História De repente pai - Capítulo 9


Escrita por: ~

Postado
Categorias Henrique & Juliano
Personagens Henrique, Juliano, Personagens Originais
Visualizações 57
Palavras 4.312
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Aventura, Comédia, Famí­lia, Festa, Ficção, Romance e Novela

Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Capítulo 9 - Parte 2



Segunda feira, 24 de Agosto de 2016, 06:10

Acordou, pela manhã seguinte, cedo demais, praticamente junto com o sol. Estava mais animada e suspeitava de que ia seguir o conselho do amigo. E ele tinha razão, estava finalmente descansando, com tudo pago. Se tivesse que se acertar com a mãe e o pai, ou não, ia eventualmente fazer nas duas semanas. Mas não ia deixar de aproveitar e se divertir por conta de nada. Entrou logo em um biquíni, prendeu o cabelo, pegou o protetor solar, celular, fone e saiu do quarto. Além dos funcionários, não tinha cruzado com ninguém, parecia só ter ela acordada. 
A areia estava quente, e o mar gelado naquela manhã. Aproveitou para fazer o que não conseguia fazer por muito tempo seguido: ficar a manhã toda na praia. Tomou sol de barriga, sol de costas, mergulhou, andou pela beira da praia, voltou, tomou mais sol e mergulhou de novo. De vez em quando ia até a cozinha do hotel e pedia alguma coisa refrescante, deixando tudo na conta do quarto. John ia se arrepender de custear todo a hospedagem e o casamento até o final daquela semana. Quando sentiu que seu corpo já ficava quente demais, juntou suas coisas e voltou para o hotel, entrando logo pela parte de trás, onde o cheiro de café era imenso. Todos já estavam na mesa, exceto os três adolescentes e Dianna. 
- Bom dia! - entrou no deck sorrindo e saudou, o que fez Isabella surpresa. 
Bom dia! - a grande maioria respondeu. 
Bia! Bia! - Um dos filhos de Mel a gritou, e as três crianças vieram correndo da piscina na sua direção. - Você estava na praia? 
- Sim, por que? - pegou a mão do menino no ar e balançou. 
- E você vai sozinha? 
- Sim. Por que? 
- Legal! - o menino de cabelos pretos e olhos muito azuis, filho de Teesha e Nathan, Bob, comentou - As nossas mães não de deixam a gente ir sozinho.
- É, mas eu já tenho mais de quinze anos. - sorriu, e ouviu a gargalhada de Mel. 
- Viram? Eu não sou ruim, vocês que são muito pequenos! - mostrou a língua para os próprios filhos, fazendo Bia rir. 
- Quantos anos você tem, Bia? - o menino mais velho de Mel, com olhos cor de mel e um cabelo loiro tigela, Chris, perguntou. 
- Eu? Eu vou fazer 23 em novembro. 
Uou! - Bob colocou a mão na boca - Você é velha. 
- Hein? - exasperou-se, fazendo os irmãos de Ben caírem na gargalhada. 
- Vem cá! - os três a puxaram pela mão até a piscina. 
- Você sabe fazer isso? - Chris saiu correndo, saltou, deu uma cambalhota no ar e caiu na piscina. 
Se lembrava de quanto tinha dez anos e conseguia fazer aquilo. 
- Hm, não - prendeu em um nó o cabelo que estava solto secando - Mas… - andou até um pouco para trás da outra borda da piscina, do lado oposto dos meninos - Eu sei fazer isso. - deu uma estrela de frente, caindo com os pés na borda da piscina, pra mergulhar em seguida. 
Quando emergiu, os três batiam palmas e ela sorriu, submergindo de novo para plantar bananeira. Quando colocou a cabeça para fora da água, os três meninos pareciam maravilhados com o salto e a bananeira. 
- Legal! - Bob pôs as mãos na cabeça, sorrindo. - Me ensina? - saiu correndo para ir para o lado de Bia, onde seria muito fundo para ele. 
- Epa, aqui não! - Beatriz berrou com as mãos na frente do corpo, e o menino freou na hora. - Muito fundo. 
- E - Teesha se levantou e colocou o filho no colo de surpresa - Está na hora do café. 
- Você me ensina também? - Chris perguntou, esperançoso. 
- Se sua mãe deixar, eu ensino. Caso não, não. 
- E eu? - o mais novo, que devia ter uns cinco anos e era a versão mais nova de Chris, pediu. 
Tinha certeza que quando Anthony fosse mais velho, seria igual a ele. Mas com os olhos castanhos. 
Se agachou de frente para ele, tirando os cabelos da frente dos olhos e sorriu.
- É Arthur, né? 
Ele mexeu a cabeça em concordância. 
- Então, Arthur, não dá, porque você é muito pequenininho. Mas se você quiser, eu te ensino a dar cambalhota. Pode ser? 
Ele balançou a cabeça com força, sorrindo grandemente. 
- Então, está feito. Vem, vamos comer. - o pegou no colo, e foram se sentar na mesa. 
Mel pegou o filho no colo e o colocou na cadeira, enquanto Bia ia fazer seu prato. 
Ovos, bacon, muita panqueca com mel e café. Fazia tempo que não comia aquele tipo de refeição, e ao final, sentia que ia rolar. Novamente, a palavra não lhe tinha sido dirigida, mas o clima estava mais leve. 
Dianna pisou no deck quando todos já tinham terminado suas refeições, com a cara bagunçada entre ressaca e maquiagem borrada. Sentou-se na mesa sem falar nada, e enfiou uma fatia gigante de bacon na boca. Até naquilo eram parecidas. A ressaca. 
- Meu Deus, que delícia! - se manifestou finalmente. - Bom dia, todo mundo. 
- Dianna, se recomponha. - Bonnie pediu, e Dianna girou os olhos. 
- Me deixa. 
Conversas aleatórias se instavam na mesa, e Bia não participava de nenhuma, mas diferentemente do dia anterior, estava entretida em ignorar tudo… Comendo. 
Jogava calda sobre os pedaços de frutas que tinha no pote, quando alguém a cutucou no braço. 
Jenna apontou para o próprio pai, que olhava para Bia esperando uma resposta, enquanto to todos olhavam para ela. 
- Desculpa, o que? 
- É verdade que você mora em Goiânia? - perguntou, parecendo bastante interessado na resposta, e não só em não deixá-la fora dos assuntos. 
- É. É, sim. 
- Poxa, que maravilha! - Meryl sorriu. 
- Uma vez - Nathan terminou de mastigar e voltou a falar - Eu li em uma revista sobre como todos falavam da terra do sertanejo como uma ótima cidade para o entretenimento, mas ninguém nunca falava sobre como é morar lá. De que a população é baixíssima, e de que o dinheiro da cidade é todo do turismo… Que o custo de vida é alto. Foi difícil se instalar lá? 
Terminou de jogar a calda nas frutas, enquanto ouvia Nathan, e só levantou a cabeça quando ele parou de falar, sabendo o rumo que aquela conversa ia tomar. 
- Na verdade, foi sim. Eu dei bastante sorte. É um lugar bem difícil de ficar, porque realmente, é tudo sobre o turismo, então nas outras áreas é bem complicado firmar carreira. E no inverno, caí completamente o fluxo de pessoas, ninguém quer ir pra lá quando tá chovendo e ventando. Então nós acabamos juntando muito dinheiro no verão, e no resto do ano a gente se vira. Mas a maioria das pessoas lá já são afortunadas de berço lá tem muitos fazendeiros. 
- E o que você faz lá? - Eliza enfiou a cabeça por cima da mesa para conseguir olhar para Bia, que terminou de mastigar suas frutas. 
Sabia muito bem o rebuliço que ia acontecer naquele momento, mas não contar naquele momento seria apenas adiar o que tinha que acontecer. 
- Eu sou modelo de pintura corporal e gogo girl
E… Silêncio total na mesa. 
Seu pai limpou a boca e virou a cabeça lentamente, enquanto Bonnie levantava a cabeça do prato. 
Tudo parecia acontecer em câmera lenta, enquanto a família de Ben só parecia surpresa demais, mas não de uma maneira negativa. 
- O que é isso? - quem perguntou foi Bob, e indiscretamente, Jenna o cutucou chamado sua atenção. 
- O que? Gogo girl? É como… Animadora. Nós somos a cara da boate. Como a hostess de um evento ou de um restaurante. 
- Modelo? - Dianna perguntou, tomando café em seguida. 
- Sim. O René, um francês maluco, me achou quando eu ainda trabalhava no hotel que eu me hospedava, logo que eu cheguei. Falou que eu tinha um rosto muito expressivo e perguntou se eu não queria testar. 
- Tá, mas o que você faz, exatamente? - Ben questionou. 
- Nada, eu sou o quadro. Depois eu só pouso para as fotos, e em algumas exposições nós performamos. 
- Então ele pinta você nua? 
- Isso. 
- Olha essa Beatriz! - Dianna atacou um guardanapo na sobrinha e caiu na gargalhada - Me leva com você? 
- Besta! - rindo, Bia atacou o guardanapo de volta, as ambas pararam de rir quando um estalo na mesa se fez ouvir. 
- Basta, por favor. - Bonnie pediu, sem olhar para a filha. - Isabella, suas madrinhas chegam daqui a pouco. Nós temos coisas para arrumar, arrume-se e me encontre no meu quarto. - levantou, pediu licença e saiu. 
Dylan seguiu seu caminho, e Eliza olhou para enteada como se desculpando pelos atos do noivo. 
De repente, as frutas não eram mais interessantes. 

Aos 18 anos, depois de diversas crises, Bia finalmente procurou um médico. Foi diagnosticada com TAG¹. Na segunda, na terceira e na quarta opinião, todos os diferentes médicos a diagnosticaram do mesmo problema. Mais nova, aos 10, tinha mania de arrancar os cabelos e os cílios. Tricotilomania ². Insônia. Gastrites… 
Mas tudo isso tinha acabado. Beatriz corria, andava de bicicleta, dançava na boate… Foram raras as crises que tivera desde que foi embora. 
Mas naquela tarde, seu estômago queimava de novo, seu braço formigava e a sensação de que ia infartar estava lá de novo. 
Não pensou duas vezes antes de colocar os fones e ir correr. Se afastou do hotel o máximo que pôde, e só parou quando sentiu as pernas começarem a fadigar, então deu meia volta e pegou o sentindo do hotel, sendo agraciada pelo pôr do sol. 
De longe viu Isabella sentada na areia, apreciando o horizonte amarelado. Quando a alcançou, desacelerou as passadas até parar completamente e se jogou na areia ao lado da irmã, ofegando. Quando olhou para o lado, viu que na bochecha dela uma lágrima escorria. 
- is? 
Bia… - olhou para ela - O que foi que aconteceu? 
- Como assim? É você quem está chorando. 
- Três anos atrás, Beatriz. O que aconteceu? 
Respirou fundo, esticando as pernas na areia. 
- Ninguém nunca te contou, não é? 
- Eu estou perguntando pra você
- isa, você sabe que… Aqui sempre foi o seu lugar. Eu só fui descobrir onde seria o meu. 
- Ah, por favor. Corta essa. - secou a lágrima e se levantou, tomando passo para ir embora. Bia saltou rapidamente e entrou na frente da irmã. 
- isa! Você está pisando em ovos desde que eu cheguei, fingindo que está tudo bem, mas mal consegue me olhar nos olhos! Fala logo tudo o que você quer falar! 
- Sai, Bia… - fungou e tentou desviar, sendo bloqueada de novo por Bia. 
- Fala comigo, isa! 
Você me deixou! - berrou, se abraçando do vento gelado. - Você foi embora e me deixou com eles, sozinha! Com eles! Eu fui pra aula e quando eu voltei, você e suas coisas não estavam no quarto. Tudo que eu soube de você foi o número da sua casa e pela tia Dai! Você foi embora! Minha melhor amiga, minha alma gêmea, você era a minha pessoa, Bia, e você simplesmente foi! - continuou a gritar, e mesmo que quisesse que a irmã contasse o que sentia, não sabia que ia ser daquele jeito. Não imaginava que tivesse feito tanto a mal a pessoa que mais amava - Eu estou noiva há OITO meses, Bia, e com o Ben há dois anos! Dois anos! Sabe o quanto eu queria sentar e contar pra minha irmã que eu ia me casar? O quanto eu queria te convidar pra ser a madrinha? Você tem noção? E agora nós estamos fingindo que isso nunca aconteceu, e nem pra isso a gente serve, nem pra fingir que sempre fomos uma família feliz. E eu estou há duas semanas do meu casamento numa guerra entre mãe e filha. - jogou as mãos no ar, se acalmando, enquanto Bia sentia as bochechas molhadas - Está bom agora? - fez uma reverência e saiu, cruzando com o noivo no caminho. 
Ben tentou pará-la, mas ela se soltou e continuou correndo. Ele olhou para Bia, e levantou os ombros em questionamento. Ela desabou na areia, sem dar resposta nenhuma para o cunhado. Segundos depois ele se sentou ao seu lado e estendeu o que Bia mais queria ver naqueles dias. 
Quem diria que o rico, herdeiro e engomado Benjin fumava maconha. 
- Meu Deus, agora sim, pode casar com a minha irmã! - Bia pegou o cigarro de maconha da mão dele e tragou. 
- O que houve aqui? 
- O de sempre. 
- O que há na família de vocês? 
- Ah… Eu teria que te contar do início pra fazer algum sentido. 
- Temos a noite toda. - pegou o baseado da mão de Bia e dobrou as pernas, as abraçando, enquanto ela ia se deitando. 
Talvez fosse bom contar aquilo pra alguém que ia apenas ouvir. 
- Ai, ai… Dona Bonnie, Ben, é uma pessoa extremamente contagiosa. Ela não nasceu pra ser mãe, e por mim tudo bem, eu também não e essa história de instinto materno é a maior balela. O problema é que ela tinha apenas um desejo nessa vida: ser rica. Mas nunca trabalhou, nunca fez nada a não ser caçar marido rico. Mas acabou engravidando do meu pai e casou. Disso nasceu a Isabella, e dois anos depois, eu. Ela e meu pai nunca se amaram, ela sempre foi incrivelmente insatisfeita com tudo na vida dela depois que ela casou, então eu acho que ela acabou depositando tudo o que ela queria pra vida dela, na gente. Desde que eu me tenho por gente, nada do que eu e a Isabella fazíamos era bom o suficiente. Não podia ter a segunda melhor grade da turma, tinha que ter a primeira. Conseguiu a primeira? Não-convencionais faz mais do que sua obrigação. Vocês vieram pra vencer, não aceito filha burra… Essas coisas. O problema é que esse tipo de coisa sempre instalou rivalidade entre eu e minha irmã. Quando a Isabella fazia uma coisa melhor do que eu, ela me jogava na cara e vice versa. E a Isabella sempre caiu muito na pilha dela, e eu não. Eu fui gorda minha infância inteira, e como a mãe simpática que ela era, ela sempre me incentivava a emagrecer falando o quanto a Isabella ia ter um marido bonito e rico, e eu ia morrer solteira. Pra ela nunca estava bom! Eu nunca dei certo nesse meio, mas a Isabella parecia ser a filha que ela sempre quis, mas eu sei que ela também não era feliz. Eu sei que ela queria ter se divertido mais, mas minha mãe nunca permitiu. É como se em algum momento, ela tivesse percebido que o ela queria só ia dar certo na Isabella, e desistiu de mim. 
- Nossa… A Isabella faz parecer que vocês apenas se desentendiam, mas isso é assustador. A Bonnie é chata - Bia riu - Mas ela só falta lamber a Isabella. Eu nunca imaginei que fosse tão oposto. 
- Rá! E ela sempre foi muito conservadora, e eu sou louca. Eu transei com quatorze anos, contei pra Isabella, que contou pra ela. Ela simplesmente acabou comigo. Com dezesseis eu namorei o único rapaz que eu cheguei a ter algum tipo de afeição, e ele me traiu com a minha prima. Ela simplesmente falou que alguma coisa errada eu devia ter feito, por isso ele foi atrás de outra. 
- De verdade? 
- Sim. Ela sempre foi assim. Por isso ela fez o que fez mais cedo, porque é inaceitável na cabeça dela, que uma das garotas que ela criou trabalhe nua. Mesmo que eu nunca tenha pedido dinheiro pra ninguém, eu trabalho desde meus dezesseis anos, e ela nunca trabalhou, mas dane-se, ela sempre foi bonita. É basicamente isso, eu e a Isabella sempre fomos instigadas e vermos uma a outra como rivais, e quando eu percebi o quão doentio isso era, eu abri mão, mandei um belo foda-se, ignorei tudo, ou eu acabaria odiando a pessoa que eu mais amava. 
- E por que você foi embora? 
- Eu não sei… Parece tão idiota hoje, mas… Meu sonho era fazer biologia e especializar em biologia marinha. - pegou novamente o baseado da mão do cunhado - E quando eu passei na faculdade ela surtou. Como assim, eu não ia ser médica ou advogada? Eu tinha acabado de fazer dezenove anos, ela e meu pai já tinham se divorciado. Enfim, quando eu contei, ela surtou e nós discutimos muito. Nessa época, eu só trabalhava, então eu ficava bêbada dia sim dia não. Uma semana depois disso, nem me lembro porque, nós acabamos discutindo de novo e foi a maior briga que nós tivemos. Eu estava cansada dela e ela de mim. E foi horrível… Mas eu me lembro bem dela falando “O seu futuro é uma merda e não precisa ser muito esperta pra saber. Você sempre foi assim e sempre vai ser essa despreparada! Sua irmã vai ser brilhante, e você vai viver na sombra dela, como a boa trepadeira que é”. 
Ben parecia chocado demais com tudo o que ouvia, e Bia tinha certeza de que também ficaria se a situação fosse contrária. 
- Aí, quando ela terminou, eu peguei um vaso verde feio pra caramba que ela tinha na sala e ataquei nela. Eu me arrependi na hora, mas não deu tempo pra pensar. Ela me expulsou de casa. Então eu subi, peguei minhas coisas e fui para o aeroporto. Eu tinha visto de turista, eu passei um mês por lá visitando, não foi difícil ir para a Goiânia. Quando eu cheguei, eu liguei pra minha tia e dei o número do quarto do hotel. Quando eu consegui minha casa, liguei pra ela de novo e dei o número da minha casa e do meu vizinho. Só. 
Ele piscou uma, duas vezes, então engoliu seco. 
- Tudo isso aconteceu e ninguém nunca ficou sabendo? 
- Creio eu que não. E hoje minha irmã me odeia porque eu pareço uma egoísta desgraçada. Mas não tem necessidade dela saber disso. Pra que? Ficar com raiva da mãe dela? 
- Mas e seu pai nessa história toda? 
- Ah, meu pai é uma porta. Sempre foi. Nunca tomou partido de nada, foi embora e só ligava pra dar oi. Nunca se manifestou. Pelo menos minha mãe tentava, ela tinha iniciativa. Ele nunca fez nada. Não me ligou. Nada. Você não entende… Eu não me arrependo de nada, mas eu queria ter mantido contato com ela, eu não sei. Só queria que ela não tivesse raiva de mim… Mas eu não me arrependo. Ela nasceu pra brilhar, eu pra viver. 
Bia - ele posou a mão no joelho da garota - Ela não tem raiva de você, ela sentiu muito sua falta. E não é papo, ela falou muito de você. Acho que na verdade, ela tem mais raiva por você ter feito o que ela queria ter feito: sair dessa família. 
- Você a ama? - mudou completamente o assunto, abraçando as pernas como o cunhado e apoiando a cabeça lateralmente nos joelhos, olhando pra ele. 
- Muito. Demais. Isso tudo… - apontou para o hotel - Pra mim não tinha necessidade. Eu queria só agarrar a mão dela, entrar num cartório qualquer e me casar, só eu, ela e Deus. 
- Eu fico muito feliz. Feliz que ela finalmente vá viver a vida dela. 
Muitos gritos e berros tiraram os dois do assunto, e Bia não precisou pensar muito pra saber de quem eram aqueles gritos. 
Se jogou de costas na areia, e Ben caiu na gargalhada. 
- Se me dá licença, eu sou o noivo, tenho que receber os padrinhos e as madrinhas. - se levantou. 
- Tá, mas deixa isso aqui… - pegou o cigarro, e riu da cara dele. 

No jantar, tudo parecia quieto demais diante da cara emburrada de Isabella. 
Exceto as madrinhas. 
Os padrinhos pareciam ter percebido algo errado, mas elas… Pelo que Bia tinha entendido, todas eram amigas de turma da faculdade de Isabella e tinham se mantido algum tempo afastadas, algumas se mudaram, outras voltaram para sua cidade natal, e o casamento estava sendo o reencontro. 
Na refeição noturna, a cerveja era substituída por vinho e Bia já tinha se apropriado de uma garrafa, enchendo sua taça pela quarta vez. O único ali que a olhava com certa compreensão era Benjin, mas também olhava muito para o vinho que ela tinha em mãos, e Bia queria muito contar pra ele a quantidade de álcool que ela bebia semanalmente, e de que ia precisar de muito mais para ficar bêbada. 
Sua irmã cutucava a salada no prato, jogando as folhas de um canto para o outro. Parecendo cansada de olhar para a mesa, ela sussurrou alguma coisa para Ben e se levantou. 
- Se me dão licença, eu vou me retirar. Estou me sentindo indisposta. - sorriu educadamente e saiu. 
- Ben - Bonnie o chamou assim que sua irmã já estava dentro do hotel - O que houve? 
- Nada. Você ouviu, ela está indisposta. - ele mal a olhava. 
- Eu conheço minha filha. Eu vou ver o que aconteceu. - ia se levantando, mas o tapa que Ben deu na mesa a fez parar. 
- Deixe-a em paz um pouco, pelo amor de Deus! 
Até as madrinhas se calaram, e Bonnie voltou a se sentar, constrangida demais para falar qualquer. Bia cutucou o cunhado e fez sinal para ele ir atrás dela, que ele cumpriu rapidamente. 
- O que a tia tem? - Arthur perguntou com a voz doce que tinha, e Mel tranquilizou o filho alegando cansaço. 
- Ah! Meu! Deus! - uma madrinha ruiva fez a maior cara de surpresa e felicidade, espalmando as mãos na mesa - Será que vem um baby Rezende Gutierrez por aí? 
E então todas as madrinhas fizeram a mesma cara de felicidade, na medida que Dianna ia afundando na cadeira, e Bia entornava mais uma taça de vinho. 
E mais uma. 

Acompanhada da garrafa de vinho que estava quase no fim e de sua tia, andavam pelo corredor do terceiro andar, a caminho do quarto de Dianna. Sons de berros vindos do quarto de seu pai e Eliza, e a tia brecou Bia no meio do caminho, se enfiando atrás da porta deles. 
- Sai daí, tia! - sussurrou, e em resposta Dianna fez sinal para que ela ficasse quieta e se aproximasse. 
Ah, pelo amor, Dylan! Você nem sequer olha para a sua filha! E a outra está completamente transtornada com a mãe psicótica e o pai ausente. Qual o problema da família de vocês? 
Para de falar como se não fossem sua família também, Eliza. Nós vamos nos casar. 
Não, Dylan. Porque eu me recuso a dividir minha vida com um homem que ignora a própria filha dessa maneira, e faz aquele show quando a menina simplesmente conta que trabalha em uma boate! 
Ela foi embora, Eliza! Embora! E eu não falei com ela nos últimos três anos! 
E agora que você tem a chance, está ignorando! - berrou. - Pelo amor de Deus, meu amor. É a sua filha! E a Isabella! É o casamento dela! 
Deu dois passos, tentando sair sem fazer barulho e puxou a tia consigo. 
- Que quebra pau, senhor. - a tia ria, e Bia simplesmente não via a graça que ela via. 
- Isso não tem graça, tia. 
- Tem sim, Bia. - abriu a porta do próprio quarto, deixando aberta para Beatriz. - Seu pai e sua mãe são dois idiotas, ignorando uma filha que voltou depois de quase quatro anos. Às vezes eu nem acredito que a Bonnie é minha irmã. 
Piscou duas vezes, surpresa com a simplicidade que a tia tinha em relação ao assunto. Sentou-se na borda da cama, enquanto a tia ia se esparramando. 
- Mas, tia… Você não quis saber o que aconteceu? 
- Lógico que eu queria, Bia. Mas se você não falou, não tem que se perguntar. Você sempre foi a mais esperta da família, eu sabia que um motivo tinha, cabia a você dividir ou não. E todos têm o direito de ir embora quando bem entender, e não é obrigatório ter um motivo aparente também. Eu senti sua falta, mas respeitei seu espaço. Agora você está aqui, e ao invés de ficar pensando no que aconteceu há milênios, eu vou curtir tua presença enquanto durar. E volto a repetir: são dois idiotas. 
Bia sorriu com a declaração, e se jogou em cima da mais velha, que gargalhava.
Dianna fazia tudo parecer tão mais simples, e é por isso que ela sempre tinha sido sua inspiração. começou a tocar o celular jogado na cama, e Dianna rolou para pegar. Bia olhou por cima de seu ombro e viu a foto de uma mulher com cor de amêndoas e olhos cor de mel. 
- Olha quem está num relacionamento sério! - brincou e só percebeu que tinha sido empurrada quando sua bunda bateu no chão. 
Oi, meu amor... 
Rindo, saiu do quarto da tia, cruzando com Eliza na porta do quarto, fumando. Sorriu para Bia, mas não parecia muito afim de conversar. Subiu pela escadaria até o quinto andar, e na sua porta, Isabella estava sentada no chão. 
Sem falar nada, sentou-se de frente para a irmã, que tinha os olhos molhados. 
- Me diz que o que o Ben me contou é mentira. 



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