História Death Note - Near Singularity - Capítulo 19


Escrita por: ~

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Categorias Death Note
Personagens Anthony Rester, Beyond Birthday, Halle Lidner, L Lawliet, Light Yagami, Matt, Mihael "Mello" Keehl, Nate "Near" River, Personagens Originais, Stephen Gevanni
Tags Continuação, Death Note, Gevanni, Near, Shinigami
Exibições 54
Palavras 3.975
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Drama (Tragédia), Ficção, Ficção Científica, Mistério, Misticismo, Policial, Romance e Novela, Seinen, Sobrenatural, Suspense, Violência
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olá, pessoal! Fiquem com mais um capítulo do arco Sons of War.
Agora com a revisão de minha esposa - que finalmente chegou aos capítulos atuais na sua leitura -, estou seguro que menos erros aparecerão no texto :)
Espero que gostem!

Capítulo 19 - Sons of War - The Last Hug


Fanfic / Fanfiction Death Note - Near Singularity - Capítulo 19 - Sons of War - The Last Hug

Entre as luzes que tingiam com pinceladas brancas sua visão embaçada e dolorida, o primeiro pensamento que veio à mente do pequeno Arnold quando recobrou brevemente os sentidos foi: Alissa. Pelo som de rodinhas vindo de baixo de onde estava deitado e pelo deslocamento de ar que sentia em suas feridas abertas, logo concluiu que estava numa maca em movimento. Não conseguia enxergar direito, mas havia algumas pessoas o acompanhando naquilo que parecia ser uma corrida sem concorrentes. Alissa. Seus olhos fecharam-se e a ausência de sensações voltou a cair sobre seu corpo.

De repente, o jovem deu por si em frente à estação ferroviária central de Frankfurt; a brisa de verão que vinha das ruelas cinzas de concreto e penumbra desarrumou seu arranjo de lírios e cravos que levava ao túmulo dos avós. Seus pais andavam preocupados logo atrás de si; não faziam diferente as pessoas que transitavam por aquelas ruas.

O clima de guerra pairava sobre toda a Alemanha. O poderoso ataque americano a Berlim, ocorrido há pouco mais de uma semana, deixara todos consternados e aflitos. Os civis, em sua maioria, nunca desejaram a guerra, e agora, depois de tantas derrotas e perdas, a pressão popular pela rendição do país estava a um passo de sobrepor a insistência dos principais líderes políticos pelas batalhas. Contudo, também era grande o medo de outros ataques. Os alemães comuns temiam pelo que restava de suas famílias, de suas histórias, de seus futuros.

Alissa caminhava de mãos dadas com a mãe e também segurava um arranjo de flores. Levava rosas e camélias para a querida avó. Trajava um vestido escuro com detalhes dourados em cada manga. Quando notou que seu irmão estava olhando para trás – já estava no portão de entrada da estação -, pediu à mãe para que a deixasse seguir sozinha até ele. Tão logo obteve a aprovação de Katerinne, Alissa trotou (“Segura aí minhas flores, mamãe!”, disse ela empurrando o arranjo às mãos da mãe). Charles, que vinha ao lado da esposa, carregando duas bolsas penduradas num ombro, sorriu.

- Nem me pega, bobão! - Alissa provocou o irmão com um tapinha na nuca e saiu correndo pelo estacionamento.

Arnold não viu problemas em brincar um pouco com a irmã ali e prontamente se pôs a correr atrás dela. Katerinne até tentou ralhar com os dois, mas foi impedida por Charles, que lhe garantiu que estava de olho neles e que nada iria acontecer.

O tempo voou e, um pouco mais tarde, lá estavam os quatro numa cafeteria próxima à bilheteria. Arnold e Alissa, bastante suados e arfando de cansaço.

- Vocês dois, hein? - disse Katerinne num tom duro de reprovação, mas não desprovido do carinho naturalmente imbuído em cada palavra que uma boa mãe dirige a seus filhos. - Aproveitem agora para comer, porque daqui para Hanover não vamos comprar nada.

Arnold deu uma bela mordida em seu sanduíche de frango grelhado, enquanto que Alissa preferiu dar mais atenção às imagens de propaganda do papel-toalha que estava embaixo do prato de seu cachorro-quente.

Charles e Katerinne enganavam a barriga com alguns biscoitos de queijo.

- Como será que estão as coisas por lá, querido? - perguntou a mulher de cabelos castanhos, presos num penteado que os assentava com uma presilha próximo à nuca.

Charles coçou o queixo; sua barba estava por fazer.

- Já tivemos que esperar bastante por causa do meu trabalho, amor. - Ele acariciava-lhe o rosto com um olhar ligeiramente distante. -Passaram-se quantos dias? Uma semana? Acho difícil vir um segundo ataque depois de tanto tempo sem resposta da Alemanha.

Katerinne sabia que o marido estava tentando desconversar. Provavelmente por saber que as coisas não estão nada bem. Mas é lógico... não devia ter feito essa pergunta...

- Quem dera tudo isso acabasse logo... - suspirou ela.

- Mas vai acabar, Kate – falou Charles. - A população já não aguenta mais. Em breve virá a rendição.

Katerinne observava com preocupação a filha brincando com a comida.

Trinta minutos depois, Charles vinha com os bilhetes do trem em mãos. Tinha deixado a esposa e os filhos esperando em frente das catracas que davam acesso à plataforma de embarque ; fora comprar as passagens para Hanover.

- Coloque essas passagens na carteira, Charles – orientou Katarinne ao vê-lo com os bilhetes no bolso da camisa. - Não temos dinheiro para comprar outros se os perdermos.

Enquanto aguardavam o próximo trem, em meio a dezenas de pessoas entristecidas e apáticas que também esperavam, Charles pegou Arnold e o suspendeu em seu braço.

- Até que você é bem levinho para sua idade, né, garotão? - Sorria-lhe o pai. - Precisa comer direito se quiser conquistar o coração das mais belas, Arnold. - (“Querido, isso é coisa que se diga?”, reclamou Katerinne enquanto pai e filho davam risada). O pequeno garoto sentia-se seguro nos braços do pai, apesar de já se considerar grande o suficiente para que não fosse suspendido dessa forma. Tal consideração, no entanto, partia apenas de sua mente, uma vez que sua diminuta estatura não corroborava muito para que os outros pensassem da mesma maneira.

No cotidiano, Arnold podia até se comportar como uma criança normal, reagindo como qualquer garotinho de sua idade, mas em sua cabeça tudo não passava de simulação. Ele enxergava as coisas de forma muito mais analítica e madura do que se podia esperar de um adulto considerado inteligente. Não sabia dizer quando começou a racionar de forma tão intensa, mas desde que percebeu que os outros à sua volta não acompanhavam seu ritmo, chegou a conclusão de que não fazia sentido externar aquela sua identidade, aquele seu verdadeiro intelecto. Para seus pais e irmã, assim como demais familiares, não passava de um garoto comum.

Naquele momento, nos braços de seu pai, ele se deu conta de que como era importante sentir aquele tipo de felicidade. A presença dos pais, da irmã, da paz. O amor genuíno que os humanos são capazes de construir lhe era deveras agradável. Contudo, se seus pais soubessem o quanto sua inteligência afastava sua mente dali, talvez não se comportassem da mesma forma. Até por que sua própria conduta não seria a mesma... De qualquer forma, não adiantava perder tempo pensando em hipóteses infrutíferas. Estavam indo para Berlim, visitar o túmulo dos pais de sua mãe, mortos no ataque americano. Veria com os próprios olhos as consequências da ignorância humana, da ausência de amor ao próximo.

Alissa insistiu para também subir à altura de Arnold. Katerinne, a contragosto, ergueu-a em seus braços. Todos ficaram conversando discontraidamente até a chegada do trem.

- Pai, por que vamos para Hanover? - perguntou Alissa. - Vovó não morava em Berlim?

Charles sorriu enquanto colocava Arnold no chão.

- É o caminho que temos que fazer, querida – respondeu ele. - Esse trem vai para Hanover. De lá vamos pegar uma condução até o posto de fronteira e seguimos para Berlim.

- Entendi nada. Devia ser Berlim ao invés de Hanover escrito ali.

- É que vamos comprar uns doces lá em Hanover, Alissa – sussurrando, Arnold tentou dissipar a incredulidade dela. Não seria nada fácil explicar para uma criança de quatro anos a existência da fronteira interna que separava a Alemanha Ocidental da Alemanha Oriental e que, ainda por cima, a parte ocidental possuía uma cidade a 155km da fronteira, dentro do território da parte Oriental – Berlim Ocidental. Muito pior seria lidar com as perguntas que surgiriam sobre os motivos dessa separação e tudo mais.

Ao menos, graças à atenuação do controle de entrada ao território da Alemanha Oriental causado pela atual guerra é que podiam ir até Berlim sem maiores problemas. Ignorando alguns fatores, a união entre a Alemanha e a União Soviética parecia a Arnold um bom sinal de esperança para uma futura reunificação do país germânico.

- Ah! - Alissa se animou. - Então é por isso! Por que ninguém me disse nada?

- Era surpresa.

Em pouco tempo, o trem chegou à plataforma de embarque.

Charles pegou as bolsas e Katerinne deu as mãos aos filhos. As pessoas foram se aproximando da margem da estrutura, para embarcarem, e um grande aglomerado se formou.

Um pouco antes de as portas do veículo se abrirem, uma mão toca o ombro de Charles.

- Soldado Charles Belanger. - Um oficial do exército alemão, de bigode ralo e cabelos crespos penteados para o lado prestou continência.

Charles, espantado, repousou as bolsas novamente ao chão e respondeu também com uma continência.

- Sim, senhor! - disse ele. - Estou em vias de embarcar para Hanover, tenho uma autorização do diretor em comando de minha unidade no presídio de Wiesbaden.

- Está revogada.

Katerinne olhou enrubrescida de raiva para o oficial. Revogada? Não acredito. Esses crápulas!

O oficial continuou:

- Aqui está um documento confidencial do general Friedberg. - O homem olhou com o canto do olhos para a mulher e seus filhos com certa frieza. - Você foi designado para morrer numa missão suicida no coração dos Países Baixos.

Nesse momento, Arnold tenta alcançar a mão de seu pai, mas não consegue. Ele começa a andar, dando as costas à sua família. Abraçado à sua mãe e irmã, tudo vai ficando escuro e silencioso. Seu corpo torna a flutuar no vazio das sensações e sua mente repousa entristecida.

Arnold abriu os olhos, como se estivesse emergindo de um profundo mergulho dentro das trevas de sua própria dor. Seu ritmo cardíaco estava acelerado, os lábios ressecados e rachados de desidratação. A visão estava melhor que antes, e ia se acostumando com a pouca luminosidade daquela sala. Uma agulha espetada em seu pequeno e esguio braço prendia-o a uma haste metálica com uma bolsa que continha algum líquido transparente. Medicamento intravenoso, pensou. Estou num hospital.

Foi a última vez que vi meu pai. Uma lágrima escorreu por seu rosto. Cancelamos a viagem e nos despedimos ali mesmo. Mamãe ficou arrasada. Ser casada com um oficial requer muito de uma mulher. Ainda mais num período de guerra. E em menos de dez minutos, lá se ia meu pai, ao lado daquele oficial, para o tal treinamento militar de emergência em Munique. Para nunca mais voltar.

Pouco a pouco, Arnold foi se lembrando de onde estava antes de se perceber naquela maca. Um desespero tomou conta de si quando recordou da terrível morte da mãe. Mesmo que entorpecido da dor de seus ferimentos causados por aquela bomba, gravou em sua memória a imagem do ferro transpassado na garganta de Katerinne. Agora tinha condições de imaginar tamanha dor pela qual ela passara, carregando-o nos braços com aquilo rasgando-lhe a traquéia.

Terrível...

Mas e quanto a Alissa? O que havia acontecido com ela? O último desejo de sua mãe era que protegesse sua irmã e nem fazia ideia de onde ela estava. A impotência do pequeno garoto lhe atormentava.

Mesmo com o intelecto que tinha, era muita pressão para uma criança de apenas sete anos.

Faltava pouco para que surtasse de tanto pensar sem poder agir quando a porta daquele leito se abre. Uma pequenina garota com cabelos castanho-claros, com um braço engessado pendurado sob o tórax por uma faixa sobre o pescoço, e alguns curativos nas pernas e face entrou. Era Alissa! Atrás dela, vinha o Sr. Dierk, com apenas um curativo no pescoço. Carregava uma sacola com frutas.

- Finalmente você acordou! - gritou Alissa, correndo para abraçar o irmão. - Tive muito medo!

Os olhos dos dois encheram-se de lágrimas diante daquele reencontro.

- Como você se sente, Arnold? - perguntou Dierk. - Está conseguindo enxergar direito?

- Sr. Dierk... acho que sim... A mamãe... onde ela está? - Arnold preferiu perguntar de forma direta.

O homem de cabelos negros, sentou-se na poltrona próxima à cama.

- Infelizmente só tive tempo de tirar vocês dois de lá, filho.

- Onde estamos? Há quanto tempo estamos aqui?

- Calma, garoto. Você não pode se exaltar; qualquer exagero pode prejudicar ainda mais sua situação. Coma essa banana. O homem ergueu a sacola de frutas e retirou de lá uma banana.

- Obrigado Sr. Dierk.

- Estamos em Hanau. Sabe onde fica? Foi o lugar mais próximo que tinha um hospital em funcionamento que encontrei depois que peguei vocês dois lá em Frankfurt.

- Estou aqui há muitos dias? - perguntou Arnold antes de dar a segunda mordida na fruta. Alissa estava acomodada a seu lado, sentada numa cadeira.

- Faz dez dias.

O garoto se assustou com a resposta. Tudo isso?

- E a guerra? Como andam as coisas pelo país?

Sr. Dierk estranhou aquele tipo de pergunta vindo de uma criança. Como é que ele entenderia o complexo contexto daquele conflito, que nem os adultos entediam ao certo?

- Acredito que as coisas vão melhorar, filho – resumiu-se a dizer – Agora vou chamar o médico para dar uma olhada em você. - O homem se levantou e seguiu para o corredor.

Não quis me dizer... pensou Arnold, enquanto fazia um carinho nos cabelos da irmã. Depois procuro num jornal... Pelo menos, não leva nem uma hora para voltarmos a Frankfurt. Queria ao menos poder saber onde ela foi enterrada...

Dois dias se passaram e Arnold estava fazendo um último check-up para que pudesse receber alta.

- Bem, a concussão não deixará sequelas – disse rapidamente o doutor, enquanto tocava-lhe a nuca, procurando algum sinal de dor no jovem. - Sobre o problema das pernas tomará injeções semanais de GH. Determino que o tratamento dure por um ano. Depois disso deve fazer novos exames para que o médico possa decidir se deve prolongar o tratamento ou não. - O médico lhe fez um cafuné. - Isso também vai ajudar na sua altura, então, se quiser ficar mais alto, não pode desistir, hein?

Após mais alguns procedimentos de rotina feitos sucintamente o médico os liberou. Saiu rapidamente da sala para cuidar de outros pacientes.

- Bem, crianças, vamos para casa! - disse Sr. Dierk, tentando animar os dois irmãos. Acomodava os poucos pertences que trouxera para o quarto numa bolsa.

- Quero ir até Frankfurt, Sr. Dierk – disse Arnold enquanto descia da cama. - Precisamos visitar o túmulo de nossa mãe.

Dierk franziu a testa.

- Eu entendo, Arnold. Mas, veja... Eu posso até levá-los, mas vocês precisam deixar que eu decida quando é o melhor momento para irmos, tudo bem? Em memória a seus pais, eu não posso deixar que corram perigo à toa. - Estava reunindo o lixo que encontrava pelo quarto e jogando numa sacola. - Uma cidade do tamanho daquela não fica nada bem depois de um bombardeio. A educação desaparece quando os recursos se esgotam...

- Então o senhor vai ficar com a gente? - perguntou Alissa.

- É meu dever para com seus pais. - Ele deu um sorriso pálido.

Ele preocupa-se conosco... pensou consigo Arnold. Acho que não temos escolha. Não posso sair com Alissa por aí, nem posso deixá-la sozinha...

Está certo, então, Sr. Dierk – disse Arnold. - Muito obrigado por cuidar de nós.

Já era noite quando chegaram ao pequeno apartamento que o seu provisório tutor havia conseguido. Ficava no subúrbio de Hanau e Arnold achava que não tinha mais do que vinte metros quadrados. Só havia três cômodos: salão, cozinha e banheiro. De frente para a porta de entrada equilibravam-se em suas desgastadas pernas de ferro dois beliches separados por algo em torno de dois metros – cada um recostado a uma parede do recinto; ao fundo, havia duas pequenas saliências de concreto da parede – como se antes uma parede ligasse as duas-, que sugeria uma separação entre a área de dormir e a cozinha.

Após banharem-se e jantarem humildemente, Arnold e Alissa acomodaram-se em seu beliche. O garoto no “térreo” e a garota no “1º andar” do móvel. Dierk passou o resto da noite tentando fazer a antiga televisão funcionar, mas não obtendo sucesso, se rendeu ao cansaço e pôs-se a dormir pesadamente antes da meia-noite.

Quando julgou que era seguro, Arnold se levantou da cama e foi até a pequena mesa da cozinha. Tateando o chão próximo a ela, confirmou que ainda estava lá um cesto de jornais que vira quando estavam jantando. Pedira permissão a Dierk para ler, mas ele não achara por bem que uma criança daquela idade tivesse contato com aquele tipo de conteúdo. Não lhe agradava ter que desobedecer aquele homem que os ajudara tanto, mas precisava saber como andava a situação daquele conflito. Arnold voltou aos beliches e usou seu lençol para cobrir uma parte do móvel em que dormia o homem. Precisava ligar a luz para ler os jornais e não seria nada bom que ele fosse despertado pela claridade. Com Alissa nem precisava se preocupar, já que ela tinha um sono mais pesado do que o de um urso em hibernação.

Preparativos concluídos, ligou a luz e rapidamente pegou os jornais. As edições não abrangiam uma sequência contínua de datas, mas apresentavam informações importantes dos acontecimentos mais recentes. “ALEMANHA PAGA CARO POR MASSACRE EM AMSTERDÔ, dizia uma manchete. “CHINA E CORÉIA DO NORTE ROMPEM COM ALIANÇA – O FIM DOS CONFLITOS NOS MARES AMARELO E DO JAPÃO”, dizia outra mais recente.

Como eu pensei, a crise político-financeira vai ser forte por aqui, Arnold suspirou enquanto alongava o pescoço. Como se já não bastasse a derrota na guerra, a culpa por esse crime terrível em Amsterda... Agora está mais do que claro quem está por trás disso... A União Soviética é antro de inescrupulosos de corações congelados... De alguma forma conseguiram pressionar o líder das forças armadas daqui para que fizesse aquela atrocidade... Afundaram até onde puderam nosso país. Meu pai e muitos outros não passaram de marionetes minúsculas dos soviéticos...

Não que a Alemanha jogasse limpo antes de se aliar à URSS... A questão é que, dessa vez, passo a suspeitar que eles, detiveram o controle de nossas ações. Pensando dessa forma, o detalhe de que a Alemanha cometeu um terrível crime de guerra para esconder outro para a fazer sentido e tudo começa a se encaixar integralmente. Talvez o maior dos erros que a Alemanha Ocidental pudesse cometer antes de essa guerra estourar fosse se aliar aos socialistas degenerados. Tudo isso por causa de petróleo.

No petróleo dos soviéticos ninguém pode mexer, mas quanto ao dos árabes, guerras e mais guerras são deflagradas pela incessante necessidade que as potências do mundo inteiro têm em estabelecer seu domínio sobre ele. Hipocrisia dos fortes que só defendem os fracos que lhes são de interesse. Bem, nós optamos por defender os árabes, mas para isso nos aliamos com os piores caras do mundo. Lógico que os interesses da URSS eram muito maiores do que a questão energética. Se aproveitaram desse problema para tentarem afetar os Estados Unidos. Se conseguissem destruir Israel, já era o domínio americano nas terras árabes. Se conseguissem afundar a Alemanha Ocidental – como conseguiram -, ficaria mais fácil tomá-la por completo depois...

UNIÃO SOVIÉTICA ESTABELECE NOVO ACORDO DE PAZ COM OS ESTADOS UNIDOS DOIS MESES APÓS SUA RENDIÇÃO”. O que esses caras planejavam, afinal? Não deve demorar para todo esse império vir abaixo. Como se não bastasse o falho socialismo por si só, ainda tem essa gestão de viés militar que só se mantém por meio de golpes.

Os militares daqui, ou melhor, os líderes militares daqui foram coagidos por algum forte motivo para trairem seu próprio país em prol dos interesses dos soviéticos. Estou certo que tanto a questão das prisões dos árabes – que sustento pelo suposto envolvimento de meu pai e pelo desaparecimento de, no mínimo, duas tropas árabes durante os últimos conflitos dessa guerra – quanto a queima de arquivo escrota feita a preço de inúmeras vidas inocentes em Amsterdã devem ter sido arquitetadas pelos soviéticos. As provas talvez nunca sejam encontradas, contudo. Eles são bons em apagar rastros.

A escolha por esta cidade – e também Harleem -, deve ter sido friamente calculada: pouca resistência militar devido ao posicionamento neutro na guerra, facilidade de rotas – tanto aéreas, para o bombardeio, quanto aquáticas e terrestres para a investida dos soldados -, pacificidade natural do povo, irrelevância econômica para os outros países – tanto inimigos quanto aliados. Tristes soviéticos. Triste justiça que não tem quem a consagre plenamente.

Arnold continuou folheando os jornais, imerso em seu raciocínio, até pouco mais das três da manhã. Torcia pelo fim definitivo da guerra, pela decadência da União Soviética e reestruturação de toda a Europa. A sonolência, no entanto, não o permitia pensar com clareza e precisão acerca de seu próprio futuro. Talvez só após visitar o túmulo de sua mãe, pudesse ter capacidade de traçar planos para os tempos que estavam por vir.

Eram 16h do dia 24 de julho quando finalmente chegaram ao cemitério em que Katerinne Belanger descansava em paz. Dierk procurou sozinho por mais de duas semanas o local. Deixara Arnold de fora por julgar desnecessária sua presença na procura.

A demora em Dierk encontrar o local em que fora enterrado o corpo da mãe das crianças se deveu ao fato de que apesar de seu nome constar na lista de mortos catalogados pelo governo, os registros de onde o corpo de Katerinne havia sido enterrado se contradiziam. Os poucos oficiais responsáveis pelo serviço ainda estavam atualizando a papelada, corrigindo os dados e adicionando informações adicionais de cada vítima. Só depois de muito procurar é que Dierk descobriu que a enterraram num cemitério a noroeste do centro da cidade.

Durante todo esse tempo Arnold procurara apenas descansar e relaxar junto à irmã. Tentava convencer-se de que o melhor era continuar sob a guarda daquele conhecido de seus pais, mesmo que ele fosse um pouco severo demais quanto aos assuntos que achava que não diziam respeito a crianças. Quando passava-lhe pela cabeça onde o corpo do pai podia estar, procurava se conformar com a esperança de encontrar o da mãe.

Os três andaram por alguns minutos por vários corredores rodeados por quarteirões repletos de cruzes. Para as crianças era como caminhar num bosque coberto por pequenos arbustos de pedra. Dentre todas aquelas humildes lápides brancas, poucas detinham inscrições de nomes. Muitas pessoas foram enterradas sem identificação. Apenas o número presente na lápide ligava o corpo enterrado às informações e fotos de seu cadáver quando encontrado que constavam no arquivo do cemitério. Tal sistema era o máximo que podia ser feito pelo governo para que os parentes pudessem encontrar seus familiares mortos na guerra. Apesar de toda a dificuldade, foi por meio dele que Dierk fora capaz de encontrar Katerinne.

Ao chegarem em frente da lápide de número 2338, com a inscrição Katerinne R. O. Belanger, as crianças se abaixaram e começaram a chorar. Dierk pensou em qualquer forma de consolá-los, mas por mais que pensasse, a única conclusão a que chegava era a de os deixar a sós com a lembrança da mãe. Virou o olhar para o horizonte – repleto de cruzes e grama – e caminhou por alguns daqueles quarteirões.

Abraçados, Arnold e Alissa permaneceram ali por quase uma hora. Dierk os chamou para comer alguma coisa no refeitório improvisado que haviam montado na entrada do cemitério. Os três andavam cabisbaixos, cada um por seus motivos e pensamentos, quando passaram por um velório que estava acontecendo na ala privada – onde pagava-se mais pelo túmulo, que era mais sofisticado e enfeitado. Muitas pessoas choravam, todas vestidas de preto, enquanto o padre entoava as orações finais àquele que partia. Talvez fosse alguma figura importante, algum famoso... Arnold não fazia ideia, nem se importava. Seguiram adiante, passando por entre algumas pessoas que se iam se juntando à aglomeração.

Quando chegaram a uma mesa vaga do refeitório, logo sentaram-se para descansar um pouco. Arnold e Dierk, no entanto, não descansaram nada. Onde estava Alissa? Procuraram por todo o lugar e não a acharam.

Revisitaram todo o caminho que fizeram, perguntaram a todos que encontravam, mas ninguém havia visto nada.

Alissa havia sumido.

Havia sumido para sempre da vida de Arnold.

 


Notas Finais


E assim a guerra vai acabando, deixando seus rastros nas vidas de inocentes. Tragando as esperanças de ingênuas crianças. Maculando de ódio corações outrora puros. As pegadas da violência demoram bastante para serem apagadas de um país. Mas, para Cetico e Arnold, elas jamais serão apagadas de suas memórias.
Muito obrigado! Até o próximo capítulo!


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