História Cidade de Vidro - Ressurgimento - Capítulo 15


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Alemanha, Distopia, Drama, Ficção
Exibições 5
Palavras 5.009
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção, Romance e Novela, Slash
Avisos: Bissexualidade, Homossexualidade, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 15 - Reflexo no vidro



– Desde quando? – eu pergunto. Enfio minha mala no porta-malas sem perder tempo. Os grandes veículos militares foram produzidos especificamente para comportar, além de uma quantidade substancial de soldados, montes de armas e caixas de munição, então as poucas coisas que levo ficam nadando lá dentro. Eu não prendo minha mala a nada – deixo-a solta. Não há tempo para ficar arrumando e reorganizando o que seja agora. Se há algo que meu pai não faz é exagerar sobre a urgência de certas situações. A do momento é a premência de fugir, para o lugar que ele chamou de Base Norte.

Fecho a porta do bagageiro e me encaminho para o banco da frente. Mal terminei de me sentar, meu pai dá a partida no carro e sai, rumo o endereço que o dei.

Não me interessa o quanto ele tenha insistido que é perigosíssimo desperdiçar tanto tempo tentando convencer meus amigos a vir comigo. Eu fiz uma promessa. Eu não vou deixar Wilhelm sozinho jamais. E devo demais a Sophitia para ir embora sem ela. Isso me traz de volta à cena atual. Meu pai vira à esquerda.

– Desde quando o quê? – ele retruca.

– Desde quando você faz parte da rebelião, e desde quando você é o informante do Oponente?

Ele fica em silêncio por um longo momento.

– Lembra aquele dia, meses atrás, quando você me perguntou... – Ele faz uma pausa, na qual eu olho para ele. Ele está enrubescendo? É impossível negar, porque a pele dele é branca que nem papel, e está ficando vermelha. – Se eu te amava – ele solta, finalmente. – Eu percebi na mesma hora que você não estava querendo apenas confirmar a afeição de um pai por um filho. Eu ouvi as entrelinhas. Você queria saber quão longe eu iria por você. O quanto eu lutaria para te manter vivo, se necessário. E isso meio que abriu meus olhos. Verdade seja dita, na verdade abriu meus olhos para tudo. É claro que eu não podia adivinhar que você e o Schneider estavam apaixonados. Eu achei, no momento, que você falava sobre a Brauer, Victoria. Então eu pesquisei mais sobre sua execução. E cheguei ao motivo. Inclusive à rebelião, coisa que aqueles inúteis da “Inteligência” não conseguiram identificar. E com a rebelião, cheguei ao Oponente. Como você deve ter deduzido, eu jamais me juntei à Sublevação. E fiz isso de propósito.

– Porque você sabia que Kornelius estava na cola da Sublevação. – Ele faz que sim com a cabeça. – E você sabia que ele também estava passando informações para o Exército?

– Não de início, é claro. Eu não sou um gênio. Mas eu percebi isso, no dia em que ele me falou sobre...

– Sobre Niclauss e eu. – Eu sinto as lágrimas pressionando minha garganta. As engulo antes que se forme o nó e eu não consiga mais falar. – Você tocou nesse ponto interessante – eu digo, disfarçando a tristeza. – Se você diz que ficou com os olhos tão abertos, por que teve aquela reação quando me confrontou com a informação? Você não deveria estar acostumado.

– Como eu poderia, Jacobus? – ele pergunta, batendo os punhos no volante. Ele o segura com força, então, e faz a curva à esquerda novamente. – Como eu poderia me acostumar à ideia de você estar se arriscando tanto? – O bolo em minha garganta, que antes já estava ruim, começa a crescer. Não consigo me decidir se o que sinto é raiva ou mágoa. Sem parecer perceber minha reação, ele prossegue: – Você estava colocando tudo a perder! Se um cara tão tapado quanto Kornelius já sabia que você e Niclauss estavam juntos, quanto tempo levaria para que outras pessoas, algum delator fofoqueiro maldito, entregasse vocês ao Exército? Eu estaria de mãos atadas, e tudo que eu havia trabalhado haveria sido em vão! Você seria morto e eu não poderia fazer nada! – Ele está falando alto demais, e há emoção demais em sua voz. Eu não gosto disso, de ver meu pai tão vulnerável e sincero. Esse não é o homem que eu conheço. – Como eu poderia deixar que um erro tão besta colocasse sua vida em risco, Jacobus? Como você acha que eu ficaria se te perdesse?!

Um silêncio lancinante se instala entre nós. Eu jamais imaginei que meu pai realmente se importasse comigo. Claro que eu sabia que ele me amava, mas não pensei que chegasse a esse tanto. As poucas ocasiões em que imaginei o que aconteceria caso eu morresse não vieram carregadas de imagens de meu pai sofrendo. Mas ouvir sua voz inquirindo sobre a maneira como eu o deixaria caso eu viesse a falecer destrói completamente a imagem indiferente que eu tinha dele.

– Eu não pude acreditar que eu pudesse te perder tão facilmente – continua meu pai, desta vez falando muito mais baixo. – E quando eu senti sua decepção pelo que você concluiu, quando achou de eu desaprovava o fato de você estar apaixonado pelo Schneider, eu me senti ainda pior. Eu aceitei que seria justo você me odiar. Mas não aceitei te perder. Eu sinto muito, Jacob. Sinto muito por não ter sido o pai ideal. E sinto por ter negligenciado você por todo esse tempo. E também sinto muito por fazer parte do governo que te oprime.

Eu não sei se é a coisa certa a se dizer, nem se é o que eu realmente sinto, mas é tudo o que digo.

– Eu te perdoo.

Meu pai vira à direita.


A casa de Wilhelm aparece à frente. Durante todo o resto do trajeto nós ficamos em um silêncio induzido. Quando ele finalmente para, eu estou olhando pela janela, então não preciso olhar para saber que ele parou o carro no lugar certo, antes de sair.

– Não vou demorar – digo, então abro a porta, e saio.

Fecho a porta do carro atrás de mim e caminho rapidamente até a frente da casa de Wilhelm. Não sei como ele ficou depois que eu fui embora hoje de manhã; quero dizer, não tenho como saber qual foi sua reação. Não que isso me preocupe demais. Afinal, ele sabia que eu teria de voltar para casa cedo ou tarde. Só espero que ele não tenha morrido de preocupação.

Bato na porta da frente duas vezes e aguardo. Ouço passos vindos do outro lado, e um momento depois a porta é aberta. O pai de Wilhelm sorri para mim e me cumprimenta, depois grita Will. Enquanto nós esperamos Wilhelm descer, ele me pergunta sobre o que aconteceu dois dias atrás, o motivo da confusão. Ele não está tão preocupado assim com o filho, eu percebo. Mas não porque ele não liga. Apenas a maneira como ele recebe a mentira que eu conto é o suficiente para que eu veja o contrário. Ele confia em Wilhelm, e acredita que ele não fará nada que o colocará em perigo. Com o artifício da confiança a meu favor, eu conto apenas uma mentira por cima de uma mentira, dizendo que nós estávamos juntos e só. Espero que isso convirja com a mentira que Will contou. Então ele opina sobre os destroços do avião destruído a dois dias, e eu encontro um motivo para digredir. Ele diz que fica feliz que Will tenha me ajudado a escapar do perigo, e eu aquiesço. Pelo menos isso não é mentira.

Quase suspiro aliviado quando Will chega. Não sou um mentiroso muito ruim, mas também não sou ótimo, e é uma verdade conhecida que quanto mais tempo você mente, maior a probabilidade de ser pego. O pai de Will entra em casa e nos deixa a sós.

Wilhelm me abraça com força, e eu o abraço de volta. É tão bom poder sentir calor humano sem qualquer reserva ou medo, finalmente. E, antes que eu possa registrar, Will me beija. Eu enfio meus dedos em seu cabelo e o puxo para mim. Sei que meu pai está vendo lá do carro, então faço o máximo possível para provocá-lo. Se tudo o que ele disse é verdade, então não há problema em beijar um cara na frente dele quando mais ninguém está olhando, não é?

– Will, nós precisamos conversar – eu digo, finalmente conseguindo me afastar dele. Will me dá um sorriso torto e revira os olhos. Mas a alegria em seu rosto começa a desaparecer quando ele vê a seriedade no meu. A felicidade em meu rosto cessou rapidamente como uma vela ao vento.

– Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? – Ele olha fundo em meus olhos, e eu preciso respirar fundo antes de dizer qualquer coisa.

Então conto a ele aquilo que eu descobri. Ou melhor, tudo aquilo que meu pai me contou. Conto a ele sobre a Sublevação e sobre o Oponente, e sobre a conexão entre meu pai e eles. Então preciso contar tudo de novo, desde o começo, porque há muitos detalhes que Will desconhece. A pontada em meu peito é certeira. Niclauss sabia de tudo desde o princípio. E ele não está aqui.

Isso me faz pensar. Será que eu deixaria Wilhelm e Noam para trás caso Niclauss estivesse vivo? Prefiro não pensar nisso.

Resumo a ele como tudo começou – com o assassinato de Victoria, minhas suspeitas sobre o motivo, e, um bom tempo mais tarde, a maneira como Sophitia me contou que o líder da Sublevação tinha interesse em me conhecer –, e como eu acabei encontrando a relação entre o sequestro de Niclauss e Kornelius. Eu vejo os olhos de Wilhelm ficarem marejados à medida que a verdade aparece.

E eu, por dentro, me pergunto como posso não ter visto essa verdade por entre as paredes de vidro. Porque agora eu percebo como todo o país, toda a estrutura construída pelo governo e tomada pelo Exército, é feita de vidro. Prestes a ruir ao menor deslize. E eu percebo que não sentirei saudade dos cacos quando o Oponente estilhaçar o vidro.

– E você confia nisso? – Wilhelm pergunta, quando eu termino de explicar.

– Nisso, na ideia de entregar nosso país nas mãos de outro país? Não, é claro que não. Mas se há uma chance de mudar tudo, de mudar tudo pra valer, então vale a pena arriscar. E por isso que meu pai quer me levar, nos levar, para a Base Norte.

– E o que seria a Base Norte? – devolve ele, erguendo uma sobrancelha.

– Eu não faço ideia. Mas meu pai diz que é seguro, então deve ser.

– E você acredita nele? Quero dizer, seu pai é um Tenente, não é? Por que ele ajudaria o Oponente? – Ele franze o cenho.

– Eu entendo sua desconfiança, Will. Mas eu sei lá.

– Você confia?

– O quê? – eu pergunto, subitamente confuso.

– Confia no seu pai? Quero dizer, confia que ele realmente virou um rebelde e que essa Base Norte não é uma armadilha?

Eu fico em silêncio por um momento. Eu confio? Não, não confio em meu pai. É como se machucar feio andando de bicicleta quando ainda se está aprendendo. Eu perdi a confiança naquele homem que deveria ter sido meu super-herói quando eu nem sabia pensar direito. A confiança de um filho num pai é algo natural, ou pelo menos é o que dizem. Porque eu basicamente cresci sozinho, tendo meu pai apenas como um personagem distante na minha vida. Então é claro que eu não confio nele. Mas será que eu confio que o amor dele por mim é suficiente para mudar seus princípios, aquilo em que ele acreditou durante toda a sua vida?

– Confio.

Uma expressão indecifrável passa pelo rosto de Will. Ele olha para a direita, pensando. Então se volta para mim, com um sorriso no rosto.

– Então eu confio também. Mas o que significa isso ir para a Base Norte? Vai ser, tipo, pra sempre?

– Não, claro que não! – respondo, mesmo sem ter certeza. – Meu pai não me deu detalhas, apenas pediu que eu pegasse roupas e fosse com ele. Eu acredito que a ideia seja ficar nessa tal Base até que o Oponente tenha se infiltrado completamente no país.

– Mas, e se houver uma guerra? – ele questiona. Seu olhar transmite seu medo.

– Eu não sei – respondo, com honestidade. – Eu espero que isso tudo termine com o mínimo de dano possível, seja pela rendição do Exército ou uma guerra realmente muito pequena. Eu acredito que o Oponente vai tomar cuidado com os civis, se a intenção dele é realmente apenas tomar as rédeas do país.

– Então meus pais vão ficar bem? – ele pergunta.

Eu fico sem resposta. Eu não sei, sinceramente não sei. Não tenho como predizer, nem como apostar. Se uma guerra estourar, todos os cidadãos estarão correndo perigo, inclusive os pais de Wilhelm, é claro – desconsidero meu próprio pai, porque ele está correndo perigo apenas por estar respirando. Mas sinto que, desta vez, dizer a verdade não vai ajudar em nada.

– Vão – minto.

E, com mais uma mentira, trinta minutos depois, Wilhelm e eu estamos de volta no carro do meu pai, rumando a casa de Sophitia. Não sei se vou conseguir convencê-la de vir conosco, mas preciso tentar. Sem deixar aqueles que eu amo para trás. Não de novo.

Ninguém vai se machucar novamente se eu puder evitar.


– Então, o que é essa tal Base Norte, efetivamente? – pergunta Sophitia. Ela se refestela no banco do passageiro. Wilhelm empertiga a cabeça no meu colo, e eu acaricio sua cabeça, enfiando os dedos no seu cabelo.

– É um abrigo para civis, construído pelo Oponente. É um lugar completamente seguro, porque, além de ser subterrâneo, é secreto ao Exército alemão. E é para lá que vocês vão.

– E por que você está aliado ao Oponente? – atira ela em seguida, sem rodeios. – Você não é um líder do Exército.

– Eu tenho meus motivos – se esquiva meu pai. – O que importa é que será proveitoso para todos se o Oponente ganhar.

– E por que você só concluiu isso agora?

– Sophie! – eu chamo. – Tudo bem.

– Hm – ela murmura. Depois de um momento de silêncio, ela se vira para mim: – E desde quando você me chama de Sophie?

– Desde ontem. Sophitia é grande demais.

– Hm – ela diz de novo, e se vira para a frente. – Quem é o país Oponente? – ela pergunta. Essa me pega de surpresa. Eu nunca cheguei a pensar nisso, para falar a verdade. Eu olho para o meu pai, que por sua vez não tira os olhos da estrada.

– São os Estados Unidos – responde, amargamente. – Parece que eles vencerão de novo, depois de todo esse tempo.

Ele se refere à Segunda Guerra talvez, que foi o último conflito registrado entre os Estados Unidos e a Alemanha. Claro que foi uma vergonha incomensurável para os alemães, mas também foi o início de uma nova era para nosso país. Vencidos e destruídos, foi o punho de ferro do Exército combinado à liderança impiedosa do Governo o que nos reergueu. Não fosse por isso, provavelmente teríamos de ter pagado tributo aos Estados Unidos, e seriamos subordinados a eles. O problema é que o Exército não soube quando parar. Eles tomaram a dianteira, e passaram a liderar o país.

Os Estados Unidos não apenas venceram. Eles nos assolaram. Nos esmagaram até que estivéssemos irreconhecíveis, e nos deixaram para juntar os pedaços. E agora que nós conseguimos, dezenas de anos depois, nos reerguer, estamos de volta à mesma situação, sendo subjugados pelo mesmo país que nos derrotou no passado. Eu entendo o desgosto do meu pai em ter de se render ao Oponente para salvar seu país.

– Tudo bem – eu digo, tocando seu ombro. Ele olha para trás por um momento, e sua expressão deixa claro que ele está surpreso e confuso equitativamente. – Eu sei que fere nosso orgulho. Mas pode não ser uma coisa ruim.

– Eu duvido muito – ele responde –, mas obrigado mesmo assim.

– Acho que o Jacob tem razão – opina Sophitia. – Sei lá. Pode ser uma chance de finalmente deixarmos para lá esse ressentimento por causa da Guerra.

– Os tempos mudaram – comenta Will, pela primeira vez na conversa. – Nós não somos mais os mesmos, assim como o Oponente não é mais o mesmo. Seja qual for a intenção dele em conquistar o país, não será mais forte que todos nós. Ninguém pode quebrar nosso espírito, não é?

– Se eles tentarem repetir o que o Exército criou, a ditadura, quero dizer, nós vamos enfrentá-los. Ninguém vai nos impedir dessa vez. – Sophitia parece tão confiante que eu mesmo acredito nela.

– Não se esqueçam que foi a população que não enfrentou o próprio governo sobre a qual estamos falando – rebate meu pai.

– Dessa vez é diferente – eu respondo.

– Por que seria?

– Porque nós somos a próxima geração – eu prossigo. – Nós não vamos ter medo da maneira como tivermos antes. Eu prometo.


Meu pai para o carro. Estamos perto de um aeroporto pequeno. Pessoas caminham rapidamente de um lado para o outro, vestindo uniformes cinzentos com detalhes vermelhos. Eu não preciso pensar muito para saber que não norte-americanos. Um grande grupo deles, equipados com metralhadoras de aspecto impiedoso, se aproxima do carro, e suas expressões não são de hospitalidade. Meu pai abaixa o vidro do lado do motorista.

Um soldado jovem se aproxima. Preciso prestar muita atenção para não deixar meu queixo cair. Eu nunca saí do país, nem mesmo para muito longe de minha cidade natal, então sempre vi pessoas de características parecidas em termos de feições. O soldado norte-americano é tão diferente de todos nós que é quase risível. Seu rosto é mais delicado e fino, e sua pele muito mais escura. Os ângulos de seu rosto são mais estreitos que o comum alemão, e seus olhos mais escuros, assim como seu cabelo. Automaticamente eu fico assustado. Ele não parece gentil, muito menos fraco. Confronto físico com um ele parece impossível. A possibilidade de ter de enfrentar milhares deles, numa possível rebelião...

Eu ouço ele falando com meu pai em inglês, seu idioma nativo, e meu pai responde em um inglês carregado de sotaque. A diferença entre sons é inconfundível. Enquanto o alemão é seco e claro, o inglês é floreado e rápido. Eu me vejo começando a detestar o Oponente e os Estados Unidos, e me detenho. Eles estão aqui para ajudar. Sem eles, estaríamos perdidos; isso não impede que eu os despreze.

Depois de pouco tempo de conversa, o soldado diz alguma coisa aos outros, que se dispersam, e meu pai segue em frente com o carro. Ao me virar para Wilhelm, vejo que ele está tão fascinado – ou assustado – com os norte-americanos quanto eu. Sorrio por causa disso.

Adentramos uma área onde outros veículos estão estacionados. Soldados caminham de um lado para o outro, mas alguns deles, de aparência mais madura, estão parados, conversando em inglês. Meu pai para o carro outra vez, mas desta vez o desliga e abre a porta. Seguindo seu exemplo, nós três fazemos o mesmo.

Do lado de fora eu percebo que boa parte da nele foi afastada, sabe-se lá como. A voz fina dos americanos me causa comichão. Pouco tempo depois, um deles, segurando uma prancheta – e, diga-se de passagem, uma metralhadora pendurada a tiracolo –, se aproxima do meu pai. A visão dele prestando continência ao soldado norte-americano me enoja.

Eu vislumbro branco no meio do vermelho dos detalhes das roupas dos soldados. A insígnia do exército Oponente?

O soldado americano conversa com meu pai, e meu pai responde lentamente. É clara sua falta de hábito em falar em inglês. Ele explica algo ao soldado, e ele presta atenção, para, em seguida, olhar para nós três – por algo que meu pai falou. O soldado nos mede dos pés à cabeça – quem ele pensa que é?! –, então aponta para a direita, e anota algo em no papel. Sem prestar continência ao meu pai! Sinto meu sangue ferver.

– Vocês vão embarcar naquele voo – traduz meu pai, apontando com a cabeça para o avião a oeste. Não é bonito, nem luxuoso, mas está na cara que não é essa a intenção. – Têm quinze minutos antes que ele saia.

Eu balanço a cabeça, lentamente absorvendo o fato. Em quinze minutos eu não estarei mais na cidade onde nasci, e estarei completamente longe do lugar onde tudo começou e aconteceu – toda a minha vida, toda a minha história.

Will estende a mão primeiro, e aperta a mão do meu pai com firmeza. Ele agradece por tudo e dá um sorriso rápido, antes de dar alguns passos em direção à aeronave. Ele se vira e espera por nós. Sophitia aperta a mão do meu pai em seguida, e pede desculpas por tudo o que possa ter provocado, direta ou indiretamente. Ela dá uma olhada rápida para mim antes de pegar minha bagagem e levar com ela. Despeça-se direito, ela parece me dizer.

Quando os dois estão longe o bastante, eu finalmente olho para o meu pai. É cedo para dizer, mas parece haver lágrimas em seus olhos. Pelo menos há nos meus. No tempo seguinte, eu me decido entre abraçar ou não meu pai. Acabo por escolher a primeira opção.

Em menos de um segundo, um bolo se forma na minha garganta. Eu tento ser durão, mas não sou bem-sucedido. A perspectiva de nunca mais ver meu pai é dolorosa demais. Ele pode ser um babaca, um filho-da-mãe negligente, mas é toda a família que eu tenho. Eu enfio meu rosto no peito dele e deixo as lágrimas caírem. E, para minha surpresa, meu pai me abraça de volta, com força o suficiente para impedir que os fragmentos da minha alma se descolem de uma vez.

– Eu vou sentir sua falta – admito. Sei que não vamos voltar a nos ver tão cedo. Não preciso de mentiras bem-intencionadas para me convencer do contrário, nem de qualquer sinceridade lancinante; eu simplesmente sei.

– E eu a sua – ele responde. E me permite continuar agarrado a ele, como se ele fosse o cordão que impede que eu me perca no labirinto de Dédalo. Eu sinto saudade antecipada, como estivesse a um milhão de quilômetros de mim, não grudado a ele. Neste momento, todas as magoas significam nada, e todas as outras preocupações são de menor importância. Eu não quero estar longe do meu pai. Não quero perder mais ninguém.

Mas, como tudo na vida, o momento chega ao fim, e eu preciso me afastar dele. Eu começo a me ir embora, a me virar.

– Eu sei que você matou em Kornelius – diz meu pai, numa voz quase inaudível. Eu sinto gelo escorrer pelas minhas veias, ao me virar. Dedos gelados percorrem minha espinha. O rosto do meu pai está inexpressivo.

– Como você...? – Minha resposta é a demonstração mais clara de culpa. Eu deixo de pensar com clareza. Não acredito que depois de tudo o que passei eu serei preso ou executado por causa de Kornelius, e ainda mais por meu próprio pai. Centenas de imagens e seguimentos surgem em minha cabeça numa enxurrada de terror. No fim eu terei descumprido minha promessa a Wilhelm, terei o abandonado sem qualquer desculpa. E não foi justamente para conservar minha segurança que eu matei Kornelius? Começo a entrar em pânico, e começo a pensar em maneiras de fugir daqui. Será que se eu correr conseguiria entrar no avião a tempo? Apenas um milagre faria com que ele saísse no exato momento em que eu entrasse... Além disso, meu pai é maior e mais forte que eu, me conteria em um segundo se eu tentasse fugir. Ele me ama, está tentando me salvar, eu grito para mim mesmo, mas não consigo empurrar de volta o medo irracional.

Depois de todo esse tempo, a traição finalmente está cobrando seu preço. Eu sinto minha garganta se fechando perante as lágrimas não choradas. Eu dou o meu melhor para ignorar a dor em minha alma, mas é difícil fingir. Porque eu estou exausto e assustado, e jamais me senti tanto como uma criança quanto agora. Por que você, por que agora? Não há nem espaço para ódio, tamanha minha desesperança. Meu pai nunca mudou: ele continua o militar chauvinista cego de antes. Ele não vai me deixar escapar. Eu nunca vou sair dessa cidade de vidro, não é?

Eu começo a me afastar, dando um passo para trás.

– Eu não estou te condenando. – As frases ficam num nível superficial em minha mente, incapazes de alcançar qualquer nível de consciência. Até o som parece afetado, como se as palavras tivessem que passar por um túnel extenso antes de chegar a mim. – Ele não voltou da “missão”. Ele disse que voltaria o mais cedo possível, e Kornelius não era de mentir. Alguma coisa aconteceu. E eu percebi que você finalmente o havia enfrentado quando disse “ele estava na cola da Sublevação”. No pretérito. – Minha mente enevoada pelo medo aos poucos começa a processar aquilo que meu pai está dizendo, mas não com velocidade o suficiente. Eu tenho certeza de que as frases estão chegando aos meus ouvidos com alguma distorção, porque o tom de explicação do meu pai parece tom de acusação. – Eu vou dar o meu melhor para que passe despercebido do Oponente, e vou fazer o máximo que puder para que você seja visto com um herói, caso eu falhe em fingir que nada aconteceu. Até lá, quero que permaneça vivo e longe de confusão, você está me entendendo?

– Eu não... – Tento explicar, mas não encontro as palavras. – Ele ia nos matar. – Eu não consigo explicar, não consigo me defender. Como encontrar as palavras que salvarão minha vida se mal consigo esclarecer o motivo de ter de matar Kornelius? Por algum motivo, a lembrança tátil do tiro retorna à minha mente, tão intenso quanto no dia. Eu sinto as lágrimas transbordando. Eu não quero morrer. Eu não quero deixar Kornelius. Eu quero sair daqui!

– Jacobus, preste atenção! – A voz do meu pai parece vir de debaixo d’água. Lentamente eu começo a compreender o que ele diz. – Concentre-se, esqueça seu medo, esqueça sua dor! Esqueça Kornelius, esqueça a Sublevação. Esqueça tudo isso, toda a cidade, todo o país, quando entrar naquele avião. Ou então você nunca vai conseguir sair daqui, nunca vai deixar tudo isso para trás. Você precisa ser forte e seguir em frente. Entendeu?

Ele segura minha cabeça com as mãos, e eu estou catatônico. Eu só consigo balançar a cabeça.

Ele não está me prendendo, nem está me matando. Está me salvando, me mandando fugir. Lentamente começo a aceitar que eu não estou condenado. E que, mais uma vez, meu pai está lutando com afinco para me salvar. É inverossímil, mas é real.

– Obrigado, pai – eu consigo dizer, mas não passa de um sussurro. Ele aquiesce com a cabeça, e então indica o avião atrás de mim com um movimento com a cabeça. Eu não consigo me mover de imediato. Ele fica imóvel de imediato, com os braços cruzados, o vento fustigando sua roupa verde e dourada.

Eu nunca vi meu pai como um herói, muito menos do tipo de quebra as regras para salvar inocentes. E se um pai não pode ser o herói do próprio filho, então ele não serve para nada.

Neste momento, eu enxergo meu pai como um herói.

Começo a caminhar, ainda de costas, ainda atônito com o rumo das coisas. Até agora, eu não havia me dado conta do que realmente está acontecendo, mas a realidade está finalmente mostrando sua face. Ir para a Base Norte é uma realidade crua e insensível, e, ainda assim, é exatamente o que vai acontecer. O que nos espera lá? Não consigo imaginar.

Dentro do avião, localizo Will e Sophie rapidamente, porque está basicamente desprovido de vida humana. Excetuando alguns soldados e refugiados como eu, o interior da pequena aeronave é um amontoado de placas de metal e caixas plásticas de aspecto importante. Os militares Oponentes me cumprimentam com um aceno de cabeço, o qual eu respondo da mesma forma, enquanto caminho até Wilhelm e Sophitia.

Eu me sento entre os dois, e imediatamente as lágrimas começam a escorrer. Estou com medo, estou assustado, e estou apavorado. A ficha de que eu realmente estou deixando minha cidade natal, o lugar onde eu nasci e cresci, por tempo indeterminado, é tão assustadora quanto a expectativa de finalmente deixar tudo o que eu passei para trás.

Eu estou indo embora, com nada além de uma trouxa de roupas e dois amigos. Estou deixando para trás a morte de Niclauss, e a de Victoria, e a de Noam, e o sangue de Kornelius em minhas mãos, e meu envolvimento com a Sublevação, e minha luta contra o Exército. De alguma forma que eu não consigo explicar, sei que a Base Norte expurgará de mim essas lembranças enquanto eu estiver por lá. Então dizer que eu estou deixando esse lugar para trás é válido.

Mais sério ainda: estou deixando meu pai para trás. Estou deixando minha vida e meus amigos, deixando minha história.

Enquanto as lágrimas caem e os dois – Sophie e Will – me abraçam, eu coloco a pergunta em minha frente e me obrigo a responder: eu vou sentir falta da cidade de vidro?

Não. Eu tenho tudo o que preciso aqui comigo: amizade, amor, esperança. O que mais eu poderia querer?

Então, enquanto eu sinto o pequeno avião decolar sob meus pés, eu me despeço do passado, das pessoas que lá ficaram, e de tudo o que senti.

Adeus Victoria. Eu sempre vou te amar. Um pedaço de você sempre viverá com Sophitia.

Adeus Noam. Eu jamais me esquecerei de você. Você jamais terá morrido de verdade, porque uma parte de você viverá enquanto nós vivermos.

Adeus Diederich e sua rebelião. Eu espero, do fundo do meu coração, que você encontre sua amada sã e salva.

Adeus pai. Eu voltarei para me certificar de que você está vivo, e bem. Eu prometo.

Adeus Niclauss. Eu ainda te amo. Eu sempre te amarei. Eu sempre sentirei sua falta. Eu sempre chorarei por você. Sempre. E enquanto eu respirar, seu sorriso será meu primeiro pensamento.

Adeus à cidade de vidro. Adeus aos planos de vidro, e às paredes de vidro, e às estruturas de vidro, e às pessoas de vidro. Adeus ao governo do Exército, e a nossa antiga existência.

Adeus aos meus medos.

Adeus à fragilidade.

E que o brilhe o sol, finalmente.


Notas Finais


Antes que surjam dúvidas, sim, este é o final da estória, mas não da entrada aqui no site. Ainda há um capítulo para postar, mas não será uma continuação deste.
Espero que possam me perdoar pelo fim súbito, mas, acredito que é assim que a vida funciona. Subitamente, sem maiores explicações.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...