História Circunstâncias que afastam. Sentimentos que unem. - Capítulo 18


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Categorias Naruto
Personagens Fugaku Uchiha, Itachi Uchiha, Kushina Uzumaki, Mikoto Uchiha, Minato "Yondaime" Namikaze, Naruto Uzumaki, Personagens Originais, Sakura Haruno, Sasuke Uchiha, Shisui Uchiha
Tags Itaxkao, Realidade Alternativa
Visualizações 7
Palavras 2.767
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Famí­lia, Hentai, Musical (Songfic), Romance e Novela
Avisos: Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 18 - Segunda voz: Flores mortas para o despedaçado


“O tempo lidou comigo do seu jeito.

Minhas mãos cansadas e quebradas não conseguem construir nada

Os arames que me seguravam tranquila

Agora entalham na carne para encontrar a minha vontade

É aqui que encontro a minha queda

Os cuidados que me mantinham viva não funcionam

E cada passo para longe daqui chega mais perto da praga

Eu preciso de um coração que continue pela dor

Dê-me uma alma que nunca desiste de seguir

Apesar da infecção por dentro.”

 

Fitei o horizonte aberto aos meus pés sentindo as gotículas grudarem em meu corpo. A água gelada o adormecia harmonizando-o com o meu interior, fazendo-me inerte por dentro e por fora. Mais uma vez, voltara ao Vale do Fim na esperança de encerrar algo, no entanto os minutos de reflexão diante da cachoeira alimentaram o monstro que eu queria matar.

Notei meus dedos reclamarem o solo e as mãos ficarem em prontidão quando me inclinei. O bolo em meu estômago sedimentou, tornando-se quase imperceptível enquanto meu coração desacelerou num bater pesado. Fechei os olhos absorvendo a escuridão e soltei o último fio da consciência que me prendia ali.

Houve o frio, a surdez nos ouvidos e a escassez da saliva, a dor aguda no peito aumentando a taquicardia de ver o fim a poucos metros. Com os olhos secos e a garganta se rasgando pela velocidade da queda consegui abrir um buraco na água com meu jutsu de vento, contudo não foi o suficiente para uma aterrissagem tranquila. As ondas formadas me engoliram, dando de beber aos meus pulmões que lutavam para reter o ar dentro de si. Fui jogada para o fundo arrastando a perna numa rocha e assistindo o que havia desejado se tornar uma possibilidade.

Senti-me em paz.

Os raios de sol cruzavam a água feito fios dourados, calmos, reconfortantes e hipnotizadores, adormeciam minha alma com a certeza de que tudo ficaria bem, o gradiente azul descansava meus olhos e o som do interior do lago me embalava com sua doce melodia.

Tão acolhedor que eu poderia ficar ali para sempre.

Então eles gritaram. Uma, duas, três vezes. Gritaram por ar como um bebê grita por leite ao nascer e a paz escorreu para dentro de mim se convertendo numa golfada de desespero. Minhas veias gelaram e a luz fugiu de minhas retinas enquanto eu afundava sufocando.

Não poderia ser o fim.

Expulsei o máximo de chakra formando um ciclone que me cuspiu para fora do lago como se eu fosse algo estragado. Caí rolando pelo chão, sentindo todas as pequenas pedras cravarem e arranharem meu corpo e parei junto ao tronco de uma árvore agradecendo pela bondade de me cobrir com sua sombra. Vomitei observando minha estupidez de perto. Não tinha coragem suficiente para me matar nem a perseverança necessária para lutar por minha vida. Estava amarrada à inércia tóxica e imatura de quem teme seguir qualquer caminho.

Chorei minhas dores e lamentei o destino sentindo a vergonha apontar seu dedo para minha face. Eu não era metade da mulher que fora minha mãe e sequer tinha um terço de sua força. Havia crescido egoísta, fraca e covarde. Uma falha nutrida pelo amor de pessoas que magoei sem piedade e agora me estendiam a mão como se o que fiz pudesse ser esquecido.

Relembrei minha vida até o céu se vestir de laranja. Pedaços colaram nos pensamentos, saudades apertaram a garganta e tristezas descansaram em meus ombros tão pesadas quanto o vazio que me abraçava.
 

Acordei desnorteada ao perceber as estrelas. Todas sorriam no breu me ofendendo com seu brilho e quantidade. Formavam uma nuvem de poeira cintilante tão linda quanto eu tinha esquecido que poderia ser, e desejava que explodisse para me poupar do cenário próprio de uma felicidade impossível.

Aturdida com o sarcasmo do universo demorei a perceber que não estava mais sozinha.

— Sakura está lhe procurando. — O olhar mudou de curioso para observador num segundo, esquadrinhando-me repetidas vezes.

Eu me sentia cansada. Meu corpo pesava e pedia para ficar no chão, mas perante Itachi a mínima atitude provocaria desconfiança, por isso me forcei a levantar e encará-lo como se estivesse bem.

— Ok — respondi tentando caminhar rapidamente para longe dele, no entanto meus pés apenas conseguiam se arrastar na relva úmida pelo orvalho.

Parei um metro depois com a certeza de seus olhos na minha nuca e respirei fundo concentrando os pensamentos numa forma de sair dali sem parecer que fui esmagada por uma montanha. Entretanto nada veio, e eu permaneci estática como quem reza por uma solução que está fora de seu alcance.

Em minha mente pedi que os passos dele soassem para o caminho contrário ao meu enquanto se aproximavam devagar com a calmaria que eu conhecia. Estalaram um graveto ao parar diante de mim e silenciaram cedendo espaço ao lago negro que me invadiu.

— O que você tem? — murmurou a primeira da enxurrada que viria caso eu não arrancasse o mal pela raiz.

— Não invente motivos para se aproximar — rebati sentindo meu estômago se contrair. — Se veio por um pedido da Sakura já fez seu papel, não precisa esticar a conversa com banalidades. Nosso diálogo terminou naquela madrugada ridícula.

Ele arqueou a sobrancelha e apertou os lábios devagar aumentando o medo que eu sentia por dentro. De repente a fuga se tornou fadada ao fracasso e o meu equilíbrio se esfarelou conforme os segundos foram deixados para trás.

 — Algo interessante para me dizer? De preferência que não traduza covardia porque ultimamente é só isso que você pode oferecer. Ah, desculpe, esqueci da passividade e submissão!  

Meu coração ameaçava rasgar o peito e meu estômago se revolvia a ponto de vomitar a si próprio. Precisei buscar forças na alma para não externar o tremor que ruía meus ossos e permanecer impassível encarando-o.

— Se pensou que alguns dias me fariam esquecer o que disse, enganou-se de novo. Não preciso de alguém que possa escorregar por meus dedos a qualquer momento — pronunciei pensando no quão irônico era dizer aquilo para ele. — Não quero viver na insegurança e você não pode me dar as certezas que preciso... Sempre esteve fadado ao desastre, mas eu era cega demais para perceber, então vamos encerrar nossa brincadeira de criança aqui.

— Foi uma brincadeira para você?  

O tom indecifrável quase me fez recuar e eu descobri a quantidade de horas que existia num minuto quando o vivi sob o olhar gélido dele. Era como ter o corpo esmurrado por uma nevasca até transformar o sangue em lágrimas de gelo.

Era a minha escolha para impedir uma dor maior.

— Como se eu fosse leviana com esse tipo de coisa! Justamente por levar tão a sério que me prendi a você. Mas a boba apaixonada não existe mais. Não vou continuar tentando salvar um laço fraco.

Perdi o fio do raciocínio quando ele sussurrou devagar a última palavra.

— É uma boa definição. Justifica sua saída de Konoha, o tempo que ficou fora, a forma como se foi sem dizer um mísero “adeus”.

— Eu lhe expliquei antes...

— Um punhado de argumentos rasos cheio de pontos abertos para explicar uma sequência de atitudes covardes — cortou com a voz afiada. — É o melhor que tem a oferecer?

— É a verdade por pior que seja.

— Diz isso sem nenhum remorso, deve pensar que fez algo banal... — Encarou-me como se esperasse uma resposta, depois os olhos esmoreceram um pouco, mas ainda carregavam o traço que me desequilibrava. — Não, sabe bem, mas acredita na facilidade com que será perdoada. Acha que a comoção pelo seu retorno apagará a mágoa que provocou.

— Fala como se nunca tivesse magoado alguém com suas escolhas... Você nunca hesita, né, Itachi? Com todos os seus passos minimamente planejados, suas emoções bem ajustadas e a razão acima de qualquer coisa. Sem medo ou dúvidas, a fraqueza não lhe alcança em nenhuma circunstância... Sempre forte e inabalável... Como poderia entender quem não é assim? — Minhas palavras sussurradas ecoaram a incerteza em meus pensamentos.

— Não posso entender quem diz me amar e vai embora. Quem denomina um relacionamento de anos como brincadeira, mas há poucos dias quase implorava por desculpas. O que quer afinal, testar o quanto ainda sinto por você? E depois vai me transbordar da sua entrega e sumir? Isso é tão canalha!

— Ita, eu...

— Uma desculpa ou um ataque, o que vem agora? Com o que sua maldita instabilidade irá me presentear?

Segurei as lágrimas vendo outro desejo se aproximar da realidade, mas elas se derramaram por dentro enquanto uma agulha perfurava meu coração abatido. O certo de minutos atrás parecia igualmente errado ao que elegi antes de me atirar da cachoeira.

— Acho que é melhor assim... Se a gente não se esbarrar evita um monte de problemas para você.

— Seria ótimo se fosse verdade, mas a sua presença já é suficiente para tornar minha vida uma desordem.

O nó apertou minha garganta com suas mãos e o desespero de me despedaçar perante Itachi fez meu corpo romper a inércia do raciocínio e me teletransportar para longe dali.
 

Vi o amanhecer com o rosto inchado e os olhos doloridos. Tinha perdido a conta das xícaras de café e antes de o relógio apontar a hora que precisava, estava no corredor da torre contando o tempo que Minato levaria para chegar.

Seu rosto expressou uma dúvida ao me ver, retomando a serenidade pouco depois.

— Não vou colocar minha vida nas mãos daquela pirralha — disse antes de ele conseguir fechar a porta. — Mais de trinta médicos falharam porque acha que uma garota que mal saiu da fralda conseguiria?

— Porque as habilidades médicas dela são impressionantes a ponto de eu me arriscar a dizer que poderá superar a Tsunade. 

— E eu vou morrer enquanto espero?

Minato repuxou o lábio em reprovação, fechou os olhos e suspirou cruzando os braços.

— Não confio nela — continuei. — e não quero depender de quem não confio. Além disso, contar apenas com uma pessoa diminui minhas chances. Fora da vila a probabilidade é maior.

— Não — replicou com firmeza, encarando-me. — Porque você tem contas a acertar com Konoha e porque algo me diz que se eu permitir, você sumirá de novo. Então se for necessário trarei os médicos de todos os cantos do mundo para cá.

— Será um esforço em vão. É mais fácil me deixar partir.

— Mais fácil para quem? Com certeza não para mim nem para Kushina e acho que não preciso citar o Naruto, não é? Está vendo a situação pela ótica errada... — Sentou na ponta da mesa. — Estamos, sim, preocupados e continuaremos até ter certeza de que está bem, mas isto é inevitável. Ir para longe apenas nos deixará mais aflitos.

Minha saliva desceu espremida quando percebi que novamente estava ignorando os sentimentos dos outros por causa de algo que achava certo. Parecia uma reação automática e embora tivesse me rendido várias dores de cabeça, persistia como um traço difícil de apagar.

Saí depois de uma longa conversa que repetia o assunto dos últimos dias e a tentativa de me puxar. Minato e Kushina se revezavam na tarefa apesar do fracasso evidente, e eu temia a possibilidade deles se unirem para isso. Não queria protagonizar outra cena igual a de quando os dois me deram a notícia.

Toda a vez que pensava naquele momento sentia uma linha dividindo a minha vida em antes e depois. O passado com o brilho de uma tranquilidade que parecia infinita e o presente iniciando o cinza que me perseguiria até o fim.

Parei em meus lugares favoritos perdendo tempo neles e ironizando a mim mesma pelo desperdício saudável e cruel de algo tão precioso. Respirei fundo para guardar os cheiros de Konoha, fechei meus ouvidos para os sons desagradáveis e observei o que conhecia da mesma forma que as coisas jamais vistas. Elas se moviam devagar mostrando seus detalhes para os meus olhos, e eu as assistia perdida em mim.

— Finalmente encontrei você — zumbiu a frase com aparente alívio.

— Errado, você só me viu aqui. Para me encontrar precisa da minha permissão, algo que não lhe dei nem darei. Saia! 

— Quanto mais tempo adiar...

— Vá embora! Você é burra? Não entende o que eu digo?

— Respeitei seu espaço e esperei vir por vontade própria, mas pelo visto isso não vai acontecer.

— Engula o discursinho médico! Você só se meteu nessa porque sua mestra se sentiu incapaz de encarar o problema e o jogou nas suas costas!

— Não admito que fale mal da Tsunade-sama! — Elevou a voz.

— Sakura, pegue a sua presença irritante e saia da minha frente. Estou perdendo a paciência... — pronunciei baixo.

— Foi você que recusou o tratamento por isso ela me indicou para assumir! — continuou como se não tivesse recebido o aviso. — Deveria ser grata pela Tsunade-sama ter procurado alguém que a substituísse depois do que você fez!

— Grata por ela ter dado a língua nos dentes e contado para o meu irmão?! Ela não tinha o direito! — Cerrei a mão que havia se levantado sem eu perceber.

— Foi um acidente! Como ela ia imaginar que o Naruto chegaria naquela hora?!

— Dane-se!

Perdi a vontade de discutir ao recordar o rosto de Naruto contorcido em raiva e acusação. Ele carregava a tristeza e aflição tão conhecidas por mim, espelhava a menina de cinco anos que recebera a pior notícia de seu mundo e tentava entender o motivo dos céus lhe castigarem daquela forma. Ver meu irmão transtornado reacendeu a lembrança do quão pesado era o fardo e de tudo o que passei nos anos em que o suportei. Seria injusto permitir que outra pessoa vivesse as piores lembranças do meu passado enquanto alimentava esperanças mortas.

Distanciei-me amaldiçoando minha falta de cuidado ao conversar com Tsunade, uma distração que custou tão caro quanto à estupidez de adormecer na floresta sem me recompor. Eu havia falhado em tentar esconder do meu irmão e quase repeti o erro com Itachi.

— Ele ficou com raiva porque você o tratou feito uma criança. Sentiu-se traído por ter escondido dele. — Sakura intentou retomar a conversa.

— O que sabe sobre o meu irmão?! Só o usa como consolo quando fica magoada com o Sasuke!

— Isso não é verdade!

— Ah, por favor! Aquele idiota diz aos quatro ventos que lhe ama e você nunca o dispensou! A verdade é que não ficar sem opções e por isso o mantém perto o suficiente para alimentar as esperanças dele sem que isso atrapalhe suas intenções com o Sasuke! — despejei, fazendo-a calar. — Pelo menos tem a decência de não se defender já que não tem coragem de admitir. Pare de falar como se o Naruto tivesse alguma importância para você, suas mentiras não funcionam comigo. Eu o vi sofrer por sua causa, confortei-o e o aconselhei inúmeras vezes sem nunca entender porque ele insistia em algo nitidamente fadado ao fracasso até perceber a forma que era manipulado. Um sorriso, um cuidado, uma palavra suave... Uma migalha para um coração apaixonado é mais do que um banquete, e você sabe bem disso, né?

Ela permaneceu inerte me encarando com os olhos arregalados, e eu desconfiei que houvesse água neles.

— Quando gostamos de uma pessoa a poupamos do sofrimento. Você nunca agiu assim com meu irmão, pelo contrário, magoou-o em prol dos seus sentimentos. É por isso que eu a detesto!

Deixei Sakura para trás junto à tarde que escorreu enquanto eu ocupava o banco de um bar. Meus pensamentos barulhentos bloqueavam os sons ao redor, tornando o espaço em que me encontrava quase particular.  

A bebida refletia as luzes recém acesas sendo sacudida quando algum copo batia no balcão envelhecido. Intocada, servia de motivo para eu ficar no local, diluindo-se conforme o gelo derretia e perdendo o frescor para o calor da época. Comemorava minha derrota e me oferecia à chance de um alento imaginário com vencimento numa manhã de ressaca. Encarei-a outros cinco minutos, ouvindo uma discussão se formar no bar ao lado. Suspirei resignada com o chamado da realidade e saltei quando a briga invadiu o lugar que me pertencia.

Assisti a cena patética de dois bêbados se estapeando por causa de uma garrafa de saquê e uma mulher com intenções duvidosas, que se enroscou nos ombros de um homem assim que a confusão tomou proporções maiores. Eles desperdiçavam a vida com algo tão banal que me dava ânsia de vômito. Principalmente porque eu sabia que não poderia gastar mais uma gota com bobagens.

O copo que me fez companhia rolou até meus pés exibindo uma rachadura, e eu o peguei observando seus detalhes. O talho no desenho da folha de bambu seguia por seu tronco até escapar dele e finalizar na base, igual ao meu destino: começara lindo, seguiu por caminhos difíceis e terminaria de forma abrupta.


Notas Finais


Música: Deteriorate - Demon Hunter - https://www.youtube.com/watch?v=5rY4qbma9ls

O título do capítulo é um verso de uma música da mesma banda.


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