História Computer Boy - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Yuri!!! on Ice
Personagens Minako, Nikolai Plisetsky, Otabek Altin, Phichit Chulanont, Victor Nikiforov, Yuri Katsuki, Yuri Plisetsky
Tags Otayuri
Visualizações 183
Palavras 4.483
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Ficção Científica, Fluffy, Lemon, Musical (Songfic), Romance e Novela, Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo, Yaoi
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Cês pensaram que eu não ia espalhar a palavra de OtaYuri hoje, né?!

AAAAA, gente, eu não ia demorar tanto pra postar, me desculpem! É que tem acontecido algumas coisas que me deixaram bem desanimada, mas eu tô de férias agora, então vou fazer de tudo pra atualizar o mais rápido possível!

Gratidão enormeeeee por todos os favoritos, comentários, visualizações, nossa, eu fiquei feliz DEMAIS com o feedback de vocês, cês são incríveis!

Enfim, bora pro cap XD

Capítulo 2 - Lá Vem o Sol!


Fanfic / Fanfiction Computer Boy - Capítulo 2 - Lá Vem o Sol!

Otabek acordou com o corpo dolorido, consequência de uma noite mal dormida em seu pequeno e desconfortável sofá. Foi um mal necessário para que Yurio pudesse desfrutar de sua primeira noite em uma cama espaçosa e confortável.


Mas o que acordou Otabek não foi a dor muscular ou mesmo a claridade que invadia a sala àquela altura da manhã. Foi um aroma agradável de comida e barulhos extremamente irritantes, vindos da cozinha que o despertaram de seu sono conturbado.


Sentou-se rapidamente no sofá e, mesmo estando ainda meio atordoado, pôde ver que Yurio tentava preparar café da manhã, e que além de ter se apossado de sua cama, havia pego também seu moletom preferido para dormir.


O moreno suspirou e levantou-se, sabendo que não conseguiria voltar a dormir. Caminhou até a cozinha, enquanto bocejava e espreguiçava-se.


— Bom dia. Te acordei? – perguntou o loiro, embora não parecesse realmente preocupado.


— Não… – mentiu Otabek, com êxito – O que você tá fazendo?


O moreno aproximou-se do outro, que parecia muito empenhado em tentar desgrudar desajeitadamente da frigideira a tentativa fracassada de ovos mexidos, cheios de casca e já parcialmente queimados. Otabek sentiu seu estômago embrulhar, percebendo que só o cheiro deveria estar gostoso, já que aquilo tinha uma aparência péssima.


— Prova! – disse Yurio, animado, espetando um pouco do ovo com um garfo e levando-o em direção à boca do moreno.


Otabek fez um esforço e abocanhou a refeição nefasta de uma só vez, tentando não fazer careta no processo. Estava muito quente, mas o incômodo que o  ardor lhe causava conseguia competir com o gosto horrível do alimento. Ele forçou um sorriso que mais parecia uma careta para o outro, que o olhava com expectativa.


— Vamos fazer assim: – disse, depois de engolir com uma certa dificuldade – eu vou preparar ovos mexidos do jeitinho que minha mãe preparava pra mim quando eu era criança. Acho que você vai adorar. – Otabek disse de forma gentil, mas a empolgação pareceu deixar o loiro rapidamente.


— Ficaram ruins. – Não havia sido uma pergunta, então Otabek não sentiu necessidade de respondê-lo diretamente.


— Vou te ensinar como fazer, e tenho certeza de que você vai melhorar com o tempo. E você pode me ajudar com coisas mais simples, o que você acha?


— Certo… – Yurio desviou o olhar, parecendo um pouco tímido.


Otabek fingiu não ver que agora seu moletom estava sujo de gema de ovo e começou a ensiná-lo, pacientemente. E o resultado não ficou tão bom, mas ficou ao menos comestível, graças ao moreno, por ter feito a maior parte sozinho. Apesar disso, o andróide demonstrou estar muito entusiasmado em ajudar, mesmo que com coisas mais básicas e fáceis.


Yurio pareceu gostar muito do resultado, tudo porque ele nunca havia provado algo delicioso de verdade. Otabek estava absorto nas expressões que o loiro fazia a cada garfada, e em como ele parecia empolgado e feliz descobrindo as primeiras sensações da vida agora.


Estava tão adorável, mas sua face estava parcialmente encoberta pela cortina de fios dourados e desgrenhados que caía suavemente por seu rosto; Otabek queria vê-lo melhor, e quase involuntariamente levou a mão até seus cabelos e os afastou, permitindo que visse todos os traços angelicais de Yurio.


Só quando os olhos verdes encontraram os seus foi que percebeu que seus dedos estavam praticamente entrelaçados nos sedosos fios de ouro.


O loiro estava quase inexpressivo se não fosse pelos olhos arregalados e suas bochechas que definitivamente não estavam tão pálidas quanto antes. E apesar do andróide não ter protestado contra o toque, Otabek rapidamente se desvencilhou do contato e saiu da mesa sem olhar para Yurio, assustado com sua própria atitude impensada.


— Y-Yurio… Você não tem muitas roupas, não é?! – perguntou o moreno, tentando deixar o que acontecera no passado o mais rápido possível – Assim que o cartão chegar nós podemos comprar algumas coisas pra você… Aliás, sobre a festa de hoje…


Otabek virou-se para ele e olhou-o de cima a baixo, analisando com atenção. Suas roupas não serviriam esguio e delicado Yurio, inclusive, o moletom que ele usava naquele momento mais parecia um vestido do que uma blusa em seu corpo.


— Talvez não tenhamos tempo de esperar o cartão… – sussurrou Otabek, quase que para si mesmo. Olhou para o relógio e viu que faltavam algumas horas para que tivesse que estar na festa; dormiu mais do que planejou. Suspirou. – Vista alguma roupa apresentável pra gente sair, por favor.


— Mas eu gosto dessa. – o loiro olhou para o moletom, confuso.


— Está suja. E você precisa colocar calças.


— Oh… – os olhos de Yurio brilharam mais intensamente, ele parecia fascinado cada vez que aprendia sobre como ser mais humano. – Mas eu vou ter que usar a de ontem.


— Tudo bem, estamos indo comprar novas agora. Eu vou no quarto pegar uma roupa, então você pode ir lá se trocar.


Yurio assentiu e Otabek foi para seu quarto, respirando fundo para se acalmar quando chegou ao local e se deparou com a bagunça que o robô fez ali.


Haviam muitas de suas roupas pelo chão, a cama estava toda desforrada e quando sentiu uma brisa gelada percebeu que ele dormiu com a janela aberta, e agora muitas das folhas da enorme macieira que ficava bem ao lado de seu quarto, jaziam por toda parte, para completar a desordem do cômodo que costumava estar sempre impecável.


“Tudo bem. É temporário. Ele não entende.” Pensou o moreno contando até dez e limitando-se a pegar qualquer roupa que estivesse o mais perto possível para sair logo dali.


Voltou para a sala e viu que Yurio ainda estava sentado na mesa, brincando com os ovos, que já deveriam estar frios à essa altura.


— Já peguei minha roupa. – anunciou Otabek, e, tão acostumado estava a morar sozinho, começou a tirar sua camiseta ali mesmo.


Ele estava de costas para a cozinha e não percebeu quando Yurio se aproximou, fascinado pelos seus músculos bem definidos, achando aquele corpo estranhamente belo, já que era tão diferente do seu. Otabek se assustou e sentiu um arrepio lhe percorrer pela espinha quando a pequena mão iniciou um contato suave e gentil em suas costas.


— O-o que foi? – perguntou Otabek, afastando-se um pouco, acanhado, mas não o bastante para desfazer o contato da mão de Yurio.


— Você é bem diferente de mim. – disse o loiro, pensativo.


Ele correu os dedos finos brevemente, descendo pela pele de Otabek, cujos pêlos se eriçavam cada vez mais.


— Somos diferentes, mas você é bonito. Ao seu modo. – disse o moreno, sem pensar, sentindo as bochechas arderem levemente ao final da frase.


— Eu sei. – respondeu Yurio, displicentemente, ainda prestando atenção somente na pele aveludada que era acariciada por sua mão – Por quê está arrepiado?


— E-eu… É… O frio. – Otabek disfarçou e distanciou-se alguns passo, colocando logo a blusa com que sairia. – Melhor ir se trocar, se sairmos muito tarde podemos nos atrasar pra festa.


— Desculpe, me distraí… – sacudiu a cabeça, como se tentando afastar a 'distração’, então saiu da sala e foi até o quarto.


Otabek o escutou fechar a porta e sentou-se no sofá, enterrado o rosto entre as mãos e esfregando fortemente os olhos. Não sabia porque Yurio causava esses sentimentos estranhos nele, mas isso teria que parar. Pensou que talvez fosse sua beleza estonteante, e sim, deveria ser algo tão superficial quanto isso. Superficial. Essa era a palavra certa. Ele não era realmente humano, pensava Altin, convencendo a si mesmo.


X•X•X•X


Otabek morava perto do centro e das lojas, então os dois foram caminhando, mesmo com o tempo fechado anunciando que a chuva não demoraria a chegar. E ela veio tão repentinamente que eles sequer puderam ser abrigar em algum comércio.


Por sorte, Otabek era precavido e pegou um guarda-chuva antes que saíssem de casa; pequeno, mas suficiente para os dois. Yurio passou o braço pelo de Otabek, que segurava o cabo do objeto, e ambos seguiram em silêncio total, sua única trilha sonora era o som da chuva incessante que caía sobre a cidade naquele momento.


Entraram em muitas lojas diferentes e Otabek experimentou diversas sensações naquele dia, que iam de divertimento ao ver o interesse de Yurio ser desperto tão facilmente e por coisas extremamente bregas ou banais, a um calor que insistia em percorrer seu corpo quando o loiro se aproximava muito, com aqueles olhos enormes e brilhantes, aquelas expressões tão reais e tão estonteantemente belas…


No fim da tarde, o moreno percebeu, talvez um pouco decepcionado consigo, que não era capaz de negar nada para Yurio, nem mesmo um celular, que estava totalmente fora de seu orçamento.


Carregava as sacolas de compras, que pareciam ficar cada vez mais pesadas ao longo do caminho, e começava a se questionar se fora a melhor das decisões comprar uma moto em vez de um carro, ainda mais agora que estava responsável por um ser que parecia frágil ao ponto de se quebrar ao toque mais singelo.


Era assim que Otabek via Yurio. Frágil. Frágil como porcelana.


A chuva ainda caía impetuosamente e ambos apreciavam o silêncio agradável. Não era estranho ficar em silêncio com Yurio; Otabek não se via na obrigação de falar com ele o tempo inteiro, e era reconfortante estar com alguém que respeitasse seu espaço, sem cobranças, sem julgamentos, apenas estando ali, na companhia um do outro.


Em dado momento, o loiro parou abruptamente. Otabek demorou-se eu sua expressão nova, parecia tristeza e assombro ao mesmo tempo, e logo seguiu seu olhar, avistando um pequeno gatinho, que tentava se proteger da chuva debaixo de uma lata de lixo, mas sem sucesso, já que seu pêlo encontrava-se totalmente ensopado e ele tremia devido ao frio.


Yurio olhou para Otabek brevemente, com olhar interrogativo, mas antes que o moreno pudesse dizer qualquer coisa ele saiu debaixo do guarda-chuva e tentou se aproximar do gato. Porém, não teve cautela alguma e seus movimentos bruscos fizeram o pobre bichinho se assustar e encolher-se no canto.


— Ele está assustado. Não acho que vamos conseguir encostar nele. Vem pra baixo do guarda-chuva, você vai se resfriar. – disse Otabek em um tom mais alto para se fazer ouvido em meio a chuva forte.


— Não vamos deixar ele aqui. – Yurio virou-se com as sobrancelhas franzidas e parecia muito irritado. – Que tipo de pessoa deixaria?


O cabelo louro encharcado estava gotejando, mas Yurio não parecia se importar com a chuva, apesar de seu corpo ser invadido por leves tremores devido ao frio.


Otabek estava tão admirado com a valentia que aqueles olhos esmeralda possuíam. Eram olhos repletos de uma elegância e simultaneamente de uma selvageria que jamais vira no olhar de alguém. E tudo para salvar um gato.


Um animalzinho de rua, que provavelmente passaria despercebido pela maioria das pessoas, inclusive por ele mesmo, mas que aquele que ele julgava não possuir sentimentos humanos defendia como se fosse um igual.


Otabek sentiu seu corpo paralisado por um momento enquanto processava a realidade dura, que parecia socar-lhe o estômago sem dó. Ele era quem não possuía a humanidade que julgou faltar em Yurio.


Assim que o choque do quão real Yurio parecia ser, passou por ele, caminhou até o loiro e entregou-lhe o guarda-chuva, demorando-se um pouco naquela expressão ainda emburrada, levemente confusa e ao mesmo tempo esbelta antes de tentar se aproximar do gato minuciosamente.


Ele não parecia machucado, mas sua vida deveria ter sido muito difícil até então para que tivesse tanto medo de ser tocado, e por um momento, Otabek quase se viu há alguns anos atrás naquele pequeno gatinho, assustado, indefeso e abandonado.


Sentiu novamente uma empatia e uma solidariedade que não sentia há muito tempo e que haviam sido substituídas brutalmente pelo peso que a vida jogou sobre seus ombros.


Depois de muito tentar e de adquirir alguns arranhões pelo corpo, conseguiu segurar o pequeno animal agitado em seus braços. Ele estava muito molhado, mas Otabek também estava, portanto não se importou.


E não só valeu a pena por poder ajudar aquela inocente vida como também poder vislumbrar aquele sorriso raro, inocente e resplandecente que surgiu nos lábios de Yurio assim que conseguiu voltar para baixo do guarda-chuva com o felino em mãos.


Em sequência um sorriso sutil brotou nos lábios de Otabek, tão mínimo que teria sido imperceptível se Yurio não estivesse atento a tudo o que o moreno fazia.


E os três foram para casa.


X•X•X•X


Por sorte Otabek contava com dois banheiros em sua casa, desta maneira, ninguém precisou ficar encharcado esperando pela sua vez de tomar banho.


Bom, na verdade sim, já que antes de se lavar o moreno precisou banhar o gatinho. Não tinha nenhum produto próprio para animais, então simplesmente usou um sabonete neutro em seus pêlos. O animal parecia tão relaxado agora, e era reconfortante vê-lo assim, tranquilo e quentinho, sendo que a pouco tempo atrás estava abandonado na rua, com frio e fome.


Otabek secou seus pêlos cuidadosamente com seu secador de cabelos e em seguida levou-o até a cozinha, onde encheu uma tigela com leite e observou o bichano beber com tanta vontade que seu bigode e o chão em volta dele ficaram todos respingados com o líquido branco.


Enquanto observava a cena, particularmente fofa, perguntou-se se a empresa também cobriria os gastos do veterinário; não seria nada mal. Mas planejava ficar com o gato, mesmo quando Yurio fosse embora, então já era responsabilidade dele aquela altura.


Mal pensou no andróide e ele surgiu do nada atrás de Otabek, fazendo o moreno se assustar ao ser desperto de seus próprios pensamentos devido a presença inesperada atrás de si.


— Otabek… Você poderia emprestar uma toalha?


Otabek virou-se, mas logo tentou focar sua vista em qualquer outro lugar que não fosse o corpo nu e molhado de Yurio.


— Puta merda, Yurio, não ande pelado pela casa! – tentou soar bravo, mas estava constrangido demais e sua voz acabou entregando que estava mais envergonhado que qualquer outra coisa.


— É que você não me deu uma toalha… – o loiro disse entre um bater de dentes e outro.


Otabek foi até seu guarda roupa, sem olhar para Yurio nem por um milissegundo, pegou uma toalha e praticamente a jogou ao loiro, que rapidamente enrolou-se nela, e ali ficou.


— Não vai se secar? E se vestir? – perguntou Otabek depois de observá-lo tremer de frio no mesmo lugar por algum tempo. Yurio o olhou, interrogativo, e Otabek suspirou, indo novamente até o guarda-roupas para apanhar outra toalha e secar os cabelos, pelo menos.


Otabek estava bem perto enquanto fazia isso, então Yurio aproveitou para analisar seu rosto mais de perto. Ele era esbelto, seus traços bem definidos e atraentes e isso era inegável, mas o que mais chamou atenção foram os arranhões distribuídos por toda a parte na pele que estava visível.


Não eram arranhões profundos, mas eram uma novidade para Yurio, que nunca havia se machucado antes ou visto um corte de perto.


Não se conteve e  levou a mão cuidadosamente até o arranhão mais profundo, que se encontrava na parte inferior do pescoço e se estendia até algum lugar coberto pela camisa de Otabek.


Correu os dedos suavemente pela linha avermelhada e desigual, e só parou quando percebeu que os movimentos de Otabek com a toalha em sua cabeça haviam parado. Olhou para cima e viu que o moreno o encarava quase com espanto. Talvez não fosse bem isso. Talvez Yurio só não conhecesse aquela expressão, mas espanto era o mais próximo com o que conseguia assimilar.


— Dói? – perguntou o loiro, baixinho, tomado pela curiosidade.


— Incomoda. – Otabek respondeu depois de pigarrear e então se afastou rapidamente.

O que incomodava não era o corte, e sim que fosse tão sensível aos contatos de Yurio, e que sentisse seu corpo amolecer diante daquelas carícias sutis que vinham do outro. Que diabos era aquilo? Carência? Ele não era de cair facilmente por alguém assim, no geral.


— Melhor terminar de se secar e ir vestir uma roupa. – Otabek disse enquanto retornava ao banheiro para tomar seu próprio banho.


Era tão boa a sensação de tirar as roupas geladas e se afundar em água quente depois de um dia frio e cansativo. Mas ainda precisaria trabalhar, e até não era tão ruim... Ser DJ havia sido transformando em um bico, mas não deixava de ser um hobbie. Além de ser um divertimento lhe garantia uma grana extra e algum status. Não tinha do que reclamar.


O que lhe preocupava mesmo era Yurio. “Robôs de inteligência”, eles diziam, mas o rapaz não sabia absolutamente nada sobre o mundo, e em um de seus primeiros dias de vida já iria para uma boate… Não soava uma ótima idéia. Mas Otabek não era sua babá, afinal de contas. Tinha sua própria vida, e não pararia com ela por causa do loiro.


O banho estava tão relaxante que Otabek quase adormecendo, mas um riso distante o fez voltar à realidade. Acabou de pensar consigo mesmo que não era a babá de Yurio, mas se viu obrigado a deixar o banho imediatamente para ver o que ele estava fazendo.


Secou-se de qualquer jeito e se enfiou na primeira roupa limpa que achou pela frente.


Esperava encontrar Yurio colocando a casa em chamas, mas tudo que pareceu ficar em chamas foi todo o seu ser ao ver que o loiro brincava com o gato, e que ambos eram tão graciosos e se divertiam tão genuinamente que sequer parecia real.


Observou em silêncio durante algum tempo, e nem percebia que a cada gargalhada gostosa de Yurio, o sorriso involuntário que pairava em seus lábios se alargava mais.


Até que os olhos atentos do felino captaram sua presença, e sua atenção em Otabek acabou por chamar o olhar de Yurio para ele também.


Percebeu que o loiro usava apenas seu moletom, sem se importar se estava sujo, mesmo que superficialmente, e teve que lutar contra todos os nervos de seu corpo para que sua atenção não se perdesse nas coxas fartas e leitosas que estavam à mostra.


— Não compramos um pijama pra você? – perguntou Otabek depois de pigarrear.


— Eu sei, mas gosto dessa roupa. O pijama não me pareceu tão confortável…


— Está suja.


— Não me importo. – disse asperamente, franzindo o cenho enquanto um biquinho leve se formava em seus lábios.


Otabek suspirou, percebendo que sua personalidade estava se tornando forte e geniosa demais para que tivesse paciência de lidar com ela.


— Aliás, por que pijama? Achei que íamos sair e… – Yurio começou a falar mas logo parou e começou a respirar mais forte, até que soltou um espirro. E mal se recuperou desse, veio outro e depois outro.


Otabek apanhou uma caixa de lenços quase aposentada na estante e levou até ele, que pegou um dos lenços e assoou o nariz, em seguida olhando para o moreno que havia se sentado ao seu lado.


— Estou me sentindo estranho… – disse Yurio, anasaladamente, e em seguida tossiu.


— Será que… – Otabek sussurrou, quase para si mesmo e então aproximou seu rosto do outro enquanto afastava seus cabelos da testa, a fim de encostá-la na sua, e assim o fez.


Yurio sequer respirava enquanto Otabek estava tão perto dele, mas sentia a respiração quente do outro em seu rosto, e achou aquela sensação gostosa. Constatou que a maioria dos contatos humanos eram agradáveis.


— Droga. Você ficou doente, eu te disse pra não ficar na chuva… – o moreno afundou-se no sofá, já imaginando que não poderia deixá-lo sozinho em casa e ir até a festa, o que era uma merda.


Ou deveria ser.


Ele queria que fosse, mas não parecia tão ruim assim ficar em casa aquela noite. Poderia ser que estivesse cansado, ou porque estava muito frio e entre tantos outros motivos que Otabek pensou, o único que ele fingiu não ver, era que, talvez não fosse ruim ficar em casa essa noite porque não estaria sozinho.


Porque tinha uma companhia que acima de tudo era surpreendentemente agradável. Na verdade, agora tinha duas.


Então ligou para o dono do clube, que era um conhecido próximo, e disse que não poderia ir naquela noite por motivos pessoais; acabaram marcando para o final de semana mais próximo.


Yurio não ouviu toda a conversa, já que Otabek se retirou da sala enquanto falava, mas quando voltou o loiro parecia contrariado.


— Você não pôde ir por minha culpa. – ele abraçou as pernas e apoiou o queixo entre os joelhos, abaixando o olhar ao chão de maneira melancólica.


— Você não ficou doente porque quis.


Otabek limitou-se a dizer isso, e ele realmente não culpava Yurio. Não era bom com as palavras, mas a maneira como cuidou dele demonstrava que era uma pessoa benevolente, pelo menos naquele momento, com aquele ser.


Até fez uma coisa que não fazia há muito tempo: uma sopa bem quente e leve, a mesma que sua mãe costumava lhe fazer quando adoecia na infância. Aliás, se tinha uma coisa que havia sido desperta em Otabek desde que Yurio chegou eram lembranças de quando era criança. Isso provavelmente se devia ao jeitinho do robô, que lhe remetia à tempos iluminados e felicidade genuína.


Talvez fosse por sua pureza ou seu jeito inocente de ver o mundo, coisa que Otabek já nem sabia mais o que era. A verdade é que depois de passar por tantas coisas, se sentia corrompido. E essa corrupção parecia tão intensamente cravada em sua alma que jamais poderia ser purificada.


Ele não queria que Yurio conhecesse toda a maldade que ele conheceu, mesmo que ele fosse um robô. Ninguém merecia aquilo. Então cuidaria dele, o quanto e até quando pudesse. E se o que podia fazer naquele momento era apenas uma sopa, a faria de bom grado.


O loiro estava deitado no sofá, envolvido em um edredom grosso e confortável, sobre várias almofadas fofas enquanto passava um documentário qualquer na TV, acariciando o gato que já estava dormindo sobre sua barriga.


Seus olhos estavam no felino; a TV parecia não ser interessante o bastante para entretê-lo, mas aquele cheiro de comida era com certeza atrativo.


— Pra mim? – perguntou com os olhos cintilantes quando Otabek sentou-se no chão ao seu lado e lhe estendeu a tigela.


Era uma pergunta um tanto óbvia, mas Otabek apenas assentiu, pacientemente.


Ele pegou a tigela sem cerimônias e bebeu a sopa rapidamente, o mais rápido que era permitido pelo líquido quente. Otabek o observou, satisfeito que tivesse gostado da sopa.


— Isso é muito gostoso. – disse Yurio, quase sem ar por ter bebido tão depressa. Só então se deu conta de que Otabek estava no chão. – Sai do chão. Tá frio.


Ele se ajeitou no sofá para que tivesse espaço para Otabek, e o moreno tomou o lugar ao seu lado. Agora o sofá já não parecia tão pequeno quanto pareceu durante a noite anterior, quando teve que dormir ali. Parecia haver um enorme espaço entre eles e que o móvel ficava cada vez mais espaçoso. Então eles se aproximaram aos poucos, mexendo-se timidamente, e sem que percebessem estavam o mais perto que o gato que dormia entre eles permitia que ficassem um do outro.


— Então... Qual será o nome dele? – perguntou Otabek para puxar assunto, ainda olhando sem ver a televisão.


— Não sei. Pode escolher você... Acho que não sei muitos nomes legais.


Otabek sorriu muito brevemente, achando graça na voz anasalada de Yurio e em como ele estava trocando “m” por “b” devido ao nariz congestionado.


— Isso não seria justo já que ele é mais seu que meu.


— Hm... Vou pensar em algo… Vou pensar… Amanhã… – o tom de voz diminuiu gradativamente até que Otabek sentiu um peso em seu ombro.


De imediato assustou-se, mas já estava quase acostumado-se com essas aproximações repentinas.


Yurio encostou-se nele e ali mesmo adormeceu, quase que instantaneamente. E o moreno teria ficado ali, quase imóvel, até que ele acordasse, se ele não soubesse que dormir naquela posição causaria desconforto ao outro.


O loiro ressonava e dormia pesadamente, sequer se mexeu enquanto Otabek o pegou no colo e levou com muito cuidado até a cama.


Pensar em encarar mais uma noite no sofá o fez pensar em dormir ali mesmo, afinal, a cama era enorme, mas não queria assustar Yurio, por mais que sua pura e única intenção fosse uma noite confortável de sono.


Até a respiração de Yurio soava agradável. Era leve, bem compassada e lenta e fazia querer ouvir até pegar no sono. Otabek queria dormir com ele, no sentido mais inocente da palavra, mas não o fez. Prometeu para si mesmo que aguentaria as noites no sofá até que tivesse sua cama só para si novamente.


Então voltou ao pequeno móvel e se aconchegou ali. Ainda era muito cedo, então o sono demorou horas para vir. Otabek era, no geral, uma criatura noturna, e já era bem difícil dormir durante a noite, ainda mais quando tantas informações bombardeavam seus pensamentos sem parar.


O gato, até então sem nome, se aconchegou sobre seu abdômen, e o calor que emanava dele era acolhedor e aconchegante. Antes de pegar no sono, Otabek tomou nota mental de levá-lo ao veterinário no dia seguinte, sem falta.


Adormeceu, gradativamente, um sono profundo e não tão tranquilo.


Sonhou que estava preso. Estava cercado por grades enferrujadas enquanto uma chuva negra e incessante caía sobre seu corpo. Era desesperador estar ali, no frio, gritando por ajuda, sem que ninguém viesse em seu socorro, sentindo a garganta apertada, sufocando-se em seu próprio pânico.


Estava sem forças; perdeu as esperanças. Ninguém viria. Pessoas passavam do lado de fora todo o tempo, mas ninguém o escutava. Ou simplesmente não se importavam.


Deitou no chão lamacento, sentindo o resto de energia que lhe restava esvair-se. Escuridão o tomou, e caiu, no abismo infinito de seu próprio vazio interior.


Sentia-se caindo no esquecimento. No vácuo eterno. Na sarjeta do universo.


Pouco antes que sua consciência lhe deixasse, uma claridade invadiu seu campo de visão. Era uma luz etérea, suave, quente, maciça; parecia preencher todo o seu ser. E quando Otabek achou que não, alguém abriu a porta da cela e lhe estendeu a mão.


A chuva não havia cessado, mas Otabek tinha certeza de que aquele era algum ser divino; lhe lembrava o calor do sol. Se o Sol tivesse uma personificação, seria aquela. Tão intenso e ao mesmo tempo tão singelo, portando um sorriso excepcionalmente doce e olhos esverdeados que eram tão valentes que poderiam derretê-lo ao mesmo tempo em que o congelavam. Ele conhecia aquela pessoa. Não conseguia se lembrar quem era, entretanto aquele sorriso era inesquecível e o que sentia ao olhá-lo era humanamente indescritível.


A chuva não caía sobre o ser a sua frente e nem em volta dele. E aquela chuva parecia cada vez mais fria, tão fria que doía, talvez porque agora ele sabia como era ter o calor ao alcance de sua mão, envolvendo seu corpo, preenchendo-o de luz.

O sonho acabou antes que ele pudesse se unir ao sacerdote do Sol. O sonho acabou sem que Otabek pudesse deixar a chuva.

"Porque às vezes parece que o mundo está se fechando em mim e não há nenhuma maneira de me libertar, e então eu vejo você chegar para mim. Às vezes eu quero desistir, quero ceder, então eu vejo você e tudo está certo. Quando eu vejo você sorrir eu posso enfrentar o mundo e vejo um raio de luz, vejo-o brilhando através da chuva..." (When I See You Smile - Bad English)

Notas Finais


Perdoa o trecho de música enorme e não desiste de mim T.T não me contive.

O capítulo não foi betado pela @HokutoYuuri, porque tive pressa em postar, e o capítulo passado também não foi, então tô meio insegura :/ ... Massss, espero que tenham gostado, AAAAA <3

Nessa etapa da fic tô me inspirando muito na música Sweet Child O' Mine do Guns N' Roses, mas, como todas as minhas fics, eu montei playlist pra ela, então se quiserem posso deixar uma recomendação de música em cada capítulo XD

OBRIGADA por me fazerem tão feliz lendo minha história e por todo o apoio!

❤❤❤


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