História Como eu era antes de você - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Como Eu Era Antes de Você, Sou Luna
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Palavras 4.360
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Crossover, Romance e Novela

Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oi meus amores. Como vocês estão? Vamos para o capítulo?

Capítulo 2 - 01


2009

São cento e cinquenta e oito passos entre o ponto de ônibus e minha casa, mas é

possível esticar esse número para cento e oitenta se você não estiver com pressa,

ou, por exemplo, se estiver usando sapatos de plataforma. Ou se estiver com os

sapatos que você comprou num brechó e que possuem borboletas nos dedos e

nunca àcam bem presos nos calcanhares, o que explica por que custaram a

pechincha de uma libra e noventa e nove centavos. Virei a esquina na nossa rua

(sessenta e oito passos) e logo pude ver a casa — uma casa geminada de quatro

quartos numa sequência de outras casas geminadas de três e quatro quartos. O

carro de papai estava do lado de fora, o que signiàcava que ele ainda não tinha ido

para o trabalho.

Às minhas costas, o sol se punha atrás do castelo Stortfold, sua sombra escura

escorrendo pela colina feito cera derretida para me engolir. Quando eu era

pequena, costumávamos fazer com que nossas sombras alongadas participassem

de tiroteios, nossa rua era o O.K. Corral. Em outro dia, eu poderia contar tudo o

que vivi nessa rua: onde papai me ensinou a andar de bicicleta sem rodinhas; onde

a Sra. Dorothy, com sua peruca torta, fazia bolos galeses para nós; onde Malena,

aos onze anos, prendeu a mão numa cerca viva e perturbou um ninho de vespas

nos fazendo correr aos gritos por todo o trajeto até o castelo.

O triciclo de Mathias estava jogado no meio do caminho e, ao fechar o portão

atrás de mim, eu o arrastei até a entrada e abri a porta. O calor me atingiu com a

força de um air bag. Mamãe é torturada pelo frio e mantém a calefação ligada o

ano inteiro. Papai está sempre abrindo janelas, reclamando que ela vai nos levar à

falência. Ele diz que nossa conta de luz é maior que o PIB de um pequeno país

africano.

— É você, querida?

— Sou eu. — Pendurei minha jaqueta no gancho, lutando para conseguir um

espaço no meio das outras.

— Eu quem? KAH? Malena?

— Kah.

Da porta da sala, olhei ao redor. Papai estava de bruços no sofá, o braço

enàado entre as almofadas, como se elas estivessem tentando engoli-lo Mathias,

meu sobrinho de cinco anos, o observava atentamente logo atrás.— Lego. — Papai virou-se para mim, o rosto vermelho devido ao esforço.

— Não sei por que eles fazem as malditas peças tão pequenas. Você viu o braço

esquerdo de Obi-Wan Kenobi?

— Estava em cima do aparelho de DVD. Acho que ele trocou o braço do Obi

pelo do Indiana Jones.

— Bom, aparentemente Obi não pode ter braços bege agora. Temos de achar

os braços pretos.

— Eu não me preocuparia. Darth Vader não arranca o braço dele no segundo

episódio? — Apontei para minha bochecha para Mathias dar um beijo. — Cadê a

mamãe?

— No andar de cima. Veja o que eu achei! Uma moeda!

Olhei para cima bem a tempo de escutar o conhecido ranger da tábua de

passar. Ana Carolina Sevilla Clark, minha mãe, jamais se senta. É uma questão de honra. Era

conhecida por àcar numa escada do lado de fora pintando as janelas, parando de

vez em quando para acenar, enquanto o restante de nós jantava rosbife.

— Você pode achar o bendito braço para mim? Mathias está me obrigando a

procurar por isso há meia hora e preciso me arrumar para o trabalho.

— Você está no turno da noite?

— Sim. São cinco e meia.

Dei uma olhada no relógio.

— Na verdade, são quatro e meia.

Ele retirou o braço de baixo das almofadas e estreitou os olhos para conferir o

relógio de pulso.

— E o que você está fazendo em casa tão cedo?

Balancei a cabeça vagamente, como se não tivesse entendido a pergunta

direito, e entrei na cozinha.

Vovô estava sentado na cadeira ao lado da janela, completando um sudoku. O

assistente social nos tinha dito que o jogo seria bom para melhorar a

concentração dele, que ajudaria nisso depois dos derrames. Desconào de que eu

era a única a perceber que ele apenas preenchia os quadradinhos com o primeiro

número que lhe viesse à cabeça.

— Oi, vovô.

Ele me olhou e sorriu.

— Quer uma xícara de chá?

Ele balançou a cabeça e abriu um pouco a boca.

— Uma bebida gelada?

Ele anuiu.

Abri a porta da geladeira.

— Não tem suco de maçã. — Disse, e então me lembrei de que suco de

maçã era muito caro. — Quer um pouco de Ribena?

Ele balançou a cabeça.— Água?

Ele fez que sim e murmurou alguma coisa que poderia ser um obrigado

quando lhe entreguei o copo.

Minha mãe entrou na cozinha carregando um enorme cesto de roupas

lavadas e cuidadosamente dobradas.

— São suas? — perguntou, exibindo ostensivamente um par de meias.

— São de Malena, eu acho.

— Também pensei que fossem dela. Cor estranha. Devem ter àcado junto

com o pijama cor de ameixa do seu pai. Você chegou cedo. Vai a algum lugar?

— Não. — Enchi um copo com água da torneira e bebi.

— Michael vem aqui mais tarde? Ele ligou para cá de manhã. Você desligou

seu celular?

— Hum.

— Ele falou que está tentando marcar as férias de vocês. Seu pai disse que ele

viu alguma coisa sobre isso na TV. Vocês querem ir para onde? Ipsos? Calipso?

— Skiathos.

— É, isso. Você precisa veriàcar o hotel com muito cuidado. Faça isso pela

internet. Ele e seu pai viram algo no noticiário da hora do almoço. Parece que

estão fazendo uns sites, oferecendo pacotes pela metade do preço, e você só àca

sabendo quando chega lá. Papai, quer uma xícara de chá? Kah não ofereceu uma

para você? — Ela colocou a chaleira com água para esquentar e olhou para mim.

Finalmente deve ter percebido que eu não disse nada. — Você está bem, querida?

Está tão pálida.

Colocou a mão na minha testa como se eu tivesse bem menos que meus vinte

e seis anos.

— Acho que não vamos tirar férias.

A mão da minha mãe àcou imóvel. O olhar dela tinha aquela coisa meio raio

x desde quando eu era criança.

— Você e Mich estão com algum problema?

— Mãe, eu…

— Não estou querendo me intrometer. É que vocês estão juntos há tanto

tempo. É muito natural que as coisas se compliquem de vez em quando. Quer

dizer, eu e seu pai, nós…

— Fui demitida.

Minha voz cortou o silêncio. As palavras àcaram ali, no ar, esmorecendo na

pequena cozinha por muito tempo após o som ter sumido.

— Você o quê?

— Alfredo vai fechar o café. Amanhã. — Estendi a mão com o envelope meio

molhado que, em estado de choque, eu havia apertado ao longo de todo o trajeto

para casa. Todos os cento e oitenta passos desde o ponto de ônibus. — Ele pagou

os três meses do seguro.

* * *

O dia tinha começado como outro qualquer. Todo mundo que eu conhecia

detestava manhãs de segunda-feira, mas eu nunca me incomodei. Gostava de

chegar cedo ao The Buttered Bun, ligar a enorme máquina de chá, trazer os

caixotes de leite e pão do depósito e conversar com Alfredo enquanto nos

preparávamos para abrir.

Gostava do calor abafado com aroma de bacon que havia no café, das

pequenas rajadas de ar frio quando a porta se abria e se fechava, do murmúrio

das conversas e, quando estava tudo calmo, do rádio de Alfredo tocando baixinho no

canto. Não era um lugar moderninho, as paredes eram cobertas de fotos do

castelo da colina, as mesas ainda ostentavam tampos de fórmica e o cardápio era

o mesmo desde que comecei lá, exceto por algumas mudanças nos tipos de

chocolate servidos no balcão e pela inclusão de brownies e bolinhos de chocolate

na bandeja de bolos gelados.

Mas, acima de tudo, eu gostava dos clientes. Gostava de Kevin e de Angelino,

encanadores que vinham quase todas as manhãs e brincavam com Alfredo

perguntando de onde vinha a carne que ele servia. Gostava da Sra. Dente-de-leão,

apelidada assim por causa da cabeleira branca, que comia ovo com fritas de

segunda a quinta-feira e se sentava para ler os jornais de distribuição gratuita,

bebendo duas xícaras inteiras de chá de um jeito único. Sempre me esforçava

para conversar com ela. Desconfiava de que fosse a única conversa que a velhinha

tinha durante todo o dia.

Gostava dos turistas, que paravam em seu caminho, indo e vindo do castelo;

das crianças agitadas do colégio que davam uma passada lá depois das aulas; dos

habitués dos escritórios que àcavam do outro lado da rua; e de Nih e Cherie, as

cabeleireiras que sabiam quantas calorias tinha cada produto que oferecíamos

em The Buttered Bun. Nem os clientes chatos, como a mulher ruiva, que

gerenciava a loja de brinquedos e reclamava do troco pelo menos uma vez por

semana, me incomodavam.

Testemunhei o início e o àm de relacionamentos naquelas mesas; pais

divorciados entregando e recebendo os àlhos de seus ex-cônjuges; o alívio culpado

dos que não suportavam cozinhar e o prazer secreto dos aposentados diante de

um café da manhã com frituras. Todo tipo de pessoa frequentava aquele lugar e a

maioria partilhava algumas palavras comigo, fazendo piadas e comentários por

cima das canecas de chá fumegantes. Papai sempre dizia que jamais sabia o que

sairia da minha boca, mas lá no café isso não importava.

Alfredo gostava de mim. Era calado por natureza e dizia que eu animava o

lugar. Para mim, era como ser garçonete de bar, mas sem a chatice dos

bêbados.

Até que, naquela tarde, depois que o movimento do almoço terminou e o café àcou vazio por um breve período, Alfredo, limpando as mãos no avental, saiu de

trás da chapa do fogão e virou a pequena placa de Fechado para a rua.

— Ai, ai, Alfredo, eu já disse a você. O salário-mínimo não inclui horas-extra. —

Alfredo era, como dizia papai, esquisito como um gnu azul. Olhei para ele.

Ele não estava sorrindo.

— Oh-oh. Não coloquei de novo sal no pote de açúcar, coloquei?

Ele estava torcendo um pano de prato com as duas mãos e eu nunca o vira

mais desconfortável. Supus, num lampejo, que alguém tivesse reclamado de mim.

Então ele fez sinal para eu me sentar.

— Desculpe, Karol — disse, depois de me contar. — Vou voltar para a

Austrália. Meu pai não está bem e parece que o castelo vai mesmo começar a

servir seus próprios lanches. Tem um aviso na parede.

Acho que àquei lá sentada, literalmente de boca aberta. Alfredo então me

entregou o envelope e respondeu minha pergunta antes que ela saísse da minha

boca.

— Sei que nunca tivemos, você sabe, um contrato formal ou algo do tipo, mas

eu não quero deixá-la na mão. No envelope tem três meses de salário. Fechamos

amanhã.

* * *

— Três meses! — explodiu papai, quando mamãe colocou uma xícara de chá

adoçado nas minhas mãos. — Bom, é generoso da parte dele, já que ela

trabalhou como escrava naquele lugar nos últimos seis anos.

— David. — Mamãe lançou-lhe um olhar de aviso, indicando Mathias com

a cabeça. Meus pais cuidavam dele depois da escola até Malena voltar do

trabalho.

— Que diabo ela deve fazer agora? No mínimo, poderia ter sido avisada com

mais de um dia de antecedência.

— Bom… ela simplesmente vai ter de arrumar outro emprego.

— Não tem outra porcaria de emprego, Ana. Você sabe tão bem quanto eu.

Estamos numa maldita recessão.

Mamãe fechou os olhos por um instante, como se estivesse se controlando

antes de falar.

— Ela é uma garota inteligente. Vai achar alguma coisa. Tem um currículo

consistente, não tem? Alfredo vai escrever uma boa carta de referências.

— Ah, grande coisa… “Karol Sevilla Clark é muito boa em passar manteiga na

torrada e excelente com o velho bule de chá.”

— Obrigada pelo voto de confiança, pai.

— Só estou dizendo.

Eu sabia o verdadeiro motivo da preocupação de papai. Eles dependiam do meu salário. Malena ganhava quase nada na áoricultura. Mamãe não podia

trabalhar, pois tinha de cuidar do vovô e a pensão dele era mínima; papai estava

sempre tenso em relação a seu emprego na fábrica de móveis. Fazia meses que

o patrão vinha resmungando sobre um possível corte de pessoal. Em casa,

comentava-se sobre dívidas, sobre a ilusão dos cartões de crédito. Dois anos antes,

um motorista sem seguro destruíra o carro de papai e, de certa maneira, foi o que

bastou para pôr abaixo o instável edifício que eram as ànanças de meus pais. Meu

modesto salário vinha sendo um pequeno pilar no orçamento doméstico,

suficiente para ajudar a cuidar de nossa família a cada semana.

— Não vamos nos precipitar. Amanhã ela pode ir ao Centro de Trabalho e ver

quais são as ofertas. Ela tem o suàciente para se sustentar, por enquanto. — Eles

falavam como se eu não estivesse ali. — E é inteligente. Você é inteligente, não é,

querida? Talvez possa fazer aulas de digitação. Trabalhar em um escritório.

Eu me sentei enquanto meus pais discutiam que trabalhos eu poderia

conseguir com minhas poucas qualiàcações. Operária de fábrica, especialista em

ferramentas mecânicas, passadora de manteiga. Pela primeira vez naquela tarde,

tive vontade de chorar. Mathias me olhava com seus grandes olhos redondos e,

sem dizer nada, me deu a metade de um biscoito babado.

— Obrigada, Math — falei apenas movendo os lábios, sem emitir som, e

comi o biscoito.

* * *

Ele estava na academia de ginástica, como eu sabia que estaria. De segunda a

quinta, pontual como um relógio suíço, Michael àcava lá se exercitando ou dando

voltas na pista bem-iluminada. Subi a escada abraçando a mim mesma para me

proteger do frio e entrei devagar na pista, acenando quando ele chegou perto o

bastante para conseguir me ver.

— Venha correr comigo — disse ele, ofegante, ao se aproximar. Sua

respiração formava nuvens claras. — Faltam quatro voltas.

Relutei por um instante e então comecei a correr ao seu lado. Era o único

jeito de conseguir ter qualquer tipo de conversa com ele. Eu estava com meus

tênis rosa com cadarços turquesa, o único sapato com o qual eu conseguia correr.

Tinha passado o dia em casa, tentando ser útil. Acho que isso aconteceu uma

hora antes de eu começar a perturbar minha mãe. Ela e vovô tinham sua rotina e

minha presença atrapalhava os dois. Papai estava dormindo, já que havia passado

para o turno da noite naquele mês, e não podia ser incomodado. Arrumei meu

quarto, depois me sentei e assisti à TV em volume baixo e, algumas vezes, quando

me lembrava por que eu estava em casa no meio do dia, sentia uma leve dor no

peito.

— Não estava esperando por você.

Eu me cansei de àcar em casa. Pensei que talvez pudéssemos fazer

alguma coisa.

Ele me olhou de soslaio. Seu rosto tinha uma leve camada de suor.

— Quanto antes você arrumar outro emprego, querida, melhor.

— Eu perdi meu emprego há apenas vinte e quatro horas. Será que eu posso

me sentir um pouco infeliz e desanimada? Sabe, só por hoje?

— Você precisa ver o lado bom. Você sabia que não poderia àcar naquele

emprego para sempre. Precisa seguir em frente.

Dois anos antes, Michael tinha sido eleito o Jovem Empreendedor do Ano de

Stortfold e ainda não tinha se recuperado bem da fama. Ele até havia conseguido

um sócio, Ginger, com quem montou uma empresa que oferecia formação

pessoal para clientes num raio de duzentos metros e contava com dois furgões

ànanciados. Também tinha um quadro branco no escritório onde ele gostava de

rabiscar, com grossos marcadores pretos, a projeção que fazia para o volume de

seus negócios, escrevendo e reescrevendo os números até corresponderem a suas

expectativas. Nunca tive muita certeza de que os números tivessem alguma

ligação com a realidade.

— Kah, perder o emprego pode mudar a vida de uma pessoa. — Ele deu uma

olhada no relógio, conferindo o tempo que àzera naquela volta. — O que você

quer fazer? Podia estudar. Tenho certeza de que o mercado valoriza gente como

você.

— Gente como eu?

— Sim, que busca uma nova oportunidade. O que você quer ser? Poderia ser

esteticista. É bonita o bastante.

Fez um sinal para mim enquanto corria, como se eu devesse agradecer o

elogio.

— Você conhece minha rotina de beleza. Água, sabão e um saco de papel

enfiado na cabeça.

Michael começava a parecer exasperado.

E eu, a ficar para trás. Detesto correr. E detestei-o por não ir mais devagar.

— Pense… lojista. Secretária. Corretora de imóveis. Sei lá… deve ter alguma

coisa que você queira fazer.

Mas não tinha. Eu gostava de trabalhar no café. Gostava de saber tudo o que

era possível saber a respeito do The Buttered Bun e de escutar sobre a vida das

pessoas que frequentavam o lugar. Eu me sentia bem lá.

— Não pode àcar infeliz, querida. Você precisa superar isso. Todos os

melhores empreendedores lutaram para se reerguer dos piores infortúnios. Jeffrey

Archer fez isso. Richard Branson também. — Ele deu uma batidinha no meu

braço, tentando me animar.

— Duvido que Jeffrey Archer algum dia tenha perdido seu emprego de

esquentar bolinhos para o chá. — Perdi o fôlego. E estava com o sutiã errado.Desacelerei, baixei as mãos e as apoiei nos joelhos.

Ele se virou e voltou, a voz agitando o ar parado e frio.

— Mas se ele tivesse… estou só falando. Pense melhor, ponha uma roupa

bonita e vá ao Centro de Trabalho. Ou posso treinar você para trabalhar comigo,

se quiser. Você sabe que isso dá dinheiro. E não se preocupe com a viagem. Eu

pago.

Sorri para ele.

Ele me jogou um beijo e sua voz ecoou pelo ginásio vazio.

— Você pode me pagar quando voltar a trabalhar.

* * *

Minha primeira tentativa foi na Agência de Empregos. Fiz uma entrevista

individual que durou quarenta e cinco minutos e outra em grupo, na qual àquei

sentada com mais ou menos vinte pessoas, entre homens e mulheres, metade

delas com a mesma expressão meio apalermada que eu também devia estar

exibindo, a outra metade com a expressão vazia e desinteressada de quem já

estivera ali diversas vezes. Eu vestia o que papai chamou de meus trajes “civis”.

Como resultado desses esforços, consegui um estágio noturno numa fábrica

de processamento de frangos (o que me causou pesadelos por semanas) e dois

dias de treinamento no Conselho de Energia Doméstica. Cheguei bem rápido à

conclusão de que estava sendo orientada a convencer idosos a trocar de

fornecedores de energia e disse ao meu “conselheiro” pessoal que não

conseguia fazer isso. Ele insistiu para que eu continuasse, então àz uma lista com

alguns métodos que eles me pediram para usar e, a essa altura, ele àcou meio

calado e sugeriu que nós (tudo era sempre “nós”, embora fosse bastante óbvio que

um de nós tinha emprego) tentássemos outro cargo.

Fiquei duas semanas numa rede de lanchonetes. O horário era bom, eu podia

lidar com o fato de o uniforme dar estática no meu cabelo, mas achei impossível

aguentar o regulamento de “respostas adequadas”, com seus “Posso ajudar?” e

“Gostaria de adicionar uma porção grande de batata frita?”, e desisti depois que

uma das garotas que fazia rosquinhas me pegou discutindo com uma criança de

quatro anos sobre as diversas vantagens dos brinquedos gratuitos. O que posso

dizer? Ela era uma menina de quatro anos inteligente. E eu também achava as

Belas Adormecidas bobinhas.

Agora eu estava sentada, esperando a quarta entrevista, enquanto ele

explorava o touch screen em busca de outras “oportunidades” de trabalho. Até ele,

que tinha o jeito terrivelmente animado de quem conseguia empregos para os

candidatos mais improváveis, estava começando a parecer um pouco

preocupado.

— Hum… já pensou em trabalhar na indústria de entretenimento?— Em que função? Assistente de mágico?

— Não. Mas há uma vaga para dançarina de pole dance. Várias, aliás.

Ergui uma sobrancelha.

— Por favor, diga que está brincando.

— São trinta horas por semana sem carteira assinada. Acredito que as

gorjetas sejam boas.

— Por favor, por favor, diga que você não acabou de sugerir que eu aceite um

emprego que envolva desfilar de calcinha na frente de estranhos.

— Você disse que tem muita facilidade para lidar com pessoas. E parece

gostar de… roupas… teatrais. — Ele lançou um olhar para minha meia-calça,

que era verde e brilhante. Pensei que aquela meia pudesse me animar. Mathias

tinha cantarolado a música-tema de A Pequena Sereia durante todo o café da

manhã.

Ele deu um tapinha em algo no teclado.

— O que acha de “supervisora de conversas telefônicas adultas”?

Olhei bem para ele.

Ele encolheu os ombros.

— Você disse que gostava de conversar com pessoas.

— Não. Também não quero ser garçonete seminua. Nem massagista. Ou

operadora de webcam. Qual é, cara. Deve ter alguma coisa que eu possa fazer

sem necessariamente causar um ataque cardíaco no meu pai.

Ele pareceu intrigado.

— Não sobra muita coisa mais, a não ser vagas no comércio de varejo, com

horário flexível.

— Arrumar prateleiras à noite? — Já estive aqui tantas vezes que sou capaz de

falar a língua deles.

— Tem lista de espera para essa vaga. Quem tem àlhos costuma gostar,

porque combina com os horários escolares — disse ele, desculpando-se. Ele

estudou novamente a tela. — Então, só nos resta o serviço de cuidadora.

— Limpar traseiro de velho.

— Receio, Karol, que você não tenha qualiàcação para muito mais que isso.

Se quisesse aprender outra ocupação, eu teria prazer em lhe mostrar o caminho

certo. Há vários cursos para adultos no centro de educação.

— Mas já falamos sobre isso,Se eu àzer o curso, perco o seguro-

desemprego, certo?

— Se você não estiver disponível para trabalhar, sim.

Ficamos em silêncio por um instante. Olhei para as portas, onde estavam dois

seguranças corpulentos e me perguntei se teriam arrumado o emprego pelo

Centro de Trabalho.

— Não sou boa em lidar com idosos,Meu avô mora conosco desde que

sofreu os derrames e não consigo lidar com ele.Ah. Então você tem alguma experiência como cuidadora.

— Não é bem assim. Minha mãe faz tudo para ele.

— Sua mãe estaria interessada em trabalhar?

— Engraçadinho.

— Não estou fazendo graça.

— Então quer que eu àque cuidando do meu avô? Não, obrigada. Aliás,

agradeço por ele e por mim também. Não tem nada em algum café?

— Acho que não há cafés em quantidade suàciente para que sobre um

emprego para você, Karol. Podemos tentar o KFC. Você pode conseguir alguma

coisa por lá.

— Acha que eu seria muito mais convincente ao oferecer um Balde KFC do

que um Chicken McNugget? Acho que não.

— Bom, então temos de procurar algo ainda mais longe.

— Nossa cidade tem apenas quatro linhas de ônibus. Você sabe disso. E você

disse que eu devia procurar o ônibus de turismo, mas liguei para a estação e ele

para de circular às cinco da tarde. Além disso, é duas vezes mais caro que o

ônibus normal.

Ele recostou-se na cadeira.

— A essa altura, Karol, eu realmente preciso dizer que, sendo apta e capaz,

para continuar a receber seu auxílio, você precisa…

— …mostrar que estou tentando conseguir um emprego. Eu sei.

Como explicar para aquele homem o quanto eu queria trabalhar? Ele tinha

alguma ideia do quanto eu sentia falta do meu antigo emprego? O desemprego

era um conceito, algo vagamente citado nos noticiários, que referia-se a estaleiros

ou fábricas de automóveis. Nunca pensei que se pudesse sentir falta de um

emprego como se sente de um braço ou de uma perna, algo que está sempre ali,

que faz parte de você. Não imaginei que, além dos medos óbvios sobre dinheiro e

futuro, perder o emprego àzesse a pessoa se sentir inadequada e um pouco inútil.

Que pode ser mais difícil levantar de manhã do que quando se é brutalmente

trazido à consciência pelo toque do despertador. Que você pode sentir falta dos

colegas de trabalho, não importando quão pouco você se identiàcava com eles.

Ou até mesmo que você pode àcar procurando rostos conhecidos ao andar pela

rua. A primeira vez que vi a Sra. Dente-de-leão vagando na frente das lojas,

parecendo estar tão sem rumo quanto eu, tive de lutar contra o ímpeto de ir até lá

e dar um abraço nela.

A voz dele interrompeu meu devaneio.

— Ah, isto aqui pode dar certo.

Tentei dar uma olhada na tela.

— Acabou de aparecer. Neste minuto. Uma oferta de emprego como

cuidadora assistente.

— Eu lhe disse que não sou boa com…

— Não é com idosos. É uma… vaga conàdencial. Para ajudar na casa de

alguém, e o endereço àca a menos de três quilômetros de onde você mora.

“Cuidados e companhia para deficiente físico.” Você sabe dirigir?

— Sei. Mas eu teria de limpar o…

— Não é necessário limpar traseiros, pelo que entendi. — Ele examinou a

tela. — Ele é… tetraplégico. Precisa de alguém de dia para ajudá-lo a se

alimentar e para assisti-lo. Geralmente, nesse tipo de emprego é preciso

acompanhar a pessoa quando ela quer ir a algum lugar, ajudar com coisas

simples que ela não possa fazer. Ah. Paga muito bem. Muito mais do que o piso.

— Provavelmente porque deve envolver limpeza de traseiro.

— Vou ligar para conàrmar isso. Se não precisar, você aceita fazer uma

entrevista?

Ele perguntou como se houvesse dúvida.

Mas nós dois já sabíamos a resposta.

Suspirei e peguei minha bolsa, pronta para voltar para casa.

* * *

— Jesus Cristo — exclamou meu pai. — Dá para imaginar? Como se já não fosse

castigo suàciente àcar numa cadeira de rodas enferrujada, você ainda tem como

acompanhante a nossa Kah.

— David! — minha mãe o repreendeu.

Atrás de mim, vovô ria com a caneca de chá encostada na boca.


Notas Finais


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Bjs fiquem com Deus e ate a próxima


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