História Dark Falls - Capítulo 32


Escrita por: ~ e ~Megumimii

Postado
Categorias Kuroshitsuji
Personagens Agni (Arshad), Aleister Chamber (Visconde de Druitt), Alois Trancy, Bardroy "Bard", Beast, Charles Phipps, Ciel Phantomhive, Claude Faustus, Condessa Rachel Durless-Phantomhive, Diedrich, Doll, Earl Charles Grey, Elizabeth Midford, Finnian "Finny", Grell Sutcliff, Joker, Lau, Madame Red (Angelina Dalles), Mey-Rin, Personagens Originais, Príncipe Soma Asman Kadar, Ran-Mao, Ronald Knox, Sebastian Michaelis, Snake, Sr. Tanaka, Undertaker, Vincent Phantomhive, William T. Spears
Tags Dark Falls, Kuroshitsuji
Visualizações 18
Palavras 9.635
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Luta, Mistério, Romance e Novela, Sobrenatural, Steampunk, Suspense, Violência
Avisos: Álcool, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


I want God to come and take me home
'Cause I'm all alone in this crowd
Who are you to me? Who am I suppossed to be?
Not exactly sure anymore (mmm)
Where's this going to? Can I follow through?
I'll just follow you for a while

Does anyone ever get this right?
(...)

Ain't no confusion here, it is as I've feared
The illusion that you feel is real
To be vulnerable is needed most of all
If you intend to truly fall apart

You think the worst of all is far behind
The Vampyre of time and memories has died
I've survived. I speak, I breathe, I'm incomplete
I'm alive, hurray!

You're wrong again (...)

Does anyone ever get this right?

Does anyone ever get this right?

- The Vampyre of Time And Memory (Queens of the Stone Age)

Capítulo 32 - O que o Destino sabe


Fanfic / Fanfiction Dark Falls - Capítulo 32 - O que o Destino sabe

 

Inferno de Samael...

∞ Natasa Forecast

Tudo escuro. Não dá para saber onde se está pisando. Não há luz alguma. É desesperador, caso não tenha controle algum sob si mesmo.

Depois de caminhar por quase uma hora, uma luz vermelha e faiscante aparece em meio à escuridão massacrante. Ando para me aproximar dela. Vejo então uma fogueira enorme e três grandes pedras na vertical em volta da chama. O fogo escreve no ar com brasa a frase: “nigrum sabbati” e desaparece.

- Não vim pela costumeira luxúria. – Aviso.

A chama escreve: “mortem”.

- Não vim por sacrifício algum.

O fogo compõe: “recitatione”.

- Não direi nenhum “pai nosso” invertido.

O fogo redige: “responsum”.

- Sim. Vim por respostas.

Então o lume se intensifica e explode em lava, que transborda por todo o chão. Levito para não ser atingida. De repente o magma se aglomera junto com a escuridão que me ronda e Samael surge.

Encaro os enormes olhos de cabra e seus chifres flamejantes. Miro seus seios expostos e a vértebra minando sangue eternamente no vazio de seu abdómen. As pernas cruzadas de bode o pairam no ar. Suas asas se abrem com dificuldade, como se estivessem enferrujadas e até mesmo teias de aranha e poeira saem delas. Um pentagrama brilha em sua testa e uma voz gutural e cansada possui minha mente.

- Uma Forecast em meu mundo? O que há de mais estranho?

Ajoelho.

- Vim à procura de respostas.

- Por que não questiona meu irmão, seu pai, Belial?

- Apenas vossa excelência é tão boa em responder perguntas que não pude resistir à tentação de vir ao seu encontro.

Inflo seu ego para ter mais confiança em suas terras.

- O que quer saber?

- Há como trazer a Scarlett Bones para sua forma original?

Não o encaro nem mesmo por um milésimo de segundo... seria muita ousadia.

- Sim. Há.

- Como?

- Da forma que sempre fez.

- Mas ela não retornará a ser quem era mesmo com sua forma demoníaca de volta para si.

- Exato.

- Certo. Formularei novamente. Há como fazer a Scarlett Bones voltar a ser quem era?

- Não.

- Mesmo com...

- Mesmo com uma extração de memória.

Cerro os punhos.

- Como...?

- Porque mesmo que ela não se lembre mais dele, ainda algo fará com que ela questione quem era a pessoa que faz ela sentir o que sente.

- Droga... E nenhuma magi...

- Não há magia ou feitiço que possa trazê-la de volta.

- O que podemos fazer?

- Transformá-la.

- Por que eu perderia meu tempo?

- Obviamente para ter a Herdeira como vossa líder.

- Não faz sentido servir uma Aberração como ela.

- É o que sei. Posso vos assegurar que feitiçarias não serão de ajuda. Posso vos assegurar que ela jamais será ela mesma. E posso vos assegurar que o Destino tem grandes planos para ela.

- Tudo se contradiz...

- A resposta está diante de seus olhos brancos.

- Sim. Eu já percebi. Em troca do tempo que o fiz perder, grandíssimo Samael, lhe darei metade do meu sangue.

Ele não diz nada. Seu silêncio deixa óbvia sua aprovação.

Corto meu pulso com minha unha e deixo o sangue cair na tigela feita da metade de um crânio. Quando o sangue transborda o recipiente eu paro.

- Sua ajuda me foi grande. – Faço mesura.

- Que Belial e seus aliados estejam convosco.

Então ouço um estalo. Ao piscar me vejo num campo alaranjado pelo outono e um vento forte, que balança a grama e as árvores incessantemente. O céu está branco, como se Sol e Lua não existissem. Como se azul e nuvens tivessem morrido. Como se fossem apagados com uma borracha do papel branco.

- Destino! Preciso falar com você! – Grito para me sobrepor ao chiado do vendaval.

Então ele aparece como um fantasma sentado em baixo da grande árvore de galhos nus, folheando uma imensa Bíblia Sagrada.

Caminho até ele, tentando prender o cabelo para que não atrapalhem minha visão. Chego diante de si. Ele ainda usa sua máscara de porcelana sem face - que agora tem uma pequena lasca faltando perto do queixo - e seu manto puído acinzentado. Vira seu rosto para mim.

- Preciso lhe fazer umas perguntas.

As folhas da bíblia correm frenéticas até se desprenderem das capas e voarem como um redemoinho no ar. Destino estrala os dedos e o vendaval cessa. As folhas pairam no ar até o chão.

- Sua bíblia está destruída. – Encaro o estado que ela se encontra.

Ele se levanta.

- Assim será.

Suspiro. Tão enigmático quanto Morpheus.

- O que quer saber Natasa Forecast, futura criadora de um sexto clã?

Franzo o cenho.

- Não quero saber dicas sobre meu porvir.

- Contradiz seu próprio sobrenome.

- Isso não vem ao caso.

- Diga logo o que quer.

- Quero uma previsão sobre Scarlett Bones.

- Não faço nada de graça.

- Claro que não... – Resmungo.

- Se não estiver disposta a pagar, então vá embora.

- Você é o Destino. Deve saber se tenho como remunerá-lo ou não.

- Eu também vejo por probabilidades, Forecast. Não vejo o futuro vinte e quatro horas por dia... é cansativo para a mente. É mais fácil ver por opções de acontecimentos.

- Certo. Dê seu preço.

- Pela previsão da Bones...? Quero a cabeça da Rainha da Área 5 quando o momento dela chegar.

Ele saca um relógio velho e rachado de dentro do seu manto. Os ponteiros giram sem parar.

- Será daqui a um minuto.

Ou seja, dentro de um ano...

- Certo. Trarei para você. – Faço um corte em forma de “x” com minha unha no meu peito, simbolizando o juramento.

Destino tira um livro de silhueta transparente de dentro de sua capa e o abre. Parece que está segurando água em formato de calhamaço. Passa as páginas invisíveis e para ao dizer:

- Letra “S” do capítulo da língua inglesa, do fascículo anglo-frísio e saxão. Página 678.

Começa a ler por cima das palavras, aglomerando o contexto de cada frase. Então ele volta sua atenção para mim.

- Quer saber exatamente o que sobre o futuro dela?

- Ela voltará a ser uma Demônio?

- Sim. E governará. – Fita a página novamente.

Franzo o cenho.

- Como isso será possível?

- O que a faz crer que não?

- Seu estado atual está corroendo seu verdadeiro ser. Os sentimentos de humano estão abraçando ela como uma camisa de força. Um Demônio não pode ter sentimentos tão absurdamente fortes e no controle como está havendo com ela.

- Não? Acho que vocês subestimam a Primogênita.

- Não vão mais aceitar a Scarlett, caso ela volte.

- Vão sim. – Ele continua encarando as páginas.

- Tá... E o que devo fazer para trazê-la, então?

- Quando ela chamar por Belial, daqui a alguns centésimos, transforme-a em Demônio e aprecie o espetáculo. É só o que tenho a te dizer.

Centésimos... Então, será daqui a alguns dias.

- Está tão próximo assim?

- Mais do que imagina.

- O que vai acontecer?

- Desculpe. O pagamento só cobre até este ponto. E sugiro que é melhor prosseguir com essa dúvida.

Ele fecha o enorme livro transparente e desperto na minha casa. Estou molhada por suor... Suor frio e imundo. Ergo-me da cama às pressas tirando a roupa ensopada.

- Algol! – Grito.

- O que é? – Ouço sua voz, vindo da sala.

Transmito tudo o que descobri para ele mentalmente.

- Passe isso a todos! Irei avisar Belial.

 

~~.~~

 

Mundo dos Vivos...

- Busto 84, cintura 64, quadril 97... Seu quadril aumentou muito! E sua cintura afinou e o peito diminuiu. Como pode? – Nina fica boquiaberta ao terminar de medir.

- Isso é tão estranho assim?

- Para um humano, sim! Geralmente, quando uma medida aumenta, é geral, e não só numa área. Ainda sim, continua com um corpinho de dar inveja.

Sorrio.

- Agora eu vou tirar sua altura. Da primeira vez você não me deu certeza. Disse que achava ter 1,60. Vou confirmar.

Ela pega a fita e estende ela do pé à minha cabeça.

- Hmmm... Você tem 1,66, não 1,60.

- É mesmo?

- Sim. E o pior é que eu dei vários sapatos de salto oito para você, para te deixar mais alta, achando que tinha 1,60. Bem, isso não vai mais acontecer porque tenho todas as suas medidas agora.

Ela se levanta e vai até a porta da sala que dá para sua loja e a abre.

- Tem certeza que não vai querer nenhum traje, senhor funerário?

- Hihi, absoluta.

- Humpf... Então tá.

Ela fecha a porta.

- Argh... ele é entranho. Sem querer ofender, Srta. Bones.

- Pode me chamar de Scarlett. E não ofendeu... eu também acho ele um completo estranho.

- Me dá calafrios! – Ela se arrepia.

Dou risada.

- No começo eu sentia o mesmo. Só que agora me acostumei, haha!

- Humpf... só a convivência para fazer uma dádiva dessas. – Ela brinca.

Rio mais.

Nina se aproxima e me ronda.

- Hmmm... Por mais que eu queira, não consigo te imaginar usando cores muito claras, nem misturadas com alguma cor escura.

- Eu também não me sinto bem. – Aviso.

- É, pois é. – Suspira. – Vou ter que partir para o velho preto básico.

- E vermelho? – Sugiro.

- Vermelho? Você gosta?

- Sempre gostei.

Recordo dos meus olhos escarlates.

- Posso misturar preto e vermelho... É... Sim... ISSO! FICARÁ BELÍSSIMA NESSAS CORES!

Lá vai ela enlouquecer...

- Aahhh, sim... Um longo vestido cheio de mangas gigot, mais bufantes no ombro que no resto do comprimento! Com abertura no pé da saia e muito enfeite nas anáguas! Muitas camadas de panos para não ter que depender da armação e tirar toda a beleza do vestido! Três camadas de espartilho, é claro! E o vestido terá como pano principal o veludo vermelho-cereja. Como enfeite...

Ela para. Corre para a porta novamente.

- Até quanto disse que está disposto a pagar, senhor funerário?

- Não dei o preço.

- Então se eu utilizar pedras preciosas no vestido dela...

- Aí a senhorita me levará à falência. – Ele gargalha.

Ela fecha a porta.

- Tsc... Vou ter que usar outro tipo de pedra. Outra que não seja cara.

- Tem que ter pedras?

- Obviamente! Você, Scarlett, combina e muito com enfeites desse tipo.

Ela corre até sua prateleira cheia de potes de vidro com vários tipos de adornos.

- SIM! ESSE AQUI FICARÁ PERFEITO!

- Não precisa gritar...

- Não se julga a empolgação de um artista!

Ela corre com um pote em mãos até mim.

- O que acha?

Abro e apanho várias pedras pequenas em formato de gota de um preto profundo e brilhante.

- São do mais puro ônix, mas consegui num bom preço com o vendedor esse pote e ficará lindo adornar o vestido inteiro com eles. O vermelho intenso e aveludado com essas pedras! Ficara sublime!

Ela dispara para sua mesa de desenho e começa a rabiscar.

- Gola reta com as mangas bufantes tamanho três quartos... – Começa a sussurrar para si mesma.

Apanho um roupão de seda marrom que a Nina deixa para quem tirou as medidas usar enquanto estiver na loja. Visto e calço meus sapatos. Saio do escritório dela.

- Srta. Bones. – Undertaker expande o sorriso ao me ver.

- Tive de sair de lá... Ela está enlouquecida pelo poder da arte. – Brinco.

Ele ri.

Sento-me ao seu lado.

- Imagino o lindo vestido que ela deve ter criado para você.

- Vai ser vermelho de veludo e com umas pedras pequenas e pretas.

- Espero que não sejam caras.

- Ela disse que não.

- Fico aliviado, hihihehe!

- E por que não vai fazer uma roupa para você também?

- Eu tenho um terno em casa, não preciso de outro. E só o usarei durante a nossa entrada no salão da primeira classe, depois disso eu trocarei para minhas roupas costumeiras.

- Então esse vestido que ela está fazendo é só para eu usar durante o salão?

- De preferência, sim!

- Ah, que beleza... – Ironizo.

Ele ri.

Se eu tivesse a metade da felicidade diária dele, não estaria aqui, com certeza!

De repente a porta do escritório da Nina se abre e ela surge com a ilustração da minha roupa em mãos.

- TERMINEI! Farei o vestido agora mesmo e pela noite entregarei para vocês. Vou tentar ser o mais rápida possível. Se tivessem vindo antes, eu teria menos preocupação com o prazo de entrega e ficaria mais sossegada. Sorte de vocês que eu terminei minha bateria de entregas ontem. A funerária fica aberta até que horas?

- Até às oito horas da noite, mas eu vou dormir bem tarde, então pode ir entregar depois desse horário, se precisar. – Undertaker diz em tom calmo.

- Perfeito!

Levanto-me e vou para a sala ao lado e já apanho minhas roupas. Tento vesti-las o mais rápido possível, só que essa merda de espartilho é um caralho para por!

- Nina. – Chamo-a.

Ela aparece.

- Sim?

- Ajuda aqui.

- Claro.

Pega os cadarços e puxa de uma vez. Perco o ar momentaneamente.

- Imagino o que você faz quando está na funerária... – Ela pensa alto.

- Aí eu só uso o corpete. – Respondo.

- Bem pensado...

- Teve uma vez só que tive de pedir ajuda para o Undertaker... Foi constrangedor.

Ela suspira.

- Deve ter sido mes...

Ela para e me encara.

- Olha, Scarlett, vocês não são de chamar muita atenção, contudo, desde o dia que saíram juntos para almoçar naquele restaurante alemão, as pessoas do submundo começaram a falar de vocês.

- Falar o que? – Franzo as sobrancelhas.

- Por mais que negue, estão dizendo que o Undertaker se casou com você. E isso não pegou muito bem para ele, afinal, por mais estranho que ele seja, quem é considerada uma “aberração” é você.

Engulo em seco e cerro os punhos.

- Pensei que as pessoas que tinham mentes pequenas eram aquelas que moram em cidades do interior. Pessoas da cidade grande fazendo rumores em pleno século dezenove? É muita falta do que fazer. Estão precisando de emoção essas pessoas. Talvez eu devesse chamar meus parentes para fazerem outra festinha aqui em Londres.

Nina dá um passo para trás, horrorizada.

- Agradeço pelo serviço.

Volto para a loja.

- Vamos embora logo, Undertaker. – Digo.

Ele tira o sorriso bobo do rosto.

- O que houve?

Respiro fundo.

- Nada. Pague quando ela entregar, agora vamos.

Ele me encara e depois olha para a Nina, dá as costas e saímos.

Eu não disse nada durante a viagem e o funerário também não perguntou. Voltamos para casa com as outras compras. Logo quando entramos, Mávros nos recepciona com um miado agudo e esfregando seu corpo nas nossas pernas. Não resisto pegá-lo no colo. Acompanho o funéreo até a sala de autópsia. Desta vez o Undertaker comprou três galões de formol... mais que a quantia costumeira.

Depois de ajuda-lo a guardar tudo o que compramos, ele pergunta:

- O que aconteceu lá na alfaiataria?

- Nada. – Viro a cara.

- Hihi... Por que será que não estou acreditando?

Dou de ombros.

- Não vai me contar mesmo?

- Ela me falou de alguns boatos, só isso.

Podem me chamar de aberração o quanto quiserem, só que não precisam meter o Undertaker nisso. As pessoas são um bando escroto mesmo. A maioria! Nunca tomam conta da vida delas e sempre fazer merda por não saberem de nada. Merecem queimar no inferno!

- Quais boatos? Aqueles de que eu me casei com uma aberração? – Ele expande o riso.

Arregalo os olhos.

- Depois que vim para o submundo meus ouvidos ficaram bem apurados, hihihehehe.

- Não fica irritado com isso?

- Como eu poderia? Não é o pior dos rumores.

- As pessoas não dizem isso com boas intenções, Undertaker.

- Mas eu escolhi, não foi? Se lembra do que eu te disse? Daquela história sobre mim que te contei.

- Sim. Você escolheu e decidiu fazer tudo o que fez. – Abaixo a cabeça.

- Exatamente, hihi. Então eu não me importo com o que dizem. Contanto que eu permaneça livre para fazer minhas decisões...

Sei que, neste momento, meus olhos violeta cintilaram com suas palavras. Subimos para a cozinha e ajudo-o a guardar os mantimentos.

Decido descontrair e sair do assunto dos rumores assunto, então pergunto:

- Há muitas pessoas na Sociedade Aurora?

- Há uma boa quantia sim, e estarão todos lá amanhã, assim espero.

- Está ansioso? – Sorrio.

- Não consigo esconder, não é? Sinto que um acontecimento grande está por vir. E você?

- Fico feliz que esteja entusiasmado. Estou curiosa para ver o que acontecerá.

- Pode apostar, minha cara Scarlett, que presenciará algo jamais visto antes!

- Puxa! Assim eu fico mais curiosa ainda.

- Hihihi! A intenção é essa!

O sino da porta da loja toca. Eu e o Undertaker descemos e nos deparamos com o Ryan e sua exaltação de sempre.

- Funerário! Como está? Tudo pronto para amanhã?

- Hihi, sim, tudo já está arrumado.

- Será um grande dia!

- Assim esperamos.

Repentinamente ele puxa o Undertaker de lado e ouço-o dizer:

- E aí? Falou com ela? – Aponta para mim.

- Estou ouvindo, Sr. Stoker. Nem adianta. – Cruzo os braços.

Ele ajeita seu jaleco e limpa a garganta.

- Perdão não ter cumprimentado a senhorita ainda. – Ele faz mesura.

- Tanto faz. – Dou de ombros.

Undertaker volta para perto de mim.

- Já conversei com ela, Ryan. – Responde.

- Ora, ora. Então bem-vinda à Sociedade Aurora... FÊNIX!

Do nada ele ergue os braços e fica numa perna só. Dou um pulo para trás.

Humanos loucos!

Undertaker cai na gargalhada.

- Como sempre suas gargalhadas condizentes com o momento... – Ironizo, ainda assustada.

- É nosso cumprimento e senha na organização. – Explica o médico.

- Eu vou ter que ser uma imbecil como vocês dois amanhã? – Franzo o cenho.

- Hahaha, não seja rude. Tem todo um motivo e significado para fazermos esse cumprimento excêntrico, porém, tão estonteante.

- Quanto exagero... – Rolo os olhos.

Undertaker retorna já recomposto.

- Vai ser uma graça te ver fazendo o cumprimento no dia da reunião, hahahaha!

- Foi para isso que me arrastou para essa Sociedade Aurora? Para me ver passar vergonha? – Tiro uma com eles.

- Claro que não! Foi para você saber tudo sobre mim, não se lembra? – Undertaker rebate.

- Tsc... Isso é jogo baixo.

- Hihehehahaha! Com certeza é!

Sorrio.

- Você não presta, Undertaker.

- Tem certeza que vocês dois não são um casal? – Ryan abre um sorriso enorme.

Fecho a cara.

- Absoluta.

- Respondeu rápido, Srta. Bones. Agora fiquei magoado, hihihehe!

- N... Não leve por esse lado... – Viro o rosto.

Eles riem.

- Argh! Não dá para dialogar com vocês!

Saio da loja e volto para cima, deixando os dois imbecis para trás.

Vou direto para o meu quarto e tranco a porta. No mesmo segundo, chamas amarelas incendeiam vários pontos do meu quarto. Suspiro.

- Aahhh... Não... Vocês de novo! – Reclamo em voz alta.

Ouço a gargalhada estridente da Callidora.

- SURPRESAAA! HAHAHA!

Sento-me na cama, só observando eles aparecendo. Desta vez, vieram todos...

- Puta que pariu! Vocês são uns porres! – Reclamo de novo.

- Para uma humana, você continua com o pavio bem curto. – Hannibal tira uma com a minha cara.

- E você continua imbecil, mesmo depois de todos os xingos que já levou de mim. Será que dá para irem embora?

- Mas já? Acabamos de chegar, haha!

- É, a gente queria te ver, sabe? Confirmar os boatos e tudo o mais. – Callidora senta do meu lado.

- Vai sentar para lá. – Empurro-a.

- Aff!

- Ei, Lett. – Skull me chama.

Encaro-o de cara fechada.

- Algol tem algo para dizer à você, não é? – Asmodeu empurra o irmão da Natasa para mais perto de mim.

- Eu não tenho nada para falar.

Meu irmão pega o loirinho pela gola.

- Ah, você tem! E vai falar tudo o que disse a nós para a Scarlett, seu merda!

- Fala logo, Algol. Tenho mais o que fazer do que ficar olhando para a cara da Bones. – Caim cruza os braços.

- Muito obrigada, Damn! Também é muito bom rever você, meu caro noivo! Estava louca para me reencontrar contigo. – Digo com sarcasmo para provoca-lo.

Ele vira a cara.

- Tsc... Tá, mas a Nassy vai ter que falar também, afinal, foi ela quem procurou as respostas. Eu fui só o mensageiro.

- Tirando o cu da reta, Algol? Relaxa, a Lett não pode fazer nada. É só uma humana. – Hannibal me evolve em seu braço e cheira meu cabelo. – Mas continua uma delícia...

Fecho o punho e soco sua cara. Minha mão dói, só que o fato de bater nele já é um analgésico...

- VADIA!

- Vá se foder, Hannibal! Você é um nojento, sem escrúpulos de merda! Eu sempre tive náuseas de você! Não encosta em mim.

Asmodeu e Calli gargalham.

- Apanhou de uma humana, haha!

- É a minha irmã, seu otário. Acho que a única coisa que ela não perdeu foi o ódio por você, haha!

- Eu vou acabar com você! ABERRAÇÃO! – Hanni grita.

Dou um passo para trás e engulo em seco.

Até eles estão me chamando assim...?

- Você sente nojo de mim, Lett? Pode imaginar então o que estou sentindo agora só de por os olhos na pessoa que eu tinha que me rebaixar transformada numa merda de mortal!

Todos silenciam.

- Ei... Maneira aí, Damn. – Lilith cruza os braços.

- MANEIRAR?! Está louca Mirk? Falou a garota que nunca gostou dela! – Aponta para mim.

- E nem por isso eu rebaixava ela porque sabia meu lugar, diferente de você, Hannibal. Sempre foi um idiota que a gente suporta nem sei por qual motivo.

Ele cospe no chão e vira a cara.

- Vocês não são muito melhores que eu.

- Nós fazemos por onde. – Lucifuges rebate.

Os Trigêmeos cochicham entre si. O Damn vai para a janela e senta nela.

- Sem mais delongas, Algol. Introduza de uma vez. – Manda a Natasa.

- É o seguinte, Bones... Vou falar uma vez só, tá legal? A minha irmã foi ordenada a te espionar, porque Belial pressentiu algo estranho em você. Concluímos algo que não gostamos muito, então a Nassy foi atrás de respostas. Primeiro se rebaixou à Samael e depois para o Destino e por fim, ficou sabendo um pouco sobre seu futuro.

- Eu não posso falar nada sobre o que acontecerá com você, Scarlett, porque eu fiz um acordo com o Destino, mas o que eu soube foi esclarecedor e muito interessante. É até animador para quem ficará apenas observando o que ocorrerá com você. Todavia, estamos aqui para te avisar uma coisa.

- Fala logo. – Sento de novo.

- Você nunca mais poderá voltar a ser quem era.

Meu coração aperta e sinto uma tontura súbita.

- C... Como assim? Seja mais clara!

- Você está já há muito tempo nessa forma mortal e isso afetou muito seu verdadeiro “eu”. Quando chegar a hora de voltar. Quando o castigo acabar, não ache que voltará a ser aquela Scarlett autoconfiante, egocêntrica, inabalável, implacável e mais. Essa pessoa morreu...

Meus olhos lacrimejam contra minha vontade e começo a tremer.

- Diz para mim que é só uma piada imbecil de vocês... – Abaixo a cabeça.

- Não é. – Vladmir cruza os braços e me encara de cabeça erguida.

As lágrimas rolam umas atrás das outras.

- Aí... que merda ela virou. – Hannibal balança a cabeça negativamente.

- Uma pena... – Asmodeu concorda.

- Pode ser a Beherit, né gente... – Callidora diz.

Todos encaram minha irmã mais nova. Tiss encara os outros de volta e encolhe os ombros.

- Não sou eu... Eu juro...

- Demônios não fazem promessas... – Calli põe as mãos na cintura.

- Se ela fosse uma. – Caim encara a caçula de soslaio.

Todos riem dela. Beherit ajoelha-se e começa a chorar.

Limpo minhas lágrimas com as costas da mão.

- Então... – Puxo ar. – que boa razão eu tenho para voltar?

Todos se viram para mim.

- Pelo visto entendeu, Lett... – Hannibal continua com seu tom desprezível.

- Não sei qual motivo você vai encontrar para si mesma, Bones, mas você vai. É só disso que sei. – Natasa esclarece.

- Você parece ter se dado bem aqui no Mundo dos Vivos. – Lucifuges se aproxima.

- Ou isso, ou o sanatório... – Respondo.

Ele ri.

- Ah, gente... vamos lá. Reformulando essa pergunta bosta do Luci pra uma mais legal! Diz aí o que você acha daquele funerário babaca, Lett! – Callidora se joga na minha cama.

- Eu não sou obrigada a responder.

- Ah, isso é verdade. Só que não se esqueça que a Nassy sabe de tudo e a qualquer momento ela pode contar tudo pra gente. Então você decide se vai contar agora ou deixar a Forecast fazer o serviço.

- Preferiria muito te cortar ao meio... mas é uma pena que eu esteja nesse estado.

- Não força, Scarlett.

- Olha, vão embora. Eu preciso descansar para amanhã. Vou sair cedo com o Undertaker, então caiam fora.

- Pff... Vai pra onde? – Callidora, curiosa como sempre.

- Te interessa?

- Perguntei primeiro, haha!

- Vai ficar sem a resposta.

- Ela vai para “A Reta Final”. – Diz Natasa.

Todos entendem.

- Ah, então já é amanhã? Tem razão! Tem mesmo que descansar, Lett. Muitas emoções estão por vir, haha! – Callidora se levanta.

Ergo as sobrancelhas.

- Deram um nome para o meu “acontecimento definitivo”?

- Pois é. A gente estava sem nada pra fazer, então decidimos dar um nome. – Hanni responde.

- Um nome bem bosta. – Asmodeu ri.

- Mas é um nome, porra! Não começa a querer foder, Skull! Tá bom assim!

Quando menos percebo, eles começaram a sumir, indo embora aos poucos. Isso me deixou vazia por alguns segundos. Novamente sozinha e sem saber o que fazer. Depois do que me contaram... não estou com muita certeza sobre o que decidir. Eu pensei que já tinha determinado o que ia fazer comigo mesma, só que estou transbordando dúvidas... Não sei mais se ficar com o Undertaker seja o correto. Talvez seja melhor eu começar a treinar meu adeus...

Dou um pulo na cama quando ouço bater na porta.

- Scarlett? – O funerário me chama.

- Pode entrar.

Ele abre a porta e se introduz.

- Ouvi um estardalhaço vindo daqui...

- Meus irmãos estavam aqui. Acabaram de ir.

- Está tudo bem? – Ele encara as queimaduras no chão e parede que eles deixaram por causa dos portais.

- Está sim. Vieram me aporrinhar, como o de costume. E o Ryan?

- Já foi embora. – Senta-se comigo na cama. – Está pálida. O que foi? Eles disseram algo para você?

Abaixo o olhar e penso no que posso contar. Será que devo lhe dizer tudo? Ou invento alguma desculpa?

Ele acaricia meu cabelo e sinto as lágrimas nascendo novamente.

- Scarlett.

- E-Eles vieram me avisar...

- Sim?

Talvez... seja melhor contar...

- Que eu nunca mais vou poder voltar a ser quem eu era. Não me explicaram bem o motivo, só que disseram o suficiente para eu entender... Eu não sou idiota! Eu saquei na hora! – As lágrimas escorrem como numa cachoeira.

Ele tira o sorriso do rosto. Fica sério de um jeito que pensei ter esquecido. Sério do mesmo jeito que ficou quando a Megera nos atacou.

- E qual é o motivo?

- Já estou nesta forma tem muito tempo. Deixar que os sentimentos humanos me domassem foi a pior das escolhas que eu fiz...

- Não creio que seja algo que se controle.

- É, mas sei que os humanos lidam melhor com emoções, já que estão com elas desde que nascem. Eu nunca poderia saber, e agora a merda das minhas esperanças foram sugadas de mim.

Estou tremendo e com a respiração muito acelerada. Não consigo parar de chorar.

- Scarlett, se acalma.

- Está difícil! Eu queria muito voltar a ser a... a Primogênita e Herdeira do Inferno! Contudo, o que me restou despois desse castigo divino?! Eu não tenho mais nada! Nenhum motivo para continuar com essa merda toda! Eu estou cansada!

- Então largue tudo.

Arregalo os olhos para ele.

- Largue esse objetivo de ser a sucessora do trono e continue vivendo aqui comigo. Não está sendo bom para você ficar aqui?

Consinto com a cabeça.

- Está. Eu não tenho o que reclamar... só que é um saco ser humana... sem querer ofender. Quando se era poderosa, venerada e desejada. Quando se podia fazer qualquer coisa que beijavam seus pés. Quando se podia não ter preocupação alguma, porque a morte nunca viria... aquilo sim era bom... Agora eu tenho que me conter, me contentar, me preocupar e o pior... não ser autossuficiente. Eu dependo tanto de você, Undertaker. Tanto! Eu não precisava me preocupar com isso antigamente. Essas mordomias eu queria de volta, sabe? Que mal tem?

- Há certas coisas que devem ser deixadas para trás. Ainda mais quando não se há outros caminhos a tomar. O que falta é aceitar. Quanto antes fizer isso, melhor se sentirá.

Encaro seu rosto. Como eu queria ver seus olhos. Sempre sinto que algo está faltando toda vez que o fito... Deve ser porque realmente está, huhu.

Ergo minha palma para seu rosto e rodo meu polegar na sua bochecha.

- Você está me devendo. – Digo.

Ele abre um sorriso sem jeito.

- Estou?

- Seus olhos.

Seu riso evapora e ele recua levemente.

- Por que nunca os mostra? O que você esconde?

Ele permanece quieto. Parece procurar por uma resposta. Até que diz:

- Meus olhos foram uma das coisas que tive de deixar para trás. Vê-los no espelho me frustrava. Era como se o passado estivesse sempre comigo e não era isso que eu queria. Eu precisava ser outra pessoa, lembra? E eles não cooperavam.

- O que os olhos não veem o coração não sente, né?

Ele sorri de novo. Sempre me alivio.

- Sim. Exatamente isso.

- Poderia, pelo menos, me dizer de que cores são?

Mal sabe ele que sei que são verdes. Mas naquela noite, estava tão escuro, e não consegui ver com os detalhes que gostaria.

- Como é curiosa.

- Diga algo sobre mim que eu não saiba.

- Hihihahaha! Acho que vou te deixar com sua curiosidade.

Ele se levanta e vai até a porta.

- Ainda os terei. – Ameaço, brincando com ele.

- Ora, Scarlett. Meus olhos, desde que se puseram em você, tornaram-se somente seu.

Meu coração dispara e minhas bochechas flamejam.

- Boa noite. – Ele se vai.

Fecha a porta antes de partir.

 

~~.~~

 

Inferno de Belial...

∞ Callidora Damn

- Viram a cara dela? Puta merda, estava parecendo um bebezinho, hahaha! – Hannibal grita seus risos.

- Cala a boca. Tá aí tirando sarro só porque ela nunca te deu bola. No final das contas, foi deprimente ver ela daquele jeito. – Skull cruza os braços em cima da bancada.

- Tsc... Vou sentir falta dela. A gente teve nossos momentos de diversão. Como naquela vez que eu e ela fomos convidadas para um Black Sabbath junto com Samael. Foi épico! Virou competição, sabe? Tipo, que fodia melhor e tal. – Recordo.

- Ou quando eu tive que escolher com quem eu daria o meu primeiro beijo, e, para minha sorte, ela estava lá. – Asmodeu entra no jogo.

- No meu caso, foi mais para as vezes que eu apanhei dela... – Hanni vira a taça de vinho com frustração.

- Mas não pode se esquecer das vezes que competíamos para ver quem conseguiria transar com ela no Dies concupiscentiæ. – Skull recorda-o.

- Só isso também...

Lilith Mirk aparece do meu lado na bancada e prepara uma bebida.

- Vai ser complicado. Ela quem segurava a onda de todo mundo. Quando começavam a ter ideias mais idiotas, a Scarlett já chegava e dava uma surra em todo mundo. – Mirk nos relembra.

- Era só pra mostrar que era ela a fodidona... – Hannibal rebate.

- Só que de um jeito ou de outro a gente tinha que segurar a onda.

- Vou sentir falta de quando ela nos acompanhava em batalhas. – Vlad comenta.

- Ela tinha golpes admiráveis. – Caim vira a cerveja garganta baixo.

- O legal é que ela se divertia pra caralho, haha! – Asmodeu entra no assunto deles.

- No final, pra ser bem sincero, a Nassy vai acabar pegando o lugar dela. – Luci diz em tom sério.

Todos o encaramos ao mesmo tempo.

- Pensem bem. Nassy é os olhos de Belial. Ela tem um papel mais importante para nosso Pai que qualquer um de nós. Ela é a mais forte de nós também. Acho válido ela ser escalada para ser nossa líder.

- Vai um caralho, isso sim! – Hannibal reclama.

- Porra, nada tá bom pra você, Damn! Quando era a Primogênita, era um saco. Se for minha irmã, também não tá legal. Vai se foder! – Algol se irrita.

- Eita! É treta?! Vai que vai... Só não destruam o meu bar, haha!

- Eu senti algo bem diferente na minha irmã quando estávamos lá... – Beherit sussurra.

- Ah, jura? Não me diga... – Seguro o riso com esse comentário imbecil.

- N... Não desistam dela. Ela ainda não acabou... – Tiss rebate.

Todos a encaram.

- O que quer dizer com isso, Beherit? – Skull franze as sobrancelhas.

- Quero dizer que havia duas coisas muito poderosas nela sofrendo contrastes. De um lado: sua obscuridade. De outro: seus sentimentos. O lado demoníaco dela não desapareceu. Ainda está lá.

Então, nos surpreendemos com um riso inesperado da Natasa – coisa que ela nunca faz.

- Isso é deveras interessante. Destino acertou em cheio... como sempre...

 

~~.~~

 

Mundo dos Vivos...

Dia seguinte...

- Vamos! Mais rápido com isso! Cuidado com as bagagens!

Ryan não parou de gritar com os serviçais desde que chagamos. Aliás, chegamos sete horas antes para ajudar a abastecer o navio com toda a carga da Sociedade Aurora. Para ser sincera, eu mesma só estou olhando todo mundo se matando, huhu... Até o Undertaker está lá.

Ele disse que já haviam posto as principais bagagens na embarcação ontem e hoje seria apenas o mais leve... Fico imaginando o que deve ter sido o pesado.

- Cuidado com esse equipamento! Custou uma fortuna! – Stoker e seu jeitinho despreocupado...

- Uaaau! Esse é o novo navio! – Um moleque baixinho para ao meu lado.

Quanto menos gosto de crianças, mais elas aparecem para mim... Merda.

- Não é grande, moça? – Pergunta para mim.

- Tsc... – Viro a cara.

- Está tudo bem moça?

- Estaria melhor se não estivesse aqui me enchendo o saco.

Ele dá um passo para trás.

- A-Ah... D-Desculpa, moça. Mas eu só estava...

- Cai fora antes que eu ganhe de presente seu uma dor de cabeça.

Sai correndo.

- Hihi...

Viro ao ouvir a risada estranha do Undertaker.

- Acordou de mau humor, Scarlett?

- E você com amnésia? Já disse que não gosto de crianças. Essas pestes ainda teimam em vir falar comigo!

Ele cai na gargalhada.

- Para de ser escandaloso.

Ele se recompõe... ou tenta.

- Abra um sorriso, Scarlett. Hoje será um dia estupendo!

Não consigo conter abrir um riso ao vê-lo assim.

- Sei que vão negar, mas há alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?

- Não se preocupe. Já estamos terminando. Porém, tem um favor que pode fazer para mim, Srta. Bones.

- O que quer Undertaker? – Cruzo os braços.

Ele pega umas moedas e me entrega.

- Compre uns doces para mim, sim?

- Ah, sério?

- Preciso de açúcar para trabalhar. Pode comprar pra você também. – Ele me entrega mais moedas.

- Não acredito nisso...

- Vai logo.

- Tsc...

Reviro os olhos e caminho em direção a cidade. Andando pelas ruas movimentadas do centro encaro a primeira loja de doces e entro sem saber qual era. Me surpreendo ao ver as embalagens listradas em preto e branco com a silhueta de um gato com uma coroa na embalagem...

- Puta merda. Tinha que ser a Funtom?

- Seja bem-vinda, madame! – Uma jovem com sorriso forçado me recepciona.

Passo por ela e encaro as vitrines com várias caixas de doces. Encaro o preço e com a quantia que o Undertaker me deu dá para comprar os bombons, ou os pirulitos...

- As caixas de chocolate estão com desconto hoje. De 20 pence, para 10 pence.

Conto as moedas. 10 pence certinho. Entrego o dinheiro na mão dela e pego a caixa.

- Tchau.

Ao me virar para sair esbarro com tudo num rapaz e cambaleio para o chão. Os chocolates voaram para todos os lados.

- Caramba! Me desculpe! Desculpe mesmo!

Conto até vinte e encaro... seus olhos verdes amarelados... N-Não pode ser...!

Ele pega na minha mão e me ajuda a levantar.

- Sinto muito pelos bombons. Eu compro outro.

A atendente começa a limpar a sujeira e ele me paga outra caixa.

- Aqui. Me desculpe mesmo. Eu sou um atrapalhado, haha.

Pego os bombons da mão dele e puxo-o para mais perto. Digo em seu ouvido:

- O que um Ceifeiro está fazendo aqui a esta hora?

Ele estremece e me puxa para fora da loja.

- Como sabe que sou um Ceifeiro?!

- Eu sou a Demônio que está de castigo como uma mortal. Sei bem reconhecer vocês. Seus olhos são bem anormais.

- V-Você é a Bones?! E olha só quem fala, seus olhos são bem diferentes também.

Suspiro.

- Olha, finge que não me viu, tudo bem? Já te compensei com os bombons, então...

- Te deixo em paz se me responder o motivo de estar aqui. Por lazer que não é.

- Como tem tanta certeza?

- Vocês não têm tempo para ficar gastando ele à toa.

- Bem espertinha.

- Sou mesmo.

- Tá, eu vim aqui a serviço.

- Ah, jura? Nem cogitei isso... – Ironizo e reviro os olhos.

- Não espere que eu vá lhe contar o motivo!

- Eu quero saber. O que eu poderia fazer, ahn? Sou só uma mortal.

- Você subestima os humanos. Eles adoram fazer tempestade em copo d’água.

- É verdade. Mas eu não.

- Não tenho garantias disso.

- A gente vai mesmo ficar nessa lengalenga? Conta logo.

Ele suspira.

- Sabe do navio que vai zarpar?

- Campania?

- É. Então, tenho trabalho lá.

- Mortes em grande proporção?

- Por que se preocupa?

- Porque eu vou embarcar hoje. Quero saber se meu nome está na lista.

Ele pega sua agenda e verifica.

- Olha, ao menos na minha lista o seu nome não está.

Dou de ombros.

- Então que se foda. Morram quantos puder, contanto que eu não vá junto. Afinal, tem humano demais já neste mundo... se morrer uns mil não fará diferença.

- Quanta frieza.

- Só porque já foi um mortal? Problema seu se é sentimental.

- Aparentemente, ter se tornado humana não mudou muito seu jeitinho.

- Por incrível que pareça mudou, só que, às vezes, sei quando usar as merdas dos sentimentos, e não é qualquer um que tem o privilégio de ver meu lado mais doce.

Ele entorta a cara.

- Bem, a gente se vê lá no navio, então... – Despeço-me.

- Vai estar na segunda classe por acaso?

- Ah, não. Estarei na primeira. Que pena... não nos encontraremos então, huhu. – Digo com sarcasmo e saio com os chocolates em mãos.

Volto para o cais e vou até o Undertaker, que está sentado segurando seu casaco desproporcional.

- É raro te ver sem o sobretudo.

Ele alarga o sorriso.

- A senhorita demorou. Já estava cogitando ir atrás.

- Esbarrei com um conhecido... literalmente. No final, ele teve que pagar por outra caixa de bombons nova para mim.

Entrego os doces para ele, que se extasia ao por um na boca.

- Eu o conheço? – Diz de boca cheia.

- Creio que não.

- Ah, é um dos seus amiguinhos.

- Não é um amigo, é um conhecido. Um Ceifeiro para ser mais exata. Eles não fedem nem cheiram.

Ele não diz nada sobre.

- Chocolates da Funtom? Como conseguiu comprar com apenas 10 pence?

- Promoção.

Ele consente e pega mais um e põe inteiro na boca. Seguro o riso.

- Posso pegar também? – Provoco.

Ele vira-se para mim, engole e começa a rir.

- Desculpa. Pode pegar.

- Huhu.

Provo um em formato de coração. No meio o recheio é licor de morango. Degusto o contraste de sabores.

- Humpf... Aquele moleque é uma praga mesmo. – Digo, brincando.

Undertaker ri.

- Tem um bom tempo que não provo um bombom desses. – Ele comenta.

- Fica gastando o dinheiro com formol e não gasta com coisa boa de verdade. – Provoco.

Pego mais um, sabor chocolate com menta. Faço uma careta.

- O de morango é melhor...

Ele ri da minha cara.

- Obrigado pelo apoio na situação crítica que me encontro.

- Não cospe fora que é pecado! – Tira uma com a minha cara.

- Hahaha, muito engraçadinho.

Engulo o chocolate de uma vez.

- Praga. Lembrete para mim. O que tem formato de estrela é ruim para um caralho!

- Em compensação esse de avelã tá uma delícia.

- Vá esfregar sua sorte para outra pessoa.

Ele volta a rir.

Huhu... ele está mesmo bem humorado!

 

***

 

Dez minutos antes do embarque...

- Aquele ali não é o Pirralho Phantomhive? – Tento ver no meio da multidão.

Undertaker ergue o rosto.

- É ele mesmo, hihihehe.

- Tsc... Tenho certeza que ele vai estar na primeira classe também...

O funerário não diz nada, então o encaro e está fitando-me de forma compenetrada.

- O que foi?

- Está linda nesse vestido, Srta. Bones.

Sei que minhas bochechas estão rubras, porque está queimando feito brasa! Devem estar da cor da minha roupa!

Sinceramente, estou pasma de saber que ele fica tão bem de terno. Está tão... bonito quanto eu...

- Você também ficou muito bem de terno, Undertaker... – Abaixo o olhar e sorrio.

Ele pega na minha mão e laça seu braço no meu.

- Está nervoso?

- Ansioso, eu diria.

- Huhu... Tenta aproveitar.

- Digo o mesmo para você, Scarlett.

- Farei o possível.

- Obrigado. – Sorri para mim.

- A escada foi abaixada! Viajantes, embarcar! – Anuncia um homem de azul.

As pessoas gritam e aplaudem. Olho para os lados e todos se despedem de alguém em meio a sorrisos e lágrimas contentes.

- Funerário e Srta. Bones. Vamos embarcar agora antes dos outros. Seremos os primeiros. – Ryan nos puxa.

Undertaker segura minha mão com força e atravessamos a multidão apressados, trombando e empurrando várias pessoas.

- Era para termos entrado antes, só que não quiseram liberar para nós. Tirarei satisfação com o capitão mais tarde. – Stoker reclama.

Andamos pela rampa e subimos até o deck da primeira classe.

- Vamos entrar já. Não precisamos ficar aqui fora. Não se esqueçam de que o sinal é um garçom passar com uma bandeja com taças vazias. Agora vou até o capitão deste navio. Aproveitem a festa.

Ele se despede.

- Vamos entrar, sim? – O Undertaker me puxa para dentro.

- Quem vê, pensa que não gosta de chamar atenção. – Brinco.

- Hihi, você também não gosta.

- Fico desconfortável.

- Imagina então como me sinto, hehe.

Entramos num imenso salão dourado e luxuoso. Os garçons passam frenéticos terminando de aprontar as mesas e a de aperitivos.

- Vamos encontrar nossos quartos, tudo bem? Ou quer andar mais um pouco?

- Não precisa. Vamos para os quartos mesmo.

Passamos por vários corredores até chegarmos na ala das suítes da primeira classe. Ao encontrar nosso número, 720, entramos. Um amplo aposento em tons de areia e vermelho, bem decorado, com móveis de ponta e...

- Quem foi que reservou nosso quarto, Undertaker?

- O... - Ele limpa a garganta. - O Sr. Stoker...

- Filho da puta...

Encaramos juntos a cama de casal.

- Por Belial... – Digo com desgosto.

- Pode ficar com a cama. Eu durmo na poltrona.

- Não se preocupe. Eu fico com a poltrona. Não sei nem se vou conseguir dormir. Do jeito que esse navio balança... – Invento uma desculpa.

Undertaker tira o casaco do seu terno e joga em cima de um banquinho estofado. Fecho a porta do quarto e acompanho-o.

- Eu já estou acostumado em dormir em lugares desconfortáveis, Scarlett. Pode ficar com a cama.

- Eu faço questão, Undertaker. Eu não me importo. Já dormi muito tempo no chão, se lembra? Que é bem mais desconfortável que uma poltrona. Não tenho problema algum.

- Hihi, eu insisto... – Ele ri.

Cansei! Vou acabar com essa chatice!

- Ah, quer saber? Que se dane. Não estou a fim de estragar nossos dias aqui por causa disso. Já dormimos juntos, por mais acidental que tenha sido. Acho que dividir a cama com você não seja a pior coisa que já me aconteceu. – Cruzo os braços.

- Não sei se fico lisonjeado ou desgostoso, hihi.

Seguro o riso.

- Mas quando eu vir o Ryan... Nossa, eu mato ele.

- Agora estou me sentindo um lixo. Com a entonação que está dando, parece até que ficarmos no mesmo quarto seja a tal da pior coisa que já te aconteceu... – Ele brinca.

- Haha, claro que não. Mas está na cara que foi uma brincadeirinha de mau gosto dele.

Ouço baterem na porta.

- Vocês dois estão aí?

- É o Ryan. Infeliz... vou acabar com ele. – Estralo os dedos.

Undertaker ri.

Stoker abre a porta.

- E então, gostaram do quarto? – Ele segura o riso.

- Bem filho da puta você.

- M-Meu Senhor! A-Acalme-se madame. E eu exijo mais respeito!

Dou risada.

- Quem vê, pensa que é um anjinho. Recatado do lar...

Undertaker gargalha de cair no chão.

- Eu devo saber mais palavrões do que você sabe sobre medicina, que creio eu, seja muita coisa!

- S-Sinto muito por esse infortúnio que lhes causei.

Sento na cama.

- Relaxa, Ryan. Eu supero isso. Porém, que eu estou com vontade de te esfaquear, eu estou!

- Por Deus, achei que era tão doce.

- Deus bem sabe que “doce” é algo que eu nunca fui e vou ser.

- Língua afiada, hein, Srta. Bones. – Undertaker diz, ainda jogado no chão.

- É um efeito colateral de ter passado mais ou menos 500 anos com um bando de Demônios.

Ele ri.

- 500?! – Ryan gagueja.

- 545 para ser mais exata.

Ele entreabre os lábios e franze as sobrancelhas. De repente apanha um bloquinho de notas de seu jaleco e um lápis. Atira-se para me lado todo eufórico.

- Poderia me dizer como é ser imortal, Srta. Bones...? Se não for ofensivo ou incômodo, claro!

- É muito bom. Não me preocupava com coisas banais.

- Exemplo. – Ele vai anotando tudo com uma atenção inexplicável.

- Eu não tinha que me preocupar em pegar uma panela quente sem proteção alguma para as mãos, porque eu não me queimava. Eu não tinha que tomar cuidado ao manusear algo afiado. Não me preocupava com lugares altos. Sequer tinha medo de ser agredida por alguém.

- Compreendo. E, hipoteticamente...

- Ih... Lá vem! – Undertaker aparece do meu lado.

Stoker limpa a garganta.

- Quero... Quero saber se há como um mortal se tornar imortal.

Ergo uma sobrancelha.

- Para sua sorte há três maneiras.

Ele arregala os olhos e abre um sorriso extasiado.

- Poderia me contar?!

Suspiro.

- Por que não? Nunca os alcançará mesmo.

Ryan recua.

- O primeiro e mais fácil para um humano conseguir isso é torcer para conhecer um Demônio e que este se afeiçoe por você.

- Afeição?

- É uma maldição que caiu há séculos nos Demônios filhos de Belial. Um fardo frustrante que repudiamos, contudo, ocorre com todos, uma hora ou outra, e é simplesmente incontrolável.

- E o que acontece com um humano quando um Demônio se afeiçoa por ele?

- Se casam.

Ele arregala os olhos.

- Não gostamos de fazer essa comparação, só que o sentimento mais próximo do que é nossa afeição é o amor que seres como vocês sentem. A diferença é que, como toda maldição, é bem mais doentio.

- Como doentio?

- Não dá para escapar e nos sentimos como drogados com abstinência. Não é uma visão tão linda como quando se pensa no amor ou paixão.

- Foi tão convicta ao falar sobre o casamento.

- É porque nem um, nem outro vai conseguir fugir disso. O Demônio se afeiçoa a uma pessoa e mesmo que essa venha a morrer, ele continuará afeiçoado a ela, incapaz de se afeiçoar a outra pessoa novamente. A pessoa, por outro lado, não é presa a isso, só que, não sei por qual motivo, o humano acaba se rendendo ao Demônio, mesmo descobrindo sua verdadeira face. Mesmo cercado por pessoas mais interessantes. Nunca entendi esse lado, mas é o que acontece.

- Interessante. – Volta a anotar.

- Então, quando se casam, o humano tem que fazer um contrato. Uma espécie de pacto. Na cerimônia é feita a troca de presentes, mas não é algo palpável. Ocorre a troca de poderes. Nesta o humano recebe dons demoníacos e vem a se tornar um. Portanto, torna-se imortal.

- Inacreditável! – Escreve isso em seu caderninho.

Fico encarando-o. Como pode ser tão obcecado?

- Tudo isso que disse é verdade? – Undertaker sussurra em meu ouvido.

- É sim.

- Por que está contando essas coisas para ele?

- Não tem problema ele saber. Nunca conseguirá nada disso.

- Hihi, eu não teria tanta certeza. Não sabe o quanto obstinado ele é!

- Pode confiar em mim, Undertaker. Não contaria segredos meus se a situação já tivesse sido calculada.

- Confio em você, Scarlett. Só estou alertando-a.

Consinto com a cabeça.

- Certo. E quais são as outras duas? – Ryan retoma empolgado como de costume.

- Fazendo um pacto com um dos Três Lordes ou com a Soberana Thana. Claro, tem que oferecer algo de mesma proporção para conseguir algo deles. – Respondo.

- Quem são os “Três Lordes”?

- Já leu a bíblia Sr. Stoker?

- Certamente.

- Quem é o mal relatado?

- Lúcifer.

- Errado! Que tal uma aula de teologia, ahn?

Ele senta-se.

- Existem três Infernos, Sr. Stoker. O primeiro a surgir foi o Inferno de Dantalion. Vocês o conhecem como um dos juízes do inferno, mas não. Ele foi o primeiro filho de Deus. Um Anjo. Na bíblia está escrito que quem foi o primeiro filho foi Lúcifer. Está errado. Lúcifer foi o segundo a ser criado, muito tempo depois do nascimento de Dantalion. Enfim, se quiser saber mais sobre a história do meu tio, procure pela bíblia dele que está em Israel.

- Israel? Mas é um lugar sagrado.

- Ele caiu lá e sofreu muito. Tinha a opção de prosseguir no Mundo dos Vivos e se tornar um Anjo Caído, ou criar seu próprio reino, que foi o que fez.

- Entendi.

- Os outros dois Infernos surgiram logo quando mais dois Seres Divinos nasceram, bem depois do Inferno de Dantalion. Primeiro Belial e depois Samael. Belial, meu pai, nasceu do acúmulo e materialização da maldade humana. Samael nasceu para dar propósito à luxúria das pessoas e feitiçaria negra. Por fim, a Soberana Thana. Ela é a Deusa da Morte. Representa a neutralidade entre os Mundos. Provavelmente, fazer a barganha com ela para conseguir a imortalidade seja bem mais fácil e recomendável que com meu pai e meus tios.

Ele anota tudo com a maior concentração possível.

- E o terceiro modo?

- Esse é o mais difícil, em minha opinião. Está longe de ser feita graças a um pacto, ou por intermédio de um Demônio. Para se tornar imortal é necessário se... – Faço suspense para provocar ele.

- Sim...?

- Suicidar.

Franze o cenho no mesmo segundo.

- Quando um humano se suicida, Thana fica muito irritada, e como castigo ela transforma essa pessoa em seu servo... um Ceifeiro. Terá de passar o resto da eternidade coletando as almas das pessoas sem descanso algum. Não vale a pena, sabe? Não poderá aproveitar sua imortalidade tendo de trabalhar vinte e quatro horas por dia incessantemente.

Exagero alguns fatos para não encorajá-lo. Thana não precisa de mais subordinados. A Matriz Messorem não precisa de mais aprendizes.

Ele anota tudo, e logo quando termina, encara seu relógio de pulso e dá um pulo da poltrona.

- Meu Deus! Estou atrasado!

- Humpf... Então corre, coelho. – Brinco.

Ele ri. Despede-se e vai embora.

- Então Ceifeiros são suicidas? – Undertaker retoma.

Viro-me para ele no mesmo segundo. Sorrio.

- Sim. São.

- Eles devem servir a tal Thana pelo resto da eternidade deles?

- É. Eles vivem para ceifarem. E vivem por ela. Ao menos, é o que eu presenciei.

- Sei. – Diminui seu sorriso.

Não tem como não estranhar isso. Estou tão acostumada em vê-lo alargar seu riso, e não ao contrário!

Por algum motivo, lembro-me de algo sobre os Ceifeiros...

- Undertaker. – Sento-me ao seu lado.

Ele volta sua atenção para mim.

- Sim?

- Você me fez lembrar de uma vez, quando mais nova, em que a Thana apareceu lá em casa muito furiosa para falar com Belial. Algo sobre um traidor. Um de seus Ceifeiros que a abandonou. Creio eu que tenha sido o único que teve coragem, audácia, determinação e força para fazer algo do gênero. O único em toda a existência dos ceifadores. Lembro que foi um escândalo e ele ficou conhecido como um renegado e desertor.

- E o que aconteceu com ele? – Undertaker mostra-se curioso.

- Ninguém sabe. Uns dizem que ele desapareceu nas entranhas do Tártaro. Outros dizem que ele foi para o Mundo dos Vivos e tentou ser um humano.

- Interessante. E qual era o nome dele?

- Ele, se não me engano, foi o único que Thana modificou o nome. Todos os outros Ceifeiros ficam com as suas mesmas identidades de quando vivos, mas ele não... Thana roubou seu nome e lhe deu outro.

Tento recordar. Sei que começa com “An”... Anou... Antou... Angou... Ankou...

- Ela o chamava de Ankou, O Protetor da Morte.

- Já o viu alguma vez? – O funerário pergunta, meio divagando.

- Nunca tive a honra. Se, na época, eu fosse mais velha, como agora, teria ido atrás dele e teria apresentado o Inferno de Dantalion. Os renegados costumam ir para lá.

Ao me virar para o funerário ele está cabisbaixo e sem sorriso algum.

- Undertaker?

Vira-se num susto para mim.

- Está tudo bem? – Dou uma pausa. – Eu disse alguma coisa?

Abre um sorriso e acaricia minha bochecha.

- De forma, Scarlett. Só fiquei pensativo com essa história.

Encaro sua cicatriz. Eu nunca me perguntei sobre, ao menos, não com tanta frequência. Sempre fico curiosa para com seus olhos ocultos, mas... ela corta seu rosto de uma ponta a outra e ainda sobe para o olho. Será que é por isso que ele esconde com a franja? Será cego em um dos lados? O que aconteceu com ele?

- Undertaker. – Chamo-o de novo.

- Sim?

- O que houve com você...? – Aponto para a cesura.

Ameaço tocar, porém, ele segura minha mão.

- Há certas coisas que eu gostaria de esquecer, como já disse... Ou, ao menos, fingir que esqueci, porque com algo assim em meu rosto, fica impossível.

Sinto a dor em sua voz. Meus olhos lacrimejam sem minha intensão.

- Você entende...?

Meu coração aperta.

- Entende Scarlett?

Solto minha mão.

- Desculpa. Não devia ter perguntado. Eu... Humpf... Estava óbvio que eu não devia ter perguntado.

Ele não diz nada, contudo, continua me encarando. Ergo-me.

- Eu vou tomar um banho...

Undertaker ameaça dizer algo. Acaba desistindo.

- Desculpe. – Digo.

Vou para o banheiro.

 

***

 

Dia seguinte...

Pela noite...

Entro exausta no quarto. Não aguentava mais fingir interesse nos assuntos daqueles bandos de metidos. Riquinhos de merda. Nem para terem assuntos mais interessantes. Tudo era sobre linhagem de família, negócios no exterior, e bla bla bla... Suspiro alto e em bom tom.

Voltei primeiro para o nosso aposento para me trocar antes do Undertaker vir. Caminho até a janela e abro a cortina. O céu preto estrelado, refletindo cada pontinho branco na imensa água azul escuro. Nada mais. É até solitário.

Afasto-me e apanho meu pijama. Retiro o vestido vermelho adornado por ônix e penduro no cabide. Puxo um bom fôlego ao soltar o espartilho e o jogo longe. Não aguentava mais! Ponho o leve vestido de seda rosê que ganhei da Nina.

Despenco na cama macia. Estico o corpo e me espreguiço. Estava precisando disso!

O Undertaker bebeu bastante... Espero que ele não esteja bêbado, porque, senão, as coisas vão ficar muito irritantes...

A porta se abre. É ele. Tranca o adito e afrouxa a gravata. Joga sua cartola longe e tira o casaco.

- Cansado? – Sento na cama.

- Hihi, já não aguentava mais.

- Que coincidência. – Sorrio.

Ele devolve o sorriso.

- Vou me trocar. Tem certeza que não quer que eu durma na poltrona?

- Não vai ser bom você acordar com um torcicolo, justo amanhã! E foi tudo bem esta noite passada, então, não vejo motivos para te expulsar para a poltrona, huhu.

Ele segura o riso. Pega seu pijama e vai para o banheiro.

Estou esgotada! Puxo o cobertor e viro para o lado da janela. O quarto inteiro não consegue ficar em total negritude com a lua cheia iluminando esta noite no Navio Campania.

Meus olhos pesam.

Pergunto-me, o que vai acontecer...?

 

Continuo...

 


Notas Finais


Espero que tenham gostado! Acompanhem esta "Reta Final" ;-)


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