História Confissões de uma ex adolescente - Capítulo 2


Escrita por: ~

Postado
Categorias Originais
Tags Drama, História, Novela, Romance
Exibições 5
Palavras 6.551
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Slash
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Ela não é minha amiga, é só minha prima!


Fanfic / Fanfiction Confissões de uma ex adolescente - Capítulo 2 - Ela não é minha amiga, é só minha prima!

Descemos as escadas que levava à garagem, onde havia um grupo reunido. Duas garotas e dois garotos.

-Sebastian!- uma das garotas o chamou quando descemos. Ele me olhou e fez um sinal com a cabeça para que o acompanhasse. O grupo estava no fim do corredor, na entrada da porta que levava até o jardim que ficava atrás da casa.

-Oi gente. – Sebastian disse amistoso. –Essa é Prince.

-Prince... Que belo nome. – Um dos garotos falou. – Aliás, meu nome é Derick. – Algo no olhar dele era feroz como um tigre. Um olhar afiado que atravessa sua alma sem você sentir. Senti-me como se tivesse despida de qualquer roupa na frente dele, fiquei um pouco sem graça. Ele beijou minha mão e recuou, mas sem deixar de olhar nos meus olhos.

-Se você não fosse gay – O outro se pronunciou tocando levemente o ombro de Derick – Eu ficaria com ciúmes. – Piscou para mim e sorriu – Meu nome é Patrick. – Ele era mais magro e alto do que Derick. Tinha um piercing na sobrancelha esquerda, olhos tão escuros quanto uma noite escura.

Uma das garotas riu.

-Não ligue. Ele é melhor depois que o conhece. – Ela tinha olhos verdes e um sotaque diferente. Como se fosse de outra cidade. Cabelos compridos e loiros bem vivos começavam lisos e terminavam em quase cachos. Sua pele era tão branca como se nunca tivesse levado sol na vida. – Me chamo Elisa. – seu sorriso era tão bonito e perfeito, que ela podia ser classificada com uma das mulheres mais bonitas do mundo. – Essa é minha namorada – ela deslizou a mão pela cintura da garota que estava ao lado dela – Julie.

Julie era mais baixa. Tinha olhos grandes e castanhos iguais aos meus. Cabelos mais curtos que o meu e preto. Usava um transversal na orelha direita e alguns brincos no resto da orelha. Um piercing no septo.

-Eai. – Ela falou e fez um aceno com a cabeça.

Algo neles fazia eu me sentir diferente, como se aquela não fosse a primeira vez que nos encontramos. Eu tinha a sensação de que ainda iria vê-los mais vezes, ou talvez eu quisesse isso. Eles eram bem divertidos, mas sem serem maus. Eram gentis uns com os outros, era estranho, pareciam mais próximos a mim do que pessoas com a qual convivi toda minha vida ou grande parte dela.

Estávamos sentados no quintal dos fundos, próximo ao imenso jardim que minha tia tinha feito com vários tipos de flores e plantas.

-Vocês são engraçados. Um estereótipo totalmente diferente do que eu esperava. – Falei rindo.

-O que você esperava exatamente? – Patrick estava sentado inclinado para trás, apoiando-se nas mãos.

-Sei lá. Menos que você tendo uma tatuagem de caveira cantasse na igreja. – Respondi encarando-o, ele não me encarou de volta.

-As pessoas criam estereótipos para que possam julgar as pessoas antes de conhecê-las. – Hesitou alguns segundos e continuou. – As pessoas associam caveiras com morte ou algo satânico e não é bem assim. Todos têm um esqueleto por baixo da pele, somos assim. Pra mim é uma analogia, Deus nos vê como realmente somos, nosso verdadeiro ser, a caveira é uma representação disso. – Ele colocou a mão sobre a tatuagem que ficava no ombro esquerdo. Era uma cabeça de caveira envolvida em rosas pintadas de vermelhas. Não era visível já que estava de camiseta, se ele não mostrasse, nunca saberia.

-Acho interessante seu ponto de vista. – Seu olhar parecia surpreso, como se esperasse uma repressão ou crítica, talvez realmente estivesse. – Confesso que quando desci e vi vocês, esperava um grupo com drogas e bebidas.

-Decepcionada?- Sebastian estava sentado ao meu lado.

- Um pouco. – Ri – Todos aqui bebem.

-Menos você. – Elisa apontou para meu copo de refrigerante de laranja.

-E vocês. – Complementei. – Mas por que se isolaram aqui em baixo ao invés de aproveitar a festa? – Perguntei.

-Bem – Quem respondeu foi Derick – Meus pais estão lá em cima e eles não sabem sobre nós – Segurou a mão de Patrick com firmeza -, sobre mim...

Não falei nada, não precisava, era o suficiente para entender.

-Queria ter a coragem de Pat, mas espero me assumir logo. É que meus pais são muito tradicionais. – Sua voz tropeçou entre as palavras e a frase quase não saiu.

-Não precisa explicar se não quiser. – Falei – Nem imagino o quanto deve ser difícil.

-Pois é. – Julie tinha uma profunda tristeza em sua voz - Meus pais me expulsaram de casa porque não conseguiram aceitar. Passei muitos anos me escondendo, presa ao que eles queriam que eu fosse, mas eu sabia que não era verdadeiramente eu. Mesmo com as consequências sei que fiz o certo.

Ela e Elisa se entreolharam. Elisa a envolveu em seus braços e Julie deitou a cabeça no ombro da namorada.

- Quero ser forte como vocês. – A voz de Derick falhou.

-E você é. – Falei meio que por impulso. – Talvez só não seja o momento ainda.

Ele sorriu.

-Você é diferente da última garota que Sebastian nos apresentou. – Derick colocou sua mão sobre a minha.

-Considere-se com sorte. – Sebastian riu passando a mão em seus cabelos prata.

-Por quê? Você apresenta muitas garotas?

-Na verdade não. Mas quis apresentar você.

-E por que você faria isso?

-Não sei. – Senti seu toque suave em meus cabelos – Acho que você é diferente. – Sua mão deslizou até meu rosto, se tornando um toque mais firme. Seus dedos seguravam meu rosto. Fechei os olhos, mais nervosa do que poderia imaginar.

Sebastian foi se aproximando e cerrando seus olhos até fechá-los. Pude sentir sua respiração em minha bochecha, uma de suas mãos em minha cintura. Antes que eu pudesse beijá-lo uma voz cortou todo o clima.

-Sebastian! – Era uma garota de cabelos compridos e loiros bem claros, com uma mecha rosa na frente.

Recuei meio assustada, ele pareceu confuso e surpreso. Não tirou a mão da minha cintura, apenas olhou para a entrada.

A garota usava um short jeans, um cropped preto aberto nos ombros e botas até os joelhos de salto.

-Nick... O que faz aqui? – Ele perguntou ainda espantado.

-Ed convidou todos da loja, esqueceu? – Estava apoiada no batente da porta. Saiu e se aproximou.

-Chegou a estraga prazeres. – Patrick bufou. – Você sempre chega na hora errada.

Nick revirou seus olhos por trás de seus longos cílios. Estava bem maquiada e com um perfume forte, bem doce.

-Por isso gosto de você, Patrick. Sempre receptivo.

Ele forçou um sorriso e bebeu mais gole do seu chá gelado.

Estávamos sentados nos degraus que levavam ao jardim. Elisa e Julie estavam nos degraus de baixo, viradas para nós. Patrick, Derick eu e Sebastian. Ela sentou ao lado de Sebastian, pegou a garrafa de vinho que estava ao lado dele. Ao contrário dos outros, ele bebia. Virou a garrafa e bebeu direto do gargalo.

-O que você faz aqui? Você não trabalha lá. Ed o chamou também?

-Você sabe que eu não gosto que faça isso. – Ele reclamou. – E sim, ele me chamou. Mas se eu soubesse que você estaria não teria aparecido.

-Relaxa, não tenho nenhuma doença. – Continuou a beber. – Quem é ela? – Olhou para mim de canto de olho, Sebastian tirou a mão da minha cintura.

- Prince. – Ele me olhou e sorriu, ela não pareceu gostar.

Eu estava sem graça e pude perceber que ele também. Cocei minha testa e arrumei minha franja, que fica um pouco abaixo do meu queixo. Era algo que eu fazia sempre que estava nervosa.

-Acho que prefiro subir. – Disse Elisa se levantando.

Julie levantou em seguida.

-Tudo bem, estou com fome mesmo. – Disse segurando a mão da namorada.

-Vocês vêm? – Perguntou Elisa.

-Vamos? – Sebastian olhou para mim e ignorou o fato de que Nick estava claramente dando em cima dele.

Concordei. Ele levantou e me ajudou.

-Vamos daqui a pouco. – Derick falou parecendo receoso.

Subimos de volta. Olhares para Elisa e Julie foram inevitáveis, mesmo assim elas pareciam nem ligar. Talvez já estivessem acostumadas. Percebi alguns comentários e risadas que logo pararam ao perceberem que eu estava encarando. Sebastian respeitou certo espaço entre nós já que minha família toda estava ali. Havia perdido minha chance de ficar com o garoto mais gato da festa, de novo. Pior que dessa vez era por causa de uma garota que eu nem conhecia, mas que pelo jeito o conhecia MUITO bem. Não demorou muito para que Patrick e Derick subissem, separados. Derick foi ficar um pouco com seus pais e Patrick se juntou a nós.

- A mãe dele me adora. – Acenou de volta quando a mulher abriu um enorme sorriso e o chamou com a mão. Ele fez um sinal de já vou. – Em compensação o pai me odeia – Ao lado da simpática mulher estava um senhor de cara fechada apenas ouvindo o que sua mulher e filho falavam. -, acha que sou um péssimo exemplo para o garoto. E talvez eu seja mesmo. – Se virou para nós novamente.

-Eles sabem que você é gay? – Perguntei sem saber se deveria.

-Sabem. Mas não sabem sobre Derick, acham que somos apenas melhores amigos. Mas desconfio que o pai dele já tenha percebido algo de diferente no filho.

Dei um pequeno sorriso e localizei cada um de minha família, todos distraídos.

- Eu vou lá. – Caminhou até os três e cumprimentou a mãe do garoto que parecia bem feliz em vê-lo.

Ficamos ali conversando por um bom tempo. Sebastian falava sobre como havia conhecido cada um deles, e ríamos com as histórias engraçadas dele. Ele era tão descontraído e sincero ao mesmo tempo. Eu não iria mais ficar com ele, isso se tornou bem óbvio quando tivemos que voltar, ainda assim isso não impediu que eu me divertisse bastante com eles.

A festa acabou tarde, eu sabia que não iria vê-los tão cedo. Descartei qualquer hipótese de eu reencontrar Sebastian, acho que ele também. Após todos irem embora, meus pais, meus irmãos, Bárbara e eu ajudamos minha tia arrumar tudo. Fomos dormir bem tarde. Minha tia e meu tio ficaram em um quarto com a minha priminha, os de casa ficaram e m outro quarto, deixando Bárbara e eu na sala. Ela no sofá e eu no colchão no chão. Não trocamos uma palavra e por mim continuaria assim até ela ir embora para casa dela novamente.

Estava escuro e crianças brincavam nos fundos de uma casa. Estava embaçado, não dava para ver seus rostos em meio à escuridão. Elas corriam para os fundos da casa para se esconderem, brincavam de esconde- esconde. Após serem encontradas pelo garoto mais alto da turma, todos voltam correndo, exceto uma garota. Quando ela pensou em se entregar para não ficar ali sozinha uma mãos surge do escuro segurando seu braço frágil e delicado com firmeza, sem machucá-la. A única coisa capaz de ver era sua camiseta vermelha, não era possível ver seu rosto.

"Shhhh" foi o que ele fez para a garota que não entendia o que estava acontecendo. Ele a puxou para mais perto e disse "Ele ainda não te achou, pode continuar escondida". A garota estava surpresa e assustada, não sabia o que fazer então assentiu. Ele deu um passo à frente e encostou seu braço na parede que a garota estava encostada. Com a outra mão ele pegou a ponta da blusa da menina e começou a subi-la lentamente tentando olhar por baixo da mesma. Quando a blusa já estava na altura de seus recém formados seios em um reflexo rápido ela agarrou a ponta da blusa e puxou para baixo. O homem que tentava enxergar por baixo da blusa deu um passo para trás surpreso. Seus olhos arregalados a encaravam, sua expressão estava ficando séria novamente, ela respirava acelerada, estava assustada. O que era aquilo? Parecia tão irreal, mas realmente estava acontecendo. Ela se virou para sair dali, quando sentiu a mão quente dele a segurar pelo braço novamente. "Eu preciso ir", foi o que sua voz rouca, quase falha disse e um sorriso malicioso lhe veio ao rosto. As coisas ficaram mais embaçadas e então só se conseguiam ouvir gritos abafados, barulho de vidro quebrando seguido por um profundo silêncio.

Acordei de uma vez. Suada, com a respiração ofegante. Outra vez aquele pesadelo. Já fazia algum tempo que eu sonhava com aquilo, não sabia por que, apenas sonho todas as noites praticamente, como uma memória de algo que não sei o que é. Bárbara dormia profundamente, voltei a deitar e virei para o lado oposto de que eu estava, fiquei pensando até cair no sono novamente.

No outro dia fomos embora logo após o café. Frustração era meu segundo nome naquele momento. Havia sido roubada e não tinha mais dinheiro algum, tudo o que me restava estava ali. Chegamos em casa na hora do almoço, porém ninguém estava com fome.

-Prince... – Minha mãe falou assim que passei pela porta de casa, pronta para ir para o meu quarto.

-Sim? – Me virei e vi Bárbara entrando logo atrás dela com suas malas, desajeitadamente. Seria engraçado em uma situação que eu falasse com ela.

-Mostre pra Bárbara o quarto de vocês.

Eu desacreditei naquelas palavras. Era como se tivesse desferido um soco na minha barriga. A olhei como uma expressão desacreditada e ela me repreendeu com o olhar. Suspirei em silêncio.

-Vem. – falei com a boca quase fechada e subi sem nem perguntar se ela precisava de ajuda.

Minha mãe sussurrou algo que eu não entendi e ela veio atrás arrastando suas quinhentas malas. Pra quê tantas coisas? Eu estava realmente torcendo pra que ela não precisasse passar muito tempo ali. Abri a porta do meu quarto e vi sua sombra se aproximar através da parede até chegar à porta.

- Pode deixar suas coisas aqui. – Falei sem encará-la pronta para sair do quarto.

-Eu posso dormir na sala. – Ela disse suavemente após colocar suas malas no chão.

-Não precisa. – Minha mãe iria ficar uma fera comigo se soubesse que eu cogitei a ideia.

Enquanto ela subia e descia para carregar o restante das malas fui tomar banho e trocar de roupa.

Desci para a cozinha após me arrumar e lá estava ela com a minha mãe. As duas conversavam enquanto cortavam verduras, conversavam como se fossem velhas amigas, como se fosse eu e ela antigamente.

-Quer nos ajudar? – Bárbara me perguntou. Ela havia parado de cortar e olhava para mim com seus grandes e brilhantes olhos azuis.

-Não, eu passo. – Respondi secamente. Peguei uma goiaba e sai dali, voltei para o meu quarto.

Por algum motivo me lembrei da noite passada e das pessoas que eu havia conhecido. Sebastian... Engraçado como eu tive uma forte sensação sobre ele, como se não fosse um simples garoto que eu havia acabado de conhecer. Mas o que eu sabia? Era só uma lembrança agora, talvez eu nunca mais o visse, afinal, de todas as festas de família aquela foi a primeira vez que eu o vi. Senti vontade de fazer algo que eu não fazia há muito tempo... Desenhar! Peguei meu material e joguei tudo sobre a mesa que se estendia por toda a parede do lado direito do quarto. Eu já tinha uma pasta com vários desenhos, porém fazia tempo que não desenhava mais. Relaxei e deixei a cena fluir na minha mente, era como se eu ainda estivesse lá, conseguia ver perfeitamente na minha mente. Nós dois sentados na escada quase nos beijando, quase... Demorou um tempo até eu terminar, havia ficado muito bom.

Não tinha ideia de que horas era até meu celular começar a tocar e eu ter que olhar a tela. Duas horas da tarde.

-Alô?- Atendi.

-Prince? Sou eu, Ana.

Ana era uma das minhas amigas de um curso que fiz de inglês, mesmo depois do fim das aulas ainda mantemos contato e nos encontramos às vezes. Mas já fazia um bom tempo que não nos víamos.

-Ah, Ana! Que saudade! Faz tempo que não nos vemos.

-Sim. – Ela deu uma risada fofa – E é exatamente por isso que estou ligando. A galera marcou de sair hoje, vamos?

-Que horas? – Era a chance perfeita de sair de casa e não ter que ficar pensando em como evitar Bárbara.

-Vamos nos encontrar na pracinha umas cinco horas. Você vai?

-Vou. – Nem perguntei para os meus pais, mas estava contando com o fato de que não iam me impedir.

-Que maravilha! – Dava para sentir a empolgação dela como se estivesse bem ao meu lado. –Até lá então. Beijos.

-Beijos. – Falei.

Corri para a cozinha, todos estavam lá colocando seus pratos e saindo para comer. Falei primeiro com meu pai, que deixou facilmente. Mas minha mãe tinha que complicar.

-Mas e Bárbara? – Ela não estava presente naquele momento. Tinha ido ajudar meus irmãos a levarem a comida e bebida deles.

-O que tem ela? – Me fiz de desentendida e ela arqueou a sobrancelha como se eu já soubesse a resposta.

-Ela vai também, certo? – Cruzou os braços e me encarou, após olhar por alguns segundos para o meu pai que pretendia sair sem ser notado. Ele sempre fazia isso quando percebia que minha mãe queria metê-lo em algum assunto que não era de seu interesse. –Afonso... – Ele parou bem onde estava ainda segurando seu prato com comida em uma mão e uma xícara grande de refrigerante na outra.

-Mas mãe... – Era óbvio que ela sabia que eu não iria levá-la. Antes que eu pudesse argumentar o porquê de eu não levá-la, ela continuou.

-Se ela não for, você também não vai. – Ela disse firme.

-Pai... – Resmunguei o encarando. Ele olhou para minha mãe e para mim novamente. Ele sabia que se fosse argumentar contra minha mãe não teria a mínima chance, então preferia evitar discussões desnecessárias ficando ao lado dela.

-Escute sua mãe – Ele disse após tomar um gole de seu refrigerante. -, Bárbara precisa se distrair um pouco também, ela passou por muita coisa.

Meu pai nunca discursava, mas uma frase dele era o bastante para te deixar se sentindo culpada ou no mínimo pensativa. Mesmo assim se ainda esperam que a gente volte a ser o que era isso não vai acontecer. Definitivamente.

Revirei meus olhos, bufando de raiva. Foi quando escutei a voz de Bárbara aumentando conforme ela se aproximava.

-Não precisam brigar por minha causa, nem se incomodar. Vou ficar bem ficando aqui. – disse séria, segurando seus braços contra a barriga.

Minha mãe sabia que ela estava mentindo para eu ir sozinha, e eu também sabia.

-Ou as duas ou ninguém. – Essas foram, definitivamente, as palavras finais.

Virei para Bárbara com todo o ódio que podia, eu queria chutá-la para o mais longe dali que pudesse. Me contive, suspirei e disse:

-Saímos dez para as cinco. – Falei e saí dali pisando forte.

Eram cinco minutos da minha casa até a pracinha. Almocei no meu quarto mesmo e depois fui tomar um banho. O banheiro era no fim do corredor, após passar todos os quartos. Bárbara foi depois de mim. Mesmo com o fato de ter que aguentá-la eu estava feliz porque iria ver meus amigos. Fazia tempos que a gente não saia.

Estava no quarto apenas de toalha. Havia começado a pegar minhas coisas para me maquiar, costumo colocar músicas para escutar enquanto me arrumo. Não foi diferente.

Primeiro começou uma música calma, dedilhada em um violão, mesclada com tons de piano. Uma voz suave feminina cantava, era relaxante. Depois começou umas mais animadas. Algumas de rock de uma banda que eu amo, eu já estava cantando junto e performando as músicas. Até tocar uma que eu sabia até mesmo uma coreografia que eu havia aprendido na internet. Quando a música estava em seus dez segundos eu já estava no meio do quarto dançando e cantando. Era uma batida hip hop, a música era muito famosa.

Estava realmente empolgada, fazia até alguns extras. Só não contava que quando a música estivesse quase no fim alguém fosse simplesmente invadir meu quarto. Não sei quanto tempo já havia se passado, mas assim que fiz um dos passos finais a toalha se desenrolou do meu corpo e caiu, nessa mesma hora a porta se abriu e Bárbara, também enrolada em uma toalha, entrou. Ela congelou na mesma hora. Não sei o quanto ela conseguiu ver, porém ela saiu aos pulos e eu me virei desesperada.

-Ai meu Deus! – Escutei ela falar, enquanto fechava a porta aos tropeços para fora de novo.

-NÃO ENTRA! – Gritei alcançando a toalha desajeita.

-Falasse isso antes. – Ela resmungou.

Envergonhada, peguei a toalha do chão e me enrolei novamente. Minhas roupas já estavam separadas sobre a cama, as peguei também. Dei pausa na música e após pegar tudo abri a porta. Bárbara estava encostada na parede de frente para a porta, olhava para os lados, como se tivesse medo de que alguém a visse daquela forma. Seus cabelos presos em um coque mal feito, com fios soltos, e seus olhos arregalados que focaram em mim. Ela se endireitou para a frente, segurava suas roupas contra o corpo.

-Pode se trocar aqui, eu vou para o quarto da minha mãe.

-Tudo bem. –Ela passou direto, já entrando no quarto.

Mesmo tendo me trocado lá, ainda havia muitas coisas que eu precisava no meu quarto. Como minha maquiagem e escova de cabelo. Voltei para o meu quarto e bati na porta.

-Posso entrar? – Que ironia eu ter que pedir para entrar no MEU quarto.

-Claro. – A voz parecia distante, mas firme.

Entrei e ela estava sentada de frente para a penteadeira, se arrumando enquanto se olhava no espelho. Já havia se vestido e sobre a cama estava sua mala com várias roupas espalhadas. Não falei nada, mesmo que tenha me sentido invadida. Definitivamente.

-Não se preocupe, eu vou arrumar tudo. - Disse assim que entrei.

-Sem problemas. – Eu ainda estava envergonhada.

Ela usava a própria maquiagem, a própria escova, nada meu, o que era bom, ao menos isso. Olhei de soslaio para ela e reparei em seus braços, naquele instante não estavam cheios de pulseiras, como desde que a encontrei. Foi por alguns segundos até ela disfarças e colocar as pulseiras de volta, mas acho que vi cicatrizes. Não consegui focar minha visão para ter certeza, não perguntei, não a encarei, apenas peguei tudo o que precisava e sai. Fiquei pensando no que poderia ter acontecido a ela. Caiu em cima de cacos de vidro? Alguém fez aquilo com ela? Ou foi só impressão? Não dava para saber e eu não iria perguntar. Definitivamente, não.

Terminei de me arrumar e quando voltei para o quarto tudo já estava organizado e Bárbara não estava mais lá. Guardei tudo e peguei dinheiro suficiente para as duas. Era óbvio que minha mãe iria mandar eu pagar para ela, então adiantei as coisas.

Ao descer a vi sentada no sofá da sala com as pernas cruzadas. Meus irmãos estavam sentados no chão brincando de algo que eu não consegui identificar o que era. Ela usava sapatilhas pretas, meia calça preta bordada de flores, shorts jeans azul escuro, uma camiseta branca lisa e uma blusa xadrez vermelha por cima, com as mangas puxadas até os cotovelos e suas várias pulseiras nos dois braços. Mesmo com raiva eu precisava admitir que ela tinha estilo. Já eu me sentia de pijama comparado a ela. Estava com meu all star preto, um short jeans e uma camiseta escrita "I AM THE SUPER GIRL" e um desenho do "S" igual do Superman, pode parecer infantil, mas era uma das minhas blusas favoritas. Ela estava toda produzida, seus cabelos longos jogados de lado, ondulados nas pontas. Eu estava mais básica possível.

Pegamos nossas coisas e saímos. Ambas com uma bolsa de lado, ironicamente ela usava uma que eu dei de presente para ela de aniversário, há bastante tempo. Fingi nem perceber.

Fomos as primeiras a chegar à praça. Não trocamos nenhuma palavra. Era bem desconfortável ficar sozinha com ela. Eu me sentia mal, me lembrava do passado sempre que a via. Definitivamente, eram os minutos mais agonizantes da minha vida.

Não demorou muito, ainda assim pareceu uma eternidade, Ana acenou para mim assim que me viu de longe. Estávamos sentadas no banco esperando, levantei na hora e ela correu até eu, nos abraçamos e eu a levantei em meus braços, ela era tão pequena e leve, parecia uma boneca. Ana é a típica garota fofa que todos têm vontade de guardar pra sempre em sua estante. Ela é dois anos mais nova que eu, mesmo assim é uma das pessoas que mais amo na vida. Delicada e meiga, ela riu de um jeito que só ela fazia. Ela tinha cabelos longos e loiros, com uma franja acima dos olhos, seus olhos são cor de mel, bem claros, que na luz são quase dourados. Coloquei-a de novo no chão e suas covinhas apareciam por causa de seu largo sorriso. Logo atrás vinha um rapaz alto de cabelos espetados e pretos. Ao se aproximar cumprimentou Bárbara e eu e colocou a mão na cintura de Ana.

-Essa é Prince, uma das minhas melhores amigas e ela é Bárbara, sua prima. – Eu havia falado que levaria Bárbara por mensagem, afinal não tinha escolha. – Esse é Lucas, meu namorado.

Da última vez que nos vimos ela ainda namorava Pedro, com quem estava há dois anos e meio. Resolvi não perguntar a respeito, seria desconfortável. Não demorou para que o resto do grupo chegasse. Todos estavam em pares, exceto por Bárbara, eu e outro garoto que chegou com Karen e Caio. Era o irmão de Caio, ele era extremamente bonito e se chamava Christian. Cabelos castanhos e espetados, olhos verdes como esmeraldas. Com certeza alguém se daria muito bem essa noite e não estou falando de mim, afinal Bárbara estava vestida para arrasar e eu não tinha a vantagem dos olhos claros.

Fomos até uma pizzaria que tem karaokê. Fomos para o fundo, foram necessárias três mesas para caber todo mundo. Não queria sentar ao lado de Bárbara, ainda assim fiquei de frente para ela, ao menos estava entre Mariana, minha melhor amiga, e Christian.

Eu conhecia a maioria, porém não todos, pedimos pizza e porções, além de algumas bebidas como vinho, refrigerantes e sucos.

-Nossa, faz tempo que não nos reunimos. – Ana disse pegando seu suco natural de laranja. Ela não bebia bebidas alcoólicas, nem refrigerantes.

-Verdade. – Disse Sophia, irmã dela. Apesar de irmãs as duas são bem diferentes. Sophia tem cabelos curtos e castanhos, repicados com a parte de trás menor que a da frente. Olhos pequenos e amendoados, ao contrário de Ana, que tem olhos grandes como personagem de desenho japonês.

-Acho que já podemos montar as duplas para começarmos. – Ana. Sempre que íamos lá, fazíamos disputas no Karaokê, em duplas, trios, ou até quartetos dependendo. – Nós vamos primeiro! – Ela já foi levantando e arrastando Lucas junto, coitado não conseguiu nem responder.

A música que eles escolheram era uma bem antiga de um filme que eu assisti muito quando criança. Começava com um piano e uma voz feminina, Ana começou. Ela interpretava igualzinha a menina do filme, ela tinha um bônus porque cantava muito bem. Lucas também era afinado. Os dois faziam passinhos, ela girava para um lado e para o outro, fazendo seu vestido rodar. Ainda bem que os microfones eram sem fio, ou tragédias teria acontecido. A música era tão empolgante que logo todas as meninas da mesa estavam cantando, vamos combinar que o filme não era tão popular entre os garotos.

Não demorou muito para chegar minha vez, a maioria já estava em duplas e eu não queria ir com Bárbara. Eu queria ir com Christian, mas ele chamou Bárbara e eu fui com Mariana. Nós cantamos uma das minhas músicas favoritas. "Me encontra" do Charlie Brown. Mesmo a música não sendo em dueto, soubemos dividir bem ela, eu podia não ser a melhor cantora, mas ao menos estava na turma dos afinados. Julie já era a turma dos extremamente ruins.

A pizzaria havia sido reformada recentemente. As paredes eram amarelas com uma faixa vermelha que passava por toda a parede. Ventiladores e televisões de plasma haviam sido colocados e ampliaram o lugar. O karaokê ficava do lado contrário à entrada do corredor que levava aos banheiros e à cozinha.

Lembro de que ia lá quase todo fim de semana com os meus pais e tios, quando eram todos próximos. Cresci vendo aquele lugar mudar. Fazia tempo que não ia lá. Faz muito tempo que não saímos mais juntos como uma família. Mais para o lado ficava a janela por onde saiam os pedidos e à frente o balcão, o caixa ficava perto da porta de entrada. Estava realmente lotado o lugar.

Chegou a vez de Bárbara e Christian. Ao chegarem perto do Karaokê ele sussurrou algo no ouvido dela e ela riu. Em seguida olhou para mim e voltou para a tela escolhendo uma música. Pegaram o microfone. Não sei por que estava surpresa, era óbvio que ambos iriam ficar, ambos sem acompanhantes e bonitos, típico casal perfeito.

A música era conhecida também, não era de nenhum filme, mas era um pouco antiga. Outro dueto, Bárbara e Ana eram as que cantavam super bem, as vozes lindas, Cristian entrava pra turma dos afinados, tinha pior que ele.

Bárbara tinha problemas em enfrentar públicos. Desde pequena ela não cantava, nem fazia nada em frente à multidões. Sempre ficava sem nota de apresentações na escola porque tinha medo. Pelo visto aquele medo não havia ido embora, ela parecia bem nervosa, olhando para todos e não enxergando ninguém.

Suas mãos tremiam enquanto ela tentava segurar o microfone. A música começou, a batida soava, mas faltava a voz da cantora, as letras passavam na tela. Ela olhava para Christian que fez um sinal com a cabeça para que ela fosse em frente. Todos a olhavam sem dizer nada.

Ao perceber que não conseguiria cantar ela soltou o microfone e correu pelo corredor que levava aos banheiros. Esse trauma se deve a uma vez que ela foi se apresentar na peça de teatro da escola, foi a primeira e a última da vida dela. A peça era Romeu e Julieta, ela como Julieta tinha parte do foco em si, grande parte na verdade. Com falas da época que ela não havia decorado muito bem, gaguejou e errou grande parte das falas, uma garota que queria ter sido escolhida para o papel começou a rir dela, levando todos os presentes com ela, zombando da Bárbara que saiu chorando aquele dia. Nunca mais se apresentou em nada novamente.

Todos do lugar nos olhavam curiosos. Christian colocou os microfones nos lugares e tirou da música, sem graça. Ele voltou e sentou-se do meu lado.

-Acho que você deveria falar com ela. – Ele disse após se sentar.

-E por que eu? Se não percebeu não somos amigas. – Não havia percebido a grosseria até ouvir as palavras saindo da minha boca, mas ele não recuou.

-Mas são primas.

-De terceiro grau. – Conclui.

-Deixa disso. – Mariana me repreendeu com seus grandes olhos, que naquela luz, parecia mais preto do que geralmente pareciam. – Vocês foram mais que simples primas, foram melhores amigas. Não acho que isso é uma coisa que se pode esquecer tão facilmente. – Ela melhor do que ninguém sabe tudo o que passei, a conheci logo após a morte do pai de Bárbara. – Isso não tem haver com nossa amizade do PASSADO. – Dei uma ênfase na última palavra. – Qualquer um pode ir lá.

-E vamos dizer o quê? Ninguém a conhece tão bem quanto você. – Ela era uma ótima amiga, doce, gentil e acolhedora, mas sabia ser bem rígida quando queria. Esse era um lado que eu admirava, mas ao mesmo tempo tinha raiva, nada a fazia mudar de ideia.

-Você vai ter que ir. – Foi a vez de Ana se pronunciar. –Tente trazê-la, mesmo que não vá mais cantar.

-Mais cantar? Ela nem abriu a boca. – Shopia sabia ser bem má quando queria.

-Cale a boca. – Ana a repreendeu. – Não vai mais ter rolê se ela não voltar. – Continuou.

Bufei, mesmo assim não teve nenhum argumento que pudesse me tirar daquilo. EU tinha que ir e acabou. Levantei revirando os olhos, me senti uma criança repreendida pelos adultos da família quando faz ou fala algo de errado. A única diferença era que eu não estava errada. Definitivamente, não estava.

-Vocês são uns saco! – Resmunguei.

-Também te amamos. Agora vai. – Mariana fez um sinal com a mão, claramente me expulsando dali.

Caminhei pelo longo e estreito corredor até o final, tinham dois caminhos, um para esquerda e outro para direita, cada um levava a uma porta. Havia uma pia ao lado de cada porta. Naquela parte o corredor se tornava mais largo, daria pra duas pessoas passar uma ao lado da outra tranquilamente. Em uma das portas havia um pedaço de cartolina colado com muita fita adesiva, e nela estava escrito "Banheiro – Muieres/Uoman". Seja quem for que tenha feito isso deveria ser processado por assassinar duas línguas de uma vez. Me aproximei cautelosamente, esperando que Bárbara pudesse sair dali a qualquer momento. Bati na porta três vezes seguida, não houve nenhuma resposta.

-Bárbara? – Sem resposta novamente. – Responde, sei que esta nos banheiros das muieres. – Fiz referência à placa. Escutei uma risada abafada, porém nenhuma resposta. – Olha, todos estão te esperando, eu falei que não era nada de mais, mesmo assim não querem que você fique de fora. – Não queria que ela pensasse que EU a queria com a gente, porque eu não queria. Definitivamente, não. – Não precisa ficar nervosa, eles são – dei uma pausa antes de dizer a última palavra – amigos.

Não sabia se ela estava realmente escutando, pois não fez mais nenhum barulho. Eu queria desistir, mas conheço Mariana o suficiente para saber que ela me arrastaria de volta e falaria coisas em meu nome, sem eu tê-las dito.

- Vamos voltar. Não precisa cantar se não quiser.

Lembrei de todas as vezes que saímos juntas, quando minha família levava a gente para cantar em Karaokê, ela nunca cantava, mesmo tendo uma linda voz. Respirei fundo e as palavras deslizaram para fora sem eu pensar nelas:

- Se você quiser podemos cantar uma música juntas. – Quando analisei o que tinha dito já era tarde. Não tinha como fazer as palavras voltarem para minha boca. Escutei o barulho do trinco sendo destravado e a maçaneta girou, a porta abriu lentamente até ela aparecer. Me surpreendi ao ver que não era Bárbara, mas uma senhora que aparentava uns sessenta anos, e ali não era banheiro, mas sim um depósito. Estava cheio de produtos de limpeza, vassouras, rodos baldes e afins.

- Ôh minha filha, se for Roberto Carlos eu aceito. – A senhora falou tentando se desprender do cabo da vassoura presa à sua manta de tricô.

- Aqui não deveria ser o banheiro? – Perguntei confusa apontando para a placa.

- Era antes da reforma, agora virou o depósito. – Ela colocou sua mão gentilmente sobre o meu ombro. – Você deve ter se confundido por causa da placa. Os garotos fazem isso para enganar os clientes. Se bem que... – Ela me analisou dos pés a cabeça. – Você parece uma moça tão esperta para cair nessa. – A velha estava claramente me tirando, me senti ofendida, mesmo assim não respondi nada. – Se você voltar um pouco vai ter outro corredor que leva aos banheiros verdadeiros, o lado direito é o dos homens e esquerdo das mulheres. Consegue achar sozinha? – Ela falava como se eu fosse uma criancinha perdida dos pais. Ela estava zombando comigo, definitivamente.

-Pode deixar. – Tirei a mão dela do meu ombro tentando não ser grossa. – Obrigada.

Caminhei de volta e a diferença entre os dois corredores era de uns oito passos de distância, ao virar o corredor vi Bárbara encostada na parede enquando segurava um dos braços, ela subiu o olhar até mim. Com certeza ela tinha escutado tudo. Mesmo assim arrisquei a perguntar.

-Você escutou tudo? - Estava torcendo pra que não, não queria cantar com ela.

-Escutei. - Ela respirou fundo. Ela deu um sorriso de canto e continuou - Não se preocupe, eu também me confundi. Mas não achei que fossem tão idiotas de deixarem "Muieres" escrito na porta.

Rimos para disfarçar, mas era óbvio que ela só estava tentando desviar do assunto. Cocei minha testa e arrumei minha franja que fica um pouco abaixo de meu queixo. Bárbara cruzou os braços e desviou o olhar para a porta do banheiro que ficava um pouco mais a frente no corredor, continuava encostada na parede.

-Não precisa fazer isso.

-Isso o quê? - Perguntei sem saber ao certo do que estaria falando.

-Fingir que esta tudo bem entre a gente. Sei que não esta. Eu aceitei vim porque achei que poderíamos voltar a nos dar bem, como antes, sabe? Eu realmente senti sua falta. -Ela se desencostou do muro e ficou de frente para mim.

-Percebi, você deixou isso bem claro todos esses anos. - Falei sem pensar.

-Prince, eu... Eu tive meus motivos para não te procurar, mas isso não quer dizer que meu amor por você tenha diminuido... - Ela tentou se aproximar.

-Não fala isso. - A cortei me afastando. - Você não tem direito de dizer que sente minha falta ou que me ama. EU que fiquei atrás de você, e quanto mais EU tentava correr pra te alcançar, mais distante e inalcançável você se tornava. Então não me venha com isso agora. - Eu senti meus olhos queimarem e marejarem, eu queria chorar, mas não ia fazer isso, não na frente dela. - Você não sabe o que eu passei. Eu realmente te amei, achei que seríamos melhores amigas por toda a vida, mas acho que não era pra ser assim.

-Eu queria poder mudar as coisas, mas não posso. Não vou pedir que me perdoe, mas eu realmente sinto muito. Eu me senti perdida depois que perdi meu pai, eu me isolei e coisas aconteceram. Agora esta acontecendo de novo, minha mãe...- A voz dela soluçou e ela engoliu em seco.

-Eu sinto muito pelo seu pai, você não me deu chance de te ajudar ou ao menos tentar, você simplesmente não me respondeu mais. Sinto por sua mãe também e entendo que tenha que ficar com a gente porque não tem mais ninguém. Mas isso não significa de forma alguma que as coisas irão voltar a serem o que eram. Nunca mais serão.

Ela me olhava triste, contraiu os lábios e antes que pudesse pensar em algo eu falei:

-Você esta certa, eu não tenho que fazer isso. - Sai dali o mais rápido que pude. Passei pelo corredor voltando até o salão. Todos estavam sentados e me encaram em silêncio, fui até a cadeira em que estava pegar minhas coisas.

-O que aconteceu lá? - Ana se preparava para levantar.

-Nem levante. - Abri minha bolsa, abri minha carteira e deixei dinheiro o suficiente para pagar o que nós duas ainda fôssemos consumir, deixei sobre a mesa.

-Prince... - Mariana me olhava, ela me entendia melhor do que ninguém, mas naquele momento tudo o que eu queria era ficar sozinha.

-Eu vou nessa. Se não quiserem levá-la em casa liguem para minha mãe vir buscá-la, afinal foi ideia dela trazer ela aqui.

Sai sem que desse tempo de me impedirem. Esbarrei com alguém na porta, não vi quem era estava com a cabeça baixa. Acho que escutei um "É você?', mas estava tão atordoada que deve ter sido apenas impressão.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...