História Cheonsa (Anjo) - Capítulo 23


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags Angel, Angel!au, Anjo, Anjo Caído, Bts, Hopekook, Hoseok, Jimin, Jin, Jungkook, Kooktae, Kookv, Longfic, Menção Jikook, Namjin, Namjoon, Suga, Taehyung, Taekook, Vkook, Wings, Yaoi, Yoongi, Yoonmin, Yugbam
Visualizações 239
Palavras 5.579
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Fantasia, Ficção, Lemon, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Morri, revivi.
Você pode me chamar de "zumbi".
Acho que nenhum cap de Cheonsa foi tão difícil de escrever quanto esse.
Bloqueio é foda.
MAS EU QUERO MUITO AGRADECER PELOS +200 FAVS S2
luv u

Capítulo 23 - Rosas Secas


Fanfic / Fanfiction Cheonsa (Anjo) - Capítulo 23 - Rosas Secas

Jungkook POV

Assim que seu tom falho pronunciou tais palavras, senti como se tivesse recebido um soco no estômago e todo o ar que estava guardado em meus pulmões fosse posto para fora. Minha boca se entreabriu enquanto eu buscava por algo – o qual eu nem sabia o que era – em seus olhos tão opacos quanto a escuridão que nos cercava. Engoli em seco enquanto um caos se instaurava em minha mente e rompia minha linha de raciocínio.

O vento farfalhou e eu ainda observava sua pele clara e livre de imperfeições. Minha mão se moveu automaticamente para seu maxilar, as ponta de meus dedos raspando em sua textura enquanto o dedão acabava fazendo movimentos circulares; franzi o cenho acabando por me lembrar do que ele havia acabado de falar e automaticamente afastei o toque. Taehyung fechou os olhos enquanto expirava.

– Caindo? C-como assim? – Minha voz quebrou no meio da frase, chamando a atenção do anjo que voltou a me encarar.

– Não tenho tempo de te explicar aqui... Eu... – Ele ofegou e só então que percebi as gotas de suor que desciam pelo seu rosto, assim como os músculos fracos que tremiam sem forças. – Precisamos ir embora, agora.

Hoseok invadiu a minha mente e na mesma hora um arrepio cruzou meu corpo. Abracei a mim mesmo me sentindo tão chocado que meus olhos se recusavam a fechar nem que fosse para apenas piscar. O que havia acontecido, a forma de como ele havia me tocado, era tudo tão sujo que eu me sentia contaminado e estranho a minha própria pele. Lágrimas começaram a descer de meus olhos, mas eu sufocava os soluços no fundo da garganta, sem ser nem capaz de fazê-los sair.

– Me desculpe, Jungkook. – Sua testa encostou na minha e então senti seus braços me rodearem e me apertarem com força. Aquilo me fez suspirar e trouxe certa sensação de conforto. – Me desculpe.

– Você não tem culpa, eu que insisti para que entrássemos nessa casa maldita. – Fechei os olhos e deixei com que minha cabeça se afundasse na curva do pescoço. – Onde ele está? O que aconteceu? – Funguei e apertei seus braços ainda não acreditando que realmente conseguia o tocar e sentir. – Eu não entendo o que está acontecendo.

Ele suspirou e me encarou, os olhos estavam marejados e isso me partiu ao meio. Um sorriso fraco cresceu em seus lábios enquanto ele se preparava para levantar, olhando para os lados e tomando cuidado para não se desestabilizar.

– Eu te explico tudo quando chegarmos em casa, mas agora nós realmente temos que ir.

Acenei com a cabeça em concordância e me levantei, também meio tonto e com passos incertos. Observei Cheonsa começar a andar pela rua escura e molhada, às vezes tropeçando em alguma pedrinha fora do lugar. Meus olhos analisaram suas costas e então pude ver o quão suja sua roupa branca estava; manchas marrons cobriam o branco principalmente perto dos pés, porém na região da lombar o tecido se colava ao corpo graças ao suor, e nas pernas, por conta da chuva recente que criara poças na calçada. Um filete fino de sangue escorria por sua canela enquanto seu cabelo tinha algumas folhinhas salpicadas.

Eu nunca o tinha visto tão... imperfeito. Ele parecia abalado, como se aquela casca sarcástica tivesse encontrado uma rachadura e se partisse, revelando suas fraquezas que antes eram ocultas. Ele não parecia se preocupar em fingir estar bem para mim; enquanto eu andava ao seu lado, podia enxergar um buraco em suas pupilas que entregavam sentimentos conturbados. A todo instante ele parecia querer falar algo, mas desejando se manter calado para sempre, o olhar evitando o meu e focado no carro de Namjoon que estava cada vez mais perto conforme andávamos pela rua deserta.

Comecei a divagar e um pensamento me veio à mente bem na hora que paramos ao lado do carro. Arregalei os olhos e meu olhar desesperado se encontrou com o surpreso de Namjoon. Taehyung tinha os olhos focados em outro lado enquanto o rosado abaixava o vidro do carro.

– Está tudo bem, Jungkook? Deu tudo certo? – Seus olhos focavam em mim e eu não sabia ao certo como reagir. Assenti silencioso, por dentro uma confusão tomava conta de meu cérebro. Se Taehyung estava conseguindo ser influenciado pela Terra... – Aqui também não deu problema nenhum, mas já está perto da próxima ronda, devemos ir. – Ele sorriu e então desviou o olhar. Olhou para Taehyung. – E você, quem é?

Não.

Não podia ser.

~*~

O silêncio dominava o ambiente enquanto vez ou outra nossos olhares acabavam se cruzando e desviando depois de certo tempo focados um no outro. A madrugada estava quieta e soturna depois do temporal que caíra sobre a cidade; apenas alguns grilos entoavam uma melodia irritante e padronizada no quintal.  Eu apertava a manta com as pontas de meus dedos enrugados, ela cobria todo o meu corpo, escondendo-me dos pés até o queixo; mas eu não sentia frio algum, pelo contrário, pequenas gotículas geladas de suor desciam pela minha coluna encharcando a blusa que eu usava.

O aquecedor do quarto estava ligado o que deixava óbvio o fato de eu estar com aquele cobertor ser desnecessário; mas não era por conta da temperatura baixa que eu usava, e sim para tentar oferecer algum conforto para eu mesmo. Taehyung estava sentado em uma cadeira acolchoada que costumava ficar apenas para enfeite, sua visão era baixa e o maxilar frequentemente se tensionava, relaxando logo depois. Sua pele também estava úmida e eu suspeitei que fosse por conta do calor do quarto, mas também podia ser pelo cansaço.

Engoli em seco e pigarreando para achar minha voz enterrada no fundo da garganta havia bons minutos.

– Você deveria tomar banho. – Seu olhar se levantou pesado, encontrando o meu e fazendo com que eu engolisse mais uma vez. – Eu posso te emprestar alguma roupa.

Não que eu já tivesse limpo, pelo contrário, eu até me sentia pior ainda por saber que estava sujando minha roupa de cama com minha roupa manchada e amaldiçoada por ter estado naquela mansão.

Ele suspirou e encostou as costas na cadeira, as pernas se abriram em uma posição mais confortável se comparada à rígida que sustentava havia alguns segundos. As mãos foram para o rosto e em seguida, para os fios dourados.

– Foi na noite que você saiu com Hoseok. Na Boy Meets Evil. – Ele deu riso soprado. – E é verdade, um garoto realmente conhece o mal nela. O pecado. – Seu olhar estava totalmente centrado no meu e isso fazia com que meu estômago se revirasse e eu acabasse me escondendo ainda mais sob o cobertor. – Mas não foi aí que começou, na verdade, eu sempre estive pecando por você. Sempre esteve ligado de alguma forma a ti, fosse direta ou indiretamente.

A revelação me fez arregalar os olhos e recuar na cama. Um arrepio gélido me atingiu e embora eu não achasse sentimento agressivo em suas íris, suas palavras me atingiram mais do que eu gostaria de admitir. Engoli em seco, nervoso, com as mãos tremendo e olhar chocado:

– Eu não-

– Não estou te culpando, isso não me cabe. – Ele suspirou, os dedos correram seus cabelos mais uma vez. – A culpa é minha. – Taehyung suspirou e se levantou, começando a andar em círculos no quarto, eu acompanhava cada movimento seu com uma curiosidade desmedida. – Talvez você não saiba, mas todos os anjos da guarda têm um sentimento muito forte pelo seu protegido. Na língua de vocês, provavelmente chamariam de amor, mas não é como se fosse algo descritível. Não se rompe, não importa quantos motivos temos para odiá-los, os anjos sempre colocarão o humano acima de tudo, porque na verdade, vocês são o nosso tudo. Então se brigo com você, desapareço da sua vida ou digo palavras não tão doces, não é porque não gosto de você, e sim o contrário, é porque gosto até demais e preciso fazer com que enxergue seus erros, sozinho, porque sei que está surdo demais para me ouvir, ou insistindo, porque está cego demais para ver por conta própria.

As palavras morriam em mim antes mesmo de serem formuladas. Mordi o lábio inferior e abaixei o olhar; de qualquer forma, Taehyung não parecia ter terminado seu discurso. Seus passos silenciosos continuavam se estendendo pelo chão, o olhar ainda vagava ao redor sem se concentrar em um ponto fixo.

– Mas isso é um sentimento obrigatório, que nasce junto às nossas asas, tão natural quanto nossos poderes. – E então ele parou, no centro do quarto. O olhar mirava o meu, suas íris pareciam mais vívidas do que antes. – Você me tornou um erro, Jungkook. Não me trouxe apenas o fraterno, o sentimento mais puro dos anjos, mas ao longo do tempo criara uma raiz sombria em mim. O passional. Anjos perdem a santidade quando encontram o que não devem, nós começamos a nos tornar parte da Terra, porque esses sentimentos não pertencem ao Céu.

Seus passos começaram a se direcionar em minha direção enquanto eu sentia o meu coração pular forte dentro do peito. Expirei ruidosamente quando Taehyung subiu na cama e se ajoelhou a minha frente, ele se aproximava com lentidão e olhos atentos ao meu rosto, mas não em um só ponto. Suas mãos se apoiaram na colcha e os joelhos deslizavam por ela enquanto engatinhava para ficar mais perto.

– Eu ainda não caí, mas estou cada vez mais suscetível a isso; não tenho penas o suficiente para ficar no Céu. Por isso você consegue me tocar, porque eu estou aqui.

– E-e-eu... – Eu não sabia ao certo o que falar, e todo o meu raciocínio se nublava enquanto por reflexo eu me afastava de si, suas pupilas queimavam de uma forma que eu nunca havia visto. – Cheonsa...

– Eu acho estranho você ainda não ter se lembrado, – suspirou, – naquela noite você me beijou, Jungkook.

Arregalei os olhos em surpresa e senti meu coração gelar, falhando a batida. E então uma enxurrada de memórias me atingiu em um baque. Eu, Taehyung, beco; Meus lábios indo de encontro ao seu, às vezes conseguindo senti-lo e às vezes não, seu lado imaterial parecia estar em conflito. Meu rosto corou de vergonha, eu não podia acreditar que havia feito aquilo.

– Eu... não me lembrava. – Meus olhos reluziam choque e minha garganta se fechara, após.

Taehyung não parou, ele voltou a andar em minha direção e eu continuei a recuar.

– Talvez só precisasse de um gatilho.

Parei de me arrastar para trás assim que senti a cabeceira barrando minhas costas, o manto que eu usava para me envolver já estava sob mim desde o momento que percebi que me locomover daquela forma com ele não era nada prático. Observei, com a respiração acelerada, Taehyung terminar sua aproximação; ele levou as mãos para os meus joelhos, os abrindo com pouca pressão e me fazendo o olhar espantado pelo ato. Antes que eu pudesse contestar, ficou no meio de minhas pernas deixando sua cabeça quase rente a minha, um pouco elevada, porém. Sua coluna estava arqueada para baixo, os braços sustentavam o corpo sobre a cama, os dois me cercavam.

Nosso olhar estava vidrado um no outro, as respirações se misturavam e os segundos pareciam congelados no ambiente, diferente da temperatura que cada vez se elevava mais e fazia com que gotículas de suor surgissem nos nossos rostos. Sua cabeça se aproximou e dessa vez não recuei; suas pálpebras se fecharam, mas eu deixei as minhas bem abertas, olhando atento cada centímetro de seu rosto. Seus lábios se aproximaram e minha respiração foi interrompida quando os roçou sutilmente nos meus, sem fazer algum contato duradouro.

– Meus sentimentos sempre foram muito fortes por você, mesmo antes de me tornar um anjo. – Taehyung havia parado a provocação, mas ainda continuava de olhos fechados e tão perto que fazia com que meu ar se sufocasse. – Um anjo começa a cair porque ele está fazendo ou sentindo coisas que não lhe são permitidas. Essa é a segunda vez que estou caindo, na primeira eu me refugiei no Céu para me livrar do ambiente ruim e poder recuperar minhas asas. Eu fiquei mais de dez anos lá, havia abandonado você, e foi nesse meio tempo que tudo deu errado em sua vida. Voltei a cumprir meu papel no mesmo dia que sofreu o acidente. – Ele abriu os olhos me encarando, sua mão se moveu até ficar sobre a minha. – E você me enxergava, Jungkook. É tão difícil ter o controle das coisas quando elas não saem como o esperado...

– Está dizendo que...? – A palavra enrascava e não parecia querer sair. Por que era tão difícil?

Não me importava com a parte que ele dizia sobre ter me abandonado, eu só me importava com o resto. Amor passional.

Meu coração batia tão rápido que eu podia senti-lo querendo sair do meu peito. Eu queria dizer “eu gosto de você, muito” ou até “seus olhos sempre me fazem perder o fôlego”, mas eu estava impactado demais. Não sabia se me sentia feliz ou triste, a única coisa que eu sabia era que o meu coração se aquecia com aquela descoberta.

Ele respirou profundamente e se afastou, tão lentamente quanto se aproximou. Algo dentro de mim se partiu ao não ter mais sua presença tão perto, ou até sua mão sobre a minha.

– Vá tomar um banho, Jungkook. – Ele voltou o olhar para baixo assim que se levantara da cama. – Duvido que seus amigos acreditaram que sou um amigo do casal de finlandeses, eles devem estar estranhando a demora que nossa conversa particular está levando.

– Mas... – Me sobressaltei da cama, encontrando o olhar com certa expectativa de Taehyung sobre o meu. Sua sobrancelha se arqueou enquanto eu engolia em seco sem conseguir dizer. Fitar seus olhos era doloroso, e os lábios mais ainda por me fazer lembrar do beijo. Eu estava nervoso, suando frio; só queria poder dizer o que queria com um sorriso no rosto, mas era difícil conseguir me sentir bem quando encontrava seus olhos opacos, a condição miserável e o caos interno que ele estava enfrentando naquele momento. Afoguei meu sentimento com dor sem ter coragem de o dizer, palavras amargas rasparam minha garganta, ao invés. – E Hoseok?

Taehyung suspirou e riu soprado, os olhos se fecharam cansados e a palma limpou um rastro de suor de sua testa.

– Vá para o banho, Jungkook.

~*~

– Amigo dos finlandeses? Essa história está muito mal contada... – Yoongi bebericava chá verde enquanto encarava Taehyung, seu tom dava a entender de que queria que Cheonsa terminasse a frase, mas este último estava muito aéreo para tal ato. O Min bufou deixando a xícara ornamentada sobre o balcão ao mesmo tempo em que Jimin a roubava para pôr mais chá e o tomar por si próprio. – Qual o seu nome mesmo?

Estávamos todos reunidos na cozinha em plena quatro horas da madrugada; só a luz do cômodo estava acesa na casa porque procurávamos não chamar atenção de Yang Mi; logo a iluminação era precária e acrescentava mais para um clima de interrogatório policial. Claro que em um interrogatório não se costuma ter tantas pessoas, ainda desfrutando de um hotteok preparado de última hora. Namjoon e Jimin se mantinham mais afastados comendo a panqueca recheada enquanto Yoongi parecia ser o único disposto a fazer o papel do policial fodão. Revirei os olhos e me debrucei sobre o balcão.

Olhei para o anjo de relance quando Taehyung pigarreou e se ajeitou na cadeira coçando os olhos. Será que ele começaria a sentir necessidades humanas como, por exemplo, sono? Mas ele ainda não tinha caído...

Merda, ele falou e falou, mas acabou não dizendo nada antes. A única coisa que ele disse foi que...

Tudo bem, talvez ele tivesse dito algo. Senti minhas bochechas queimarem e um sorriso querer brincar em meus lábios, mas me segurei porque isso seria muito estranho para o contexto. Eu não podia negar que estava me sentindo muito bem com minha paixão correspondida, mesmo que isso implicasse em muitas coisas – como o fato de ele ser um anjo e estar caindo por minha culpa. Era involuntário.

– Meu nome é Heikki. – Cheonsa falou também bebericando chá de sua xícara.

Yoongi estreitou ainda mais os olhos que já estavam comprimidos pelo sono.

– Você é coreano. Não tem sotaque, seu rosto tem características asiáticas. Por que diabos seu nome seria finlandês?

Suspirei. Aquilo nunca daria certo.

– Não vamos julgá-lo assim. – Namjoon dissera com tom calmo enquanto Jimin sustentava uma cara de paisagem olhando fixamente para a xícara. – Não sabemos da história dele.

Yoongi suspirou passando a mãos pelos cabelos. Sua expressão entregava que ele realmente não queria estar ali e isso não ajudava nem um pouco no seu humor.

– Ótimo, então nos conte sua história.

Vi que Taehyung respirou fundo e se preparou para começar a despejar um monte de improvisos que se uniriam e tentariam tecer algo sem furos. Era o que ele vinha tentando fazer desde que chegamos, mas os ouvidos atentos de Yoongi achavam qualquer coisinha mínima para inverter as coisas e fazer com que as palavras se virassem contra o anjo. Eu gostaria de poder o ajudar, mas se tentasse o fazer apenas pioraria tudo.

– Como estava dizendo, Janne e Ari são meus amigos de longa data e quando lhes disse que havia perdido meu emprego, eles me contaram que tinham comprado uma casa já fazia algum tempo em Seul, minha cidade natal, e que eles não pretendiam usá-la ainda. Eles me ofereceram ela por um aluguel barato, fiquei feliz por ter a chance de recomeçar a vida aqui.

Yoongi balançou a cabeça afirmativamente em silêncio, eu podia ver seus olhos trabalhando em procurar alguma falha na postura de Taehyung.

– Onde você morava na Finlândia?

Taehyung mordeu o lábio inferior.

– Em Helsinki.

– Ah... Na província Oriental, certo?

Taehyung assentiu e assim que o fez, um sorriso maquiavélico cresceu no rosto de Yoongi, um riso soprado saiu de sua boca enquanto ele pegava mais um hotteok e colocava no seu prato.

– Helsinki fica na Finlândia Meridional, é melhor contar a verdade, cara.

Um barulho de algo se quebrando rompeu o ambiente antes que eu ao menos tivesse tempo para reagir; Todos olhamos na direção do som e encontramos Jimin com um sorriso amarelo abaixado no chão e catando os cacos de cerâmica do que antes era uma xícara. O idol coçava a nuca envergonhado enquanto levava os restos mortais da louça até o lixo.

– Desculpem-me, eu só... – Pigarreou. – Nada, não foi nada.

Olhei impactado para Yoongi enquanto pensava em algo para ganhar tempo. Aquilo não estava dando certo mesmo. Minhas unhas arranharam o granito enquanto eu me levantava dele e fitava meu quase irmão com a boca entreaberta.

– Hyung! E eu pensava que você matava as aulas de geografia do colégio, eu lembro de quando você havia tirado vermelho e quase ficou de recuperação. – Sorri afobado. – É uma história e tanto, – passei o olhar entre todos os presentes, – posso contar? Haha, claro que sim, não é? Foi no final do segundo ano quando a Sra. Park era sua professora de geografia, ela realmente te odiava, e quando viu você fazendo um aviãozinho de papel com a prova ela...

Yoongi bufou e bateu com as duas mãos sobre o balcão. Engoli em seco e me calei imediatamente.

– Tudo bem, um de vocês dois podem me explicar que porra que está acontecendo?

Na mesma hora que o Min surtou, a porta da cozinha foi aberta discretamente enquanto Yang Mi surgia com a testa enrugada e cabelos bagunçados. Usava um roupão enfeitado com flores e uma pantufa bege. Seus dedos finos se preocupavam e apertar mais o tecido contra o próprio corpo enquanto seus olhos piscavam rapidamente, ainda tentando se acostumar a luz da cozinha.

– Yoongi? Jimin? Namjoon? Jungkook... – Seus olhos foram passando um por um enquanto ela bocejava. – O quê estão fazend- – E então ela parou e os olhos arregalaram e ficou estática durante alguns segundos olhando para o meu lado. Franzi a testa e olhei na mesma direção encontrando o anjo paralisado. – Taehyung.

E então seus olhos se arregalaram ainda mais parecendo que iriam saltar das órbitas, suas mãos abandonaram o roupão e ela as apoiou fortemente contra o peito enquanto se curvava para frente, ela parecia afogar enquanto continuava a ir em direção ao chão. Yoongi foi o primeiro a gritar e ir até ela tentando a socorrer, depois de alguns segundos de choque, eu, Namjoon e Jimin também corremos em sua direção.

Taehyung havia continuado parado onde estava, congelado como uma estátua.  Yoongi chorava sobre o corpo desmaiado e Jimin procurava seu celular para discar o número da ambulância. Namjoon checou o pulso e encostou uma faca no nariz de Yang Mi para verificar sua respiração; ele apenas suspirou.

– Sem pulso, – deixou a faca ao lado no chão, Yoongi o olhava chocado, – não está respirando.

~*~

O hospital era silencioso na madrugada, mas não fazia com que o clima se acalmasse. Yoongi estava com os olhos vagos sentado sobre a cadeira na sala de espera, e eu estava tão abalado quanto ele, o confortando ao seu lado da forma como podia. Jimin e Namjoon também estavam lá, mas o último fora buscar café para nós. Taehyung estava com uma das minhas calças jeans – que o obriguei a vestir junto a uma camiseta normal antes mesmo do interrogatório em casa –, ele mantinha suas mãos nos bolsos e era como se alguém tivesse passado cola em sua boca.

O de cabelos róseos chegou com os copos plásticos, oferecendo um a Yoongi que negou silenciosamente. Aceitei uma bebida quente e o agradeci com um sorriso sem dentes, ele o retribuiu e depois passou para Jimin e Taehyung.

O café era amargo, fiz uma careta e o abandonei em uma cadeira vazia ao meu lado.

Meus olhos caçavam os de Taehyung de forma questionadora, mas ele não parecia estar a disposição de me falar qualquer coisa, então eu apenas bufava e dirigia meu olhar cortante para o corredor pouco movimentado.

Era muito estranha a reação de Yang Mi, ela havia visto Cheonsa e inclusive dissera seu nome, tendo uma parada cardíaca logo após. Chamamos a ambulância e quando os socorristas chegaram, logo a colocaram no carro e tentaram a reanimar o caminho todo para o hospital, mas ela não havia acordado. Yoongi estava chocado demais para fazer qualquer coisa, tanto que eu e Jimin que resolvemos o problema dos documentos para a entrada.

Ela conhecia Taehyung, mas como isso era possível?

Vi uma cabeleira conhecida passar pelos corredores e me levantei discretamente, andando silencioso pelo piso brilhante e tentando não chamar muito a atenção de Yoongi que parecia viajar em seu próprio mundo. Nenhuma lágrima escorria de seus olhos e eu não o julgava por isso, às vezes a ficha demora muito para cair.

Me aproximei do médico e o interceptei em seu caminho, assim que me olhou sua testa franziu e um sorriso cordial surgiu em seu rosto.

– Jungkook-ssi, está tudo bem? Sentiu alguma reação após o acidente?

Franzi a testa e logo neguei, suspirando enquanto tentava manter minhas mãos quietas e não tremendo freneticamente como realmente estavam. As escondi nas minhas costas e suspirei antes de respondê-lo com um sorriso educado.

– Está tudo bem comigo, Heechul-ssi. – Umedeci a língua enquanto pensava em como ser discreto. – Está de plantão hoje?

O médico de cabelos médios ficou alguns segundos me encarando com confusão até que suas sobrancelhas se ergueram e sua boca se abriu fazendo um som de compreensão. Sorri novamente e cocei a testa trocando a perna que sustentava o peso do meu corpo. Heechul abaixou a prancheta que carregava e me olhou com paciência.

– Não tenho acesso à informação de pacientes que não estão na minha ala, Jungkook-ssi. Seja quem for, está em boas mãos, não se preocupe. – Seu tom era doce e contrastava com a amargura que tomava meu estômago.

– Heechul-ssi, eu tenho uma dúvida...

Ele pensou um pouco e deu de ombros.

– Se eu puder respondê-la, o farei.

Respirei fundo.

– Alguém pode morrer de susto? Literalmente?

Ele expirou e fez uma expressão pensativa.

– Não é muito provável, mas em pessoas que já tem problemas cardíacos pode levar a um quadro grave, por causa da grande descarga de adrenalina que aumenta a pressão arterial e o fluxo de sangue nos vasos sanguíneos. Se a pessoa estiver com uma das artérias coronárias semiobstruída, isso pode levar a uma arritmia, infarto e sim, até a morte. É ainda mais perigoso para idosos, já que não têm controle das emoções.

Crispei os lábios e agradeci ao médico, ele garantiu mais uma vez que tudo daria certo e se despediu e continuou a seguir para onde estava indo. Cerrei minhas mãos sentindo as unhas pressionarem minha própria palma dolorosamente.

Yang Mi era hipertensa.

~*~

Taehyung POV

A morte não era algo previsível na maioria das vezes. Ninguém quer morrer, todos fogem do golpe mortal que reduz sua vida a pó e leva a sua alma para algum lugar desconhecido do qual ninguém tem certeza se realmente existisse. Irá reencarnar? Terá o peso de seu coração comparado ao de uma pena? Apenas existirá escuridão?

Até a hora certa ninguém vai saber.

Eu não sabia. Yang Mi também não.

Agora eu sei, ela provavelmente também.

Naquela manhã todos choravam: Yoongi, Jungkook, Jimin e amigos da senhora Min. O clima de funeral também não favorecia piadas ou sorrisos, afinal, era uma reunião de pessoas com o propósito de celebrar a vida que o falecido teve, a encerrando com chave de ouro e a promessa de que sempre será lembrado. Mas para ser sincero, os mortos não se preocupavam com flores e mais flores, ou se está sendo enterrado em um caixão de madeira ou mármore. Eles também não gostavam de ver os entes queridos chorando por sua causa.

Funerais mais doíam do que aliviavam, e eu sabia disso muito bem.

Principalmente porque quando eu morri, não aceitava aquilo. Não parecia real até Seokjin me acolher e explicar sobre Céu, anjos e morte.

Apesar de tudo, eu ficava feliz em ver que Jungkook tinha chamado BamBam e Yugyeom para lhe dar força, assim como um sentimento orgulhoso se infiltrava em meu coração ao vê-lo aceitando o abraço acolhedor de Jimin. Ele tratava os conhecidos de Yang Mi com a educação que Yoongi não era capaz de oferecer, este último se encontrava o tempo inteiro sobre o caixão ainda aberto com sua mãe. Os olhos secos não piscavam, mas as mãos não paravam de tremer.

E eu podia sentir seus olhares, não apenas seus de fatos, mas até os de Jungkook. Para eles, a culpa de Yang Mi ter morrido era minha.

Na verdade, era.

Ver pessoas mortas não é comum, ela se assustou quando isso aconteceu.

– Parece que a vigília vai se estender por um bom tempo.

Olhei para o lado um tanto assustado, mas sorri ao ver Jin me analisando com cautela. Ele estava bem, afinal. Nem parecia mais o anjo cansado da noite anterior, ele se recuperava rápido. Saí da pequena capela onde velavam o corpo e o arcanjo seguiu meus passos; agora que estava na Terra, eu devia tomar cuidado ao falar consigo.

Seguimos uma estradinha de terra e paramos próximos a alguns arbustos, embora tivesse bastante carros estacionados ali por perto, as pessoas estavam todas no recinto fechado.

– Ela realmente teve que morrer? Não tinha outro jeito? – Perguntei assim que paramos de caminhar, meio escondidos pela cerca e as plantas floridas.

– Muita coisa se complicaria, ela te reconheceu. – Jin suspirou e sorriu fraco. – O destino se tece de forma a ajeitar imprevistos como esse. Não me olhe assim, Deus não tem culpa, as coisas são como têm que ser.

Mordi o lábio inferior enquanto respirava profundamente. O ar da Terra não pesava mais tanto e a gravidade estava sendo suportável, talvez depois de vinte e quatro horas eu me sentiria quase como um humano. Voltei meu olhar para cima, o céu estava nublado e cinzento, era uma manhã triste depois da noite caótica. O pós-guerra.

– Sei que está pensando nas palavras do caído. – Um silêncio se fez presente, me deixando aproveitar o farfalhar silencioso das folhas e o sussurro do vento, para que então Jin voltasse a falar e bagunçar minha mente com suas perguntas. – Concorda com elas?

Inspirei profundamente enchendo meus pulmões com aquele ar forasteiro.

– Quando ele diz que temos cicatrizes está certo. – Senti minha garganta se embolar enquanto percebia o olhar sutil de Seokjin sobre mim. – As asas são minhas cicatrizes, elas que são o resultado de meus últimos atos em vida. – Minha visão já estava embaçada pelo choro inevitável, as nuvens se mesclavam em uma arte aquarelada. – Mas, mesmo assim..., – funguei, – Eu não quero perde-las. Não quero me tornar alguém igual a ele.

Jin suspirou ruidosamente.

– Você ainda pode voltar.

Não o respondi, apenas fiquei a observar ao redor distraidamente; Seokjin ficou ao meu lado o tempo todo, dando um apoio silencioso apenas para mostrar que estava ali. Eu sabia que ele estava querendo me arrastar de volta para o Céu, mas enquanto eu tivesse esperanças de poder ficar na Terra e recuperar minhas asas, ficaria.

– Eu ainda tenho seis dias.

– Até cometer um pecado maior que acabe com todos eles em um segundo. Não seja tolo, Taehyung. Mesmo que você livre Jungkook de Hoseok, isso não será o bastante para que recupere suas penas. Você o ama, e isso não pode ser revertido. Tem noção da gravidade? A maioria dos anjos cai por amor, não é como se pudessem lutar contra um sentimento como esse.

Eu prestava atenção no discurso de Jin, até que reconheci alguém passando pelo portão. Estreitei os olhos e indiquei para o arcanjo ao meu lado, já começando a andar direto para dentro da capela que era para onde ele seguia com uma calma invejável.

– O que ele faz aqui? – Seokjin perguntou acompanhando meus passos apressados. Eu apenas ignorei a pergunta porque era impossível saber a resposta.

Passei pelas pessoas pedindo desculpa ao trombar nelas, ainda era difícil me acostumar ao fato de que podia tocá-las. Assim que entramos pude ver o rapaz de cabelos escuros andar em direção a Jungkook que estava reunido perto do caixão com Jimin, Namjoon e Yoongi. Suas vestes eram negras e reluzentes, tinha no total, oito anéis nas mãos, cada um continha uma pedra de coloração diferente.

Comecei a andar mais apressadamente, chegando ao grupo antes que Hoseok o fizesse. Parei ao lado de Jungkook, pelo seu olhar desesperado vi que ele percebeu o caído chegando. Aparentemente, o Jeon havia deixado sua raiva momentânea de lado e se aproximou mais de mim, aumentando a distância de poucos metros entre ele e Hoseok. Suspirei e tentei transmitir um pouco de conforto apertando levemente sua mão, mas ele continuava tão inquieto como meu interior estava.

As botas de Hoseok faziam um barulho distinto contra o piso encerado, observei o momento em que ele me dirigiu um sorriso sarcástico combinando com seus olhos divertidos. Ele parecia tão recuperado quanto Jin. Os outros três que faziam uma roda ao redor do caixão de madeira escura, levantaram as cabeças e encararam Hoseok, cada um tinha uma expressão diferente; Namjoon dera um sorriso sem dentes acolhedor, Jimin tinha olhos arregalados e Yoongi se encontrava com as íris opacas, sem nenhuma expressão formada no rosto.

A figura do caído chamava atenção no recinto, não por causa de seu grande casaco de pele preto, ou por conta de suas botas que subiam até o joelho, mas sim pelo buquê de rosas fracas e quebradiças que carregava, todas estavam desbotadas e tinham uma coloração marrom na ponta das pétalas, algumas chegavam a cair no caminho.

Assim que Hoseok chegou perto, ele passou o olhar por todos acabando por se fixar no meu, os dedos delgados apertavam o buquê de laço preto firmemente nas mãos.

– Eu estou aqui para prestar minhas condolências à família, – se virou para Yoongi e depois, Jungkook, – eu lamento muito sua perda. – Yoongi apenas crispara os lábios enquanto seus olhos pareceram ferver, ele abaixou a cabeça.

O que está tramando, Hoseok?

Jimin estava calado, os olhos pareciam quase saltar e respiração estava acelerada. Hoseok o olhou sorrindo. Duas pétalas caíra ao chão, uma terceira parecia balançar prestes a ter o mesmo destino que as outras.

– Me desculpe a pergunta, por que rosas secas? – lhe direcionei um olhar firme, ele me olhou divertido, um brilho de sarcasmo escondido em suas íris escuras.

– A morte não é algo a se apreciar, por que as minhas flores seriam?

Todos estavam calados e um silêncio perturbador ocupava a rodinha, Jimin arrumava seu cabelo enquanto Yoongi mantinha a cabeça baixa. Jungkook estava roendo as unhas e Namjoon era o único que tinha uma postura mais relaxada. Hoseok riu levemente e deixou o buquê junto às outras flores, ao lado do caixão. Ele colocou as mãos nos bolsos e dirigiu um olhar lento e intenso para cada um, até chegar no meu e se desviar novamente para nenhum definido.

– Ah, qual é? Todos aqui me conhecem, não precisam fingir que sou só mais um desconhecido tocado pela morte alheia. – Na mesma hora nos entreolhamos surpresos. Hoseok ainda sustentava um sorriso inabalável. – Talvez nem todos me conheçam inteiramente. – E então ele se virou para Jungkook estendendo a mão, o moreno apenas a olhou como se fosse tóxica. – Prazer Jungkook, eu sou o seu irmão.

Seokjin que até então apenas observava, ofegou ao meu lado enquanto meu mundo pareceu perder o chão.

– Não, ele não fez isso...

Crispei os lábios e fechei os olhos.

Sim, ele fez.


Notas Finais


Gente, esse cap foi um parto, sério.
VOCÊS PERCEBERAM O QUE HOSEOK FALOU? HM HM?
Nem posso falar muito desse cap, talvez algumas respostas quanto ao comportamento dos meninos esteja no próximo, right? right.
E A CAPA? EU MUDEI A CAPA (duas vezes na verdade, mas a primeira era só temporária porque eu já tinha enjoado da bege, essa é a definitiva - vai ficar até eu enjoar dela igual aconteceu com a outra lol)
Espero que tenham gostado, eu achei meio pombo, mas tentei caprichar o máximo possível porque eu não entrego qualquer coisa pro 6 não.
Não revisei mais de duas vezes, sorry qualquer erro.
:"""""")

XOXO


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