História Closure - Capítulo 4


Escrita por: ~

Postado
Categorias Harry Potter
Tags Dramione
Exibições 99
Palavras 7.857
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 12 ANOS
Gêneros: Romance e Novela
Avisos: Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Yeeey, bem-vindos ao final da história o/

Uma observação importante: depois do review da whatthehellisyou, eu pensei direito e achei melhor mudar o nome da filha do Draco com a Hermione. Não existem mais duas Rose, ela se chama agora Anabelle! (já modifiquei os capítulos anteriores)

Espero que tenham gostado dessa história o/ Logo menos, posto minha outra one-shot (dessa vez de um capítulo só), fiquem atentos hahahahaha

beijos beijos!

Capítulo 4 - Parte IV - Final


Depois da reforma de sua casa, Hermione sentiu-se viva e a vontade de voltar a fazer coisas se apossou dela. Precisava voltar ao trabalho primeiro, era um passo interessante a ser tomado. Quando falou com Kingsley sobre seu retorno, foi recebida de braços abertos e um tapinha no ombro e agradeceu imensamente por ainda ter aquela oportunidade. Seu cargo ainda estava ali, esperando por ela.

Algumas coisas tinham mudado naqueles meses, como era natural de acontecer e ela teve que se reatualizar, o que manteve sua mente ocupada e sua transição de eremita para trabalhadora totalmente funcional mais leve e quase imperceptível.

Draco passava em sua sala nos momentos de folga e eles começaram a almoçar juntos quase todos os dias, além de manter a rotina de jantarem todos juntos em sua casa, o que tinha começado antes da reforma.

Eles nunca questionaram a forma como se aproximaram naqueles meses. Ela nunca parou para pensar o quanto era estranho ter seu ex-inimigo sendo parte importante do seu dia, nem questionou a sensação desagradável no estômago quando ele não podia comparecer com Scorpius e ela esquentava alguma coisa para comer diante da TV.

Eles simplesmente deixaram as coisas seguirem seu curso, aproveitando qualquer coisa boa que pudesse acontecer e para eles, aquilo bastava.

Ela começou a se apegar também a Scorpius e com o tempo ele parou de representar o que Rose poderia ter sido (será que ela gostaria de jogar quadribol? Será que ela se interessaria por livros? Será que também brincaria com aquele mesmo brinquedo que Scorpius tinha ganhado de presente?) e se tornou uma pessoa por si só em seu coração. Ele era espontâneo como jamais imaginaria um filho de Draco sendo, e muitas vezes arrancava risos dela por seus comentários francos.

Os dias se tornaram semanas que se tornaram meses e um ano se passou rápido demais. No aniversário de morte de Rose, Hermione percebeu que não tinha mais o que chorar e que suas palavras eram verdadeiras: Rose tinha um lugar só dela dentro de Hermione e não era preciso mais sofrer por ela. Quando percebeu isso, a última corrente que a impedia de seguir totalmente em frente se partiu.

Hermione voltou para casa aquele dia se sentindo completamente leve e resolvida e quando Draco chegou, preocupado com ela e sentindo-se culpado por não ter acompanhado-a, ela lhe garantiu que tudo estava bem.

Realmente bem.

Foi nessa época que ela foi pela primeira vez à casa de Draco desde a vez em que ele lhe pedira ajuda com Scorpius, mais de um ano antes, e ela lhe perguntou por que não morava na mansão.

− Muitas memórias ruins – Foi sua resposta e ela concordou. Muitas más memórias de fato.

A casa de Draco era maior que a dela, mas não tão grande quanto poderia-se esperar de um Malfoy. Haviam três quartos amplos, uma sala não muito grande e uma cozinha que ela não chegou a ver por que Draco disse que seu elfo doméstico se sentiria ultrajado em ter uma visitante entrando em seu refúgio.

Ela se sentia confortável ali como ele se sentia confortável na casa dela. Se sentiu confortável o suficiente para dormir lá uma noite depois de tomar muito vinho, o que abriu as portas para que ela dormisse lá mais uma, duas, três vezes.

Eles não perceberam realmente quando a relação deles deu um passo adiante. Talvez o sentimento estivesse ali o tempo todo, mas eles não conseguiram vê-lo antes, ou talvez tenha sido construído com cada conversa, cada silêncio amigo, cada companhia pro jantar, almoço e café da manhã. Mas aconteceu, e quando eles se entregaram um ao outro, tudo pareceu simplesmente certo.

A relação deles não tinha nome ainda, mas estava mais séria agora, e apesar de o sexo ter se tornado incrível quanto mais eles se conheciam, nada superava a satisfação de dormirem nos braços um do outro, suados e cansados, sorrindo felizes e esperando, alegres e calmos, o dia seguinte chegar.

Eles seguiram daquela forma por muito tempo e foi na verdade Ronald Weasley o responsável por fazê-los darem mais um passo.

Um dia, o ruivo apareceu na porta de Hermione de surpresa, um ano e meio depois da morte de Rose, com um buquê de flores nas mãos e o olhar arrependido de quem tentou algo melhor e não conseguiu.

Ela ficou mexida com aquele encontro. Não sabia mais se sentia mais tristeza, alegria ou raiva diante do homem à sua frente, mas a dúvida desapareceu quando ele lhe pediu perdão e que o aceitasse de volta.

− Você está melhor agora, eu também. Nós podemos fazer funcionar. – Ele disse e ela sentiu os olhos se estreitarem. Ela quis gritar com ele, dizer que se ela estava melhor certamente não tinha sido graças a ele, e quem ele pensava que era para aparecer depois de tanto tempo e ainda achar que eles poderiam ter alguma coisa?

Mas ela só continuou parada, olhando-o incrédula e ele sentiu que aquela era uma deixa para entrar.

Ele percebeu a mudança na casa e elogiou sua escolha de cores para quebrar o silêncio constrangedor, ainda esperando que ela reagisse, que aceitasse seu pedido de desculpas e voltasse para ele, e ela só conseguia olhá-lo, incrédula demais para dizer qualquer coisa.

− Vamos lá Hermione, eu sei que você me ama e eu te amo também – Ele disse com um sorriso de lado esperançoso – Nós passamos por uma grande dificuldade e eu sei que não soube lidar bem com a situação, mas eu te amo. Vamos tentar de novo, dessa vez vai dar certo.

“Dessa vez vai dar certo”, ela pensou e sentiu um gelo na base do estômago. Ela nem sabia mais se queria que eles “dessem certo”. Fazia tanto tempo que não pensava em Ronald Weasley que parecia estranha agora a idea que eles pudessem ser alguma coisa. O relacionamento deles fazia parte de um passado guardado agora, e ela percebeu naquele momento que não o queria mais. Talvez se ele tivesse voltado antes, suas palavras tivessem lhe amolecido e ela tivesse voltado correndo para seus braços, mas agora, aquela idea parecia tão absurda que ela quase riu da imagem mental deles juntos.

− Eu não te amo mais. – Ela disse baixo, com uma calma tirada da certeza sobre seus sentimentos e do alívio ao reconhecê-los.

O sorriso desapareceu do rosto dele e ele franziu as sobrancelhas.

− Como?

− Eu não te amo mais. – Ela repetiu agora com mais convicção, saborendo a verdade daquelas palavras.

− Hermione, você não está pensando direito...

− Eu estou Rony, e eu sei que não te amo mais.

− Hermione, nós temos uma história juntos, um sentimento não desaparece assim, do nada.

Mas não tinha sido “assim, do nada” e ambos sabiam disso.

− Tem outro alguém? – Ele perguntou baixo, quase desesperado e ela assentiu.

− Mas não é por causa dele. Eu deixei de te amar muito antes de começar a amá-lo. Você sabe que eu não conseguiria fazer isso se fosse de outra forma.

Mas Rony estava em negação e não queria acreditar naquelas palavras. Em nenhum momento tinha passado por sua cabeça que ela poderia trocá-lo por outro. Em nenhum momento tinha passado por sua cabeça que a história longa que eles tiveram juntos não teria peso suficiente para fazê-la largar tudo e ir para os seus braços.

A porta da sala se abriu e Draco entrou na casa com o rosto franzido, analisando o outro homem e Hermione com curiosidade.

A cor sumiu do rosto de Rony ao vê-lo e ele parecia à beira de um ataque de nervos.

− Draco Malfoy? – Ele distorceu o nome com desprezo – Você me trocou por Draco Malfoy? Um comensal da morte sujo, vil e preconceituoso?

As mãos de Draco se fecharam em punho diante da ofensa e ele estava pronto para atacar o outro quando Hermione falou, chamando a atenção de Rony para si.

− Eu não te troquei por ninguém Rony. O que nós tínhamos acabou há muito tempo e agora, eu amo ele. Não o ofenda – Ela pediu – Você sabe tão bem quanto qualquer outro que ele mudou.

Draco tinha parado de ouvir quando ela disse que o amava, daquela forma tão despreocupada e natural. Talvez nem ela mesma tivesse percebido que aquela era a primeira vez que dizia aquelas palavras.

− Você perdeu a cabeça Hermione. Você vai se arrepender – Ele disse confiante, com ar superior – E quando você se arrepender, eu vou te receber de braços abertos e te perdoar.

Hermione negou com a cabeça sorrindo tristemente e Draco deu um passo a frente.

− Acho que é melhor você ir embora Weasley – Ele disse baixo, letal e Rony soltou o ar zombeteiro.

− Eu acho que você não tem o direito de mandar em mim na minha própria casa Malfoy.

− Essa casa é minha Rony – Hermione interviu no mesmo tom de voz calmo – E eu quero que você vá embora.

Ele jogou as mãos pro alto exasperado e saiu irritado da casa. Draco murmurou uma maldição e se virou para Hermione com um sorriso convencido começando a se formar em seus lábios.

− Então você me ama é?

Ela riu.

− Sim, eu te amo Draco Malfoy.

Ele puxou-a para um abraço apertado.

− Eu também te amo Hermione Granger.

 

Eles começaram a namorar oficialmente depois daquele dia, notícia que foi recebida com alegria por Scorpius e deboche por Harry e Gina.

− Vocês demoraram muito – Tinha brincado Harry quando eles contaram – Eu achei que vocês estavam namorando já tem muito tempo.

A notícia de que eles estavam esperando um filho, dois meses depois de começarem a namorar, foi recebida com muito mais cautela. A gravidez não tinha sido planejada de maneira alguma, e o relacionamento deles era novo demais para comportar uma responsabilidade tão grande.

Hermione levou semanas para contar para Draco que estava grávida. Tudo o que ele sabia era que ela se distanciava cada dia mais dele, sem explicar nunca o que estava acontecendo. Ela fugia de seus toques, cancelava seus encontros, dificilmente aparecia para jantar ou almoçar e Scorpius começou a sentir sua falta, perguntando constantemente pela “tia Mione”. Draco se sentiu perdido, tentou analisar em suas ações algo que tivesse causado aquela mudança súbita de comportamento. Por um bom tempo, teve medo que ela tivesse decidido que estaria melhor com Weasley e que a relação que eles construíam tinha sido um erro. Teve medo que ela não o amasse mais, que aquele sentimento que ela tinha chamado de amor fosse apenas gratidão e que, agora que ela estava bem, percebia ter se confundido.

Draco estava enlouquecendo pela falta de respostas e decidiu confrontá-la. Mesmo que ela quisesse terminar tudo o que tinham, era melhor que fizessem aquilo o quanto antes, antes que se magoassem, antes que tornassem até mesmo uma amizade, impossível.

E então, chorando e totalmente sem controle de suas próprias emoções, Hermione contou a ele que estava grávida e ele viu todo o medo estampado nos olhos castanhos enquanto um sentimento confuso se apossava dele.

Ele a beijou ardentemente, aliviado por ela não ter deixado de amá-lo, com medo pelo que estava por vir e feliz com a ideia de ser pai novamente.

Ela contou a ele todos os seus medos, o medo da forma como ele iria reagir, o medo de que o que eles tinham não fosse forte o suficiente para lidar com aquela responsabilidade, o medo de que ela criasse esperanças novamente, se apegasse ao pequeno ser que se formava dentro dela e que ele também lhe fosse tirado. Esse era, na verdade, o seu maior medo.

− Eu não sobreviveria se tivesse que passar por isso novamente – Ela disse entre soluços agarrada à camisa dele em desespero.

− Vai dar tudo certo – Ele disse beijando seu cabelo e abraçando-a apertado.

Ele sabia que ela não sobreviveria a outra perda como aquela e compreendia, mas não havia muito o que pudessem fazer.

Esse medo pairou como uma sombra sobre eles até o dia em que Anabelle finalmente veio ao mundo e eles tiveram a certeza de que nada poderia dar errado daquela vez.

Ele tinha uma nova família agora, assim como ela, e era a melhor família que qualquer um deles podia desejar.

 

***

 

− Está na hora de você também seguir com sua vida Rony – Harry disse paternalmente – Hermione está feliz com Draco, Scorpius a ama e Anabelle é a coisa mais fofa desse mundo. Ela seguiu em frente e te perdoou há muito tempo.

Rony apenas assentiu desanimado e lhe deus as costas. Harry desaparatou em silêncio de volta para casa.

 

− Scorp. – Hermione chamou baixo, entrando de fininho no quarto do garoto com medo de acordá-lo caso ele estivesse dormindo.

Scorpius se virou para ela na cama com os olhos cheios de lágrimas e ela suspirou, sentando-se aos seus pés.

− Scorpius, o que aconteceu? – Ela perguntou calma e ele se levantou, abraçando os joelhos.

− Eu estava com medo. – Ele disse com a voz tremida de choro.

− Do que você estava com medo?

− De que ninguém fosse gostar de mim. As pessoas da minha casa me odeiam – Ele disse com um arrepio e Hermione o puxou para o seu colo.

− Como eles podem te odiar se nem te conhecem Scorp?

− Elas me odeiam sim mãe. Eu briguei com um garoto da minha casa que chamou meu pai de traidor. – Ela escondeu o assombro que lhe tomou pela atitude de Scorpius – E todo mundo me odeia.

Hermione o abraçou apertado.

− Foi muito perigoso fugir de Hogwarts desse jeito.

As lágrimas dele se intensificaram.

− Eu queria voltar pra casa, mas eu estava com medo. Papai nunca me aceitaria de volta, eu tinha certeza.

Hermione negou com a cabeça.

− É claro que ele te aceitaria de volta Scorp. Você está aqui agora não está?

− Ele também me odeia mãe. Você viu como ele falou comigo. – Ele disse magoado.

− Ele está preocupado meu anjo, você deixou nós dois muito preocupados aqui em casa. 

− Ele vai me perdoar?

− Eu tenho certeza que sim – Ela garantiu e ele relaxou em seus braços. – Mas você precisa pedir desculpas. E prometer que nunca mais vai fazer isso.

Scorpius  apertou mais o abraço e concordou silencioso.

 

O dia seguinte amanheceu tenso. Hermione esperava sua mãe trazer Anabelle enquanto preparava o café da manhã, estranhando o silêncio absoluto da casa. Duvidava que Draco ainda estivesse dormindo, e sabia que era melhor deixar que ele tomasse o tempo necessário para controlar as próprias emoções e se preparar para o encontro com Scorpius.

Quando entrou no quarto na noite anterior, tinha encontrado Draco sentado na cama olhando fixamente para a parede, alheio à sua presença.

− O que eu faria se ele tivesse morrido? – Ele tinha perguntado a ela e ela suspirou pesadamente, tirando a roupa e colocando um pijama.

− Ele está bem Draco, não vale a pena pensar nisso agora.

Ela olhou-o atentamente. Sempre lhe era motivo de alegria saber que somente ela podia ver suas expressões claramente, que apenas com ela ele deixava todas as máscaras de lado e expunha o que realmente pensava e sentia. Somente ela podia ver a dor em seus olhos naquele momento, e o medo que trancava sua respiração. Ela podia ler em cada linha de seu rosto que ele pensava em diferentes cenários do que poderia ter acontecido, e se tivesse que apostar, apostaria que se culpava pelo resultado de cada um deles.

− Draco, não é sua culpa.

Ele levantou a cabeça violentamente em sua direção.

− Para de dizer isso Hermione, você sabe que é mentira!

Ela conteve um novo suspiro. Aquele era sempre um assunto delicado.

− Draco, faz anos que a guerra acabou. Você não é o único ex-comensal da morte que mudou de lado. Está levando um pouco de tempo, mas as pessoas vão perceber que  você mudou.

− Ninguém quer enxergar isso Hermione. – Seu tom de voz era torturado e ela se sentou ao seu lado na cama.

− Eles não querem enxergar, mas não muda o fato de que você ajudou muitas pessoas esses anos todos. Que você lutou por muito tempo para conseguir direitos para as pessoas que perderam tudo durante a guerra e ajudou pessoalmente a reconstruir casas e hospitais. Você se redimiu há muito tempo Draco, e não importa que ninguém queira enxergar isso porque eu vejo o homem incrível que você se tornou todos os dias quando eu acordo e todos os dias antes de dormir. Você está mudado desde que se casou com Astoria e decidiu que não criaria seu filho com os mesmos preconceitos com que foi criado. Scorpius também sabe quem você é e se orgulha disso, assim como eu e Anabelle. O passado não pode ser apagado, mas nós já estamos muito longe no caminho da mudança para nos prendermos a ele.

Draco olhou para ela.

− Eu estava com tanto medo – Confessou em um sopro e ela apertou o abraço.

− Eu também Draco. Eu também.

− Se alguma coisa tivesse acontecido, eu não sei o que teria feito. E eu ainda não entendo por que ele não quis falar comigo. Por que ele não quis me dizer que estava com medo Hermione? Por que ele levou tanto tempo para voltar para casa?

− Draco, não são todas as pessoas que te veem como eu vejo. Você dificilmente (se é que já aconteceu alguma vez) demonstra quando está com medo de alguma coisa. Scorpius se espelha em você e no você que ele conhece como destemido e seguro de si. Talvez na cabeça dele você fosse se decepcionar por sua fraqueza, por seu medo de algo tão simples quanto ir para a escola.

− Não há nada de fraqueza nisso Hermione, eu passei semanas preocupado com como ele seria recebido naquele lugar.

Um sorriso discreto se abriu nos lábios dela.

− Eu sei disso, mas ele não sabe. Ele só viu que você queria que ele fosse para lá, que era o certo a fazer, e que ter medo não era uma opção.

Ele assentiu brevemente diante de suas palavras. Nunca foi fácil para ele demonstrar seus sentimentos. Demonstrar sentimentos era coisa de gente fraca e ingênua que não percebe que esses mesmos sentimentos podem ser usados contra você.

Em outra época, em outro contexto, sua linha de raciocínio seria completamente plausível e apreciada, mas eles não estavam mais em tempos de guerra e a probabilidade de alguém usar pessoas importantes para ele como forma de atingi-lo parecia cada vez mais distante.

E ele tentou, por muitos anos, demonstrar melhor seus sentimentos, pelo menos para sua família. Mas ainda era apenas Hermione que via seus momentos de fraqueza, quando se entregava ao desespero e se deixava consumir. Um gosto amargo tomou sua boca ao perceber que apesar de seus esforços, não tinha conseguido ser tão diferente do pai quanto achou que seria. Nunca quis que seu filho sentisse medo de contar suas fraquezas a ele, nunca quis que seu filho temesse decepcioná-lo, por que isso jamais aconteceria.

Ainda que Scorpius tivesse entrado na Grifinória e decidisse que queria abrir mão de tudo e viver com uma trouxa em uma cidade sem magia, Draco sabia que nunca se sentiria desapontado. Scorpius era um menino incrível, era forte, era destemido, era centrado e persistente. Todos sentem um pouco de medo às vezes e talvez tivesse chegado a hora de Draco mostrar que até mesmo ele, que parecia tão seguro de si o tempo todo, também tinha seus momentos de fraqueza.

Ele acordou junto com Hermione aquela manhã, mas preferiu manter os olhos fechados enquanto ouvia ela andar pela casa em direção à cozinha. Não sabia qual seria a melhor forma de falar com Scorpius, nunca teve muito tato para conversas íntimas como aquela, mesmo que tentasse se manter sempre aberto para elas.

Quis pedir a ajuda dela naquele momento, mas sentiu que era algo que deveria fazer sozinho.

Com um suspiro resoluto, afastou as cobertas e se dirigiu ao quarto de Scorpius antes que sua coragem se dissipasse.

− Scorp – Ele chamou baixo – Está acordado?

O garoto não disse nada, mas ele viu claramente a forma como o corpo pequeno se retesou embaixo das cobertas e caminhou calmamente em direção à cama, sentado-se aos pés dela.

− Scorpius.

Ele virou o rosto hesitante, analisando o pai a procura de sinais de sua irritação.

− Eu não estou bravo com você – Draco disse com um sorriso pequeno tentando tranquilizá-lo – Eu só estou aqui para conversar um pouco.

Scorpius se sentou na cama em silêncio, ainda olhando-o apreensivo.

− O que aconteceu? – Ele perguntou calmo e algo na forma incomum com que agia naquele momento levou lágrimas aos olhos de Scorpius e seu corpo pequeno começou a tremer levemente com o choro silencioso – Pode me contar, eu não vou ficar bravo.

E Scorpius contou tudo o que tinha acontecido, como ele estava com medo de não ser aceito, como ele tinha sido recebido por seus colegas de casa, como ele sentia que não se encaixava em lugar nenhum em Hogwarts e como estava com medo de dizer tudo aquilo a Draco.

− Eu te amo Scorpius – Draco disse simplesmente quando o garoto terminou, afagando seu joelho – E você podia ter me dito tudo isso antes, sabia?

Scorpius encolheu os ombros de cabeça baixa e não disse nada. Draco então continuou.

− Eu também estava com medo. Por semanas eu nem consegui dormir pensando em como seria sua ida a Hogwarts e como você seria tratado por causa de mim – Ele admitiu um pouco envergonhado, lutando para manter o rosto firme.

Os olhos de Scorpius subiram rapidamente para seu rosto em surpresa e Draco desisitiu de lutar para esconder o que realmente estava sentindo.

− Sim, eu estava com muito medo. Eu sei de tudo o que fiz em minha vida Scorp, e sei o que as outras pessoas pensam disso. Eu tenho medo desde que você nasceu e eu decidi brigar para ficar em Londres. Eu sempre soube que as coisas não seriam fáceis quando eu decidi isso e sua mãe me deu muito apoio naquela época.

− A mamãe brigou por você? – Scorpius perguntou admirado. Apesar de não ter memórias claras de Astoria, Draco e Hermione sempre insistiram em contar a ele sobre quem tinha sido sua mãe e o quanto ela o amavava, ainda hoje, no céu.

Draco riu brevemente.

− Sim, a mamãe já brigou uma vez por causa de mim, quando uma bruxa muito fofoqueira começou a fazer comentários ruins sobre nós em um restaurante. – Ele contou com um sorriso nostálgico nos lábios.

− A mãe Hermione também já brigou por você – Scorpius lembrou – Quando nós fomos naquela loja e a vendedora não quis te atender.

Draco assentiu com o sorriso crescendo em seus lábios.

− Por que nem sempre nós conseguimos lutar sozinhos Scorpius, e isso não é ruim, não é fraqueza, não nos torna inferiores. Pedir ajuda também não nos torna piores, apenas nos mostra o quanto somos importantes, o quanto temos de pessoas que se importam com a gente e que vão nos ajudar, não importa o que aconteça.

Scorpius abaixou a cabeça novamente, pensativo.

− E quem eu tenho papai? – Sua voz era quase inaudível e a respiração de Draco se prendeu na garganta, surpreso que o filho sentisse que não tinha com quem contar.

− Você tem a mim, você tem Hermione, Anabelle, tio Harry, tia Gina, tio Blaise, tio Theo... Você tem muitas pessoas que se importam com você Scorpius, que te amam incondicionalmente e com quem você sempre pode contar.

Scorpius assentiu silencioso.

− E você com certeza vai fazer amigos verdadeiros que não vão te julgar por quem são seus pais. Eu te garanto isso. – Os olhos se Scorpius brilharam com esperança – E se você tiver qualquer problema, não hesite em falar comigo. Eu sempre estarei aqui para o que precisar e Hermione também. Nenhum medo ou incerteza é pequeno demais ou vale a pena manter guardado só para você.

Scorpius abraçou Draco de surpresa e ele devolveu o abraço, um pouco sem jeito.

− Eu te amo pai.

− Eu também te amo Scorpius.

E não foi preciso dizer mais nada enquanto eles deciam para tomar café da manhã, sendo recebidos pelo sorriso carinhoso e olhar inquisidor de Hermione, que Draco dispensou com a promessa muda de que conversariam sobre aquilo mais tarde, quando estivesse sozinhos.

Não foi uma conversa muito demorada e Hermione ficou satisfeita com a forma como Draco lidou com a situação.

Scorpius voltou para Hogwarts no dia seguinte junto dos pais que explicaram à McGonagall o que tinha acontecido.

− Você acha mesmo que vai dar tudo certo? – Draco perguntou enquanto eles caminhavam por Hogsmead.

− Acho. Ele é um menino incrível, é impossível que ninguém veja isso. Você era desprezível quando estudávamos e mesmo assim tinha amigos – Ela comentou em tom de chacota e ele revirou os olhos.

− Eu não era tão ruim assim.

Ela não disse mais nada, mas o sorriso continuava em seus lábios.

− Você namorou Pansy Parkinson – Ela retrucou, um pouco do ciúmes que sentia presente em sua voz.

− Namorar é uma palavra muito forte. – Ele puxou-a para um beijo calmo, carinhoso, atraindo olhares de algumas pessoas que passavam. – As pessoas sempre ficam surpresas quando nos veem juntos. – Ele comentou com um misto de sorriso e irritação e ela apenas lhe sorriu de volta, puxando seu rosto pelo queixo para manter a atenção dele em si.

− Quem pode culpá-los? Pelo menos estão mais acostumados agora.

− Já estava na hora – Retorquiu mau-humorado beijando-a novamente.

 

***

 

Os rumores sobre o relacionamento dos dois começaram silenciosos com base em fotos furtivas tiradas de passeios simples por cafés e restaurantes, quando Draco conseguia convencê-la a sair de casa, pouco depois de ela ter reformado sua casa e começado a pelo menos ir até o jardim. Mas os rumores morreram pouco depois por falta de material e a população parecia aceitar bem que Draco, por mais estranho que pudesse parecer,  não era mais do que um amigo que estava lhe ajudando em um momento difícil.

Os rumores foram abafados completamente quando ela voltou a trabalhar e seu cargo se tornou mais importante do que sua vida amorosa. As pessoas pareciam achar conforto na ideia de que a terra ainda girava no sentido certo e Draco Malfoy e Hermione Granger não eram um item. A opinião pública era muito clara em seu desprezo quanto ao ex-comensal da morte, mas levou muito tempo até que alguma delas chegasse aos ouvidos de Hermione.

Ela ainda vivia dentro de uma bolha muito confortável, com uma rotina previsível e organizada que consistia em ir para o ministério trabalhar, encontrar com Draco durante o intervalo para conversarem banalidades e depois jantarem juntos, na casa dele ou na dela, em companhia de Scorpius. As pessoas ainda pisavam em ovos naquela época, e os olhares eram acolhedores e empáticos por sua perda.

Mas conforme as semanas foram passando e as visitas de Draco a sua sala aumentaram, conforme eles foram sendo vistos mais vezes pelo beco diagonal ou qualquer outro lugar – muitas vezes em companhia de Scorpius – os rumores ganharam mais força e todos sentiram que precisavam alertar Hermione sobre com quem ela estava andando.

Mais de uma vez ela chegou irritada em casa depois de ter dispensado um desconhecido que insistiu em lhe avisar que ela precisava abrir os olhos, que Draco não era boa coisa, que ele estava planejando algo...

Draco sempre parecia chateado quando ela desabafafa seu desagrado para ele, e estufafa o peito em orgulho, tentando manter a pose de alguém que não se importa quando, na verdade, seu estômago se contraía de frustração. Hermione levou muito tempo para decifrar suas expressões e perceber o que ele realmente sentia e quando isso aconteceu, ela parou de lhe contar.

− Eles não o veem como você Hermione – Tinha dito Harry certo dia quando ela foi reclamar para ele dos olhares e comentários – Eu mesmo não consigo entender o que você vê nele.

Ela balançou a cabeça exasperada e se levantou do sofá do escritório dele.

− Ele estava lá comigo Harry! Ele foi lá todos os dias até eu me reerguer! Ele me ajudou na hora que eu mais precisei! Como ninguém consegue ver isso? Como ninguém consegue ver que ele é um homem doce e gentil?

Mas ela teve a resposta em pouco tempo, quando viu-o caminhar até sua sala no dia seguinte. Draco andava com os ombros eretos e a expressão fechada, em passos decididos, um claro sinal de que não perdoaria ser interrompido. Quando um estagiário se aproximou para falar com ele, quase tremendo de medo, Draco o olhara de cima, sem uma indicação de sorriso nos lábios finos, apesar de ela acreditar fielmente que suas palavras tenham sido no mínimo polidas. Ela também viu naquele momento como os olhares dirigidos a ele eram carregados de medo e desprezo, como as bocas se torciam em escárnio enquanto cochichavam uns com os outros olhando para ele, e ele mesmo parecia alheio a tudo aquilo, em sua posição de superioridade calculada.

Aquele não era o mesmo Draco que abrira um sorriso amplo ao entrar em sua sala pouco tempo depois, com os olhos de aço mais leves e os ombros mais relaxados.

Ela passou a reparar como ele agia com as outras pessoas depois daquele e dia, e percebeu que havia sempre reserva em sua forma de agir e falar. Que quando ele pediu o almoço deles, os olhos cor de aço não se fixaram nos da garçonete e seu cenho franzido persistiu até que estivessem novamente sozinhos na mesa. Ela percebeu que o cumprimento a um outro funcionário do ministério quando eles voltaram ao trabalho tinha sido apenas um aceno de cabeça sutil demais para ter sido percebido, com a mesma expressão fechada que ele exibia a todos. Ela percebeu que seus ombros nunca relaxavam quando eles não estavam a sós, e que sua voz parecia desaparecer dentro dele em silencios longos de olhos desconfiados e analíticos.

E então fez sentido para ela a dificuldade que as pessoas tinham em encontrar a mudança nele, porque aquele era um Draco só dela, seus momentos não vigilantes e seus sorrisos fáceis. Era somente com ela que ele ria sem se conter e dizia coisas embaraçosas que os faziam rir por semanas pela mera lembrança.

 Esse foi o momento em que sua bolha particular estourou e ela passou a prestar atenção em seus arredores e nele.

Conforme o relacionamento deles progredia, as mudanças de comportamento dele se tornavam mais marcantes aos olhos dela o que a deixava tanto lisongeada quanto amedrontada. Começou a parecer a ela uma responsabilidade grande demais abrir as portas das muralhas que ele construiu sem ter certeza de que gostaria de estar do lado de dentro. Conforme as semanas passavam ela se sentia cada vez mais ela mesma e de repente, se via entrando em um novo relacionamento de maneira tão natural que se tornava assustadora.

Mas sempre que ele estava diante dela, qualquer reserva que ela poderia ter desaparecia como mágica e suas dúvidas pareciam pequenas demais para serem levadas a sério.

Quando ela se entregou a ele pela primeira vez, não havia dúvidas em sua mente, não haviam reservas. Ela o queria, ele a queria e ao diabo com o resto.

Mas quando a manhã chegou e ela acordou sozinha na cama de casal, todas as dúvidas voltaram como ressaca e ela se perguntou mais de uma vez o que tinha na cabeça para ter agido daquela forma. Juntando a pouca coragem que lhe restava, se levantou rapidamente da cama e vestiu suas roupas, apenas para ser surpreendida por Draco entrando com uma bandeja nas mãos e o que seria seu café da manhã, com uma expressão levemente confusa no rosto. Ela congelou onde estava, tentando compreender a situação, e ele tornou tudo mais fácil se aproximando dela calmamente e selando seus lábios de maneira doce.

Eles tomaram café na cama aquela manhã e apesar da estranheza causada por ter sido pega em sua pressa em vestir as roupas e fugir dali, foi uma manhã agradável e preguiçosa.

Outras noites se seguiram àquela e a cada uma, ela permanecia mais tempo junto a ele até as noites se tornarem dias e ela quase não voltar mais para casa. Aconteceu de maneira tão natural quanto respirar.

Eles nunca conversaram seriamente sobre a situação, nem rotularam coisa alguma até o dia em que ela voltou para casa para pegar algumas roupas e Rony apareceu, pedindo mais uma chance.

Naquele momento ela percebeu o que realmente sentia por Draco e o que o relacinamento deles tinha se tornado. Aquele “eu o amo” dito sem pensar abrira a última porta que lhes sobrara e o título de “namorada” veio flutuando leve, acomodando-se tranquilamente dentro dela.

O mundo bruxo não recebeu muito bem o relacionamento deles, e as fofocas se tornaram cada vez mais venenosas. Haviam aqueles que acreditavam que ela devia ter ficado com Rony, que eles poderiam se acertar e que Draco era o responsável por impedi-los. Alguns chegaram ainda a cogitar a ideia de que Draco estava chantageando Hermione para que ela ficasse com ele, e ela nunca se sentiu tão ofendida.

As coisas só pioraram quando dois meses depois os jornais fizeram o favor de anunciar sua gravidez e ela nunca sentiu tanto ódio de Rita Skeeter.  Os comentários se tornaram ainda mais ácidos por que além da relação improvável entre eles e do passado dele que sempre fazia parte dos argumentos, eles sequer eram casados e ela estava oficialmente divorciada de Rony há pouco mais de um mês. As datas não batiam de fato, mas as pessoas não pareciam entender que ela e Rony já não estavam juntos há mais de um ano, com papéis ou não. Talvez as pessoas não quisessem entender, por que as fofocas ficavam muito mais interessantes quando ela era julgada como adúltera.

 Os meses de sua gravidez passaram muito lentamente para ela. Dessa vez não houve o frenesi de compras para o bebê, não houve o sorriso orgulhoso. Tudo o que havia dentro dela era medo.

Draco não percebeu de início o que estava acontecendo. Acreditou que seu medo tinha diminuído consideravelmente depois que lhe contou da gravidez, e que sua demora em procurar produtos de bebê se devia à grande carga de trabalho, como ela mesma afirmava. Interpretou seus silencios prolongados e seu olhar quase desolado como produto da reação popular e das constantes notícias sensacionalistas escritas por Rita Skeeter. Aquilo ia passar, ele tinha certeza. Hermione logo se irritaria com todos eles e se imporia como sempre fez.

Mas não passou e um sinal de alerta soou em sua cabeça. Alguma coisa estava errada, e há mais tempo do que deveria.

Ela estava no terceiro mês de gravidez quando ele finalmente a confrontou, com toda a delicadeza que conseguiu juntar. Tinha passado a última semana questionando as possíveis respostas que ela poderia dar para a simples pergunta, “está tudo bem?”, e cada uma lhe deixava mais ansioso que a outra.

Talvez ela não quisesse aquele bebê. Talvez ela considerasse o relacionamento deles fraco demais para aquilo e não queira passar por ele. Pior, talvez ela não quisesse um filho dele, de um ex-comesal da morte que atraía olhares desgostosos por onde passava. Talvez ela quisesse voltar com Ron, e aquele bebê lhe prenderia a ele e ela não teria outra escolha a não ser continuar ao seu lado, ou pelo menos manter contato, por mais infeliz que isso a fizesse.

Quando seus pensamentos saíram de controle e ele sentiu que ia enlouquecer, decidir parar de esperar que ela se abrisse voluntariamente e lhe confrontou, logo depois do jantar.

− Hermione, está tudo bem? – Sua voz era cuidadosa, os olhos vasculhavam o rosto dela com carinho.

Ela apenas assentiu e começou a recolher os pratos.

− Hermione, eu sei que não está tudo bem. Você está quieta demais, preocupada demais. Por favor, fala comigo para eu poder te ajudar – As mãos dela pararam segurando os pratos e o corpo todo congelou. Ele não podia ver seu rosto por baixo da cortina de cabelos castanhos. – Não importa o que seja. – Sua voz não era mais que um sussurro no final, enquanto ele se preparava para o pior.

E então, sem qualquer aviso, ela rompeu em soluços sentidos, carregados de dor e medo e ele se levantou em rompante para embalá-la em seus braços.

− Shh, está tudo bem. Eu estou aqui – Ele afagava seus cabelos, sentindo as lágrimas molharem seu peito.

− ... De novo. – Foram as únicas palavras que ele conseguiu captar, abafadas por sua camisa, e ele a afastou ligeiramente para que ela o olhasse. – Eu não quero que... aconteça de novo. Estou com medo Draco, muito medo.

Ele sentiu a garganta travar e um aperto desagradável no peito quando suas palavras fizeram sentido. É claro que ela estaria com medo, como ele não tinha pensado naquilo antes? Estava tão imerso em sua própria bolha de felicidade que não tinha pensado que ela pudesse temer aquilo. Parecia uma ideia tão distante para ele...

− Não vai Hermione. Vai dar tudo certo. Eu estou aqui com você.

Mas ambos sabiam que não dependia de sua presença ou de seus desejos. Rony estivera com ela o tempo todo e isso não impediu que Rose partisse, então o que garantia, realmente, que tudo daria certo daquela vez?

− Eu não vou sobreviver se... Acontecer de novo Draco. – Sua voz era um grito mudo de desespero, e ele podia ver que ela já sentia a perda como algo inevitável.

− Não vai meu amor. Não vai.

 

 O acompanhamento médico foi muito mais intenso naqueles meses. O curandeiro tinha afirmado que mãe e bebê estavam saudáveis e que não havia perigo adiante, mas também não havia da outra vez e Hermione não conseguia dormir.

Draco diminuiu sua carga horária no trabalho para ficar mais com ela e aos poucos, conforme os meses passavam, a excitação pelo novo bebê crescia. Apenas no sétimo mês de gravidez é que eles escolheram móveis e montaram o quarto para o bebê. Ele montou na verdade, enquanto ela pintava as paredes de azul. Não sabiam o sexo ainda, mas ela sentia que seria um menino. Ele não se importava realmente, mas secretamente desejava uma menina.

Quando as contrações começaram, não tinha completado nove meses ainda. Draco sentiu os sentimentos confusos jorrarem dentro dele: ansiedade, medo, felicidade, ternura, amor, medo, medo, ansiedade. Ele ficou ao lado dela o tempo todo, segurando sua mão, dividindo com ela aquele momento único na vida dos dois.

Quando Anabelle Granger-Malfoy veio ao mundo, os sentimentos que varreram seu corpo lhe tiraram as palavras e tudo o que ele fez foi sentir, sem se importar com as lágrimas que escorriam de seus olhos.

Hermione dividia sua emoção, chorando igualmente feliz com a filha nos braços.

A pequena Anabelle foi recebida de braços abertos por todos os amigos e familiares, incluindo os Weasley. Todos os Weasley, exceto Rony. George sempre mandava brinquedos dos mais variados níveis de periculosidade. Era segredo, mas Draco e Hermione abriam cada um dos presentes antes de entregá-los a Anabelle e Scorpius (um toque de sensibilidade muito apreciado) para decidir quais iam para o depósito até eles estarem mais velhos e quais seriam entregues imediatamente.

Ela não via Ron desde a última conversa que tiveram, mais de um ano atrás, então foi um choque para ela encontrá-lo parado em sua porta certo dia. Anabelle já estava com seis meses e dormia serenamente em um berço na sala quando ele chegou.

Não pediu para entrar, apenas abriu caminho gentilmente e parou diante de sua filha, olhando-a com uma expressão inescrutável no rosto.

− Rony, o que faz aqui? – Hermione perguntou se aproximando dele. Ele nada respondeu, apenas continuou olhando para o berço, e dessa vez, ela conseguiu decifrar o sentimento mascarado em seu olhar.

Rony estava sofrendo.

Diante do olhar torturado dele para sua filha, Hermione se mexeu desconfortável, sentindo uma súbita vontade de afastá-lo dela.

− Quer um pouco de chá? – Perguntou controlando a voz e o desconforto. Ele continuou imóvel. Ela respirou fundo e perguntou por fim – Ronald, o que você quer?

Ele a olhou, então, e seus olhos azuis pareciam entrar em sua alma. Hermione não desviou os seus, mantendo-se firme diante dele.

− Podia ser a gente. – Ele disse com a voz rouca, quase inaudível, mas ela entendeu. Ela sentiu. E só então ela viu como seu rosto estava cansado, as sombras escuras embaixo de seus olhos, um resquício de barba mal feita, os cabelos um pouco compridos demais. Os olhos que a encaravam não eram calorosos, não eram ternos, não eram alegres como costumavam ser. Eram assombrados, cheios de dor e ela não soube o que dizer.

Não havia o que dizer.

O silêncio se arrastou desconfortável, doloroso e ela só queria que ele fosse embora. Era doloroso vê-lo ali daquela forma, tão diferente do Rony feliz que ela conhecia, e imaginar o que poderia ter sido.

Se não tivessem perdido Rose, seriam pais de uma alegre menininha ruiva que correria pelos jardins d’A Toca. Se eles tivessem conseguido lidar com o luto um do outro, poderiam agora serem pais da pequenina Anabelle que dormia alheia à tudo em seu berço cor-de-rosa.

Ela não mais o culpava pelo fim do que tiveram. Agora, distante da dor e do pesar que turvavam sua mente, ela compreendia que suas ações o machucaram também. Ela compreendia que sua necessidade de manter Rose presente entre eles, com o quarto nunca utilizado mantido intacto, e as ofertas de flores à filha o machucavam. Ele preferia esquecer, apagar, qualquer vestígio do que perderam.

Mas ela levou muito tempo para perceber isso e não tinha certeza se Rony tinha chegado à mesma conclusão.

− Podia ser a gente – Ele tornou a repetir, mas agora, havia em sua voz uma raiva que não estava ali antes e ela sentiu medo.

− Eu acho melhor você ir embora Rony – A voz dela não era mais que um sussurro, temeroso, uma tentativa de impedir que toda aquela raiva transbordasse.

Rony a olhou irado, os olhos comprimidos de raiva e ela deu um passo para trás.

− Podia ser a gente – Ele sibilou e segurou-a com violência por ambos os braços. – Mas você não quis. Você... – A raiva era tanta dentro dele que ele sequer conseguia formar as palavras. O medo aterrorizante que tomou conta dela trouxe junto, pesar.

Ela não devia sentir medo na presença do homem que amou por tantos anos. Do homem que sempre representou segurança e conforto. Do homem que devia afastar todo o medo dela.

− Rony – Ela suplicou – Por favor, você não está bem... É melhor conversarmos depois com mais calma...

Os dedos que a prendiam apertaram sua carne com mais força e ela sabia que deixaria marcas.

− Você não entende. Você não se importa. Você...

Ele foi interrompido quando a porta da frente foi aberta. Draco levou apenas um segundo para compreender o que estava acontecendo e outro segundo para se lançar contra Rony.

Seu movimento fez Rony se afastar por instinto, soltando Hermione com violência, fazendo-a perder o equilíbrio e cair no chão, batendo a cabeça na quina do berço.

Ela sentiu uma dor aguda no local machucado e ao levar a mão trêmula até ele, viu que sangrava. Levantou os olhos alarmada e viu Draco e Rony lutando em sua sala, a expressão impassível de Draco fazendo um arrepiu descer por sua espinha enquanto ele acertava o rosto de Rony repetidamente. Ela nunca o tinha visto daquela forma e sabia que se ele não fosse impedido, as coisas ficariam muito mais perigosas.

Com as pernas bambas e as mãos tremendo, ela usou o berço como apoio para se levantar e caminhou cambaleante até eles. Colocou uma mão firme no ombro de Draco, tentando chamar sua atenção.

− Draco. Draco. Pare.

Mas Draco não parecia tê-la ouvido ou sentido e ela fez a única coisa que poderia ter feito.

Em um movimento lento pelo medo, ela alcançou a varinha em seu bolso e lançou um feitiço estuporante em Draco, que a olhou com raiva e traição nos olhos.

Um pouco mais em controle de suas mãos e pernas, ela endireitou o corpo e olhou diretamente nos olhos de Rony que jazia sem reação no chão.

− Vá embora.

Dessa vez ele obedeceu, e aquela foi a última vez que ela viu Ronald Weasley.

 

Como você está? – A pergunta cautelosa de Draco a distraiu de seus pensamentos. Estavam em um hotel pequeno em Hogsmead, onde decidiram passar o dia depois de levarem Scorpius de volta para Hogwarts. Com Anabelle sob os cuidados de Molly, eles aproveitaram para curtir um dia diferente a dois.

− O que você quer dizer?

Ele se mexeu desconfortável por um momento antes de olhá-la nos olhos intensamente e formular a pergunta que o estava incomodando há dias.

− Depois de ver o Weasley de novo. Como você está?

Ela controlou o sorriso que ameaçou despontar em seu rosto. Não seria bom rir do desconforto dele, mesmo considerando seus motivos absurdos.

− Estou bem – Disse simplesmente e ele não ficou satisfeito com a resposta. Deixando agora o sorriso se desenhar livremente em seu rosto, ela completou com a informação que ele realmente queria – Eu te amo, Draco Malfoy. Não acredito que está com ciúmes de Rony.

Ele deu de ombros.

− Não é bem ciúmes. Vocês têm uma longa história juntos, fazia muito tempo que não se viam, da última vez...

Ela o interrompeu com um beijo rápido.

− Draco, o que eu tive com Rony acabou há muitos anos, você sabe disso. – Ele ia protestar, mas ela continuou – Não vou mentir, fiquei muito feliz em vê-lo novamente. – Os olhos dele se tornaram inexpressivos, como sempre acontecia quando ele queria esconder o que estava sentindo, e ela explicou – Vê-lo novamente  me fez ter certeza de que fiz a escolha certa. De que não temos mais qualquer sentimento por ele há anos, como eu já acreditava que não tinha. Se serviu para alguma coisa esse pequeno susto que Scorpius nos deu, foi para que eu pudesse encerrar de uma vez por todas minha história com Rony. Da última vez em que nos vimos havia ainda muito sentimento encurralado, nele e em mim. Vê-lo novamente, ver que ele está bem, me deixou feliz. Acho que está na hora de nos encontrarmos e conversarmos direito sobre nós.

Mas talvez não houvesse mais o que dizer.

E ela soube então, em meio ao beijo carinhoso de Draco, que suas palavras eram verdadeiras. Que as dúvidas que apareciam de vez em quando em sua mente, os “e se...” que insistiam em lhe perturbar a paz, tinham sido respondidos.

Encontrá-lo novamente e não sentir nada mais do que carinho e surpresa foi o encerramento que faltava para seguir em frente.

Sem fantasmas e sem dúvidas. 



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