História Contornos (Filhos da Lua) - Capítulo 2


Escrita por: ~ e ~LVFaon

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Categorias Originais
Tags Abo, Alfa, Beta, Fantasia, Hibridos, Mistério, Ômega, Saga, Suspense, Vampire, Vampiros
Visualizações 9
Palavras 1.066
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Mistério, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Cachoeira


Fanfic / Fanfiction Contornos (Filhos da Lua) - Capítulo 2 - Cachoeira

África Ocidental. Nigéria - Osogbo 1802

"Doce água de cristal, pingos pratas reluzentes, azul marinho cor de noite, som de ar flutuante entre o infinito e o real."

O eco brusco do líquido que jorra entre as pedras escorre e inunda, formando estrias sob o lago. Cachoeira doce, relva de verão.

A larga noite era densa, como se em um breve toque de mãos ela pudesse ser capturada entre os dedos e guardada para a eternidade. De canto a canto a mata virgem sussurrava suas lamúrias: Mosquitos inquietos, formigas locais, um silvo de cobra e talvez até os olhos brilhantes de soturnos crocodilos.

O cenário era digno de qualquer noite de horrores. A erva espessa que embaralhava os pés e seus galhos secos que cortavam a face, espalhando gotas finas de vida por cada linha maculada. A noite era cortante e nebulosa. Gélida, seca e angustiante, arrepiando os pelos a cada passada.

De um canto antagônico havia encanto. Beleza infinda e estrelas, formando o denso tapete sob a cabeça. O vento suave entre as copas dançava sob o luar, fazendo par ao doce canto das águas fluidas. Toque, tato e brilho entrelaçados ao lúgubre.

Brilho

Não havia brilho para alguns.

Ayla Ayobami toca. Toca pé a pé, cansada, medrosa, molenga. Ayla se entrega a cachoeira como se todo o rebuliço das águas pudessem lhe ancorar a realidade. Ela afunda canelas, joelhos e sangue. Arruinada, pescoço gotejante e dilacerado de ambos os lados.

A morte era óbvia ou já era morta e não via? A mulher questionava.

Predadores furta cor lhe atacaram em meio ao anoitecer. Um lobo branco, imenso como a morte e um vulto veloz energizado. Roubaram sua vitalidade, seu sangue, suas aspirações. Deixaram-na mole, largada a beira mata, suja e moribunda.

Onde estaria sua irmã? Sua mãe? Seu povo, seus sonhos. Onde estariam suas crenças, seus valores, sua sede de revolução? Onde estaria ela própria se desvanecia a cada badalada, se dissipando como as nuvens ao raiar do sol.

Sumindo.

De onde vem a força? Ayla não viu, só jogou.

Jogou o corpo dentro da cachoeira escura, jogou seu resto de alma no profundo das águas. Jogou, jogou para perder, se perder.

A ideia clara era limpeza, porém o torpor dolorido levou-a para o fundo. Havia um quê de correnteza, pedras e monstros no lago extenso, mas ela não cometeu queixas e deu seu passo de fé. Então nadou, correu, desceu, fluiu e fracassou. Ayla chocou-se de encontro as pedras e perdeu a cabeça - bateu a cabeça - Seu crânio amoleceu.

O zumbido agudo estourava seus tímpanos, corroendo suas entranhas. Haviam gritos, sussurros e a balbúrdia das águas, ganhando espaço lento e contínuo em seus pulmões.

Ayobami não se moveu. Seus reflexos tortos falharam e nem um só fio de suas madeixas reverberaram na água. Imóvel, descendo ao profundo, levada pelas águas doces, levada até que não restasse uma só gota de alma.

Ayla morreu, solitária e gelada.

Causa: afogamento.

As escoriações e mordidas em seu corpo seriam ignoradas, sua morte em si seria. Afinal, quem iria acha-la? Embrenhada em cantos nunca pisados por homem ou mulher, rodeada da mata virgem. Quem viria a seu encontro? Quem carregaria seu corpo ao mundo dos mortos? Não deveriam haver deusas flutuantes ornamentadas de luz, sorridentes, chamando-a para os braços do infinito?

Por que não havia nada? Por que somente uma tela sem cores?

Seu torpor é quebrado como vidro estilhaçado. Todo o seu porte vibra, grita e esfumaça. O interior nunca mentiria, havia mudança ali. Mudança tão palpável quanto os dedos das mãos. A dor era carregada em silêncio, esvaziando primeiro sua cabeça, peito, braços, tronco, pernas, pés e por último seu pescoço, gelando somente dois únicos pontos: As marcas presenteadas pelos predadores da lua.

Ayla vive?

Renovo, corpo renovado. Silêncio ensurdecedor e logo após, um retinir da voz feminina suave e sonora:

— Transliteração de Eilah, África Ocidental é sua origem. Ayla Ayobami. Em turco, és luz do luar e do Ioruba, és santificada com alegria. Cor da noite, dons de riso. Seus sonhos são de púrpura vermelha, teu nascimento é novo. Não se chamará mais Ayla Ayobami, filha de Fayola e Murat. Tu é Ayla, filha da lua. Deusa ômega, a primeira de sua linhagem.

Ayla emerge em sua cascata de cabelos negros, formando uma cortina densa. Os fios grossos erguem-se formando peso considerável, espalhando água mediante ao balançar.

Não há dor, não há sequer um vestígio de agonia, sangue e pesar. Não há frio nem quebras. Seu corpo é novo, seus olhos são vidro, sua alma é lua. A cabeça não flutua mais a seu recente passado, suas amarras foram desligadas em uma ruptura grosseira. Nem se quer um pequeno fragmento do ontem lhe traziam sentimentos dolorosos como culpa, solidão, fome e vazio. Era um renascimento puro e reluzente.

E vieram os sussurros. Uma risada deliciosa e sonora ecoando entre as copas das árvores, reverberando em seu íntimo, lhe fazendo querer acompanhar o riso.

— Quem fala?

— Quer um nome? Te darei um. Que tal, Agbara? Em Ioruba*, poder.

— Não te vejo.

— Tão somente não me veja, me decifre. Sou um mapa. Te darei qualquer resposta, tente.

Ayla finalmente fisga seus olhos para o ser a beira rio que sopra em seus ouvidos. Seu corpo é preto cor da noite, reluzente por cada centímetro de seus seios fartos. Cabelos brancos e lisos, colados em sua boca cheia. Pernas... — calda — escamosa cor de prata, movendo-se no balançar suave dos respingos que jorram das pedras.

Se o divino há de cumprir seus ritos, este deve ser seu precipício particular, onde seres míticos lhe sopram devaneios a devorando em seus olhos prateados e risadas cintilantes.

Seria uma divindade das águas? Uma alucinação?

Sua individualidade não lhe permite questionar a fundo sua visão pois somente o estado atual interessava. Seu corpo renovado, suas dúvidas e sua morte.

Vida?

— O que esta havendo?

Uma risada doce e reluzente ecoa entre as passadas do vento. Dentes brancos, olhos prateados e um cântico.

— Meu doce, você se tornou o que é. Tua mente te dará destaque, tua ganância te assombrará, teu temperamento te condenará e seus desejos te levarão a alma. Sombra da noite, deusa ômega. Querida, já ouviu falar em híbridos?

— Como?

— Três fragmentos. Vampiro, lobo e sangue de deus.

— V-vampiro..?

— Ayla Ayobami, minha pequena ômega. Meu melhor rabisco. Venha, vou lhe contar uma história, vou te mostrar um contorno.


Notas Finais


* Ioruba - Um dos idiomas falado na Nigéria, país de Ayla.

* Os deuses citados e descritos durante a história são ficcionais, qualquer semelhança a personificação de qualquer entidade religiosa é puramente coincidência.


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