História Dame Jolie - Capítulo 12


Escrita por: ~

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Categorias Saint Seiya
Personagens Afrodite de Peixes, Aiolia de Leão, Camus de Aquário, Hilda de Polaris, Marin de Águia, Miro de Escorpião, Shura de Capricórnio
Tags Andreas Lise, Camus De Aquário, Cross - Dressing, Drama, Guerra, História Medieval, Intrigas, Milo De Escorpião, Originais, Romance
Exibições 355
Palavras 7.432
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Lemon, Lírica, Luta, Poesias, Romance e Novela, Saga, Suspense, Universo Alternativo, Violência, Yaoi
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Cross-dresser, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Hello, people... cá estou, com mais um capítulo, este com jeitinho de "Casos de Família" (posso até ouvir a música da abertura, hehehe), a chapa esquentando, barraco se formando... onde tem família reunida, como não, né? xD

Gostaria de agradecer a vocês que têm apoiado esta fic, seja lendo, favoritando ou, principalmente, comentando, o que me deixa muito feliz, pois amo saber suas reações e interagir com cada um que me presenteia com essa notável deferência :')

Os tempos não andam favoráveis a atualizações rápidas, mas vamos que vamos, da maneira que der...

A ilustração capa do capítulo é de minha autoria, e foi gentilmente editada pela Alexiel_chan. Muito obrigada, amiga!!!

Link para o tema do capítulo e explicações dos itens numerados no texto nas notas finais.

Boa leitura! ;)

Capítulo 12 - O Valor do Sangue


Fanfic / Fanfiction Dame Jolie - Capítulo 12 - O Valor do Sangue

Murmúrios abafados correram pelo salão. As atenções bipartiam-se entre a recém chegada família e o duque de Borgonha, que se erguera, destacando-se de todos sentados à mesa principal. Contivera a expressão inicial de surpresa, no entanto certa tensão se fazia visível em seu semblante, ainda que a causa fosse, à imensa maioria, desconhecida. Em um contraste deliberado, Durval de Turenne ostentava um sorriso opalino, demonstrando total tranquilidade. Instintivamente, Teobald II desviou o olhar, encontrando o decidido de Henri, como a lhe transmitir firmeza; voltou a fitar o irmão e saudou:

- Bons ventos te trazem à nossa humilde celebração, duque de Bourges, meu nobre e caro irmão. Julgava-te em terras estrangeiras, por ocasião do enlace de teu filho com a duquesa de Estíria.

- As informações que a ti chegaram olvidaram pequeno detalhe: o mesmo só ocorrerá daqui a quatro meses.

- Deveras? – Teobald II sustentou a altivez de soberano que era. Criados, prestimosos que eram, trouxeram luxuosas cadeiras para os novos convivas, arrumando-as de modo que ficassem de frente aos anfitriões e aos noivos.

- Sim. Aproveito o ensejo para convidar-vos... pois que de minha parte, existe a crença de que a comunhão familiar, um dos preceitos de nosso Senhor, deve ser mantida indefinidamente – alfinetou, nada sutil, o homem ladeado por seus herdeiros.

“O mesmo tom falso e arrastado de que me lembro”, pensou Camus, franzindo o cenho. Lembrava-se de que Camille o detestava.

Reviveu em sua mente uma cena do passado: tinham ele e Camille seis anos. Estavam em Bourges, para celebrar o batizado do pequeno Alberich, caçula de Durval. Durante o banquete na Grande Sala do castelo de Bourges, enquanto danças e jogos se desenrolavam, Camille o puxou pela mão, pretextando ir admirar as armaduras no extremo do salão. A menina fez com que parassem atrás de uma pilastra, como se quisesse esconder a si e ao irmão.

- Que tens, Camille?

- É este lugar. Aborrece-me. Não vejo a hora de voltarmos.

- O que te incomodas aqui?

- Tudo – sequer pestanejou; encarou-o, sombria – Nosso tio é mau.

- Mau? Por quê? – surpreendeu-se o menino. Não que apreciasse o homenzarrão sempre sarcástico, que parecia constantemente deixar seu pai pouco à vontade.

- Ele é mau – Camille apenas repetiu – Ele lança a todos nós um olhar horroroso...

O menino estremeceu, tanto pelo conteúdo da mensagem quanto pelo tom pelo qual fora proferida. Mais para convencer a si mesmo do que à irmã, questionou:

- Decerto imaginas coisas. É irmão de nosso pai. Como haveria de ser mau, sendo nosso pai bom?

- Não sei – ela balançou a cabeça. Acrescentou, resoluta – Só sei que o sinto.

Camille nunca apreciou o tio, e transmitiu esse desafeto ao irmão. E agora que Camus o revia, sentia que nada havia mudado.

- O casamento de Milo e Camille foi uma decisão repentina. Crendo eu que estáveis na Estíria, cuidei de poupar-vos do embaraço de recusardes convite – Teobald II alegou, sinalizando os assentos diante de si – Bem, estais aqui, é o que importa. Juntai-vos a nós, sem maiores delongas... e partilhai conosco deste jubiloso momento.

Dando de ombros, Durval cessou seus pronunciamentos e fez conforme instruído; tomou assento defronte do irmão, que tinha Henri ao lado esquerdo, e “Camille” ao lado direito. Sentando-se Andreas ao lado direito do pai, viu-se bem de frente “à prima” que estaria se casando em algumas horas. Surt sentou-se diante de Milo, que tinha como vizinho o irmão Aiolia, e ao lado deste encontrava-se o marquês Shura.

Os irmãos Andreas e Surt eram ruivos, porém em um tom diferente do vermelho vivo do de Camus. O do mais velho beirava o vinho, e o do mais novo, o laranja. Andreas deveria ter cerca de 1,90m, magro porém corpulento, e os cabelos muito longos, de franja pela metade da testa larga. Surt era mais baixo e franzino, talvez 1,80 ou 1,82m, e trazia os cabelos curtos, devido à vida monástica. Mechas frontais roçavam-lhe o ombro, e em uma delas, havia uma espécie de laço branco, cuja função ninguém saberia dizer.

- Prima Camille, que satisfação ver-vos tão crescida e formosa – saudou o menor, fazendo uma mesura, ao que Camus assentiu – Não achas, Andreas?

- Tão certo quanto o céu sobre nossas cabeças, meu irmão. E pensar que a vi há... quantos anos, minha prima? Uns quinze, talvez?

- Penso que sim, meu senhor – concordou “a dama”, incomodada com o fato de um dos olhos do rapaz ser completamente encoberto pela franja de lado.

- Vosso irmão era vivo ainda... tu te lembras, Surt?  Era como ver alguém que tivesse diante de si um espelho. Mas, perdoa-me! Uma ocasião festiva destas e eu evocando tais lembranças...

- Não vos inquieteis, já faz muito tempo – respondeu, simulando indiferença àquele inoportuno comentário.

- Conde Milo, marquês Shura... há quanto tempo, não? – Andreas cumprimentou-os, sem se importar com as expressões pouco amistosas estampadas nos rostos dos dois cavaleiros.

- Infelizmente, não tanto assim – resmungou Shura, o que felizmente foi abafado pelos alaúdes a iniciarem a música que voltava a ser tocada.

Por mais que Milo quisesse responder da mesma forma, forçou-se por não demonstrar desagrado... era o sobrinho mais velho do sogro: preferiu manter a cabeça fria.

- De fato, duque Andreas. Folgo em ver-te bem.

- E tu melhor ainda, não, prezado Milo? Pois que... – encarou Camus, de modo enigmático – conseguiste um excelente casamento.

- Vê como Nosso Senhor recompensa-me pelos esforços empenhados em Seu Santo Nome – rebateu o loiro, sorrindo falsamente.

- Não o nego, meu bom amigo. Deves estar radiante em unir o útil ao agradabilíssimo... – frisou este último vocábulo fitando demoradamente o ruivo, que se mantinha silencioso.

Shura olhou o amigo de soslaio, esperando alguma resposta atravessada. Em lugar disto, Milo perguntou, com ar cordial:

-Devemos reconhecer as bênçãos de Deus Todo Poderoso, é o que sempre digo. Creio que vives o mesmo que eu, atualmente... por falar nisso, onde se encontra tua noiva? Não quiseste trazê-la a estas inóspitas estâncias?

- Só a encontrarei quando de nosso casamento. E, dado o caráter súbito deste teu, seria impossível que ela chegasse a tempo...

- Nada é tão súbito sendo a vida tão breve – declarou Henri, distraidamente. Àquela fala, o primo de Camus fechou o sorriso, consciente de que era hora de pausar aquelas investidas ácidas...

A refeição então pôde transcorrer em clima mais ameno. À medida que jarros de vinho eram consumidos, as conversas e os risos se soltavam mais. Fazia-se um brinde a cada quarto de hora...

- Quanto a vós, sois padre, não é verdade? – Milo iniciou uma conversa com Surt, julgando-o reservado devido a sua ocupação clerical.

- Em verdade, sou o atual Bispo de Bourges, senhor Milo – respondeu, um tanto pomposo, como a corrigir o termo empregado pelo outro.

- Ah, sim... eu não sabia que Andreas tinha um irmão no sacerdócio. Difícil imaginar isso – comentou, distraidamente.

- É difícil imaginar várias coisas, meu amigo. Hoje, contudo, tenho PROVAS de que elas ocorrem – e a este enunciado, Andreas encarou o loiro, um tanto petulante.

Um menestrel provençal circulava por entre as mesas, sendo seguido por um rapaz que tocava uma gaita de foles (1) de forma magistral.

- Camille tornou-se uma bela dama, meu irmão. Está tão parecida com a saudosa Maude, não acha? – observou Durval, inclinando-se para que a conversa não fosse ouvida pelos demais.

- É verdade. A cada dia parece-se mais com a mãe, que Deus a tenha – assentiu Teobald, neutro.

- Olhe para ela... magnífica. Nem mesmo a rainha se compara em elegância e distinção. Que meu filho não me ouça, mas a duquesa de Estíria não faria a Camille a menor sombra. Não consigo deixar de me ressentir por não teres aceitado o que te propus anos atrás...

- Insistes com esse assunto, e na véspera do casamento de minha filha? – retrucou, calmamente.

- Como bem disseste, é “véspera do casamento”. Ela AINDA não se casou...

Henri acompanhava aquele colóquio, confiante no autocontrole do amigo. Evitava olhá-los, para demonstrar sua discrição frente àquele embate entre irmãos.

- Durval. Julguei que tivesses entendido que, se não o permiti, não foi por causa de ti ou de meu honrado sobrinho, e sim pela posição da Igreja. (2) Sabes muito bem que o atual Papa condena os casamentos consanguíneos...

- “Condena”. Não “proíbe”. Vai daí uma grande diferença. Sabes com que intuito a Igreja agora condena os matrimônios entre parentes de sangue...

- Que seja. Mas são orientações da Santa Madre Igreja Católica. Aquela pela qual teu filho foi lutar em terras tão distantes.

Durval soltou um risinho, adquirindo detestável ar de complacência.

- Teobald... está escrito nas Sagradas Escrituras: “Não matarás”. Acaso meu filho e teu futuro genro... e teu amigo aqui presente, Henri d’Auvergne, não tiveram que matar, a fim de resgatar a Terra Santa das mãos dos infiéis? Acaso eu... e tu mesmo... já não extinguimos vidas sob o fio de nossas justas espadas? A Lei existe, mas os desígnios de Deus a ela sempre serão superiores – ditou, bebericando vinho ao final.

- Os mesmos desígnios que entendem que o que fizemos foi por um bem maior. Por necessidade, nunca por ideais cúpidos como os que moveram tua proposta...

- Cúpidos! – indignou-se o duque de Bourges – Manter a autenticidade do sangue dos Turenne é um ideal cúpido para ti?!

- Tu tão somente almejavas aquilo que motivou a Santa Igreja a condenar tal prática – Teobald II assim o disse, em um tom que mostrava o término de suas argumentações. Sorveu a bebida e encarou duramente o irmão.

Sem encontrar réplica eficiente, e percebendo sobre si o olhar reprovador do conde d’Auvergne, Durval escolheu por continuar comendo seu carneiro recheado de patê de ganso.

- Pelo visto, de vós meu filho não receberá congratulações... – soltou Henri, como quem gracejava.

- Enganai-vos, nobre conde... à exceção de meu filho Andreas, Camille não poderia ter melhor pretendente na Terra – bajulou, um riso gorduroso a coroar a mentira – Hum, percebo que Hilda não se encontra presente...

À menção do nome da filha, o duque de Borgonha fez-se lívido. Notando-o, Durval logo indagou:

- Por Nossa Senhora... acaso não terá a menina falecido, terá? (3)

- Senhor meu pai, estais esquecido? – tendo escutado as últimas falas, Andreas meteu-se na conversa, sem abandonar o cálice cheio – Não vos lembrais de que a pequena envolveu-se em grave escândalo, e de que por isso foi enviada para o convento?

- Como sabeis disso? – inquiriu, assombrado, o duque de Borgonha ao sobrinho.

- Há um ditado que diz que as piores notícias são as que chegam primeiro – falou Surt, do jeito manso dos padres – Foi lamentável saber que uma Turenne tivesse feito algo semelhante... mas... “todos pecaram e destituídos estão da graça de Deus”...

- Tu foste bastante clemente, Teobald. Muitos teriam executado a pecadora – opinou Durval, comprazendo-se com a expressão avexada do irmão.

Camus fuzilou seus parentes com um olhar jamais presenciado por Milo. Genuína ira residia ali. O loiro imaginava que até agora palavra alguma saíra da boca do noivo devido à etiqueta, que preconizava o silêncio das mulheres em meio aos homens.

- Achei por bem dar-lhe a chance de se redimir de seus pecados em vida – o duque de Borgonha argumentou, sem demonstrar o pesar que sentia na alma.

- Que pena... soube que era muito linda, a donzela. Deves ter te sentido lisonjeado, não, Milo? – Andreas lançou, irônico.

- Vós tendes singular gosto para selecionar os tópicos de conversação à mesa, em um jantar de família. Deveis sentir-vos lisonjeados.

As palavras de Milo, ditas com o mesmo cinismo polido com que os recém chegados vinham fazendo suas colocações, acertaram-nos como flechas. Subitamente pouco à vontade, entreolharam-se. Camus não pôde deixar de mirar o noivo; algo aqueceu-o por dentro, ainda mais que o vinho. Do outro lado, Henri sorriu de leve. Aiolia não quis saber de disfarçar. Deixou uma risada escapar pelas narinas.

- Perdoai-nos – enunciou o duque de Bourges, aparentemente constrangido – Faz muito que não nos vemos, e acabamos por trazer à baila eventos mais recentes como... tópicos de conversação.

Teobald II apenas assentiu, no que foi seguido pelos seus; Andreas, que mantivera a cabeça baixa tempo suficiente para dar-se conta de que o fizer por uma resposta atravessada de Milo, levantou o rosto, ainda mais arrogante do que antes. Seu orgulho fazia-lhe o sangue borbulhar. Aquele reles conde não tinha o direito de se dirigir a ELES daquela maneira! Ainda que fosse o noivo da prima... futuro genro do tio poderoso... a soberba de Andreas suplantava, por vezes, seu notável autocontrole. Era como se nesse momento, ele se considerasse acima do bem e do mal, e obviamente, acima dos homens... havia sido esse lado de sua personalidade que o levara a cometer os horrendos atos rememorados por Shura...

- Lamento por vós, minha prima. Vosso pai impediu que nós nos uníssemos, como queria o meu. Sê-lo-ia em prol da preservação do valor de nosso sangue, puro e elevado. Sangue de duques – ergueu uma taça de vinho, mostrando-a a Camus, que encarava-o, inexpressivo. Depositou a taça na mesa. E então, pegou um copo de cristal, que continha água pura. Pôs-se a despejá-la na bebida, enquanto dizia:

- Eu poderia comparar vossa situação à deste vinho, estimada Camille... ainda que a água seja necessária à vida, tal qual o préstimo de guerreiros como vosso noivo, ela é inferior ao vinho... e ainda por cima, possui o poder de diminuir-lhe o valor. Ao contrário da água, que se enriquece e se encorpa...

Tão lépido quanto inesperado, Camus ergueu-se da mesa, e, para a estupefação de todos, retirou da parede uma das espadas penduradas com fins ornamentais.

Aquela arma, entretanto, era real, e não mero adorno.

Brandiu-a na direção de Andreas, que arregalou os olhos violetas. A ponta da espada, tão perto de seu rosto... suspendeu a respiração, ao mesmo tempo que os demais convivas se sobressaltaram ao presenciar aquela cena. Teobald II, Henri, Aiolia, Shura... Milo... e os que ocupavam outras mesas... todos se espantaram com o que viam.

- Falastes acerca da água e do vinho, ambos sobre esta mesa. Continuai referindo-vos a meu noivo de forma jocosa, e tereis ainda o sangue, igualmente em cima desta mesa, como mais uma substância a ser por vós analisada... – ameaçou o ruivo, inacreditavelmente frio.

- Camille! – balbuciou o duque de Borgonha, fazendo menção de se erguer também: foi contido pelo conde d’Auvergne.

- Teobald, não – alertou o conde – Qualquer movimento agora é perigoso.

Da mesa lateral, Afrodite, em grande aflição, testemunhava a primeira reação apaixonada de seu amo, em ANOS...

Talvez a primeira de sua VIDA.

Limites, convenções, regras...

Por amor, Camus quebraria TODAS.

Ali estava ele, ereto e magnífico, apontando para o duque Andreas, a espada que segurava em sua mão branca e firme.

“Camus... oh, Camus, COMO TU O AMAS!” , pensou, mortificado.

- Que a irmã Camille está a fazer? – perguntava Marin, pela primeira vez desviando do garboso Aiolia seus olhos castanhos.

- Meu Deus – exclamou Seika, levando à boca as mãozinhas trêmulas.

- É meu pai que estais a vilipendiar. É vosso anfitrião que estais a vilipendiar. É meu futuro marido que estais a vilipendiar. Se não podeis proferir nada além de motejos, eu nada posso fazer além de solicitar que vos retireis de nossa presença – a voz de “Camille”, límpida e desapaixonada, ecoou pelo recinto, subitamente silencioso.

Respirando fundo, Andreas engoliu em seco, buscando fôlego para enunciar:

- Eu vos peço perdão, minha prima. Excedi-me em meus comentários, reconheço-o. Deve ser o vinho rústico desta terra que...

- Não é a MIM que deveis pedir perdão, senhor meu primo.

Ele se aprumou na cadeira, o tanto quanto podia, visto que a ponta da espada ainda lhe ameaçava a integridade facial. Olhou para os nobres mais velhos e, em seguida, para o noivo “da prima”:

- Perdoai este incauto servo, senhores Teobald de Turenne, Henri d`Auvergne... perdoa-me, conde Milo... do fundo de meu coração, reconheço-te como merecedor da mão da valorosa Camille de Turenne...

Envoltos em absoluto silêncio, os ruivos ainda ficaram se encarando por um tempo, até que Camus recolheu a espada; colocou-a de volta ao suporte da parede, e acomodou-se como antes à mesa.

A um sinal do duque de Borgonha, os músicos reiniciaram seus trabalhos. Colocando um alegre sorriso no rosto, o menestrel voltou a entoar as doces canções provençais. Pouco a pouco, os comensais retomaram as conversações, de vez em quando ainda prestando atenção “na noiva” e no primo, ambos agindo como se nada tivesse acontecido, servindo-se normalmente dos acepipes e das beberagens do banquete. Milo olhava o noivo de soslaio, perguntando-se de que maneira ele conseguia aquela façanha. Aiolia sorriu sem jeito e procurou com o olhar a menina de quem se enamorara; Marin ainda sustentava a mesma expressão de espanto, assim como a irmã mais nova. Forçando um sorriso, a jovem acenou para o moço, sendo por ele correspondida.

Surt limpou os lábios no lenço de linho e, fazendo- se cordato, apontou:

- Então não eram boatos. Vós realmente recebestes de meu tio singulares treinamentos destinados aos homens...

Camus deu um meio sorriso antes de responder, sereno:

- Rudimentos, meu primo, meros rudimentos.

- Tenho cá minhas dúvidas – Andreas contestou, com cautela – Se me permitis, gentil prima, mostrastes excelente técnica... poucas vezes na vida fui rendido tão facilmente... nenhuma de tão curta distância.

- Tenho certeza de que fui auxiliada pelo “vinho rústico desta terra” que consumistes, meu senhor – respondeu o filho do duque de Borgonha, elevando seu cálice cravejado de rubis.

Um breve riso escapou dos lábios de Andreas, que fitou Milo, diretamente.

- Eu aconselharia a ti, Milo d’Auvergne, que tomasses cuidado ao manifestar qualquer insatisfação na vida matrimonial, contudo... temo que tua noiva não seja exatamente do tipo que aprecia chistes bem humorados...

- Não. Ela não é.

O tom glacial do noivo perturbou Camus. Contudo, como de praxe, nada deixou transparecer.

A tranquilidade parecia restabelecida por completo naquele recinto, de modo que o banquete pôde transcorrer normalmente. Horas depois, alguns convivas já circulavam pelo salão, a fim de palestrarem entre si; outros dançavam, e, entre estes, Marin e Aiolia. A princípio, Camus preocupou-se com o julgamento de seu rigoroso pai acerca daquele flerte às claras, mas viu-o conversando com Henri e Durval, alheio a qualquer outra coisa.

- Conceder-vos-íeis a honra de uma dança, prezada prima?

Ante a surpresa que nem Milo nem o próprio Camus conseguiram ocultar, Andreas justificou o convite:

- Façamos disto um armistício. Penso que não iniciamos nossa amizade de modo apropriado... obviamente por culpa minha, admito-o.

De pé, Andreas parecia esperar que “a dama” se levantasse, e aceitasse a mão que lhe era oferecida. Camus considerou a situação em que se encontrava: por mais que dançar com o primogênito de Durval fosse a última de suas aspirações na vida, tratava-se de um simples costume em família... se recusasse, daria a entender que ficaram ressentimentos. E se havia um hábito próprio dos nobres, era o de dissimular desafetos por um bem maior: o equilíbrio entre forças... quase sempre instáveis.

Erguendo-se por fim, Camus aceitou ser conduzido pelo primo para o centro da Grande Sala. A Milo só restou engolir seu desagrado, juntamente com generosas talagadas.

- Não faças isso.

- A que te referes, Shura?

- A deixar patentes no rosto contraído os ciúmes que sentes.

- Ciúmes! – riu o loiro, bebendo ainda mais – Não me faças rir, que engasgo!

- É normal uma prima dançar com um primo em festividades em que se encontrem – o moreno não se convenceu com aquela negativa – Assim como podes tirar tu uma dama para bailar.

Milo deu de ombros, enfastiado.

- Eu lá quero bailar? Quero antes me acabar de beber, para esquecer deste purgatório em que adentrei, forçadamente.

O cavaleiro estrangeiro estudou aquela irritação, nada própria do Milo que conhecia... principalmente em festas. E percebeu o olhar claro do amigo fixo nos dois ruivos, que executavam com graciosidade passos admiravelmente coordenados.

Neste meio tempo, os mais velhos falavam sobre amenidades, até que Durval inquiriu:

- Diz-me, Teobald, não planejas casar-te de novo?

- Por que tal questão, tão súbita?

- Penso que talvez seja hora de tua viuvez chegar ao fim. Tuas filhas são moças crescidas, duas delas oficialmente encaminhadas. Quem sabe não seria melhor que tu desposasses uma dama de boa família, e com ela tentasses ter, enfim, o varão de que tanto careces para continuar tua história na Terra?

- Não possuo intenções de casar-me, Durval, pelo menos não no atual momento...

- E quando será esse “momento”? Quando a fonte de tua semente secar? Há muito que não és jovem, e a maturidade há de ceifar tua descendência...

- A descendência não se restringe à gerada pelos filhos homens. Tenho certeza de que Camille, Marin e Seika cuidarão de garantir o futuro do clã dos Turenne – Henri ousou se intrometer, sem qualquer cerimônia.

Durval dirigiu-lhe um sorriso amarelo ao dizer, não sem certo desprezo:

- Conde d’Auvergne, creio que me fiz entender por vós. Sois homem astuto e de grandes estratégias. Refiro-me à descendência que perpetuará o nome dos Turenne. Sabeis que, pelas leis, são os homens que carregam a herança do sangue através dos tempos.

- Leis que não correspondem à realidade. Não viestes vós do ventre de uma mulher? O legado de vosso pai se fez findo com isso? – contra argumentou Henri, combatendo o ar cínico do duque de Bourges com o seu jovial e bem humorado.

- Dizeis coisas curiosas para um militar, meu bom amigo. Eu julgava que fôsseis submisso às leis, uma vez que este é preceito básico de todo soldado...

- E o sou. Apenas não vejo nelas plena justiça. Não é esta uma ação típica de soldado, obedecer mesmo sem concordar? – rebateu, tomando um gole de vinho, despreocupadamente – E... que curioso. Há pouco, vós mesmo aludíeis à obediência seletiva de certas leis...

O outro franziu as sobrancelhas grisalhas. Um pouco menos sorridente, murmurou:

- Bom, eu só acho que, como alguém tão próximo e influente, poderíeis aconselhar vosso amigo a se casar.

- Convencer um amigo a fazer o que ele não quer? Estranha missão me imputais, duque de Bourges - riu o conde, esvaziando sua taça. A essa altura, Teobald II limitava-se a observar aquele embate, admirando Henri, e crendo-o dele vencedor.
- Eu estou apenas preocupado com a manutenção da Casa de meu irmão... Vós, que tendes 3 filhos homens, não poderíeis compreender a ameaça que se insurge...
- Não possuo mais três filhos – corrigiu-o o conde - Faz alguns anos que Aiolos morreu em batalha. Quanto a Teobald,  de suas três jovens filhas certamente virá um varão, e isso à causa basta.
- Bom... Não é a mesma coisa...
- As coisas não precisam ser as mesmas. Vede, o primogênito foi suplantado em poder e riqueza pelo mais novo. Tudo pode mudar neste mundo de Nosso Senhor.
Aquele raciocínio foi uma adaga no orgulho de Durval. Tão afetado foi que não encontrou uma réplica, o que era raríssimo de acontecer.
Teobald II afligiu-se, pensando se não havia sido excessivo o conde d'Auvergne. Não obstante, assim era Henri: deixava que sua calma fomentasse a confiança do adversário, e no exato momento, desferia o golpe de misericórdia.
Enquanto isso, Milo mantinha-se atento a Camus e Andreas, ainda que conversasse com Shura e Surt à mesa. O clérigo seguiu aquele olhar e, sorrindo de leve, comentou:
- Fazem um belo par, não? São parecidos... Pudera: nossas mães eram irmãs.
- Deveras? - fez Shura.
- Quereis dizer que uma irmã de Maude casou como o irmão de Teobald II?
- Exatamente, senhor Milo.
- Eu não sabia que Agnes e Emilie tinham outra irmã falecida.
Não é que fossem parecidos, realmente. Afora a cor dos cabelos, que ainda assim não se fazia tão próxima - os de Camus eram de um vermelho vivo, sangrento, e os de Andreas mais puxados para o bordô, escuros e opacos - nada justificava a fala de Surt. Decerto fora proferida com intuito de incomodar Milo.
Riu sozinho.
No que aquilo o incomodava?
Mas sim...havia ALGO que o incomodava.
E ele não era homem de engolir dissabores. Deixou a mesa, sem avisos, e dirigiu-se, incontinenti, aos dois primos que dançavam no centro do salão.
Quando parou diante deles, Andreas sorriu, simpático:
- Oh, Milo! Perdoa-me, estou monopolizando tua noiva...
- Não vim para dançar - cortou, secamente. E, para Camus - Quero falar contigo. Vem.
Aquela ordem direta causou calafrios em seu noivo. Pediu licença ao primo e acompanhou o loiro, ambos saindo do salão. Estranhou que fosse necessário que se afastassem tanto do festim. Do lado de fora, em um pavilhão deserto, Milo virou-se de súbito para ele, e disparou, com raiva:
- Não preciso de que me defendas.
- Perdão..?
- Basta de teus jogos. Sabes a que me refiro. Que pretendias ao protagonizar aquela cena? Demonstrar, para mim, que realmente... "possuis entre as tuas pernas" o mesmo que EU possuo entre as minhas? - e sentiu o peito queimar ao lembrar daqueles torpes dizeres.
Camus mirou-o, entreabrindo a boca em estupefação.
- Credes, firmemente, que sois o centro do universo, por certo, senhor Milo.
- Como?
- Não fiz aquilo para defender-vos, pelo menos, não pelo que sois. E sim pelo que representais. Sois o marido que meu pai me destinou. Ao proceder com sarcasmo para convosco, Andreas zombou de meu pai. De minha família. De meu padrinho. De mim mesmo. Sois uma parte de um todo. Não sois tudo. Ainda que penseis que sois.
A cólera causada por aquelas palavras levou fel à boca do loiro. Foi mesmo difícil articular qualquer resposta. A visão dos olhos vermelhos, semicerrados, estranhamente impiedosos naquele desdém, dava-lhe ganas de enforcá-lo.
Qualquer dia o faria.
Em breve, estariam a sós.
Então Camus de Turenne teria o que merecia.
Por hora...
Afastou-se dele, sem nada dizer.
- Aonde ides? - indagou Camus, surpreso.
- Não vejo por que isso seja de tua conta – foi a resposta dura e seca. E rumou para longe da entrada da casa senhoril. Acaso sairia a uma hora daquelas? E para onde? O ruivo, aflito, pensou em questioná-lo, contudo nada saiu de seus lábios, embora ele os tivesse aberto. Por que NUNCA conseguia se entender com Milo? Viveriam juntos, afinal. Nunca esperaria que Milo o correspondesse da maneira como ele, no fundo, gostaria. O mínimo, porém, que se poderia esperar era que não fosse tão difícil a convivência entre ambos. Entretanto... talvez SEU descomedimento ao falar tivesse causado aquela reação. Por que mentira? Sim, faltara com a verdade... ele, que odiava a mentira. Sua vida era uma, o que o fazia execrar a mentira. Então... por quê?

“Milo... eu não menti totalmente sobre o porquê de ter agido daquela forma. Deus sabe que foi pela honra de meu pai, de minha família, do senhor conde... mas... sobretudo... foi por TI. Por Andreas escarnecer de ti. Não pude suportar. Nisto, menti. Menti vergonhosamente. E agora recebo a punição de obter de ti, mais uma vez, a cólera...”

Respirou fundo, o peito esmagado por aquele pesar.
- Minha prima.
Voltou-se para o primo, a aproximar-se com ar preocupado.
- Senhor Andreas...
- Achei que Milo tivesse se enraivecido convosco por ter dançado comigo. Do jeito que vos tirou de lá... Vim ver se estáveis bem.
- Meu noivo não é do tipo descortês, senhor meu primo. Jamais me faria algum mal - foi quase uma reprimenda.
- De forma alguma referia-me à possibilidade de ele ser bruto convosco...
A súbita partida de Milo minou a tolerância de Camus para convenções sociais. Suspirou, e pretexto cansaço:
- Se assim mo permitirdes, retirar-me-ei. Sinto-me fatigada. E amanhã será um longo dia para mim.
- Compreendo, senhora. Acompanhar-vos-ei até vossos aposentos.
- Isso não se faz necessário. Com vossa licença... - girando sobre os calcanhares, saiu, retirando-se apressadamente dali. Andreas fez menção de segui-lo, mas foi impedido por uma voz imperiosa atrás de si:
- Vós ouvistes a senhorita.
O ruivo viu surgir por entre as colunas de mármore um ser belíssimo... Um anjo? Uma mulher?  Suas roupas... um homem!
- Quem sois vós, inaudita criatura? Juro por Deus, jamais pus os olhos em semelhante perfeição - e Andreas não estava sendo meramente polido. Dizia a mais absoluta verdade.
- Sou Afrodite, camareiro-mor de senhorita Camille.
Arregalando os olhos, Andreas explodiu em um riso zombeteiro.

- Aqui estou eu, a tratar por “vós” um reles camareiro! As aparências enganam, nada mais acertado...

- O tratamento continua sendo adequado, meu senhor, pois sou tão nobre quanto vós.

- Tu, nobre? Não o duvido. Não serias camareiro-mor de uma duquesa que - triste destino, a partir de amanhã, condessa! - se não fosses da nobreza. Um visconde, barão, talvez?

- Enganai-vos. Meu pai é um duque, como o vosso o é, ainda que em distantes terras escandinavas...

- És estrangeiro, hum. Bem reparei, ao ouvir tão peculiar francês.

Inesperadamente, Andreas deu dois passos na direção do jovem, que recuou, por instinto; quase encostou na pilastra. O ruivo avançou um pouco mais.

- Sou da Suécia – esclareceu o loiro, constrangido com aquela proximidade repentina.

- E estás na França para cuidar dos vestidos e da toalete de uma donzela. Imagino que és de alguma Casa falida, ou algo que o valha...

- Minha família tem sob seu poder centenas de outras, algumas mais poderosas que a vossa própria – atirou o sueco, erguendo o queixo, petulante. Não se deixaria intimidar por aquele homem arrogante. Só devia lealdade à família de Teobald II. Não era obrigado a aceitar desfeitas de um sobrinho do duque! Que, além do mais, exasperara seu amado amo!

- Se te apraz a vida de lacaio, bem poderia ser meu... parece-me desperdício que tão bela figura fique encerrada neste mausoléu para o qual os condes trouxeram a pobre Camille – Andreas, descaradamente malicioso, mirava o loiro de alto a baixo.

- Vossas pilhérias não me divertem, senhor Andreas, pelo contrário, enfestam-me. Com vossa licença.

A mão direita do duque espalmou-se na coluna, bem ao lado do rosto de Afrodite. O movimento súbito fez com que o ex-pajem se retesasse.

- Não dei permissão para partires. És um subalterno assaz insurgente.

- Não sou VOSSO subalterno. Sou de VOSSA prima. Apenas a ela devo obediência.

Do outro lado, a mão esquerda posicionou-se bem próxima a Afrodite, quase tocando-lhe os anelados cabelos cor de ouro. Andreas lambeu os lábios, fitando os rosados e cheios do rapaz acuado, uns oito centímetros mais baixo que ele.

- Diz-me, Afrodite... não gostarias de estender teus serviços ao primo de tua senhora, pelo menos esta noite?

- Que... que estais a dizer? – balbuciou o sueco, pasmado.

- Pago bem. Não te arrependerás. Vem até meu quarto e salva-me do tédio que está sendo este lugar.

- C-como ousais?!? – indagou, irado; preparava-se para reagir mais incisivamente, quando viu a ponta de uma espada encostar no pescoço do francês.

- Vejo que ainda pensas estar no campo de batalha, Andreas, onde logravas colher livremente teus despojos de carne. Entretanto, estás na residência de meu amigo, e onde tua prima residirá. Afasta-te desse rapaz – ordenou Shura, gravemente.

Andreas riu, entre nervoso e divertido:

- Tens razão, caro Shura, não estou no campo de batalha; aqui é MAIS perigoso que o campo de batalha... é a segunda vez que me apontam uma espada!

Ao dizer isto, afastou-se de Afrodite, que ficou a encará-lo com asco e revolta. E, voltando-se para Shura:

-Continuas o mesmo justiceiro, hum. Certas coisas não mudam.

- Não. Não mudam. Por isso, vim atrás de ti, quando percebi que seguiste Milo e Camille. Detém-te de criar problemas ou eu...

- Ou tu O QUÊ? Nada pudeste contra mim, quando tiveste todas as chances para aniquilar-me. Pensas ser capaz de fazê-lo aqui, em meio à minha família? E faltando tão pouco para chegar o rei!... – volveu o ruivo, sarcástico.

- Preferes tirar a prova?...

Ajeitando os cabelos rubros, Andreas fez um muxoxo. Apartou-se dos dois, com ar de pouco caso.

- Boas noites. Encontrar-nos-emos novamente amanhã, no casamento, senhores.

Vendo-se a sós com o amigo de Milo, Afrodite agradeceu:

- Muito obrigado por me defender daquele biltre. Eu poderia tê-lo feito, mas temia causar algum escândalo...

- Não seria problema algum, Andreas parece alimentar-se deles. Vosso nome é Afrodite, não?

Ao ouvir seu nome naquela voz grave e aveludada, singular sensação se apoderou do camareiro-mor. Confirmou, respeitosamente:

-Sim, Afrodite, a vosso dispor.

- Não é esse um nome de mulher?

- Bem – sorriu – Foi a alcunha que recebi quando a esta terra cheguei.

- Algum motivo especial?

- Nenhum de que vos falaria sem constrangimento.

O moreno deu um breve riso ante aquela resposta.

- Neste caso, não precisais mo dizer – e sentou-se na murada de mármore da varanda. Afrodite sentiu vontade de juntar-se a ele, entretanto continuou de pé.

- É porque eu pareceria... imodesto se o dissesse – murmurou o loiro. E, notando a expressão curiosa do outro, revirou os olhos e deixou escapar – Está bem, está bem... meu primeiro tutor deu-me este apelido porque, segundo ele, minha beleza poderia fazer com que qualquer um me amasse.

Shura riu, com gosto. Longe de constranger Afrodite, aquilo deixou-o mais à vontade.

- Além de imodesto, é estúpido, não? – riu o loiro, encostando na coluna em frente ao outro.

- Imodesto, talvez. Estúpido, de forma alguma. Sois indubitavelmente a pessoa mais bela que já vi na vida. E estive em muitos lugares do mundo para poder afirmar isto com propriedade.

O coração de Afrodite bateu mais forte ao ouvir tal declaração naquela voz tão profunda e máscula. O moreno, porém, o fizera sem o menor tom cortejador. Dir-se-ia que comprovara algo sem maior importância.

- E verificastes a eficácia de vossa beleza nesse sentido, senhor Afrodite? Podeis, de fato, despertar o amor de quem quiserdes?

Os olhos azuis cristalinos baixaram-se, melancólicos.

- Não. Tal máxima não passa de uma falácia – desabafou, tristemente.

- Então vós amais alguém que não vos ama.

- Exatamente. Mas... por Deus! – riu, com a mão no rosto – Por que é que estou a falar tais coisas com o senhor?

- Quem sabe...  – Shura cruzou os braços atrás da cabeça, recostando-se na pilastra oposta – Então sois nobre de estirpe.

- Quanto de minha conversa com o detestável Andreas ouvistes?

- O suficiente para querer saber por que sois o camareiro-mor de uma dama, se provavelmente o nível de vossa família se equipara à que servis.

Não havia o menor motivo para que Afrodite falasse de sua vida pessoal para aquele quase desconhecido; no entanto, algo no forasteiro atraía-o, a ponto de não se permitir resistência.

- Sempre alimentei extravagante apreço pela medicina, e não há universidades em minha terra. Por isso, vim para a França. Tencionava estudar Medicina na Universidade de Paris, tão logo se findassem meus anos de formação em casa de tutor. Contudo, afeiçoei-me à família de Camille, e o senhor duque contratou-me como camareiro-mor de sua primogênita.

- E desististes de vossos sonhos para escovar os cabelos de uma mocinha.

- Começais a falar como aquele crápula! – resmungou o loiro, causando discreto riso no interlocutor.

Afrodite achou-o bonito... temeu estar corando. Bom, ali não havia muita claridade mesmo...

- O duque paga-me bem. Mais do que o que eu receberia como médico.

- Mas oriundo de família tão abastada como fizestes parecer perante Andreas, não seríeis médico pelos proventos, e sim por realização pessoal...

- De fato...

- ... e deixastes vossa realização pessoal de lado para escovar os cabelos de uma mocinha. E cuidar de seus vestidos. E de sua toalete.

Agora o sueco fez-se vivamente vermelho. Irritado, fez menção de se retirar:

- Creio que já conversamos por demais. Boas noites, senhor Shura!

- Esperai. Tendes ideia para onde foi Milo?

- Ele abandonou minha senhora, aparentemente aborrecido. Deixou o castelo. Para onde, não o sei eu – respondeu, mal humorado.

Coçando o queixo, Shura olhou para o pórtico principal.

- Aquele cabeça oca... que há de ter aqui por essas paragens? Bem, lembro-me de ter passado por um pequeno vilarejo, ao norte, antes de cá chegar – raciocinava em voz alta, alheio à irritação do sueco. Este bufou:

- Com vossa licença!...

- Até amanhã, belo Afrodite - sorriu, divertido com o azedume do outro. Engraçado como aquilo o deixava ainda mais bonito!

- Hunf! – e a passos duros, foi para o interior do palácio.

O sorriso de Shura arrefeceu quando o loiro sumiu de suas vistas. Levantou-se e desceu as escadas. Ganhando o pátio central, dirigiu-se a um dos escudeiros ali de prontidão.

- Traz-me meu cavalo, sem demora.

 

*************

 

No interior de uma pequena cabana de madeira, iluminada por escassos candelabros por sobre as mesas rústicas e sujas, um jovem ricamente vestido destoava dos presentes, poucos homens em trajes humildes, todos trabalhadores da terra. Sondavam, intrigados, o forasteiro, que não abandonava seu copo nem por um segundo. De quando em quando, o belo rapaz suspirava, perdido em algum pensamento que, possivelmente, o atormentara a ponto de levá-lo para aquele antro.

O vinho dali era intragável, de modo que Milo aceitou de bom grado aguardente de maçãs, e se surpreendeu por apreciá-lo, tanto pelo sabor, quanto pelo elevado teor alcoólico. Algo extremamente bem vindo naquele momento.  Quando ali chegara, após cavalgar não mais que meia hora, pensou em procurar uma mulher pelo pequeno vilarejo, para aliviar-se mais propriamente; o desejo por anestesiar a mente, entretanto, falou mais alto que o desejo de anestesiar o corpo, e preferiu entregar-se tão somente aos torpores da bebida, sozinho... ainda que exaustivamente observado.

Já escorregava para a mesa, quase ali descansando a cabeça pesada, quando a porta se abriu, e um outro homem trajado como nobre adentrou. Murmúrios foram mal contidos ante a visão do cavalheiro, muito pálido, de cabelos negros espetados, e olhos rasgados de um misterioso verde musgo, metido em uma túnica negra com detalhes em vermelho, bem como a calça por dentro das botas de couro escuro. Uma cruz de ouro com rubis pendia-lhe do pescoço. Sentou-se diante do loiro, que pareceu não se dar conta de sua presença.

- Tua sanha de explorador não poderia ser obliterada nem mesmo na véspera de tuas bodas? – falou, tirando o copo da mão do amigo. Este ergueu os olhos turquesas, nos quais se via profunda desolação.

- Que fazes aqui, Shura...

- Tu é que devias responder-me isso.

- Eu queria conhecer meus futuros súditos... – respondeu, com um sorriso bobo, nada próprio do cavaleiro que conhecia.

- Mais um motivo para não ficares dessa maneira lastimável. Governarás esta terra, foi o que me disseste. É assim que espera ser respeitado como soberano? Desmanchando-se nestas mesas gordurosas?

- A bebida é boa... aliás, onde ela está?

- Acabou-se, para ti. Vamos, acompanha-me. Teu cavalo está lá fora, que vi.

- Shura, espera... eu não quero ir... agora, não... fiquemos só um pouco...

- Que há contigo, Milo? – perguntou, firme, o moreno, segurando o rosto de Milo, no afã de trazê-lo mais à consciência – Eu não te reconheço desde que a esta terra cheguei. É o teu casamento que está deixando-te assim?

- É claro que é – rosnou, o bom humor ébrio esvaindo-se.

- Por Deus! Entendo que estás casando por ordem do rei, mas no que isso difere na esmagadora maioria dos matrimônios? Todos são meros contratos, e nem por isso os homens deixam-se desesperar por esta forma.

- Não estou desesperado... desiludido talvez...

- E por quê? Acaso amas outra mulher? É isso, Milo? Estás apaixonado por alguma dama com a qual não podes ficar, não é?

O loiro olhou-o, aturdido. Quis beber, porém o copo estava fora de seu alcance, e ele não queria fazer uma cena por aquilo.

- Sim... digamos que seja isso. Amo uma pessoa, mas... não tem como ficarmos juntos. É impossível.

- Isso deve ser fruto das literaturas de que te alimentas, com essas loucuras de amores impossíveis. Por Deus, és homem feito, o primeiro da Casa de teu pai, tens para com teu nome um dever a cumprir. Preservar o legado do sangue. Não há por que Camille te desagradar. É formosa, culta, digna e, conforme o que vi no jantar, valorosa...

- Estás apaixonado por ela também? – cuspiu Milo, amargo.

- Perdão? – Shura ergueu uma sobrancelha.

- Do jeito que falas dela! Não seria novidade... TODOS acabam por se apaixonar pela “excêntrica” Camille! A que é tida como SANTA...!

- Por Deus, tens de estar MUITO BÊBADO mesmo – riu Shura – Quem “mais” está apaixonado por tua Camille, meu bom amigo?

- Tu... Andreas... Afrodite...

Rindo ainda mais, Shura balançava a cabeça, negativamente.

- Não sejas tolo. Eu? Só porque estou a tentar convencer-te de que ela é um bom partido para ti? Andreas? Que ingenuidade, a tua. Aquele lá não conhece sentimentos que não sejam por si próprio. Afrodite? O camareiro-mor de tua noiva? Por que diabos acha que ele está apaixonado por ela? Oras, tu te fizeste bem seguro de ti quando perguntei-te se te achavas sossegado com a proximidade dos dois...

Uma mulher de touca e avental foi até eles oferecer-lhe seus serviços. Shura pediu água para o amigo. E ouviu-o, explicar-se, com a certeza impaciente dos ébrios:

- Se não fosse por amor incubado, qual a razão de um ilustre nobre sueco, que veio à França tornar-se médico, ser um mero camareiro?

- Disse-me ele que o duque de Borgonha paga-o muito bem...

- Essa história não me desce, Shura... não me desce! – e esticou a mão para alcançar o copo de aguardente; o moreno retirou a bebida de seu alcance, entregando-o à taverneira. Deu a Milo a água, para a qual ele fez uma careta.

Shura reviu o atraente rosto do sueco mergulhado em tristeza...

“E verificastes a eficácia de vossa beleza nesse sentido, senhor Afrodite? Podeis, de fato, despertar o amor de quem quiserdes?”

“Não. Tal máxima não passa de uma falácia.”

“Então vós amais alguém que não vos ama.”

“Exatamente. Mas... por Deus! Por que é que estou a falar tais coisas com o senhor?”

- Milo... não deverias ter deixado tua noiva sozinha no pavilhão do castelo. Se não fosse justamente pelo Afrodite, de quem cuja lealdade duvidas, Andreas teria ido atrás de Camille quando esta tencionou se recolher... sabe Deus o que o pérfido queria com a moça!

Milo paralisou ao ouvir aquilo.

- Em se tratando de Andreas, pode-se esperar tudo... e tudo do PIOR, sabemos bem, e... – calou-se, notando o temor do amigo.

- Andreas... sim... podemos esperar tudo dele – tentou disfarçar o loiro, bebendo a água; melhor mesmo recuperar a sobriedade, o quanto antes.

- Sabes, Milo, não ages como se não sentisse NADA pela filha de Teobald... não mesmo.

- Que bobagens são essas? Ó, gentil senhora, podes me trazer mais água?

- Eu diria mais: pareces gostar da moça.

- Pareço?

- Sim.

Mordendo o lábio, o jovem conde era a imagem viva da desolação. A taverneira deu-lhe mais água. Esperando que o outro terminasse de beber, Shura ficou a estudá-lo, tentando compreender o que se passava ali. E o confessou:

-Não entendo como gostar da mulher com quem vais te casar pode ser um problema para ti.

- E quem disse que gosto dela?

- Ora, Milo. É EVIDENTE que gostas. Talvez... talvez...

- Talvez o quê?

- Talvez até a ames.

Achou que o loiro fosse apelar para uma gargalhada teatral. Não obstante, o que viu foi um par de olhos angustiados em sua direção, como a suplicar por ajuda.

- Achas mesmo, Shura? Agora estou com real pavor… tu és sábio. Analítico. Sabes como ninguém ler a alma das pessoas.

- Milo, por que, em nome de Deus, isso te daria pavor? É uma bênção a tão poucos reservada, desposar alguém que se ame!

- Tu não entenderias, Shura... não, não entenderias...

- Então explica-me – o marquês cruzou os braços, intrigado.

- Por hora, é só o que posso dizer... – dando um último gole, pôs umas moedas sobre a mesa e levantou-se – Partamos.

Sem contestar o amigo, Shura o acompanhou, sem deixar de se perguntar, mentalmente, o que de fato estava acontecendo com Milo.

“Ele não assume que gosta da noiva, quando é evidente que por ela nutre sentimentos. Por que isso parece-lhe uma maldição, e não uma dádiva? E este casamento repentino... e a escolha pela propriedade mais retirada para morar...”

Lentamente, as peças de um incógnito quebra-cabeças iam se posicionando na mente do marquês...

...em alguma hora, ele conseguiria arrumá-las e visualizar a verdade.

Oh, se iria. Questão de tempo.

Shura de Aguilar sempre conseguia...

SEMPRE.

 

*************

 

 

 

 


Notas Finais


(1) gaita de foles - "bagpipes" é nome original do instrumento pelos músicos tocado. Tem vários tipos...

(2) Houve um tempo em que a Igreja procurou conter os casamentos consanguíneos (entre familiares muito próximos), pois que mantinham o poder concentrado entre as famílias. Essa concentração do poder nas mãos de umas poucas famílias começou a incomodar a Igreja, que era o poder máximo à época, experimentando a partir do século XI certo enfraquecimento, o que fez com que recorresse a essa orientação. Depois será uma proibição, mesmo. E por volta do século XV, com fortalecimento do rei, os casamentos consanguíneos voltam com força total, embora nunca tenham cessado de fato (o argumento de Durval encontra eco no discurso dos nobres que insistiram com a prática no período)

(3) "Acaso não terá a menina falecido, terá?" - desta vez não é sarcasmo de Durval; é uma época de alta mortalidade. Logo, a dúvida dele, ao não ver Hilda junto com suas outras sobrinhas, foi legítima.

*************

Quem tá dando mais "medo", Durval, Andreas... ou Shura?

Link do tema, que é de influência nórdica, na verdade...
https://www.youtube.com/watch?v=7-AE50otuVA

E no próximo capítulo, enfim... O CASAMENTO! Tragam seus bolos (é, eram os convidados que levavam um monte de bolinhos pra festa, rs)... muito obrigada por lerem, beijos!!!


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