História Crônicas dos Descendentes: A Herdeira - Capítulo 16


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Categorias Originais
Personagens Personagens Originais
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Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Fantasia, Ficção, Luta, Magia, Romance e Novela, Saga
Avisos: Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 16 - Capítulo 16


Depois que saímos da ilha, a temperatura mudou drasticamente. Entramos em um grande fiorde com enormes paredões de gelo de ambos os lados. Uso três camisas e um casaco, mas ainda estou tremendo de frio. Nosso estoque de rum está no final, e cada vez que respiro, vejo uma nuvem de vapor branco no ar. 

Os outros não estão melhores. Fred e Jim estão com tantas roupas que encontraram, e os fios da barba por fazer estão brancos e congelados. Dante teve pouca sorte em achar roupas do seu tamanho, mas aquelas que ele conseguiu estão em seu corpo às camadas.  Chris espirra e tosse com tanta frequência que todos concordamos em obrigá-lo a ficar em um dos quartos ao lado do fogo com quase todas as cobertas que encontramos.

Eu uso uma coberta enquanto Fred e Jim dividem outra. Estamos a céu aberto, com a fogueira a nossa frente. Os flocos de gelo caem como se fosse uma fina garoa e cobre nossas cabeças. Uma garrafa de rum está aberta e dividimos entre nós. Minha cabeça está leve e sei que já tomei muito, mas o calor familiar da bebida parece não existir.

Derek está de pé no timão seu olhar está distante e mesmo longe consigo ver as nuvens que saem dos seus lábios todas as vezes que ele respira.

Fico em pé e caminho até ele, quando me aproximo, jogo minha coberta em seus ombros. Ele me olha por cima do ombro. Não sei se é pelo tanto que bebi ou pelo calor que ele emana naturalmente, mas eu chego mais perto. Ele não esboça nenhuma reação. Depois de longos minutos em silêncio, ele diz:

_ Você ainda não me contou seu segredo. – olho para ele por alguns segundos tentando entender do que ele estava falando.

Reviro os olhos:

_ Você lembrou. – digo desapontada.

_ Não faça essa cara. Anda logo Montnegro, trato é trato.

_ Enquanto eu lutava com as sereias... Eu quase pulei no mar.

Ele larga o timão e me encara:

_ O que?

_ Eu subi na plataforma, elas pareciam minha mãe cantando, mas no último segundo eu voltei ao normal. Uma delas ficou na mesma distância que estamos agora.

_ E quando pretendia contar isso?

_ Agora? –arrisco. - E, além disso, qual a importância de contar? Já passou e eu não cedi. Então não faz sentido nenhum falar disso agora.

Ele ia responder alguma coisa, mas subitamente ele se cala. Abro a boca para perguntar o que aconteceu, mas ele se contenta em colocar os dedos sobre a boca em sinal de silêncio.

Presto atenção no que ele poderia ter escutado. Um minuto, dois, cinco minutos se passam quando também escuto. É quase imperceptível, mas está ali. É o som de rachaduras. Olho para os paredões que nos rodeiam e tento encontrar o lugar de onde o barulho vem, mas é em vão. O branco apenas faz com que eu fique com os olhos doendo.

Escuto o barulho novamente, e dessa vez quando olho para frente, eu vejo pedaços de gelo se desprendendo do lado esquerdo, e se não aumentarmos a velocidade, não conseguiremos avançar ou seremos esmagados.  

Derek dá as ordens antes de mim. Vejo Jim e Fred se movendo no momento em que me ponho em movimento. Ignoro as ordens de Derek e corro para a proa. Jim segura meu braço:

_ O que você está fazendo?

_ Eu tenho um plano. Vocês cuidam dos remos e eu cuido das águas.

Ele me solta, ainda sem entender. Corro até o fim do navio e encaro a água. Fecho os olhos e respiro fundo. Abro-os e novamento fito a água. Levanto as mãos e sinto o mar se movendo comigo. Escuto o barulho dos rapazes remando, e assim que consigo sincronizar com eles, o mar também o faz. Avançamos rapidamente, nós, o barco, o mar eramos apenas um organismo.

Conseguimos atravessar, mas um enorme bloco quase vira nosso barco. Volto para perto dos rapazes:

_ Só eu que estou com a sensação de que isso não acabou ainda?

Todos nós concordamos com a cabeça. Dante é o primeiro a sacar sua arma. Mal temos tempo de nos colocar em formação que dois outros cubos de gelo saltam para o navio, no entanto, diante dos nossos olhos eles se transformam em criaturas deformadas, com garras nos braços e diversos chifres pontudos ornando sua cabeça, Em suas costas, é como se milhares de espadas estivessem fundidas em uma armadura afiada. Sua boca é pequena demais para os dentes parecidos com navalhas e cavidades negras.

Os dois monstros se aproximam de nós:

_ Dois para cada lado. – grita Derek já avançando em direção ao da esquerda.

Fred e Jim não perdem tempo e começam a golpear o da direita. Não me resta opção a não ser ir ajudar o capitão.

Acerto minha espada em seu rosto, ela afunda até o cabo, e enquanto tento arrancá-la, estou pendurada entre os chifres e sinto as pontas dos dentes roçarem meus calcanhares.

Sinto alguma coisa me segurar pela cintura. Os dedos monstruosos se fecham com tanta força que respirar se torna um ato quase impossível. Sinto um das lanças que cobrem sua pele entrar fundo em meu ombro. Escuto os gritos abaixo de mim, e em um momento a criatura me lança para trás. Acerto o corpo com força contra a madeira.

Isso com certeza deixará uma marca horrível. Tento me levantar, mas sei que vai ser impossível quando estrelas dançam na frente dos meus olhos e a dor parece destroçar meu braço. Volto a cabeça para a lança no ombro. Está péssimo. O sangue não para de sair. Coloco minha palma aberta sobre o gelo, e aperto. Meu nariz provavelmente está sangrando, mas sinto o gelo se desfazendo e se tornando água.

 Preciso encontrar água. Ignoro a dor que parece fazer meu corpo romper e me levanto. Minha visão está completamente embaçada, e meus ouvidos estão com um zubido desnorteante, mas consigo ver a borda do navio. Caminho com passos lentos e arrastados, ciente de que cada passo que eu dou uma cachoeira de sangue sai do meu braço.

Chego à borda e jogar meu corpo em direção à água é a parte mais fácil.  Assim que o mar entra em contato com meu corpo, sinto um formigamento delicioso. A água não está tão fria quanto achei que estaria. Vejo as dores diminuindo, até não passarem apenas de uma lembrança. O corte em meu ombro se fecha até se tornar uma cicatriz pálida, e por incrível que pareça, sinto-me quente e forte.

Olho para cima, e ainda consigo ver o navio e provavelemente os homens que estão perdendo.

O mar me levanta.  Estou mais alta que o mastro. Os rapazes e os monstros de neve parecem apenas bonecos. Estico os braços, e eles são prolongados pela água. Agarro os dois monstros e trago-os até minha frente:

_ Obrigada pelo treinamento Layla.

Aperto meus pulsos, e embora a neve desapareça, as duas nuvens negras ficam presas em duas bolhas diferentes.

Amasso-as até que virem poeira. Em seguida faço com que o mar me leve até o navio. Assim que meus pés encontram a madeira, a água se desfaz do meu controle, inundando o convés.

Olho para os rapazes. Eles estão com boca aberta e olhos arregalados. Dou um sorriso, e caminho até Derek. Delicadamente empurro seu queixo:

_ Cuidado para não babar capitão.

Isso parece fazer com que despertem. Jim, Dante e Fred fazem tantas perguntas juntas que não consigo entender nenhuma:

_ Vão arrumar alguma coisa para fazer seus vermes. – grita Derek por cima do barulho. – Estou com fome. Vão preparar alguma coisa.

Eles se afastam praguejando. Olho para o moreno, e a primeira coisa que eu reparo é o corte vermelho no braço esquerdo que ele tenta em vão tapar com a mão direita:

_ Você está machucado.

_ Isso não é nada querida. Apenas um arranhão.

Dou um sorriso, e o faço agachar:

_ Quer ver uma coisa que acabei de aprender?

Ele dá os ombros. Coloco uma das mãos no corte e a outra em uma das poças do convés.

Sinto a água passar com aquele mesmo formigamento pelo meu corpo, e pouco a pouco vejo a ferida se fechando. Os olhos dele voltam a se arregalar.

Depois que termino, ele examina o braço e um sorriso surge em seus lábios:

_ Legal não é?

Ele me agarra pela cintura e me gira no ar, solto uma gargalhada alta. Quando ele para, e me traz de volta para o chão, nossos rostos estão próximos para que seus olhos me puxem para dentro. Estou completamente ciente das suas mãos em minha cintura e em minhas costas, elas parecem espalhar ainda mais calor em meu corpo.

O mundo parece ter sido limitado apenas para nós dois. Seu cheiro é tão inebriante quanto uma droga. Ele inclina a cabeça em minha direção. Fecho meus olhos e espero pelos seus lábios. No entanto, eles não vêm:

_ Obrigado. – sussurra ele, e eu me forço a abrir os olhos.

Nossos lábios estão próximos demais, se me inclinar um pouquinho poderei senti-los. Estou quase fazendo isso, mas o rosto de Layla surge na minha frente. Eu não posso fazer isso com ele. Conosco. Existem muitas variáveis, milhares de “e se?” em jogo para eu deixar que esse sentimento me consuma. A ameaça da General ainda está em meus ouvidos, assim como o aviso da Senhora das Profundezas e do Senhor dos Ventos.   

Fecho os olhos e contenho as lágrimas. Eu não posso fazer isso. Mesmo com Chris tentando me convencer do contrário, isso seria egoísmo demais da minha parte condená-lo a um coração partido simplesmente por que me senti sozinha.  Afasto-me, e sussurro um “de nada”. Vejo a mágoa em seus olhos, mas o pensamento de que é para o bem dele me dá coragem para quebrar o contato entre nós e me força a andar para longe dele.

Não desmonstre fraqueza no mar, o amor é apenas mais uma dessas fraquezas, a mais doce, mas também uma das piores.

Não ouso olhar para trás, porque, se eu olhar, eu provavelmente me jogarei em seus braços e direi as três temíveis palavras. 



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