, de certa forma, me arrepiou muito e me fez suspirar fundo. E por incrível que pareça eu havia gostado de sua voz sussurrada daquela forma, mas, não era hora de pensar essas coisas. Olhei para o loiro ao meu lado e comecei a pensar em algum lugar para esconder a cadeira de rodas do velho. Olhei o corredor extenso, examinando tudo e olhando para todas as inúmeras portas, e meus olhos caíram em uma porta no fim do corredor.

A única que ainda não havíamos entrado.

- Naquela porta. – Apontei para ela.

Sem esperar por nenhum dos dois eu comecei a caminhar na direção da mesma, decidida a entrar ali e ver o que tinha do outro lado, e então parei de frente para a porta branca, e por incrível que pareça, ela era a mais nova e conservada de todas as portas. Toquei a fria maçaneta e um arrepio horrível correu minha espinha, fazendo eu soltar de forma brusca o objeto gélido e dar um passo para trás, completamente assustada.

- Que foi? Agora é você que está com medo, Laura? – Júlio perguntou e em seguida riu sarcástico.

Olhei para ele irritada, não gostando do deboche que ele fazia para comigo, e ao ver o meu olhar o mais velho não desfez o sorriso debochado. Pelo contrário, ele caminhou até mim, olhando dentro dos meus olhos, sorrindo daquela forma e abriu a porta que eu tive medo de abrir antes, me fazendo senti uma inútil, uma ridícula.

Assim que o menino abriu a porta, eu deixei de olhá-lo e olhei na direção da porta e pude ver uma escada que descia para um porão. Estava escuro demais lá embaixo, ao ponto de não podermos enxergarmos nada, e o cheiro de fumo que exalava daquele cômodo era sufocante. Esfreguei meus braços ao senti-los arrepiarem, um vento frio passou pelo corredor, e parecia sair do cômodo abaixo de nós.

Olhei para Marcelo, tentando buscar um pouco de conforto, ou seja, alguém que sentia o mesmo que eu, e suspirei aliviada ao ver que não estava sozinha nessas sensações entranhas. Digamos até que ele estava mais apavorado que eu. E eu nem ao menos sabia o porquê estávamos assim, sentindo essas coisas. Voltei meu olhar para Júlio, e ele sorria divertido, parecia gostar da situação que se encontrava, até porque, os papéis se inverteram. Segurei o braço do mais velho ao vê-lo dar um passo na direção da escada.

- Não, vamos desistir disso, vocês tinham razão lá atrás, eu deveria ter escutado vocês antes de começar toda essa palhaçada. – Pedi com medo. Eu não estava me reconhecendo. O que estava acontecendo comigo?

- Agora você quer desistir? – Júlio sussurrou irritado fazendo-me e encolher. – Fizesse isso naquela hora em que pulamos a janela, quando você viu que estávamos com medo, mas resolveu ser ignorante e ignorou isso. Agora me solte! – O moreno puxou o braço com força, dando as costas para eu e Marcelo e começou a descer a escada.

- Por mais que estejamos com medo, não vamos deixá-lo descer sozinho, começamos isso e vamos até o fim. – Marcelo falou.

O menino andou até mim e me abraçou e por um momento eu senti um conforto enorme e o medo havia ido embora. Mas, foi por pouco tempo. E então o loiro logo se separou de mim e começou a descer a escada, seguindo Júlio que já se encontrava na metade da escada, mesmo que o medo fosse visível em todo o seu corpo. Olhei uma última vez para trás, vendo a porta de saída, e engoli em seco, juntando coragem e descendo a escada.

[...]

O local estava completamente escuro, como o esperado. Eu havia ligado a lanterna do celular para que pudesse enxergar onde estávamos andando, para não corremos o risco de nos machucarmos ou até mesmo fazer algum barulho que fizesse o velho acordar. Usávamos a lanterna porque não encontramos nenhum interruptor, o que indicava que aquele cômodo era carente de energia elétrica.

E de uma limpeza também.

O chão era coberto por uma grossa camada de sujeira, assim como as prateleiras dos armários que tinha espelhados pelo enorme cômodo. As paredes eram chapiscadas com cimento, sem tinta, completamente cinzas. Em algumas partes podíamos ver apenas tijolos, o que me fez pensar que a estrutura do lugar não era totalmente segura. Teias preenchiam grande parte do teto de madeira, e nas pilastras – também de madeira – que sustentavam a casa acima de nossas cabeças.

Comecei a estranhar o fato do porão ser extremamente grande, parecia que nunca tinha fim, que continuaria para sempre, e pensei até que era maior que a própria casa acima de nós. Podíamos nos perder facilmente ali dentro, entre os vários armários e caixas que formavam um labirinto. E isso me deixava ainda mais insegura em continuar a explorar o local assustador.

Meu nariz coçava por conta da poeira que estava no ar, e senti minha alergia querer começar a atacar. Mas, mesmo assim, contra a minha vontade, nós três continuamos a andar pelo labirinto de armários, sempre com a luz da lanterna apontada para o chão, iluminando nosso caminho, e vez ou outra eu levantava o faixo de luz com a certeza de que tinha visto algo passar a nossa frente, ou então, as nossas costas.

- Acho que já deu, é melhor irmos embora... – Marcelo comentou ao meu lado. O menino já havia se desfeito da cadeira de rodas do velho que ainda dormia no andar de cima. A cada vez que passávamos por um corredor formado pelos armários, eu me agarrava mais ao braço do loiro que dividia do mesmo medo que eu.

- Parem de ser medrosos, agora que começamos com isso, vamos até o fim! – Júlio respondeu sem medo de demonstrar o quanto estava irritado com os nossos choramingos. – Não tem nada aqui para pôr medo, está apenas escuro e silencioso.

Eu juro por tudo o que é mais sagrado nesse mundo que se arrependimento matasse, eu com certeza já estaria enterrada à sete palmos do chão, quietinha e dividindo um lugar lá no céu, conversando com os anjinhos.

- Deixa de ser ridículo, Júlio. Não vê que estamos arrepend... – Minha frase foi cortada por uma alta gargalhada que ecoou por todo o cômodo escuro, arrepiando todos os pelos do meu corpo. Arregalei meus olhos, sentindo meu coração bater extremamente alto, e parei de andar, agarrando-me ao braço de Marcelo. – O q-que foi isso?! – Perguntei sentindo minha voz embargar.

- Eu não sei... – Júlio comentou com a voz baixa. Mesmo não conseguindo enxergar seu rosto, sua voz denunciava que agora ele estava em pânico, e parecia se arrepender de não ter nos escutado antes e ter ido embora. E então outra gargalhada, dessa vez ainda mais alta e mais perto. Um estrondo alto foi escutado em seguida. Parecia... a porta fechando.

Deus, me perdoa por todos os pecados e merdas que já fiz nessa vida e me tira daqui viva!

Arregalei meus olhos com a possibilidade de estar presa ali dentro com sei lá quem vindo atrás de nós três para fazer sei lá o que com a gente, só sei que coisa boa não era. Senti um nó em minha garganta, eu estava prestes a chorar de medo. Se eu soubesse que uma simples brincadeira como essa acabaria dessa forma jamais teria entrado nessa casa. Se algo acontecesse aos meus amigos eu me culparia para o resto da minha vida. Até porque eu enfiei eles nessa roubada.

Isso se eu conseguisse me manter viva até o fim dessa noite.

- Corre! – Gritei e tomei a inciativa.

Sim, essa foi a única coisa sensata que se passou pela minha cabeça nesse momento de desespero e medo. E agradeci quando meus amigos seguiram o que eu pedi. Meu único objetivo era mantê-los vivo, nem que para isso, eu tivesse que perder a minha própria vida.

Sim, eu daria minha vida por esses dois, se isso os mantivesse vivos e bem. Até porque, eu fui a irresponsável que os meteu nessa encrenca, nessa merda de brincadeira que, provavelmente, valeria a vida de ambos, e minha também. Sim, eu tirava essas conclusões porque eu tinha a impressão que essa coisa que estava nos seguindo não faria coisas boas com a gente.

Eu corria o mais rápido que eu conseguia por entre os armários, sem saber ao certo para onde estava indo. Eu nem ao menos sabia se os meninos estavam me seguindo, mas confiava que sim, e eu espera que eles estivessem me seguindo, mas eu não ousei olhar para trás por medo de tropeçar e atrasar o processo de fuga. Mas, eu precisava confirmar! Eu precisava salvá-los desse monstro que continuava a gargalhar.

Parei de correr por um momento, olhei para trás e pude ver que apenas Marcelo corria atrás de mim. E o desespero começou a correr ainda mais por mim, e a questão que se passava na minha cabeça era: Para onde foi Júlio? Fiquei encarando Marcelo aproximar-se de mim, cansado e com a respiração acelerada. Foram apenas alguns segundos antes de ver o loiro sumir na escuridão, sendo arrastado por alguém que gargalhava divertido.

O corpo do menino caiu no chão duro e empoeirado, sendo puxado pelas pernas, sua cabeça foi de encontro ao chão, e assim que o menino levantou o rosto pude ver o sangue começar a escorrer por sua testa. Ele arranhava o chão e buscava por algo que o mantivesse preso. Mas, parecia que o destino não estava a favor do loiro. Marcelo gritava por socorro, e me mandava correr em busca de ajuda. Mas, parecia que meus pés estavam colados ao chão, presos com chumbo.

E então Marcelo sumiu de vez, assim como sua voz que se silenciou por fim. O silêncio que predominou o local me causava arrepios e me dava ainda mais medo. Estava tudo muito quieto, e por um breve momento eu pensei que o monstro havia desistido de mim. Porém, no fundo, eu sabia que era apenas uma armadilha, e que a próxima vítima era eu.

E, por fim, eu me coloquei a correr novamente.

Eu corria por todo o lugar, me perdendo no labirinto de armários, em busca da saída, mas, parecia que ela havia sumido como em um passe de mágica. Eu não a encontrava de jeito nenhum. Cadê a maldita escada que eu hesitei tanto em descer? Eu deveria ter insistido mais e não ter deixado Júlio descer para cá. Ah, eu era uma idiota mesmo, sempre fui tão persistente, porque logo hoje eu vacilei tanto?

Meu peito subia e descia descontrolado, assim como a minha respiração escassa, ele ardia e doía pela falta de oxigênio e pelo esforço que eu fazia. E o frio não ajudava muito. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo, e eu sentia o sangue escorrer por elas por conta do tombo que levei durante a corrida em algum momento. Mas, eu não queria desistir de viver. Eu só queria voltar para casa, para minha família e vingar meus amigos.

Encostei-me a parede ao meu lado, por mais que isso fosse arriscado, mas eu precisava respirar um pouco, mesmo que isso não fosse muito capaz agora. Eu ainda chorava pela possível morte dos meus amigos, eu havia falhado em mais uma coisa naquele dia. E eu não me perdoaria jamais por isso.

Deixei meus joelhos fraquejarem e me levarem ao chão, deixando que meu coração sentisse a dor da culpa por ter colocado eles dois nessa emboscada, e pelo fato de que agora, possivelmente, eles estavam mortos e tudo por minha culpa. Eu já chorava pelo luto, pela morte dos meus melhores amigos, das duas pessoas que cresceram junto comigo. Encostei as costas na parede áspera. Não tinha jeito, eu morreria aqui. E sentia que seria logo.

Uma ventania muito forte pode ser escutada por mim, e um pouco de esperança por uma possível saída se acendeu em meu peito, mas logo ela se apagou, franzi o cenho em confusão com os seguintes acontecimentos. Junto dela podíamos escutar barulhos de folhas secas se chocando umas contra as outras, e então uma gargalhada. O anúncio da minha morte. Arregalei os olhos e senti meu sangue gelar nas minhas veias.

Em silêncio eu fiquei de pé e escondi-me atrás de um dos armários que havia ao meu lado. Isso deveria ser o suficiente. Isso tinha que ser o suficiente. E essa frase se repetia em minha cabeça a cada minuto, tentando me convencer de uma incerteza, tentando enganar meu cérebro, como se ele fosse mesmo acreditar que eu sairia viva dali e voltaria para os braços da minha mãe, que a essa hora me esperava para o jantar.

Eu precisava acreditar nisso, por mais que soubesse que eu não voltaria mais para casa. Levei minhas duas mãos a boca, pressionando-as com força no local e abafando os soluços que ainda teimavam em sair dali, de certa forma, denunciando o meu esconderijo. Nessas horas eu não tinha controle nem sobre meu próprio corpo. Eu estava sendo guiada pela adrenalina que o pânico causava em nosso corpo.

A gargalhada veio extremamente alta e perto.

Meus músculos estavam tensos, meus olhos arregalados, e eu agradeci por não estar mais soluçando. Porém, as mãos continuavam tampando minha boca, ocultando o barulho da respiração rarefeita e ainda mais difícil de ser executada com sucesso. Parecia que meus pulmões haviam sido trocados com o de algum fumante. Toda vez que eu puxava o ar, e o soltava em seguida, a lufada vinha acompanhada de um chiado e uma dor aguda, como se alguém estivesse perfurando com uma faca o órgão responsável pela minha respiração.

Busquei coragem em cada célula viva do meu corpo e ousei espiar por entre as caixas de papelão que preenchiam as prateleiras do armário de ferro onde eu estava escondida, ajudando a me esconder atrás do móvel velho e enferrujado. Minha visão já estava mais acostumada com a escuridão, já que eu havia perdido meu celular em algum momento da correria, provavelmente durante o tombo que levei ao tropeçar em um rato morto.

Um vulto humano passou na frente do armário, caminhava lentamente, o que facilitou que eu decifrasse sua fisionomia. O homem era de estatura baixa comparado à minha altura, e sua pele era negra, olhos grandes e pretos se destacavam em seu rosto. Usava um gorro vermelho e de seus lábios pendiam um cachimbo, o que explicava o forte cheiro de fumo. Meus olhos foram descendo por seu corpo que estava sujo de sangue, e eu senti o nó em minha garganta se formar novamente ao pensar que aquele sangue poderia ser dos meus amigos. O homem usava um short vermelho, e tinha apenas... uma perna?

Arregalei os olhos com a ideia meio maluca, mas com muito nexo, que se formou em minha mente naquele exato momento em que meus olhos bateram na única perna do homem. Afastei-me do armário, batendo de costas na parede atrás de mim e fazendo um barulho abafado. Não podia ser quem eu estava pensando que era, ele era cadeirante e sua cadeira de rodas estava escondida aqui embaixo. Ele parecia ser um velho tão... inocente.

Percebi que o velho parou de andar ao ouvir o barulho causado pela pancada das minhas costas na parede e virou seu rosto lentamente na minha direção, com um sorriso medonho estampado no rosto. E por fim seus grandes olhos encararam os meus. Ele havia me descoberto e eu morreria ali mesmo. E ao pensar nisso eu fiz a maior burrada da minha vida. Eu saí correndo de trás do armário.

Eu corria o mais rápido que conseguia, e se eu saísse viva dali – uma possibilidade que se tornava cada vez mais inútil em minha cabeça – eu me inscreveria em alguma corrida, ou seria uma atleta. Meus olhos embaçados por conta das lágrimas dificultava a minha visão – que já não estava boa por causa da escuridão – e automaticamente a minha corrida em busca da minha própria vida. Meus ouvidos detectavam o barulho de vento e folhas, e eu ainda não sabia de onde vinha.

Será que era uma saída? Era minha única esperança e ela voltava a se acender dentro do meu peito, aquecendo-o de forma mínima e me fazendo ousar e deixar um sorrisinho esperançoso estampar o meu rosto molhado pelas lágrimas e tomado pelo completo medo.

Mas, realmente, o destino não queria me ajudar.

Eu tropecei em algo que eu não havia visto e caí de costa no chão, sentindo uma dor enorme preencher toda as minhas costas. O baque contra o chão fez eu perder o ar por um momento. Minha cabeça foi de encontro a uma das prateleiras ao lado e logo a dor começou a preencher toda ela e um líquido quente escorrer por meu pescoço. Minha visão ficou turva e eu pensei que iria desmaiar.

Tateei o chão em busca de apoio para ficar de pé novamente, e estreitei os olhos para começar a procurar o que me fizera cair daquela forma. Olhei para o lado e vi uma de várias caixas que estavam espalhadas pelo enorme porão. Ela foi a causadora do meu tombo. Todo o conteúdo que havia dentro da mesma estava espalhado pelo chão e eu forcei ainda mais a minha vista para tentar enxergar o que era.

Afastei-me da caixa, indo contra o armário e arregalei meus olhos ao conseguir identificar o que era o conteúdo espelhado no chão. Eu não queria acreditar que meus olhos estavam vendo aquilo, era nojento e medonho demais para o meu cérebro processar aquilo tudo. Eram pernas humanas decepadas. Havia umas cinco espalhadas a minha frente, de diferentes tamanhos, grossuras e cores.

Senti meu estômago embrulhar com a imagem que se montava a minha frente e eu não pude evitar quando o meu lanche da tarde resolveu sair por minha boca, sujando minha roupa e o chão ao meu lado, tonando tudo ainda mais nojento do que já estava. Aquilo era demais para meu cérebro e estômago suportarem.

Até que um puxão forte em meu cabelo fez minha cabeça levantar. Olhei para frente, arregalando os olhos, e vi que o homem que tanto fugi estava parado ali, sorrindo maldosamente para mim, com aquele cachimbo pendurado na boca. E ele estava envolto em um... redemoinho? Não, eu só podia estar delirando! Mas, era verdade. O barulho de vento e folhas agora fazia sentido para mim.

E mais uma vez as minhas esperanças de sair viva dali foram por água a baixo, aquela chama que aquecia meu peito apagou-se de vez e tornou tudo ainda mais frio do que já estava. O monstro arrastou-me pelos corredores, com a mão ainda segurando fortemente meu cabelo. Ele andava com uma rapidez inacreditável para alguém que só tinha uma perna e tinha uma força desumana.

Eu já não chorava mais, já havia me conformado com a situação em que eu mesma me pus. Eu não tinha mais forças para fugir daquele monstro, e nem ao menos chances de lutar contra ele. Eu sabia que nunca mais sairia dali, que já estava morta, e eu deveria saber disso desde o momento em que atravessei aquela janela. Eu deveria ter percebido os sinais que meus amigos me mandavam, mas eu fui tola.

Porém, esses pensamentos não mudariam nada agora. Era tarde demais.

E com esses pensamentos tomando conta de toda a minha mente, eu fechei os olhos fortemente, projetando a imagem da minha família e amigos. Seus sorrisos eram tão lindos e eu queria que fossem as últimas coisas que eu veria antes de morrer. E como se todos eles pudessem escutar, eu sussurrei um breve adeus:

- Amarei vocês eternamente e me desculpem por tudo.

E então o monstro parou de andar, e eu não ousei abrir meus olhos, apenas senti tudo o que acontecia. Ele amarrou meu pescoço com uma corda, e eu senti quando fui erguida por ela. Eu estava sufocando, provavelmente presa a uma viga no teto. Meu corpo agiu instintivamente, debatendo-se em busca de ar e de vida, minhas mãos agarraram a corda, tentando tirá-la dali, mesmo que eu soubesse que isso não adiantaria.

E então meus olhos se abriram e vagaram brevemente pelo local onde eu estava. Os corpos de Júlio e Marcelo estavam pendurados a minha frente, como eu, porém, estavam imóveis e sem uma das pernas, eu me sentia em um frigorífico de um açougue. Me permiti chorar uma última vez, me permiti viver o luto pela morte de meus amigos nesses últimos segundos de vida, antes de a minha visão começar a escurecer.

Meus olhos já estavam se fechando, tudo estava ficando definitivamente escuro e sem vida, e foi quando uma dor insuportável preencheu todo o meu corpo e um grito sôfrego escapou por minha garganta, um último grito. Mas uma vez a dor veio, e eu senti uma das minhas pernas soltar-se do meu corpo e cair com um baque nojento contra o chão.

- Durma em paz, menina. – O monstro sussurrou.

Meus olhos fecharam-se por fim, o cheiro de fumo intensificou e foi a última coisa que pude sentir antes de morrer, além da dor. E a última coisa que eu pude escutar antes de morrer de vez foi a gargalhada alta do monstro misturada aos sons de vento e folhas secas que formavam o seu redemoinho.

A gargalhada que acabou com a minha vida e dos meus amigos.

P.O.V Sammy

Abri os olhos lentamente, piscando diversas vezes até que os mesmos se acostumassem com a fraca claridade que atravessa a cortina branca na janela e iluminava o quarto. Era de manhã, podia constatar isso pelo relógio no criado-mudo e o sol banhava o ambiente com seu calor matinal gostoso e confortante.

Cocei os olhos e fiquei por alguns minutos ainda deitado, buscando coragem para levantar. E, por fim, sentei-me na cama, espreguiçando-me logo em seguida. Olhei para o lado e pude ter o privilégio da linda imagem de Ju deitada de bruços. Seus braços eram cobertos por um casaco meu, e seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro. Ela estava linda, como sempre. E um sorriso grande apareceu em meu rosto ao me lembrar da noite passada.

 

[Flashback ON]

Eu já estava quase dormindo, eram três horas da manhã quando a brasileira bateu na porta do meu quarto, despertando-me do cochilo que eu começava a dar. Após sinalizar sua chegada, a mesma abriu a porta e atravessou a passagem, fechando-a logo em seguida e tornando o quarto escuro novamente. Eu encarava a brasileira parada perto da porta, como se esperasse uma permissão para se aproximar de mim.

A menina usava um casaco meu, e percebi que era a peça de roupa que eu procurava no dia anterior. Sorri fraco ao saber com quem estava, e ao perceber que ficara extremamente lindo nela, mais bonito do que em mim. O casaco branco e de tecido fino – e um tanto transparente, o que me dava a imagem de suas roupas de baixo – ia até metade das suas coxas por conta da diferença de altura, e as mangas ultrapassavam suas mãos que seguravam um coração de pelúcia.

- Pode vir... – Chamei em um tom baixo. Afastei-me para lhe dar espaço e levantei o cobertor ao meu lado. A menina caminhou de forma ligeira e se enfiou embaixo do meu cobertor, e sem demora se ajeitou perto de mim, escondendo seu rosto na curva do meu pescoço e se aconchegando em meu peito. Abaixei o tecido para que ele lhe aquecesse e me acomodei ao lado da menina.

- Tive um pesadelo. Posso dormir aqui? – Sussurrou com uma voz um tanto amedrontada.

Rodeei sua cintura fina com meu braço e a trouxe para mais perto de mim, sentindo a menina se aconchegar ainda mais. Minha mão adentrou o casaco que ela usava, sentindo em minhas mãos a pele que eu tanto admirava e gostava de tocar. Minha mão passou por suas coxas nuas, bunda, cintura e por fim acariciou a pele quente das costas da brasileira, apertando de leve alguns lugares. Já a outra mão foi para seus cabelos, emaranhando-se entre seus fios e deixando ali um cafuné.

- É claro que pode, na verdade, sempre que quiser pode vir aqui dormir comigo. Qualquer coisa é só me abraçar. – Falei beijando o topo de sua cabeça, em um sinal de carinho.

Senti o braço de Ju rodear minha cintura e aos poucos a sua respiração foi ficando mais calma e eu logo percebi que a menina adormecia em meus braços, calma e serena, como um anjo. O mais belo dos anjos. E com um sorriso no rosto eu segui seu exemplo e, ao ter certeza que ela dormir bem, eu me senti no direito de dormir também.

[Flashback OFF]

 

Voltei a olhar para a menina que ainda dormia tranquilamente ao meu lado. Sua respiração era calma e serena e indicava que seu sono ainda era tranquilo, como na noite em que ela passou ao meu lado. Uma pena de acordá-la crescia em meu peito, e eu cogitava a ideia de deixá-lo dormir um pouco mais, porém, ficaria tarde demais. E mesmo assim eu curvei-me sobre seu corpo, apoiando minhas mãos ao lado do seu corpo, evitando acordá-la com um susto e aproximei minha boca de seu ouvido.

- Ju, acorda... – Sussurrei o pedido para a menina deitada ao meu lado. A morena resmungou alguma coisa indecifrável por meus ouvidos, o que me fez revirar os olhos e se revirou sobre mim, virando para o outro lado. – Amor, acorda! – Balancei seu corpo levemente, insistindo na ideia de acordá-la.

- Sammy, me deixe dormir um pouco mais, por favor... – Falou ainda com os olhos fechados e com a voz rouca de sono. Suspirei cansado e voltei a posição normal, vendo que aquilo não acordaria ela. Taquei o cobertor para o lado e fiquei de pé, dei a volta na cama e parei de frente para Ju e fiquei surpreso ao ver que a menina já havia voltado a dormir.

Agachei-me de forma que ficasse na sua frente e empurrei seu corpo, deixando-a virada de barriga para cima. À essa hora seus olhos azuis esverdeados já estavam arregalados de surpresa pela minha atitude e pareciam que iriam sair do lugar na hora em que eu enfiei meus braços por debaixo do seu corpo e ergui a menina no colo.

- SAM, O QUE ESTÁ FAZENDO?! – Gritou assustada.

A menina se debateu um pouco sobre meus braços, querendo sair dali, o que quase a fez ir de encontro ao chão. Revirei os olhos e em um movimento rápido eu coloquei seu corpo deitado em meu ombro, de forma que a parte de seu tronco ficasse curvada para baixo em minhas costas. Agarrei com firmeza suas pernas, evitando que a menina caísse e caminhei de forma calma até a porta.

- Você não quis acordar da forma calma, eu precisava fazer algo. – Comentei risonho. – Já está tarde, Ju! – Completei e senti Ju estapear e socar as minhas costas em puro protesto pelo o que eu fazia – o que não surgiu tanto efeito – enquanto gritava para que eu a colocasse no chão de novo.

Ignorando seu esperneio e atravessei a porta e o corredor com ela ainda no meu ombro. Com um pouco mais de cuidado eu desci a escada e caminhei em direção à cozinha. Porém, quando estava passando pela porta, surge a brilhante ideia na cabeça de Juliana de elevar seu corpo, o deixando ereto em meu colo. Só deu tempo de escutar um barulho de algo batendo com força na parede e um grito de dor vindo da brasileira.

Rapidamente coloquei o corpo da menina de pé no chão, o que foi uma péssima ideia ao ver a mesma cambalear para trás e quase tombar. Agarrei sua cintura com força, evitando uma queda que pioraria seu estado no momento e aproximei seu corpo do meu. Ju deitou sua cabeça em meu peito e fechou os olhos com força. Passei meu braço pela dobra de seus joelhos e ergui seu corpo em meu colo.

- MILENA, CORRE AQUI, PELO AMOR DE DEUS! – Gritei um pouco desesperado ao ver Ju naquele estado. Corri até o sofá e deitei Ju no mesmo, e a menina não ousou abrir seus olhos um minuto se quer, provavelmente tudo a sua volta estaria girando, e percebi que ela começava a chorar pela dor que sentia.

- O que aconteceu?! – Monteiro apareceu na sala extremamente rápido e com os olhos transbordando preocupação, e isso se intensificou ao ver o estado da amiga deitada no sofá. – Meu Deus, Sammy, o que ela tem? – Perguntou caminhando em minha direção e se ajoelhando ao meu lado.

- Eu estava carregando ela no ombro, apenas brincadeira, nada demais, até que ela resolveu se erguer no momento em que eu passava pela porta da cozinha e então bateu com a cabeça com muita força na parede. – Expliquei resumidamente tudo o que aconteceu e me sentindo culpado por tudo isso.

- Pega gelo no freezer e coloca em um pano. – Mile disse e eu corri até a cozinha, deixando ela com a amiga. Arrumei um pano de prato e peguei a bandeja de gelo dentro do freezer. Joguei as pedras quadradas no pano e o amarrei como uma trouxinha. Corri de volta para a sala e encontrei Ju sentada no sofá, mas ainda sim com os olhos fechados.

- Toma! – Falei entregando a trouxa de gelo para Mile. A cacheada pressionou o pano na cabeça de Ju, recebendo uma exclamação de dor como resposta, mas mesmo assim continuou com a compressa ali. – Ju, me desculpa, eu não queria que isso acontecesse. – Falei segurando sua mão e acariciando o dorso com meu dedão.

- Está tudo bem, Sammy, eu sei que você não queria isso, não foi sua culpa. – A brasileira abriu os olhos pela primeira vez para me encarar. O sentimento de culpa se intensificou ao vê-los marejados, mas, mesmo assim a menina abriu um sorriso fraco, o que aliviou um pouco o que eu sentia. – Deixa que eu seguro. - Falou pegando a trouxa da mão da amiga.

- Se você sentir muita dor de cabeça, ou até mesmo enjoo e tontura, me avisa que eu te levo no médico. Tudo bem? – Mile perguntou, colocando em prática seus aprendizados na faculdade – eu havia descoberto pelo Dean que a menina se formou em medicina e Ju em fotografia – e Ju apenas concordou de leve. – Sammy, me ajuda a preparar o café.

- Tudo bem... – Sussurrei e antes de deixar Ju na sala, deixei em sua testa um beijo rápido e enfim fui para a cozinha junto de Mile, mesmo querendo ficar na sala cuidando da brasileira.

[...]

Estávamos todos reunidos na varanda da casa, exceto Dean que havia ido comprar o jornal do dia. Eu estava deitado na rede com Ju entre minhas pernas e as costas da menina deitadas na minha barriga. Eu fazia um carinho de leve na cabeça dolorida da menina que cochilava tranquilamente com o balanço fraco que eu fazia com o impulso do meu pé no chão.

Depois do café da manhã nós quatro viemos para cá, era sábado e o dia estava um tanto preguiçoso. Não estava quente, mas também não estava frio. O clima certo para apenas aproveitar a preguiça que Deus nos deu. E confesso, fazia tempo que eu não sabia o qual bom era ficar deitado sem fazer nada, ainda mais em uma rede, se balançando levemente e sentindo o vento fresco da manhã bater em seu rosto sereno. 

- Ela melhorou? - Mile perguntou desviando o seu olhar da tela do computador.

Ao contrário de mim, a cacheada encontrava-se sentada nas almofadas que ficavam espalhadas pelo chão da varanda, bem no canto, ao lado da rede, e elas formavam um cantinho de descanso, como um colchão. Um dos lugares prediletos da menina, que dizia amar ler enquanto estava deitada ali, ao mesmo tempo em que ouvia músicas.

- Acho que sim, pelo menos ela dormiu. A pancada deve ter deixado ela sonolenta. – Comentei sem encarar a menina. Meus olhos estavam fixos em uma borboleta que pousara na lamparina presa a parede da varanda e aquilo me fez sorri.

- Deu para perceber que ela ficou meio lenta durante o café da manhã. – Mile comentou. – Isso não é muito bom, ela não pode dormir. – A menina completou e eu fiquei em silêncio, e logo o mesmo foi quebrado com a voz masculina de Chris Martin, do Coldplay. A música que preencheu o ar fora Magic, e apesar de ser mais familiarizado com o rock, alguns outros estilos eram agradáveis aos meus ouvidos.

- Eu amo essa música. – Escutei a voz de Ju sussurrar e eu agradeci por ver que ela não estava dormindo, já que a fala de Mile começava a me preocupar um pouco. Desci meu olhar até seu rosto e seus grandes olhos encaravam o meu rosto com um sorriso lindo estampado nele. E assim que a música começou a tocar, a menina sussurrou um trecho dela.

- Call it magic, call it true. I call it magic, when I'm with you... – Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios ao escutar a menina pronunciar tais palavras. Senti sua mão ir de encontro à minha que repousava sobre sua barriga. A pequena e macia mão juntou-se a minha e nossos dedos se entrelaçavam.

Eu definitivamente amava Juliana. E não esconderia isso de ninguém.

P.O.V Dean

Empurrei o portão de ferro que dava acesso a casa onde estava morando. Tranquei o mesmo assim que o atravessei e dei de cara com os três preguiçosos nas mesmas posições de quando eu saí para comprar o jornal. A única diferença era que agora tocava alguma música calma que eu desconhecia completamente.

- Voltei! – Exclamei chamando a atenção de todos. Mile sorriu involuntariamente com a minha chegada, e eu sorri com isso, logo subindo a escadinha que dava acesso a varanda e me sentei ao seu lado nas almofadas. Aquele lugar era muito confortável, sério mesmo! – Toma. – Falei enquanto entregava o jornal em suas mãos, vendo a menina deixar o computador de lado para começar a ler as notícias. E ela ficou assim por uns bons minutos.

- Achou alguma coisa? – Ju perguntou elevando um pouco a cabeça para enxergar a amiga. Me senti mais aliviado ao ver que ela estava melhor do que estava durante o café da manhã. Sammy havia me contato o que aconteceu e eu me segurei para não bater no menino.

- Acho que sim, escutem! – Falou enquanto dobrava o jornal ao meio para ler a notícia. – “Jovens desaparecem em Santa Catarina e seus corpos são encontrados três dias depois pendurados em uma árvore e sem uma das pernas”.

- Mas que porra... – Exclamei confuso com isso. – Continua, por favor. – Pedi e a menina começou a ler a matéria.

 

“No último domingo três adolescentes com idades entre 16 e 18 anos sumiram sem deixar rastros, preocupando suas famílias e as levando a procurar a polícia e pedir ajuda. A polícia os procuraram por todo o bairro, mas, durante três dias não houveram sinais dos adolescentes. Até que na quinta-feira os mesmos foram encontrados mortos”.

“Os corpos estavam pendurados pelo pescoço em uma das árvores da praça que fica no centro do bairro onde os mesmos moravam. Além disso, os corpos estavam sem uma das pernas, o que causou a enorme perda de sangue. Os legistas afirmam que a causa da morte não fora a decepção da perna e sim o sufocamento causado pelo enforcamento com a corda que era usada para deixá-los expostos a toda a vizinhança”.

“Até então as buscas pelo assassino dos jovens continuam, o que traz um pouco de esperança aos parentes das vítimas que se encontram desolados com o acontecimento. Os moradores do bairro estão com medo de sair nas ruas e a polícia mantém uma patrulha na praça assegurando os moradores”.

 

- Isso é bizarro demais... – Sammy comentou fazendo uma careta com a notícia recém-lida por Milena e eu apenas concordei.

- Bizarro o suficiente para irmos até lá descobrir o que está acontecendo naquele bairro. Quem topa? – Propus e todos concordaram imediatamente, sem contestar em nenhum momento. Estava claro que era um caso para a gente.

E lá vamos nós para Santa Catarina.

[...]

Estacionei o Impala em uma vaga de frente para uma pousada em um bairro do estado de Santa Catarina. Era dia e Milena ainda dormia ao meu lado após dirigir durante a noite enquanto eu descansava. Paramos apenas duas vezes durante o caminho para comermos e fazemos nossas necessidades e ficamos revezando no volante.

Voltei meu olhar para frente e encarei a estrutura da hospedaria, analisando o local onde ficaríamos hospedados durante o caso. O lugar lembrava-me casa de vó e de certa forma isso trouxe um conforto ao meu peito que se aqueceu com uma sensação que nunca tive. O carinho de vó. Mas, eu resolvi não pensar muito nisso e resolvi acordar a menina ao meu lado.

- Ei, chegamos... – Sussurrei enquanto puxava de leve a orelha da menina. Ri da careta que a mesma fez e logo seus olhos estavam abertos por ter um sono leve demais. Mile olhou confusa a sua volta, mas logo se tocou que realmente havíamos chegado e então olhou emburrada para mim.

- Não tinha forma melhor de me acordar, não? – Perguntou inflando as bochechas e fazendo um biquinho, demonstrando sua indignação. Seus braços cruzaram-se sob o peito e a mesma logo fechou a cara. Soltei uma risada nasal com a cena extremamente fofa que acontecia no bando do carona da Baby e que deveria ser medonha, mas Mile não conseguia.

- Você sabe que eu adoro te acordar das formas mais inusitadas. – Comentei rindo enquanto tirava a chave da ignição. Voltei meu olhar novamente para a menina e ela continuava a com a mesma feição. Revirei os olhos com isso e toquei seu queixo com meus dedos, coloquei um pouco de força no ato e virei seu rosto em minha direção. – Melhora essa cara, rabugenta. – Falei rindo e logo levando um tapa em minha mão.

- Não sou rabugenta... – Falou um tanto chateada.

Gargalhei ainda mais por isso, a menina parecia uma criança de cinco anos que estava fazendo birra. Ela era extremamente apaixonante e linda, e eu não me cansava de admirar sua beleza. Inclinei-me um pouco para frente e puxei seu rosto novamente em minha direção, dessa vez selando seus lábios em um beijo calmo e longo. Os braços da menina logo se descruzaram e suas mãos foram para minha nuca, fazendo um carinho gostoso ali.

- Melhor, cacheada? – Perguntei sorrindo ladino. Mile riu um pouco com minha pergunta e concordou de leve com a cabeça. Afastei-me da menina logo após lhe dar um selinho rápido e abri a porta do Impala, logo descendo do veículo preto. – Vai ficar aí para sempre? - Perguntei ao perceber que a menina ainda estava na mesma posição de antes. Seu olhar era sonhador e tinham um brilho que os deixavam ainda mais belos.

- Não estraga meu momento, Dean! – Comentou revirando os olhos o que me fez gargalhar. A cacheada logo desceu da Baby e caminhou junto de mim até o porta-malas. Tiramos tudo o que iríamos precisar para o caso e nos juntamos com Sammy e Ju na entrada da pousada.

- Conseguimos dois quartos, cada um com duas camas de solteiro. – Ju comentou sorridente. Agradeci por não ter que dividir a cama com meu irmão e logo entramos no estabelecimento. Ali dentro a sensação de que eu estava sendo abraçado por uma senhora de idade aumentou ainda mais.

- Isso parece casa de vó. – Mile comentou olhando o estabelecimento com atenção e admiração. – Eu gostei! – Respondeu ao voltar a olhar para a gente e eu ri do sorriso infantil que habitava o rosto sonolento da cacheada, assim como o brilho animado que embelezava ainda mais o seu olhar.

- Vamos? – Ju perguntou apontando para a escada forrada com carpete bege à nossa frente. Após alguns degraus, a escada dividia-se em duas, uma para cada lado, e provavelmente dava acesso aos quartos.

- Vamos! – Falamos em uníssono fazendo a menina arregalar os olhos de leve e ri em seguida.

P.O.V Juliana

Desci do Impala assim que Dean estacionou a Baby em frente ao número 10 e me juntei a meus amigos em frente ao imóvel. A casa tinha uma áurea triste até mesmo pelo lado de fora, tudo por conta da perda de um membro da família. Eu sabia muito bem como era perder algum ente querido, sabia a dor do luto.

Caminhei à frente dos meus parceiros e subi os quatro degraus da pequena escadinha que dava acesso à porta da casa. Olhei para onde os meus pés estavam postos, ali encontravam-se vários buquês de diversas flores, provavelmente pêsames à morte da Rodrigues mais nova. Um arrepio subiu por minha espinha ao lembrar da foto que estava exposta no jornal. A situação daqueles três jovens era lamentável.

Deixei de lado as flores e voltei meu olhar para a campainha, tocando a mesma e podendo escutar o som alto e agudo da mesma ressoar por toda a casa silenciosa e com áurea triste. O silêncio que pairava sobre o meu grupo era extremamente incomodo, mas, parecia que ninguém ali estava com coragem o suficiente para pronunciar alguma palavra, por mais que quisessem quebrar esse gelo.

O caso realmente era lamentável. Não pelo fato de ser um dos piores da lista de casos que enfrentávamos, até porque já tivemos parecidos, como o do Curupira. Mas, eram três vítimas de uma só vez, e tão jovens, com tantos sonhos. Só de pensar que os mesmos tinham uma vida inteira pela frente, o meu coração diminuía dentro do meu peito e eu podia sentir um teço da dor que aquelas famílias sentiam.

Assim que estava me preparando para apertar a campainha novamente, a porta foi aberta de forma lenta por uma senhora baixinha. Seus cabelos loiros e lisos iam até a altura de seu ombro e estavam postos para trás com um arco preto. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, e abaixo dos mesmos encontravam-se bolsas arroxeadas, mais conhecidas como olheiras. Seus lábios estavam pálidos e rachados. Típica imagem de alguém que estava em luto, que sentia uma dor sufocante e que nunca passaria.

- Senhora Rodrigues? – Perguntei um tanto receosa. A mulher apenas concordou com um leve aceno de cabeça. Ela parecia sonolenta, e eu logo deduzi que fosse efeito de calmantes que provavelmente foram dados a ela por parentes. – Somos Detetives e viemos investigar a morte de sua filha.

- Vocês são a última gota de esperança que a polícia informou? – Perguntou com a voz sussurrada, arrastada e um tanto roupa. Estava claro que a quantidade de calmante que deram à essa mulher era absurda e estava me assustando e começando a me deixar preocupada.

As pessoas precisavam entender que calmantes não diminuirão a dor da perda de um ente querido. Jamais. Então não adianta entupir uma pessoa com os comprimidos, porque isso não vai mudar nada e não trará a pessoa morta de volta à vida.

- Sim, podemos entrar para fazer algumas perguntas? – Pedi e ela pareceu hesitar um pouco, talvez por não querer ficar voltando a esse assunto o tempo inteiro, mas ela logo percebeu que era preciso porque abriu espaço para que eu e meus amigos passássemos e tivéssemos acesso à casa.

Como eu esperava, a áurea da casa estava extremamente pesada, mais até do que do lado de fora, e como mágica uma sensação de tristeza tomou meu coração, um aperto no peito, como se a saudade que eu sentia de meu pai tivesse se multiplicado por mil, e eu comecei a sentir vontade de chorar, senti meus ombros curvarem para baixo, como se tivessem colocado um peso sobre eles. Parecia que a casa sentia a falta da menina.

- Sentem-se, por favor. – A mulher nos indicou o sofá e logo nós quatro nos acomodamos sobre o móvel acolchoado, ficando de forma confortável sobre ele. A senhora arrastou-se – como se estivesse andando em modo automático – e sentou-se à nossa frente, em uma poltrona que fazia conjunto ao sofá. – O que querem saber?

- Ahn... – Limpei a garganta, confirmando que a mulher não queria mesmo falar sobre aquilo, e mandei aquele nó – indício de choro – maldito para longe de mim. Não era hora de chorar, era hora de trabalhar! – Sua filha tinha algum inimigo que fosse capaz de fazer isso com ela? – Perguntei ao perceber que ninguém ali tomaria a atitude de perguntar algo.

- Não que eu saiba. Todo final de semana ela saía à noite para se encontrar com o Júlio e o Marcelo, os dois meninos que também morreram, eles eram melhores amigos, cresceram e foram criados juntos. Eram inseparáveis. Mas, eu nunca ouvi dizer de alguma inimizade. - A mãe comentou, parecia forçar sua mente para lembrar de alguém que pudesse fazer tal brutalidade com sua filha.

- Onde eles costumavam se encontrar? - Sammy perguntou com um português arrastado e carregado de sotaque. Percebi a mulher ter um pouco de dificuldade para entender, o que resultou em uma demora considerável para ela responder.

Eu achava um tanto fofo a forma como os irmãos pronunciavam a língua latina. Esforçavam-se ao máximo para aprender alguma palavra nova que eu e Mile soltávamos diariamente, e ás vezes até dialogávamos com eles para ajudar na prática do português. Eles sempre estavam praticando a língua. Eu tinha feito uma promessa com minha amiga de que eles sairiam daqui falando – pelo menos – o básico da língua portuguesa.

- Eles sempre se encontravam na mesma praça onde os corpos deles foram encontrados. – Lembrar desse dia doía na mulher, e isso estava claro, era traumatizante. – Eu não entendo como isso foi acontecer. Laura estava extremamente feliz naquele dia, os três eram inseparáveis. Eu nunca escutei alguma reclamação do trio. – A mãe respondeu.

- Houve alguma mudança de comportamento durante a última semana que antecedeu a morte deles? – Mile perguntou. Eu queria acabar logo com esse questionamento, e parecia que todos ali também, até mesmo eu estava começando a me sentir muito mal.

- Não, como eu disse, ela estava extremamente bem e calma, do modo dela, animada para poder reencontrar os amigos no fim de semana. – Senhora Rodrigues deixou que uma lágrima solitária escorresse por seu rosto branco. – Eu sinto tanta falta da minha menina, da sua risada, da sua voz, da sua presença. Por favor, façam o que for preciso para encontrar quem fez isso com eles.

- Sabemos o que perder alguém querido, entendemos essa sua dor e essa sua saudade, e eu sinto muito pela sua perda, de verdade. E pode ter certeza que nós faremos o possível para encontrar esse monstro que matou eles. Eu prometo! – Dean consolou a mulher que apenas abaixou a cabeça e escutou calada a fala do homem.

- Acho que isso já é o suficiente. Obrigado pela colaboração, senhora Rodrigues, qualquer coisa nos ligue. – O Winchester mais novo ficou de pé e todos seguiram seu exemplo, formando uma fileirinha. A mulher nos guiou até a porta da casa, se despedindo e frisando seu pedido para encontrar quem fez isso e logo fomos em direção ao Impala.

- Tem algo muito estranho nessa história, eu não engoli tudo isso. Alguma coisa esse trio "perfeito" fez para que isso acontecesse com eles. Não é possível, tem que haver algum motivo! – Mile disse ao fechar a porta do carro. Minha amiga estava certa, ninguém é santo a esse ponto, sempre tem algum segredo obscuro.

- Vamos até a praça onde os corpos foram encontrados, iremos questionar os donos dos estabelecimentos que ficam em volta da praça, quem sabe eles não tenham algo para nos dizer. – Falei decidida. A praça era o ponto certo para investigarmos, eu sentia que as respostas estariam lá. E logo o Impala rumava pelas ruas do bairro em direção ao local.

[...]

- Boa tarde. – Falei assim que eu me aproximei do balcão daquele estabelecimento, apoiando meus braços no balcão do bar.

Era o primeiro estabelecimento que entramos para começar as investigações pela praça. Bar era um local que, normalmente, ficava aberto até tarde, e provavelmente alguém teria visto os três jovens na praça no dia em que sumiram. Ou até mesmo no dia em que os corpos apareceram nas árvores, e se tivéssemos muita sorte, a pessoa que colocou eles ali.

- Boa tarde, o que desejam? – Uma menina com voz fina – e um tanto irritante – perguntou ao nos atender enquanto limpava um dos copos com um pano branco.

A garota devia ter no máximo uns dezoito anos, os cabelos extremamente vermelhos iam até a sua cintura. Ela usava uma blusa apertada de manga cumprida e na cor branca. Desci meu olhar um pouco mais por seu corpo, e percebi o tamanho da saia preta que ela usava, o que me fez questionar a mim mesma se ela não estava sentindo frio, já que eu estava congelando dentro daqueles milhões de casacos. Eu realmente não entendia essas meninas.

Percebi que seu olhar recaiu sobre os irmãos Winchester que entravam no estabelecimento acompanhados de Milena, seu olhar intercalou entre os dois, analisando-os de cima a baixo ao mesmo tempo em que abria um sorriso malicioso e que indicava a satisfação por vê-los ali. Arqueei uma sobrancelha com a ousadia da balconista e pigarreei para chamar a sua atenção – antes que eu arrancasse seus olhos com minhas próprias unhas.

- Informações. Somos detetives e viemos investigar a morte dos três jovens que foram encontrados na praça. – Falei sentando-me na banqueta que havia ali no balcão, acomodando-me e fazendo questão de fazer uma cara de nojo para a menina.

Observei – com um certo nojo – a ruiva mascar um chiclete de boca aberta, o que pronunciava um som um tanto irritante, que podia ser comparado a uma vaca comendo capim, e que me dava vontade de socar sua garganta até ela engolir aquele chiclete nojento. Ela não percebia que ao mascar o chiclete de boca aberta era uma falta de educação e que ela estava engolindo bilhões de bactérias ao fazer isso? Que nojenta!

- Não sei se a senhora percebeu, mas eu estou trabalhando, então, infelizmente eu não posso ajudar. – Falou de forma debochada, olhando brevemente para mim e abrindo um sorriso tão debochado quando a sua voz.

Levantei as duas sobrancelhas em surpresa com a sua resposta malcriada. Até porque ela, realmente, não precisava me responder daquela forma, até então eu ainda não fui grossa e nem mal-educada com ela, então o mínimo que mereço é respeito e uma boa forma de tratamento. Senti mãos grossas e grandes pousarem sobre meus ombros, o que me fez relaxar automaticamente.

- Qual parte do "somos detetives" a senhorita não entendeu? – Perguntei tentando manter minha paciência diante da putaria que rolava na cabeça da menina ao encarar os irmãos de uma forma tão descarada e luxuriosa. Ela não tinha vergonha na cara não? Que menina ousada gente!

- E qual parte do "estou trabalhando e não posso ajudar" a senhorita não entendeu? – Perguntou usando novamente o deboche comigo, logo em seguida voltando a olhar para o Sammy, piscando para o mesmo. Aquilo foi a gota d'água para que eu mandasse a minha paciência para a puta que pariu. Bati com força a mão sobre o balcão – o que chamou a atenção de todos ali dentro – e fiquei de pé.

- Olha só, eu realmente não sei se você percebeu ou só gosta de se fazer de burra mesmo, mas eu também estou trabalhando e não tenho paciência para ficar aturando deboche de uma pirralha que quer chamar atenção da forma mais vulgar que existe. Saiba você... – Apontei o dedo na cara dela. A menina se encontrava assustada com tudo o que eu fazia naquele momento. – Que esses dois rapazes são comprometidos, e mesmo que você abra suas pernas o máximo que conseguir, e implore para que eles fodam você da melhor forma, isso não vai acontecer, porque eles já têm namoradas.

- Juliana, calma, estão todos olhando para o que você está fazendo. – Sammy tentou falar, apertando de leve minha cintura para frisar o que falava, mas isso só serviu para me deixar ainda mais com raiva, o que me fez encarar o mesmo com fogo nos olhos – literalmente – o fez o homem curvar os ombros e calar a boca na mesma hora.

Aí dele de tentar defender essa aspirante a puta, senão vai sobrar para ele.

- É melhor você ficar calado e colaborar antes que as coisas piorem para o seu lado. – Milena comentou de forma séria e um tanto ameaçadora ao meu lado, palavras direcionadas a menina do outro lado. A ruiva encontrava-se paralisada do outro lado do balcão, surpresa com tudo o que falei, e isso me fez sorrir vitoriosa com o efeito que causei.

- Cla-claro. – A menina gaguejou, claramente nervosa com a situação, e logo se recompôs, tossindo um pouco para normalizar a sua voz. – Podem perguntar o que quiser. – Aumentei ainda mais o meu sorriso e pisquei para a mesma. Eu sentia o ódio correr por casa veia do seu corpo. Seu rosto estava vermelho de raiva, quase se igualando a cor do seu cabelo, eu podia até comparar ela a um tomate, e aquilo me divertiu bastante.

Ninguém mexe com o meu namorado.

P.O.V Mile

Olhei um tanto assustada para a minha amiga. Juliana não era de ter esse tipo de atitude, ainda mais com uma plateia tão cheia de expectadores para assistir ao seu espetáculo gratuito. Ela era sempre reservada e procurava conversar civilizadamente com as pessoas, sempre persuadindo as pessoas a fazer o que ela queria. Eram raras as vezes que eu via a menina explodir de tal maneira, e em todas as vezes, foi por causa da TPM.

Mas, até que eu tinha gostado das coisas que a minha amiga disse para a abusada da menina do balcão. A ruiva realmente estava passando dos limites tanto na educação perante uma "agente da polícia" – eu sei que não éramos agentes de verdade, mas fazíamos o papel de uma, então o respeito ainda tinha que existir –, quanto em relação a quase abrir as pernas para os irmãos Winchester.

Eu estava esperando o momento certo para explodir com ela, não aguentando mias vê-la se jogar para cima deles, mas não precisei fazer isso, já que Ju o fez por mim. Todo o momento em que minha amiga gritava com a ruiva, eu tentei esconder um sorrisinho de satisfação por ver a menina assustada. As pessoas à nossa volta assistiam o teatro com um sorriso debochado no rosto, e mesmo que eu não gostasse desse tipo de reação, naquele momento não estava me importando muito com isso.

- Caralho, o que aconteceu com a Juliana? – Dean sussurrou ao meu lado, assustando-me um pouco pelo fato de eu estar prestando atenção no pequeno sermão que minha amiga dava na balconista. O homem parecia tão surpreso quanto eu, já que nem mesmo na TPM ele viu Ju agir daquela forma.

- Também não sei, eu nunca vi isso acontecer, só quando ela está de TPM, e ainda assim é raro. Talvez seja apenas ciúmes do Sammy, até porque você viu como ela estava olhando para vocês dois? – Comentei no mesmo tom que o homem usou comigo, não me aguentando e comentando que também estava incomodada com os olhares da ruiva sobre eles. Dean abriu um sorriso divertido com a situação e eu fiquei admirando a bela curva que embelezava seu rosto.

- O que foi? – Perguntou sorrindo de lado ao ver que eu encarava descaradamente seus lábios tão convidativos. – Deixa chegar no hotel que você pode fazer o que está pensando em fazer. – Ele completou em um sussurro bem próximo ao meu ouvido, depositando um beijo em meu pescoço logo em seguida.

Afastei-me minimamente do homem e olhei assustada para o mesmo ao entender o que ele havia pronunciado em meu ouvido. Minha reação fez o homem rir divertido, o que resultou em um tapa fraco em seu ombro, para logo em seguida eu abaixar a cabaça em sinal de vergonha. Eu sentia as minhas bochechas esquentarem e procurei desviar a minha atenção do Winchester mais velho.

- Vamos? Já terminei por aqui e ainda temos muito o que perguntar para essa... menina. – Senti que Ju não queria pronunciar exatamente a palavra "menina" e sim algo como "puta" e seus derivados e eu ri internamente disso.

Nós quatro acompanhamos a balconista até uma mesa mais afastada dos outros clientes, em um lugar mais reservado e com menos barulho e ali fizemos as perguntas da investigação. Percebi que durante todo o interrogatório Sammy mantinha-se calado e um tanto encolhido ao lado de Ju, talvez com medo de pronunciar algo e Ju interpretar errado e lhe dar um tapa, e eu segurei uma gargalhada com a cena hilária que acontecia na mesa. Esses dois realmente eram uma comédia juntos.

[...]

O Impala estacionou rente a calçada da rua. Estávamos na Rua 9, e o endereço foi dado pela balconista do bar. A mesma afirmava que os três jovens que morreram viviam infernizando o senhor cadeirante que morava na última casa da Rua 9. E aqui estamos nós em frente à última casa da Rua 9, e ela mais parece um cenário de filme de terror do que uma casa habitável por alguém cadeirante.

Pelo que soubemos o homem vivia ali sozinho, e era morador do bairro há anos. Pelo que a ruiva havia nos dito os jovens adoravam brincar e infernizar a vida do homem, que sempre demonstrou ser um velho rabugento e antipático, que nunca fez questão de fazer amizade com nenhum vizinho. Disse também que ele não tinha parentes e se virava sozinho.

- Tem certeza que esse lugar é habitável? – Perguntei ao encarar a casa velha, com rachaduras e machas de infiltrações. A casa estava silenciosa demais e eu supus que a balconista nos enganou por pura vingança pelo que Ju havia dito e feito ela passar na frente de todos os seus clientes.

- Não sei, estou começando a achar que a balconista nos deu a inform... – A fala de Dean – que concluía o meu pensamento – foi cortada assim que a porta da casa foi aberta de forma brusca, fazendo um barulho alto. Assustei-me um pouco com isso e levei a mão ao peito, sentindo meu coração bater rápido.

De dentro da casa saiu um senhor negro e cadeirante. Na boca tinha um cachimbo, e logo o cheiro forte do fumo pode ser sentido por mim, o que me deixou levemente tonta por ser muito forte. O homem usava um short vermelho e não tinha uma perna – motivo pelo qual usava a cadeira de rodas – e seus olhos tinham um brilho divertido, como o de uma criança. Tenho que confessar que ele era um tanto medonho.

- Boa tarde... – Falou com a voz arrastada e embolada por conta do cachimbo que ainda pendia de sua boca, sendo tragado de forma calma pelo homem. Engoli em seco com a sua presença, eu não confiava no homem de cadeiras de rodas, ele tinha algo estranho, eu não sei explicar, mas, parecia que eu o conhecia de algum lugar.

- Boa tarde. – Respondemos em uníssono, olhando de forma atenta para o homem.

- Senhor Pererê? – Perguntei em dúvida, olhando para o papel em minha mão e conferindo o nome dado pela balconista. Franzi o cenho ao ler, eu realmente o conhecia de algum lugar, mas não conseguia me lembrar. Olhei novamente para o senhor a minha frente e ele concordou. – Podemos fazer algumas perguntas ao senhor?

- Claro, o que querem saber? – Perguntou andando com a cadeira até nós. Eu estava nervosa com a sua presença, sentia meus pelos arrepiados e o meu coração bater rápido. Alguma coisa nele não permitia que eu confiasse no homem.

- Queremos falar sobre as três crianças que apareceram mortas e penduradas em árvores na praça. Uma informante nos disse que a vida delas era infernizar a sua vida, vindo aqui perturbar o senhor e ficar fazendo algazarras. Confirma? – Ju perguntou e o homem sorriu divertido com a informação. Qual é a dele?

- Sim, aqueles pestinhas infernizavam a minha vida mesmo, e pelo simples fato de eu ser um cadeirante, eles se achavam no direito de fazer tal coisa já que eu sou um incapaz de fazer algo. – O homem realmente parecia chateado com a situação que tinha que passar nas mãos daqueles três. Como Ju havia dito, o trio perfeito tinha que ter feito algo. – Para ser sincero, eu até fiquei feliz quando soube da notícia da morte deles.

- Ahn... o senhor tem problemas mentais? – Perguntei um tanto incrédula pela fala do homem. – Por mais que eles infernizassem a sua vida, eram jovens e não mereciam morrer, tinha sonhos e planos, e provavelmente um futuro pela frente. E o senhor comemora e fica feliz quando recebe a notícia de que eles morreram de forma tão horrível? – Eu não conseguia aguentar ficar calada diante de uma coisa tão horrível como o que aquele velho medonho falava.

- Sim, fiquei feliz e se pudesse saía pulando por aí de felicidade por finalmente me ver livre daqueles três demônios! Agora, vocês vieram aqui para me interrogar ou me chamar de problemático? Porque se for isso, já podem se retirar. – O velho andou para trás com a sua cadeira e seu semblante dava medo. – Aliás, saíam daqui agora, já respondi o suficiente. – E então ele abriu a porta da casa e a fechou com força na nossa cara.

- Obrigado por estragar tudo. – Dean comentou fazendo-me abaixar a cabeça envergonhada.

A minha vontade era responder e xingar o Winchester, mas ele estava certo, porque por mais escroto que foi o que o velho disse, eu tinha que me segurar e manter a linha e quem sabe tirar algumas informações dele, mas eu estreguei tudo. Dei as costas à casa e abri a porta do Impala, porém, antes de entrar na Baby, o homem abriu a porta da casa novamente e nos olhou com ódio.

- Quando encontrarem o assassino deles, agradeça pelo que ele fez! – E então fechou a porta novamente. Eu encontrava-me com os olhos arregalados, assim como meus companheiros e me vi na oportunidade perfeita de falar novamente.

- Ele, realmente, tem problemas mentais. – Afirmei a minha convicção e pela primeira vez todos ali concordaram, o que me fez sorrir. Entramos no carro e ficamos em silêncio. Eu estava pensativa, sabia que o conhecia de algum lugar. O seu sobrenome me intrigava de uma forma inexplicável. – Ele pode ser um suspeito.

- Ele é cadeirante, Mile, como seria um suspeito? Não consegue nem se manter em pé! – Sammy perguntou e eu dei de ombros, até porque no sobrenatural tudo é possível, até um cadeirante assassinar três adolescentes. Eu tinha certeza que ele era um suspeito, só não podia confirmar isso. Aliás, quem garante que a minha intuição está certa?

[...]

Eu andava de um lado para o outro no quarto que dividia com Ju, e que no momento estava hospedando os irmãos também. Estávamos ali para investigarmos mais à fundo a morte dos três jovens, coisa que nos intrigava muito. Mas, por mais que eles concluíssem alguma coisa, minha intuição cismava em dizer que o causador da morte deles era o cadeirante.

- Se você não parar de andar agora, eu vou te amarrar na cadeira. – Dean comentou visivelmente puto da vida. Ou melhor, puto comigo porque eu não parava de andar de um lado par ao outro desde que chegamos da casa do velho. Revirei os olhos e ignorei o comentário do mesmo que pareceu ficar com mais raiva ainda.

Até que resolvi pegar o caderno com as anotações de Ju e reli as informações contidas ali pela milionésima vez em menos de meia hora enquanto andava de um lado pelo outro. Pelo menos eu estava ajudando em algo. Eu relia cada informação com extrema atenção, querendo que Deus descesse do céu e apontasse o dedo na minha cara dizendo que tudo aquilo estava óbvio demais.

E era o que eu achava: estava tudo tão óbvio que eu não conseguia enxergar e muito menos os meus amigos que não queria acreditar na minha intuição. Que no momento indicava o velho como assassino e que tudo isso daria uma merda muito grande e que no final quem seria atingida seria eu. Sim, minha intuição apontava tudo isso na minha cara.

- CARALHO MILENA! – Dean gritou me assustando e por fim me fazendo parar de andar. Daqui a pouco eu abriria um buraco no chão. – Senta nessa porra dessa cadeira antes que eu te jogue pela janela. – Estremeci com a fala sussurrada e raivosa do Winchester mais velho, e sem questioná-lo, eu sentei-me na cadeira.

Peguei sobre a mesa os laudos médicos que Sammy e Ju haviam conseguido com o médico responsável pelas análises. Eu já havia decorado cada vírgula, ponto e palavrinha dali. E, como sempre, não encontrava porra nenhuma de útil. Comecei a balançar a perna de forma nervosa e batucar as unhas sobre a madeira da mesa, demonstrando minha impaciência para toda essa situação, e dessa vez quem gritou comigo foi Juliana.

- SAÍ DO MEU QUARTO AGORA! – Gritou me assustando e apontando o dedo para a porta, mandando eu sair dali. Suspirei irritada e taquei os laudos na mesa com raiva por eles não acreditarem em mim e me fazerem ficar dessa forma. Saí do quarto com passos pesados e bati a porta com o máximo de força que conseguia.

O problema disso tudo é que ninguém acreditou em mim quando eu disse que o culpado era o cadeirante. Pelo contrário, eles riram e disseram que o mesmo era um inválido, incapaz de fazer mal à três adolescentes. E eu, como uma teimosa, insistia em acreditar na minha intuição, porque eu sentia que ela estava certa.

Desci pela escada em silêncio, apesar de querer quebrar tudo que aparecia na minha frente para descontar a raiva que sentia. Já era de madrugada e não tinha ninguém na recepção, nem mesmo pelos corredores. Dona Benta, a dona do local, provavelmente estaria dormindo, assim como seus hospedes. Ela é uma senhora extremamente simpática e religiosa que andava de um lado para o outro com um rosário nas mãos.

Caminhei a passos leves pelo hall de entrada, passando pela recepção vazia e segui em direção a sala de estar do local, que ficava atrás de uma porta dupla de madeira ao lado da recepção. Sentei-me no sofá de três lugares extremamente florido e fiquei encarando a janela que me proporcionava uma vista maravilhosa do céu estrelado e da lua cheia.

Apoiei meus cotovelos em meus joelhos e tampei o rosto com as mãos, suspirando fundo e mandando aquela raiva para longe de mim. Eu estava extremamente cansada disso tudo, às vezes eu me pagava pensando na possibilidade de desistir dessa vida de caçadora e investigar em medicina, mas então a imagem do meu pai vinha em minha mente e eu buscava forças na sua lembrança.

Meu pai e o pai de Ju eram ótimos caçadores e desde a morte de nossas mães – que também eram caçadoras –, eles nos criaram afastadas de toda essa vida sobrenatural, com medo que acontecesse conosco o que aconteceu com nossas mães. Mas, o destino já estava selado, eu e Ju viramos caçadoras após a morte de ambos, ainda mais com uma influência tão forte como o tio Bobby.

E prometemos para suas lembranças que cuidaríamos de tudo por aqui. Eu não podia desistir. E com isso eu levantei a minha cabeça, encarando o teto e tentando relaxar, mas logo senti meus músculos ficarem tensos e em alerta ao escutar uma risada baixa ecoar pelo cômodo, me fazendo estranhar pelo fato de somente eu estar ali embaixo.

Olhei para trás e não tinha ninguém, olhei para a porta que dava para o hall e não havia nada. Franzi o cenho quando a risada se transformou em uma alta gargalhada, como se a pessoa estivesse se divertindo com a minha situação. Senti os pelos do meu corpo arrepiarem e uma corrente de medo subir por minha coluna. Eu sentia como se estivesse sendo observada.

- Juliana, é você?! – Perguntei ao lembrar que minha amiga tinha a mania de me assustar com brincadeiras desse tipo, mas não levava muito a fundo. Mas, fiquei com ainda mais medo quando não recebi nenhuma resposta. Estranhei, pois quando a mesma via que eu estava realmente apavorada, ela aparecia rindo da minha cara.

E novamente a gargalhada se fez presente, e dessa vez próxima demais de mim. Virei meu rosto bruscamente na direção da janela, local de onde vinha o som, e ali estava o responsável pelo som, que deveria ser sinônimo de alegria, mas que estava sendo aterrorizante. Arregalei meus olhos e senti meu coração encolher dentro do meu peito ao mesmo tempo em que acelerava como se eu tivesse corrido uma maratona.

Era o cadeirante. Ele estava em pé, parado do outro lado da janela fechada. Usava um gorro vermelho em sua cabeça, um short vermelho e um cachimbo pendia de sua boca que exibia um sorriso extremamente psicopata em minha direção. Seus olhos me davam medo. E diferentemente de hoje mais cedo, o mesmo encontrava-se em pé, pulando na única perna que tinha.

Eu só queria sair dali o mais rápido possível, sair de perto daquele monstro medonho. Nos meus pensamentos era o que eu fazia, corria como uma maratonista, mas por um momento o medo me prendeu naquele sofá, me colando naquele tecido exageradamente florido, mas, graças a Deus foi por pouco tempo e eu logo corri para o hall o mais rápido que conseguia e a gargalhada dele soou novamente pela hospedaria. Parecia me seguir e se aproximar de mim.

Subi as escadas tentando ao máximo não tropeçar nos meus próprios pés – o que realmente foi muito trabalhoso por conta do medo e da adrenalina que sentia –. Eu estava desesperada e precisava achar alguma forma de matá-lo. Corri pelo corredor, sentindo a presença do homem atrás de mim, e entrei no quarto com brutalidade, assustando os meus amigos. Fechei a porta atrás de mim com força, encostando-me a mesma e ficando ali. Levei a mão ao meu peito, meu coração batia forte e eu respirava com extrema dificuldade.

- Mile, o que aconteceu? – Sammy perguntou vindo até mim, demonstrando extrema preocupação para comigo. Rodeei a cintura do meu amigo, abraçando-o fortemente e afundando minha cabeça em seu peito. Eu estava com medo, muito medo e só queria me encolher embaixo de vários cobertores, mesmo sabendo que isso não me protegeria de nada. – Ei, calma, me conta o que aconteceu? – O mesmo levantou minha cabeça e se assustou ao me ver chorando.

- Ele está aqui. Ele veio atrás de mim. – Falei e soltei um soluço alto no final da frase, sentindo meu corpo estremecer de medo ao relembrar a imagem medonha do homem atrás daquela janela. O homem tinha um poder inacreditável sobre a vítima, sendo capaz de deixá-la a ponta de enlouquecer de tanto medo. E era o que estava acontecendo comigo naquele momento. – Ele está aqui, Sammy.

- Quem está aqui?! – Ju perguntou aparecendo ao lado do namorado. Seus olhos transbordavam preocupação. Minha amiga acariciava meu rosto, secando as lágrimas que ainda desciam por ali. Meu rosto provavelmente deveria estar tomado pelo medo. E a única coisa que eu tinha certeza era que eu nunca havia sentindo tanto medo em minha vida.

- O Saci Pererê. – Falei engolindo o choro ao conseguir lembrar que monstro era aquele.

Assim que terminei de falar, a luz do quarto se apagou, nos deixando em um breu completo, me deixando com ainda mais medo e uma gargalhada foi escutada por todos no quarto. Eu entrei em desespero, chorando copiosamente. Ele estava brincando conosco. Ele estava brincando comigo e eu nem ao menos sabia o porquê.

P.O.V Sammy

Agarrei-me ainda mais a Milena assim que aconteceu a queda de luz, querendo passar um pouco mais de segurança a menina que parecia estar sentindo medo até mesmo de uma inofensiva flor. Senti a presença de alguém ao meu lado e logo o barulho repetitivo de alguém tentando ligar o interruptor. Sem sucesso.

- Mas que porra é Saci Pererê?! – Escutei Dean falar com raiva de toda a situação. O mesmo saiu de perto do pequeno grupo que se reunia na porta do quarto e caminhou até a bolsa sobre a cama, procurando por algo dentro da mesma e logo a luz da lanterna se fez presente, iluminando minimamente o quarto.

- Precisamos achar o livro sobre Folclore. – Ju disse saindo de perto da amiga e indo até Dean. Os dois começaram a procurar dentro de uma das bolsas enquanto eu ficava responsável por acalmar Milena e logo eles acharam o livro que já era tão conhecido por todos. Dean apontava a lanterna para o livro e a menina folheava o mesmo com rapidez.

Mais uma gargalhada foi escutada, fazendo Mile apertar ainda mais forte os braços em volta de mim. Beijei o topo da cabeça da minha amiga, tentando ao máximo passar segurança e confiança a mesma. Eu não sabia ao certo o porquê de ela ter me abraçado, talvez pelo fato de eu ter ido até a mesma e estar mais próximo, até porque ela queria apenas segurança. Mas, eu não ligava, Mile se tornara uma grande amiga e eu a protegeria de todo o mal.

- Achei! – Ju disse animada e aliviada ao mesmo tempo. Observei a menina apertar os olhos tentando ler o que estava escrito nas páginas, e mesmo com a lanterna era difícil. Mas, por fim ela conseguiu e começou a ler o que o livro nos dava informações úteis e eu rezei para que nos ajudasse nessa situação delicada.

 

“O saci-pererê é representado por um menino negro que tem apenas uma perna. Sempre com seu cachimbo e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso, assustando as pessoas com gargalhadas”.

“A lenda também diz que o Saci se manifesta como um redemoinho de vento e folhas secas, e pode ser capturado se lançarmos uma peneira ou um rosário sobre o redemoinho. Se alguém for perseguido por ele, deve jogar cordões enozados em seu caminho, pois ele vai parar para desatar os nós, permitindo que a pessoa fuja”.

 

- Alguém tem um rosário? – Dean perguntou em alto e bom som, olhando para todos dentro daquele quarto. Percebi o choro de Mile cessar por um momento, e eu agradeci por isso, e a mesma levantar sua cabeça.

- Dona Benta, a responsável pela hospedaria. – Olhei para todos um tanto preocupado. O quarto da mulher ficava do outro lado do hotel, atrás da recepção. Para entrarmos lá, teríamos que sair do quarto, e infelizmente, o tal Saci Pererê estava do outro lado da porta.

- Precisamos de cordões enozados. – Falei.

[...]

Depois de ficarmos dez minutos – e olha que fizemos isso muito rápido – dando nós em uma corda que encontramos dentro da nossa bolsa e que cortamos em vários pedaços, nos demos por satisfeitos e entregamos boa parte das cordas para Milena, que estava extremamente nervosa com toda essa situação e que aparentemente era o alvo do Saci.

Enquanto fazíamos os nós, Milena nos contou o que aconteceu na sala de recepção, e então chegamos à conclusão que a perseguida era ela pelo simples fato da mesma ter chamado o cadeirante de problemático na hora que fomos fazer o interrogatório a ele. Parecia que o mesmo perseguia e infernizava a vida de quem "praticava bullying" com o mesmo.

- Prontos? Milena, já repassou o plano todo? – Perguntei ficando de pé e olhando para a menina que tremia de medo.

Era simples: correríamos até a recepção enquanto Milena jogava cordas enozadas atrás da gente, fazendo com que o Saci parasse para desfazer os nós e nos dando tempo de descermos em segurança. Eu arrombaria a porta do quarto da dona Benta, tomando cuidado para não a acordar e Ju entraria e pegaria o rosário. E do lado de fora eu e Dean daríamos cobertura a Milena caso alguma coisa fugisse do controle.

Tudo bem, não era tão simples assim. Nossas vidas e pernas estavam em jogo aqui, mas era necessário arriscarmos para que tudo desse certo.

Saímos os quatro do quarto, olhando para os dois lados do corredor e estranhando o fato de o local estar assustadoramente silencioso e vazio. Nenhuma gargalhada, nenhum barulho de folhas ou algo parecido. E devo admitir que essa situação estava me dando muito medo. Caminhamos em silêncio, e por precaução, Milena já colocava as cordas enozadas no chão.

Aquilo estava fácil demais para ser verdade. E parecia que o destino estava brincando com a gente também.

Uma gargalhada alta foi escutada, bem atrás de nós quatro. E no fim do corredor estava o velho cadeirante, sorrindo e pulando em uma perna só. Ele realmente estava medonho como Mile havia nos descrito. Começamos a correr assim que ele veio em nossa direção, envolto em um redemoinho de vento com folhas secas. Ele pulava e andava rapidamente em nossa direção. Algo surreal demais.

Porém, assim que se aproximou da primeira corda enozada no chão, ele parou bruscamente. Seu olhar desceu e parou na pequena corda e como se o ódio estivesse corroendo-o por dentro, o mesmo abaixou-se de forma relutante e pegou a corda, começando a desfazer o nó dado nela. Ele estava tão concentrado naquilo, parecia um vício. Um vício que ele precisava saciar.

Ali estava a nossa oportunidade de correr até a recepção.

Visto que os nós deram certo, Milena tacava com um pouco mais de confiança no chão. E dessa forma nós chegamos à recepção, não antes de Milena deixar um bolo considerável de cordas enozadas ao pé da escada para garantir que o Saci ficasse longe da gente tempo suficiente para eu arrombar a porta e Ju pegar o rosário.

Tudo estava correndo perfeitamente bem, eu até mesmo estava estranhando a sorte que estávamos tendo. Isso mesmo, estava. Eu arrombei a porta e Ju entrou no quarto e começou a procurar o rosário, até então tudo estava muito bem. Mais ela não voltava com o rosário e as cordas estavam acabando. Onde essa menina se enfiou?

- Ju, anda logo! – Sussurrei um grito (?). A menina olhou para mim nervosa. Ela não conseguia encontrar. Entrei no quarto, deixando Dean sozinho do lado de fora e comecei a procurar junto dela. Revirei o quarto todo, evitando fazer barulho, e então meus olhos pousaram sobre uma bíblia ao lado do travesseiro de dona Benta e de dentro dela escapava uma parte do rosário. – Achei.

Ju seguiu meu olhar e então caminhou até a bíblia. E com extremo cuidado – evitando até de respirar – a mesma tirou o rosário de dentro do livro e juntos saímos do quarto o mais rápido que conseguíamos. Me precavi ao fechar a porta e quando voltei meu olhar para a escada, encontrei Dean sendo arrastado pelas pernas pelo Saci e Milena encolhida embaixo do balcão, chorando de medo.

O que estava acontecendo com ela?

Corri em direção ao meu irmão o mais rápido que conseguia, querendo salvar a sua vida das mãos daquele monstro. Fiz uma coisa idiota, mas que funcionou. Taquei-me em cima do velho que caiu junto de mim no chão. Senti um tapa muito forte em meu rosto e logo o local começou a arder. Soquei a cara do velho abaixo de mim, o que só resultou em uma dor muito grande nos nós dos meus dedos.

Fui empurrado com força contra a parede e caí no chão um pouco tonto, aquele velho era realmente forte demais. Forcei-me a ficar de pé, apoiando no chão e pude ver a Ju jogar um grande bolo de cordas enozadas na direção do Saci. O mesmo deu um grito de ódio e abaixou-se para desfazer os nós. Fiquei de pé e com muita dificuldade eu corri até Milena que ainda estava escondida embaixo do balcão.

Só ela poderia matá-lo.

- Você precisa acabar com isso! – Falei puxando-a pelo braço. Ela chorava copiosamente e tentava se soltar do meu aperto e se fosse em qualquer outro momento eu a abraçaria o mais forte que conseguisse.

- Eu não consigo! – Falou entre soluços altos. Olhei novamente para a escada e Ju arrastava o corpo desacordado e machucado de Dean para longe do Saci. Ela vinha em nossa direção e provavelmente esconderia o homem em um lugar seguro.

- Olhe para ele, Milena! – Apontei para meu irmão desacordado. A menina negou-se a fazer isso e eu virei seu rosto bruscamente, forçando-a a olhar para meu irmão. – Você quer mesmo que isso acontecesse comigo e com a Ju? Em? Ou pior, quer que todo mundo morra da mesma forma que aqueles adolescentes? – Perguntei e ela negou freneticamente. – Então pega essa porra de rosário e faça o que tem que fazer.

A menina encarou-me um tanto assustada e eu já estava me arrependendo de ter falado daquele jeito com ela. Mas, pareceu funcionar e eu precisava agir daquela forma naquele momento, ou então todo mundo morreria. A mesma tirou o rosário das mãos de Ju e caminhou lentamente na direção do Saci, que agora desfazia o último nó. Quando o mesmo terminou seu trabalho, eu comecei o meu.

Rezei para que tudo desse certo e que nada acontecesse com Milena, para que o plano funcionasse e que esse pesadelo chegasse ao fim finalmente, deixando todo mundo em paz e vivo. Ou então poderíamos nos declarar mortos nesse exato momento.

P.O.V Milena

Eu estava parada de frente para a minha morte. Literalmente.

Eu tremia dos pés à cabeça e chorava silenciosamente, porém, de forma intensa. Na minha cabeça eu tentava entender o que estava acontecendo comigo, porque eu estava agindo dessa forma e consequentemente colocando as vidas dos meus amigos em risco. Eu nunca havia sentido tanto medo na minha vida, e sentia que o responsável por isso tudo era o monstro sorrindo à minha frente.

Olhei para meus amigos, conferindo se eles estavam bem. Ju encontrava-se abraçada à Sammy, chorando de nervoso e mordendo o lábio inferior, já Sammy tinha os olhos fechados e parecia recitar alguma coisa, talvez um pedido para que tudo desse certo no plano. E por eu olhei para Dean, caído no chão, desacordado e machucado por minha causa.

Eu tinha que acabar com aquilo de uma vez por todas, ou a nossa situação ficaria dez vezes pior do que já estava. E então, por fim, meu olhar caí para o rosário em minhas mãos. Era só tacar nele e tudo acabaria. Mas, eu sabia que não era a hora certa. Ele precisava se transformar por completo. Com direito a redemoinho, folhas secas e gargalhadas.

E foi o que ele fez. Ele simplesmente vestiu a carapuça.

Veio em minha direção envolto no redemoinho com folhas, pulando naquela sua maldita perna. Soltou uma gargalhada alta quando se aproximou de mim, o suficiente para agarrar minhas pernas e me levar em direção à morte. Porém o seu sorriso sumiu quando o meu foi aberto, e uma coragem desconhecida tomou conta de mim naquele momento. E eu ergui a mão com o rosário, o assustando.

Ele tentou fugir, pulando para trás, mas eu fui mais rápida e taquei o rosário dentro do redemoinho dele. O grito do monstro ecoou por todo o hotel, alto e fazendo ecos, fazendo meus ouvidos doerem. O velho foi diminuindo cada vez mais e como mágica ele sumiu, deixando um montinho de folhas secas no seu lugar.

E eu então eu comecei a me sentir extremamente mal, fraca e doente. Eu sentia as minhas pernas fraquejarem e minha visão escurecer cada vez mais. Uma dor horrível tomou meu corpo, e eu não sabia o porquê eu estava sentindo aquilo tudo, e então eu caí desmaiada no chão, fraca demais para me manter acordada.

[...]

- Você está bem? – Dean perguntou ao meu lado no banco do motorista. Estávamos quase chegando em casa, finalmente eu poderia ficar sossegada em minha casa, longe de monstros e Saci Pererê. Bastava apenas Dean virar na próxima esquina e eu teria o conforto da minha casa novamente.

- Sim... – Sussurrei a mentira mais descarada de toda a minha vida.

Durante toda a viagem eu me mantive calada. Eu estava realmente abalada com o último caso e só desejava a minha cama. Eu ainda sentia medo e queria chorar o tempo inteiro. Provavelmente ficaria com essa "sequela" pelo resto da minha vida. E, muito provavelmente também essa seria a consequência daqueles que sobreviviam ao ataque do famoso Saci Pererê.

Desci do carro e entrei na casa sem esperar por ninguém. Em silêncio eu subi a escada e segui em direção ao meu quarto. Tirei meus sapatos ao entrar no cômodo e corri até minha cama, tacando-me sobre ela e abraçando um dos meus travesseiros - que no momento serviria como ursinho consolador.

Como eu havia pensado antes, a minha intuição dizia que alguma merda grande ia acontecer e a que mais se daria mal seria eu. E novamente eu me perguntava durante aquela viagem o porque eu não escutei e segui o que a minha intuição insistiu tanto em jogar na minha cara? Olha o meu estado psicológico agora!

E daquela forma eu me deixei chorar.

Com toda a certeza do mundo eu não seria mais a mesma Milena de antes. Essa sequela me atormentaria em todos os casos, e provavelmente, prejudicaria os meus amigos também, porque eu teria medo de enfrentar alguma coisa. E ao pensar nisso, a possibilidade de desistir de tudo crescia cada vez mais dentro de mim. E nenhuma lembrança seria capaz de quebrar esses pensamentos.

Porque essas coisas só acontecem comigo? Eu estava com tanto medo.

Senti a cama ao meu lado afundar, e eu não ousei olhar quem era. Não me importava saber quem era. Mas, eu logo descobrir ao sentir grossos braços rodearem minha cintura. Era Dean. O mesmo puxou meu corpo para perto de si, fazendo minhas costas colarem ao seu peito e então eu pude sentir um carinhoso beijo ser depositado em meu pescoço.

Não havia malícia naquele toque, não havia luxúria nem mesmo segundas intensões. Havia carinho, respeito e a promessa de que ele estaria ali para mim para o que der e vier, eu sabia que ele não sairia de perto de mim e faria de tudo para me ajudar e me proteger desse medo que agora abrigava dentro do meu peito. E também havia outra coisa, que de certa forma aqueceu meu peito.

Havia amor.

- Tudo vai ficar bem, eu prometo, cacheada. – A voz grossa do Winchester mais velho passou por meus ouvidos como uma melodia gostosa e que me trazia segurança e eu abri um sorriso triste.

Nada ficaria bem. E eu tinha certeza disso. Esse medo continuaria dentro de mim pelo resto da minha vida, tirando toda a esperança que ainda existia, me deixando doente, triste e depressiva. Eu sabia que essa era a consequência de quem enfrentava o Saci, como uma maldição, e eu deveria aprender a lidar com ela. Fechei meus olhos e deixei que as lágrimas rolassem e o sono me consumisse.

Eu só queria dormir.

Eu só queria que esse último caso não tivesse acontecido.

Eu só queria que essa sequela por ter sobrevivido ao ataque não existisse.

Eu só queria não ter mais medo.


Notas Finais


Nota atualizada: 14/08/2017

E aí, o que acharam de caçar o nosso famoso Saci Pererê? Eu sei, foi tenso, eu me senti tensa escrevendo a primeira parte desse capítulo e a parte da Mile, que deixamos bem claro, eu estou com MUITA pena, mas, não matem a autora, não serei malvada com ela por muito tempo e logo, logo essa situação dela irá melhorar. Mas, também, renderá alguns momentos amorzinho do Dean sendo carinhoso e cuidando de sua amada Milena! Tentei equilibrar a tensão da primeira parte com momentos descontraídos e espero ter conseguido!

Apesar dos momentos tensos - que foram muitos - tivemos Ju fazendo aquela cena espetacular de ciúmes, jogando algumas verdades na cara daquela aprendiz de piriguete kkkkk não vamos negar que temos vontade de dar uma de Ju de vez em quando com algumas meninas kkkkkk Bom, deixem o comentário de vocês aqui embaixo sobre o que acharam do capítulo, é importante demais para mim!

Enfim, até o próximo capítulo e dois beijos nas bochechas <333


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