História Contornos (Filhos da Lua) - Capítulo 3


Escrita por: ~ e ~LVFaon

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Categorias Originais
Tags Abo, Alfa, Beta, Fantasia, Hibridos, Mistério, Ômega, Saga, Suspense, Vampire, Vampiros
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Palavras 1.586
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Mistério, Romance e Novela, Saga, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 3 - Floresta Seca


Fanfic / Fanfiction Contornos (Filhos da Lua) - Capítulo 3 - Floresta Seca

África Ocidental. Nigéria - Kano 1804


"Pés reluzentes em meio ao verde-amarelado, terra seca impregnada até fundir a pele, carmim sob todas as nuances, formando a doce aquarela tons de dor a cada centímetro que sua tinta avança."

 

Daren Yohance previu sua morte em diferentes nuances: Em batalha pelos ideais de seu povo, trocando sua própria vida pela de sua velha mãe, levado pelas garras da escravidão, problemas cardíacos, raízes envenenadas, peste, fome...

Ressecado, ensanguentado, dilacerado e jogado em meio aos lençóis da savana não faziam parte de sua visão.

Ardido, marcado, insano.

O suor escorre firme por sua pele retinta, lhe ardendo furiosamente a nuca rasgada.

O golpe em ambas as laterais do pescoço vieram certeiras e fatais: Dentes grossos do lobo negro de olhos raivosos, seguido de um rodopio veloz em forma de mulher. Não houve luta, fuga, não houve nada. Em um momento, Yohance espreitava mata a dentro a procura de ervas específicas para a doença de sua mãe e algum alimento, em outro, seu corpo jazia ferido e amolecido como pasta.

Sua mente anuviada formava aspirais furta-cor no ar, girando e marcando fragmentos de luz em sua retina. Há cores e logo após escuridão. Luz, e logo após manchas. Pássaros, felinos, insetos por sua pele e mais aspirais, unindo todas as imagens como uma bela e utópica pintura a mão livre. O corpo por inteiro borbulha em dormência, trazendo desde seus pés até sua cabeça a sensação de torpor. Ora ou outra os olhos giram nas órbes, focalizando somente o alto da copa das árvores e o anoitecer que logo vinha.

O jovem tentava extrair de sua mente nublada, algum resquício de memória que justificasse a investida furtiva da mulher de prata. O ataque do lobo era natural e explicável, por mais que não houvessem relatos na região. Mas o que era o ser energizado que lhe rasgou a outra face do pescoço?

O que o atacou? O rodopio era uma pessoa, um demônio? Seria por ouro? Mulher? Homem? Posses? Daren não tinha nenhum destes. Não tinha nada. Só o irmã e pai escravizados e mãe atormentada.

O sangue passava a jorrar de seus orifícios em maiores quantidades, seguindo por seus olhos, nariz e boca, cravando um caminho vermelho por sua face. Os pontos de seu pescoço também jorravam o líquido, mas estes vinham em tons diferentes. O sangue que dali saia não era rubro e sim prateado, tal como a lua.

A poça sobre seu peito mesclava nuances, formando a perfeita aquarela carmim. Um degradé desconexo criando a cena digna de poesias e pinturas.

Mas não para ele.

Para Daren, cada gota representava a morte a passos largos.

As horas vagavam a fio e a noite enluarada aos poucos mostrava presença. Uma imponente lua cheia arremetia o céu estrelado, iluminando em graciosidade estupidamente adversa a cena de horror abaixo. Yohance suplicava, rezava para que algum deus o carregasse em fim para os templos de morte. Não havia mais forças para tamanha agonia de ver e sentir seu corpo desvanecer gota por gota até que sobre somente a carcaça aos animais.

Cof cof

Sua tossida rasgada reluzia em vermelho rubi, enchendo as mãos de sua essência. Os olhos rodavam em órbitas, girando e desfocando. Mãos em garra sob a terra, o grito preso no fundo da garganta — socorro — , ele gritaria se pudesse — socorro — ele entoaria em seu mais alto tom. Mas alguém poderia? Alguém o salvaria?

As pernas pesavam como chumbo. Cada investida afim de mover-se para longe da tormenta eram interrompidas pelo fracasso, seu velho e íntimo amigo.

Silêncio. Suspiro. Sopro.

Daren se entregou aos braços da morte. Por fim, o garoto compreendeu que estava vivo somente por ainda estar lutando

Se entregou.

Jogou-se de cabeça contra as raízes da árvore que o abraçou, cerrando seus olhos em suavidade. A respiração se tornava fraca, o sangue empapado em sua garganta sufocava e as batidas de seu coração já soavam como sussurros.

Suspiros, suspiros, paz. 

Em breves instantes de agonia, a dor cessou. Daren Yohance morreu.

Causa da morte: Afogamento. Em seu próprio sangue.

Jogando com a sorte, talvez alguém conhecido encontrasse seu corpo e o levasse a sua mãe. Talvez ele recebesse o devido rito funerário para que sua alma fosse elevada. Talvez encontrasse sua doce irmã no mundo dos mortos. Ou talvez nunca houvesse nada. Seu corpo irá deteriorar-se coberto dos animais da terra. A carne estará em putrefação e nem se quer o lobo que o atacou irá come-lo. Será esquecido como vento, levado para distante da mente de seus entes. Sua mãe irá chorar? Sua loucura irá se expandir? Haveria choro por sua morte?

Nada, não há nada.

Onde está a recompensa dos justos?

Num grito, seu torpor é quebrado como vidro estilhaçado. Todo o seu porte vibra, grita e esfumaça. O interior nunca mentiria, havia mudança ali. Mudança tão palpável quanto os dedos das mãos. A dor era carregada em silêncio, esvaziando primeiro sua cabeça, peito, braços, tronco, pernas, pés e por último, seu pescoço, gelando somente dois únicos pontos. Suas mordidas presenteadas pelos predadores da lua.

Daren vive?

Renovo, corpo renovado.

Silêncio ensurdecedor e logo após, um retinir da voz feminina, doce e sonora:

— Transliteração de Darin, África Ocidental é sua origem. Daren Y...

— Sussurros, sussurros... — O rapaz resmungou jocoso, apavorando-se em mesmo instante com sua capacidade de falar. Ele não havia... — Maldição, eu não estou morto? Darin? Eu ainda sei minha origem! O que está...

— Daren Yohance. Em Hausa*, és nascido da noite. Teu cognome é presente dos deuses. Cor da noite, nebuloso, sublime e misterioso como uma. Seus sonhos são de pérolas raras, teu nascimento é novo. Não se chamará mais Daren Yohance, filho de Hakiza e Ibrahim. Tu é Daren, filho da lua. Deus beta, o primeiro de sua linhagem.

A risada do jovem se fez rasgada e rouca, ecoando por toda a clareira.

— Deus beta? Por favor, só pode ser brincadeira. É uma incógnita para a passagem? Vamos, apareça, já estou pronto para o outro lado.

— Sou Lisha, em Hausa, misteriosa. Minha melhor forma para a ocasião. Te darei qualquer resposta, por favor, tente. Questione o que desejar.

Daren finalmente abriu seus olhos. Até o momento, não havia percebido o quão cerrado estes estavam. Houve espanto ao perceber que sua vista imediatamente adaptou-se a receber luz.

Primeiro, Daren inspecionou seu próprio corpo. Sua vista varria pés, pernas, vestes e mãos. Não havia sequer uma gota do sangue que a pouco o empapava. As roupas que o cobriam eram belas e prateadas, tal como o sangue que jorrou de seu pescoço. Estava bem ali, aquele toque de leveza e utopia por onde seus olhos passeavam. A pele retinia o brilho, o corpo movia-se em sutileza, seus movimentos eram firmes e suas emoções afloradas. Medo e curiosidade se misturando como numa canção.

Por fim, os olhos fisgaram o ser que reluzia em risadas baixas. A adolescente lhe sorria em branco lua, ornamentada por completo em um vestido prata, fazendo par a seus olhos de mesma cor. Seus cabelos em longos trançados ornados em fitas eram de seu tamanho, formando um véu sobre os pés descalços. No topo de sua cabeça, uma coroa suntuosa era posta em ouro branco em doze pontas, retinindo a luminescência por sua pele escura como a noite. Antagonizando sua imagem, o ser se portava de forma simples e pacifica. Corpo curvado, sentada e sorridente sob um tronco de árvore, acarinhando um pequeno pássaro branco enquanto este piava fraco para ela.

A dor no peito que Daren sentiu não era física. Era dentro, em sua alma prateada. A jovem Lisha era a obra perfeita de sua irmã mais nova, semelhante como uma gêmea. A lembrança de sua irmã o cortava como se o sangue que a pouco jorrava pudesse extravasar novamente. De forma brusca fora arrancada de si junto a seu pai, perdidos para a escravidão para viverem a mares de distância. Nenhuma notícia, nenhum rumor. Somente o pesar por não ter conseguido salvar sua querida Dawana e seu pai, Ibrahim.

Sua voz soberba afinou. O sarcasmo se esvaiu. Dor. O belo retrato da dor.

— Ela está bem, Daren. Não há mais escravidão pois ela é uma encantadora filha da terra. Laura a transformou. Alegre-se, os bons ventos sopram agora. Permita-se tornar as lembranças aflitas fluídas como o vento. Não há dissabores, não há sequer um vestígio de agonia agora. Nem frio, nem quebras, nem morte. Seu corpo é novo, seus olhos são vidro, sua alma é lua. Tua cabeça não deve flutuar mais para o passado pois as amarras foram desligadas em ruptura grosseira. Não se entregue aos fragmento do que o ontem lhe traziam, sentimentos angustiantes como culpa, solidão, fome e vazio. Este é o renascimento puro e reluzente. O abrace.

— Filha da terra? Então ela...? Eu, eu não entendo. Eu sinto a paz e sinto a dor se misturando. Eu sinto tudo tão forte, eu... porra. — exclamou, arregalando os olhos logo em seguida — Perdão, perdão, eu esbravejei na frente de uma garota, uma deusa! Eu... O que aconteceu aqui? Estou tão confuso, o que é essa força que estou sentindo fluir?

Sua risada ecoava como um cântico.

— Querido, você vive para tornar-se sua melhor forma. Tua força trará destaque, teu desequilíbrio te assombrará, tua lealdade te condenará e seus amores te levarão a alma. Sombra da noite, deus beta. Querido, já ouviu falar em híbridos?

— Puta que pa... Droga.

— Daren, meu pequeno beta. Meu melhor rascunho. Venha, vou lhe contar uma história, vou te mostrar um contorno.
 


Notas Finais


* Hausa - Povo do Sahel africano ocidental que se encontra principalmente no norte da Nigéria e no sudeste do Níger. Idioma do local.


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