História Crash - Capítulo 8


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jungkook, Rap Monster, Suga
Tags Hoseok, J-suga, Sobi, Sugahope, Yoongi, Yoonseok
Exibições 143
Palavras 3.928
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas da Autora


postei e saí correndo

Capítulo 8 - Oito


 

Quanto mais eu observava como as coisas andavam ao meu redor, mais eu reparava que também precisava de um tempo. Acontece que, olha só, as memórias que a gente constrói num lugar têm uma carga emocional muito forte. Às vezes a gente finge não ver, não saber – esse é um mau–hábito terrível –, mas é verdade. Até hoje não consigo juntar forças pra voltar ao local onde tive minha primeira decepção quase-amorosa: minha sorveteria favorita que faliu quando eu tinha uns oito.

A questão é que depositei uma imensa carga de memórias negativas num só lugar e num curto período de tempo, e isso fazia grande parte da minha existência ser uma sacola ao vento. Eu já tinha desistido, tinha chegado a um ponto em que não tentava mais resistir à ventania. Foi mais ou menos aí que Hoseok apareceu com seu jeito todo convencido e com seu topete lá em cima, armado com um sorriso absurdo e preparado pra caramba pra abalar minhas estruturas e me fazer tremer na base como se estivesse me sucumbindo a um terremoto.

Criei essa carga deliciosa e positiva ao lado de Hoseok, mas os (poucos) momentos ruins que tivemos quase me racharam ao meio. Então eu precisava de um tempo. Um tempo pra lá, distante e descoberto. Foi quase um soco na minha cara quando tomei conta de como é sensacional ser vulnerável. Propagamos a ideia contrária, com medo de deixar o peito exposto, sem nem saber o quanto é gostoso deixar um vento de emoções bater nas bochechas. Vez ou outra ainda volto para a minha zona de conforto, para aquela minha caverna quentinha e nostálgica. E, pra ser honesto, isso faz ser muito mais fantástico me desnudar em frente ao mundo.

(A verdade sobre o desnudamento genuíno é que é um pouco contraditório. Você se abre completamente, deixa vivo e nítido tudo o que tem de mais íntimo no seu ser; você se doa. Mas essa doação não é pensando no cara da padaria ou no mecânico da esquina, é pensando em si mesmo.)

Quando Hoseok me disse que precisava de um tempo, fiquei rodando a coisa toda na minha cabeça pra tentar entender. Aí mora um problema meu: sempre vi Hoseok como essa equação interestelar absolutamente impossível, sendo que era tudo muito simples. Ele precisava mais ou menos do mesmo tempo que eu. Nós tínhamos muito mais em comum do que eu era acostumado a pensar; sempre o achei essa coisa de outro mundo, sendo que estávamos no mesmo planeta.

Ao começar a entender tudo, vi que não era absurda a ideia de se dar um tempo. Esse deveria ser um direito de cada um, na verdade – direito de largar as papeladas e fazer aquela viagem que foi adiada durante anos ou ver aquela série que nunca terminou ou visitar aquele amigo que foi engolido pelo tempo.

Foi meio que assim que eu e Hoseok acabamos dentro dum trailer de um casal mexicano. Não precisou de muito para que ele me convencesse a embarcar nessa viagem a um lugar desconhecido por mim junto de dois estranhos, porque Hoseok sempre teve facilidade em me persuadir. Eu sabia que isso era um problema intenso meu, mas logo ele me beijava e me dava aquelas piscadelas quase em câmera lenta e eu quase imediatamente dizia: sim.

Ele era do tipo de cara que vive querendo o novo, o que era totalmente o oposto de mim. Caramba, eu sequer comprava roupas novas. Mas qualquer coisa que o envolvesse, por mais pequena e simples que fosse, já era suficiente pra me despertar um interesse. Foi fácil cair na ideia dele quando chegou todo sorridente com uma cerveja na mão e me roubou um beijo antes de me convidar para essa viagem.

O casal mexicano era bacana e nenhum dos dois falavam uma língua que eu e Hoseok entendíamos, o que deixou tudo mais cômico ainda. Hoseok jurava que conseguia se comunicar muito bem fazendo sinais com aquelas mãos compridas e finas, e até hoje eu nunca lhe disse como parecia estar dançando ou algo assim – o que não poderia ser mais propício, porque o casal não conseguia ouvir dois segundos de música sem começar a dançar. Eles eram legais, daquelas pessoas aleatórias que a gente conhece e espera poder reencontrar na fila do banco ou na praça do bairro. Acabaram nos deixando ficar no sofá velho e pequeno do trailer, que rangia toda vez que nós nos mexíamos. (Literalmente. Já fomos pegos de madrugada porque Hoseok tentou enfiar as mãos nos bolsos do meu jeans). Mas, de qualquer forma, eram legais.

Era bonito ver os dois, me dava uma vontade danada de ficar sorrindo até o rosto queimar. Eu sei que parece bizarra a ideia de ficar observando-os como se estivessem atuando num episódio de Friends, mas acabei me perdendo num romance imaginário sobre os dois e minha atenção só voltou àquele momento quando Hoseok, passando por um período de hiperatividade por conta daquele calor infernal, cutucou meus olhos com o indicador.

Não sei se eu deveria ir atrás de um médico ou algo assim, mas quando olhei para Hoseok senti um negócio acima das costelas, numa região mais ou menos centralizada. Não vou dramatizar o jeito como ele estava sorrindo pequeno e nem transformar num poema a forma como seus olhos brilhavam como uma estrela. Algumas coisas não têm explicação, justificativa. Talvez fosse mesmo uma taquicardia, ou talvez minha dor no peito fosse só a romantização física daquela situação. Talvez tenha sido consequência de muita batata frita. Não sei. Só sei que foi nessa hora que me dei conta de que estava mais encrencado do que eu imaginava: estar perto daquele garoto me deixava maluco.

– Você ainda está comigo ou já viajou? – Ele me perguntou quase revoltado. Provavelmente estava tentando se comunicar comigo há um tempo. – Eu quase consigo ver sua cabeça dentro dum foguete, indo pra bem longe.

– Sério? Essa sua visão é tipo um superpoder ou é doença? Você é realmente um mistério – ri.  – Sabe o que mais é um mistério?Como você consegue ser tão imbecil.

– Não se preocupe, baby – falou daquele jeito convencido e cheio de sarcasmo. – Só sou assim com você.

– Cale a boca – sorri quando ele soltou uma risada e mordeu minha bochecha. Eu já tinha me acostumado com essas mordidas aleatórias de afeto, e era uma coisa que estava até na minha lista de coisas que eu adorava nele. – Eu ainda não sei aonde estamos indo.

– Também não – me deu um beijo rápido.

– Claro que sabe, babaca. Foi você quem armou essa coisa toda – resmunguei e ele sorriu e piscou daquele jeito que só faz quando não quer me contar absolutamente nada sobre seus planos.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a garota, sentada ao lado do namorado, virou para nós e quase meteu um baseado na minha cara. Acho que naquele momento nos comunicamos melhor do que nunca. Começou a tocar Belle & Sebastian quando dei quatro tragadas profundas seguidas e Hoseok me olhou como se achasse que eu fosse desmaiar. Fiz um esforço para tentar mandar o máximo de fumaça pra dentro do meu organismo e soltei o resto pela boca. Hoseok, sentado do meu lado naquele sofá porco, colocou um braço sobre meus ombros e tirou o baseado da minha mão. Tragou com a ansiedade de quem não fumou muitas vezes, mas com a curiosidade de quem gostou de ficar chapado.

– Eu queria ser eles – murmurei baixinho enquanto observava o casal dançar ao som de uma música que não reconheci. O baseado já tinha rodado o suficiente pra formar uma ponta e logo acendemos outro, portanto eu já estava com aquele sentimento confortável como se eu fosse o verão. Senti mais do que ouvi as vibrações do riso fácil de Hoseok e prossegui: – Nunca pensei que fosse ser sentimental com música mexicana de fundo, mas fico feliz que você tenha me arrastado até aqui.

– Eu que fico feliz, Yoongi – falou em meio a goles da cerveja que segurava, mantendo aquele sorriso besta de quem estava chapado. – É uma honra ter você aqui pra te ver dormindo e babando nesse sofá bonitão.

Soltei um riso alto e ele apertou mais o braço que estava apoiado em meu ombro para que eu me aproximasse. Naquele ponto nós estávamos praticamente grudados, mas não era incômodo nenhum. Eu adorava a sensação do toque dele em qualquer parte de mim. O que eu sentia não se resumia à quantia de certas substâncias químicas no meu organismo reagindo a um estímulo, era muito mais do que isso: além de químico, era físico, mental, espiritual; era cada pedaço da minha existência se ajustando as partes dele. E digo, na cara dura, que foi a sensação mais genuína que já tive.

Hoseok falou algo, mas acabei perdendo total o fio da meada porque a voz rouca dele por conta da fumaça fazia coisas comigo. Na verdade a voz dele em qualquer momento fazia coisas comigo, e eu sabia que precisava dar um jeito na fraqueza que ele me fazia sentir toda vez que abria a boca. Ele incrivelmente não me pareceu surpreso quando, no meio de sua fala, me inclinei para beija-lo.

Acho que peguei essa mania de Hoseok, porque ele costumava ter alguns momentos inesperados e genuínos (e disfarçados) de afeto que me deixavam tremendo na base (e que demorei a entender como decifrar). Uma vez me acordou de madrugada a empurrões grossos, e eu juro que eu já estava preparado pra chuta-lo no lugar mais próximo, mas meu lábio inferior quase chegou a tremer quando ele disse mais ou menos assim: "eu gosto quando você acaba adormecendo com a cabeça em cima do meu braço, mas sempre acordo achando que vou ter que amputá-lo ou algo parecido". (Apesar do afeto disfarçado na frase, eu ainda queria chuta-lo. É sacanagem interromper o sono de alguém.)

A mão macia de Hoseok na minha bochecha era oposta ao rumo que o beijo estava tomando. Eu me encontrava cada vez mais adorando o jeito como ele era todo feito de contrastes, quase uma pintura barroca. Alguma coisa parecia queimar dentro de mim toda vez que ele me olhava de modo intenso mas me tocava com uma gentileza. Eu constantemente flagrava meu corpo reagindo a esses pequenos gestos dele. Por mais que às vezes eu tentasse esconder e disfarçar como eu tinha caído absurdamente nas armadilhas físicas, mentais e emocionais dele, era tudo tão genuíno que meu peito explodia e ficava cem por cento exposto. E o pior, veja só, é que eu adorava o que ele fazia comigo.

Nós estávamos sentados numa posição bastante desconfortável naquele sofá – que faz qualquer posição ser um pouco desconfortável –, então não demorou muito para que Hoseok me puxasse pelo pulso e me colocasse em seu colo. Fiquei zonzo com a velocidade que meus sensos do mundo além de nós dois se desligaram, mas não sabia se era efeito dele ou do baseado. Talvez fosse dos dois.

Eu já sentia minha boca seca como uma tarde num deserto, mas a língua dele fazendo aquele carinho na minha aliviava a sensação – aliviava um bocado de coisas, na verdade. Quase reclamei quando Hoseok separou seus lábios do meu, e ele sabia o que estava fazendo comigo porque demorou alguns segundos me olhando antes de encher meu pescoço de beijos e mordidas. Eu definitivamente sentia o sorriso sádico contra a minha pele toda vez que meus instintos falavam mais alto e eu deixava escapar uns sons mais animalescos.

As mãos dele apertavam meu quadril e ocasionalmente me puxavam em direção ao seu colo; como reação, ele me presenteava com aqueles grunhidos baixos que me faziam ter arrepios pelo corpo todo. Senti uns dedos curiosos viajarem para as minhas coxas e subirem até o bolso traseiro dos meus jeans, e pensei mesmo que iríamos fazer alguma coisa naquele sofá porco. Foi aí que Hoseok me puxou pelo lábio inferior (um pouco forte demais) e suspirou contra a minha boca. Era isso.

– Só queria te ver debaixo dessas roupas de novo – murmurou.

– Olha, foi você que meteu a gente nesse trailer – sorri e o beijei na boca. Ele me mordeu a bochecha, meio puto. – Beleza, vou te ajudar nessa.

Engatei os dedos na barra da minha camiseta, olhei pros lados como se fosse fazer algo ultra secreto e levantei o tecido até minhas costelas. Hoseok deu uma gargalhada alta e esquisita e inclinou o tronco pra morder minha barriga. Eu acabei não aguentando e caí no riso também, porque sempre me fazia muito completo vê-lo feliz. Me fazia mais completo ainda saber que eu conseguia fazê-lo se sentir assim.

– Você é um absurdo, Yoongi – falou ainda sorrindo. De um segundo pro outro seu rosto se contorceu de um jeito estranho e bonito: seu olhar desfocou, as sobrancelhas se juntaram, os olhos se semicerraram e a boca abriu levemente. Achei graça. Ele indicou com a cabeça a parte da frente do trailer, de onde o casal tentava falar algo pra gente. – O que você acha que eles estão falando?

Durante alguns minutos eles ainda tentavam usar palavras pra fazer a gente entender. Então a garota cansou, deu um suspiro e começou a fazer gestos com as mãos.

– Outro baseado? – falei meio sério, pensando que a garota tinha feito um sinal de fumar. Hoseok riu e me mordeu o pescoço.

– Acho que é comida, baby – me disse, e só aí eu reparei que o trailer estava estacionado na frente de algum tipo de restaurante.

Era um restaurante mexicano, daqueles bacanas que a gente vê na tevê: cheio de gente dançando pra todo cantos uns ocasionais nachos voando por aí – tudo do jeito mais natural possível. Logo quando entramos rolou um negócio estranho. Um sino soou e quase instantaneamente toda a galera gritou "adentro" e colocou goela abaixo qualquer coisa que estivesse segurando em mãos. Depois todo mundo voltou a dançar, comer e conversar como se nada tivesse acontecido.

– Isso – falou Hoseok, sorrindo grande – não foi parte dos meus planos. Mas quem sou eu pra reclamar?

Conseguimos uma mesa ao lado do bar, o que era convencional. O casal – que eu passei a definitivamente chamar de "Casal", porque não conseguia me lembrar do nome de nenhum dos dois – não demorou a puxar papo com qualquer um que estivesse passando por ali (os dois são os seres mais simpáticos que já conheci), e eu fiquei sem saber qual dessas pessoas trabalhava ali no restaurante. O que sei é que, poucos minutos depois, as comidas começaram a chegar. Num piscar de olhos, nossa mesa se transformou  numa enorme piscina de tacos e burritos, tequila e coisas que pareciam cair do céu.

Eu achava graça de como Hoseok conseguia se dar bem com qualquer um, em qualquer lugar do universo. Algum troço no meu peito quase saltava só de vê-lo se sentindo bem. Antes de eu sequer entender a situação, ele já estava sendo puxado pela barra da camisa por um garoto adorável de uns seis ou sete anos. Até hoje me lembro de como Hoseok dançou à la Dean Moriarty, ensopado em suor e cheio daquela aura fantástica.

Eu me sentia absurdamente confortável naquele lugar, perto daquelas pessoas. Na verdade eles não davam a mínima para a minha existência ali, e isso era o que fazia a coisa toda ser muito gostosa: nenhum deles dava a mínima pra existência de qualquer um ali (a não ser, talvez, algum parente ou outro); queriam mesmo se encher de comida, curtir um som e dançar até as pernas ficarem moles. Aquele dia foi uma das melhores coisas que aconteceu, pra ser sincero.

Uma garota tipo Marylou se aproximou de Hoseok, que não demorou a segura-la pela cintura para dançarem grudados. Incrivelmente, não pude deixar de me sentir tão Sal Paradise na história toda. Acendi um cigarro e deixei um sorriso no rosto para adorar quieto como aquele momento fazia alguma coisa dançar debaixo da minha pele. Era um tipo de sentimento que eu achava que nunca tinha experimentado antes – e certamente não tinha.

Em alguns momentos eu me pegava pensando nas mudanças que ele causou na minha vida. Tem uma que, apesar de não ser grande, é a mais importante. Eu nunca soube lidar comigo mesmo nesse universo, sempre tropeçando nos cacos do vidro que se quebrava toda vez que eu me sentia mais ou menos mal. Sempre tropeçando e caindo de joelhos, cortando as mãos e todo o resto. Quando ele se jogou no meu mundo, não parei de tropeçar. A diferença é que passei a ter alguém que me impedia de ferir os joelhos, os cotovelos e as mãos. Ele era meio que o que me segurava em pé.

Quando escureceu, Hoseok veio até mim com cheiro de suor e de outra coisa orgânica (e muito, muito mais abstrata) que na época eu não sabia nomear. Com a voz rouca por ter passado horas gritando por cima da música alta, sussurrou no meu ouvido que era hora de irmos. Eu ainda não sabia aonde estávamos indo, qual era o destino daquela bobagem toda (deliciosa). Mas essa parte de planejar surpresas e coisas estúpidas sempre ficava nas mãos dele, só cabia a mim dar bola pra tudo aquilo.

As contas foram pagas, os abraços foram distribuídos e nós voltamos ao trailer. Entre uma piada e outra, Hoseok me olhava daquele jeito arteiro de quem está aprontando. Desde o começo eu sabia que ele não era do tipo de cara que cabia em expectativas, não era do tipo de pessoa previsível. Apesar de que na maioria das vezes que me olhava daquele jeito era por um certo motivo, às vezes era só pra me deixar puto da vida. Nunca gostei muito de surpresas: quase sempre são seguidas de três ou quatro intermináveis segundos que decidem se aquilo foi bacana pra caramba ou um fracasso total. Mas até aquele ponto eu confiava nele o suficiente.

Talvez fosse a sensação que as noites passam ou talvez fosse pura exaustão física e mental, mas reparei que o clima estava diferente. O Casal continuava emanando essa energia deliciosa e engraçada, mas cada gesto e cada palavra soava como um sussurro, um segredo. Me deu a impressão de fim de filme alternativo, daqueles que só passam nos cinemas frequentados pela galera que curte se chamar de indie, mas deve ter sido só coisa da minha cabeça.

Não vi quando Hoseok começou a beber ao meu lado, mas em um momento senti dedos gelados na minha bochecha e me deparei com ele todo sorridente e levemente embriagado.

– Fica comigo – ele disse dum jeito arrastado, me fazendo inspirar aquele cheiro de cerveja quente. – Em casa, quero dizer. Você podia ficar lá comigo.

– Mal desempacotei todas as minhas coisas e você já quer que elas voltem pras caixas. Você é impossível, Jung Hoseok.– sorri sem dar muita bola para aquela ideia. – Acho melhor você parar com a bebida por aí, não vou segurar seu cabelo se você resolver vomitar suas tripas todas.

– Eu estava pensando em arranjar umas plantas – continuou ele, não dando a mínima pra mim naquele momento –, mas o último vaso de flor que peguei do vizinho acabou virando porta-copo.

– De que caralho você está falando? – dei risada. Hoje eu sei que, se tivesse me esforçado ao menos um pouco, teria entendido o que ele estava dizendo nas entrelinhas. Mas eu estava cansado pra caramba, cansado demais pra ler entre-qualquer-coisa.

Quando o trailer estacionou em frente a uma praia, Hoseok já estava sóbrio e eu já estava menos cansado. Pensei que todos fôssemos descer, mas descobri que não quando Hoseok acenou para o Casal e meio que gritou um adíos seguido de muchas gracias. Achei adorável. Antes que eu pudesse dar um passo sequer, Hoseok encostou o peito nas minhas costas, colocou as mãos sobre os meus olhos e murmurou:

– Está preparado?

– Na verdade... não – admito que soei um tanto reclamão mas, qual é, eu já estava prestes a ficar puto com todo aquele mistério. Hoseok se desgrudou de mim enquanto ria e voltou ao meu lado, começando a andar.

– É brincadeira – estendeu uma mão para que eu pegasse. Tentei não pensar muito em como ele conseguia ser assim dum jeito tão natural e juntei minha mão fria à dele. – Não preparei nada demais, não estou podendo te dar um ataque cardíaco ou sei lá. Odeio hospitais.

– Acho incrível como só você sabe ser tão babaca – tentei ficar sério, mas um meio-sorriso me escapou.

Andamos juntos até um pier, onde Hoseok resolveu soltar minha mão e se escorar no corrimão de madeira. Me lançou aquele olhar indecifrável por uns segundos antes de se aproximar de mim, metendo os dedos nos meus bolsos para fisgar um cigarro e o isqueiro. Eu não sabia se ele realmente tinha descoberto os tempos pra regular meu vício ou se estava só querendo me manter de boca fechada, mas aceitei quando ele encostou o cigarro no meu lábio.

Enquanto eu fumava, Hoseok me observava com um sorriso no rosto. Às vezes eu ainda nego isso, mas sempre adorei com cada fibra do meu corpo o jeito como ele me olhava devagar, mesmo que o mundo estivesse girando rápido pra caramba.

– This could be the end of everything, so why don't we go somewhere only we know? – ele cantou tão casualmente olhando para mim que parecia ridículo, mas mesmo assim tive que disfarçar um sorriso ao tragar porque, bom... Keane.

Poucos minutos depois, quando me livrei da bituca, Hoseok me puxou para si pela barra da minha camisa e me abraçou pela cintura. Apesar de não ter conseguido decidir se eu 1) odiava vê-lo daquele jeito, 2) adorava vê-lo daquele jeito ou 3) simplesmente não entendia, devolvi o abraço apertado com aquela sensação de manhã de domingo. (Aí vai um negócio meio aleatório: abraços são as coisas mais voláteis do mundo.)

Achei graça quando Hoseok tentou me beijar sem se desgrudar de mim por um milímetro sequer, e acabamos caindo no riso. Ainda de sorriso grande (e bonito e aberto e sensacional) no rosto, ele me mordeu o lábio antes de virar o rosto em direção ao fim do pier, onde começava aquela imensidão de água. Beijei seu pescoço por quatro ou cinco segundos e senti as vibrações das cordas vocais quando ele começou a dizer:

– Está vendo aquelas constelações ali?

– Por quê? – perguntei meio no automático, minha cabeça estava viajando. – Vai me falar o nome de cada uma delas ou me contar alguma história sinistra de aventura?

– Qual é a sua, garoto? – ele riu, falhando ao fingir estar irritado. – Beleza, eu ia contar uma história. – E então eu coloquei meus pensamentos todos naquele momento e dei uma risada escrota e estranha, abafada pela camisa de Hoseok. Eu sempre tive muita dificuldade em saber se ele, com todas aquelas doideiras e viagens, era real. Parece bizarro pensar assim, mas acontece que eu tinha essa sensação de que ele era uma projeção de tudo que eu queria e tudo que eu precisava.

Era completamente insano como tudo acontecia de um jeito tão bonito, romântico e melancólico dentro da minha cabeça, mas eu nunca fiz nada para que essas coisas acontecessem nesse nosso suposto mundo real. E isso só tornou as coisas ainda mais infinitas e deliciosas e inconstantes quando ele me apareceu, com sua bagagem em mãos, decidido a por um fim em todos os muros de tijolos que já quebrei e reergui muitas vezes; decidido a me convencer de que, diante desse universo imenso, o desnudamento de tudo que se guarda debaixo da pele faz o tempo parar.

 


Notas Finais




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