História De Maior - Capítulo 1


Escrita por: ~

Postado
Categorias EXO
Visualizações 25
Palavras 1.681
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Droubble, Ficção, Universo Alternativo
Avisos: Álcool, Drogas, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 1 - Coisa


Minseok não tinha nem 10 anos completos quando perdeu o medo de morrer. Tinha inveja daquelas crianças ricas, estudantes de escolas particulares e com pais que podiam bancar 3 refeições ao dia, tinha inveja dessas crianças que tinham medo de morrer.

Quando nasceu, sua mãe o odiou. Na verdade, sua mãe o odiava desde antes de saber que estava grávida, e Minseok não entendia esse ódio todo até o dia que ouviu que tinha sido fruto de um estupro. Já era mais uma parcela de culpa que carregava em suas costas, mesmo que na época fosse uma criança de não menos que 5 anos.

Seus irmãos também não o amavam, porque era uma boca a mais para comer da comida que já faltava, o marido de sua mãe o via como um bom alvo para quando chegava bêbado em casa e queria descontar a raiva em alguém. Quando tinha 7 anos, precisou faltar mais de 1 mês na escola porque tinha levado uma surra que deixara marcas, e sua mãe o proibiu de ir à escola para não ter que lidar com o conselho tutelar.

Mas tudo isso era passado, porque hoje, aos 14 anos, Kim Minseok tem que andar armado e já não conta os tiros que dá. Hoje, Kim Minseok não tem medo de morrer, porque ele sabe que é só mais um que a sociedade não liga, sabe que é mais um cuja vida não vale nada.

A lembrança vaga de quando sua mãe tentou enterrá-lo vivo já está no fundo de sua mente, porque agora vive um dia de cada vez, afinal, há mais chances de estar morto no dia seguinte do que vivo. Fazer parte da facção lhe rende dinheiro, ele paga as contas da casa e coloca comida na mesa, mas anda armado pronto para dar tiro, pronto para levar tiro.

Está com uma grana no bolso, andando para casa naquele caminho esburacado, se encontra nos becos estreitos e sujos, sua mãe o espera com um cigarro nos lábios e uma garrafa de cachaça pela metade. Está bêbada novamente. Seu padrasto dorme no chão, caiu ali mesmo. Sua irmã está trabalhando vendendo o corpo, e sua mãe ainda o olha com ódio e nojo.

Ódio e nojo foram as únicas demonstrações de “afeto” que recebera da mãe em toda a sua vida.

Tem alguns livros espalhados no chão da casa, mas ele não lê porque não vai à escola desde os 8 anos, precisava trabalhar para não morrer de fome, porque sua mãe tinha comprado sapatos para o filho mais velho e não tinha dinheiro para sustentar a casa caindo aos pedaços. E que trabalho aceita criança e paga bem além do tráfico?

Dá o dinheiro para a mãe, uma parte de si espera que, dessa vez, ela lhe dê pelo menos um sorriso. Qual foi a última vez que sua mãe sorriu? Alguma vez ela o abraçou? Se sim, ele não lembra.

Ela fica calada, toma a grana de sua mão e dá mais um gole na bebida. Minseok sai de casa, sentindo-se vazio novamente e, como sempre fez, preenche o vazio transando com mulheres que sequer sabem o rosto, mulheres e garotas que vivem na merda como ele, que vêm de famílias fodidas como ele.

Afinal, quem vai amar Minseok?

 

 

Sua arma está empunhada, a polícia está invadindo e dando tiros antes de perguntar. Ele também dá tiros, alguns são precisos, outros nem tanto. Nem pensa mais que perdeu o medo da morte, passa pelo corpo à sua frente, sangrando por causa do buraco de tiro, como se passasse pelo piso. Nessa hora, nem pensa como tem inveja daquelas crianças de comercial de margarina, porque elas não precisam dar tiros nem fazer parte de algo que não consegue sair.

Quando a polícia vai embora, ele tem um tiro de raspão no braço, mas não tem problema, ele joga uma bebida em cima e faz um curativo improvisado. Ele faz sozinho, porque sua mãe não está em casa e, mesmo que estivesse, não o ajudaria.

Já em casa, fica trancado no quarto – se é que aquilo pode ser chamado de quarto – e resolve assistir televisão, uma que comprou com o dinheiro de uma entrega bem-sucedida. Passa a propaganda de um tênis que já tinha visto antes, e tem vontade de comprar, mas sabe que não tem grana para isso.

É interessante como Minseok tem os desejos típicos de um adolescente de 14 anos, mas a sociedade o vê como um ser que não pode ter vontades, é como se fosse uma espécie diferente dos adolescentes de classe média. Os adolescentes riquinhos podem sair em grupo nos shoppings, mas Minseok e os amigos não, porque mal entram no estabelecimento e meia dúzia de seguranças aparecem para segui-los. Minseok não pode ter desejo de ter um tênis caro, porque é algo tão fora do seu alcance que as pessoas não o permitem desejar.

Para o resto da sociedade, Minseok não é uma pessoa, é uma coisa. Ninguém tem coragem de admitir, mas é assim que a sociedade o vê e a seus iguais.

 

 

Minseok fez 15 anos numa unidade de socioeducação. Foi para lá porque roubou o tênis de um adolescente rico, cujo pai era um cara influente e a polícia o encontrou com facilidade. A polícia não se importou quando o espancou para leva-lo à delegacia, também não se importou em dizer que ele tinha apanhado dentro de casa.

Lá dentro não era nada do que diziam, era um espaço pequeno pra mais gente do que deveria, era como jogar um monte de adolescente – lá só tinha adolescentes, Minseok percebeu – numa sala pequena e deixar eles sobreviverem de qualquer jeito. De qualquer forma, o resto da sociedade não se importava. Nunca se importou.

Passou 3 anos naquele lugar, fez um curso de marcenaria. Minseok achou legal, queria largar o tráfico quando saísse, queria se mudar e fazer as coisas de marcenaria. Às vezes, deitava na cama dura, fedendo a mofo de tal forma que era difícil respirar, e sonhava.

Sonhava em ir para uma casa que fosse amado, sonhava em não passar fome, sonhava em não ter que matar para ter comida em casa, sonhava em não viver naquela violência fodida.

Sonhava várias vezes, e em todas ele acordava na cama dura, geralmente com tapas na cara ou de outras formas que ninguém deveria ser acordado. Todos os dias, ele acordava para ir à escola que não tinha professores, acordava para andar pelo chão sujo que chocaria qualquer um daqueles adolescentes de classe média.

Pelo menos ali tinha comida. Era uma merda, mas tinha mais comida do que em casa.

 

Quando Minseok saiu, faltava 1 mês para completar 18 anos. Sua mãe não foi lhe buscar, nem seu padrasto e muito menos seus irmãos. Não era nenhuma novidade, mesmo que lá no fundo, bem lá no fundo, ele tivesse esperanças de que alguém fosse lembrar.

No dia em que saiu, foi pensando em como não tinha para onde ir além de voltar para casa. Foi pensando nas coisas que fez no curso de marcenaria e queria viver daquilo. Foi pensando em tanta coisa, um monte de besteira que não se concretizou porque não adianta esperar resultados diferentes quando nada muda.

Em casa, ainda não tinha comida na mesa, não tinha amor de mãe, não tinha porra nenhuma. E, mais ainda, não tinha liberdade, porque a violência o puxava tipo uma correnteza que não adianta nadar contra, pois nunca te deixa escapar.

Minseok não pôde fazer nada quando foi chamado de volta e recebido com uma arma posta em suas mãos. Também não pôde fazer nada porque, ou ele voltava, ou ele morria. E, apesar de não ter medo da morte, tinha aquela pontinha lá no fundo que desejava viver. Viver na esperança vaga de que um dia as coisas melhorassem.

E veja bem, Minseok tentava, mas ouvia por aí que ele estava no crime de novo porque queria. Não se esforçou o suficiente para ganhar a vida de um jeito honesto. Às vezes, ele sentia raiva quando via falarem isso em noticiários, porque ele sabia o quanto tentou e o quanto sonhou que as coisas fossem diferentes, mas, nas outras vezes, ele não podia pensar na raiva porque sentia fome.

Não só fome de comida, é fome de coisa que não tem como falar. É fome de amor, é fome de compreensão, fome de paz, fome de viver. Ninguém entendia, mas ninguém nunca entendeu mesmo, então que diferença faz?

 

Com 21 anos, foi preso de novo.

Dessa vez, não foi mais para aquilo de socioeducação, porque disseram que ele já era de maior e não ia mais para lá. Dessa vez, ninguém se esforçou para esconder seus machucadas, afinal ele não é mais de menor.

Na cadeia, ninguém o mandou para escola, ninguém o deixou trabalhar – e não foi por falta de tentativa, mas diziam que não tinha vagas e o que ele podia fazer?.

Lá dentro é pior. Ele não tem o que fazer durante o dia, e na noite os pesadelos o dominam. O crime lá é organizado, se sente em casa, mas não de um jeito bom. Estar em casa nunca foi bom.

Pensa que Deus o odeia, porque o colocou naquele mundo para ser um nada, para estar sempre nesse infinito igual de miséria e violência, sem que pudesse escapar. Depois, entra novamente na aceitação, porque aquela é a realidade que conhece.

Ouve depois que as pessoas queriam que ele fosse para a cadeia desde antes, porque ele é perigoso, ele tinha consciência do que fazia desde que era adolescente. Minseok pensa se tudo aquilo foi sua culpa, se deixou de se esforçar em algum momento, mas ninguém pensa como é difícil ser uma pérola no meio do lamaçal.

Para os outros, Minseok era de maior desde que nascera, era um adulto desde a infância, era uma coisa (e não um ser) já carregada de malícia e violência. Enquanto isso, aqueles jovens que não têm medo de morrer e possuem tênis caros são de menor mesmo quando já são de maior.

 


Notas Finais


Quem quiser bater uns papo sobre tudo isso, só vamo.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...