História Cigarrete Daydreams - Capítulo 3


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Drama, Harry Styles, Lily Collins, Romance
Exibições 36
Palavras 4.573
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Festa, Ficção, Mistério, Suspense
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas da Autora


Boa leitura <3

Capítulo 3 - Run from the one who comes to find you.


 

Foi uma das minhas piores noites de sono, de fato. Me remexi na cama pelas poucas horas antes do sol entrar no meu quarto. Levantei-me, tomei um banho e levei um susto ao ver no espelho minha cara de doente com olheiras mais profundas que o oceano pacífico. Bom, foda-se. Deixei o quarto e encontrei Harry conversando no celular avisando a alguém que estava a caminho. Acho que era hora de me despedir de Harry e Greg, meu expediente na casa só começava depois do almoço.
     - Feliz por trocar camas king size por uma poltrona no subúrbio da cidade? – Falei ao ver que ele havia finalizado a ligação. Harry riu.
    - Tirando o fato que eu não tive sono e não fechei os olhos por um minuto sequer, a noite foi boa, obrigado por perguntar. É uma ótima poltrona. – Harry respondeu. Queria perguntar o que tirava seu sono, mas sejamos sinceros, eu não estava nessa posição. Ele era primo do garoto que me tem como babá. Olá, realidade, you fucker.
  Fiz café, mas Harry recusou e disse que tinha pressa, a mãe de Greg queria ver o filho antes de ir para o trabalho. Acordei o menino, que reclamou por minutos antes de se levantar. Depois descemos para a portaria, onde o carro de Harry estava estacionado.
    - Até mais tarde. – Dei um beijo na bochecha de Greg através da janela e dei um tchauzinho a Harry, que retribuiu com um sorriso. Não consegui segurar um também. 


  Dormi por um tempo depois acordei para comer alguma coisa antes de sair de casa. No metrô, vi que havia uma mensagem deixada por Joe:
“Ouvi sua voz ontem. Anda conversando sozinha? Sei que ninguém vai aí. ”
Nossa, muito tocante e delicada a forma dele de dizer que não tenho amigos e família. 
“Vá para o inferno, Joe. Greg estava aqui com o seu primo, só isso. “
“Wow, legal. Te vejo depois. ”


  Andei mais uns quarteirões até chegar a residência Brooks. Pela garagem, vi que muitos carros não estavam ali, mas o de Harry sim. Ok, está tudo bem.
    - Lily! – Greg veio do jardim correndo e se jogou em meus braços. Ele tinha as bochechas vermelhas e o cabelo molhado de suor. 
    - Ew, suor! O que está aprontando sem mim, hein? – Perguntei bagunçando seu cabelo. Ele deu um sorriso cúmplice e saiu correndo.
    - Vem ver! – Gritou em meio aos passos apressados desajeitados. Tive medo do que ia encontrar.
  Meu medo não foi em vão. Uma cesta de basquete havia sido instalada na parede lateral da casa. Harry batia a bola no chão e nos encarava. Ele estava sem camisa. Sem camisa. Sem. Camisa.
    - Harry está me ensinando a jogar basquete! Disse que eu sou o próximo Kobe! Isso é muito legal! – Greg falava empolgado e eu tinha um sorriso que mais parecia uma expressão de dor.
   - Nossa... Isso é realmente.... Incrível. – Falei olhando para cesta, mas o elogio definitivamente foi para o abdômen de Harry, que eu tentava ao máximo não olhar.
    - Sente ali e aprenda com o rei! – Greg puxou minha mão e me levou até o banco que tinha de frente para a mini quadra improvisada. Eu tinha uma expressão apavorada. Passei por Harry, que me lançou um sorriso que mais parecia uma risada. Minha desgraça era a diversão dele.
  Começaram a disputa e era claro que Harry deixava Greg tomar posse da bola, até erguia o menino para alcançar a cesta. Eles eram adoráveis juntos. Seria um tanto agradável se a pessoa em questão não estivesse sem camisa e se eu não fosse um poço de hormônios descontrolados, mas como esse não é o caso eu simplesmente levantei sem jeito e fui para dentro da casa. Fraca.

Organizei as tarefas de Greg e arrumei uma mochila com tudo de necessário para o dia. Aquilo era rotineiro para mim, quase automático, mas eu notei algo de errado. Uma foto. Greg e Leonard pousavam juntos com sorrisos imensos. Greg fantasiado de Batman e seu irmão de Homem-Aranha. Meus olhos ficaram embaçados e lembranças me invadiram sem permissão.
“ – Bom.... Você precisa ser especial. Ele precisa disso. Leonard era sua fortaleza e agora ele está perdido, não sabe o que está acontecendo mesmo já tendo idade para entender tudo. Não quer aceitar a verdade. Eu preciso que você faça-o aceitar e viver com isso. Não tem o que fazer, infelizmente. Eu faria o impossível para desfazer isso, mas aconteceu e eu preciso que você salve meu filho. Vou confiar em você, Lily. – A Sra. Brooks falava e eu podia sentir seu peito rasgado e a tristeza escorrendo pelo corte. Doía em mim, mas mais nela e no filho, o garotinho adorável e abatido que encontrei no portão da casa imensa que estou fazendo essa entrevista de emprego. Seus olhos suplicavam algo que eu não podia dar, mas eu tentaria. Tentaria de todas as formas possíveis, enquanto estivesse viva. “
  Sacudi a cabeça e tentei ocupar minha mente com qualquer coisa que não fosse aquilo. Coloquei a foto em uma gaveta do armário do banheiro que ninguém mexia. Fala sério, eu estava no trabalho e não poderia simplesmente começar a chorar até cair no abismo que eu mesma crio abaixo dos meus pés. Precisava de um cigarro. Urgente.
  Corri até a parte de trás da casa, onde ninguém ia e onde eu tinha autorização para fumar. O Sr. Brooks me pegou no flagra uma vez e eu quase desmaiei de susto e vergonha. 
“- Desculpe-me senhor.... Isso não vai acontecer novamente…Eu.... – Gaguejei com as mãos trêmulas e o cigarro no chão, que caiu de meus dedos e acabou queimando um pedaço da minha bota.
- Não se preocupe, criança. São tempos difíceis. Eu que não fumo queria um cigarro. – Eu nunca esqueceria sua expressão triste ao falar isso. – Só não deixe Greg ver. Na escola eles ensinam o quão errado isso é e para Greg você é uma heroína que só faz o que é certo. – Ele mostrou um sorriso sofrido e sumiu para dentro da casa. Eu chorei e ri ao mesmo tempo. “

  Ri com a memória e acendi o cigarro. Na primeira tragada parte da aflição tinha ido embora, mas era minúscula, infelizmente. Suspirei e observei o céu com poucas nuvens e um sol fraco se mostrando atrás delas. Não estava frio, a temperatura era agradável. É, poderia ser um dia bom.
  Voltei a casa e esperei Greg se arrumar para a tarde de compromissos entediantes de crianças ricas. Harry desapareceu durante esse período de tempo depois voltou acompanhado de sua prima Rosie. Ela me ignorava de um jeito educado que eu estava adorando, por favor, continue assim. 
  Os dois desceram a escada e me encontraram na porta, onde eu aguardava Greg. Respirei fundo me preparando para o drama seguinte. Era claro que ela diferenciava empregados de empregadores.
    - Hm... Lily, essa é Rosie. Não sei se vocês já foram apresentadas. – Rosie sorriu de forma falsa e entrou na frente de Harry para ficar a minha frente. Harry sorria tímido e um pouco desconfortável. Não sei por mim ou por Rosie.
    - Nos falamos rapidamente, mas nada demais. É um prazer, Srta. Rosie. – Cumprimentei-a com um aperto de mão. Ela mantinha aquela expressão feliz e falsa de uma boneca amaldiçoada. Ops, peguei pesado. Ou não.
    - Igualmente. – Respondeu simplesmente e se virou para Harry. Ok, ela abraçou ele e cheirou seu pescoço de forma demorada e provocante. Aquilo era normal entre primos? Não sei e nem queria saber, só não consegui segurar uma expressão horrorizada que fez Harry ficar vermelho. Ela ficou de costas para mim agarrada no primo por segundos aterrorizantes até se virar novamente para o meu rosto: - Vejo vocês mais tarde, vou procurar algo para fazer. Au revoir. – E saiu com seus saltos emitindo um som irritante e sincronizado. Harry coçava o pescoço desconfortavelmente e olhava para qualquer lugar menos meu rosto. Resolvi quebrar o silêncio para sair daquela bolha constrangedora. 
   - Devia fazer o mesmo que ela. Aqui não é muito divertido sem a minha presença e a de Greg. – Murmurei e o fiz rir. Seu sorriso iluminou seu rosto de uma forma divina.
   - Por isso que vou acompanha-los. – Ele disse e cruzou os braços despreocupadamente. Meus olhos estavam arregalados de novo.
Fomos com o motorista da casa. Sentamos no banco de trás do carro de forma que Greg ficou no meio de nós dois, graças aos céus. Os dois conversavam sobre coisas aleatórias e eu era incluída no assunto poucas vezes, respondendo com monossílabas e sons. Nesse meio tempo eu encarava a janela e ao virar o rosto pegava Harry me olhando. Ele desviava o olhar ou fazia algum comentário sobre qualquer coisa com Greg. Não entendi muito bem, mas queria perguntar se ele estava me analisando para jogar na minha cara coisas sobre mim que nem eu tenho coragem de admitir.
 Primeira parada: piano. Greg se juntou a outras crianças para praticarem música clássica pelas próximas 2 horas. Saí da sala onde aconteciam as aulas e encontrei Harry no corredor. 
    - Hey. – Falou de forma quase inaudível. Eu ouviria até se fosse surda.
   - Hey. – Respondi e parei na sua frente. Fiquei olhando para minhas botas e balançando o corpo de um lado para o outro. Os pais ou responsáveis não podiam assistir as aulas porque no final de cada semestre os alunos fazem uma apresentação que é ensaiada por todos os 6 meses. Ou seja, não tinha nada para fazer ali naquele corredor.
  Estremeci quando ele segurou meus braços fracamente e fez meu corpo parar de balançar. Erguei meu olhar e encontrei o seu risonho, mas seus lábios estavam sérios e uma das sobrancelhas arqueada.
    - Ansiosa para alguma coisa? – Harry perguntou. Eu pensei bem e conclui que não, há muito tempo eu não criava expectativas para nada. 
    - Não. Só gosto de movimentos repetitivos e irritantes mesmo. -  ele sorriu e tombou a cabeça para o lado, enquanto analisava meu rosto. Apertei os olhos em sua direção. – O que foi? 
   - Isso. – Sua mão veio de encontro ao meu cabelo. Seus dedos afundaram nos fios e voltaram com uma folha que provavelmente se encaixou ali graças ao vento forte que estava do lado de fora da escola de música. Nem preciso dizer que meu corpo se arrepiou com apenas aquela menção de toque. Ele sorriu, colocou a folha na palma da sua mão e soprou no meu rosto. A folha bateu no meu nariz e foi ao chão. Eu ri. – Vamos para algum lugar. 
  Andamos para fora da escola de música e o tempo tinha mudado. O céu estava escuro e não havia sinal de sol. Escondi as mãos dentro dos bolsos do meu casaco e segui andando ao lado de Harry. A frente da escola era um grande campo de grama, nada mais que isso. A grama verde escuro contrastava com o imponente prédio da escola feito de tijolos de pedra estilo medieval. Eu sempre andava ali esperando Greg, hoje tinha companhia.
   - Se não chover a gente pode ficar ali. – Harry apontou para uma árvore imensa. Assenti observando o lugar que ele escolheu. Os galhos recheados de folhas faziam praticamente um teto acima de um banco. 
  Harry sentou-se ao meu lado e retirou um cigarro do bolso. Era estúpido fumar cigarro como se aquilo fosse resolver alguma coisa, ao contrário, só te deixava mais perto da morte, mas a gente o fazia mesmo assim. Quem se importava? Fumantes não.
   Ele tragou o cigarro e eu olhava disfarçadamente, ansiando ver seu maxilar marcado ao fazê-lo. Seu cabelo estava especialmente bagunçado, os olhos verde-escuro pequenos. Usava um moletom que estava marcado com seu perfume, eu podia sentir.
  Só não senti sua mão tocar a minha que estava pousada no banco.
  Olhei para sua mão que tocou a minha e vi que ele estava apenas oferecendo o cigarro. Droga, eu quase desmaiei pensando algo a mais. Expectativas não, Lily burra.
  Peguei o cigarro e traguei. Eu estava ficando louca, se ainda não estivesse. Não estava acostumada com a presença de pessoas extremamente atraentes e tê-lo ali estava me tornando uma idiota. 
     - Há quanto tempo está na casa? – Ele perguntou olhando para frente com um olhar perdido. Soltei a fumaça antes de responder.
    - 2 anos, eu acho. Fui para lá logo depois... Depois do que aconteceu. – Respondi sem jeito. Ele suspirou.
    - Como se sente sobre isso? Digo, estar lá sabendo que existe uma responsabilidade sobre você que vai além de ser babá. – Harry se virou cuidadosamente e de repente estava olhando diretamente nos meus olhos. Eu podia morrer agora mesmo. Ninguém nunca quis saber ou conversar sobre como me sinto em relação a algo. Por um momento pensei que ele se importava. Tola.
  Respirei com dificuldade e traguei o cigarro mais uma vez, em seguida entreguei para Harry. Pensei por quase 2 minutos antes de responder. Era assustador, mas eu não me importei em me abrir para ele de tal forma. Por algum motivo eu me sentia segura o suficiente, como nunca me senti com ninguém antes.
    - É bom ser para alguém o que ninguém pôde ser para mim. Ser a esperança de que tudo pode dar certo. Eu me sinto incrivelmente útil e...  Igualmente salva, como se tivesse finalmente achado a razão para ser o que eu sou. Isso responde à pergunta?  - Finalizei e tomei o cigarro de sua mão imóvel. Minha respiração estava rápida, nunca me abri assim e para piorar falei até demais. Ele estava completamente paralisado até mostrar seu sorriso tímido que eu ainda não conseguia ver sem sentir um calor interno.
    - Perfeitamente.  – Ele disse e continuou a me observar. Eu olhava para tudo, menos seu rosto, claro. – Posso fazer outra pergunta? Se eu estiver sendo um chato, enfia esse cigarro nos meus olhos, por favor. – Eu ri alto e balancei a cabeça negativamente, virando meu corpo completamente para o seu. Agora sim eu podia observá-lo por inteiro. Era uma linda vista.
    - Vá em frente. 
    - É o suficiente? – Franzi a testa sem entender a pergunta. Ele suspirou. – Digo, tudo isso que você diz conseguir sentir agora.... Foi o suficiente? – Abaixei o rosto. Eu havia entendido bem a pergunta. 
    - Acho que você sabe a resposta. – Sorri tristemente e abaixei o olhar. Ele entendia e sabia sobre o vazio. Ele também sentia. O silêncio começou a ficar sufocante e me obrigou a falar: – Chega de mim por um tempo, vamos falar de você. Pode falar sobre sua mãe, seu pai, sei lá, apenas me conte sobre a sua família.
  Harry mudou de personalidade de repente. Ficou em silêncio, apenas fumando e olhando para a grama com uma expressão de ódio. Minhas bochechas queimavam de vergonha.
     - Não sabia que era um tópico ruim, desculpa. – Falei baixo enquanto olhava para as minhas mãos geladas. Ele riu sarcástico.
     - Não se desculpe, não é culpa sua. Vou ficar te devendo essa. 
    - Suas dívidas só aumentam comigo. Vou cobrar com juros, lamento. – Bufei e chutei a grama. Ele riu e me deu um empurrãozinho. Devolvi o empurrão com mais força e aquilo virou aquelas brincadeirinhas de crianças que só terminam quando um dos dois chama a mãe. Nesse caso, eu gritei o nome de Harry.
     - Droga, Harry! Chega ou vou embora agora mesmo! – Ele parou subitamente. Procurei seus olhos e os achei olhando para mim.
   - Eu odiaria se você fosse mesmo. – Ele disse e por pouco eu não derreti. Disfarcei com um sorriso e falei algo sobre chuva ou o clima, como sempre. 
  Mereço o prêmio Trouxa do ano.
  O tempo passou e nós conversamos sobre filmes ou queijos, nada demais. Nenhum toque ou momento tenso. Era fácil conversar com ele. Tudo soava natural demais, bom demais. Tive medo de perder ele sendo mesmo sabendo que ele nunca seria “meu”, mas minha mente já me metralhava com uma ansiedade que queria saber se eu estragaria tudo e acabaria sozinha assim como todas as outras vezes com todas as pessoas que cruzaram minha vida. 
  E eu sabia que no final do dia o vazio continuaria ali.
  Já era noite quando chegamos na residência Brooks. A aula de francês tinha sido cancelada porque a professora de Greg estava grávida e tinha uma consulta médica, então gastamos o tempo no Mc Donalds depois da aula de lutas marciais. Greg conseguiu derramar refrigerante em sua roupa, Harry jogou ketchup em todos nós e os atendentes da lanchonete reclamaram do nosso barulho. É, foi um dia produtivo.
     - Não esquece de escovar os dentes antes de dormir. Se tiver problemas com sono, pode tentar contar carneirinhos também, se quiser. 
    - Lily, já tenho 9 anos, fala sério, Harry vai rir de mim! – Greg pausou o jogo e pousou a mão na testa dramaticamente. Eu e Harry rimos alto.
     - Ok, entendi o homem formado que você é, mas o Woody está ali se precisar. – Apontei para a pelúcia do personagem de Toy Story e Greg ficou vermelho de raiva. Deus, eu sou terrível. – ‘Tá, chega de brincadeiras por hoje. Até amanhã, garotos. – Dei um beijo na testa de Greg, que ainda estava emburrado e saí do quarto, sentindo o olhar interessado de Harry sobre mim. Não sabia como me despedir dele então só olhei de volta e sorri minimante.
  Me despedi dos serviçais da casa e dos senhores Brooks, que estavam na sala enquanto Rosie conversava no celular escandalosamente. Segurei uma expressão de tédio e deixei a casa.
  Normalmente as pessoas anseiam para sair do trabalho e finalmente ir para casa, mas aquela era a pior hora do meu dia. Eu nunca me entendi bem com a minha solidão, minha mente simplesmente não aceitava o fato de que eu carregava um campo magnético repelente de pessoas. Estar com Greg e rodeada de pessoas no trabalho me fazia esquecer de tudo que eu tentava esquecer com pílulas de dormir e cigarro. A tortura começava sorrateira e quando eu menos podia esperar estava sozinha em meu apartamento do tamanho de uma caixa de fósforo sem ninguém para conversar ou simplesmente ouvir minha auto depreciação. 
  Joguei minhas botas para um canto e meu casaco para outro. Fiz um coque no cabelo e fui direto para cama, meu banho podia esperar uns minutos. Pensei em pedir uma pizza, mas ainda estava enjoada por comer tanta batata frita mais cedo, então decidi que depois do banho ia dormir por 12 horas seguidas nem se eu tomasse 15 pílulas. Dormir era mágico. Você simplesmente fica inconsciente e esquece do seu passado, presente e futuro, o quão incrível isso é?
  Saí do banheiro e fui de toalha buscar um copo da água, mas no caminho encontrei Joe. Como se não fosse estranho o bastante ele estar em meu sofá sem ter pedido para entrar, estava falando no meu celular. Virei uma leoa e gritei seu nome.
     - Joe! Que droga é essa?! – Arranquei o celular de sua mão e vi que a pessoa havia desligado. Vi o número desconhecido que me ligou noite passada. Harry. Iniciei uma sessão de empurrões e tapas no garoto a minha frente.
     - Ei, calma! Ouch! – Ele tentava segurar meus braços enquanto a raiva fazia meu rosto ficar parecendo um tomate. – Posso me explicar? Estava passando pelo corredor, ouvi o celular tocando e a porta estava destrancada! Só isso!
      - Só isso? Isso significa que você invadiu minha casa, seu imbecil! 
     - Ele disse que não era nada importante e que ligava depois, se quer saber. – Joe falou com um tom de voz orgulhoso. Eu queria matar ele.
    - Sai. Daqui. Agora. – Falei e me sentei no sofá antes que acabasse socando a cara daquele idiota. Ótimo, agora preciso de um segurança na minha porta. Joe ainda riu baixo antes de sair. Levantei, tranquei a porta, finalizei com um chute e ouvi a risada dele através da porta. Deus me dê paciência.
  Vesti um blusão, sentei-me na cama e coloquei o celular a minha frente. Ligar ou não, eis a questão. Será que era alguma coisa importante? Será que Greg estava bem? Não, Joe falou que ele disse que não era nada demais. Então o que mais seria? Eu poderia gritar de aflição e curiosidade. Não devia satisfação a Harry, mas o que ele deve ter pensado ao ouvir a voz de Joe no meu celular? Ugh, maldito vizinho intrometido.
  Cheguei atrasada na casa dos Brooks no dia seguinte. Rosie saía apressada e passou por mim fingindo que sou invisível. Agradeci em silêncio, ela estava começando a me irritar e eu nem sei por quê. 
  Greg jogava videogame desesperadamente, como se sua vida dependesse daquela partida. Entrei de fininho no quarto e lancei uma almofada em seu rosto. Ele se virou com a cara de um lutador de WWE prestes a socar seu adversário, mas ao me ver um sorriso iluminou seu rosto.
    - Ei, é você! – Ele pausou o jogo e veio ao meu encontro. Recebei um abraço que durou 3 minutos esmagadores. 
    - Desde quando você é forte assim? Não importa, eu sou bem mais! – Pronto, o desafio estava lançado. É, eu tenho meus vinte e tantos anos, mas brincar de lutinha está entre um dos meus passatempos favoritos. Não era algo bonito, era feio. Meu cabelo entrava em minha boca e Greg conseguia se agarrar em minhas pernas até me derrubar. Não sei por quanto tempo ficamos naquilo, mas ele venceu. Com isso eu quero dizer que acabei estirada no tapete de seu quarto enquanto ele corria em volta do meu corpo me chamando de perdedora.
  Nessa parte constrangedora da história, eu vi Harry parado na porta. Ele ria e balançava a cabeça negativamente. 
    - Não é isso que você está pensando.
    - Isso é exatamente o que eu estou pensando, Lily.
   - Eu estava ganhando segundos atrás! - me defendi. Greg riu falsamente.
   - Todo mundo sabe a verdade! Eu vou dominar o mundo! - a criança gritava enquanto pulava na cama e batia no próprio peito com orgulho. Me levantei do chão e assisti a cena com uma expressão desacreditada. 
   - Greg, sua mãe está te chamando. Acho que é importante. - Harry surpreendeu o menino e o colocou em suas costas. Estranhei o chamado, pois ela nunca estava ali naquele horário. Harry e Greg desceram as escadas e eu não soube se seria apropriado ir também, então apenas esperei os dois voltarem. 

 Greg voltou sem Harry. Percebi que ele ficou distante o dia todo, aparecia na casa uma vez ou outra. Droga, eu sentia falta de olhar nos seus olhos e ouvir sua voz. Ainda bem que já estava na hora de eu ir embora.
  Desci as escadas e vi a sala vazia, mas a porta do escritório do Sr. Brooks estava entreaberta e pude ouvir a voz estridente de Sra. Brooks gritando. Mary parecia lutar para conseguir falar sem chorar.
    - Eu não aguento mais olhar para a cara dele sabendo de tudo que ele fez! Eu não aguento mais ele dentro da nossa casa, junto com nosso filho! Isso já passou dos limites, Bob!
    - Eu vou tomar providências, mas você sabe que não podemos fazer nada. Ele tem o direito de estar aqui. - Bob confortou a esposa com um tom magoado. 
  Saí da casa atordoada e fui para as ruas escuras. Tropecei várias vezes e quase fui atropelada. Uma luz vermelha piscava em alerta. Do que Mary e Bob falavam? Quem era essa pessoa que Mary repudiava?
  Minha cabeça me levava somente a uma pessoa: Harry.
  O frio me atingia junto com a angústia de me sentir sozinha de novo. Eu odiava aquela hora do dia, aquele sentimento. Odiava mais ainda a bagagem de confusão que recebi ao ouvir a conversa dos meus patrões. Minha cabeça doía de tanto pensar, cogitar, imaginar. Eu precisava de um cigarro.
  Encostei-me em um muro e acendi o calmante de nicotina. Fechei os olhos na primeira tragada. Olhei para os lados e percebi que a única pessoa na rua era eu. Um único poste iluminava a viela. Já estava no bairro de casas um pouco mais humildes, todas mostrando nenhum movimento. O céu negro, a lua escondida. As pessoas estavam abrigadas dentro de suas casas, junto com pessoas que amam, enquanto eu fumava sozinha no frio. Que ótimo.
  Depois de pegar o metrô, mais poucos metros e eu estaria em meu cubículo solitário. Isso não me confortava, ao contrário, eu estaria sozinha, sendo engolida por lembranças e com a cabeça explodindo de pensamentos e suposições sobre ele. 
  Minha rua era cheia de comércios e meu prédio era o único e a construção mais feia de todas. Era um amontoado de apartamentos minúsculos onde moravam traficantes silenciosos, órfãos, casais desempregados ou adolescentes que fugiram de casa. Agora dá pra entender porque Greg nunca tinha aparecido aqui, eu sabia muito bem onde morava.
  Apressei o passo querendo entrar em algum lugar onde o vento gelado não tinha acesso, mas algo parou meus passos. Não pode ser, não pode ser, não pode ser. Poderia ser uma materialização da minha mente depois de eu pensar naquilo o dia todo, mas não, era real demais.
O carro de Harry estava ali. Ele desceu do carro com aquele sorriso e acenou para mim, pra depois se encostar na porta do carro com os braços cruzados. Eu não sabia o que sentir, mas tinha certeza que um novo sentimento tinha surgido a seu respeito depois de ouvir os Brooks conversando mais cedo: medo. 
  Me aproximei e ele manteu o sorriso de canto sem mostrar os dentes. Quase que...Malicioso.
    - Lily. - me cumprimentou sem descruzar os braços. Eu tinha uma expressão confusa observando aquele Harry que não era o garoto doce de horas atrás. Seu olhar estava diferente me analisando curiosamente, sua postura estava diferente, seu queixo estava erguido de forma imponente.
  Esse tipo de Harry se encaixava perfeitamente na pessoa que imaginei depois de ouvir a conversa de Mary e Bob.
    - Oi... Aconteceu alguma coisa com Greg?- perguntei, mas lá no fundo sabia que aquilo não tinha nada a ver com o garoto que me tinha como babá. Harry riu.
   -  Não. 
    - Então por que está aqui? - perguntei e o sorriso de Harry aumentou. Olhei em volta pra ter certeza que não estava sozinha e vi um grupo de pessoas ali perto. Suspirei aliviada. Não duvidava mais nada na vida.
    - Quero te levar em lugar. - respondeu simplesmente. Minha respiração parou. - Isso se seu namorado não se incomodar, claro. - Harry disse com um tom sarcástico. Revirei os olhos.
     - Joe é só meu vizinho idiota. - e o sorriso de Harry ficou malicioso de novo.
    - Ótimo. - ele disse de forma rápida e astuta. Ok, ele respondeu com "ótimo" ao saber que não tenho namorado. Se desencostou do carro, passando bem perto do meu corpo pra ir para o outro lado do veículo. Nem preciso dizer que senti seu cheiro e fiquei tonta. - Vamos? - convidou-me parado com a porta. Eu não sabia se gritava por ele ter aberto a porta do carro para mim e por estar morrendo de vontade de entrar e deixar ele me levar para onde quisesse ou se era porque eu não confiava mais nele (não depois do que ouvi mais cedo) e não tinha a mínima dúvida que ele seria capaz de qualquer coisa. 

Escolhi entrar no carro.
 


Notas Finais


Run from the one who comes to find you (Corra de quem vem te procurar)- Feral Love, Chelsea Wolfe.
Sdds Harry fofinho. E aí, qual vai ser o destino escolhido para Lily? Comentem seus palpites e boa sorte! hahaha
Beijos, até mais <3


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