História Damaged - Capítulo 6


Escrita por: ~

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens J-hope, Jimin, Jin, Jungkook, Rap Monster, Suga, V
Tags Hopega, Yoonseok
Exibições 72
Palavras 4.358
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Lemon, Romance e Novela, Yaoi
Avisos: Bissexualidade, Drogas, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Gente, eu sei que eu demorei, mas eu estive em época de provas e não pude escrever nada :( Mas cá estou eu de volta :D
Enfim, eu não vou escrever muito por que são quase meia noite e eu já tô cansado.
Não deixem de dar aquela review gostosa, dizendo o que vocês mais gostaram, o que vocês querem mais vezes, oque vocês não gostaram etc. E divulgar pros migos que shippam também é muito importante. Tudo isso me ajuda muito com a motivação :D

Capítulo 6 - 6


Eu conseguia sentir que o clima estava ficando mais ameno.

Já havia passado uma semana e meia, então era natural que o inverno fosse aos poucos sumindo. Eu só não esperava que o tempo se esvaísse tão rápido quanto.

Primeiro a neve tinha ido embora, e agora aos poucos a chuva se despedia. O céu ficava menos turvo e aos poucos retomava o seu contraste.

Acho que já faz algum tempo que eu vi minha mãe sentada na bancada da cozinha, tarde da noite, analisando os papéis, nossas contas, com uma calculadora na mão e uma costa curvada de preocupações.

Ela me disse que as coisas estavam ficando pesadas, e que nem com todos os plantões do hospital ela daria conta. As contas da casa, mais a mensalidade da escola e ainda a inscrição para o exame da faculdade esse ano. Ela me disse que tinha ligado para os meus avós, e eles disseram que iriam ajudar da forma que pudessem.

Mas mesmo assim não era o suficiente. Uns dias depois, três, talvez quatro, eu comecei a procurar um emprego. Algo bem banal, só pra conseguir aguentar as coisas com a inscrição da faculdade até a mamãe se ver livre das mensalidades da escola. A internet ajuda muito hoje em dia. Você consegue achar qualquer coisa lá, até mesmo um emprego.

Eu estava indo pra escola a pé. Sozinho dessa vez. Mamãe estava atrasada para ir para o hospital, e iria se atrasar se desviasse o caminho para me deixar na escola e Jungkook foi sem mim hoje. O que na verdade foi muito estranho, mas não me importei de caminhar sozinho dessa vez.

Depois do inverno viria a primavera, não é? Sim, viria a primavera. E no verão, eu iria finalmente fazer o teste para a faculdade. E ai no outono eu deixaria aquela escola ridícula, com todos aqueles alunos mimados e medíocres, sem perspectiva nenhuma a não ser viver o resto de suas vidas debaixo das asas dos seus pais ricos.

Era extremamente angustiante ter que viver com aquele povo. Eu olhava para todos no campus do colégio imaginando quem realmente tinha vontade de correr atrás das suas metas, ao invés de simplesmente relaxar em heranças, e quantos ao menos tinham metas.

Quando cheguei na sala do clube de artes, Jungkook já havia chego, e estava sentado em uma das mesas conversando com Jimin. Os dois riam alto, e não perceberam a minha chegada até eu descansar a minha mochila na minha mesa e derrubar uma porção de pincéis.

— Ah, Yoongi. — Jungkook desceu da mesa nervoso. — Foi mal ter saído sem você, eu estava com muita pressa.

— Tudo bem. — Respondi. — E as músicas para sua apresentação? Vocês já escolheram?

— Ah, na verdade, ainda não. — Jimin riu desconfortável. — Nós vamos escolher hoje de tarde no estúdio. Eu sei que parece irresponsabilidade, mas vai estar tudo pronto quando você vier buscá-lo. — Jimin abafou uma risada e Jungkook deu-lhe uma cotovelada, soltando mais risos.

— Tudo bem. — Disse, estranhando o comportamento dos dois.

Os dois se viraram e sumiram em direção ao estúdio de dança, rindo e se acotovelando.

Me sentei a minha mesa de trabalho e me abaixei para recolher os pincéis caídos, um por um. Me perguntei o que havia de estranho com Jungkook. Ele definitivamente não estava em seu comportamento usual. Parecia nervoso e sempre evasivo. Eu estava tão concentrado nos pincéis que nem reparei no som seco de passos contra o piso da sala vindo em minha direção. Nem mesmo na sombra se deslocando pela minúscula fresta que ficava entre o chão e a minha mesa.

Só aquela voz forte e aveludada foi capaz de me puxar de volta para a realidade, e minha reação ao procurar o já conhecido dono foi tão repentina que me fez bater a cabeça na mesa.

— Ai! — Reclamei.

— Tudo bem ai embaixo? — Ele perguntou.

Contorci todo o meu corpo e emergi de volta a minha cadeira.

— Tudo. Por que? — Tentei parecer que estava tudo bem, mas a situação toda tinha sido ridícula.

— Nada. — Ele disse. — O som seco vindo da mesa.

— Ah sim. Foi só a minha cabeça. — Tentei rir descontraído, mas minhas mãos sobre a mesa conseguiram sentir o calor vindo do meu rosto, e minha pele, branca como papel, provavelmente não deixaria o meu rubor passar despercebido.

Ele paralisou por uns segundos, analisando a minha expressão. O que me fez corar mais ainda, pois significava que ele tinha notado a cor do meu rosto.

Pigarreei leve, para que ele continuasse a conversa e ele piscou forte, como quem se dá conta de que passou tempo demais em seus devaneios.

— Enfim, eu só queria saber se você vai me ensinar hoje.

— Ah sim. Sim, eu vou poder te ensinar hoje. Só tem um pequeno “porém”, eu só vou poder te ensinar até as quatro.

— Então quer dizer que eu vou ter somente duas horas de aula. — Ele tentou não sorrir.

— Não fique tão feliz, seu preguiçoso. — Brinquei.

— O que você vai fazer depois das quatro?

— Trabalhar, meu caro. — Eu juntei uma lapiseira revirada pela mesa e comecei um esboço qualquer.

— Trabalhar? — Ele arqueou uma sobrancelha.

— Sim. Eu vou começar a fazer isso todo dia agora. — Deixei minha mente se concentrar no que eu falava enquanto a minha mão guiava o grafite pelo papel áspero. — Mas não se preocupe, se nós nos esforçarmos bastante você ainda vai continuar aprendendo a mesma quantidade que anda aprendendo.

— Não que isso seja muita coisa. — Ele murmurou.

Ergui os olhos surpreso. Era o mesmo tom de voz. Eu havia percebido ele de vez em quando em nossas aulas, mas não havia entendido. Tudo o que eu fazia era continuar tentando motivá-lo a se dedicar mais, afinal, a pratica leva a perfeição.

— Todo conhecimento é importante. — Voltei a minha cabeça para o desenho, analisando o esboço que eu havia feito.

— O que é? — Ele se sentou na minha mesa e virou a cabeça para entender o desenho. — São duas pessoas? Isso é um gêiser?

— Ah não. Era pra ser um daqueles chafarizes que ficam no chão. Ai no verão eles são ligados e espirram água para tudo quanto é lado enquanto as pessoas brincam entre eles. Acho que é mais para um dia quente.

— Isso é uma garota?

— Não. — Eu disse ofendido. — É um garoto. São dois garotos.

Ele ficou quieto por uns instantes, admirando o papel, mesmo que fosse apenas um esboço.

— É você e Jungkook? — Ele meneou a cabeça na minha direção, e aquele tinha sido o seu primeiro olhar distante que eu havia presenciado.

Todos os olhares distraídos dele sempre me deram a impressão de que ele se fechava. O que não me era estranho, algumas pessoas gostam de ficar sozinhas com os próprios pensamentos. Mas esse parecia bem mais longe daqui.

— Ah não. Nós nunca fomos a um lugar desses. Eu nem ao menos sei se tem um desses na cidade. Não, é só algo que eu desenhei. Sei lá, me veio à cabeça.

— Sabe, minha mãe também era artista. — Ele se voltou para frente, encarando a sala vazia. — Ela dizia que a arte serve para expressar ou o passado do homem, ou seu presente, ou seu futuro.

— Eu nunca fui num lugar assim. — Reforcei.

— E nós não estamos em um desses chafarizes, estamos? — Ele varreu o local com os olhos. — Enfim, eu já vou. Duas horas?

— Duas horas. — Assenti com a cabeça.

Ele pulou da minha mesa, os dois pés ao mesmo tempo, acenou e foi embora. Olhei para o desenho e para o vão da porta, por onde Hoseok tinha acabado de desaparecer. Guardei o desenho entre os milhões de papéis na minha mesa e fui para a minha sala, esperar o sinal tocar.

Quando a campa tocou de novo, já na saída, meu cérebro já estava um pouco cansado. Havia matéria nova em quase todas as disciplinas, o que exigia mais da minha cabeça do que o usual, então eu não sabia se eu conseguiria dar uma boa aula para Hoseok. E isso seria injusto com ele, já que ele tem se esforçado tanto nos últimos dias, e tem conseguido bons resultados.

Ele tinha prestado atenção nas aulas ultimamente, dava pra ver, e teve até uma vez que ele não passou a vez quando o professor perguntou pra ele.

Eu estava tão absorto em meus pensamentos que nem o notei vindo por trás de mim enquanto eu arrumava os papéis sobre a mesa do professor.

— O que você vai me ensinar hoje? — Ele disse no pé do meu ouvido, olhando por sobre o meu ombro.

O susto foi tanto que eu levantei minha cabeça tão bruscamente ao ponto de bater minha nuca na testa dele.

— Ai! O que foi isso? — Ele massageou a testa.

— Desculpa. Foi sem querer. Você me deu um susto. — Me expliquei.

— Por que eu perguntei a matéria de hoje? — Ele disse indignado com a minha reação.

— Bem. Por nada. — Segurei a barra da minha camiseta de nervosismo. Eu odiava admitir pras pessoas que o meu pescoço era o meu ponto fraco. Um pouco clichê, mas fato.

— Enfim. — Ele se virou e sentou-se na cadeira, ainda massageando a testa. — O que você vai me ensinar hoje?

— Ah, sim. Bom. — Tentei me recompor. — Não é o que eu vou te ensinar, mas sim, o que você vai aprender.

— E não é a mesma coisa? — Ele me olhou como se eu tivesse acabado de dizer a maior besteira da minha vida.

Eu bufei e me sentei na mesa do professor, de frente pra ele.

— Hoseok.

— Eu. — Ele respondeu.

— Poderia eu ensinar um peixe a respirar fora d’água? — balancei as minhas pernas curtas tão acima do chão.

— Não.

— Isso significa que eu não posso ensinar o peixe?

— Não, você não pode ensinar o peixe em questão.

— Sabe, uma vez eu tive um gato. E eu o ensinei a me obedecer.

— E ele obedecia mesmo?  — Ele fez uma cara de estranhamento.

— Não. — Eu ri.

— Então ele não aprendeu. — Ele bufou de frustração e deixou a cabeça tombar para frente.

— Essa é a questão. — Sorri. — Eu poderia ensinar um peixe a respirar fora da água, assim como ensinei o meu gato a me obedecer. Mas ai dependeria dele se ele aprenderia a respirar ou não, assim como o gato.

— Não entendi. — Ele levantou o olhar e apoiou o queixo na superfície da mesa.

Pulei da mesa até o chão e sentei na cadeira em frente a dele, apoiando o meu queixo na mesma mesa.

— Se você aprende ou não, o mérito é seu. Não de quem ensina. — Expliquei.

Ele olhou bem fundo dos meus olhos, as íris tremulando rápida e intensamente. O seu rosto aos poucos tomou um tom rosado, e ele levantou a cabeça da mesa, desviando o olhar para a janela da sala.

— Para de graça, Yoongi. Fala logo, o que você vai me ensinar. — Ele cruzou os braços, uma expressão emburrada estampada no rosto.

— Eu estou sério. Você pode considerar isso como ética, que é uma vertente da filosofia. — Aquilo não era ética. — E lá atrás, quando o professor me deu o registro das suas notas, Filosofia estava incluso como uma das matérias que eu deveria ensinar. Todo o conhecimento que você agrega é mérito seu, é uma coisa a se orgulhar.

— Para com esse papo. — Ele piscou forte de novo, e aquele olhar, aquele olhar fechado e interno, apareceu de novo.

E era aí que eu queria chegar.

— Ei, por que você faz essa cara sempre que te elogio? — Perguntei.

— Não é nada. — Ele disse, corando mais ainda.

— Não, é sério. Toda vez que eu te elogio você faz essa cara. — Franzi o cenho.

— Não é nada. Esquece isso. — Seus olhos tremiam, indo de uma ponta a outra na sala.

— E nem sempre é quando eu te elogio. Quando você erra algo, você se fecha e faz essa mesma cara. — Indaguei.

— Eu já disse que não é nada. — Ele gritou, irritado.

Eu recuei um pouco na minha cadeira, ainda pasmo com seu tom de voz. Tão pasmo que não sabia se ficava com raiva, se ficava frustrado, ou constrangido.

— Yoongi... — Ele murmurou, um olhar arrependido rapidamente tomando conta do seu rosto.

— Não, tudo bem. — Me levantei da minha cadeira, desconfortável. — Tem razão. Eu devia estar te ensinando.

— Não, Yoongi. — Ele levantou junto comigo. Sua voz estava carregada de culpa, um misto de remorso e insegurança, que eu nunca tinha presenciado.

— Eu não devia ter te importunado tanto. — Me virei para a mesa do professor, organizando os papéis para aula, me perguntando como eu pude ser tão idiota.

— Por favor, para. — Sua voz soou forte quando eu senti o puxão forte no meu pulso, fazendo com que minhas pulseiras de metal tilintassem. Hoseok me virou para ele, tão nervoso, tão ansioso, que seu corpo todo irradiava calor contra o meu. — Eu não sei por que eu sou assim. Eu só, não gosto dessa parte de mim.

— Que parte? — Eu perguntei, desconfortável.

Hoseok desviou o olhar para o chão por um segundo, mas forçou-se a me olhar nos olhos dessa vez. Ele ainda segurava o meu pulso, e eu conseguia sentir pela força com que ele o apertava o quanto ele estava nervoso.

— Essa parte de mim... — Ele ponderou por um segundo, como se refletisse se realmente deveria confiar isso a mim. Como se ele realmente pudesse se abrir comigo. — burra. Essa parte de mim que fracassa em tudo. Que não consegue fazer nada.

— Fracassa? — Estranhei, afastando o meu corpo inseguro do seu, mas Hoseok me tinha preso contra mesa do professor. — Mas você tem ido tão bem nas últimas aulas.

— Não, Yoongi. Isso é ridículo comparado a tudo o que os outros alunos sabem. Comparado a todo o orgulho que os outros alunos dão pros pais. — Sua cabeça pendeu pra frente, escondendo os olhos claramente marejados. — Ao contrário deles, eu sou somente um desperdício de esperanças para o meu pai.

O seu corpo tendia cada vez mais para frente, como se ele fosse mergulhar em mim, enquanto o meu buscava cada vez mais refugio na mesa contra as minhas costas, como um imã fugindo do mesmo pólo.

Eu olhei para baixo, onde sua mão ainda segurava a minha, e vi de relance uma brilhante gota despencando solitária e tragicamente. A lágrima de Hoseok atingiu a minha pele quente, desfazendo-se de uma forma quase teatral.

Levantei a minha cabeça e observei o Hoseok que se desfazia-se em lágrimas na minha frente. Que se desfazia-se de seus escudos e de suas muralhas, revelando, confiando, toda a sua insegurança e todos os seus monstros à mim.

Eu conseguia sentir o bater do meu coração como eu nunca tinha sentido antes, e conseguia ouvir o choro de Hoseok mais claro e nítido do que qualquer outro som. Era como se tudo estivesse abafado, e eu só conseguisse enxergar o quanto ele estava triste.

E o quanto eu não o queria triste. Era uma angústia que eu quase conseguia sentir, lentamente, preenchendo todo o meu corpo.

Puxei com força o seu pulso, trazendo o seu corpo em direção ao meu. Lancei meus braços curtos em volta do seu tronco e enterrei o meu rosto no seu pescoço, envolvendo no meu mais forte abraço, carregando de um anseio enorme de protegê-lo, de consolá-lo.

— Tudo bem termos inseguranças, sabia? Todos nós temos os nossos demônios, nossos fantasmas. — Eu disse, apreciando com precisão o cheiro forte e amadeirado de Hoseok.

Forte e amadeirado. Mas mesmo assim doce. Como canela.

— Fantasmas? — Ele questionou,

— Sim. Eles nos perseguem. Mexem com as nossas cabeças e nos fazem pensar coisas que nunca pensaríamos.

— Fazem? — Ele disse em uma voz arrastada.

— Fazem. E esse não é você agora, esse são seus fantasmas falando. E tudo o que eles querem é que você desista. Querem fazer parecer que desistir é mais fácil, mas não é, OK? — Disse apertando-o mais ainda. — Então não desista, OK? Nunca.

Escutei-o fungar enquanto o vi de canto de olho limpar as lágrimas de seu rosto.

— OK. Nunca.

 

Quando só faltava uma rua para eu chegar lá, eu já estava quarenta minutos atrasado. Eu não acredito que eu me atrasaria no meu primeiro dia no trabalho.

A chuva caía fraca, e os meus tênis chapinhavam enquanto eu corria em direção a biblioteca que agora seria o meu emprego de meio período.

Quando entrei, a primeira coisa que eu senti foi a falta do cheiro dos livros velhos. A maioria eram brancos e novos, como recém impressos. E as pessoas que os liam eram, na maioria, jovens, universitários talvez, fazendo pesquisas para os seus cursos.

Caminhei em direção a um balcão onde uma senhora baixinha de cabelos grisalhos estava. Apesar das rugas nos olhos e da cor de deus cabelos, ela me parecia nova. Como uma daquelas pessoas que “envelhecem” mais cedo por conta do estresse.

— Boa tarde. — Eu olhei no relógio e eram três e quinze. Apenas cinco minutos atrasado. — Eu estou aqui para o meu primeiro dia de trabalho.

Ela sorriu para mim e verificou em uma lista de nomes escritos com garranchos em um papel amarelado preso a uma prancheta velha de madeira.

— Min Yoongi? — Ela perguntou.

— Eu mesmo. — Respondi.

— Ah, que momento oportuno. Venha. Me siga. — Ela saiu do balcão e se dirigiu a uma porta que ficava bem ao seu lado.

Quando eu atravessei o vão, o cheiro clichê de biblioteca finalmente atingiu as minhas narinas. O cheiro de papel velho, ressecado e amarelado. O cheiro do acervo.

—Houve um pequeno acidente aqui e uma de nossas estantes desabou, espalhando papéis para todo lado. Precisávamos justamente de uma mão extra para ajudar. — Ela sorriu. — Onde estará Ashley? Ashley!

Ao longe, entre uma das pilhas de papéis velhos, uma garota de cabelos pretos e óculos extremamente redondos apareceu. Ela tinha um olhar inquieto e entusiasmado, do tipo que facilmente me irritava.

— Ashley, esse é Min Yoongi. Ele vai ajudar você na tarefa de arrumar os papéis, OK?

Ashley assentiu com a cabeça e sorriu, animada. A senhora se retirou e nos deixou sozinhos.

— Olá, eu sou Kim Ashley. — Ela disse.

— Min Yoongi. — Respondi.

Larguei a minha mochila em um canto e caminhei em direção a um monte de papéis espalhados pelo chão.

— Ah, não toque nesses. — Ela advertiu.

— Por que?

— Eu vou lê-los depois, não quero que se percam por ai. — Ela sorriu.

Bufei e busquei outra pilha de papéis para arrumar.

Enquanto eu empilhava os papéis em ordem alfabética, Ashley lia alguma coisa deitada em outra pilha de papéis.

— Ei, qual o seu signo? — Ela perguntou.

— Peixes. — Eu respondi indiferente.

—Fevereiro e março, uh?

—Março. Bem no inicio.

— Isso significa que seu aniversário já passou, certo?

— Obviamente. — Respondi.

— Poxa. O meu é esse mês também. Bem no final na verdade, Áries. — Ela se sentou. — O que você ganhou de aniversário?

— Um relógio.

— De quem?

— Do meu amigo Jungkook. O relógio era dele.

— Ah sim. E você gostou?

— Sim. — Bufei irritado. Por que ela queria tanto puxar assunto comigo?

— O que você gosta de ganhar no seu aniversário?

— Relógios. — Me virei para ela e sorri cínico.

Ela voltou a olhar os papéis, desconfortável, como se percebesse que a conversa era indesejável, mas então retomou suas tentativas.

— Eu gosto de ganhar roupas. — Ela disse menos entusiasmada.

— Ah é? — Fingi interesse.

— Sim. Também gosto quando pessoas especiais me fazem surpresas.

— Que bom.

— Eu me pergunto que surpresas eu vou receber esse ano. — Ela olhou para o telhado.

— Poxa, que legal. — Disse, sem prestar atenção no que ela disse.

Ela encerrou a conversa, e eu pude ver pela sua expressão que ela estava um pouco chateada com as minhas respostas curtas.

Nós já estávamos a mais ou menos duas horas arrumando esses papéis e já estavam quase todos enfileirados na estante que não mais jazia no chão.

De repente, meu celular toca. O que na verdade foi estranho, por que eu tinha avisado Jungkook que não poderia levá-lo para casa, e que éramos proibidos de usar o celular durante o trabalho.

— Desligue isso! Nós não podemos usar celular na hora do trabalho. — Ashley sibilou para mim, com um olhar de advertência.

— Eu sei, eu sei. — Respondi irritado.

Engatinhei em direção a minha mochila e puxei o meu celular. Era uma ligação de Hoseok.

— Desliga logo!

— Calma ai! — Sibilei de volta. Desbloqueei o celular e atendi a chamada. — Alô?

“Alô? Yoongi?”

— Sim.

“É o Hoseok”

— Eu sei.

“Pois é” Ele riu do outro lado da linha. “Eu só queria te agradecer pelo o que você me disse mais cedo”

— Ah, tudo bem. Eu só não gostei de te ver daquele jeito, me deixou angustiado. Você chegou bem em casa?

“Se eu cheguei bem?” Ele pareceu surpreso. “Ah sim. Eu cheguei bem.”

— Que bom. — Disse. — Bom, eu vou ter que desligar agora. Teoricamente, eu não posso usar o celular durante o horário de trabalho. — Ri.

“Ah é? Foi mal. Enfim, eu vou ter que sair agora, eu só queria te agradecer mesmo.”

— Tudo bem. — Sorri.

“Tchau Yoongi”

— Tchau. — Respondi.

Desliguei o telefone e o enfiei no bolso.

Nesse exato momento, a senhora com cabelos grisalhos apareceu  segurando a sua prancheta.

— Isso foi um celular? — Ela perguntou, nos encarando.

— Ah sim. Mas eu já desliguei. — Ashley sorriu, tentando ludibriar a bibliotecária.

— Sem celulares, Ashley. — Ela a repreendeu.

— Eu sei, eu sei. — Ashley sorriu como quem acaba de cometer um deslize.

-- A propósito, vocês já podem ir. Eu irei fechar a biblioteca mais cedo. — Ela bufou e se retirou.

Ashley suspirou de alivio e sorriu.

— Você me deve uma.

— Obrigado. — Tentei parecer menos carrancudo.

Eu e Ashley recolhemos nossas respectivas coisas e saímos do acervo em direção a saída da biblioteca.

— Era a sua namorada? — Ela perguntou.

— O que?! — Engasguei.

— Era, não era? — Ela riu da minha reação.

— Não, claro que não!

— Então você deve gostar dela. Só pode.

— Da onde você tirou essa maluquice? — Eu disse quando finalmente alcançamos a calçada. A chuva ainda castigava o asfalto, gota por gota.

— Meu namorado. — Ela encarou a rua. — Ele fala desse mesmo jeito comigo.

— Ashley, você é maluca? — Perguntei.

— Talvez. Mas aposto que dessa vez eu estou certa. — Ela assentiu consigo mesma, confiante. — Quer o meu guarda-chuva?

Ela me ofereceu o guarda-chuva marrom que estava preso a sua mochila.

— Você não vai precisar dele? — Perguntei.

— Não. Meu namorado vem me buscar. Ele provavelmente vai trazer um e é bem mais romântico dividirmos o guarda-chuva. — Ela gargalhou.

— OK, então. — Estranhei. — Até amanhã.

— Até, Yoongi.

Eu abri o guarda-chuva, que era recheado de desenhos de flores coloridas na parte intera, junto com “Ashley” rabiscado no cabo. Bufei, pensando o como Ashley era uma pessoa clichê e caminhei rua a fora.

Já estava escuro quando finalmente cheguei em casa, e a chuva já havia diminuindo. Cruzei a cerca do jardim de casa e caminhei em direção a porta branca de casa.

Quando estava prestes a girar a maçaneta, notei uma pequena embalagem plástica presa no batente da porta com fita adesiva. Me abaixei e arranquei o pequeno pacote, tão mal embalado.

Era um pacote de macarrão instantâneo. Daqueles meus favoritos, que vêem em um copo de plástico. Grudado na embalagem, havia um pedaço de papel escrito “Obrigado por hoje. Eu realmente não sei como vou poder te agradecer de forma correta”.

E eu não sei por que mas esse pequeno gesto me fez sorrir.

Quando eu estava novamente prestes a entrar em casa, escuto duas vozes barulhentas descendo a rua.

Eram Jimin e Jungkook.

Me escondi atrás do batente da porta para que eles não me vissem e esperei.

Jungkook não tinha vindo direto para casa. Ele tinha saído com Jimin.

Esperei e ouvi atentamente suas vozes se aproximando, o som se tornando mais alto.

— Então, eu te vejo amanhã? — Jimin perguntou enquanto ria.

— No mesmo horário. — Jungkook riu de volta.

— Então tá. Tchau. — Jimin se despediu.

Me virei um pouco apenas para observá-los, mas não o suficiente para que eles me notassem. Jimin envolveu Jungkook em um abraço de despedida e despejou um beijo em sua testa. O que deixou Jungkook claramente vermelho, mesmo com a fraca luz dos postes de luz.

Jimin se virou e sumiu rua acima, enquanto Jungkook o observava ainda da frente da porta de casa. Ele sorriu e esfregou o lugar onde Jimin o beijara, ficando mais vermelho ainda, virando-se logo em seguida e sumindo pelo vão da porta.

Franzi o cenho, não entendendo nada da situação. Mas havia algo estranho ali. Disso eu tinha certeza.

Mas eu estava cansado demais para pensar nisso naquele momento, então eu apenas me virei e entrei em casa, ansiando pela minha cama.



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