História Caçadores de Folclore - Capítulo 13


Escrita por: ~

Postado
Categorias Supernatural
Personagens Bobby Singer, Dean Winchester, Personagens Originais, Sam Winchester
Tags Bobby, Dean, Sam, Sammy, Spn, Supernatural, Winchester
Exibições 62
Palavras 11.493
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Ficção, Romance e Novela, Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Estupro, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Oi oi meus caçadores, estão preparados para mais uma caçada ao lado desse quarteto? Então, preparem as armas, as balas e os lencinhos, pois o final está emocionante! Esse capítulo foi inspirado no filme "Homem nas Trevas", então se vocês forem ver o trailer, perceberão as semelhanças!
Sem mais delongas, boa caçada!

P.S.: Capítulo revisado, mas sempre escapa alguma erro, então me desculpe! Aviso importante nas notas finais!

Capítulo 13 - Sr. Pererê


Fanfic / Fanfiction Caçadores de Folclore - Capítulo 13 - Sr. Pererê

P.O.V Laura

- Mãe, tô saindo! - Gritei após terminar de descer a escada da minha casa. Passei pela porta da cozinha e minha mãe estava de costas para a mesma, fazendo alguma comida que aquecesse a família nessa noite fria de Santa Catarina. - Mãe! - Chamei novamente, fazendo a mulher virar assustada para mim.

- Sim?! - Perguntou com o olhar meio perdido. Balancei a cabeça negativamente, descrente de tamanha distração que tomava minha mãe enquanto a mulher fazia a janta.

- Vou sair com o Júlio e o Marcelo. - Avisei e a mesma apenas concordou, e em seguida começou a falar. Saí dali deixando a mais velha murmurando algo sobre tomar cuidado e não voltar tão tarde. Revirei os olhos, eu não era mais criança. Vesti o casaco por cima da blusa de manga comprida e saí de dentro da minha casa quentinha. 

Ajeitei minha touca, puxando-a mais para baixo e em seguida enfiei as mãos dentro dos bolsos do grosso casaco. Caminhei sem pressa pelas ruas pouco movimentadas da cidade, cumprimentando algumas pessoas que passavam por mim. Os mais inteligentes não ousavam sair de casa nesse frio cortante que caía sobre as ruas escuras. 

Foi inevitável não abrir um sorriso ao avistar de longe, sentados nos bancos frios de madeira da praça, meus dois melhores amigos. Júlio levava a boca um cigarro, tragando-o e em seguida soltando a fumaça que se misturava ao vapor que saía da boca de Marcelo, que se encontrava ao seu lado.

- Fala seus vagabundos! - Comentei ao chegar ao lado dos mesmos. Júlio tragou o cigarro uma última vez, e tacou o filtro ainda pela metade no chão. Levei meu pé à bituca no chão e amassei a mesma. 

- E ai, princesa, como tá? - Marcelo perguntou de forma galanteadora. Dei de ombros, já estava acostumada com o mais velho dando em cima de mim. 

- Tô bem, e vocês? - Perguntei sorrindo.

- Estamos indo! E ai, o que vamos fazer de bom hoje? - Júlio perguntou ansioso pela travessura que faríamos hoje à noite.

Era sempre assim. Todo final de semana eu me encontrava com os meninos na praça da cidade e juntos planejávamos alguma merda para fazer durante a noite. E dessa vez eu estava encarregada de pensar em algo.

- Que tal brincarmos um pouco com o velho perneta da rua 9? - Abri um sorriso maldoso ao pronunciar a ideia que vagava pela minha mente por toda a semana. Senti-me aliviada ao ver os meninos abrirem um sorriso tão maldosos quanto o meu. 

- É por isso que tú cola com a gente! - Júlio comentou fazendo nossos toquinho de mãos. Sorri mais abertamente com o fato deles terem gostado do que eu pensei.

- O que estamos esperando? - Marcelo perguntou descendo do banco. O menino passou seu braço por meus ombros, fazendo-me revirar os olhos. Ele não cansava de ser abusado. 

Juntos caminhamos até a rua 9, onde morava o velho Araújo, mais conhecido carinhosamente pelos jovens do bairro como Velho Perneta da Rua 9. Não tínhamos pressa em chegar, e durante o caminho, aproveitei para repassar o que tinha em mente. 

Era simples. Iríamos invadir a casa do homem e brincar um pouco de fantasma, fazendo um barulho ali e outro aqui. Nada demais. Não é como se fôssemos matar o velho do coração. E tínhamos certeza que ele não nos faria nada, até porque não conseguia se mover sem sua cadeira de rodas, o que garantiríamos de esconder dele. Um pouco de precaução nunca é demais.

- Acho que ele já foi dormir... - Júlio comentou enquanto olhávamos a casa de um andar apenas. As janelas estavam fechadas e estava tudo escuro dentro do imóvel velho e com a tinta descascando. 

- Melhor assim, vamos logo! - Falei tomando a frente e entrando na varanda do velho. Eu e os meninos demos a volta pela casa, tentando achar alguma janela que estivesse aberta. E parecia que o destino estava de bem conosco. 

A janela da cozinha estava arreganhada, nos dando a oportunidade perfeita de entrar na casa que estava tomada por um silêncio assustador. Meti a cabeça para dentro, observando tudo. Abaixo da janela estava a pia da casa, e agradeci por isso. 

- Está limpo! - Sussurrei para os meninos. Olhei para os mesmo e eles pareciam, pela primeira vez, aflitos e hesitantes em relação ao que faríamos. - Que foi?! - Perguntei risonha. 

- Nada... - Marcelo comentou olhando para os lados. Dei de ombros e tomei a iniciativa novamente. Como sempre, sendo a mais corajosa, tomei impulso e passei as pernas pelo buraco da janela. Fiquei de pé sobre a pia e cautelosamente em pulei dali, evitando fazer barulho. 

- Estão esperando o que? - Perguntei um tanto irritada com o fato dos meninos ainda estarem parados do lado de fora da casa. Eles pareciam com medo, e isso estava me deixando irritada. Eles nunca foram assim, porque agora que iríamos "brincar" com um velho perneta, eles estavam agindo dessa forma?

- Lau, vamos embora daqui, não estou me sentindo bem... - Júlio disse. Percebi seu lábio inferior tremer, típico de quando ele realmente estava com medo. Ignorei os sinais que seu corpo me enviava e revirei os olhos, abrindo em seguida um sorriso sarcástico.

- Parem com isso, parecem crianças! Pulem agora para cá. - Mandei e mesmo hesitantes os meninos pularam para dentro da casa, um de cada vez, tomando o máximo de cuidado para não fazerem barulho. - Vamos explorar a casa! - Falei animada.

Caminhamos em silêncio pela casa, e ela me parecia maior do que o esperado. Nós três tomávamos o máximo de cuidado para não esbarrar nos móveis, apesar de a casa estar muito escura. O silêncio era tanto, que eu era capaz de escutar as batidas aceleradas dos corações dos meninos. Parecia que havia uma bateria de escola de samba nos acompanhando.

A casa continha muitos quartos desnecessários, que continha muitos armários de prateleiras e caixas, o que eu achei estranho. Além disso, o imóvel fedia a mofo e tinha mais infiltração nas paredes do que tinta. Paramos na metade do corredor, de frente para uma porta que escapava uma fraca luz pelo vão abaixo dela.

Abri a porta com cuidado e vi que a mesma dava acesso ao quarto do velho. Sorri maldosa. Meu plano iria começar. O homem estava deitado na cama, parecia ter um sono pesado. A cadeira de rodas encontrava-se ao lado da cama, pronta para ser usada assim que o velho acordasse.

- Peguem a cadeira. - Sussurrei para os meninos. Marcelo fez o que eu pedi sem hesitar. Ele parecia um pouco mais relaxado com o que faríamos, e isso de certa forma me aliviou. O menino pegou a cadeira, que estava fechada, e a trouxe para fora do quarto. Rapidamente, e com muito cuidado, eu voltei a fechar a porta.

- Onde eu escondo ela? - Marcelo sussurrou perto do meu ouvido. Aquilo, de certa forma, me arrepiou muito. Olhei para o loiro ao meu lado, e comecei a pensar em algum lugar para esconder. Olhei o corredor, examinando tudo, e meus olhos caíram em uma porta no fim do corredor.

A única que não havíamos entrado. 

- Naquela porta. - Apontei para ela. Comecei a caminhar na direção da mesma, e parei de frente para a porta branca. Toquei a fria maçaneta, e uma arrepio horrível correu minha espinha, fazendo eu soltar o objeto gélido e dar um passo para trás.

- Que foi? Tá com medo? - Júlio riu sarcástico. Olhei para ele irritada, mas o mais velho não desfez o sorriso debochado. Pelo contrário, ele caminhou até mim e abriu a porta que eu tive medo de abrir. 

Ao abri-la pude ver uma escada que descia para um porão. Estava escuro demais lá embaixo, e o cheiro de fumo que exalava daquele cômodo era sufocante. Esfreguei meus braços ao senti-los arrepiarem. Um vento frio passou pelo corredor, e parecia sair do cômodo abaixo de nós. 

Olhei para Marcelo, e o menino encontrava-se da mesma forma que eu. Apavorado. E eu nem ao menos sabia o porque. Voltei meu olhar para Júlio, e ele sorria divertido, parecia gostar da situação que se encontrava. Segurei o braço do mais velho ao vê-lo dar um passo na direção da escada. 

- Não, vamos desistir disso. - Pedi com medo. Eu não estava me reconhecendo. O que estava acontecendo comigo?

- Agora você quer desistir? - Júlio sussurrou irritado fazendo-me encolher. - Fizesse isso naquela hora em que pulamos a janela. Agora me solte! - O moreno puxou o braço com força e começou a descer a escada.

- Não vamos deixá-lo descer sozinho. - Marcelo falou andando até mim. O loiro começou a descer a escada, mesmo que o medo fosse visível em todo o seu corpo. Olhei uma última vez para trás e engoli em seco, juntando coragem e descendo a escada.

[...]

O local estava completamente escuro. Eu havia ligado a lanterna para que pudesse enxergar onde estávamos andando, até porque, não encontramos nenhum interruptor, o que indicava que aquele cômodo era carente de energia elétrica. E de uma limpeza também.

O chão era coberto por uma grossa camada de sujeira, assim como as prateleiras dos armários que tinha espelhados pelo enorme cômodo. As paredes eram chapiscadas com cimento, sem tinta, completamente cinzas. Em algumas partes, podíamos ver apenas tijolos, o que me fez pensar que a estrutura do lugar não era totalmente segura. Teias preenchiam grande parte do teto de madeira, e nas pilastras - também de madeira - que sustentavam a casa acima de nossas cabeças. 

Comecei a estranhar o fato do porão ser extremamente grande, e pensei até que era maior que a própria casa. Podíamos nos perder ali dentro, entre os vários armários e caixas. O que me deixava ainda mais insegura em continuar a explorar o local assustador. 

Meu nariz coçava por conta da poeira que estava no ar. Mas, mesmo assim, nós três continuamos a andar pelo labirinto de armários, sempre com a luz da lanterna apontada para o chão, e vez ou outra, eu levantava o faixo de luz com a certeza de que tinha visto algo passar a nossa frente, ou então, as nossas costas. 

- É melhor irmos embora... - Marcelo comentou ao meu lado. O menino já havia se desfeito da cadeira de rodas do velho que ainda dormia no andar de cima. A cada vez que passávamos no corredor entre o armários, eu me agarrava mais ao braço do loiro que dividia do mesmo medo que eu.

- Parem de ser medrosos, agora que começamos com isso, vamos até o fim! - Júlio respondeu sem medo de demonstrar o quanto estava irritado com os nossos choramingos. 

Se arrependimento matasse, eu com certeza já estaria enterrada à sete palmos do chão. 

- Deixa de ser ridículo, Júlio. Não vê que estamos arrepend... - Minha frase foi cortada por uma alta gargalhada que ecoou por todo o cômodo escuro. Arregalei meus olhos e parei de andar, agarrando-me ao braço de Marcelo. - O q-que foi isso?! - Perguntei sentindo minha voz embargar. 

- Eu não sei... - Júlio comentou. Mesmo não conseguindo enxergar seu rosto, sua voz denunciava que agora ele estava em pânico. E então, outra gargalhada, dessa vez ainda mais alta. E mais perto. Um estrondo foi escutado em seguida. Parecia... a porta fechando.

Arregalei meus olhos com a possibilidade de estar presa ali dentro com sei lá quem vindo atrás de nós três. Senti um nó em minha garganta, eu estava prestes a chorar. Se eu soubesse que uma simples brincadeira acabaria dessa forma, jamais teria entrado nessa casa. Se algo acontecesse aos meus amigos, eu me culparia para o resto da minha vida.

Isso se eu conseguisse me manter viva até o fim dessa noite. 

- Corre! - Gritei e tomei a inciativa. Sim, essa foi a única coisa sensata que se passou pela minha cabeça nesse momento de desespero. E agradeci quando meus amigos seguiram o que eu pedi. Meu único objetivo era mantê-los vivo, nem que para isso, eu tivesse que perder minha vida.

Sim, eu daria minha vida por esses dois, se isso os mantivesse vivos. Até porque, eu fui a irresponsável que os meteu nessa encrenca que, provavelmente, valeria a vida de ambos.

Eu corria por entre os armários, sem saber ao certo para onde estava indo. Eu nem ao menos sabia se os meninos estavam me seguindo, não ousei olhar para trás por medo de tropeçar e atrasar o processo de fuga. Mas, eu precisava confirmar! Eu precisava salvá-los desse monstro que continuava a gargalhar.

Parei de correr por um momento, apenas Marcelo corria atrás de mim. Para onde foi Júlio? Fiquei encarando o menino aproximar-se de mim. Foram apenas alguns segundos antes de ver o loiro sumir na escuridão, sendo arrastado por alguém que gargalhava divertido. 

O corpo do menino caiu no chão duro e empoeirado, sua cabeça foi de encontro ao chão, e assim que o menino levantou o rosto, pude ver o sangue começar a escorrer por sua testa. Ele arranhava o chão, e buscava por algo que o mantivesse preso. Mas, parecia que o destino não estava à favor do loiro. Marcelo gritava por socorro, e me mandava correr em busca de ajuda. Mas, parecia que meus pés estavam colados ao chão, presos com chumbo. 

E então Marcelo sumiu de vez. Assim como sua voz. O silêncio que predominou o local me causava arrepios. Estava tudo muito quieto, e por um breve momento eu pensei que o monstro havia desistido. Porém, no fundo, eu sabia que era apenas uma armadilha, e que a próxima vítima, era eu. E, por fim, eu me coloquei a correr novamente. 

Corria por todo o lugar, mas, parecia que a saída havia sumido. Eu não encontrava de jeito nenhum. Cadê a maldita escada que eu hesitei em descer? Eu deveria ter insistido mais, e não ter deixado Júlio descer para cá. Meu peito ardia e doía pela falta de oxigênio. Minhas pernas pareciam feitas de chumbo, e eu sentia sangue escorrer por elas por conta do tombo que levei durante a corrida em algum momento. Mas, eu não queria desistir de viver. Eu só queria voltar para casa, para minha família. E vingar meus amigos.

Encostei-me a parede ao meu lado, tentando de forma falha respirar um pouco. Eu ainda chorava pela possível morte dos meus amigos. Eu havia falhado em mais uma coisa. E não me perdoaria jamais por isso. Deixei meus joelhos fraquejarem e me levarem ao chão. Encostei as costa na parede áspera. Não tinha jeito, eu morreria aqui.

E sentia que seria logo. 

Uma ventania pode ser escutado por mim, o que me fez franzir o cenho em confusão. Junto dela podíamos escutar barulhos de folhas secas se chocando umas contra as outras. E então uma gargalhada. O anúncio da minha morte. Arregalei os olhos e senti meu sangue gelar nas minhas veias. 

Em silêncio eu fiquei de pé e escondi-me atrás de um dos armários. Isso deveria ser o suficiente. Isso tinha que ser o suficiente. E essa frase se repetia em minha cabeça a cada minuto, tentando me convencer de uma incerteza. Tentando enganar meu cérebro, como se ele fosse mesmo acreditar que eu sairia viva dali e voltaria para os braços da minha mãe, que a essa hora me esperava para o jantar. 

Eu precisava acreditar nisso. Por mais que soubesse que eu não voltaria mais. Levei minhas duas mãos a boca, pressionando-as com força, abafando os soluços que ainda teimavam em sair. Nessas horas eu não tinha controle nem sobre meu próprio corpo. Eu estava sendo guiada pela adrenalina que o pânico causava em nosso corpo. 

A gargalhada veio extremamente alta. 

Meus músculos estavam tensos, meus olhos arregalados, e eu agradeci por não estar mais soluçando. Porém, as mãos continuavam tampando minha boca, ocultando o barulho da respiração rarefeita e ainda mais difícil de ser executada com sucesso. Parecia que meus pulmões haviam sido trocados com o de algum fumante. Toda vez que eu puxava o ar, e o soltava em seguida, a lufada vinha acompanhada de um chiado e uma dor aguda, como se alguém estivesse perfurando com uma faca o órgão responsável pela minha respiração.

Busquei coragem em cada célula viva do meu corpo e ousei espiar por entre as caixas de papelão que preenchiam as prateleiras do armário de ferro onde eu estava escondida, ajudando a me esconder atrás do móvel velho e enferrujado. Minha visão já estava acostumada com a escuridão, já que eu havia perdido meu celular em algum momento da correria, provavelmente durante o tombo que levei ao tropeçar em um rato morto.

Um vulto humano passou na frente do armário, caminhava lentamente, o que facilitou que eu decifrasse sua fisionomia. O homem era de estatura baixa, comparado à minha altura, e sua pele era negra. Olhos grandes se destacavam em seu rosto. Usava um gorro vermelho e de seus lábios pendiam um cachimbo, o que explicava o forte cheiro de fumo. Meus olhos foram descendo por seu corpo que estava sujo de sangue, e eu senti o nó em minha garganta se formar novamente ao pensar que aquele sangue poderia ser dos meus amigos. O homem usava uma short vermelho, e tinha apenas... uma perna?

Arregalei os olhos com a ideia que se formou em minha mente. Afastei-me do armário, batendo de costas na parede atrás de mim. Não podia ser quem eu estava pensando que era. Ele era cadeirante. E sua cadeira estava escondida aqui embaixo. Ele parecia ser um velho tão... inocente.

Percebi que o velho parou de andar e virou seu rosto lentamente na minha direção. E por fim seus grandes olhos encararam os meus. Ele havia me descoberto. E eu morreria ali mesmo. E ao pensar nisso eu fiz a maior burrada da minha vida. Eu saí correndo de trás do armário. 

Corria o mais rápido que conseguia, meus olhos embaçados por conta das lágrimas dificultava minha visão - que já não estava boa por causa da escuridão. Meus ouvidos detectavam o barulho de vento e folhas, e eu ainda não sabia de onde vinha. 

Será que era uma saída? Era minha esperança. 

Mas, realmente, o destino não queria me ajudar.

Eu tropecei e caí de costa. O baque contra o chão fez eu perder o ar por um momento. Minha cabeça foi de encontro a uma das prateleiras, e logo a dor começou a preencher toda ela, e um líquido quente escorrer por meu pescoço. Minha visão ficou turva, e eu pensei que iria desmaiar. 

Tateei o chão em busca de apoio, e comecei a procurar o que me fizera cair. Olhei para o lado e vi uma das milhares de caixas que estavam espalhadas pelo enorme porão. Ela foi a causadora do meu tombo. Todo o conteúdo que havia dentro da mesma estava espalhado pelo chão e eu forcei minha vista para tentar enxergar o que era.

Afastei-me contra o armário e arregalei meus olhos ao conseguir identificar o que era. Eu não queria acreditar que meus olhos estavam vendo aquilo. Eram pernas humanas decepadas. Havia umas cinco espalhadas a minha frente, de diferentes tamanhos, grossuras e cores. 

Senti meu estômago embrulhar com a imagem que se montava a minha frente. E não pude evitar quando o meu lanche da tarde resolveu sair por minha boca, sujando minha roupa e o chão ao meu lado. Aquilo era demais para meu cérebro e estômago suportarem. 

Até que um puxão em meu cabelo fez minha cabeça levantar. Olhei para frente e o homem que tanto fugi estava parado ali, sorrindo maldosamente para mim. E ele estava envolto em um... redemoinho? Não, eu só podia estar delirando. Mas, era verdade. O barulho de vento e folhas agora fazia sentido.

E mais uma vez as minhas esperanças de sair viva dali foram por água abaixo. Dessa vez, anulando-se por completo. O monstro arrastou-me pelos corredores, com a mão segurando fortemente meu cabelo. Ele andava com uma rapidez inacreditável para alguém que só tinha uma perna. 

Eu já não chorava mais. Não tinha mais forças para fugir. Eu sabia que nunca mais sairia dali. E com esse pensamento eu fechei os olhos, projetando a imagem da minha família e amigos. Seus sorrisos eram tão lindos. Como se eles pudessem escutar, eu sussurrei um breve adeus:

- Amarei vocês eternamente. 

E então o monstro parou. Amarrou meu pescoço com uma corda, e eu senti quando fui erguida por ela. Eu estava sufocando, presa a uma viga no teto. Meu corpo agiu instintivamente, debatendo-se em busca de ar, e de vida. Mesmo que eu soubesse que isso não adiantaria.

Meus olhos vagaram brevemente pelo local onde eu estava. Os corpos de Júlio e Marcelo estavam pendurados a minha frente, como eu, porém, estavam imóveis e sem uma das pernas. Me permiti chorar uma última vez, me permiti viver o luto pela morte de meus amigos, antes de a minha visão começar a escurecer. 

Meus olhos já estavam se fechando, quando uma dor insuportável preencheu todo o meu corpo e um grito sôfrego escapou por minha garganta. Mas uma vez a dor veio, e eu senti uma das minhas pernas soltar-se do meu corpo e cair com um baque nojento contra o chão. 

- Durma em paz, menina. - O monstro sussurrou. Meus olhos fecharam-se, o cheiro de fumo intensificou. E a última coisa que escutei antes de morrer, foi a gargalhada dele misturada aos sons de vento e folhas secas.

A gargalhada que acabou com a minha vida e dos meus amigos. 

P.O.V Sammy

Abri os olhos lentamente, piscando diversas vezes até que os mesmo se acostumassem com a fraca claridade que iluminava o quarto. Era manhã, e o sol banhava o ambiente com seu calor matinal gostoso e confortante. Cocei os olhos e fiquei por alguns minutos deitado, buscando coragem para levantar.

Sentei-me na cama e olhei para o lado tendo a linda imagem de Ju deitada de bruços. Seus braços eram cobertos por um casaco meu, e seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro. Um sorriso grande apareceu em meu rosto ao lembrar da noite passada.

 

[Flashback ON]

Eu estava quase dormindo, eram três horas da manhã quando a brasileira bateu na porta do meu quarto. Após sinalizar sua chegada, a mesma abriu a porta e atravessou a passagem, fechando-a logo em seguida. Eu encarava a brasileira parada perto da porta, como se esperasse uma permissão para se aproximar.

A menina usava um casaco meu, e percebi que era a peça de roupa que procurava no dia anterior. Sorri fraco ao saber com quem estava, e ao perceber que ficara extremamente lindo nela. O casaco branco e de tecido fino - e um tanto transparente – ia até metade das suas coxas por conta da diferença de altura, e as mangas ultrapassavam suas mãos que seguravam um coração de pelúcia. 

- Pode vir... - Chamei levantando o cobertor ao meu lado. A menina caminhou de forma ligeira e se enfiou embaixo do meu cobertor, e sem demora se ajeitou perto de mim, escondendo seu rosto na curva do meu pescoço.

- Tive um pesadelo. Posso dormir aqui? - Sussurrou com uma voz um tanto amedrontada. Rodeei sua cintura e a trouxe para perto de mim. Minha mão adentrou o casaco, passando por suas coxas nuas, bunda, cintura e por fim acariciou a pele quente das costas da brasileira. Já a outra foi para seus cabelos, deixando ali um cafuné. 

- Claro. Qualquer coisa é só me abraçar. - Falei beijando o topo de sua cabeça. Senti o braço de Ju rodear minha cintura. Aos poucos sua respiração foi ficando mais calma e logo a menina adormecia em meus braços. E com um sorriso no rosto eu segui seu exemplo.

[Flashback OFF]

 

Voltei a olhar para a menina que dormia tranquilamente. Sua respiração era calma. Uma pena de acordá-la crescia em meu peito, mas mesmo assim, eu curvei-me sobre seu corpo e aproximei minha boca de seu ouvido.

- Ju, acorda... - Sussurrei para a menina deitada ao meu lado. A morena resmungou alguma coisa indecifrável por meus ouvidos, o que me fez revirar os olhos. - Amor, acorda! - Balancei seu corpo levemente.

- Sammy, me deixe dormir... - Falou ainda com os olhos fechados. Suspirei cansado e voltei a posição normal. Taquei o cobertor para o lado e fiquei de pé. Dei a volta na cama e parei de frente para Ju, e fiquei surpreso ao ver que a menina já havia voltado a dormir.

Agachei-me a sua frente e empurrei seu corpo, deixando-a virada de barriga para cima. À essa hora seus olhos azuis esverdeados já estavam arregalados de surpresa. E pareciam que iriam sair do lugar na hora em que eu enfiei meus braços por debaixo do seu corpo e ergui a menina no colo.

- SAM, O QUE ESTÁ FAZENDO?! - Gritou assustada. A menina se debateu um pouco sobre meus braços, o que quase a fez ir de encontro ao chão. Revirei os olhos e em um movimento rápido eu coloquei seu corpo deitado em meu ombro, de forma que a parte de seu tronco ficasse curvada para baixo em minhas costas. Agarrei com firmeza suas pernas, evitando que a menina caísse e caminhei de forma calma até a porta.

- Você não quis acordar, eu precisava fazer algo. - Comentei risonho. Ju estapeava e socava minha costas - o que não surgiu tanto efeito - enquanto gritava para que eu a colocasse no chão. 

Ignorando seu esperneio, atravessei a porta e o corredor. Com um pouco mais de cuidado eu desci a escada e caminhei em direção à cozinha. Porém, quando estava passando pela porta, surge a brilhante ideia na cabeça de Ju de elevar seu corpo, o deixando ereto em meu colo. Só deu tempo de escutar um barulho de algo batendo com força na parede e um grito de dor vindo da brasileira. 

Rapidamente coloquei o corpo da menina de pé no chão, o que foi uma péssima ideia ao ver a mesma cambalear para trás. Agarrei sua cintura com força, evitando uma queda que pioraria seu estado. Ju deitou sua cabeça em meu peito e fechou os olhos com força. Passei meu braço pela dobra de seus joelhos e ergui seu corpo em meu colo. 

- MILE, CORRE AQUI! - Gritei um pouco desesperado. Corri até o sofá e deitei Ju no mesmo. A menina não ousou abrir seus olhos um minuto se quer, provavelmente tudo a sua volta estaria girando. 

- O que aconteceu?! - Monteiro apareceu na sala com os olhos transbordando preocupação, e esse sentimento se intensificou ao ver o estado da amiga. - Meu Deus, o que ela tem? - Perguntou ajoelhando ao meu lado. 

- Eu estava carregando ela no ombro, até que ela resolveu se erguer e então bateu com a cabeça na parede. - Falei me sentindo culpado por tudo isso está acontecendo. 

- Pega gelo no freezer. - Mile disse e eu corri até a cozinha. Arrumei um pano de prato e peguei a bandeja de gelo dentro do freezer. Joguei as pedras quadradas no pano e o amarrei como uma trouxinha. Corri de volta para a sala e encontrei Ju sentada no sofá, mas ainda sim com os olhos fechados.

- Toma! - Falei entregando a trouxa de gelo para Mile. A cacheada pressionou o pano na cabeça de Ju, recebendo uma exclamação de dor como resposta. - Ju, me desculpa. - Falei segurando sua mão e acariciando o dorso com meu dedão.

- Tá tudo bem, não foi sua culpa. - A brasileira abriu os olhos pela primeira vez para me encarar. O sentimento de culpa se intensificou ao vê-los marejados, mas, mesmo assim a menina abriu um sorriso fraco, o que aliviou um pouco o que eu sentia. - Deixa que eu seguro. - Falou pegando a trouxa da mão da amiga. 

- Se você sentir muita dor de cabeça, ou até mesmo enjoo e tontura, me avisa que eu te levo no médico. Tudo bem? - Mile perguntou e Ju apenas concordou de leve. - Sammy, me ajuda a preparar o café. 

- Tudo bem... - Sussurrei e antes de deixar Ju na sala, deixei em sua testa um beijo rápido e enfim fui para a cozinha junto de Mile.

[...]

Estávamos todos reunidos na varanda da casa, exceto Dean que havia ido comprar o jornal do dia. Eu estava deitado na rede com Ju entre minhas pernas e as costas deitadas na minha barriga. Eu fazia um carinho de leve na cabeça dolorida da menina que cochilava tranquilamente com o balanço fraco que eu fazia com o impulso do meu pé no chão. 

Depois do café da manhã, nós quatro viemos para cá, era sábado, e o dia estava um tanto preguiçoso. Não estava quente, mas também não estava frio. O clima certo para apenas aproveitar a preguiça que Deus nos deu. E confesso, eu não sabia o qual bom era ficar deitado em uma rede, se balançando levemente e sentindo o vento fresco da manhã bater em seu rosto sereno.  

- Ela melhorou? - Mile perguntou desviando o seu olhar da tela do computador. Ao contrário de mim, a cacheada encontrava-se sentada nas almofadas que ficavam no chão da varanda, bem no canto, ao lado da rede, e elas formavam um cantinho de descanso. Um dos lugares prediletos da menina, que dizia amar ler enquanto estava deitada ali. 

- Acho que sim, pelo menos ela dormiu. A pancada deve ter deixado ela sonolenta. - Comentei sem encarar a menina. Meus olhos estavam fixos em uma borboleta que pousara na lamparina presa a parede da varanda. 

- Deu para perceber que ela ficou meio lenta durante o café da manhã. - Mile comentou. Fiquei em silêncio, e logo o mesmo foi quebrado com a voz de masculina do Chris Martin, do Coldplay. A música que preencheu o ar fora Magic, e apesar de ser mais familiarizado com o rock, alguns outros estilos eram agradáveis aos meus ouvidos.

- Eu amo essa música. - Escutei a voz de Ju sussurrar. Desci meu olhar até seu rosto, e seus grandes olhos encaravam meu rosto com um sorriso lindo estampado nele. E assim que a música começou a tocar, a menina sussurrou um trecho dela. - Call it magic, call it true. I call it magic, when I'm with you... - Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios ao escutar a menina pronunciar tais palavras. Senti sua mão ir de encontro à minha que repousava sobre sua barriga. A pequena e macia mão juntou-se a minha e nossos dedos se entrelaçavam.

Eu definitivamente amava Juliana. E não esconderia isso de ninguém.

P.O.V Dean

Empurrei o portão de ferro que dava acesso a casa onde estava morando. Tranquei o mesmo assim que o atravessei e dei de cara com os três preguiçosos nas mesma posições de quando eu saí para comprar o jornal. A única diferença era que agora tocava alguma música calma que eu desconhecia. 

- Voltei! - Exclamei chamando a atenção de todos. Mile sorriu involuntariamente com a minha chegada e eu logo subi a escadinha que dava acesso a varanda e me sentei ao seu lado nas almofadas. - Toma. - Entreguei o jornal em suas mãos e a menina logo deixou o computador de lado para começar a ler as notícias. 

- Achou alguma coisa? - Ju perguntou elevando um pouco a cabeça para enxergar a amiga. 

- Acho que sim, escutem! - Falou enquanto dobrava o jornal ao meio para ler a notícia. - "Três adolescente desaparecem e seus corpos são encontrados três dias depois pendurados em uma árvore e sem uma das pernas."

- Mas que porra... - Exclamei confuso com isso. - Continua. - Pedi e a menina começou a ler a matéria.

 

"No último domingo três adolescentes com idades entre 16 e 18 anos sumiram sem deixar rastros. A polícia os procuraram por todo o bairro, mas, durante três dias não houveram sinais dos adolescente. Até que na quinta-feira os mesmo foram encontrados mortos."

"Os corpos estavam pendurados pelo pescoço em uma das árvores da praça que fica no bairro onde os mesmos moravam. Além disso, os corpos estavam sem uma das pernas, o que causou a enorme perda de sangue. Os legistas afirmam que a causa da morte não fora a decepção da perna, e sim o sufocamento causado pelo enforcamento com a corda."

"Até então as buscas pelo assassino dos jovens continua, o que traz um pouco de esperança aos parentes das vítimas que se encontram desolados com o acontecimento. Os moradores do bairro estão com medo de sair nas ruas, e a polícia mantém uma patrulha assegurando os moradores."

 

- Isso é bizarro... - Sammy comentou e eu apenas concordei.

- Bizarro o suficiente para irmos até lá descobrir o que está acontecendo. Quem topa? - Propus e todos concordaram imediatamente. 

[...]

Estacionei o Impala em uma vaga de frente para uma pousada no bairro de Santa Catarina. Era dia, e Mile dormia ao meu lado após dirigir durante a noite enquanto eu descansava. Paramos apenas duas vezes durante o caminho, e ficamos revezando no volante.

Voltei meu olhar para frente e encarei a estrutura da hospedaria. O lugar lembrava-me casa de vó, e de certa forma isso trouxe um conforto ao meu peito que aqueceu-se com uma sensação que nunca tive. O carinho de vó.

- Ei, chegamos... - Sussurrei enquanto puxava de leve a orelha da menina. Ri da careta que a mesma fez e logo seus olhos estavam abertos por ter um sono leve. Mile olhou confusa a sua volta, mas logo se tocou que realmente havíamos chegado.

- Não tinha forma melhor de me acordar, não? - Perguntou inflando as bochechas e fazendo um biquinho. Seus braços cruzaram-se sob o peito e a mesma logo fechou a cara. Soltei uma risada nasal com a cena extremamente fofa que acontecia no bando do carona da Baby.

- Você sabe que eu adoro te acordar das formas mais inusitadas. - Comentei rindo enquanto tirava a chave da ignição. Voltei meu olhar novamente para a menina e ela continuava a com a mesma feição. Revirei os olhos e toquei seu queixo com meus dedos, coloquei um pouco de força no ato e virei seu rosto em minha direção. - Melhora essa cara, rabugenta. - Falei rindo e logo levando um tapa em minha mão.

- Não sou rabugenta... - Falou um tanto chateada. Gargalhei ainda mais por isso. A menina parecia uma criança. Inclinei-me para frente e puxei seu rosto novamente em minha direção, dessa vez selando seus lábios em um beijo calmo. Os braços da menina logo se descruzaram e suas mãos foram para minha nuca, fazendo um carinho gostoso ali. 

- Melhor? - Perguntei sorrindo ladino. Mile riu um pouco com minha pergunta e concordou de leve com a cabeça. Afastei-me da menina logo após lhe dar um selinho rápido e abri a porta do Impala, logo descendo do veículo preto. - Vai ficar aí para sempre? - Perguntei ao perceber que a menina ainda estava na mesma posição de antes. Seu olhar era sonhador e tinham um brilho que os deixavam ainda mais belos.

- Não estraga meu momento... - Comentou revirando os olhos o que me fez gargalhar. A cacheada logo desceu da Baby e caminhou junto de mim até o porta-malas. Tiramos tudo o que iríamos precisar para o caso e nos juntamos com Sammy e Ju na entrada da pousada.

- Conseguimos dois quartos, cada um com duas camas de solteiro. - Ju comentou sorridente. Agradeci por não ter que dividir a cama com meu irmão e logo entramos no estabelecimento. Ali dentro a sensação de que eu estava sendo abraçado por um senhora de idade aumentou ainda mais.

- Isso parece casa de vó. - Mile comentou olhando o estabelecimento com atenção. - Eu gostei! - Respondeu ao voltar a nos olhar e eu ri do sorriso infantil que habitava o rosto sonolento da cacheada. 

- Vamos? - Ju perguntou apontando para a escada à nossa frente. Após alguns degraus, a escada dividia-se em duas, uma para cada lado, e provavelmente dava acesso aos quartos. 

- Vamos! - Falamos em uníssono fazendo a menina arregalar os olhos de leve.

P.O.V Juliana

Desci do Impala assim que Dean estacionou a Baby em frente ao número 10. A casa tinha uma áurea triste com a perda de um membro. Caminhei à frente dos meus parceiros e subi os quatro degraus da pequena escadinha que dava acesso à porta da casa.

Olhei para onde os meus pés estavam postos, ali encontravam-se vários buquês de diversas flores, provavelmente pêsames à morte da Rodrigues mais nova. Um arrepio subiu por minha espinha ao lembrar da foto que estava exposta no jornal. A situação daqueles três jovens era lamentável.

Deixei de lado as flores e voltei meu olhar para a campainha. Toquei a mesma e pude escutar o som alto ressoar por toda a casa. O silêncio que pairava sobre o meu grupo era extremamente incomodo, mas, parecia que ninguém ali estava com coragem o suficiente para pronunciar alguma palavra.

O caso realmente era lamentável. Não pelo fato de ser o pior da lista, já tivemos parecidos, como o do Curupira. Mas, eram três vítimas de uma só vez, e tão jovens. Só de pensar que os mesmos tinham uma vida inteira pela frente, o meu coração diminuía dentro do meu peito. 

Assim que estava indo apertar a campainha novamente, a porta foi aberta por uma senhora baixinha, seus cabelos loiros e lisos iam até a altura de seu ombro e estavam presos com um arco preto. Seus olhos estavam inchados e vermelhos, e abaixo dos mesmos encontravam-se bolsas arroxeadas, mais conhecidas como olheiras. Seus lábios estavam pálidos e rachados.

- Senhora Rodrigues? - Perguntei um tanto receosa. A mulher apenas concordou com um leve aceno de cabeça. Ela parecia sonolenta, e eu logo deduzi que fosse efeito de calmantes. - Somos Detetives e viemos investigar a morte de sua filha. 

- Vocês são a última gota de esperança que a polícia informou? - Perguntou com a voz sussurrada e arrastada. A quantidade de calmante que deram à essa mulher estava me assustando.

Calmantes não diminuirão a dor da perda de um ente querido. Jamais.

- Sim, podemos entrar para fazer algumas perguntas? - Pedi e ela pareceu hesitar, mas logo abriu espaço para que eu e meus amigos passássemos e tivéssemos acesso à casa. 

Como eu esperava, a áurea da casa estava extremamente pesada, e como mágica, uma sensação de tristeza tomou meu coração e eu tive vontade de chorar. Senti meus ombros curvarem. Parecia que a casa sentia a falta da menina. 

- Sentem-se. - A mulher nos indicou o sofá e logo nós quatro nos acomodamos sobre o móvel acolchoado. A senhora arrastou-se - como se estivesse andando em modo automático - e sentou-se à nossa frente, em uma poltrona. - O que querem saber?

- Ahn... - Limpei a garganta e mandei aquele nó maldito para longe. - Sua filha tinha algum inimigo que fosse capaz de fazer isso com ela? - Perguntei ao perceber que ninguém ali tomaria a atitude de perguntar algo.

- Não que eu saiba. Todo final de semana ela saía à noite para se encontrar com o Júlio e o Marcelo, os dois meninos que também morreram. Mas, eu nunca ouvi dizer de alguma inimizade. - A mãe comentou, parecia forçar sua mente para lembrar de alguém que pudesse fazer tal brutalidade.

- Onde eles se encontravam? - Sammy perguntou com um português arrastado e carregado de sotaque.

Eu achava um tanto fofo a forma como os irmãos pronunciavam a língua latina. Esforçavam-se ao máximo para aprender algum palavra que eu e Mile soltávamos diariamente, e ás vezes até dialogávamos com eles para ajudar na prática do português. Eu tinha feito uma promessa com minha amiga: eles sairiam daqui falando - pelo menos - o básico da língua latina. 

- Na praça onde os corpos foram encontrados. - Lembrar desse dia doía na mulher, e isso estava claro. - Eu não entendo como isso foi acontecer. Laura estava extremamente feliz, os três eram inseparáveis. Eu nunca escutei alguma reclamação do trio. - A mãe respondeu.

- Houve alguma mudança de comportamento durante a última semana que antecedeu a morte deles? - Mile perguntou. Eu queria acabar logo com esse questionamento, e parecia que todos ali também.

- Não, como eu disse, ela estava extremamente bem e calma, do modo dela. - Senhora Rodrigues deixou que uma lágrima solitária escorresse por seu rosto branco. - Eu sinto tanta falta da minha menina. Por favor, façam o que for preciso para encontrar quem fez isso com eles. 

- Faremos. Eu prometo! - Dean consolou a mulher que apenas abaixou a cabeça. - Acho que isso é o suficiente. Obrigado pela colaboração, qualquer coisa nos ligue. - O Winchester mais velho ficou de pé e todos seguiram seu exemplo. A mulher nos guiou até a porta da casa, e logo fomos em direção ao Impala.

- Tem algo muito estranho. Alguma coisa esse trio "perfeito" fez. - Mile disse ao fechar a porta. Minha amiga estava certa. Ninguém é santo à esse ponto, sempre tem algum segredo obscuro.

- Vamos até a praça, iremos questionar os donos dos estabelecimentos. - Falei decidida. A praça era o ponto certo para investigarmos. Eu sentia que as respostas estariam lá. E logo o Impala rumava pelas ruas do bairro em direção ao local. 

[...]

- Boa tarde. - Falei apoiando-me no balcão do bar. Era o primeiro estabelecimento que entramos para começar a investigar. Bar era um local que, normalmente, ficava aberto até tarde, e provavelmente alguém teria visto os três jovens na praça.

- Boa tarde, o que desejam? - Uma menina com voz fina - e um tanto irritante - perguntou. A garota devia ter uns dezoito anos, os cabelos vermelhos iam até a cintura. Usava uma blusa apertada de manga cumprida e na cor branca. Desci meu olhar por seu corpo, e percebi o tamanho da saia preta que ela usava, o que me fez questionar a mim mesma se ela não estava sentindo frio.

Percebi que seu olhar recaiu sobre os irmãos Winchester que entravam no estabelecimento acompanhados de Mile. Arqueei uma sobrancelha com a ousadia da balconista e pigarreei para chamar sua atenção - antes que eu arrancasse seus olhos com minhas unhas.

- Informações. Somos detetives e viemos investigar a morte dos três jovens. - Falei sentando-me no banqueta. Observei - com um certo nojo - a ruiva mascar o chiclete de boca aberta, o que pronunciava um som um tanto irritante e que me dava vontade de socar sua garganta. Ela não percebia que ao mascar o chiclete de boca aberta estava engolindo bilhões de bactérias? Que nojenta!

- Estou trabalhando, então... Não posso ajudá-la. - Falou de forma debochada. Levantei as duas sobrancelhas em surpresa com a sua resposta. Senti mãos grossas e grandes pousarem sobre meus ombros, o que me fez relaxar automaticamente. 

- Qual parte do "somos detetives" a senhorita não entendeu? - Perguntei tentando manter minha paciência diante da putaria que rolava na cabeça da menina ao encarar os irmãos de uma forma luxuriosa. 

- E qual parte do "estou trabalhando e não posso ajudá-la" a senhorita não entendeu? - Perguntou usando o deboche comigo e voltou a olhar para o Sammy, piscando para o mesmo. Aquilo foi a gota d'água para que eu mandasse a minha paciência para a puta que pariu. Bati com força a mão sobre o balcão - o que chamou a atenção de todos - e fiquei de pé.

- Olha só, eu também estou trabalhando, e não tenho paciência para ficar aturando deboche de uma pirralha que quer chamar atenção da forma mais vulgar que existe. Saiba você... - Apontei o dedo na cara dela. A menina se encontrava assustada. - Que esses dois rapazes são comprometidos, e mesmo que você abra suas pernas o máximo que conseguir, e implore para que eles fodam você, isso não vai acontecer. 

- Ju, calma... - Sammy tentou falar, mas eu encarei o mesmo que curvou os ombros e calou-se na mesma hora. Ai dele de tentar defender essa aspirante a puta. 

- É melhor você colaborar antes que as coisas piorem para o seu lado. - Mile comentou de forma séria e um tanto ameaçadora. A ruiva encontrava-se paralisada do outro lado do balcão, o que me fez sorriso vitoriosa com o efeito que causei. 

- Cla-claro. - A menina gaguejou e logo se recompôs. - Podem perguntar o que quiser. - Aumentei ainda mais meu sorriso e pisquei para a mesma. Eu sentia o ódio correr por casa veia do seu corpo. Seu rosto estava vermelho de raiva e aquilo me divertiu bastante. 

Ninguém mexe com o meu namorado. 

P.O.V Mile

Olhei um tanto assustada para minha amiga. Juliana não era de ter esse tipo de atitude, era sempre reservada e procurava conversar civilizadamente com as pessoas. Eram raras as vezes que eu via a menina explodir de tal maneira, e em todas as vezes, foi por causa da TPM.

Mas, até que eu tinha gostado. A ruiva realmente estava passando dos limites tanto na educação perante uma "agente da polícia", quanto em relação a quase abrir as pernas para os irmãos Winchester. Eu estava esperando o momento certo para explodir com ela, mas não precisei fazer isso, já que Ju o fez por mim.

Todo o momento em que minha amiga gritava com a ruiva, eu tentei esconder um sorrisinho de satisfação por ver a menina assustada. As pessoas à nossa volta assistiam o "teatro" com um sorriso debochado no rosto, e mesmo que eu não gostasse desse tipo de reação, naquele momento não estava me importando muito.

- Caralho, o que aconteceu com a Ju? - Dean sussurrou ao meu lado, assustando-me um pouco pelo fato de eu estar prestando atenção no pequeno sermão que minha amiga dava na balconista. 

- Também não sei. Talvez seja ciúmes. - Comentei no mesmo tom que o homem usou comigo. Dean abriu um sorriso divertido com a situação e eu fiquei admirando a bela curva. 

- O que foi? - Perguntou sorrindo de lado ao ver que eu encarava descaradamente seus lábios tão convidativos. - Deixa chegar no hotel que você pode fazer o que está pensando. - Olhei assustada para o mesmo ao entender o que ele havia pronunciado. Minha reação fez o homem rir divertido e eu abaixei a cabaça em sinal de vergonha. Senti minhas bochechas esquentarem e desviei minha atenção do Winchester mais velho.

- Vamos? Temos muito o que perguntar para essa... menina. - Senti que Ju não queria pronunciar a palavra "menina" e sim algo como "puta" e ri internamente disso. Nós quatro acompanhamos a balconista para uma mesa afastada e fizemos as perguntas.

Percebi que durante todo o interrogatório, Sammy mantinha-se calado e um tanto encolhido ao lado de Ju, e eu segurei uma gargalhada com a cena hilária que acontecia na mesa. Esses dois realmente eram uma comédia juntos. 

[...]

O Impala estacionou rente a calçada. Estava na Rua 9, o endereço indicado pela balconista. A mesma afirmava que os três jovens que morreram viviam infernizando o senhor cadeirante que morava na última casa da Rua 9. E aqui estamos, em frente a casa que mais parece cenário de filme de terror. 

- Tem certeza que esse lugar é habitável? - Perguntei ao encarar a casa velha. Estava silenciosa demais e eu supus que a balconista nos enganou por pura vingança pelo que Ju havia dito.

- Não sei, estou começando a achar que a balconista nos deu a inform... - A fala de Dean foi cortada assim que a porta da casa foi aberta. Assustei-me um pouco com isso e levei a mão ao peito, sentindo meu coração bater rápido.

De dentro da casa saiu um senhor negro e cadeirante. Na boca tinha um cachimbo, e logo o cheiro forte do fumo pode ser sentido, o que me deixou levemente tonta. Era forte demais. O homem usava um short vermelho e não tinha uma perna. Seus olhos tinham um brilho divertido, como o de uma criança. Tenho que confessar que ele era um tanto medonho. 

- Boa tarde... - Falou com a voz arrastada. Engoli em seco com a sua presença. Eu não confiava no homem de cadeiras de rodas. Ele tinha algo estranho, eu não sei explicar, mas, parecia que eu o conhecia de algum lugar. 

- Boa tarde. - Respondemos em uníssono. 

- Senhor Pererê? - Perguntei olhando para o papel em minha mão e conferindo o nome dado pela balconista. Franzi o cenho ao ler, eu realmente o conhecia de algum lugar. Olhei novamente para o senhor a minha frente e ele concordou. - Podemos fazer algumas perguntas ao senhor?

- Claro, o que querem saber? - Perguntou andando com a cadeira até nós. Eu estava nervosa com a sua presença. 

- Sobre as três crianças que apareceram mortas na praça. Uma informante nos disse que a vida delas era infernizar a sua vida. Confirma? - Ju perguntou e o homem sorriu divertido com a informação. Qual é a dele?

- Sim, aqueles pestinhas infernizavam a minha vida, e pelo simples fato de eu ser um cadeirante, eles se achavam no direito de fazer tal coisa. - O homem realmente parecia chateado. - Para ser sincero, eu fiquei feliz quando soube da notícia da morte deles.

- Ahn... O senhor têm problemas mentais? - Perguntei um tanto incrédula pela fala do homem.

- Vocês vieram aqui para me chamar de problemático? Porque se for isso, já podem se retirar. - O velho andou para trás e seu semblante dava medo. - Aliás, saíam daqui agora, já respondi o suficiente. - E então ele abriu a porta da casa e a fechou com força na nossa cara.

- Obrigado por estragar tudo. - Dean comentou fazendo-me abaixar a cabeça envergonhada. Dei as costas à casa e abri a porta do Impala, porém, antes de entrar na Baby, o homem abriu a porta da casa novamente e nos olhou com ódio.

- Quando encontrarem o assassino deles, agradeça pelo que ele fez! - E então fechou a porta novamente. Eu encontrava-me com os olhos arregalados, assim como meus companheiros. 

- Ele, realmente, tem problemas mentais. - Afirmei a minha convicção e pela primeira vez todos ali concordaram. Entramos no carro e ficamos em silêncio. Eu estava pensativa, sabia que o conhecia de algum lugar. O seu sobrenome me intrigava de uma forma inexplicável. - Ele pode ser um suspeito.

- Ele é cadeirante, como seria um suspeito? - Sammy perguntou e eu dei de ombros. Eu tinha certeza que ele era um suspeito, só não podia confirmar isso. Aliás, quem garante que a minha intuição está certa?

[...]

Andava de um lado para o outro no quarto que dividia com Ju, e que no momento estava hospedando os irmãos. Estávamos ali para investigarmos mais à fundo a morte dos três jovens. Mas, por mais que eles concluíssem alguma coisa, minha intuição cismava em dizer que o causador da morte deles era o cadeirante. 

- Se você não parar de andar agora, eu vou te amarrar na cadeira. - Dean comentou visivelmente puto da vida. Ou melhor, puto comigo. Revirei os olhos e ignorei o comentário do mesmo que pareceu ficar ainda com mais raiva.

Peguei o caderno com as anotações de Ju e reli as informações contidas ali pela milionésima vez em menos de meia hora. Eu relia cada informação com extrema atenção, querendo que Deus descesse do céu e apontasse o dedo na minha cara dizendo que tudo aquilo estava óbvio.

E era o que eu achava: estava tudo tão óbvio que eu não conseguia enxergar. 

- CARALHO MILENA! - Dean gritou me assustando e por fim me fazendo parar de andar. Daqui a pouco eu abriria um buraco no chão. - Senta nessa porra de cadeira antes que eu te jogue pela janela. - Estremeci com a fala sussurrada e raivosa do Winchester mais velho, e sem questioná-lo, eu sentei-me na cadeira. 

Peguei sobre a mesa os laudos médicos. Eu já havia decorado cada palavrinha dali. E, como sempre, não encontrava porra nenhuma de útil. Comecei a balançar a perna de forma nervosa e batuquei as unhas sobre a madeira da mesa, e dessa vez, quem gritou comigo foi Juliana. 

- SAÍ DO MEU QUARTO! - Apontou o dedo para a porta. Suspirei irritada e taquei os laudos na mesa. Saí do quarto com passos pesados e bati a porta com o máximo de força que conseguia. 

O problema disso tudo é que ninguém acreditou em mim quando eu disse que o culpado era o cadeirante. Pelo contrário, eles riram e disseram que o mesmo era um inválido, incapaz de fazer mal à três adolescentes. E eu, como uma teimosa, insistia em acreditar na minha intuição. 

Desci pela escada em silêncio. Já era de madrugada e não tinha ninguém na recepção. Dona Benta, a dona da hospedaria, provavelmente estaria dormindo. Ela é uma senhora extremamente simpática e religiosa, que andava de um lado para o outro com um rosário nas mãos. 

Caminhei a passos leves pelo hall de entrada e segui em direção a sala de estar do local. Sentei-me no sofá extremamente florido e fiquei encarando a janela que me proporcionava uma vista maravilhosa do céu estrelado e da lua cheia. 

Apoiei meus cotovelos em meus joelhos e tampei o rosto com as mãos. Eu estava extremamente cansada disso tudo. Às vezes eu me pagava pensando na possibilidade de desistir dessa vida de caçadora, mas então a imagem do meu pai vinha em minha mente e eu buscava forças na sua lembrança.

Meu pai e o pai de Ju eram ótimos caçadores e desde a morte de nossas mães - que também eram caçadoras -, eles nos criaram afastadas de toda essa vida sobrenatural. Mas, o destino já estava selado, eu e Ju viramos caçadoras após a morte de ambos. E, prometemos que cuidaríamos de tudo por aqui.

Eu não podia desistir.

Levantei minha cabeça ao escutar uma risada baixa ecoar pelo cômodo. Olhei para trás e não tinha ninguém, olhei para a porta que dava para o hall. Nada.

Franzi o cenho quando a risada se transformou em uma alta gargalhada. Senti os pelos do meu corpo arrepiarem e uma corrente de medo subir por minha coluna. Eu sentia como se estivesse sendo observada. 

- Ju? É você?! - Perguntei ao lembrar que minha amiga tinha a mania de me assustar com brincadeiras desse tipo. Nenhuma resposta. Estranhei, pois quando a mesma via que eu estava realmente apavorada, ela aparecia rindo da minha cara. 

E novamente a gargalhada, dessa vez, próximo demais de mim. Virei meu rosto bruscamente na direção da janela e ali estava o responsável pelo som, que deveria ser sinônimo de alegria, mas que estava sendo aterrorizante. Arregalei meus olhos e senti meu coração encolher dentro do meu peito. 

Era o cadeirante. Ele estava em pé, parado do outro lado da janela fechada. Usava um gorro vermelho em sua cabeça, um short vermelho e um cachimbo pendia de sua boca que exibia um sorriso extremamente psicopata. Seus olhos davam medo. E diferente de hoje mais cedo, o mesmo encontrava-se em pé, pulando na única perna que tinha.

Eu só queria sair dali o mais rápido possível. E, foi o que eu fiz. Corri para o hall e a gargalhada dele soou novamente pela hospedaria. Parecia se aproximar de mim. Subi as escadas tentando ao máximo não tropeçar nos meus próprios pés - o que realmente foi muito trabalhoso -. Eu estava desesperada. Precisava achar alguma forma de matá-lo. 

Corri pelo corredor, sentindo a presença do homem atrás de mim, e entrei no quarto assustando meus amigos. Fechei a porta atrás de mim com força, encostando-me a mesma. Levei a mão ao meu peito, meu coração batia forte e eu respirava com extrema dificuldade.

- Mile, o que aconteceu? - Sammy perguntou vindo até mim. Rodeei a cintura do meu amigo, abraçando-o e afundando minha cabeça em seu peito. Eu estava com medo. Muito medo. - Ei, calma, me conta o que aconteceu? - O mesmo levantou minha cabeça e se assustou ao me ver chorando. 

- Ele está aqui. Ele veio atrás de mim. - Falei e soltei um soluço alto no final da frase. O homem tinha um poder inacreditável sobre a vítima, sendo capaz de deixá-la a ponta de enlouquecer de tanto medo. - Ele está aqui, Sammy.

- Quem está aqui?! - Ju perguntou aparecendo ao lado do namorado. Seus olhos transbordavam preocupação. 

- O Saci Pererê. - Falei engolindo o choro.

Assim que terminei de falar, a luz do quarto se apagou e uma gargalhada foi escutada por todos no quarto. Eu entrei em desespero, chorando copiosamente. Ele estava brincando conosco. Ele estava brincando comigo e eu nem ao menos sabia o porquê.

P.O.V Sammy

Agarrei-me ainda mais a Mile assim que aconteceu a queda de luz. Senti a presença de alguém ao meu lado e logo o barulho repetitivo de alguém tentando ligar o interruptor. Sem sucesso. 

- Mas que porra é Saci Pererê?! - Escutei Dean falar com raiva de toda a situação. O mesmo saiu de perto do pequeno grupo que se reunia na porta do quarto e caminhou até a bolsa sobre a cama. Logo a luz da lanterna se fez presente.

- Precisamos achar o livro sobre Folclore. - Ju disse saindo de perto da amiga e indo até Dean. Os dois começaram a procurar dentro de uma das bolsas e logo acharam o livro que já era tão conhecido por todos. Dean apontava a lanterna para o livro e a menina folheava o mesmo com rapidez.

Mais uma gargalhada foi escutada, fazendo Mile apertar os braços em volta de mim. Beijei o topo da cabeça da minha amiga, tentando ao máximo passar segurança e confiança a mesma. Eu não sabia ao certo o porque dela ter me abraçado, talvez pelo fato de eu ter ido até a mesma. Mas, eu não ligava, Mile se tornara uma grande amiga e eu a protegeria de todo o mal. 

- Achei! - Ju disse. Observei a menina apertar os olhos, tentando ler o que estava escrito, e mesmo com a lanterna, era difícil. Mas, por fim ela conseguiu e começou a ler o que o livro nos dava informações úteis e eu rezei para que nos ajudasse nessa situação delicada.

 

"O saci-pererê é representado por um menino negro que tem apenas uma perna. Sempre com seu cachimbo e com um gorro vermelho que lhe dá poderes mágicos. Vive aprontando travessuras e se diverte muito com isso, assustando as pessoas com gargalhadas."

"A lenda também diz que o Saci se manifesta como um redemoinho de vento e folhas secas, e pode ser capturado se lançarmos uma peneira ou um rosário sobre o redemoinho."

"Se alguém tomar-lhe a carapuça, tem um desejo atendido. Se alguém for perseguido por ele, deve jogar cordões enozados em seu caminho, pois ele vai parar para desatar os nós, permitindo que a pessoa fuja."

 

- Alguém tem um rosário? - Dean perguntou em alto e bom som. Percebi o choro de Mile cessar e a mesma levantar sua cabeça.

- Dona Benta, a responsável pela hospedaria. - Olhei para todos um tanto preocupado. O quarto da mulher ficava do outro lado do hotel, atrás da recepção. Para entrarmos lá, teríamos que sair do quarto, e infelizmente, o tal Saci Pererê estava do outro lado da porta. 

- Precisamos de cordões enozados. - Falei.

[...]

Depois de ficarmos dez minutos - e olha que fizemos isso muito rápido - dando nós em uma corda que cortamos em pedaços, nos demos por satisfeitos e entregamos boa parte das cordas para Mile, que estava extremamente nervosa com toda essa situação.

Enquanto fazíamos os nós, Mile nos contou o que aconteceu, e então chegamos a conclusão que a perseguida era ela, pelo simples fato da mesma ter chamado o cadeirante de problemático. Parecia que o mesmo perseguia e infernizava a vida de quem "praticava bullying" com o mesmo.

- Prontos? Mile, já repassou o plano? - Perguntei ficando de pé.

Era simples: correríamos até a recepção enquanto Mile jogava cordas enozadas atrás da gente, fazendo com que o Saci parasse e nos desse tempo. Eu arrombaria a porta do quarto da dona Benta, tomando cuidado para não acordá-la. Ju entraria e pegaria o rosário. E do lado de fora eu e Dean daríamos cobertura a Mile caso alguma coisa fugisse do plano.

Tudo bem, não era tão simples assim. Nossas vidas e pernas estavam em jogo.

Saímos os quatro do quarto, e o local estava assustadoramente silencioso. Nenhuma gargalhada, nenhum barulho de folhas ou algo parecido. E devo admitir que essa situação estava me dando medo. Caminhamos em silêncio, e por precaução, Mile colocava os nós no chão. 

Aquilo estava fácil demais para ser verdade.

E parecia que o destino estava brincando com a gente também.

Uma gargalhada foi escutada. Atrás de nós, no fim do corredor, estava o velho cadeirante. Ele realmente estava medonho. Começamos a correr assim que ele veio em nossa direção, envolto em um redemoinho de vento com folhas secas. Ele pulava e andava rapidamente em nossa direção. Algo surreal.

Porém, assim que aproximou-se do primeiro nó no chão, ele parou bruscamente. Seu olhar desceu e parou na pequena corda e como se o ódio estivesse corroendo-o por dentro, o mesmo abaixou-se e pegou a corda, começando a desfazer o nó. Ele estava tão concentrado naquilo, parecia um vício. Um vício que ele precisava saciar.

Ali estava a nossa oportunidade de correr até a recepção. 

Visto que os nós deram certo, Mile tacava com um pouco mais de confiança. E dessa forma nós chegamos à recepção, não antes de Mile deixar um bolo considerável de cordas ao pé da escada, para garantir que o Saci ficasse longe da gente tempo suficiente para eu arrombar a porta e Ju pegar o rosário. 

Tudo estava correndo perfeitamente bem. Isso mesmo, estava. Eu arrombei a porta e Ju entrou no quarto e começou a procurar o rosário. Mais ela não voltava com o rosário e as cordas estavam acabando. Onde essa menina se enfiou?

- Ju, anda logo! - Sussurrei um grito (?). A menina olhou para mim nervosa. Ela não conseguia encontrar. Entrei no quarto e comecei a procurar junto dela. Revirei o quarto todo e então meus olhos pousaram sobre uma bíblia ao lado do travesseiro de dona Benta e de dentro dela escapava uma parte do rosário. - Achei. 

Ju seguiu meu olhar e então caminhou até a bíblia. E com extremo cuidado - evitando até de respirar - a mesma tirou o rosário de dentro do livro e juntos saímos do quarto. Me precavi ao fechar a porta. E quando voltei meu olhar para a escada, encontrei Dean sendo arrastado pelo Saci e Mile encolhida embaixo do balcão. 

O que estava acontecendo com ela? 

Corri em direção ao meu irmão o mais rápido que conseguia. Fiz uma coisa idiota, mas que funcionou. Taquei-me em cima do velho que caiu junto de mim no chão. Senti um tapa em meu rosto e logo o local começou a arder. Soquei a cara do velho abaixo de mim, o que só resultou em uma dor muito grande nos nós dos meus dedos. 

Fui empurrado com força contra a parede e caí no chão um pouco tonto. Forcei-me a ficar de pé e pude ver a Ju jogar um grande bolo de cordas enozadas na direção do Saci. O mesmo deu um grito de ódio e abaixou-se para desfazer os nós. Fiquei de pé e com muita dificuldade eu corri até Mile que ainda estava escondida embaixo do balcão.

Só ela poderia matá-lo.

- Você precisa acabar com isso! - Falei puxando-a pelo braço. Ela chorava copiosamente e se fosse em qualquer outro momento eu a abraçaria o mais forte que conseguisse.

- Eu não consigo! - Falou entre soluços altos. Olhei novamente para a escada e Ju arrastava o corpo desacordado e machucado de Dean. Ela vinha em nossa direção.

- Olhe para ele, Milena! - Apontei para meu irmão. A menina negou-se a fazer isso e eu virei seu rosto bruscamente, forçando-a a olhar para meu irmão. - Você quer mesmo que isso acontecesse comigo e com a Ju? Em? - Perguntei e ela negou freneticamente. - Então pega essa porra de rosário e faça o que tem que fazer.

A menina encarou-me um tanto assustada e eu já estava me arrependendo de ter falado daquele jeito com ela. Mas, pareceu funcionar. A mesma tirou o rosário das mãos de Ju e caminhou lentamente na direção do Saci, que agora desfazia o último nó. Quando o mesmo terminou seu trabalho, eu comecei o meu.

Rezei para que tudo desse certo e que nada acontecesse com Mile. Ou então poderíamos nos declarar mortos nesse exato momento.

P.O.V Milena

Eu estava parada de frente para a minha morte. Literalmente.

Eu tremia dos pés a cabeça e chorava silenciosamente. Na minha cabeça eu tentava entender o que estava acontecendo comigo. Eu nunca havia sentido tanto medo na minha vida, e sentia que o responsável por isso tudo era o monstro sorrindo à minha frente.

Olhei para meus amigos e então para o rosário em minhas mãos. Era só tacar nele. Mas, eu sabia que não era a hora certa. Ele precisava se transformar por completo. Com direito a redemoinho e gargalhadas. 

E foi o que ele fez. Ele simplesmente vestiu a carapuça. 

Veio em minha direção envolto no redemoinho com folhas. Soltou uma gargalhada quando se aproximou de mim o suficiente para agarrar minhas pernas e me levar em direção à morte. Porém o seu sorriso sumiu quando o meu foi aberto. Ergui a mão com o rosário o assustando.

Ele tentou fugir, mas eu fui mais rápida e taquei o rosário dentro do redemoinho. O grito ecoou por todo o hotel, fazendo meus ouvidos doerem. O velho foi diminuindo e como mágica, ele sumiu, deixando um montinho de folhas secas. Senti minhas pernas fraquejarem e minha visão escurecer e então eu caí desmaiada no chão.

[...]

- Você está bem? - Dean perguntou ao meu lado no banco do motorista. Estava quase chegando em casa. Bastava apenas Dean virar na próxima esquina e eu teria o conforto da minha casa. 

- Sim... – Sussurrei a mentira mais descarada de toda a minha vida.

Durante toda a viagem eu me mantive calada. Eu estava realmente abalada com o último caso e só desejava a minha cama. Eu ainda sentia medo e queria chorar. Provavelmente ficaria com essa "sequela" pelo resto da minha vida. E, muito provavelmente, essa seria a consequência daqueles que sobreviviam ao ataque do famoso Saci Pererê.

Desci do carro e entrei na casa sem esperar por ninguém. Em silêncio eu subi a escada e segui em direção ao meu quarto. Tirei meus sapatos ao entrar no cômodo e corri até minha cama, tacando-me sobre ela e abraçando um dos meus travesseiros - que no momento serviria como ursinho consolador. 

E daquela forma eu me deixei chorar. 

Com toda a certeza do mundo eu não seria mais a mesma Milena de antes. Essa sequela me atormentaria em todos os casos, e provavelmente, prejudicaria meus amigos. E ao pensar nisso, a possibilidade de desistir de tudo crescia dentro de mim. Porque essas coisas só acontecem comigo? Eu estava com tanto medo.

Senti a cama ao meu lado afundar, e eu não ousei olhar. Não me importava saber quem era. Mas, eu logo descobrir ao sentir grossos braços rodearem minha cintura. Era Dean. O mesmo puxou meu corpo, fazendo minhas costas colarem ao seu peito e então eu pude sentir um carinhoso beijo ser depositado em meu pescoço.

Não havia malícia naquele toque. Havia outra coisa, que de certa forma aqueceu meu peito. Havia amor.

- Tudo vai ficar bem, eu prometo. - A voz grossa do Winchester mais velho passou por meus ouvidos e eu abri um sorriso triste. Nada ficaria bem. E eu tinha certeza disso. Fechei meus olhos e deixei que as lágrimas rolassem e o sono me consumisse. Eu só queria dormir.

Eu só queria que esse último caso não tivesse acontecido.

Eu só queria que essa sequela por ter sobrevivido ao ataque não existisse.

Eu só queria não ter mais medo.

 

[Aviso Importante nas Notas Finais]


Notas Finais


O que acharam de caçar o nosso famoso Saci Pererê? Tenso, eu sei! E a Ju com ciúmes? Melhor pessoa 😂😂. E eles implicando com a Mile no quarto? A Ju e o Dean sou eu! Choraram muito com a Mile? Fiquem calmos, essa situação da Mile já já melhora! E o Dean sendo fofo com ela 💖💖💖

Me digam o que acharam do capítulo, e vocês que são leitores fantasmas 👻👻, apareçam ou terei que caçá-los kkkk A tia Jessy ama vocês!

⚠Aviso importante⚠: No próximo sábado eu não poderei postar porque é o casamento do meu irmão, e essa hora eu estarei na festa. Então eu irei postar ou na sexta, ou no domingo, fiquem alertas. Bom, é isso meus amores, me desculpem!

Para quem quiser entrar no grupo no WPP:
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2. Número + DDD

É isso meus amores!


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