História Cartas para Arabella - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Originais
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Palavras 1.217
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Policial
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 7 - Capítulo 7


                Era uma noite deliciosamente fria. A chuva havia caído pesadamente por cerca de duas horas e era possível sentir a umidade do ar; eu estava acordado à cerca de cinquenta e nove horas e a minha percepção sobre o mundo no momento era um pouco mais lenta do que deveria ser normalmente. Abarrotado de papéis, fotografias e laudos criminais, eu queria entender a mente por trás do crime que recentemente visitei. Tentar encontrar um mísero detalhe que tivesse passado despercebido por outros investigadores; o caso permanecia em aberto e sem novos detalhes. Me incomodava o fato de saberem quem era, na teoria, o homem que havia realizado o crime, mas ele não passar de uma farsa cibernética. A pessoa poderia ser desde um garoto qualquer, que morava em uma casa na parte alta da cidade, quanto um profissional especializado em crimes virtuais. Constava nos relatórios, que todas as senhas da garota haviam sido trocadas dias antes do fatídico acontecimento, inclusive a senha da conta corrente e da poupança. Dinheiro poderia ser a razão. O banco ainda não havia fornecido detalhes das contas.

                Eu já havia trabalhado em diversos casos envolvendo mentes doentias no geral, mas esse em especial, era bem intrigante; a crueldade e frieza na qual a vítima havia sido tratada era inimaginável.  Mais tarde, no mesmo dia do “acidente”, recebi o relatório preliminar do legista, a língua da garota havia sido removida, muito provavelmente enquanto ela agonizava de dor, ou seja, enquanto estava viva.

                Já fazia algum tempo que eu não atuava em trabalhos no campo, então passei o dia meio zonzo após ver aquela quantidade de sangue. Já era noite, então isso significava que eu precisava escrever a minha coluna para o jornal. Eu simplesmente não sabia sobre o que escrever naquela noite, a propósito, eu não poderia escrever sobre uma adolescente mutilada.

                Pareceu uma boa ideia sair e comprar alguns cigarros, talvez dois maços, para fazer a viagem valer a pena.  Peguei  um moletom esfarrapado, tomei duas pílulas e saí pela cidade gelada.  Fui até o famigerado bar que ficava ali perto, sentei-me, tirei um caderninho e uma caneta do  bolso; pedi uma dose. Mais uma. E outra depois dessa. Tentei fazer alguns esboços do que seria a coluna, mas minha visão começou a ficar meio turva, provavelmente causada pela mistura de medicamentos e álcool. Era isso ou a náusea causada pela lembrança das cenas que envolveram meu dia. Resolvi arriscar e pedir uma cerveja, que estava deliciosamente gelada.

                Quando olhei no relógio, já passava da uma da madrugada, o que significa que era hora de voltar pra casa. Assim que levantei, tive a sensação de que iria desmaiar, minha visão ficou escura e minhas pernas ficaram rapidamente bambas. Precisei me segurar no banco à minha esquerda e, em alguns segundos pareci recobrar a consciência. Respirei fundo algumas vezes e achei que conseguiria chegar em casa vivo. Dei alguns passos em direção à porta e a sensação de fraqueza e tontura apareceu novamente. Tive um lapso de memória de alguns segundos, fiquei completamente apagado por alguns instantes, até que ouvi uma voz feminina no fundo da minha cabeça.

                -Ei, está tudo bem com você? Quer que eu chame uma ambulância?

                -Não... não é necessário, já estou me sentindo melhor.

                Quando finalmente vi quem era, fiquei quase assustado. Era a mesma garota do bar e a que estava na cena do crime. Por alguns instantes, minha voz praticamente não saiu, meus pensamentos cessaram e eu apenas conseguia encará-la. Agora que pude vê-la de perto, consegui definir seus traços com perfeição. O cabelo era curto, os olhos de um castanho maravilhoso, algumas tatuagens espalhadas pelo corpo, inclusive uma no pescoço, que eu não consegui identificar a princípio. Ela tinha a pele bem clara e era bem magra.

                -Isso pode parecer estranho, mas acredito que te conheça de algum lugar. – A garota disse enquanto soltava uma risada no final da frase.

                -Você era uma das legistas no caso da garota mais cedo, não era?

                -Eu mesma.- Ela replicou.

                Ela me ajudou a levantar, para se certificar de que eu não iria parar no chão novamente. Eu me senti hipnotizado, tanto quanto no dia que a vi no bar pela primeira vez; alguma coisa naquela garota me chamava uma estranha atenção.

                -Posso te pagar algo, como agradecimento? – Perguntei, em uma tentativa desesperada de puxar assunto por mais alguns minutos.

                -Uma cerveja gelada seria ótimo!

                Pedi duas. Nos sentamos em uma mesa no canto; ela me contou um pouco sobre o trabalho e descobri que iríamos trabalhar juntos no dia seguinte. Em alguns momentos da conversa, eu simplesmente me perdia. Eu queria tocá-la. Não de uma maneira sexual ou pervertida, mas a pele dela era diferente, quase aveludada.  Me peguei fitando seus lábios como à tempos eu não fazia com mulher alguma. Dispersei aqueles pensamentos da minha cabeça, mas eles continuavam voltando e voltando. Tomei mais duas pílulas.

                Da última vez que olhei o celular, já se passavam das quatro da madrugada. Na hora não me importei muito com o horário, eu já sabia que iria acordar cansado e de ressaca, mas eu não queria sair dali. Depois daquelas doses, tomamos quatro doses de tequila cada, eu definitivamente estava bêbado. O bar já havia fechado, e estávamos ambos encostados no muro gelado que cercava o lugar.

                -Eu adoraria te levar pra casa.  – Eu disse rindo. – Espera, isso saiu da maneira errada, eu quis dizer que adoraria te dar uma carona, mas vim até aqui a pé. – Senti meu rosto corar após isso. Qual diabos era o meu problema? Ela, por sorte minha, caiu na risada comigo, provavelmente também tinha bebido bastante.

                -Eu chamo um táxi! – Ela disse, ainda rindo bastante do meu comentário.

                Permanecemos conversando, rindo e trocando olhares por mais uma meia hora. Eu não sabia que horas eram, mas eu conseguia ver uma leve claridade no horizonte, o que significa que já estava amanhecendo.

                -Bom guri...acho que preciso ir. Dentro de algumas hora preciso ir para o laboratório. - Enquanto dizia isso, era ficou com o rosto levemente avermelhado.

                Eu não queria ir embora, mas também precisava. Me peguei fitando o chão pensando em como poderia me despedir. Percebi também que esbocei um pequeno sorriso.  Fiquei imerso nos meus pensamentos por alguns segundos, o que provavelmente deve ter causado um silêncio meio constrangedor. Levantei a cabeça devagar, ela se aproximou e me beijou. Entrelacei meus dedos em seus cabelos ondulados e consegui sentir o cheiro do perfume que ela usava naquele dia. Juntei seu corpo contra o meu.  Ela se afastou, deu um sorriso com o canto dos lábios e se virou para ir embora.

                -Ei, espera! – Gritei quando ela se virou. – Qual é o seu nome?

                -Arabella. – Ela replicou enquanto se afastava.

                Passei algum tempo fitando o horizonte enquanto ela se afastava. Fui andando para casa, quadra após quadra, até chegar ao meu apartamento. Estranhamente, eu ainda não me sentia mal e nem nauseado. Aquela sensação ruim havia ido embora. Tirei o caderno do bolso, e vi que caneta estava no meio dele, abri e reparei que havia escrito uma pequena frase, apesar de não me lembrar em que momento da noite havia escrito aquilo. Cartas para uma estranha. Apoiei o caderno sobre a mesa, risquei a frase, e logo abaixo escrevi:

Cartas para Arabella.



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