História Crime ao Sabor da Maré - Capítulo 2


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
Tags Assassinato, Crime, Cruzeiro
Visualizações 1
Palavras 1.036
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Suspense
Avisos: Suicídio, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Mulheres fortes... e não tanto


- Inês, seja uma querida e passe-me aquela revista, sim?

Olhei para Eva Perkins e semicerrei os olhos. Nem sequer um “por favor”. Apertei os lábios e olhei para Alberto, que me fez sinal com a cabeça para que não desse importância. Encolhi os ombros, levantei-me vagarosamente (queria mesmo fazê-la esperar) e fui buscar a revista, que estava à mesma distância de ambas, pelo que não fazia qualquer sentido ser eu a levantar-me e não ela. Não estava tão doente que não pudesse levantar-se e andar dois passos para pegar numa simples revista. Entreguei-lha sem dizer palavra.

- Obrigada, Inês. Não sei onde se meteu a Alzira. - Suspirou, com o seu tom de voz agudo, nasalado e teatral, enquanto se acomodava melhor na espreguiçadeira. - Aquela rapariga nunca está quando é preciso. Se não fosse neta da minha ama, já me tinha livrado dela. Ainda bem que tenho companheiras de viagem tão gentis como a Inês.

Mais uma vez, engoli a vontade que tinha de dar uma resposta torta. A pobre empregada, fiel como um cão de guarda, merecia tudo menos críticas, por tudo aquilo que aturava. Deitei-me na espreguiçadeira e fingi dormir, mais para não ter que ouvi-la do que por qualquer outro motivo. Alberto percebeu e não me levou a mal. Ficou ali, a contemplar o mar, sem medo de ter de ceder a qualquer capricho de Eva.

Eva Perkins era portuguesa, casada com um americano riquíssimo, Lloyd Perkins. Como tal, sendo eu igualmente portuguesa e casada com um estrangeiro, vira em mim a companheira de viagem perfeita... para mal dos meus pecados. Tinha o cabelo loiríssimo (oxigenado, claro) e uns olhos pequeninos, escuros. Era baixa, magra e pálida. Poder-se-ia dizer que tinha um aspeto delicado e frágil, caso os olhos pequenos não tivessem uma expressão fria e calculista. Tinha uma saúde fraca e escudava-se nesse facto para obter tudo o que queria fosse de quem fosse.

Acabei por adormecer e acordei com a voz de Lloyd Perkins, num português arrastado e hesitante, com os “erres” enrolados, num típico sotaque americano:

- Aí tu estás, darling. Procurei-te pelo navio inteiro.
- Disparate. Estive aqui o tempo todo. E é “aí estás tu” que se diz, querido. - Acrescentou em tom paternalista.
- Desculpa, darling. - Mr. Perkins cofiou o bigode farfalhudo, parecendo atrapalhado. - Sei que me pediste para aprender português, pois o inglês é muito difícil para ti, mas sabes... o português também é difícil para mim.
Já era a terceira vez que ouvia aquela explicação, mas não conseguia achá-la normal. Eva morava na América e era ele quem tinha de aprender a sua língua? Acaso não estava eu empenhadíssima em aprender a falar castelhano? Pela milionésima vez, pensei: “Que mulher desagradável e manipuladora.”
O sol já estava a por-se e senti um arrepio de frio. Estava na hora de recolher ao meu camarote, para mudar de roupa para o jantar. Eu e o Alberto, claro. Dei-lhe o braço e seguimos caminho, cruzando-nos com o Sr. Ferreira, um português com cerca de quarenta anos (talvez menos), com quem Alberto simpatizara logo no primeiro dia de viagem e se tornara o nosso companheiro mais querido.

- Fogem da Bruxa Perkins ou simplesmente do frio? - Inquiriu, em tom jocoso, logo depois de nos cumprimentar com um sorriso rasgado.
- Um pouco de ambos, na verdade. - Replicou Alberto, com uma gargalhada.
“Bruxa Perkins”. Era assim que Alberto e Ferreira se referiam a Eva. Ambos lamentavam a sorte de Mr. Perkins, mas não conseguiam evitar rir da sua situação de capacho perante a mulher. Estou em crer que a opinião era geral. Penso que ninguém simpatizava com Eva Perkins. A diva frágil, com um quê de Dama das Camélias, ao invés de inspirar dó e preocupação, inspirava apenas um sentimento: antipatia.

*

 

 

O jantar passou depressa e foi agradável. Eva parecia distante e não falou muito, a não ser para se queixar da demora da comida (que, na verdade, não demorou mais do que o costume). Estava mais ocupada a observar Geny Monteiro, a cantora que animava as noites no navio e que raras vezes – quando não estava a trabalhar - era vista sem ser ao lado da mãe, Nieta Monteiro, que também havia sido cantora. Eram ambas brasileiras e os olhos verdes e grandes lembravam-me um pouco a Carmen Miranda (embora eu soubesse – e com orgulho - que Carmen era portuguesa, nortenha, de Marco de Canavezes). No entanto, nenhuma possuía aquele brilho alegre nos olhos que a todos contagiava. Não. Nieta tinha um olhar duro e parecia querer proteger a filha de todos os males do mundo, custasse o que custasse. Já Geny tinha um olhar desalentado, triste, como que conformado com uma vida que não escolhera e à qual se sentia presa. No entanto, o sorriso rasgado que esboçava, de vez em quando, iluminava tudo em seu redor. Fascinava. Hipnotizava qualquer um. O seu cabelo longo e ruivo, o corpo alto e elegante e o próprio olhar lembravam uma das minhas atrizes favoritas de Hollywood, Rita Hayworth. Ah, como eu invejava o cabelo de Rita. Geny tinha-o. O ruivo era pintado. Penso que o de Rita também. Na verdade, sempre acreditei que a cantora se aproveitava das semelhanças entre ambas. A incontornável diferença residia nos tais olhos grandes e verdes.
Nieta era bem mais baixa e usava o cabelo castanho sempre impecavelmente preso num coque. As roupas algo austeras não escondiam totalmente as suas curvas ainda percetíveis. Dava para ver que fora lindíssima na sua juventude. Na verdade, ainda o era. Apesar do olhar duro e impenetrável, lembro-me de pensar que nunca vira uma senhora tão bonita na minha vida... Nem com uma aura tão grande de amargura.
Era notório que Eva sentia ciúmes terríveis de Geny. Era ela quem queria as atenções todas para si, o que não se tornava tão fácil perante uma mulher da sua idade sobre quem o navio inteiro tinha os olhos postos, quando cantava. Uma mulher que parecia uma estrela de cinema e a quem ninguém conseguia ser indiferente. Nem mesmo o capitão do navio, homem de meia idade, mas ainda charmoso, de quem Nieta parecia querer protegê-la mais ainda do que de qualquer outra pessoa.

 



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