História Castelo de Cartas - Capítulo 7


Escrita por: ~

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Categorias Bangtan Boys (BTS)
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Palavras 4.400
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Colegial, Comédia, Drama (Tragédia), Escolar, Famí­lia, Festa, Ficção Científica, Hentai, Mistério, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Sexo, Suicídio, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 7 - Poderes persuasivos


Fanfic / Fanfiction Castelo de Cartas - Capítulo 7 - Poderes persuasivos

            Busan, 5 de janeiro de 2028

            Mahina,

            Se você não acreditou em mim da primeira vez, espero que essa segunda carta faça com que mude de ideia. Por enquanto, não conteste o que eu direi, apenas siga, garanto que fará sentido.

            Dia 14 de março ocorrerá sua primeira missão.

            Alice Timothy, uma intercambista prodígio, será sua nova colega de classe. Ela entrará atrasada por conta de uma brincadeira de mal gosto que fizeram com ela. Alice é albina e sofre muito por conta disso. Assim como de início não aceitaram nosso tom de pele mais escuro, também não aceitaram seu tom muito mais claro.

Leve uma camisa de um uniforme antigo de Aurora para a escola

Vá com Jimin até a sala de Artes, convença-o a ir, nem que seja preciso amarra-lo e arrasta-lo.

Quero que seja amiga dela, que a ajude a se sentir confortável e feliz em Busan. Ela é uma garota incrível, realize seu sonho e cuide bem dela. Alice é como um quebra-cabeça com uma peça faltando, e para monta-lo por completo, é preciso entender as instruções que vêm na caixa.

 

A carta não havia errado.

Tudo havia acontecido exatamente como previsto – era assustador.

Dessa vez, um número um estava no verso do papel.

O que raios aquilo queria dizer?

***

            Alice e eu entramos na sala na aula seguinte, e com a desculpa de estar ajudando a novata que havia se perdido, não tive grandes problemas com a diretora, ou seja, nosso acordo ainda estava de pé.

            Pouco tempo depois, quem entrou na sala foi Chin, fiquei feliz em ver que eu era a responsável pelo belo desastre em seu rosto. Ela segurava uma bolsa de gelo na cabeça e tinha um curativo na boca, além disso, seus cabelos ainda estavam bagunçados e as bochechas não perderam completamente o tom avermelhado.

            - Não acha que pegou um pouco pesado demais? – Perguntou Tae rindo baixo.

            - Não acho, e você será o próximo se ficar defendendo aquela lá.

            Ele não contestou, Alice me olhou assustada e Lisa me deu um sorriso orgulhoso, afinal, eu havia aprendido com a melhor. Chin ainda havia passado maquiagem para forçar um olho roxo e feito um rasgo em sua farda para dramatizar a situação. E Taehyung caiu como um patinho, aquele idiota.

            As aulas seguintes correram sem maiores problemas, estava feliz (e um pouco assustada, confesso) por finalmente ter uma prova concreta de que a carta é real e não podia deixar de pensar o que teria acontecido no futuro se eu não tivesse seguido a carta. Talvez receber spoilers do futuro não seja tão ruim assim. Aliás, seria interessante receber o conteúdo da próxima prova de biologia, será que a Mahina do futuro não me daria uma força com isso?

            - Ei, Alice! – Chamei antes que ela se afastasse ainda mais de nós, a garota pegou sua bolsa e voou para a saída assim que o sinal final tocou. – Quer dar uma volta conosco?

            - Melhor não, eu preciso estudar...

            - Você acabou de chegar! Precisamos fazer um tour por Busan! – Lisa passou um braço pelo meu ombro e eu assenti várias vezes.

            - Acho que uma horinha ou duas não fará mal, não é mesmo?

            Tae apoiou as mãos nos meus ombros e me empurrou quando deu um salto, olhei para ele fazendo careta e Alice riu. Jin, Hobi e Jimin também se aproximaram, rapidamente, todos estavam juntos. Só havia um pequenino problema: eu ainda estava de castigo. Reuni o pouco de coragem e vergonha na cara que tinha e liguei para o escritório de minha mãe.

            - O-oi, Ling, é a Mahina, posso falar com minha mãe?

            - Gaguejando desse jeito? A coisa deve estar feia – ri baixo e concordei. Ling é a secretaria de minha mãe, é um doce de ser humano e tem um carregado sotaque chinês. – Ela está de bom humor, deu sorte hoje, querida!

            - Pode ir direto ao ponto, diga o que quer, Mahina – engoli em seco. Sim, esse era o bom humor de Park Kimiya.

            - É tão difícil assim de acreditar que eu só liguei para saber como a melhor mãe do mundo está?

            - É sim, prossiga, não tenho o dia todo – ela riu baixo e eu repensei toda a minha vida em um flash. Eu realmente sou uma péssima bajuladora.

            - Entrou uma intercambista na nossa sala hoje, os meninos e eu queremos leva-la para conhecer a cidade. Posso ir?

            - Esqueceu que está de castigo?

            - Não, exatamente por isso que estou pedindo permissão – Lisa, aquela maluca, puxou o telefone da minha mão e se dirigiu a minha mãe como se ambas tivessem total intimidade: - É por um bem maior, tia! – Tirei o telefone de sua mão e lhe dei um tapa na testa, pude ouvir minha mãe resmungando ao fundo. – Desculpe por isso, omma, posso ir?

            - Pode, mas com uma condição – o sorriso em meu rosto morreu no mesmo instante e eu engoli em seco. – Quero que leve Aurora junto.

            - O quê? Mas por quê?

            - Ela será uma melhor influência do que você para sua amiga. E ela precisa sair um pouco mais, você pode ir se ela for.

            - Mas ela não vai querer ir, omma! Isso não é justo!

            - É melhor do que nada, querida. Boa sorte.

            Ela desligou e eu percebi o quanto estava tensa. Lisa e Tae me olhavam como duas crianças esperando permissão dos pais para explodir um micro-ondas. Suspirei e expliquei a situação, Lisa ficou chocada, ela até ameaçou tacar fogo no nosso quintal, ela e minha mãe têm um relacionamento esquisito de ódio.

            - Eu falo com a Aurora.

            - Você o quê? – Lisa e eu dissemos em uníssono. Taehyung deu seu típico sorriso quadrado e pela primeira vez em muito tempo, aquilo me deixou irritada.

            - O que foi? Se tem alguém que pode convencê-la a ir, esse alguém sou eu! – E foi atrás da minha irmã no jardim. – Eu e meus excelentes poderes persuasivos!

            - O que raios ele quis dizer com esse papo de “eu e somente eu poderei convencê-la a ir”?

            - Eu tenho certeza de que ele não disse isso, Mahi – Lisa riu e colocou o braço pelos meus ombros novamente enquanto caminhávamos até o restante dos outros. – Tae se dá melhor com Aurora do que Jimin, por exemplo, faz sentido.

            - Tudo certo para irmos?

            - Tae foi “convencer” Aurora a ir – Jimin fez outra de suas caras safadas e os garotos riram, devia ser alguma piada interna deles, olhei para Lisa com meus olhos acusadores e ela se fingiu de desentendida. – Eu sabia que tinha algo por trás.

            - Poderes persuasivos, hm? Esse Taehyung não é bobo nem nada.

            - Não entendi, o que aconteceu?

            - Somos duas, Alice.

            Alice parecia bem tímida, quase como se ela não estivesse acostumada a estar no meio de pessoas. De início, já deu para perceber que ela e Hobi tiveram grande afinidade um com o outro. Eu duvidava muito de que Tae conseguiria, Aurora é ainda mais caseira do que Hobi, ela vive sempre sozinha e dificilmente gosta de sair de casa se não for para fazer o que ela quer.

            Nem preciso dizer o tamanho da minha surpresa ao ver meu melhor amigo conversando animadamente com minha irmã gêmea enquanto caminhavam até nós.

            - Prontos para ir? – Aurora segurava as mãos na frente do corpo e parecia envergonhada. Tae sorriu cinicamente para mim e eu quis fazê-lo engolir seus dentes.

            Seguimos para a estação de metrô mais próxima. Alice parecia maravilhada com cada coisa que indicávamos pelo caminho, desde um parque a um prédio bem alto. Lisa comentou em algum momento que Alice parecia ter ganhado óculos depois de viver por muito tempo na escuridão, era triste, mas verídico.

            Estávamos nos divertindo tanto no metrô que quase perdemos a parada, nosso destino, Jagalchi, chegou num piscar de olhos. Aurora só conversava com Taehyung, Jimin até tentou, o que não deu nada certo visto que minha querida irmã não gosta do outro Park.

            A história entre os dois é engraçada, vale a pena contar. Quando crianças, Aurora e eu adorávamos enganar Jimin dizendo que eu estava em dois lugares ao mesmo tempo, ele sempre caía e nunca perdia a graça. Com o tempo, Jimin começou a fingir nos confundir, eu entrava na brincadeira e dava risada, Aurora começou a ficar irritada. Minha teoria é de que ela era apaixonada por ele, por isso ficava tão brava, mas mesmo que esse sentimento não exista mais, hoje ela não se dá bem com ele por causa disso, o que é uma tremenda besteira.

            - O que está achando do passeio, Alice?

            - Seus amigos são muito legais, Mahi, obrigada por ter me convidado.

            - Aigoo, deixe disso! – Lisa deu um tapa de leve na cabeça da garota e eu ri com a reação assustada de Alice. – Agora somos todos seus amigos, entendeu?

            - Entendi! – Sorriu. – Para onde estamos indo agora?

            - Jagalchi Market.

            - Você está brincando com fogo, Mahi – Jin riu e Lisa o acompanhou, felizmente ou não, Taehyung estava concentrado demais fazendo minha irmã rir para perceber.

            A caminhada foi agradável, o vento não estava forte e os poucos raios de Sol eram suficientes para nos manter aquecidos. Aos poucos, Alice aprendeu os nomes e soube um pouco sobre cada um de nós. Nós queríamos conhecê-la também, essa era uma tarefa muito difícil visto que a garota parecia insistir em criar uma bolha ao seu redor.

            Tudo que sabíamos sobre Alice é que ela tem dezessete anos e morava em Liverpool. Ela escolheu Busan por ser próxima ao mar e porquê de alguma forma, a cidade havia lhe chamado atenção, ela disse que era quase como se fosse o seu destino estar ali.

            - Sua amiga te largou e aí você lembrou de mim? – Perguntei a Tae quando ele começou a andar ao meu lado, tentando fazer qualquer gracinha para que eu risse.

            - Claro, como se você fosse a minha segunda opção – ele deu um tapa em minha testa e eu fiz uma careta. – Deixa de ser implicante, você sabe que é a minha melhor amiga.

            Sim, seu idiota, eu sei que eu sou a sua melhor amiga.

            - Aliás, para onde estamos indo?

            - Jagalchi Market, cara – Jimin colocou o braço ao redor do ombro de Tae e deixou visível a diferença de altura entre eles.

            - AONDE? - A reação de Tae foi a melhor de todas, seus olhos pareciam querer saltar das órbitas. Quando se recobrou do choque, senti o fogo em seus olhos e ele caminhou lentamente na minha direção, não hesitei e mantive o sorriso. Com o canto dos olhos, pude ver Alice perguntar a Lisa o que estava acontecendo. Sua resposta? “Isso será interessante”. – Você fez isso de propósito!

            - Vingança é um prato que se come frio, “V”!

            Tae cruzou os braços e permaneceu emburrado até adentrarmos o lugar. Jin disse que eu fui muito cruel e Jimin disse que eu fui muito inteligente. Como dizem, Park e Park se entendem, não é mesmo? Aurora me olhava incrédula e Lisa ria feito louca, cogitei até fingir que não a conhecia, como Hobi fazia com todos nós agora.

            Kim Taehyung odeia frutos do mar, só o cheiro já o deixa enjoado, e veja bem, Jagalchi Market é só um dos melhores mercados de peixe fresco de Seoul. Okay, talvez eu tenha pegado um pouquinho pesado demais, mas ele teria percebido para onde estávamos indo se estivesse prestando atenção no caminho.

            Fomos para o andar de cima e escolhemos um restaurante bacana, os olhos de Alice brilhavam, ela disse que nunca comeu frutos do mar antes, então fez questão de experimentar um pouco de cada prato que havíamos pedido. Ela ficou encantada (e ao mesmo tempo assustada) com toda aquela variedade, disse que nunca viu uma lagosta tão grande e quase bateu em Jin e Jimin quando os dois pediram para o chef prepara-la. Tae tomou apenas um pouco de suco, e para dizer que não fui uma completa vilã, passamos no Mc Donald’s para que ele pudesse almoçar decentemente.

            Andamos um pouco pelo bairro e compramos tteok, um bolinho de arroz recheado de pasta de feijão doce, pelas redondezas, mostramos lojas populares e encontramos diversos dançarinos de ruas. De volta no metrô, Alice já estava bem mais solta e falante, insistimos em leva-la para casa e foi aí que o clima mudou, ela negou com tanto afinco que ficamos até assustados, nem todo o charme de Park Jimin foi capaz de convencê-la.

            Tae, Aurora e eu seguimos em silêncio até a nossa casa, na verdade, parecia haver uma nuvem cinzenta apenas sobre Taehyung, Aurora estava quieta como sempre e eu só estava na minha, eu e minha consciência limpa.

            - Por que não vai falar com ele? – Perguntou baixinho em um determinado momento. – Você foi cruel.

            - Não fui, não. Eu apenas me vinguei, sempre fazemos isso um com o outro – dei de ombros -, pode anotar, amanhã mesmo será como se nada tivesse acontecido.

            - Sejam mais discretas ao falar de mim pelas minhas costas!

            - Tae, diga a Aurora que você não está bravo comigo – olhei confiante para minha irmã e ela suspirou. O garoto à nossa frente virou de costas e parou.

            - Aurora, diga à sua irmã que eu não vou falar com ela – e virou para frente novamente, Aurora riu baixo.

            - Vocês dois são tão infantis...

            - Ela/ele é mais! – Apontamos um para o outro e dissemos em uníssono. Percebi que ele tentou ao máximo esconder um sorriso, mas falhou, e eu não perdoei, abracei-o por trás e ele fez uma careta.

            - Sabia que não estava bravo comigo!

            - Desgruda de mim, eu ainda estou bravo – tentou fazer uma cara feia que só fez eu e Aurora rirmos ainda mais. Tirei meus braços do seu redor e voltei a caminhar ao lado de minha irmã, e de repente, o clima naquela noite serena já não estava tão tenso.

            - Você ficou me devendo uma, hein!

            - Não devo nada, você errou, ele nem estava bravo comigo.

            - Eu estava sim – se intrometeu Taehyung. Aurora deu um tapa de leve em sua cabeça e ele riu baixo. – Eu ainda estou!

            Continuamos com aquele debate engraçado que certamente não levaria a nada até chegarmos em nossas casas. Tae se despediu com um sorriso para Aurora e uma careta para mim. Nossa mãe nos perguntou sobre o passeio e deixei Aurora encarregada de contar animadamente.

            Cansada por conta do dia, tomei um banho quente e coloquei um pijama macio de bolinhas coloridas. Passei o resto da noite fazendo todas as lições de casa que havia acumulado em uma semana – a diretora não brincava em serviço, ela passou a fazer vista grossa em meus cadernos e apostilas toda sexta-feira.

            Quando estava prestes a dormir, Taehyung e seus incríveis poderes de persuasão me fizeram ficar acordada ainda que contra a minha vontade, ele queria que eu lhe passasse as respostas dos últimos exercícios de química e eu pensei que talvez fosse o mínimo que eu poderia fazer depois de tê-lo feito travar uma batalha contra mariscos e lagostas.

            Ouvi o toque familiar de meu celular – uma versão instrumental de One do Metallica, só para constar – e reparei que havia uma mensagem de um número desconhecido.

            Unknown: Estou com seu irmão, ele está vivo e bem, por enquanto...

            Eu: Quem é você e o que quer com ele??

            *Unknown enviou um anexo*

            Unknown: Não precisa se preocupar gatinha, estou cuidando bem dele. Deixo ele aí amanhã de manhã.

            Contudo, Jungkook não voltou para casa na manhã seguinte.

 

?? POV

            Não me sentia pronta para ir para a escola. Eu até podia não ir, poderia largar os estudos se quisesse e recomeçar do zero em outro lugar. Mas esse já era o meu recomeço, minha segunda chance, e eu não podia desperdiça-la.

            Não havia água quente no chuveiro, apenas uma temperatura morna que não adiantava em nada com o tempo que fazia em Busan. Não podia me dar ao luxo de gastar o dinheiro que havia trazido em coisas supérfluas como água quente ou uma cama mais macia, eu ao menos tinha um teto, e isso bastava.

            Coloquei o uniforme novo, tão lindo quanto eu havia imaginado, um dos meus sonhos era vesti-lo, então ver meu reflexo no espelho com ele me emocionava. Logo precisaria comprar lã para fazer um cachecol, meus cabelos estão um pouco abaixo dos ombros e qualquer ventinho me gelava o pescoço.

            Guardei as últimas coisas que faltavam em minha bolsa e coloquei-a nos ombros. Tranquei a porta de meu pequeno apartamento e sai de fininho para não acordar o homem que o alugava para mim. Quando o contatei por email solicitando um quarto, ele nem pensou duas vezes em aluga-lo para a estrangeira de dezesseis anos.

            Os livros estavam errados, na prática é diferente, os coreanos são muito receptivos

            Isso foi até eu desembarcar no aeroporto e conhecer aquele homem, ele não media esforços para demonstrar sua aversão por mim. E não era diferente com o resto das pessoas.

            O pequeno prédio era longe do colégio, não tinha dinheiro para um que fosse mais perto ou mais confortável. Eu pretendia gastar dinheiro com passagens de trem só quando fosse muito necessário, portanto havia acordado bem mais cedo para iniciar minha caminhada.

            O colégio era enorme, tinha três andares, quadras e jardins que cercavam todo o perímetro, ele me lembrava minha antiga casa, o que não era tão reconfortante assim. Entreguei alguns documentos na secretaria e fiquei feliz quando percebi que foram muito gentis e atenciosos comigo.

            Uma das atendentes pediu para um garoto me levar até a minha nova sala, ele tinha um ar estranho e algo me dizia que não devia confiar em seu sorriso e palavras gentis. Seus olhos brilhavam dizendo o contrário.

            - É por aqui – abriu a porta para mim e eu fiz uma breve reverência para agradecê-lo, “que cavalheiro”, pensei.

            O garoto indicou que eu me sentasse e esperasse a professora, assim o fiz. A mulher que entrou só foi reparar em mim depois de trinta minutos de aula.

            - O que está fazendo aqui? – Perguntou com hostilidade enquanto apontava um dedo esquelético em minha direção. – Isso é alguma brincadeira?

            - Eu sou a nova aluna desta sala, sou intercambista.

            - Não fomos avisados de que um intercambista se juntaria ao segundo ano – seu olhar se tornou menos afiado e eu relaxei, só um pouquinho.

            - Aqui é o segundo ano? Eu deveria estar no terceiro...

            A professora deu uma bronca enorme no garoto que havia me trazido para a sala errada e deixou ele na secretária. Ela me acompanhou até a diretoria para eu fazer a entrada apropriada até minha verdadeira nova sala. A diretora, muito mais gentil e atenciosa do que a professora, parou a aula e pediu que eu entrasse.

            - Essa é a nova colega de vocês, seu nome é Alice Timothy e ela veio de Liverpool, na Ingleterra. Espero que façam com que ela se sinta em casa. Alice, se apresente, por favor.

            Engoli em seco, os livros não disseram que isso aconteceria.

            - Bom dia, sou a Alice, tenho dezessete anos e espero que possamos ser bons amigos.

            Finalizei com uma pequena reverência e o professor indicou que eu me sentasse, meu lugar era na parte da frente à direita, de modo que minha visão dos outros alunos era bem limitada.

            Por mais que tentasse evitar durante as aulas que se seguiram, era impossível fingir que não ouvia os sussurros nada baixos sobre mim. Os alunos sequer disfarçavam, olhavam para mim como se eu fosse um experimento cientifico que deu errado e estavam prestes a me dissecar para ver se minha anatomia era semelhante à deles, como se eu tivesse vindo de outro planeta.

            Juro que um ou dois alunos que estavam perto de mim mudaram de lugar. Uma garota de cabelo tingido veio com suas amigas falar comigo em uma das trocas de aula, ela tinha uma expressão azeda que me constrangeu.

            - É... isso é contagioso?

            Suspirei. De novo não.

            - Não – tentei fingir que não me importava com a pergunta, mas doía. – Sou exatamente igual a qualquer uma de vocês.

            - Mas você é... sabe... estranha – disse uma delas e depois recebeu uma cotovelada da que havia falado comigo. Abri a boca para responder, mas não saiu som algum, então elas deram as costas e foram embora.

            Não me sentia triste assim desde meu último aniversário, quando tive que sair para ver o público e todos aqueles repórteres curiosos. Minha família tentava me esconder em casa, não era segredo de ninguém que eu era a mancha naquele histórico perfeito.

            - Você não pode sair de casa, sabe disso – disse minha mãe uma vez quando eu pedi para ir tomar sorvete com Charles -, as pessoas não vão te aceitar porque você é estranha.

            - Você é diferente de todos nós, deve viver excluída pelo nosso bem, querida – meu pai tentava soar doce, mas aquelas palavras cortavam tanto quanto facas.

            Quando o intervalo começou, sai da sala no mesmo instante. Procurei alguém que parecesse simpático para ficar durante o lanche, nem preciso dizer que não encontrei, era impossível sequer disfarçar que eu não era diferente, eu estava marcada pelo corpo todo.

            Encontrei um corredor aparentemente vazio e me sentei, encostei as costas na parede gelada e abri uma lata de refrigerante de laranja, abri meu livro de histórias favorito e busquei algum conforto nas palavras familiares. Alice no País das Maravilhas. Era daí que vinha o meu nome, e ele foi a única coisa que eu não mudei, tinha que me apegar ao menos a ele.

            Quando o sinal tocou indicando que eu deveria voltar para a sala, uma garota esbarrou em mim e virou o refrigerante em mim e em meu livro.

            - Você não olha para onde anda, esquisita?

            - Desculpe, foi um acidente – ela havia esbarrado em mim, mas pareceu prudente não contesta-la, ainda mais que ela estava com outras duas garotas.

            - Você acha que só porque chegou hoje, terá tudo aos seus pés? Vou mostrar seu devido lugar.

            A garota me empurrou contra a parede e eu arfei por conta do impacto. Eu sabia esgrima, mas de nada adiantava agora. Fechei os olhos com força e ela riu quando uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Não tinha como esse dia piorar. Talvez meus pais estivessem certos, eu jamais devia ter saído de casa.

            Alguém segurou os ombros da garota, impedindo que ela desferisse um tapa em meu rosto. Ela pareceu assustada e me soltou, aproveitei o momento e corri para longe dali sem olhar para trás.

            Entrei no banheiro feminino e lavei meu rosto com força, como se tentasse apaga-lo, mas a água não era uma boa borracha. Meus cabelos são tão claros quanto o trigo e meus olhos são bem mais claros do que qualquer tom normal de azul. E minha pele? Mais branca do que a neve.

            Me escondi em uma cabine e chorei em silêncio. Derrubei meu livro quando a garota me empurrou e acabei deixando-o por lá, ele era a única coisa que eu tinha da minha antiga vida da qual eu realmente me importava. Ouvi a porta abrir e me escondi para que a garota não me visse lá dentro.

            - Está tudo bem, pode sair – era a voz de outra garota, ela bateu devagar na porta onde eu estava e vi seus pés se afastando -, não vou te machucar. Prometo.

               Eu devia confiar nela? Devia confiar em qualquer pessoa?

            Abri a porta um pouco receosa e esfreguei meu olho direito como uma criança, ganhei um sorriso em resposta. A garota a minha frente tem os cabelos pretos e brilhantes, sobrancelhas grotas e a pele morena.

            - Não se preocupe com Chin, ela não voltará a te atormentar – observei seus movimentos enquanto ela pegava um punhado de papel e o entregava para mim. – Enxugue o rosto, trouxe uma camisa reserva que parece servir em você, vista-a e vai ser como se nada tivesse acontecido.

            Aceitei a camiseta e me surpreendi quando ela serviu perfeitamente em mim, o que era muito estranho visto que eu sou pequena e miúda, e essa garota tem muito mais corpo do que eu um dia terei a vida toda.

               - Obrigada...

            - Não precisa agradecer, Alice – ela lembrou o meu nome! Fiquei tão feliz que não contive o sorriso. – Vamos esperar essa aula acabar e entramos na próxima, o professor não vai se importar porque você é novata.

                 - Mas e você?

            - Ah, eles já estão acostumados – ela riu baixo e eu sorri, me sentia bem perto dela, a primeira pessoa que me tratou verdadeiramente bem desde que cheguei. - Vamos sair daqui, o Park deve estar impaciente.

            Ela estendeu a mão e eu a segurei, não sabia seu nome, mas sentia que poderia confiar nela a partir de então. Era engraçado – até bonito – de ver o contraste entre nossas peles. Assim que saímos, vi um garoto apoiado na parede, ele estava com meu livro em mãos!

            - Acho que o cheiro de laranja vai sair com o tempo, mas pelo menos consegui tirar muitas das manchas – ele entregou o livro em minhas mãos e eu abracei a capa fortemente.

            O tal garoto devia ser o Park. Ele é apenas um pouco mais alto do que a garota e eu, seus cabelos pretos estavam jogados um pouco para o lado e seu olhar transmitia uma sensação boa. Desviei o olhar quando percebi que estava olhando-o por muito tempo, ele corou e fez o mesmo. A garota riu.

            - Certo, pode voltar para a sala agora, depois apresento ela para o pessoal – a garota o empurrou e ele acenou para mim antes de ir embora. – Aquele é Park Jimin, um de seus novos amigos.

            - Novos amigos? – Soava como música em meus ouvidos. Seu sorriso ficou maior e ela enlaçou o braço no meu.

            - Claro, você acabou de ser recrutada e está intimada a ser nossa nova amiga. Jamais precisará ficar sozinha enquanto estiver conosco.

            - Você sabe o meu nome, mas ainda não me disse o seu...

            - Ah! Eu esqueci – sorriu e estendeu a mão em minha direção, eu a apertei. – Pode me chamar de Mahina.


Notas Finais


tandanDAAN


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