História De Mãos Dadas - Capítulo 4


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Categorias Saint Seiya
Personagens Hyoga de Cisne, Ikki de Fênix, Saori Kido (Athena), Seiya de Pégaso, Shiryu de Dragão (Shiryu de Libra), Shun de Andrômeda, Shunrei
Tags Lenda Do Santuário, Los, Romance, Saori, Seiya, Shiryu, Shunrei, Spoiler
Exibições 124
Palavras 4.840
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Nudez, Sexo, Spoilers
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 4 - Capítulo IV


Os personagens de Saint Seiya pertencem ao tio Kurumada. Eu não ganho um centavo com minhas fics, mas me divirto pra caramba!

AVISO: Spoilers do filme “A Lenda do Santuário”.

 

DE MÃOS DADAS

Chiisana Hana

 

Capítulo IV

Shunrei acordou quando a tímida luz do sol de outono invadiu o quarto através da porta de vidro que dava para a varanda. Ainda na cama, espreguiçou-se gostosamente, lembrando-se da noite anterior. Usava somente a camisa do pijama de Shiryu, que ainda dormia tranquilamente, os cabelos longos esparramando-se pelo lençol. Olhando-o amorosamente, pensou que tinha de prolongar ao máximo a alegria de estar com ele. Logo a semana de férias no Japão acabaria e ela voltaria sozinha para Rozan. Procurou não pensar mais nisso e levantou-se da cama. Teve vontade de descer até a cozinha e preparar um bom café da manhã para servi-lo no quarto, mas refreou-se pois não queria parecer uma visita enxerida. Aproveitou para tomar um bom banho e quando saiu, Shiryu já estava acordando.

– Bom dia, dorminhoco – ela cumprimentou alegremente, aproximando-se da cama e beijando-o na testa.

– Bom dia – ele respondeu com um sorriso terno. – Acho que dormi demais.

– Não é tão tarde... pouco mais de nove horas... E você devia estar realmente cansado.

– É, eu estava... Também vou tomar um banho e aí a gente desce pra tomar o café, certo?

Ela concordou e, enquanto ele se banhava, terminou de se arrumar, penteou os longos cabelos negros e fez um rabo de cavalo alto.

– A essa hora só deve faltar a gente – ele falou quando desciam para o café. – Geralmente acordamos a tempo de tomar café com a Saori. Ela sai cedo por causa da escola. Esse problema no Santuário aconteceu bem no começo do segundo período escolar e ela acabou perdendo algumas aulas.

– Não consigo imaginar como ela vai dar conta de tudo... escola, empresas, e agora o Santuário.

– Pelo que entendi, as empresas ficam a cargo de um conselho administrativo. Por enquanto, ela só é comunicada das decisões e dá o aval, com a ajuda do senhor Tatsumi. O mesmo deverá ser aplicado no Santuário. O senhor Mu agora é o Mestre e cabe a ele administrar o quotidiano do Santuário. Ela terá de ir com alguma frequência agora no início, pois o Santuário foi bastante prejudicado na batalha e muitas pessoas ficaram feridas, mas quando tudo estiver em ordem ela não precisará dedicar tanto tempo.

– Mesmo assim é uma responsabilidade muito grande para uma garota tão jovem.

– Com certeza, mas ela está cercada de pessoas para ajudá-la e protegê-la.

 

Depois do café, Shiryu levou Shunrei para um passeio pela cidade. Ele usava uma calça jeans clara, uma camisa preta e a jaqueta militar que comprara antes. A chapa da armadura e os óculos escuros de estilo aviador complementavam o visual. Shunrei também usava um jeans claro, com uma blusa de seda branca e um casaquinho rosa por cima.

O casal caminhou um pouco por um parque, conversando e eventualmente trocando um carinho discreto, até que o tempo começou a ficar ruim demais para permanecerem ao ar livre. Decidiram ir para um shopping onde aproveitaram para almoçar.

– O aniversário do Shun é daqui a dois dias – disse Shiryu, enquanto comiam. – Estamos pensando em fazer uma festinha como a que fizemos para a Saori. Só um bolinho para não passar em branco.

– Acho uma ótima ideia. Eu gostei dele de graça, sabe? Não só dele, dos outros também, mas sei lá, sinto que ele é uma pessoa muito boa.

– Ele é – concordou Shiryu. – Uma pessoa boa até demais para essa vida de cavaleiro.

– O que quer dizer?

– Que ele pode ter dificuldades no futuro por ser bondoso e não gostar de lutar... Mas vamos deixar isso pra lá. Não quero ficar muito preocupado com o futuro.

– Eu posso fazer o bolo do aniversário – ela sugeriu empolgada, deixando de lado as questões de cavaleiros. – Você sabe que meus bolos são muito bons!

– Tudo que você faz é muito bom!

– Isso me lembra que não estarei aqui no seu aniversário...

– Ainda falta um mês... Talvez eu consiga ir pra Rozan no dia.

– Seria maravilhoso se você conseguisse. Podia até levar o pessoal, o que acha? Eles iam gostar de conhecer Rozan.

– Um final de semana de folga na China... – disse ele, pensativo. Imaginou que seria divertido levar todo mundo pra lá, mas também pensou em como seria hospedar alguém como Saori, uma garota milionária e reencarnação da deusa, na casinha humilde onde morava com Shunrei e o mestre. – Vamos elaborar isso e ver se eles aceitam.

– Já vou começar a pensar nas coisas! – empolgou-se Shunrei. – Se der certo, quero estar preparada!

Depois do almoço, os dois passearam pelas lojas. Shunrei olhava tudo encantada. A grande oferta de produtos enchia-lhe os olhos, mas precisava pensar bem para escolher o que comprar com suas parcas economias.

– Você quer alguma coisa? – Shiryu perguntou, ao vê-la olhando as vitrines de uma loja de departamentos.

– Na verdade, eu queria umas coisas, sim... – ela respondeu com os olhinhos mais pidões que ele já tinha visto na vida.

– Umas coisas? – ele perguntou já rindo, enfatizando o “umas”. – Ok, vamos lá. Desde que não seja um carro ou coisa de preço parecido, posso dar.

Shunrei não pôde evitar um gritinho de empolgação e agarrou o braço de Shiryu, arrastando-o para dentro da loja. Depois de rodarem pelas seções, ela escolheu um pijama novo para o mestre, "porque ele estava precisando muito, muito mesmo", um estojinho de costura para levar para dona Mei-Ling, "em agradecimento por ela ter ficado com o mestre para que eu pudesse vir pra cá" e dois conjuntos de lençol "porque já passou da hora de trocar os que temos".

– Não vai querer nada pra você mesma? – ele perguntou rindo, antes de irem para o caixa. Era típico de Shunrei pensar mais nos outros que em si mesma.

– Ah, não precisa – ela disse, não muito convincente. – Já ganhei a joia e os vestidos.

– Vamos, Rei, aproveite. Não teremos muitas oportunidades como essa.

– Já que você insiste... – ela disse. Acabou comprando um batom rosa claro, um perfume, algumas roupas e uma sapatilha.

– Parece que eu não devia ter incentivado – ele disse, em tom de brincadeira, quando finalmente se dirigiram ao caixa.

– Exagerei, né? Vou tirar umas coisas.

– Não, estou brincando. Fico feliz por proporcionar isso a você. Aliás, acho que devíamos comprar mais uma coisa... Agora que vamos ficar separados uma parte do tempo, vou comprar uns smartphones legais. Vai facilitar para nos falarmos pela internet. O que acha?

– Acho excelente!  

– Depois das compras dos últimos dias, vou passar um bom tempo sem entrar em lojas... – ele disse e então foram escolher os telefones. Escolheram modelos iguais, exceto pela cor, que Shiryu escolheu cinza e Shunrei, rosa.

Quando finalmente terminaram as compras, os dois tomaram um táxi e voltaram para a mansão Kido, onde só se ouvia o barulho da obra na parte destruída pelo ataque de Aiolia. Nesse pouco tempo de convivência, Shiryu já conhecia os hábitos da maioria dos moradores. Saori devia ter acabado de chegar da escola e provavelmente estava no escritório, estudando ou resolvendo coisas das empresas com Tatsumi. Shun certamente estava lendo no quarto e Seiya devia estar dormindo. Somente Hyoga ainda era um mistério para ele.

O casal deixou as compras no quarto e desceu para o jardim de inverno, onde ficaram namorando um pouco, até serem interrompidos pela chegada do russo no meio de um beijo.

– Desculpa, não queria atrapalhar – disse o rapaz loiro, envergonhado pela interrupção. – Não sabia que estavam em casa. É que eu gosto de ficar um pouco aqui, pensando, lendo e nunca vem ninguém... Desculpa mesmo, gente.

– Tudo bem, Hyoga – Shiryu disse, também envergonhado. – Senta aí.

– Não, imagina... Não quero atrapalhar – ele disse, mas o casal insistiu e ele acabou cedendo.

– Eu estava mesmo me perguntando o que você fazia nas horas vagas – disse Shiryu. – Os outros eu meio que já consigo prever, mas você é um mistério.

Hyoga sorriu. Gostava quando lhe falavam disso que, na verdade, era um disfarce para sua timidez.

– Eu fico aqui ou corro pelo jardim, pensando na vida, no que aconteceu no Santuário, essas coisas...

– Já que falou no Santuário – falou Shiryu –, fico feliz que Saori tenha conseguido salvar o seu mestre(1).

– Eu também. Ia ser duro demais carregar essa culpa, ainda que eu só tenha feito o que fiz pela deusa...

– Não consigo imaginar o que você sentiu... Nem sei o que sentiria se tivesse que levantar o punho contra o meu mestre.

– E ele é bem velho, não é?

– Sim, ele é muito velho. É um homem incrível, por quem tenho muita admiração.

– Parece que, no final das contas, tivemos muita sorte com nossos mestres.

– Tivemos, sim...

 

Dez anos atrás.

Shiryu, China.

O garoto de sete anos ouviu o anúncio com certa indiferença. Não importava para onde ia, o que contava é que treinaria para se tornar um homem forte. Há dois meses tinha sido selecionado pessoalmente pelo senhor Mitsumasa Kido para ingressar em um “programa especial” de sua Fundação que enviaria crianças para serem treinadas em artes marciais e “outras habilidades especiais” pelos próximos dez anos. Quem completasse o treinamento, faria parte de um grupo de soldados de elite que cumpriria uma missão “especial” de proteger alguém importante. A palavra “especial” aparecia tantas vezes nas informações sobre o programa que ele pensou que se conseguisse terminar deixaria de ser só mais um menino largado num orfanato para se tornar alguém “especial”.

Conheceu as outras crianças selecionadas para o programa, cerca de duas dezenas, quando chegou à casa de transição onde todos receberam as primeiras informações e os primeiros treinamentos físicos. Dentre todos, aproximou-se mais de quatro: os dois irmãos Amamiya, o menino russo que se chamava Hyoga e Seiya. Formaram um grupo unido, dividiram o mesmo quarto, mas agora estavam prestes a se separarem. Depois do sorteio dos locais de treinamento, seguiriam imediatamente para o aeroporto e só se reencontrariam quando acabasse o treinamento. Se acabassem.

– Seiya, Grécia – anunciaram no microfone. O pequeno Seiya só sabia que o país ficava muito longe e torceu para que fosse recebido por um mestre legal. Partiria feliz, queria muito realizar esse treinamento e voltar. Só lamentava ter de se separar de seus amigos.

– Hyoga, Sibéria – continuou o locutor. O garoto pensou que era uma sorte voltar ao seu país. Tinha vindo para o Japão dois anos antes, quando sua mãe pretendia levá-lo para conhecer o pai, o que nunca chegou a acontecer. O navio que os levava naufragou, arrastando sua mãe para o fundo do mar. Resgatado, o menino foi levado para um orfanato em Tóquio enquanto procuravam seu pai, mas ele não foi encontrado e Hyoga viveu lá até ser selecionado pelo senhor Kido.

– Shun, Ilha da Rainha da Morte.

– Que azar... – murmuraram para ele. – É o pior lugar de treinamento.

O garotinho não compreendia direito o que significava aquilo. Só sabia que se separaria do irmão e dos amigos, o que o entristecia.

– Ele não vai para esse lugar! – gritou o irmão mais velho em tom agressivo. – Eu vou no lugar dele!

– Ikki, não... – murmurou Shun fracamente.

– Não pode trocar assim, garoto! – esbravejou Tatsumi, o fiel mordomo do senhor Kido, que coordenava o sorteio. – Você deve ir para o lugar sorteado.

– Eu vou no lugar dele e pronto! – Ikki continuou a gritar. – Que diferença faz pra vocês se vamos para um ou outro lugar? O importante não é concluir o treinamento? Pois então eu vou para essa ilha ao invés do meu irmão. Agora sorteiem o lugar dele!

– Está bem – disse o senhor Kido, que até agora acompanhava tudo sem intervir. – Se é o que você quer, então você irá para a Ilha da Rainha da Morte. Agora sorteiem outro lugar para o garotinho.

– Shun... – começou o locutor, pegando uma das fichas. – Ilha de Andrômeda.

Ikki suspirou aliviado. Pelo que tinha ouvido falar, não era um lugar tão ruim. Talvez Shun conseguisse sobreviver, talvez conseguisse voltar... Queria ir com ele, queria protegê-lo de tudo como fazia desde que tinham ficado órfãos, mas não podia... Só lhe restava torcer para que se reencontrassem.

O sorteio continuou até que todos os garotos tiveram seus locais definidos. Depois, seguiram em fila para o ônibus que os levaria para o aeroporto.

– A gente ainda vai se ver – Seiya disse aos amigos, abraçando-os. – Tenho certeza. Vamos voltar pra cá depois do treinamento e aí não vamos nos separar nunca mais.

– Nunca mais... – repetiu Shun baixinho, com os olhos marejados, pensando se, na verdade, eles não se veriam nunca mais. Estava prestes a se separar do irmão e dos melhores amigos, para ir a um lugar longe e desconhecido, conviver com pessoas estranhas, treinar habilidades que ele não sabia se conseguiria desenvolver, sem saber se sobreviveria para voltar.

– Você tem que ser forte, Shun – Ikki disse ao irmão, segurando o rostinho dele.

– Eu sei... – respondeu o menino, em tom choroso.

– Seja forte! – reforçou Ikki.

– Vamos terminar o treinamento – continuou Seiya. – É uma promessa.

– A gente ainda vai se ver – Shiryu disse.

– Vamos cumprir a promessa! – disse Hyoga, e os cinco entraram no ônibus junto com os outros garotos, preparados para seguirem seus destinos.

 

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– E você ainda teve um bônus – disse Hyoga, referindo-se a Shunrei. Shiryu olhou-a ternamente e assentiu com um gesto.

Na verdade, nós dois tivemos muita sorte – Shunrei disse. Qualquer garoto podia ter sido enviado para lá, mas o universo quis que fosse exatamente o Shiryu. Se ele tivesse ido para outro lugar, nunca teríamos nos conhecido.

Acho que estava escrito ele disse. Aconteceria de qualquer jeito, ainda que eu tivesse sido enviado, sei lá, para a Grécia, o destino faria com que nos encontrássemos em algum ponto de nossas vidas. Talvez demorasse, mas o resultado seria sempre o mesmo. O que está escrito, está escrito. Eu te amaria de qualquer jeito.

Shiryu era sempre muito reservado, especialmente quando estavam na presença de outras pessoas, por isso Shunrei surpreendeu-se ao saber que ele pensava assim e mais ainda por ele falar na presença de Hyoga.

Eu também te amaria de qualquer jeito, Shiryu – ela disse, sorrindo. – Mas que bom que nos encontramos logo, não é?

Sim. O destino colaborou.

Seiya passou por eles carregando uma caixa grande e algumas sacolas de compras.

– Ué? Vocês não estão fazendo nada? – ele perguntou. – Estão só de bobeira aí?

– Pois é – respondeu Hyoga, feliz por Seiya ter chegado porque novamente estava sentindo que atrapalhava o casal.

– Então vamos ali comigo?

– Ali aonde, Seiya? – Shiryu perguntou.

– Estou indo visitar o orfanato onde morei antes de ser selecionado pelo senhor Kido. Quero rever a Mino. Lembram que eu falei dela? Ela morou lá na mesma época que eu e agora trabalha cuidando das crianças. Até comprei um presente e uns lanches pra levar.

– Quer ir, Shunrei? – Shiryu perguntou, ao que ela respondeu afirmativamente.

– Bom, então eu vou também – disse Hyoga. – E acho que devíamos ver se Shun e Saori querem ir.

Os outros concordaram e Seiya largou as coisas que carregava para ir falar com Saori. Na verdade, ele já tinha pensado em convidá-la e desistiu porque achou que ela estaria ocupada demais para isso. Mas com o incentivo dos amigos resolveu tentar. Encontrou-a no escritório.

– Saori... desculpa incomodar...

– Oi, Seiya – ela cumprimentou alegremente. – Entra. Não está incomodando.

Ela tentava estudar um pouco, mas estava dispersa. Com tanta coisa acontecendo nos últimos dias, o pensamento facilmente viajava por outras direções.

– Eu tô indo visitar uma amiga no orfanato Filho das Estrelas. O pessoal vai comigo, então pensei em ver se você quer ir conosco. Não tem problema se não quiser, mas seria legal. Eu vou levar um lanche para as crianças, vai ser divertido. Sei lá, vai ser um passeio diferente. Mas tudo bem se você estiver ocupada e...

– Eu quero – ela respondeu, rindo. Seiya quase sempre se enrolava quando tinha que falar com ela. E, bom, ela gostava disso.

Como Shun também aceitou ir, precisaram resolver como, já que não caberia todo mundo em um carro só.

– Shiryu vai na minha moto com a Shunrei – sugeriu Hyoga – e o resto vai de carro com o Tatsumi.

– Mas eu não tenho habilitação – argumentou Shiryu.

– E daí? – perguntou Seiya. – Você vai atrás de um carro dos Kido, ninguém vai parar.

– Não está certo. Não vou fazer isso de jeito nenhum.  

– Ai, você é um caso sério de “cabeça-durite crônica”... – resmungou Seiya.

– Não adianta, eu não vou pilotar sem habilitação. Ainda mais com a Shunrei na garupa. Não vai rolar.

– Tá, então eu vou de moto com o Hyoga – disse Shun, resolvendo a questão e já colocando o capacete. – Vocês vão no carro. 

– Assim está bem – disse Shiryu, abrindo a porta do veículo para as moças.

 

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– O que é isso? – Mino perguntou a Eiri, a outra funcionária do orfanato, quando viu um Bentley e uma moto estacionarem em frente ao orfanato.

– Eu não faço ideia – ela respondeu, olhando com curiosidade.

– Ah, é o Seiya! – Mino disse, reconhecendo-o assim que ele desceu do carro. Não tinha mudado nada, conservava a mesma cara infantil e os mesmos cabelos revoltos.

Desde a infância, Mino sentia um amor inocente por ele, que alimentou durante os dez anos de treinamento. Quando ele ligou dizendo que estava de volta e ia visitá-la, seu coração quase tinha saído pela boca. Tinha esperança de que ele viesse revê-la quando voltasse, mas agora que a hora finalmente chegou ela estava a ponto de ter um ataque cardíaco.

– Então é ele...? – Eiri perguntou. – Tenta não babar, Mino...

– Para, Eiri. Eu estou tentando. Juro.

– Não parece – murmurou a outra moça enquanto Seiya tirava uma caixa do porta-malas do carro.

Mino não tirava os olhos dele, enquanto Eiri encarava os dois rapazes que desciam da moto e o outro que desceu do carro acompanhado de duas garotas. Ela começou a descrever o que via:

– Um carinha de anjo de cabelo verde, um loiro com cara de artista de cinema, cheio de brincos e anéis, um cabeludo de jaqueta militar e duas mocinhas inocentes. Esse Seiya faz parte de uma banda pop?

– Ai, Eiri, não me faz rir numa hora dessas. Estou tentando parecer calma.

– É o que parece!

– E aí, Mino? – cumprimentou Seiya, reconhecendo-a. Ela também não tinha mudado quase nada. Os mesmos olhos grandes e expressivos, o mesmo sorriso largo e doce. Mino mantinha os cabelos na altura dos ombros e costumava amarrá-los por ser mais prático, mas hoje resolveu deixá-los soltos, rezando para permanecessem comportados. Na infância, costumava domar o volume fazendo marias-chiquinhas. Também passou um pouco de maquiagem e retirou o avental que costumava usar diariamente. A mudança não tinha passado despercebida pelas crianças e ela foi obrigada a falar que se arrumou porque teriam visita.

– Seiya... – ela disse, alargando ainda mais o sorriso. – É muito bom revê-lo!

– Você tá igualzinha! – ele disse, abraçando-a despreocupadamente.

– Você também – ela respondeu, envergonhada pelo inesperado abraço. Pensou que os dez anos no ocidente deixaram-no com esse hábito de sair abraçando as pessoas.

– Eu vim com a galera! – ele completou, apontando para os amigos que se aproximavam trazendo as sacolas, e apresentou-os um por um, começando por Saori.

– Senhorita Kido – cumprimentou Mino respeitosamente. O avô dela era um dos benfeitores do orfanato, o maior deles, já que era a vultosa doação mensal que mantinha a engrenagem funcionando. Quando ele faleceu, a neta continuou cumprindo o combinado, mas nunca tinha aparecido lá.

– Finalmente pude conhecer o orfanato – Saori disse. – Não me sobra muito tempo por causa da escola e das coisas das empresas... e agora então...

Ia completar com “agora que sabia que era deusa e tinha responsabilidades com o Santuário”, mas achou que Mino não compreenderia, por isso refreou-se. Além do mais, não se sentiria à vontade indo lá sozinha, mas com a companhia dos rapazes era bem diferente.

– Seja bem-vinda – disse Mino. – Seu avô sempre foi muito importante para nós. O trabalho que fazemos aqui só é possível por causa da ajuda dele e da sua.

– Fico feliz por isso! De verdade.  

Seiya continuou as apresentações.

– Estes são meus companheiros, Shun, Hyoga e Shiryu, e esta é a Shunrei, namorada do cabeludo aí.

Mino cumprimentou-os e apresentou-lhes a colega de trabalho, que também era sua melhor amiga.

– E esta é a Eiri – disse. A moça tinha olhos escuros e cabelos loiros, que estavam presos em um coque. Ao contrário de Mino, estava de avental.

– Vamos entrar, gente – Eiri convidou.

– Trouxe um lanche – Seiya falou, acompanhando-as. – E uma surpresa.

– Ah, e o que é? – perguntou Mino, curiosa.

– É essa caixa aqui, mas só vou mostrar depois de conhecer as crianças.

– Tá bom – concordou Mino e abriu a porta de correr que dava para a sala onde as crianças assistiam tevê.

– Crianças, esse é o Seiya, amigo da tia Mino! Ele veio ver a gente e trouxe uns amigos.

Os pequenos foram correndo até as visitas.

– Olha, eles são cantores? – perguntou uma das crianças.

– Eu falei que pareciam – murmurou Eiri.

– Não, meu bem – respondeu Mino.

– A tia se arrumou toda para receber vocês – outra criança dedurou, fazendo Mino corar.

– Qual deles é seu namorado, tia? – outro menino perguntou.

– Então, pessoinhas, o tio Seiya trouxe um negócio – ele disse a fim de interromper a sequência de perguntas das crianças. Pegou a grande caixa que trouxe e abriu, anunciando alegremente seu conteúdo: – Um vídeo game, galera!!

A ideia funcionou e seguiram-se gritinhos excitados das crianças, que esqueceram das perguntas inconvenientes. Mino e Eiri entreolharam-se, a primeira encantada com o gesto de Seiya, a outra um tanto desesperada, pensando como iam controlar vinte crianças querendo jogar.

– Ei, venham aqui! – Seiya gritou para os amigos. – Me ajudem a ligar essa coisa na tevê!!! Não tô sabendo onde enfia esse cabo!

– Vamos lá antes que ele ligue errado e estrague o brinquedo – Hyoga disse rindo.

Depois de instalado o aparelho, enquanto as crianças jogavam e ele aguardava sua vez, Seiya observou o orfanato. Ainda parecia o mesmo de antes. A mesma sala de tevê, com o sofá velho e os almofadões coloridos no chão, a mesa grande com bancos compridos para as crianças estudarem. Mas olhando mais apuradamente, acabou notando uma diferença. No tempo dele era tudo um tanto impessoal, genérico. Agora havia um painel com desenhos das crianças, fotos delas nas paredes, um arranjo de flores naturais sobre a mesa. Dava pra ver que Mino estava se esforçando para transformar aquilo em um lar.

– Dá pra saber quem é criança e quem não é ali? – Mino perguntou, observando os rapazes jogando com os pequeninos.

– A diferença é só o tamanho! – disse Saori.

– Acho que eles estão se divertindo mais que as crianças – constatou Shunrei.

– Bom, vamos colocar a mesa e arrumar o lanche? – sugeriu Eiri a Mino. Shunrei e Saori ofereceram-se para ajudar.

– Nunca pensei que receberia a visita da senhorita Kido – comentou Mino –, muito menos que ela estaria ajudando a colocar a mesa.

– Imagina – respondeu Saori. – Eu sofro de dois males: falta de tempo e pouca habilidade para fazer amizade. Estou melhorando agora que os rapazes entraram na minha vida. Mas me diga, Mino, vocês estão precisando de alguma coisa aqui no orfanato?

– Ah, sempre tem uma coisa ou outra – Mino respondeu –, mas no geral está tudo bem.

– Quero que me comunique se faltar alguma coisa... Vou te dar meu telefone pessoal.

Saori tirou da bolsa um cartãozinho corporativo, anotou seu número no verso e entregou-o a Mino.

– Pode me ligar se precisarem de algo – disse. – Qualquer coisa.

– Agradeço imensamente, senhorita Kido.

– Me chame de Saori.

Mino assentiu, mesmo sabendo que seria meio difícil habituar-se a chamar a senhorita Kido pelo primeiro nome.

– Como funcionam as coisas aqui? – Saori continuou. – Essas crianças estão para adoção?

– Sim – respondeu Mino. – Todas estão disponíveis para adoção, mas é que já são consideradas velhas... Todos têm mais de cinco anos.

– Quando chega um bebê – disse Eiri –, ele é logo adotado. Então os outros vão ficando e quanto mais o tempo passa, mais difícil. Nós procuramos fazer o melhor para que esse lugar seja um lar porque sabemos que a maioria deles ficará aqui até a maioridade.

– Achamos que é importante que se sintam amados – complementou Mino. – Porque foi o que nos fez falta. O Seiya e os amigos tiveram sorte de terem sido selecionados pelo seu avô para serem cavaleiros, embora eu ainda não tenha entendido direito essa história, porque pelo menos isso lhes garantiu um emprego.

Foi Shunrei quem explicou a ela:

– Eles foram treinados para desenvolverem habilidades especiais e se tornarem os protetores da senhorita Kido. No final do treinamento, receberam armaduras especiais e puderam retornar para cumprir a missão. Eu acompanhei de perto todo o treinamento do Shiryu e sei que ele é capaz de coisas inimagináveis para uma pessoa comum.

– Sim, eles são incríveis – concordou Saori, lembrando-se de tudo que viveu nos últimos dias. – O que eu vi no Santuário foi totalmente excepcional.

– Santuário? – perguntou Mino.

– É o lugar de onde eu vim... e para onde voltei recentemente... Tenho uma missão a cumprir lá. Meu avô, vocês devem saber, ele não era meu avô de sangue. Ele me adotou ainda bebê... Como se achava velho para ser meu pai, ele me criou como neta. Por causa disso, no futuro, penso em adotar uma criança também.

– Eu também fui adotada pelo mestre – comentou Shunrei. – Ele me encontrou ainda bebê e me criou. Embora eu não o chame de pai nem de avô, eu me sinto muito amada por ele.

– Nós não tivemos essa sorte – disse Mino. – Mas tudo bem, sobrevivemos. E continuamos aqui, tentando dar um pouco de afeto a outros órfãos.

– E, no futuro, quem sabe a gente não adote alguns também? – complementou Eiri e Mino concordou.

– Também penso em adotar uma criança no futuro – disse Shunrei –, além dos filhos que quero ter com Shiryu algum dia.

– Pelo menos você já encontrou o pai! – brincou Mino, fazendo as outras três sorrirem. Tinham acabado de se conhecer, mas ela já sentia suficientemente à vontade para brincar com Shunrei.

– É, mas acho que ainda vai demorar bastante para a gente ter um filho!!

Uma das meninas aproximou-se delas e subiu no colo de Mino.

– Tia, ainda vai demorar pro lanche? – perguntou. – Já tô com fome...

– Não, meu anjo. Vamos comer agora!! – disse Mino, e depois levantou a voz acima da algazarra: – Rapazes, vamos dar uma pausa para a comida?

Eles assentiram e foram para a mesa, seguidos pelas crianças, carregando os menores no colo. Compartilharam com eles uma refeição gostosa e divertida, e saíram de lá no começo da noite, sentindo-se mais leves e felizes.

 

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– Foi um bom dia, não foi? – Shiryu perguntou a Shunrei quando já estavam na mansão. Enquanto aguardavam o jantar ser servido, os dois ficaram sentados na varanda, aproveitando para mexer nos novos telefones.

– Foi um ótimo dia – Shunrei disse, com o novo celular na mão. – Estou bem cansada, mas amei os passeios de hoje, amei ter ido ao orfanato e ter conhecido Mino, Eiri e as crianças. Queria ajudar de alguma forma, mas como moro longe fica meio difícil.

– Quero combinar com os rapazes de fazermos uma doação mensal, além de ir lá de vez em quando dar uma atenção às crianças. O que acha?

– Que maravilha, meu amor! Acho incrível.

– Morei num lugar muito parecido antes de ser selecionado pelo senhor Kido e enviado para a China. Uma pena que na minha época não teve alguém como Mino e Eiri. Elas amam o que fazem, cuidam das crianças com afeto e dedicação. Eu me sentia um número no orfanato. Mais que isso, muitas vezes me sentia um lixo, um objeto largado no mundo para ser esquecido. Só conheci o afeto quando cheguei em Rozan. O que aquelas moças estão fazendo pelas crianças é de uma generosidade ímpar e eu quero colaborar do jeito que eu puder.

Shunrei abraçou o namorado docemente. Sabia o quanto esse assunto o magoava, o quanto era difícil pra ele falar da infância.

– Mas agora você tem todo o amor do mundo – ela disse. – Todo o amor que eu puder te dar. E nós dois temos o mestre, somos uma família.

– Somos – ele assentiu, aninhando-se no colo dela.

– Ah, deixa eu tirar uma foto de você assim no meu colo! Quero mostrar ao mestre quando voltar. E também vou colocar no papel de parede do celular. Sorria!

Depois trocaram um beijo e tiraram mais uma foto. Então ela tirou algumas só dele e ele só dela.

– Ficaram ótimas!! – exclamou Shunrei, ao conferir as imagens. – Também com essa sua cara não tem como a foto ficar ruim.

Ele sorriu e deu mais um beijinho nela. Então ouviram Tatsumi chamar para o jantar e guardaram os celulares nos bolsos.

– Vamos lá – ele disse. – Melhor não nos atrasarmos. E esteja preparada porque com certeza o Seiya vai repetir a piada que fez no carro...

– Aquilo sobre não termos tomado café com eles porque estávamos muito cansados do que fizemos à noite?

– Exatamente – ele admitiu, corando. Shunrei riu e completou:

– Bom, ele não falou nenhuma mentira.

Continua...

 

(1) Achei mais justo reviver o Camus, então é isso, ele tá vivo e pronto. ;)

 


Notas Finais


Ufa! Capítulo terminado! Foi mais demorado do que pensei, especialmente nos últimos ajustes, mas consegui terminar! Era pra ser uma fic focada em incluir somente a Shunrei nesse universo do filme “A Lenda do Santuário”, mas eu não resisti e incluí Mino e Eiri. Talvez tente incluir mais personagens... Estou vendo como fazer...
É isso!
Obrigada a todos que continuam acompanhando a fic desde o começo e aos que estão chegando agora!!

Até mais!

Chii


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