História Coração puro - Capítulo 12


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Categorias A Maldição do Tigre, Mitologia Grega
Personagens Alagan Dhiren Rajaram (Tigre Branco "Ren"), Durga, Kelsey Hayes, Lokesh, Nilima, Personagens Originais, Sohan Kishan Rajaram (Tigre Negro)
Tags A Maldição Do Tigre, A Viagem Do Tigre, Alagan Dhiren Rajaram, Durga, Kelsey Hayes, Kishan, Lokesh, Nilima, O Destino Do Tigre, O Resgate Do Tigre, Ren, Sohan Kishan Rajaram, Tigre Branco, Tigre Negro
Exibições 56
Palavras 2.527
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Ficção, Mistério, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


"Quando as almas perdidas se encontram
Machucadas pelo desprazer
Um aceno, um riso apenas
Dá vontade da gente viver
São os velhos mistérios da vida
Rebenqueados pelo dia a dia
Já cansados de tanta tristeza
Vão em busca de nova alegria."
Lembranças - Os Serranos

Capítulo 12 - Bem-vindo ao meu mundo...


Fanfic / Fanfiction Coração puro - Capítulo 12 - Bem-vindo ao meu mundo...

>Kishan<

Percorri o olhar pelo escritório de Nicole, que na verdade era seu quarto. A cama estava desarrumada e havia roupas e livros espalhados pelo chão, mas não era isso que chamava a atenção. Toda a superfície do quarto estava coberta por desenhos feitos em papeis e outros feitos com tintas na própria parede branca. Havia desenhos belos e ricos em detalhes, assim como palavras, talvez poemas ou letras de música. Toquei com a pontas dos dedos o desenho de um dragão, logo na entrada.

– Você que fez tudo isso?

Ela deu de ombros, empurrando as roupas com o pé.

– Eu tenho uma vida social razoável, por isso tenho tempo.

O gato miou pulando pra cama.

– Tá bom – ela lançou um olhar feio ao gato – Eu não tenho nenhuma vida social. Mas tanto faz.

Senti novamente aquele cheiro agradável.

– Que cheiro esse? – questionei.

– Desculpe, eu tenho chulé – ela confessou então pareceu notar o que disse e franziu a testa com o rosto corado.

– Não – sorri com sua sinceridade – É um cheiro agradável.

– Então definitivamente não é meu chulé – ela resmungou pra si mesma e respirou fundo, mas seu olfato talvez não fosse tão apurado quanto o meu – Sei lá...

– Tem um cheiro de rosa e mais alguma coisa que não consigo identificar. É difícil de descrever...

– Ah, talvez seja mirto – seus olhos brilharam.

– Mirto?

– Também conhecido como murta-comum. É uma das minhas plantas prediletas, eu tenho um pé no quintal lá de trás.

– Tem um cheiro realmente curioso – comentei.

Nicole deu de ombros, empurrou os cobertores para o canto da cama e sentou, pegando no colo um velho notebook de teclas gastas e tela riscada.

– O que você precisa? – questionou quando me sentei ao seu lado.

– Entrar no meu e-mail.

– Pensei que você tinha dito séculos – ela me lançou um olhar desconfiado.

– Pensei que você não quisesse saber da minha história – retruquei.

– E eu não quero – ela resmungou com uma voz engraçada enquanto fazia uma careta. – Tá – me entregou o notebook que estava conectado a tomada e se levantou – Se desengatar da tomada engate novamente por que ele desliga em menos de 1 minuto. Se vire.

– Obrigado – agradeci mexendo com dificuldade naquele aparelho.

– Leo, vou tomar banho – ela avisou o gato, pegou algumas coisas e sumiu por uma porta ao lado do quarto.

Ergui o olhar e percebi que o gato me encarava com intensidade, seus olhos bicolores acompanhavam cada movimento meu com desconfiança.

– Hummm – me afastei um pouco do gato, estava difícil me concentrar com aqueles olhos sobre mim – Você poderia parar de me olhar? – pedi e ele bufou em resposta, mas pareceu entender e se afastou de mim, sentado sobre um balcão velho. Mesmo que seus olhos não tenham me deixado, já era um começo.

Por sorte Kadam havia me ensinado a mexer na tecnologia e não tinha muito segredo, depois de um tempo, por mais que eu não soubesse ler em português, consegui entrar no meu e-mail.

Ouvi um celular tocar ao meu lado e por reflexo peguei.

– Ai! – gritei, mais de surpresa do que de dor, quando senti minha pele se rasgando.

O gato branco estava ao meu lado rosnando alto e as garras voltaram a me arranhar, soltei o celular e observei ele sem acreditar. Eu estava distraído, mas podia jurar que ele estava a mais de um metro de distância de mim quando o celular tocou.

– Como se mexeu tão rápido? – perguntei em voz alta vendo minha mão curar.

O gato não respondeu. Obvio!  Suspirei. O que eu esperava?

O felino rosnou, mostrando os dentes e os pelos arrepiados.

– Desculpa – tentei – Não tive a intenção de ser enxerido.

O rosnado ficou mais profundo e seu um olhar matasse, eu possivelmente estaria morto.

Mas o que aquele gatinho estava pensando? Sem resistir ao instinto me vi rosnado para o gato. Meu rosnado encheu o quarto, muito mais alto que o dele. O tipo de rosnado que faria qualquer animal correr pra se esconder debaixo da cama. Entretanto, o gato nem pestanejou. Ergueu o focinho em desafio e rosnou mais alto. E eu rosnei de volta.

– Hummm.... – ergui a cabeça para ver Nicole nos olhando surpresa da porta.

Seu cabelo úmido estava solto, escondendo as bochechas vermelhas e ela vestia uma calça preta rasgada e uma camiseta velha com o desenho de um gato.

– Vou fingir que não vi você rosnado pro meu gato – ela fez uma careta então abriu um sorriso – Você é um garoto estranho.

– Eu não sou estranho – senti meu rosto corar por ser flagrado fazendo algo tão imaturo – Ele não para de rosnar pra mim.

– Sei – seu sorriso aumentou – Pode continuarem. Se quiserem podem até subir no telhado. – ela me lançou um olhar – Se bem que você possivelmente abriria um buraco no meu teto.

– Esta debochando de mim – suspirei – E me chamado de gordo. De novo.

– Chamando não – ela me cortou, sentando no chão.

– Não?

– Insinuando seria o termo correto – ela encostou a cabeça na cama, sorrindo pra mim.

– Insinuando? Bom – suspirei novamente. Ela estava tentando me tirar do sério – Gostaria de dizer que estou a um bom tempo sem comer e que não sou gordo. Isso é massa muscular.

– Humhumm – concordou com um expressão séria, mas o sorriso ainda brincava nos lábios – Sei. Eu também tenho muita massa muscular acumulada – agora não escondia o sorriso enquanto cutucava a própria barriga.

– Você não é gorda – revirei os olhos olhando pra ela. E de fato era verdade, sim, ela não era magra, nem parecia ter um corpo definido, mas com certeza não era gorda.

– HA! – ela revirou os olhos – 80 quilos em 1,65 não se encaixa no padrão de beleza do século XXI.

– Bem – levei a mão da nuca sem entender como foi que chegamos naquele assunto. Percebi que poderia ficar horas discutindo com Nicole, pulando de um assunto para o outro – No meu tempo, o padrão de beleza era diferente. Você seria bem vista.

– É – ela deu de ombro pegando lápis e papel – Nasci no século errado – sussurrou.

Franzi a testa, mas não insisti no assunto. Voltei minha atenção para o notebook e comecei ler os diversos e-mails que Ren tinha me enviado. Senti meus olhos se encher de lágrimas. Aquele idiota não havia me esquecido. Ele sentira minha falta, tanto quanto eu sentira a sua. Li os e-mails como quem lê um livro sagrado. Eu podia ouvir a voz de Ren em seus e-mails, contando sobre seu dia, como foi seu primeiro dia no trabalho, a faculdade, o casamento com Kelsey, Oregon, e outras coisas mais. Meus olhos se detiveram em um e-mail especifico, e não contive o riso tentando não chorar. Anik Kishan Rajaram devia ser uma criança encantadora, e eu iria ter a chance de conhece-lo. Meu sobrinho.

– Tá tudo bem? – me surpreendi com a voz de Nicole. Seus olhos castanhos mostravam a mesma preocupação que ela dirigia ao tigre.

– Ahann – pingarei tentando me controlar, mas era difícil parecer bem com os olhos cheios de lágrima – Estou feliz, só isso.

Seu rosto me analisava sem pudor, o que me deixou pouco à vontade, coloquei a mão no topo da sua cabeça e virei seu rosto para frente.

– Ei! – ela reclamou, o rosto ficou inteiro vermelho e notei que tinha cometido um erro. Os olhos de Nicole escureceram e ela levantou em um salto. Senti o sorriso desaparecer de meu rosto, enquanto a garota de sorriso fácil também desaparecia.

– Nunca... – respirou forte enquanto tentava não gritar – Sob hipótese alguma me toque! Eu não gosto que me toquem! Entendeu?

– Ahamm – me senti sem ação – Eu sinto muito... Eu...

Aquela garota era louca. Só pode ser isso.

– Entendeu ou por acaso quer que eu desenhe? – havia mais veneno em sua voz do que na mordida de uma naja.

– Entendi! – respondi no mesmo tom duro que ela, sem desviar os olhos.

– Ótimo! – ela inclinou um pouco a cabeça para o lado, e o sorriso em seus lábios era cruel e sarcástico.

Nicole entrou no banheiro e bateu a porta com força. Ouvi ela respirar rápido do outro lado da porta, e por um momento pensei em ir na sua direção, entretanto me surpreendi ao sentir algo roçando meu braço. O gato de Nicole me encarou, sem miado, sem rosnado, apenas um olhar intenso que me manteve no lugar. Não sei quanto tempo fiquemos nos encarando, porém quando Nicole finalmente saiu do banheiro, o gato rapidamente se afastou de mim.

Olhei Nicole um pouco receoso, mas sua expressão havia mudado completamente, agora ela tinha um sorriso no rosto, como se não tivesse surtado a alguns segundos atrás.

– Que foi? – questionou com um sorriso meigo, mesmo que parecesse uma doce menininha, seus olhos negros não me enganavam. Nicole possuía uma loucura, que definitivamente eu não queria conhecer.

– Nada – respondi voltando a ler os e-mails de Ren. Toda a minha felicidade e animação tinha sido engolida por aqueles olhos negros.

Nicole se sentou no chão e ouvi o som dos lápis correrem o papel, Leo miou e desceu da cama se sentando na frente da dona, alguns segundos depois Quiara entrou no quarto e depois de um grande espiro se deitou ao pés de Nicole. O gato começou a ronronar e logo a garota estava sorrindo para seus bichinhos e lhe contando histórias sobre os deuses da mitologia greco-romana. Por um momento ela me lembrou Kelsey, contando para mim mitos em Shangri-lá, mas depois de ouvir ela dizer alguns palavrões notei que o gosto por mitologia e animais era a única coisa que tinham em comum.

Com minha visão periférica vi Nicole se levantar e ir até um desenho preso em um mural. Era claramente um desenho de Leo e havia algumas palavras escritas que eu não entendia o significado. Ela tirou o desenho e o dobrou, colocando novamente no painel, depois vez o mesmo com o desenho que tinha acabado de fazer, também prendendo ele no painel. O segundo desenho era o de um gato negro de profundo olhos verde, tão perfeito e detalhista quanto o primeiro. De um lado, o gato branco olhava com arrogância em seu olho azul, e do outro lado, o gato negro tinha bondade em seu olho verde. Eles eram tão realista que eu quase esperava que o Leo do desenho rosnasse pra mim.

– O que está escrito? – perguntei ganhando a atenção de Nicole.

Ela analisou o desenho um momento antes de responder.

– Aquele que você abandonou e aquele que você deixou morrer.

– O que significa?

– Ainda não sei – sussurrou.

O gato miou ao seus pés, olhando para dona.

– Sim querido? – ela olhou o gato um momento, então sorriu – Vem aqui minha vadia – estendeu as mão e o gato se ergueu nas patas traseiras e como uma criança estendeu as patas dianteiras para Nicole que o pegou no colo. Ficou um tempo acalentando o gato e depois voltou a sentar no chão, tirando um violão debaixo da cama.

­– Se importa se eu tocar um pouco? – perguntou repentinamente gentil.

– Bem, a casa é sua – eu de ombros – Faça como quiser.

Ela abriu um sorriso e pareceu segurar uma resposta, voltou a atenção para o violão e começou a tocar uma melodia doce e infantil. Logo mudou o toque e começou a cantar. Nicole tinha um dom para contar histórias, desenhar e tocar, mas cantar não era seu forte, não era desagradável ouvi-la e talvez com algumas aulas de canto ela realmente pudesse ser uma boa cantora.

Voltei a ler enquanto ouvia ela tocar e cantar, pulando de uma música doce que falava sobre amor para outra que falava sobre álcool e mulheres, então ia para algo calmo com uma letra cheia de significo moral, depois para outra bruta com palavras de ordem que parecia um hino revolucionário.

Abri o último e-mail de meu irmão e me surpreendi ao notar que era de quatro dias atrás. Suspirei. Também sinto sua falta irmão.

Nicole parou de tocar e jogou a cabeça para trás, então com os olhos fechados voltou a tocar. Quando cantou, sua voz saiu clara e bonita, o tipo de voz que faz as pessoas seguirem sem pestanejar. A música contava a história de um escravo que se apaixonou pela filha de seu patrão, e seu desfecho era surpreendente. Quando terminou, Nicole deixou as mãos caírem sob o violão e soltou um suspiro, finalmente abrindo os olhos.

– É uma bela música – comentei.

Ela ergueu o rosto para mim, os olhos brilhavam, e por um momento me senti como se estivesse vendo sua alma, vermelha e quente, mas cercada por uma sombra negra e fria.

­– Olhos de luar – ela desviou o olhar e senti meu corpo se arrepiar.

­– Como?

– O nome da música.

– Ah – passei a mão no cabelo, me sentindo realmente estranho.

– Tenho um gosto musical bem eclético, mas sertanejo “raiz” ... – suspirou, eu não entendia suas palavras, mas imaginei que fosse importante pra ela – Eu fui criado no interior, sabe? Então herdei isso do meu pai, nasci ouvindo Milionário e José Rico, Trio Parada Dura e Teixeirinha, e outros bons cantores antigos. Quando eu comecei a crescer acrescentei pop e sertanejo “universitário” a meus gosto. – sorriu – Minha mãe acreditava que rock era coisa do capeta, então ela achou que eu virei maconheira só porque comecei a ouvir Legião Urbana e AC/DC. Preconceito idiota. – ela se calou, olhando o violão em suas mãos com a testa franzida.

Não entendi nada do que ela disse, mas resolvi me sentar ao seu lado, distante o suficiente para não toca-la. Seus olhos me analisaram enquanto ela mordia o lábio inferior. Ela desviou o olhar e voltou a tocar.

Enquanto ela dedilhava as cordas do violão, a observei. O cabelo ruivo caia pelo rosto, mas eu ainda podia ver a pequena cicatriz branca, em sua bochecha vermelha. Me questionei o que teria feito aquilo.

­– Ni... – comecei a falar mas me calei quando senti meu rosto sendo atingido pelas garras do gato. Senti a ardência e ergui a mão, ele tinha me tirado sangue. Gato idiota!

Nicole se virou surpresa e arregalou os olhos na direção do gato.

– Leonardo! – ela o afastou de mim rudemente – Da pra você agir como uma criatura civilizada! Pelo menos por um momento! Gato idiota!

O felino ronronou para ela, com o que parecia um sorriso felino, mas não tentou se aproximar.

– Tá tudo bem? – ela abriu um sorriso amarelo olhando meu rosto.

– Tá – cortei passando a manga da camisa no rosto.

– O arranhão desapareceu...

 – Eu me recupero rápido.

– Isso deve ser realmente útil.

– Sim – passei a mão no rosto mais uma vez. Nicole acompanhou me gesto com os olhos.

– Tudo bem! Ninguém morreu então vamos agilizar as coisas – ela se levantou com um salto e foi para a sala, me levante e a segui – Viu, vou arrumar o colchão pra você deitar aqui.

– Obrigado.

– O banheiro é logo ali – apontou me enxotando com o olhar.

– Obrigado – repeti.

 Enquanto ia até o banheiro olhei uma última vez para dentro do quarto. Meu corpo se arrepiou. Leo estava sentado diante do espelho do guarda-roupa de Nicole, seus olhos bicolores cravados em mim, por um instante, só por um instante, podia jurar que um gato preto de olhos verde também me olhava de dentro do espelho.



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