História Crazy in Love - Capítulo 14


Escrita por: ~

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Palavras 5.655
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Comédia, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Hentai, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Suspense
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 14 - Tom


 

Tom

Olívia e Laura foram distribuir algumas esculturas na sala e eu ainda estava no ateliê revirando as pinturas de Barbara procurando uma tela que achei que seria boa para pendurar ao longo da parede da sala. Barbara estava sentada na cadeira giratória fazia alguns minutos, olhando para mim numa expressão confusa, agora não mais só por tentar me ler, mas eu podia ver que alguma coisa distante tinha mesmo sido atingida dentro dela agora.

— Por que você os trouxe aqui? — ela perguntou. Sua voz pareceu um pouco assustada dessa vez, e isso me preocupou. Soltei tudo o que estava fazendo para me aproximar dela.

— Eu fiz mal?

— Não... quero dizer... não sei, eu só... — franziu ainda mais a testa.

— Eu só gostaria muito de ver o resto da sua família... Acho que era um desejo bobo de ver a gente chegar a um nível de intimidade condizente com o que a gente vive — sorri de lado. — Você viu minha mãe conversando com eles?

Ela sorriu também. Ainda rígida ao pensar nisso.

— Ela é um amor... trouxe mesmo os doces pra mim! — e passou a mão nervosa pela testa. Eu me pus na sua frente e segurei seu rosto, que se avermelhava um pouco. Encostei sua testa no meu peito. Ela não disse mais nada, mas me abraçou com força.

Eu não sabia que a simples presença deles bateria tão fundo nela, mas deveria imaginar. Por mais que tenha sido por toda a vida e ela não tenha muito com que comparar, era a ausência da figura de uma mãe, e essa falta era cobrada dela de alguma forma forte, como naquela hora, que às vezes aparecia e nem ela sabia explicar direito como era ou onde ficava esse buraco nela.

Foi ideia da minha mãe que eu os levasse até lá. A gente acreditou que seria importante saber como falar sobre ausência de uma forma que conversasse mais com o que ela sente do que esse caminho mais imediato para mim que é lembrar da falta que meu próprio pai fez ao sair de casa. Ela não sabia o que era se sentir insuficiente para a permanência de alguém, mas com certeza sabia o que era se sentir motivo para esse alguém ter ido embora. Pensar sobre isso a abraçando ali me ajudou a organizar um pouco na cabeça tudo o que eu precisava contar para ela naquele dia.

E fez perceber também o quanto esses sentimentos me acompanham um pouco de maneira indireta até hoje. Pensar em todas as vezes que a própria Barbara foi embora. Naquele dia em que ela destruiu minha casa inteira e depois saiu pela porta, como se mostrasse o quanto queria poder só estar ali, mas que mesmo assim, eu a fiz ir embora.

Barbara tinha ido e me deixado plantado de pé no meio da sala. Tão invadido e bagunçado quanto estava a minha casa. Passava gente do lado de fora olhando para as coisas expostas e quebradas, e os quatro homens do lado de dentro que pareciam bem decepcionadas por eu não ter voltado com uma história de tragédia e sobrevivência para contar. Voltei com uma história sobre a Clara, que eu não ia falar, mas que no fundo todo mundo sabia.

— E o senhor não vai dar queixa? — o policial de mais porte entre os três que me assistiam perguntou, quase me fazendo considerar só pelo tom de quem não estava acreditando que passou toda a manhã ali para nada. Dar queixa de Barbara? Eu tinha a casa inteira revirada e bastante prejuízo em portas, plantas e auto falantes, a minha dignidade jogada no chão naquele momento, mas estava mais preocupado com que ela tivesse parado de me bater e saído pela porta. Ela entrou naquele carro colorido dela e foi embora.

— Não... — respondi, desconfiando da minha própria sanidade. — Desculpe por todo o transtorno. Não imaginava que seria procurado, pelo menos por esses dias.

— Não imaginava?! — Luke riu incrédulo.

— Eu não imaginava. — disse sincero.

— Ok. — o policial falou ajustando os ombros largos bem alinhados e as roupas bem cortadas para sua cintura. — O senhor é um adulto e um homem inteligente. Deve saber o que está fazendo. Mas se me permite um conselho, seja mais... cuidadoso. Às vezes a gente acha que é capaz de mudar esse tipo de pessoa, mas não dá.

Luke cruzou os braços erguendo o nariz.

— Não sou mais eu quem está falando. É um policial. — ele disse sério. — Ligue para os seus pais e suas irmãs. Eu não fiz alarde de nada mais sério, mas eles não são bobos. — recomendou. Acabou ficando com meu silêncio e apatia como resposta. — Eu vou indo, e os levo até a porta.

Eu balancei a cabeça anuindo, ainda um pouco sem reação. Voltei a olhar para a porta por onde Barbara tinha saído. Acho que tive pouco tempo para assimilar tudo aquilo. Luke pegou seus óculos sobre a mesa e se encaminhou para a rua junto aos outros três.

Havia mesmo algo dentro da minha cabeça que me alertava em consonância, que começava a me impulsionar a continuar a fugir disso e procurar mais do que eu tinha vivido naquele fim de semana, com a Clara; Clara, onde tudo era tão simples. Mas de alguma forma aquilo ficava bem do lado daquela vontade de entender o que estava acontecendo ali, naquela parte caótica da minha vida jogada para baixo do tapete.

Depois disso Barbara não me ligou por dois dias. Eu estava cedendo para o lado da fuga, conversei bastante com Clara nesses dias e estava gostando disso, mas ficava difícil não pensar em Barbara tendo que pregar dobradiças e comprar madeira nova para as janelas. Eu também não telefonei para a Barbara nesse tempo, é justo pensar dessa forma, só quero dizendo assim especificar que estou falando de Barbara, a pessoa que se você não atende o telefone, acha que você está morto. Então no terceiro dia eu comecei a tentar algum contato, nem que fosse por mensagem, qualquer coisa, e não ter resposta só aumentou a minha agonia.

Só tive um pouco de alívio quando ela visualizou as mensagens sem responder. Depois começou a desligar o telefone imediatamente quando tocava. Pelo menos eu sabia que ela estava do outro lado, e em algum momento ia ter que fala comigo. Eu comecei a perceber que às vezes parecia que atendia e desligava em seguida só pra brincar com a minha cara. Tive certeza de que ela fazia isso quando atendeu uma vez para gritar:

— Não estou atendendo! —, me tratando como um idiota. E meu alívio se transformou em raiva naquela hora. Uma raiva estúpida se eu também não quis falar com ela depois que soube de Amélia, mas você não pensa racionalmente nessas horas e é absolutamente inevitável. Liguei uma última vez e caiu na caixa postal. Ela tinha desligado o celular.

Eu me levantei do sofá de casa muito puto. Peguei qualquer uma camisa no armário e vesti, passei a mão pelo cabelo sem nem olhar num espelho. Fui no quintal, peguei minha pá de jardinagem, voltei na sala, peguei a chave do carro, saí cortando o vento para a garagem, tirei o carro, fechei o portão e segui caminho para a casa dela.

Eu estacionei na calçada da Barbe. Peguei a pá no banco de carona e saí do carro com ela firme na mão. Me plantei na frente da porta e apertei os dedos no cabo. Eu levantei no alto, eu cheguei a direcionar o peso na fechadura. Minhas mãos e minha testa estavam suando frio. Cacete, como era difícil, eu estava me sentindo um maníaco. Apareceu gente vindo da esquina e eu precisava de uma decisão e movimento rápido, se alguém me visse fazendo aquilo aí sim ia virar um escândalo, envolveria polícia de novo, o cabo começou a escorregar, eu suei ainda mais...

E desisti.

Respirei e abaixei. Encostei a cabeça na parede e cheguei a repetir para mim umas frases motivacionais, como, "vamos lá, Tom, você é capaz disso", como se estivesse ali para fazer algo realmente muito importante, mas é como são esses impulsos... Dalí já latia feito um louco do lado de dentro sentindo o meu cheiro. Então eu esperei a chegada do próximo impulso mais forte da irritação, e assim que a rua esvaziou de novo eu joguei a pá ao alto, segurei com uma força, posicionei do jeito certo, para na mesma hora tomar um baita de um susto vendo a porta de repente abrir na minha cara e eu ter que frear tão perigosamente para não acertar no meio do nariz de uma figura de cabelos azuis que surgiu na minha frente que cheguei a sentir um choque de medo e susto na minha coluna.

— PUTA MERDA — Barbara gritou prendendo Dalí entre as pernas e levantando um violão pelo braço, que girou rápido e acertou um golpe muito ingrato diretamente no lado do meu rosto. Azuis. Os cabelos dela estavam azuis.

— AU! — saiu de mim com força sentindo a minha orelha arder.

— Puta merda, que porra é essa?! — ela exclamou apertando as mãos no instrumento assustada ao se dar conta do que tinha acabado de fazer.

— Eu vim ver você, caramba!

— Você me assustou, seu idiota! — e acertou com o violão no meu ombro dessa vez, como se nunca tivesse se arrependido.

E ao invés de reclamar da dor, uma risada inconveniente surgiu de mim de modo involuntário, fazendo a pancada da cabeça latejar, me levando a descobrir que você não controla mesmo essas coisas. Eu sequer sabia se conseguia conversar a sério com ela de cabelo azuis. E não é como se ela fosse se explicar sobre isso, era isso, ela estava com o cabelo azul e pronto.

— Eu te assustei? Fazendo o mesmo que você fez comigo?! — perguntei.

— Eu vou pagar essa merda das suas portas, você não precisa quebrar as minhas! 

— Não só as minhas portas, o mesmo que você fez comigo, garota! — eu gritei sem medir o que estava fazendo. Eu estava ofegante, ainda segurando a pá sem me dar conta, voltando a suar feito um porco. Agora sim eu era um maníaco. — É pra gente ficar brincando de revidar tudo o que o outro faz?! Então me explica até que ponto essas coisas chegam! — ela me bateu na mesma orelha de novo sem motivo, como se fosse só um espasmo nela, eu sentia aquilo queimar, a garganta secar e apertar, mas não queria parar de falar até me fazer entender. — Eu preciso saber o tamanho do espetáculo que você precisa para entender que...

E antes mesmo que eu pudesse terminar de falar, fui surpreendido por mais um golpe, que dessa vez não veio de Barbara, mas de trás de mim, com uma bolsa cheia de livros se encaixou bem na minha lombar.

— AU! — falei de novo incrédulo, já sentindo em seguida um puxão pela camisa me fazer cambalear para trás — AU, mas que...?!

— MEU VIOLÃO, PORRA! — um grito irrompeu de uma das minhas duas novas agressoras, que voou em cima da Barbara para tirar o instrumento da mão dela. Era Laura. A outra travou na mesma hora ao poder ver meu rosto de frente. Olívia.

E essa é a primeira imagem que eu tenho das amigas de Barbara, Laura analisando o estado da caixa acústica do seu instrumento sem dar a mínima para mim por um tempo considerável até me reconhecer, Olivia travada com a bolsa de livros suspensa, Barbara quase tropeçando ao praticamente se atirar dramaticamente entre eu e a segunda para que eu não apanhasse mais (azul!), como se não tivesse ela mesma me batido com um violão, formando nosso quarteto de estátuas boquiabertas tentando processar o que estava acontecendo.

Eu queria poder dizer que elas eram todas loucas. Mas eu estava ameaçando arrombar uma porta aberta com uma pá de jardinagem pra me declarar para aquela espécie de escultora punk. E acabara de ser pego nisso. Num segundo todo o sentido daquilo (se é que tinha) se desfez e eu só quis mesmo era desaparecer dali.

— Se isso é um sonho, é um sonho muito estranho. — Olivia disse olhando para os lados. Esticou os braços e começou a tatear o ar — Eu só preciso acordar e falar com a minha analista.

— Então acorde, me acorde e me dê o telefone da sua analista, porque se meu violão tiver empenado...

— Eu não consigo! — respondeu assustada.

Laura vasculhou a própria bolsa e sacou o celular, num gesto rápido jogando o flash da câmera na minha cara, fazendo Barbara se contorcer na minha frente para tentar me esconder, sem sucesso, dizendo:

— Você teria coragem de me botar numa página dessas revistas?! — "como assim revistas?!", pensei cada vez mais perdido, senti uma mão apertar minha bunda e Barbe deu um tapa nela — Não é sonho, Olivia!

— Tá, desculpa! — Olivia respondeu;

— É disso que se trata toda a sua preocupação com o que eu digo ou deixo de dizer na minha coluna agora?! — Laura disse parecendo ofendida. "Coluna". Nada disso podia ser bom.

Não sei se era a dor da pancada que ainda reverberava no meu crânio ou minha orelha que queimava, ou o intenso constrangimento que você só sente quando é pego por alguém fazendo algo estúpido e só então pode ver o quanto pareceu estúpido fazendo, mas eu não estava conseguindo acompanhar a rapidez das três. Tudo o que eu consegui no meio disso foi soltar a pá de lado, segurar com as mãos a cabeça pesada e pronunciar novamente:

— Au...

— Tom? — Barbara se virou e segurou meus braços preocupada, olhou para a minha orelha e fez uma careta dolorida, como se não tivesse me batido com um violão.

— Au... — dessa vez foi Olivia. Devia estar mesmo feio.

— A gente... pode continuar isso lá dentro? — Barbara pediu.

Entramos. Eu andei passo a passo para dentro com a imagem de Luke e dos três policiais dando voltas pela minha cabeça e me chamando de irresponsável.

Barbara foi buscar gelo na cozinha e eu fiquei sendo escoltado pelas duas amigas no sofá da sala. Olivia anotava com a direita rápida alguma coisa num pequeno caderno que hoje sei que é onde registra ideias para o que escreve (ela escreveu um conto sobre um jardineiro sexy depois desse dia) e Laura apenas fuzilava meu rosto.

— Eu conheço você? — perguntei na sincera dúvida.

— Não, mas eu conheço você. Aliás, achava que conhecia, essa de agressor é uma nova.

— Eu não ia fazer nada contra ela.

— Claro que não, só plantar umas flores no quintal...

— Se sabe tanto, deve saber o que ela fez na minha casa com essa mesma pá. — disse já sem paciência. — Esquece, não consigo conversar sobre essas coisas. Não sei como se consegue viver uma vida que se ganha destruindo a de outros.

— Eu só digo a verdade, se sua verdade é condenatória...

— Laura, chega, né? — Olivia interveio antes que eu replicasse, sem tirar os olhos do papel. — A Barbara só não quis contar, é um direito dela.

— Não quis contar para a gente?!

Olivia entortou os lábios rosados e só deu de ombros. Só então entendi o real drama da situação. Não se tratava da sensação ser uma colunista de tabloide sendo a última a saber. Era de as três serem melhores amigas e não saberem de nada.

Barbara voltou da cozinha com um pote de sorvete e se sentou na mesa de centro na minha frente. Encaixou minhas pernas entre as dela, me olhando em silêncio, como se precisasse sentir a adequação de cada centímetro de aproximação entre a gente. Ela. A pele do rosto de tom naturalmente de um leve dourado da sua descendência australiana naquele dia escorria um suor colorido do couro cabeludo, e ela parecia ainda mais louca que normalmente com isso, mas não conseguia deixar de estar linda. Aproximou as mãos do meu rosto com a esquerda delicada e fresca deslizando e encaixando os dedos segurando no meu maxilar me derretendo por dentro com o seu toque de cuidado, num esforço para conter os olhos pesados na direção da minha boca. Ela me deixava vulnerável à sua atração me fazendo respirar fundo involuntariamente. Piscou em fuga, olhou para minha orelha fazendo de novo a careta adorável e encostou nela o pote congelado.

— Au... — repeti.

— Desculpa. — sua voz sussurrada disse. Saudades da sua voz assim, me dava vontade de dizer. Saudades do teu hálito em mim. Mas só fiquei me afundando nos seus olhos grandes olhando para os meus, com medo que qualquer palavra fosse motivo para que se afastasse.

— Então — Laura, claro —, há quanto tempo se conhecem, afinal?

Barbara entreabriu a boca e não falou. Estava mesmo perdida na situação difícil entre eu e as amigas.

— Eu não sei se é algo sobre que eu devia falar.

— Há sete meses. — eu mesmo respondi, para surpresa de Barbe. "É O QUE?!", escapou de Olivia. Os olhos de Barbe ainda mais presos em mim, e os meus nela. Um filete do gelo derretendo escorrendo pelo meu pescoço. — Há seis estamos juntos. Há quatro como namorados.

— Quantos meses?! — Laura exclamou. Fez contas nos dedos — Meu deus, você é a Suicida de Westminster! — e mais contas — Você é a Tarada do Parque!

— Eu saí em algum lugar com esses codinomes?!

— Claro que não, ninguém sabia a tua cara direito! — Laura respondeu e se virou para mim, direcionado a resposta — Não se publica tudo o que se ouve, eu tenho um compromisso profissional com a verdade.

— Eu gostei — brinquei com um sorriso escapando pelos lábios, sentindo o prazer de ver Barbara sorrir para mim de novo depois desse tempo me atingir direto no estômago de apaixonado a se contorcer. Era como um alívio, que só me puxava mais para perto. A gente devia estar mais perto, eu quis dizer. Continuei a contar. — Barbara trabalhou numa peça em que eu estava atuando, e me conquistou literalmente dia após dia. Primeiro deixando intrigado. Depois me fazendo sorrir. Depois fazendo uma merda atrás da outra e me mostrando que eu queria fazer merda também. — as mãos de Barbara estavam tão firmes na minha pele que me davam segurança. — Ela com certeza quis contar isso pra vocês muitas vezes, mas eu não soube ouvir. As coisas estavam boas para mim e talvez eu não tenha me dado conta do quão pesado pode ser quase não ter com quem contar numa história como a que eu posso oferecer para as pessoas. E que se ainda é difícil ter confiança plena até em mim... — suspirei. — Me desculpa mesmo, Barbara.

Ela não respondeu. Ficou travada na mesma posição de se prender aos meus olhos, o gelo adormecendo a minha pele por não sair do lugar havia uns dois minutos. Aquela respiração funda de quem não consegue negar a atração que nossos corpos exercem, o calor que eles produzem juntos... Ela era claramente minha, e para ela não admitir isso gritando, eu a tinha atingido em pontos muito delicados. Aquele tamanho todo me assustava, me intrigava e me atraía mais. O que é que eu quero com você, Barbara?

— E foi pra isso que chamou a gente pra cá? Pra contar? — Olivia perguntou.

Eu olhei para Barbe e ela para mim. Eu também não sabia.

— Sim... — respondi vacilante.

— Na verdade, não... — ela corrigiu. — Eu chamei para beber, comer esse sorvete de rum e xingar o Tom, mentalmente, se nem xingar esse idiota em voz alta eu posso... Ou podia... Mas agora eu... — suspirou frustrada. — Acho que ele estragou tudo...

— Desculpa... — pedi sem saber se podia rir disso. Uma coisa que você tem que saber sobre a Barbara é que às vezes por mais que o que ela diga ou faça seja engraçado, ela está levando bem a sério. Ela estava seria. Provavelmente era uma dessas vezes. — Você ainda precisa desse tempo? — perguntei.

— Eu acho que sim.

Foi um balde de água fria, não vou negar. Mas eu tinha que aceitar que precisava engolir aquilo se era no mínimo justo. Até eu precisava de tempo, meu coração teimoso é que não estava admitindo não atropelar as coisas.

— Não fique aqui me olhando assim... — ela pediu.

— Você colou minha orelha no gelo... — respondi.

Foi "Ah, meu Deus", e aquela cara dela, aquela correria dela molhando o dedo ao redor do pote e passando ali e as amigas ajudando a separar a pele do plástico, até descolar e poder me soltar.

Eu me levantei, dei a volta na sala para pegar minha pá, pelas linhas menos retas possíveis pela casa. Algo em mim estava esperando uma mudança de ideia, um pedido para ficar. Mas o único pedido que tive foi Dalí agarrando as unhas na minha bermuda sem me deixar andar direito. Ela me levou até o portão e ficou me olhando pisar na calçada, mil passos até o meio fio, minhas mãos no bolso e a intenção de me virar clara em cada um deles com qualquer palavra que ela tencionasse pronunciar, e nada.

— Eu posso te ligar? — cedi ao alcançar a porta do carro.

— Eu ligo pra você. — ela respondeu. O estômago retorcido só em pensar em quanto tempo mais ela ia precisar para isso. Se não seria tarde demais, para mim ou para ela. Balancei a cabeça aceitando. Entrei e fui embora.

Para o bem da minha calma, ela ligou mesmo, e no mesmo dia. Marcamos um jantar na casa dela para alguns dias depois. Pensei em comprar flores, mas achei que seria bobo oferecer qualquer coisa tão previsível, então troquei o presente por uma boa garrafa de vinho, onde enrolei uma fita e pendurei um cartão com capricho. Eu gostei do meu presente, achei bastante esperto de minha parte, até, estava orgulhoso! Me preparei para repetir todos os pedidos de desculpas que já tinha feito e entregar para ela. Eu estava tenso com como ela me receberia, tentando ser confiante de que ela não pretendia pôr laxante na minha comida ou qualquer coisa parecida. E fui surpreendido com o ambiente que encontrei. Aliás, surpreendido é pouco.

— Fecha os olhos — foi a primeira coisa que ela disse ao abrir a porta. O violão de Laura pendurado no corpo parecendo uma cirandeira, com aqueles olhos brilhantes que ela estava, e o sorriso brincalhão para mim que me tranquilizou na mesma hora. Os lábios enfeitados com um batom alaranjado refletindo a luz da rua, compondo com o azul do seu cabelo. Barbara e suas cores.

— Eu não quero fechar os olhos... — sorri também.

— Não me faça inchar sua outra orelha aqui agora.

— Não bastou quase arrancar a esquerda fora?

— Foi meu desejo secreto de te ver interpretando Van Gogh no cinema falando mais alto.

Aquele sorriso de novo. Eu tenho mesmo que fechar os olhos? Ela entortou a expressão impaciente. Fechei.

Seus dedos magros entrelaçaram nos meus, me guiando pelo quintal.

— Cadê o Dalí? — perguntei.

— Tá de castigo, comeu o S.

— Comeu o quê?!

— Fica quieto, Tom, que coisa! — entramos na casa e ela soltou a minha mão. Ouvi seus pés se arrastando e começou a tropeçar nas coisas, ou não seria ela.

— Quer ajuda aí? — caçoei.

— Não! — arrastou um móvel aqui, ajeitou uma almofada lá — Ok, pode abrir!

Deixei-me ver a sala toda à meia luz de umas luminárias que ela arrastou para fora do quarto dela. Um barbante que atravessava o cômodo de ponta a ponta onde estava pendurada uma sequência de letras em forma de balão que dizia: ME DESCULPE! , todas as letras, menos o S. Ela, no centro disso tudo, com um sorriso enorme aberto e carregando nos braços agora além do violão, um enorme buquê de flores.

Certo. Se for ela me dando, não é nada clichê.

Tinha pétalas de rosas pelo cômodo inteiro. Velas aromáticas sobre a mesa ao redor da tão icônica escultura da minha bunda contraída. A minha bunda era o centro de tudo, é seguro dizer. Cervejas, na mesma caixa e com as mesmas taças da minha casa da noite em que cheguei de viagem. Senti uma fisgada no estômago.

— Posso ter uma segunda chance pra aquela noite? — ela me pediu.

Eu fiquei olhando para ela com a maior cara de bobo que já tinha feito na vida, porque ela tem um dom para me deixar sem reação; o bobo da garrafa de vinho.

— Pera — pediu, entregou o buquê para eu segurar também e tentou ajeitar o violão numa altura boa para ela, segurando o braço do instrumento com dedos rígidos, mais parecendo uma calopsita pousada ali.

— O que está tentando fazer? — ela continuava ajeitando dedo a dedo, corda e casa — que acorde está tentando fazer?

— Eu não faço ideia — E testou uma batida do si menor mais desencontrado que eu já tinha ouvido na vida. — Ótimo — ela disse. Eu já tinha ouvido a Barbara cantar, às vezes enquanto balançava o corpo e dançava sozinha por nada, e bastante naquela primeira noite que passamos juntos cantando músicas aleatórias. Ela era terrível, mesmo. Só tinha uma espontaneidade, não sei, uma felicidade em soltar aquela voz que deixava as músicas com uma emoção muito boa de se ouvir, pelo menos para mim. E agora ela ia tocar. E eu era só a mocinha com um buquê de flores esperando para ouvir a serenata. Ela respirou fundo, tensa antes de olhar nos meus olhos... e começou a batida desajeitada dos dedos nas cordas, trocando de acordes adoravelmente devagar demais no clássico de Nina Simone que melhor a descreveu até hoje.

 

Baby, you understand me now

(Baby, você me entende agora)

If sometimes you see that I'm mad

(Se às vezes você me vê louca)

Don't you know no one alive can always be an angel?

(Você não sabe que ninguém pode ser sempre um anjo?)

When everything goes wrong, you see some bad...

(Quando tudo vai mal, você vê algo ruim...)

 

But, I'm just a soul whose intentions are good!

(Mas eu sou só uma cujas intenções são boas!)

Oh, Lord, please, don't let me be misunderstood...

(Oh, Deus, não me deixe ser mal interpretada...)

 

If I seem edgy I want you to know

(Se eu pareço estar no limite, eu quero que você saiba)

I never meant to take it out on you

(Que eu nunca quis descontar isso em você)

Life has its problems and I get more than my share

(A vida tem seus problemas, e eu recebi mais que a minha parte)

And that's one thing I never mean to do...

(E isso é algo que eu nunca quis fazer...)

 

E eu soltei as flores na mesa e segurei o braço do violão parando imediatamente as cordas. Ela olhou para mim assustada, sem entender bem o que estava acontecendo.

— Está tão ruim?! Desculpa, eu tô ensaiando desde quarta, mas acho que tenho alguma atrofia nesses dedos... — falou rápido e tensa me mostrando a mão esquerda travada no ar, tentando cuspir uma mecha do cabelo que pintara o canto do lábio no contato com a saliva. Meu peito subia alto de nervosismo e minhas mãos suadas escorregavam novamente, no instrumento e na garrafa. Estava tão ruim, mas não era isso.

— Eu só quero ter certeza de que quer dizer o que vai cantar. — expliquei.

Ela tirou minha mão do violão e o deixou pender para trás do corpo, se aproximando mais de mim e agarrando os braços na minha cintura. Eu podia sentir o calor vindo do seu rosto, e seus olhos pareciam querer se mostrar inteiros para os meus na sua sinceridade.

— Eu amo você. — ela finalmente disse, desencadeando uma série de reações, desde a dor embaixo do peito à euforia de fogos por dentro do meu corpo todo vibrando, desconcertado, que só se equilibrava com o aperto dos braços dela em volta de mim e os olhos me dando direção. — Oh, baby, — continuou a música — I'm just human... Don't you know I have faults like anyone? — sua voz desafinava de um jeito doce, de um jeito dela que eu amava. Amava. — Sometimes I find myself alone regretting some little foolish things, some simple things that I have done. But I'm just a soul whose intentions are good! Oh, Lord, please, don't let me be misunderstood...** — suspirou. — Desculpa pela sua porta — ela continuou a falar —, pela sua janela, pela sua planta... — pausou a voz suave. — Pelo seu sistema de segurança; pela festa e o Martí, pelo produtor, pela Amélia... pela falta de confiança... Desculpa por ter quebrado a sua caixa e...

E eu a beijei. Lento, profundo. Sentindo que eu estava nela como jamais estive. Ela subiu os braços aos meus ombros e se apoiou, pendurou-se em mim me envolvendo com suas pernas agora, com o corpo inteiro cheio de posse e conforto em estar grudado no meu, mesmo com o desequilíbrio da mão com o vinho. Sua boca expressando sua vontade e saudade da minha. Aquela mulher era minha. A minha louca do cabelo azul.

— Obrigado por me invadir. Eu amo você.

Fiquei olhando para ela ali, pendurada em mim com aquele violão sacudindo nas costas, se divertindo em mexer o nariz sobre o meu. Beijou a minha orelha, "desculpe", e riu. Voltou a olhar para mim, se ajeitando nos meus braços. Silêncio. Cara de expectativa. Silêncio.

— Você gostou? — não aguentou e perguntou.

— Estou frustrado.

— Por quê?! — ela se assustou.

— Porque eu só tenho uma garrafa de vinho e um cartão estúpido. E... — agarrei-a mais firme em um braço só pra e estendi o outro com o meu presente mostrando a diferença de tudo em volta, um pouco agitado e incomodado com isso — Como sempre, eu sinto que nunca vou conseguir fazer algo legal de verdade para você.

Ela se segurou com um dos braços no meu pescoço e pegou a garrafa na mão, analisando o rótulo.

— Isso tem álcool?

— É vinho, Barbara.

— Então é o melhor presente. — ela defendeu tocando a rolha no meu peito, debochada. Confesso, já cheguei a achar que ela era alcoólatra com toda essa afinidade que tem com as bebidas. Percebeu que continuei frustrado — Quando você vai entender que eu não quero ser "salva" por você?

— Não é isso, eu só não quero sentir que estou devendo algo, entende? Não sei...

— Você só está com medo de eu te desculpar agora te dar aval pra continuar fazendo merda. "Nada encoraja tanto ao pecador como o perdão".

Conseguiu meu silêncio surpreso.

— Desde quando lê Shakespeaare?

— Não lia nem metade na escola, aprendi essa frase procurando no Google hoje à tarde. Mas claramente não achei legal pendurar isso na sala...

Eu ri, de graça e um pouco de alívio, e ela me acompanhou nas risadas.

— Está vendo? É disso que eu estou falando! — apontei.

— Isso me faz lembrar que te fiz um presente! — ela disse numa euforia repentina, pulando fora do meu colo.

— Mais?!

— E eu lá sou mulher de miséria?!

Deixou o violão e o vinho na sala, correu até o quarto e voltou com um pacote embrulhado, entregando na minha mão, e eu abri ansioso. Era uma caixa de madeira. Ela tinha um desenho feito à mão em sulcos na tampa e ao redor, de sua temática preferida, o sexo. Eram vários corpos amontoados, femininos, masculinos, andróginos, transexuais, todos se acariciando e beijando e lambendo e mordendo uns aos outros indiscriminadamente.

— Como eu ia dizendo... desculpe por ter quebrado sua caixa — disse com um sorriso sem graça no rosto. — Já pode voltar a colecionar suas "figurinhas" — e se deu conta do que disse — GUARDAR, guardar o que já tem, não colecione mais, por favor.

— Eu sei que eu devia ter contado. Só não é que eu estivesse escondendo alguma coisa.

— Foi só um susto. Um grande susto pra quem acaba tendo que dividir você com o mundo todos os dias. Eu acho que tudo o que vem de você é grande demais pra mim, e às vezes é muito difícil conter esse — fez movimentos arredondados e atravessados com as mãos, os braços e a boca como se isso explicasse melhor o que ela sentia do que palavras, e soltou um grande suspiro cansado das bochechas.

— É lindo, meu amor. — e a dei um selinho de agradecimento. — Mas... você sabe... ficou faltando uma "figurinha" agora...

— A sua figurinha de ouro, diga-se de passagem... Destaque! — mostrou ter entendido que eu falava de seu sutiã, recuperado na noite da briga.

— Ela não volta para a caixa entre as outras, se você preferir. Mas eu realmente gostaria de tê-la.

— Pode até ser... — ela deu um giro lento sobre os próprios pés, ficando de costas e sorrindo de lado, travessa. Abaixou a alça da camiseta, mostrando que o estava usando — Mas você vai ter que conquistar ela de novo!

E correu para o quarto dela.

Não preciso dizer que tivemos uma noite ótima. E que o jantar ficou para de manhã, porque Barbara esqueceu de fazer.

No dia seguinte a esse foi que Luke apareceu na minha casa com a ficha policial da Barbara. E ao invés de me preocupar, eu ri, lembrando de acordar pela manhã com ela largada do meu lado na cama medindo com os dedos as proporções das minhas costelas. Aquilo não era uma criminosa, definitivamente. Acordei com meu celular, que na tela recebia uma mensagem de bom dia de Clara. "Bom dia, capitã!", respondi discretamente, e estendi o braço para segurar Barbara nele. Nada parecia ser motivo suficiente para eu querer desistir de Barbara, eu a amava desse jeito. Só ainda gostava da ideia de manter Clara comigo, ali do lado. Nada encoraja tanto ao pecador como o perdão.

Pensar em todas essas coisas ali abraçado com Barbara no ateliê só me deixava mais tenso em saber que eu tinha que abrir a boca para falar sobre a Clara de novo. Já tinha se tornado uma constante na nossa vida voltar a esse assunto, a gente sabia que não dava para mudar isso e não podia continuar a evitar. Apertei Barbara ainda mais forte nos meus braços. A gente ia se entender. A gente já passou por muita coisa mesmo juntos. A gente tinha que se entender.


Notas Finais


** "Oh, baby, eu sou apenas humana. Não sabe que eu erro como qualquer um? Às vezes eu me pego sozinha lamentando pequenas coisa bobas, coisas simples que eu fiz... mas eu sou só uma alma cujas intenções são boas! Oh, Senhor, por favor, não me deixe ser mal interpretada..."

Acompanhe a história com Clara aqui! : https://spiritfanfics.com/historia/in-your-arms-5549474


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