História Death Valley - Capítulo 18


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Categorias Once Upon a Time, Peter Pan, Robbie Kay
Personagens Capitão Killian "Gancho" Jones, David Nolan (Príncipe Encantado), Emma Swan, Hades, Henry Mills, Lacey (Belle), Mary Margaret Blanchard (Branca de Neve), Personagens Originais, Peter Pan, Regina Mills (Rainha Malvada), Sr. Gold (Rumplestiltskin), Zelena (Bruxa Má do Oeste)
Tags Alex Frost, Dark Paradise, Deidara Graham, Grace Graham, Hades, Once Upon A Time, Ouat, Peter Pan, Robbie Kay, Self-inserction, Submundo, Underworld
Exibições 131
Palavras 4.920
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Crossover, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Hentai, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Canibalismo, Estupro, Incesto, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Self Inserction, Sexo, Spoilers, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas da Autora


Amores, sempre agradeço mas preciso dizer novamente: muito obrigada a todos que acompanham e comentam s2 obrigada ao povo que tem favoritado a fic. Isso é muito inspirador pra mim.

AVISO IMPORTANTE: desde a primeira temporada, um tema que sempre trato nessa história é o amorXódio. A Dark Paradise era muito focada no que a Grace sentia.
Agora na segunda temporada, mergulhei de cabeça no emocional/psicológico do Peter Pan, como devem ter notado. Ele tá em fase de transição, significa que após a morte, ele aprendeu muita coisa. Isso sinceramente me surpreende um pouco, porque pra mim o Peter é bicho ruim que não tem solução, porém, na própria série OUAT a gente percebe na quinta temporada essa alteração de personalidade clara nele. Tanto por causa dos ternos, quanto pelo jeito de agir, ele tá bastante mudado em comparação ao que era quando vivo.
E essa transformação no personagem é importante, afinal ele não é raso. Ele tem sentimentos, sim, embora seja egoísta; e é bem interessante ver o quão profundo Peter é.
Por isso, mesmo que pareça "esquisito" ver o personagem se transformando, por favor compreendam que isso faz parte da evolução dele. Assim como Alex e Grace mudaram muito do início da Dark Paradise até aqui, o mesmo acontece com o Peter.

OUTRO AVISO IMPORTANTE: Teremos Zelena nesse capítulo. Sejam pacientes com os diálogos, pode parecer meio cansativo mas são importantes, em especial devido ao que está por vir.
Essa fase de rendição da vida da Zelena foi meio único e curto, por assim dizer, por um motivo: AMOR. Quem vê a série, conhece bem o temperamento difícil dessa bruxa maravilhosa s2 e deve saber como ela TAMBÉM MUDOU, ela também teve sua transição, tanto quanto a própria Regina teve. Então, aqui teremos a Zelena mãe e apaixonada, ainda iludida com uma chance de ser feliz ao lado de Hades. Algo que infelizmente se desfaz depois.

MAIS UM AVISO ESSE É O ÚLTIMO, JURO: Haverá um trecho em primeira pessoa, não se assustem!

Agora acabou lol Boa leitura pra todos

Capítulo 18 - Vilões Também Amam


Fanfic / Fanfiction Death Valley - Capítulo 18 - Vilões Também Amam

 

Os alarmes soavam dentro da mente de Peter. Alertas suspeitos e repetitivos que lhe diziam sempre o mesmo: Não brinque com o perigo, não confie só porque está precisando de ajuda. Habituado às aventuras arriscadas, não deu ouvido às próprias intuições. Havia se desmaterializado da frente do Granny's, levando a sequestrada Zelena Mills junto, além do filho Rumplestiltskin. Se materializou novamente no quarto de hotel que ele estava hospedado, à beira da floresta sombria da Storybrooke do Submundo.

Aquele era um ótimo lugar para servir como cárcere da bruxa, que continuava com o bracelete bloqueador de magia firme no pulso. Com o saco cobrindo a cabeça, ela não pôde ver onde estava, mas não tardou em reagir. Se debateu e agitou os braços furiosa, assim que Peter a soltou.

Foi a vez de Rumple tomar atitude. O Dark One elevou a mão em direção à mulher descontrolada e conjurou cordas que serpentearem do vazio, envolvendo todo o corpo dela. Essas cordas prenderam Zelena de forma que a paralisou inteira. Desequilibrou-se devido aos movimentos descomedidos, agora interrompidos, e veio a tombar sobre uma poltrona que por sorte estava às suas costas.

Caiu sentada, grunhindo tensa. Peter sorriu satisfeito, e arrancou o saco da cabeça dela. Encontrou a descabelada ruiva fuzilando pai e filho com seus oceânicos e absurdamente claros olhos azuis.

– Me soltem, covardes! - exclamou ela, espumando de ódio.

Rumple deu um suspiro entediado, e ignorou. Se limitou a espalhar um feitiço de proteção nas quatro paredes de madeira da cabana do hotel. Peter apoiou as mãos na cintura, inflando o peito. Não aguentava os trajes sociais, quais infelizmente já estava se acostumando, amaria arrancar tudo fora. Lembrou-se de ser paciente e aguentar. Ao menos, a missão do rapto ocorreu bem. Logo, logo aquele coração de Zelena se tornaria seu, e a passagem pra fora do Submundo estaria pronta. Ou ao menos pensava que seria assim.

– Hm, parece que não sou o único bom em sequestros aqui. - falou o flautista, elogiando indiretamente ao Rumple.

O homem forçou um sorrisinho de canto, e se dirigiu à porta.

– Cuide bem dela, papa. Vou ficar de olho em Hades. Mais tarde trago nosso jantar da madrugada. Alguma preferencia, Zelena? - indagou à ruiva, que lhe lançou um olhar atravessado. Rumple não se intimidou. - ... Espero que não seja vegetariana.

Se retirou, e fechou a porta. Deixou Peter e Zelena à sós. O garoto se acomodou à uma poltrona de frente a ela. A lareira estava acesa, e o cômodo à meia-luz imergia o malfeitor e a vítima num clima silencioso. Ele bocejou tranquilo, embora por dentro guardasse uma tempestade torrencial de insegurança; e ficou admirando o rosto de extremo mau-humor da outra.

Zelena era bonita, e talvez até atraísse Peter por algum motivo. Era interessante ter uma bruxa perversa e poderosa ficando vulnerável em seu cativeiro. Porém, era óbvio que ele não tentaria nada com ela. Há séculos não se envolvia com alguma mulher, exceto Grace. Ah, Grace. Ele esperava de verdade que a peste se saísse bem na captura do coração de Robin Hood. Mal via a hora de amanhecer, e partir na companhia de sua Dark One mais o amigo fiel, para bem longe daquela terra fétida que era o Submundo.

Devido à quietude maçante, resolveu puxar assunto.

– O bracelete incomoda? - perguntou ele, cruzando as pernas despojado. - Foi eu quem fiz. É uma cela de bloqueio. E pela sua cara... você já o usou antes. Estou certo?

Zelena não respondeu, e seu rosto ranzinza ficou ainda mais retorcido de raiva. Peter arqueou uma sobrancelha, reparando o explícito ódio emanando. Continuou a falar.

– É chato ficar num monólogo... Imagine que fiquei por volta de setenta anos sozinho em Neverland. Bem no início da minha imortalidade. Até eu perceber que precisava de companhia, alguém que permanecesse lá comigo, e não apenas por meio de sonhos. Foi daí que resolvi começar a atrair garotos da antiga vila medieval onde eu morava... Os Garotos Perdidos. Os transformei em meus companheiros, amigos, irmãos... Depois voltei a ficar solitário quando Rumple, meu próprio filho, tentou me destruir em Storybrooke. Mas graças à idiota da Grace, uma Verdadeira Crédula traumatizada, eu consegui sair dessa. Por isso te digo, não me ignore... odeio o silêncio e a solidão.

Zelena bufou, prosseguindo calada e amarrada.

– Eu gosto de conversar, e a noite vai longe. - Peter insistiu. - Por que não me fala o que te deprime?

– Você arruinou meu encontro com Hades! - ela por fim exclamou com sangue nos olhos, quase o assustando. - Pivete!

Peter deu uma risada curta, satisfeito em trazer a tona um conteúdo para o qual se distrair até o Sol raiar.

– O que foi? Fiz mal? - provocou.

– Fez péssimo! - ela respondeu, rangendo os dentes. Deu uma leve debatida, com os braços presos pra trás. - Ordinários, você e seu pai.

– Pai? - indagou o menino, arqueando as duas sobrancelhas dessa vez. - Rumple é meu filho.

Zelena voltou o rosto pra cima e soltou uma exagerada gargalhada.

– Como é possível?! - voltou a ficar séria. - Você é uma criança!

– Pareço criança? - indagou ele, sorrindo. - Na verdade tenho quatrocentos e vinte e seis anos.

– Ainda é impossível.

– Não tente entender.

A bruxa revirou os olhos, expressivamente enojada e cansada.

– Espero que Hades me resgate logo.

– Não conte com isso, tenho um Dark One de guarda.

– E daí? - ela desafiou, com cara blasé. - Hades é um deus! Ele pode fazer você e seu pai virarem pó!

– Filho! - Peter a corrigiu de novo. - Sinceramente, bruxa, não se iluda. Aos seus olhos Hades é supremo. Mas aos meus, ele não passa de um deus falido.

– Eu confio nele. - disse Zelena, com certo orgulho por ter alguém quem se importa com ela, finalmente. - Confio no amor dele. Sei que ele dará um jeito de me salvar.

Peter riu pelo nariz, negando com a cabeça com uma aura falsa de piedade.

– Na realidade não há muito o que ele possa fazer. Apenas nos obedecer.

– O que querem afinal?? - questionou ela explosiva. - Que ele rasgue aquela droga de contrato?

– Exato. O contrato que diz que o filho de Rumple o pertence.

– Ele pode fazer, sem problemas. - afirmou a ruiva, dando com os ombros.

– Você acha que ele chegará a tanto por você?

– Definitivamente sim.

– Ele ainda é um vilão.

– Vilões também amam.

– Mesmo?

– Duvida, Pan? Verá amanhã. Ele rasgará o contrato sem pestanejar.

– Acredita que o mal pode ser assim, revertido? - perguntou o antigo rei, com uma sombra de deboche, escondendo o relampejo de sincera curiosidade.

– Pode. Sou a prova viva disso. Fiz coisas... horríveis. Por inveja, por ódio, por desprezo, por humilhação, por rancor... Não é só você que tem séculos de idade, pirralho. Séculos de maldade.

– Hades te transformou?

– Não Hades. - ela disse, ficando levemente surpresa em a conversa ter seguido um rumo franco e de claro desabafo. - Minha filha me transformou. Minha pequena ervilhinha.

Peter franziu o cenho, ao notar um sorriso sonhador e pacífico naquele rosto cheio de sardas, que antes exprimia ódio. Bastou a mulher falar da filha, que desanuviou as más energias. E ali estava, um olhar que revelava amor, de fato. Uma ponta de inveja ardeu no coração estressado do menino. Como uma víbora daquelas era capaz de sentir e de expressar amor? Não era justo.

– Sou um caso perdido, então... - assumiu o flautista, soltando o ar preso dos pulmões num bufar tenso.

Nessa hora, o sorriso sereno de Zelena se abriu, mostrando todos os dentes brancos. Ela arregalou os olhos azuis.

– Oh! - fez, como quem descobre um segredo precioso. - O que temos aqui?! Um moleque traiçoeiro e metido a idiota querendo mudar??

– Não. - disse Peter, desvirtuando.

– Quer sim! Vejo isso em seus olhos! Está óbvio! Você se cansou de lutar, tá exausto de tentar fugir, de negar quem você realmente é! - afirmava, jogando na cara do demônio as verdades que ele precisava perceber. - Necessita de ajuda, não é?? É isso o que quer, viver, ser feliz, ser livre, recomeçar. Parar de ser o pivete otário que se acha o melhor!

– Nunca ouvi tanta merda em toda a minha vida. - desprezou Peter, incomodado. No fundo, sabia que ela estava certa. Se levantou da poltrona e se afastou, ficando de costas pra mulher aprisionada, e de frente para o fogo da lareira. Colocou as mãos no bolso da calça e observou ao estralar das chamas, pensativo.

Zelena não se deu por vencida. Continuou a falar.

– Não negue! Você disse que é mais perverso que eu. Não duvido. Mas é possível que sejamos iguais.

– Engano seu. - falou ele, ainda de costas. - Fui pai, duas vezes. Não me transformei como você. Pelo contrário, os abandonei e fugi.

– Você acha que não tem solução? Acha que é incapaz de amar?

– Existe amor em todas as formas. Mas sou incapaz de amar a algo acima de mim mesmo. E é por isso que eu nunca falho. - afirmou, e a olhou.

– Nunca falha?! - riu-se Zelena, enrugando a testa alta. - Se nunca tivesse falhado, não estaria aqui! Se até a Rainha Má, minha irmã Regina, mudou... Se até eu mudei... Até a minha mãe mudou. Então você também pode mudar.

Peter deu uma breve risada desistente. Retornou para perto da ruiva.

– Isso deve funcionar com as Mills, não com os Stiltskin. Veja o Rumple, por exemplo, ele parece amar a Belle. Mas continua com a mesma fera interior, sempre. Talvez seja uma maldição...

– Você tem uma garota. - concluiu a mulher, ignorando a relutância do outro. - Quem é ela?

– Não importa.

– Uma mulher é a sua última esperança. É a Verdadeira Crédula qual havia dito, a Grace? É ela que desperta em você a sua necessidade de salvar-se? Tem sorte, ao menos uma pessoa te atura.

Peter disfarçou, mexendo em alguns objetos sobre a estante, desconfortável de o assunto ir para a Dark One. Ruminava seus pensamentos contraditórios. Possuía uma imensidão de histórias arquivadas em sua biblioteca particular, seu cérebro abarrotado de experiências egoístas. Contudo, pensar em Grace pesava em seu emocional. Era como se ela fosse sua fraqueza, e ao mesmo tempo, sua força. E todas as suas vivências guardadas desapareciam.

– É... tenho a Grace. E a Grace tem algo, talvez uma corda no pescoço a pendendo pra morte o tempo todo. - a revelação arrastou-se para fora de seus lábios distraídos. - Ou talvez, seja uma âncora, que me faz associá-la ao mar. Parece calma, entende? Mas tem uma onda se formando lá no fundo. Uma onda que arrasta tudo o que vê pela frente. Não quero ser levado. Por isso somente a uso. Não sinto nada por ela.

– Pare de complicar! - censurou Zelena, em timbre rígido, feito uma mãe que dá bronca. - Percebe como você é imaturo??

– Sou uma criança, afinal. E na boa, sua insistência em me "salvar" é meio perturbadora. Sou o cara que te raptou, estou te pondo em risco, e você quer me persuadir ao amor?? - indagou perplexo, como se desse conta da peculiaridade da situação somente agora.

– Você é que queria conversar pra passar o tempo! - rebateu Zelena, recuperando a careta azeda de antes. - Já passei por várias provações, e estar aqui não me amedronta. Converter um vilão mirim pode resultar em minha liberdade.

– Sua lábia sentimental não vai te libertar.

Zelena pegou ar para continuar discutindo, contudo, foi interrompida ao ver a porta abrir. Era Rumple retornando. O homem entrou e fechou novamente, com uma bandeja em mãos. Na bandeja, haviam marmitas guardando comida. O cheiro delicioso de molho atraiu ao flautista, que sentiu o estômago roncar. A estranha conversa com a bruxa de Oz foi abandonada, e ele partiu para a mesa na companhia do filho, que os serviu.

A mulher sequestrada nada fez, impossibilitada de comer, foi obrigada a apenas assistir. Nenhum dos Stiltskin ofereceu uma parte do jantar à ela, que permaneceu faminta. Mr Gold se retirou ao terminar de jantar, para continuar de guarda do lado de fora. Quanto à Peter, não retornou ao diálogo com a mulher. Seu piloto automático ficou ligado em potência máxima até o amanhecer; o que sempre acontecia quando se perdia em pensamentos.

Se contentou em se manter sozinho em um canto na cabana, numa poltrona perto da janela, afastado de Zelena. Estava com as recomendações recentes frescas em sua memória, e as reconsiderava. Era possível que após tanto tempo perdido "cultivando" ao individualismo e egoísmo, conseguisse ser salvo por aquela que mais quis o destruir? A verdade é que Grace quis destruí-lo, sim. E ela conseguiu, com a ajuda e persuasão do maldito Frost. No entanto, a menina se dedicava arduamente para compensar os erros.

Não haviam dúvidas, ela era a salvação de Peter Pan. A chance de recomeço. A oportunidade de reviver, restaurar as peças quebradas. Se desse tudo certo, o demônio não falharia, agarraria à sorte lançada, e guardaria a esse amor sem desperdiça-lo como areia ao vento. E a ideia de ser feliz na companhia da Dark One fez o coração antigo se encher de esperanças. Um raríssimo e inesperado sentimento, que tornou a metamorfose completa.

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O sociopata baixou a cabeça e cobriu o rosto. O que havia feito? Salvou à Dark One, pondo-na no fundo do poço? Ele esperava que sim... e mesmo que ela viesse a odiá-lo um dia, ele sabia que fez isso pelo seu melhor.

Alex ficou por uns minutos restantes parado no lugar, com as árvores da colina lhe fazendo companhia.  Um último fio de pensamento coerente sobre sua existência predominava acima do emocional que ruía em desgraça. Se detestava por ter ferido Grace, mas ao mesmo tempo, se orgulhava por teoricamente tê-la salvado de um destino pior.

Esperava, do fundo de seu coração dividido, que suas atitudes traíras resultassem no melhor para a menina; e que assim ela regressasse a ser a Grace de antes, lúcida de seus atos.

Quando viu-se preparado para destruir Felix, se retirou da orla do bosque e voltou para a caverna que dá caminho às chamas do inferno. Ali estava o Garoto Perdido, sentado na mesma rocha, esperando pelo líder. Ao ver Peter, Felix sorriu aliviado, e se levantou.

– Pan... Finalmente. - disse, e olhou aos arredores, ficando sério de novo. - Cadê a Grace??

– Foi embora. - respondeu Alex, sem muita disposição para parecer convincente no seu papel.

– Embora? - questionou sem entender nada. - Mas achei que você fosse leva-la conosco. E... Onde tá a pessoa com o coração?

– Aqui, venha comigo. - chamou o atirador, e entrou na gruta quente.

As labaredas de fogo apareceram aos campos de visão dos meninos, há poucos metros de distância. Subiam e lavravam intensas dentro da caverna sombria, gritantes nas queixas das almas perdidas. Alex estava ansioso para empurrar Felix para seu destino fatal, e também para desfazer o disfarce. Seu sistema nervoso já estava falhando. Alcançou o limite, se não finalizasse logo aquela missão, teria um surto psicótico.

Chegou à beirada do abismo, e parou, o contemplando. No precipício, as brasas ardiam feito um mar em combustão.

– Não tem ninguém aqui, só fogo! - exclamou Felix, transtornado, aumentando a voz pra ser ouvida na barulheira do fogaréu. -  Que merda é essa, Pan?? Eu confiei em você! Mesmo após você me matar, eu tive certeza que não falharia na minha salvação! Tive certeza que reverteria seus erros! Que aconteceu??

Alex levantou a cabeça, respirou fundo, e fitou ao loiro. O rosto comprido do menino transpirava, reluzindo. Teve a impressão de que haviam lágrimas descendo dos olhos. As íris cinzentas brilhavam em profunda decepção.

– Você não confia mais em mim, Felix? -  pressionou ele.

– Você me matou porque me amava... - respondeu, apreensivo e cabisbaixo. -  E eu sinceramente, amo a você como um irmão, Pan. Eu sonho em voltar pra Neverland onde eu possa ser seu braço direito como fui por tanto tempo. Mas te olhando agora, sei lá. Em poucos minutos você mudou, não consigo mais confiar.  Não parece ser o chefe que eu conhecia antes.

Alex exibiu o sorriso pretencioso do inimigo, que saiu mais natural do que previa.

– Você tá certo. - assumiu, se aproximando. O segurou nos ombros, como Peter faria. - Eu não sou o Pan que você conhece. E se quer saber... Vai ser um prazer me livrar de você.

As mãos que estavam nos ombros de Felix, deslizaram para os colarinhos do manto escuro, onde o spree-killer segurou com firmeza. De imediato, o loiro esbugalhou os olhos. Seu melhor amigo, aquele a quem ele foi fiel por mais quatrocentos anos, estava o empurrando para o fogo!

– PAN?? - chamou, dando alguns passos pra trás. Alex o segurava e o persuadia a ir em direção ao abismo. - NÃO FAÇA ISSO!

Talvez Felix pudesse escapar. Ele era maior que Peter Pan, e não teria dificuldade em defender-se, empurrar o líder para se afastar e se ver livre de suas garras. Mas talvez... ele estivesse chocado demais para agir. Naqueles curtos segundos de tensão, recebia além do pavor de estar prestes a ir ao inferno. Recebia também o pavor de ser traído, pela segunda vez. E antes que tivesse a chance de fazer a última súplica, a sola das botas chegou ao final do precipício, e o corpo tombou.

Alex esticou o braço, pondo força; não desfez o contato visual, e impulsionou o despreparado Garoto Perdido ao sofrimento eterno. A gravidade fez o resto. As chamas o engoliram famintas, como se esperassem por aquela alma suja. Abraçaram ao menino que não teve tempo nem de gritar por socorro. As labaredas cresceram como se tivesse viva, dançantes e aterrorizantes, destruindo a matéria e consumindo o espírito, que perduraria para sempre em agonia.

O assassino dedicou o tempo posterior pra apreciar o fim de Felix. Não estava por inteiro triunfante na missão, ainda faltava destruir o pior e maior inimigo. E só então poderia sair do Submundo, livre para viver com Yumi. Quando as chamas abaixaram novamente, ele teve certeza que o Garoto Perdido havia desaparecido para o inferno merecido. Se retirou da caverna e recebeu a brisa da madrugada com agrado sobre a pele suada.

E com o maior alívio possível, puxou o cordão do pingente de transformação debaixo das roupas sociais, o arrancando. Sua aparência de Peter Pan se desfez como uma imagem ofuscada, desaparecendo e sendo trocada pela sua face e físico originais. Voltou  a ser o Alex de sempre, calça preta por dentro dos coturnos militares, blusa moletom com capuz, e os indecifráveis olhos cor de gelo.

Arfou com uma efluência inoportuna pesando no peito. Estava cansado, era essa a verdade, precisava se alimentar e dormir. O estresse constante acabava com suas energias. Contudo, tinha o que ser feito, e só descansaria por total após finalizar a tarefa que Hades ordenou.


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You got me sippin' on something
Você me fez experimentar algo
I can't compare to nothing
Que não posso comparar a nada
I've ever known, I'm hoping
Que já tive, e tenho esperança
That after this fever I'll survive
Que depois dessa febre eu sobreviverei
I know I'm acting a bit crazy
Sei que estou agindo feito louca
Strung out, a little bit hazy
Estou presa, tudo meio nebuloso
Hand over heart, I'm praying
Com a mão no coração, estou rezando
That I'm gonna make it out alive
Para sobreviver a isso tudo

 

Eu pensei que seria diferente. Por alguns minutos, alguns poucos minutos, eu acreditei. Peter me fez acreditar. Mas agora estou sozinha, de novo. Não deveria estar surpresa ou confusa. Eu deveria ter percebido, o conhecendo bem como conheço, que cedo ou tarde nossa boa maré se reverteria para a tempestade, e tudo seria arruinado. O homem por detrás do garoto possui um demônio interior que fala mais alto, e que o incita a ser cruel comigo, com todos, até consigo mesmo; esse demônio é maior e mais forte do que qualquer coisa que exista. E eu cansei de ficar nesse fogo cruzado.

Meu peito está dilacerado e estou entrando numa inercia em que nada faz sentido. Estar com Peter foi o inferno e o paraíso, e agora é somente... o vazio.

Eu fiz de tudo para ser feliz, eu fiz meu máximo para ter paz com ele. E ele continua sendo o sonho não correspondido. Uma canção que ninguém canta, o inalcançável. Ele é um mito que eu tenho que acreditar, mas eu não sei o que fazer.

E mesmo perdida no escuro, eu ainda sinto tanto amor... Amaldiçoada em minha imortalidade de Dark One, estou fadada a amar a um monstro para sempre.


You got me scattered in pieces
Você me partiu em pedaços
And every second's like torture
E cada segundo é uma tortura
Hell over trip, no more so
Esse inferno vai acabar
Finding a way to let go
Estou encontrando maneiras de te deixar para trás
No, I can't escape
Não, eu não tenho saída

 

As esperanças de Grace estavam destruídas. Ir para o Submundo tornou-se uma loucura inútil. Ter tentado suicídio, ter abandonado ao filho, e ter usado Alex para seus fins resultou em nada. Por que no final, Peter a humilhou, pela enésima vez, e a mandou embora. Se ao menos a garota soubesse que aquele não era Peter Pan... Se ao menos ela descobrisse que o verdadeiro Peter estava decidido a aceitar seu amor, então tudo seria diferente... Mas ela não teria como descobrir. Afundada em desilusão, chegava a conclusão que não havia o que ser feito.

Grace correu pelas ruas noturnas e cheias de névoas. As batidas de seu coração descompassavam-se em um ritmo digno de orquestra sinfônica. Tudo rodopiava em conjunto. Por que deveria seguir seu coração? Por que deveria seguir em frente? Por que deveria desistir? Qual era o caminho de casa? Como fugiria? Pra onde iria?


This is a modern fairytale
Esse é um conto de fadas moderno
No happy endings, no wind in our sails
Sem finais felizes, sem nenhum vento soprando em nossos barcos
But I can't imagine a life without
Mas não imagino minha vida
The breathless moments breaking me down
Sem momentos de tirar o fôlego acabando comigo

 

Quando percebeu, "acordando" de sua corrida a esmo, viu-se na avenida principal. As ruas parcialmente rachadas e os edifícios abandonados envolvidos por neblina vermelha a faziam pensar que estava presa num sonho angustiante e sem fim. Com o peito subindo e descendo de exaustão, andou em direção à biblioteca.

Entrou no local, e fechou a porta. Foi tomada pelo ambiente obscuro e silencioso. Rumou pelos corredores de livros para a área dos fundos, onde se instalavam as poltronas, onde sabia que reencontraria Robin Hood, o homem que ela quase matou. E lá estava ele, com a filha neném adormecida ao seu colo, coberta pelo mantinho cor de rosa.

Em passos lentos, Grace se aproximou. Só então notou que havia alguém fazendo companhia ao arqueiro. Era Regina Mills, a antiga Rainha Má. Assim que ouviram a aproximação, se viraram e a olharam tensos. De cara repararam a péssima situação da Dark One. Sua face estava inexpressiva, pálida como um fantasma perdido, de lábios entreabertos e levemente trêmulos com um amontoado de sofrimentos sufocados.

– Grace... você voltou. O que aconteceu? - perguntou Robin com a voz baixa. A jovem não reagiu, nem moveu um músculo. O homem esperou pela resposta, mas ela não veio.

Regina olhou rapidamente para o namorado, e depois olhou para Grace. Era evidente o quanto precisava de ajuda. Se adiantou, e a segurou nos ombros de forma que a conduziu para terem uma conversa a sós, deixando Robin pra trás. A garota se permitiu levar. Ser amparada no momento era indiferente, era como se nada nem ninguém pudesse resgatá-la. Mas não se opôs.

– Fique aqui, Grace. Vamos conversar. - falou Regina, a colocando sentada num sofá.

Grace guardava o pranto preso na garganta, no entanto não o expôs, ou desabaria. Se acomodou no estofado e olhou para Regina, que sentou-se ao seu lado.

– Tá tudo bem. - a mulher continuou a falar. - Independente do que tenha acontecido, estou aqui, seus amigos estão aqui também, no Submundo. Logo vamos embora, todos juntos, você vai ver.

– Prefeita... - murmurou Grace, se esforçando para não soltar suas lamúrias repentinas. Se lembrava de Regina sendo ranzinza e ácida, porém, no atual instante a prefeita de Storybrooke se mostrava diferente, receptiva e preocupada. - Me perdoa por tudo.

– O que fez para pedir perdão?

– Quase os traí. - confessou. - Não fui exatamente influenciada por Peter Pan, estava decidida a trai-los por vontade própria. Mas ele se foi. Meu Peter se foi, pra sempre, dessa vez.

Regina deu um sorriso compreensivo e passou a mão nos cabelos negros da Dark One, a confortando.

– Melhor assim. Você não precisa daquele gnomo orelhudo pra ser feliz. Ele é tóxico, Grace. E ele vai ter o que merece. Você é uma Dark One, tenha força. Tem algo mais a revelar?

– Como assim?

– Sei que está num momento difícil. Mas acontece que Pan é nosso inimigo, e ele acabou de sequestrar minha irmã Zelena. O que ele planeja?

Grace abaixou a cabeça, quase pondo para fora que Peter pretendia arrancar o coração de Zelena, para usá-lo. O suspiro que veio a seguir foi tão involuntário quanto seus pensamentos. Nunca esteve preparada para sentir a pressão de contestar as decisões de Peter, mesmo quando pretendia destruí-lo em Neverland. E agora, em hipótese alguma o entregaria.

– Na verdade... ele guardou segredo. Ele me disse que ia sequestrar Zelena com Rumple. Mas ele não me deu detalhes.

– Mesmo? - insistiu Regina, retorcendo o nariz em desagrado. Estava desconfiada, e não escondia isso. - Que seja... Você ainda tem muito o que aprender. Algumas pessoas irão te "amar" enquanto puderem te usar. A lealdade termina quando os benefícios acabam. Esse é o seu caso com Peter Pan. Um amor abusivo que tá longe de ser romance. Espero que compreenda quem são seus reais amigos agora, Grace. E espero que tenha consciência de que aquele perverso falhará.

Grace preferiu preservar-se calada. Respirava fundo e engolia em seco, forçando a parecer estável. Contudo, em seu interior, haviam apenas cacos quebrados. Apesar das palavras inflexíveis, Regina se levantou e apanhou um manto, para cobrir os ombros da Dark One. Depois, pegou um copo de água no bebedouro da biblioteca, e o entregou para ela beber.

– Beba a água e descanse. - aconselhou Regina. - Todos estão procurando por minha irmã, e eu vou ficar aqui com Robin cuidando da neném. Se o resgate ocorrer bem, amanhã partiremos para casa, pois Hades nos libertou com a condição de salvarmos Zelena. Você partirá conosco?

Grace assentiu em positivo. Queria agradecer ou até ser capaz de encarar os olhos castanhos da morena; mas nada disso fez. Somente bebeu da água, e se deitou ao sofá. A mulher pegou o copo vazio e se afastou, para deixá-la repousar quieta. Sozinha, bastou fechar os olhos que o pranto enterrado veio à tona.

Queimou na boca do estômago, impulsionando o corpo todo para o choro descontrolado e impetuoso, que a lançava num sofrimento corriqueiro, e ainda assim, doloroso; como se cada partida de seu coração fosse novo. Ilusões, mentiras, traições... Como ele conseguia ser tão cruel? Ela merecia isso?

Grace continuaria amando Peter, com ou sem ele. Continuaria de qualquer jeito, de qualquer forma, por qualquer motivo. O amaria eternamente.


There's a million reasons why I should give you up
Há um milhão de motivos para que eu te abandone
But the heart wants what it wants
Mas o coração quer o que ele quer
The heart wants what it wants
O coração quer o que ele quer

 

O pranto perdurou por horas. A madrugada continuava lenta, se arrastando. O choro parou quando suas forças terminaram, e a menina decaiu a um sono pesado. De pálpebras inchadas, adormeceu sem perceber, quando ele chegou. Alex. O causador de sua dor. O menino entrou na biblioteca,  sabia que Grace estaria ali. Encontrou Regina e Robin Hood adormecidos num divã junto da nenénzinha, estavam se escondendo enquanto os demais heróis buscavam por Zelena, sequestrada por Peter.

Sem incomodá-los, o atirador procurou pela Dark One, e a encontrou deitada num sofá distante. Dormia feito um anjo caído. Inevitavelmente, Alex sorriu. Seus sonhos voltavam a importunar, sonhos que remetiam a momentos pacíficos e raros junto dela, enjaulados em algum lugar de sua consciência. Se aproximou, e se ajoelhou para olhá-la de perto.

Afagou os cabelos lisos, levantou a franja curta, e adiantou-se com os lábios finos na testa de Grace, onde depositou um beijo.

– Me perdoa... - sussurrou, engasgado de culpa.

Não esperava por isso, mas seu sussurro despertou Grace. Nessa hora, os olhos dela se abriram. As íris brancas surgiram com as pupilas em fenda, o globo ocular avermelhado do choro, e os cílios com rímel escorrido.  Confusa, viu o vestígio do que deveriam ser lágrimas marejando as pálpebras inferiores do atirador. Algo que ele imediatamente disfarçou, ao piscar e restabelecer o habitual semblante frio.

Um leve sorriso triste repousou nos lábios dela, e a sensação de ser protegida surgiu como um bote salva vidas. Alex sabia que não eram mais um casal, ou talvez nunca tivessem chegado perto de ser. Contudo, seja lá qual fosse a relação que mantinha com Grace, o rapaz pianista tinha uma certeza: que faria de tudo para mantê-la longe de qualquer demônio, e  sairia do Submundo na companhia dela.

 

 


Notas Finais


Música do capítulo: The Heart Wants What It Wants ~ Selena Gomez
https://www.youtube.com/watch?v=pacAjqluUH0
Obrigada à leitora, amiga e rainha Dii que me apresentou essa música linda.


O QUE ALEX TEM PELA GRACE, AMOR O NOME
ainda tem gente que torce por eles?? shippers Gralex? se sim, digam. I need to know!
comentem s2


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